David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Ideias’ tag

O preconceito e o preconceituoso

without comments

Descartes dizia que um dos maiores desafios do ser humano é se livrar dos preconceitos com o qual cresce e é educado, até porque o preconceito, como um juízo mecânico aprendido, só deixa de ser desconhecido a partir do momento que alguém reconhece a sua existência. Muitas pessoas que são preconceituosas, mesmo crentes de que não são, recobrem o preconceito com uma couraça de tradição, normalização e demérita transigência – pretextos de todos os tipos para justificar suas ignorâncias, vaidades, veleidades e iniquidades.

Um sujeito preconceituoso jamais dirá que é preconceituoso se a ele o preconceito não é preconceito. Ele nega não apenas que seja preconceituoso, mas a própria essência e existência do preconceito. Assim como rejeita a plena moralidade para reduzi-la à meia moralidade, ou chamada moralidade de conveniência, ou mesmo imoralidade. Nisso subsiste algo veramente morbígero, que é naturalização do que não deveria ser naturalizado.

E assim, incorre-se em prejuízos de montas gerais, consequências mais destrutivas na coletividade do que na individualidade, porque o preconceito é tão deletério que sobrevive à morte e se multiplica na celeridade do desconhecimento, na extensão de seus tentáculos, na ignorância e na ausência de valores humanos, assim ganhando vozes tão altas que muitas vezes nem toda a boa e justa informação possível é capaz de corrigir isso. Isto porque até mesmo a assimilação do conhecimento em direção oposta ao preconceito exige uma sensível predisposição. E a verdade é que quando interesses mesquinhos são supervalorizados, às vezes resta-nos, não por opção, mas sim por imposição, as trevas.

 

 

 

 

Written by David Arioch

October 8th, 2018 at 2:14 am

Opiniões como verdades inquestionáveis

without comments

Arte: A Difference Of Opinion, de B. Werner

Acho sempre problemático tomar as próprias opiniões como verdades inquestionáveis. Sempre preferi ver opiniões como referências. A partir do momento que você acredita que a sua opinião é uma verdade irrefutável, isso significa que você já não está aberto ao diálogo. Opiniões só evoluem quando se transmutam.

Written by David Arioch

September 2nd, 2018 at 2:23 pm

Posted in Reflexões

Tagged with , ,

Sobre respeito, tolerância e diálogo

without comments

Arte: Hayley Blanck

Há pessoas que estão sempre buscando salvadores, heróis, gurus ou pessoas que, numa idealização romanesca, concordem com elas em tudo, ou as representem em tudo. Mas ao sinal do primeiro defeito apresentado pelo objeto de reverência, surge uma exasperação por vezes incontrolável fundamentada em um excesso de expectativas que desconsidera a complexidade humana, a sujeição às contrariedades e as falhas naturalmente possíveis. Isso na minha opinião pode ser também um sintoma de uma carência superlativa.

Fala-se muito em tolerância, respeito ao outro, mas muitas vezes até mesmo quem prega esse discurso acaba por fomentar o sectarismo, externar intolerância, intransigência, incapacidade em lidar com opiniões que estão em conflito com a sua ou divergem da sua. Percebo muito isso no cotidiano, felizmente não muito fora da internet, mais frequentemente nas mídias sociais, e inclusive entre pessoas bem-intencionadas.

Há muitos casos em que não se trata apenas de não respeitar a opinião do outro, mas até mesmo odiar ou desprezar uma pessoa que jamais conheceu de fato. Chamar de defeito o fato de alguém não concordar com você não é exatamente defeito, porque a qualificação disso como defeito é uma constatação sua, pessoal, individual, não do outro. Afinal, qual é a baliza que define algo como defeito? Neste caso, a sua concepção de algo, o seu termômetro, e mesmo um ideal fementido e particular de perfeição, mestria, impecabilidade. E se sua defesa de algo é fundamentalmente tão justa, há justiça em atacar o outro?

