David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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16 livros disponíveis gratuitamente no Le Livros para repensarmos nossas relações com os animais

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Como usuário de Kindle, frequentemente navego por livrarias e outros sites em busca de alguma novidade literária ou de algo relevante se tratando de livros digitais; até pela comodidade em ler principalmente quando estou fora de casa. Foi em uma dessas buscas que tive a ideia de dedicar um tempinho a reunir em um texto 16 livros disponíveis gratuitamente no site Le Livros. São obras que nos levam a refletir sobre as nossas relações com os animais não humanos. Há narrativas ficcionais e obras de caráter filosófico, jornalístico e científico de autores brasileiros e estrangeiros. Em menor ou maior proporção, todos têm algo a acrescentar à discussão e à percepção sobre os direitos animais.

“Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer

Jonathan Safran Foer discorre sobre o mundo da criação intensiva de aves, porcos e bois, assim como a pesca em larga escala e suas implicações. Após três anos de pesquisas, o resultado é um panorama revelador que mostra que o preço relativamente acessível dos produtos de origem animal só foi possível por causa da intensa violência e do tratamento cruel que dispensamos aos animais no regime industrial.

“De Gado a Homens”, de Ana Paula Maia

Edgar Wilson é um ex-carvoeiro que trabalha em um matadouro de gado em que a carne é destinada à produção de hambúrgueres que nunca experimentou. Exercendo com perícia a função de atordoador, o responsável pelo abate se vê, junto de seu chefe e de outros funcionários, surpreso diante da morte inesperada de animais e dos questionamentos despertados por tais eventos, até então considerados impossíveis.

“A Hora dos Ruminantes”, de José J. Veiga

Conta a história da pequena cidade de Manarairema, que é tomada por cães, que chegam às dúzias no vilarejo, causando uma inversão de papéis. Enquanto os moradores ficam acuados em suas casas, os animais passeiam livremente pela cidade. E, por último, a chegada de centenas de bois completa o quadro alegórico do romance.

 “Eles Sempre Estarão ao Seu Lado”, de Teresa J. Rhyne

O que levaria uma advogada amante de queijos e carnes a se tornar vegana? A reflexão despertada pelo amor por seu companheiro canino. Teresa Rhyne e Seamus, o beagle, sobreviveram ao câncer uma vez, então, quando Seamus desenvolve outro câncer, Teresa embarca em uma intensa jornada de mudanças. Quando ela se depara com outros dois cachorros que precisam de ajuda, incluindo um que foi resgatado de testes com animais, virar as costas parece impossível diante de toda a crueldade que ela descobre.

“Canto de Muro”, de Luís da Câmara Cascudo

O livro pode ser definido como um deslavado namoro com a natureza e reverência pelas espécies animais menos prestigiadas pelo bicho humano: ratos, cobras, escorpiões, morcegos, aranhas, baratas “profissionalmente famintas”, formigas, besouros, o grilo “solitário e tenor”, o sapo “orgulhoso, atrevido e covarde na classe musical dos barítonos”, as lagartixas, muito educadas, balançando “as cabecinhas triangulares concordando com tudo”, todo o povinho miúdo que vive nos quintais das velhas casas, nos cantos de muro, entre trepadeiras, tijolos quebrados, e um tanque, no qual vão se abeberar os bem-te-vis, os xexéus, as lavadeiras de casaca preta.

“Caninos Brancos”, de Jack London

Parte lobo, parte cão, Caninos Brancos é vendido por um índio ao perverso Beleza Smith. Sofrendo mil tormentos, o animal aprende que para sobreviver é preciso adaptar-se sempre e sempre. Nesta aventura clássica, Jack London mais uma vez traça um empolgante paralelo entre bicho e homem, natureza e civilização.

“Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee

A consagrada romancista australiana Elizabeth Costello, personagem criada por J. M. Coetzee, já havia protagonizado “A Vida dos Animais”, livro em que profere duas conferências sobre a crueldade com que são tratados os animais não humanos. Em “Elizabeth Costello”, ela vive um novo conflito e o assunto volta a ser rediscutido em um capítulo.

“Desonra”, de J.M. Coetzee

Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura de J.M. Coetzee começou modestamente com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, ainda mais quando o protagonista decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

“A Mulher que Matou os Peixes”, de Clarice Lispector

“A mulher que matou os peixes infelizmente sou eu”, afirma Clarice Lispector confessando o “crime” que cometeu sem querer. E para explicar como tudo aconteceu, ela escreveu uma história de compreensão e afeto para com pessoas e bichos. Clarice conta sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa. Os que vieram sem ser convidados e foram ficando, e os que ela escolheu para criar, e que foram muitos: uma lagartixa que comia os mosquitos e mantinha limpa a sua casa, cachorros brincalhões, uma gata curiosa, um miquinho esperto, vários coelhos…

 “O Grande Ivan”, de Katherine Applegate

Ivan é um gorila que há 27 anos vive com outros animais em um cativeiro em um shopping. Impedido de sair de um espaço reduzido, as suas únicas distrações são uma TV velha, uma piscina suja e um balanço de pneu.