Por isso parece um desafio na atualidade se abrir para o diálogo sem atacar ou ofender, sem se armar sob as intercessões passionais dos pré-conceitos e preconceitos. As pessoas vivem armadas e pouco racionalizam isso. Se calar para ouvir pode ser um desafio quando as palavras não nos agradam, mas é recompensador porque é a maior prova de que a essência humana não abandonou o ser. Quem busca semelhanças o tempo todo, independente do quão boa seja a intenção, corre o risco de se inclinar sobre si mesmo e não perceber que o outro na realidade é apenas o seu próprio reflexo imutável e pulverizado, como um ouroboros distorcido. Logo sou da opinião de que o amadurecimento demanda diferenças.

Written by David Arioch

September 2nd, 2018 at 2:20 pm

Isso também é viver

without comments

Estou aqui neste momento e é isso que existe. Há uma posse relativa do meu estado de ser, da minha consciência, das minhas emoções em um nível consoante. Claro que não completamente, já que não acredito em estado pleno de controle. Qualifico isso como natural, já que seres humanos não são máquinas e dependem de várias formas de nutrição que não dizem respeito à comida.

Realmente creio que isso torna a existência intrigante. Estou aqui hoje, posso não estar amanhã, e isso é parte inerente da vida. O momento, a iminência da parte, do todo ou do nada. Acredito que viver nada mais é do que construir instantes que podem sobreviver ou desfalecer – do cotidiano, da memória ou dos dois. O eterno efêmero, pode-se dizer. Dão lugar a outros instantes, ou não.

Você fala com alguém agora e pode ser que não se falem mais a partir de um período indeterminado. E se isso transcorre com naturalidade, como os enlaces e os desenlaces das relações ao longo da vida, está tudo bem. Isso não implica necessariamente em prejuízo, desrespeito ou desconsideração, até porque essa perspectiva seria apenas polarização.

Não nego que construímos, desconstruímos e destruímos coisas o tempo todo. Isso pode ser positivo, pode não ser. Para o bem ou para o mal, isso também é viver.

 

 

Written by David Arioch

August 30th, 2018 at 1:27 am

Yerpakut!

without comments

Arte: Hussain Guevara

Um jovem chegou a Gjirodrecsande. Ao primeiro homem que o recebeu, ele apenas disse: Yerpakut! O homem deu-lhe um soco, ele se levantou e continuou andando. Ao segundo, repetiu a mesma coisa, mas em tom mais enérgico – recebeu dois socos. O terceiro não demorou. Ouviu somente “Yerpa…” e acertou-lhe uma cotovelada no peito, um soco direto no estômago e uma joelhada nas costas.

Caiu agonizando. Observou a barriga arroxeada. Sem vacilar, levantou-se. Tentando não mancar, percorreu cerca de 200 metros e acenou para uma mulher. Ela retribuiu o aceno cordial e ele balbuciou com a boca sangrando: Yerpakut…” A mulher gritou, uma multidão rodeou o rapaz e o espancou. Ele já não tinha forças para ficar em pé.

Rastejou por alguns metros, e um velho rodeado de gatos se aproximou e o abraçou. O rapaz sorriu e, dolorido, dormiu. Pela manhã, mal conseguia falar. O provecto deu-lhe uma caneta e ele escreveu:

Samo ti? [Só você?]

Da, nažalost, moj sin [Sim, infelizmente, meu filho] – respondeu o velho – meneando a cabeça constrangido.

A segurança da ignorância rejeitava e quebrantava tudo que aveludava.

Yerpakut?

Sigurno, Yerpakut! [Certamente, abrace o novo!] – disse o provecto.

 

Written by David Arioch

August 19th, 2018 at 1:25 pm

Sempre encontro pessoas reclamando da vida e do mundo

without comments

Arte: Pawel Kuczynski

Sempre encontro pessoas reclamando da vida e do mundo, e às vezes algumas se incomodam quando pergunto respeitosamente se elas estão fazendo algo para contribuir com alguma mudança, se elas não concordam com o status quo. Normalmente há uma corrente transferência de culpa a terceiros, como se isso garantisse uma isenção de manifestação prática. Ou pior do que isso, há a defesa consciente ou inconsciente do fatalismo. E isso me leva à conclusão de que a crítica muitas vezes existe somente pela crítica, arredada de seu sentido utilitário, porque a vontade é menor do que o conformismo.

Acredito que o ideal de muitas pessoas não é um mundo melhor para todos, mas um mundo melhor para elas e talvez para aqueles que elas julguem merecedores desse mundo ideal. Vivemos em um mundo onde desde muito cedo as pessoas são condicionadas a buscarem um futuro digno para elas. Mas muitas ignoram que um futuro digno para elas pode depender essencialmente da busca por um futuro melhor para os outros também.

A verticalização em detrimento da horizontalização é comumente ignorada por um viés se não individualista, talvez espuriamente coletivista. Isso é apenas uma simplista inferência sobre a desconsideração em relação à importância de um clamor mais do que pontual da alomorfia ou mudança estrutural em uma sociedade.

Acho que se reunir com amigos em algum lugar para fazer críticas às coisas pode ser interessante, mas se não passa disso, se não há ações nem mesmo partindo da nossa recusa em aceitar algo que consideramos, de fato, inadmissível, e sobre o qual temos poder de reação, esbarramos no clássico tartufismo, na demagogia.

Quando saio às ruas, sempre vejo homens reunidos em algum lugar fazendo críticas – em bares, cafés, sob alguma marquise. Passam horas, dias, meses, anos naqueles lugares. Creio que reclamam apenas para passar o tempo, para ser ouvido (mesmo que minutos depois ninguém se recorde do que ouviu), porque as críticas nunca mudam, e se não mudam é porque, esperando uma mudança que não parta deles, seguem imersos na inação.

Written by David Arioch

August 5th, 2018 at 1:55 pm

Quando eu era criança…

without comments

Quando eu era criança, eu achava que os adultos tinham todas as respostas. Quanto mais velho, mais respostas. “Deve ser bom ser adulto, saber tantas coisas. Ter tanta confiança, segurança. Adultos são incríveis. Estão lá em cima e eu aqui embaixo, querendo crescer como feijão no algodão. Foram como nós, mas agora estão em um estágio bem avançado”, eu pensava.

Havia dois universos – o meu e o dos adultos. Como criança, eu só podia deambular por esse universo ocasionalmente, quando permitiam. Eu não queria exatamente ser adulto – tinha apenas curiosidade precoce sobre esse mundo ignoto. Puerilidade, penso hoje.

Não, você cresce e o que cresce com você são as dúvidas –
meu caso. Volatilidade, o conhecimento perpassa por isso comecei a crer. Quando conhecia algum ser alheio a esse universo eu dizia que ele, manietado às suas pequenas certezas, talvez fosse tão abençoado quanto amaldiçoado pela ignorância. Mas, em muitos casos, a maldição pode ser invisível. Que assim seja então.

Hoje, sem melindre, prefiro me definir apenas como um colecionador de dúvidas, pirronismo, ambiguidades, suspicácias. Uma vida ingerindo, digerindo e regurgitando palavras e ideias que podem renascer ou simplesmente desvanecer. Talvez seja isso que dê sentido à minha vida, porque sempre suspeito que imerso nas minhas asseverações e verdades ineludíveis talvez eu deixasse de deambular para escorar, e escorar me parece tão chato que sinto sono só de pensar – mas sem a possibilidade de sonhar.

 

Written by David Arioch

July 18th, 2018 at 12:25 am

Não reconheço necessidade de ser agressivo ou ofensivo

without comments

Francamente não reconheço necessidade de ser agressivo ou ofensivo com qualquer pessoa que tenha uma opinião ou posicionamento diferente do meu. Mesmo quando me provocam ou me desrespeitam, não vejo sentido em retribuir da mesma forma. Não sou um cara iluminado por causa disso. Encaro apenas como uma questão simplista de ponderação. O que eu ganharia devolvendo o que me oferecem de negativo? Nada. Nem eu nem o outro. Não existe vitória nesse tipo de situação, mesmo quando alguém comemora.

Às vezes, vejo pessoas se exaltando por pouco, mesmo quando tentam transmitir uma mensagem positiva. Quem sabe, nem se deem conta de que a mensagem pode ser aparentemente boa, mas se o veículo estiver comprometido, talvez ela não chegue de forma satisfatória ao seu destino – ou nem chegue. Sou da opinião de que se temos uma boa oportunidade, é importante nos abrirmos para uma discussão, não nos fecharmos. Não acredito que exista tal coisa como “o outro não estar à altura” para uma conversa. De alguma forma, todo mundo tem algo a dizer se o respeito prevalecer.

Admito que encaro com estranheza esse costume de tentar reduzir a importância “do outro” simplesmente porque não concordamos em uma discussão. O mundo não é uniforme, homogêneo, unímodo. Afinal, reflete a própria diversidade de seus habitantes. Acho triste o fato de que, muitas vezes, nesse exercício de não ouvir “o outro”, é como se estivéssemos diante de um espelho – em que queremos enxergar apenas nós mesmos.

Isso me traz lembranças da minha infância, quando brincávamos em uma gangorra no quintal de casa – e o nome dela era Discussão, porque um tinha o direito de falar enquanto estava no alto – e o outro de silenciar. E era justamente o silencioso que elevava o interlocutor da vez, para entender que discutir não significa diminuir.

 

 





Written by David Arioch

July 3rd, 2018 at 11:26 pm

Sou tímido

without comments

Sou tímido e reservado. Sou um cara realmente introspectivo. Inclusive no decorrer da minha vida muitas vezes encontrei pessoas que disseram: “Aquele cara é metido, orgulhoso” – ou algo do tipo. Então entendi que isso acontecia por eu ser basicamente tímido, reservado, introspectivo.

Não tenho problema em falar em público, para uma multidão, que seja, nem em expor ou defender minhas opiniões. Quando me convidam para discorrer sobre algo, sempre aceito. Mas tem coisas a meu respeito, sobre quem eu sou, que realmente não partilho abertamente com muitas pessoas, a não ser por meio dos meus textos. Esse é o tipo de ser humano que sou.

Ser tímido pode ser visto como um defeito por muita gente – talvez. Mas pode não ser também. Depende da releitura que você faz e em que você transforma essa timidez. Desde pequeno observo muito mais do que falo. Acredito que inclusive é por isso que escrevo.

Também não costumo interagir tanto em mídias sociais, e simplesmente porque em muitos casos preciso decidir entre produzir ou conversar. Acho que o tempo é sempre mais curto do que eu gostaria. Honestamente, se me falam para escolher uma das duas coisas, sempre opto pela primeira. Sou um cara estranho, não nego e não reprovo, mas também vejo isso como parte das escolhas que fazemos compatíveis com os nossos objetivos e ideais.





Written by David Arioch

June 24th, 2018 at 6:06 pm

Breve reflexão sobre a depressão

without comments

Arte: Joy Energizer

Se tenho ou já tive depressão, isso não faz de mim uma referência em depressão, mas apenas alguém que talvez tenha condições de compartilhar suas experiências e impressões do assunto – ou seja, talvez permitir uma compreensão diferenciada, um algo mais, nem completo nem incompleto. Não creio que isso signifique que eu esteja autorizado a falar em nome de outras pessoas que estão vivendo essa realidade, principalmente se isso for feito de forma pétrea. Afinal, os níveis de depressão e suas motivações podem ser visceralmente diversos.

Quando falo de alguém em determinada situação que conjecturo análoga ao que vivi, considero semelhança não equivalência, porque a minha individualidade, as minhas experiências, se traduzem em especificidade, em recortes pessoais. E recortes são mais subjetivos do que objetivos, assim como seu impacto, mesmo que eu tente fazer parecer o contrário.

A minha experiência não pode ser uma baliza para simplificar e julgar a experiência do outro, mas talvez uma possibilidade para criar uma ponte se não de entendimento, pelo menos de consideração à individualidade, porque, na minha concepção, isso é essencialmente uma manifestação de respeito. Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida.

Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A dor de alguém não pode ser medida, qualificada como maior ou menor do que a de ninguém, é simplesmente a sua dor.” Isso basicamente resume o que penso em relação à individualidade do sofrer. Creio que quando damos nomes às coisas, não raramente temos uma tendência a apoucar o seu impacto pessoal, e isso pode ser problemático, porque embora duas pessoas vivam uma chamada “mesma realidade”, por exemplo, isso não significa que o peso seja equivalente.

 





 

Written by David Arioch

June 12th, 2018 at 11:06 pm