“A Evolução de Bruno Littlemore”, de Benjamin Heale

Bruno Littlemore é um chimpanzé nascido no zoológico de Chicago, e logo transportado a um laboratório, onde fica sob os cuidados da primatóloga Lydia Littlemore. Como nasceu distante da natureza, o animal que tem uma inteligência muito acima da média não sabe como lidar com seus instintos mais primitivos.

 “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, de Mark Haddon

Christopher John Francis Boone gosta de animais, mas não entende nada de relações humanas. Um dia, christopher encontra Wellington, o cachorro da vizinha morto no jardim. É acusado de assassinato e preso. Depois de uma noite na cadeia, decide descobrir quem matou o animal. Então escreve um livro relatando suas investigações.

“Zoo”, de James Petterson

Uma misteriosa doença começa a se espalhar pelo mundo. Inexplicavelmente, animais passam a caçar humanos e a matá-los de forma brutal. A princípio, parece ser algo que se dissemina apenas entre as criaturas selvagens, mas logo os bichos de estimação também mostram as suas garras e as vítimas se multiplicam.

“A Criação”, de Edward O. Wilson

“A Criação” é um apelo para que deixemos o embate entre religião e ciência de lado para podermos salvar a vida no planeta, que nunca esteve tão ameaçado. Valendo- se de suas experiências como um dos biólogos mais destacados no cenário mundial, Edward O. Wilson prevê que, até o final do século, pelo menos a metade das espécies de plantas e animais da Terra poderá ter desaparecido, ou estará a caminho da extinção precoce.

“O Ano do Dilúvio”, de Margaret Atwood

Pensamentos uniformes, comportamentos programados, regimes de exceção, controle social, experiências genéticas e a luta por uma sobrevivência cada vez mais em risco pelo desrespeito à natureza compõem “O ano do dilúvio”, romance pós-apocalíptico da escritora canadense vegetariana Margaret Atwood.

“Os Elementos da Filosofia Moral”, de James Rachels

Abordando os temas centrais da filosofia moral de forma clara e despretensiosa, o autor guia o leitor pelos labirintos fascinantes de problemas, teorias e argumentos relacionados com o modo como devemos viver a vida. Um dos aspectos mais destacáveis da obra é a integração de diversos problemas de ética aplicada, como a eutanásia e os direitos animais.

Mary Midgley: “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”

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Segundo a filósofa britânica, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais

Mary declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos (Foto: The Guardian)

Mary Midgley é uma filósofa moral britânica que durante muito tempo lecionou na Universidade de Newscastle, na Inglaterra. Ela é mais conhecida por seu trabalho no campo da ética e dos direitos animais. Em 1978, aos 59 anos, ela lançou o livro “Beast and Man”, em que defende que os seres humanos são mais parecidos com os animais do que muitos filósofos e cientistas sociais sempre julgaram; isto porque sempre se preocuparam mais com as nossas diferenças em relação às outras espécies do que as nossas semelhanças.

Na obra, ela declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos. A obra foi o primeiro manifesto de Midgley contra o reducionismo, o determinismo, o behaviorismo e o relativismo que ela considera limitantes.

Em “Animals and Why They Matter”, outro de seus mais famosos livros, publicado em 1983, Mary analisa como a divisão e a oposição entre razão e emoção influenciou nossas ideias morais e políticas; e como isso fez com que no decorrer do tempo ignorássemos a importância dos animais não humanos.

Ao longo de sua carreira, ela publicou mais de 15 livros. Uma das suas obras mais recentes é “Are you an illusion?”, lançada em 2014. O livro é uma reação à obra “The Astonishing Hypothesis”, do biólogo Francis Crick, que reduz os conceitos de livre arbítrio e identidade pessoal a uma reação das células nervosas. Migdley rebateu essa tese considerando que pensamentos e memórias são parte da realidade de animais humanos e não humanos, e que precisam ser estudados como tais, assim exigindo diferentes métodos analíticos que não cabem dentro de uma perspectiva reducionista e determinista.

A identificação de Mary Midgley com os direitos animais começou no final dos anos 1950, quando ela conheceu o trabalho do zoólogo e ornitólogo Konrad Lorenz e da bióloga Jane Goodall. Em 1985, o seu ensaio “Persons and Non-Persons” foi publicado no livro “In Defense of Animals”, páginas 52-62, do filósofo australiano Peter Singer. No ensaio, ela apresenta argumentos que devemos considerar em contrariedade à objetificação animal.

Em 1999 e em 2003, o escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, citou Mary Midgley e Tom Regan como referência em direitos animais nos livros “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello”. O trabalho de Mary é bastante enfático no que diz respeito ao que os filósofos podem aprender especialmente com os animais não humanos, ignorados por importantes pensadores que ajudaram a fundamentar e a moldar o antropocentrismo e o especismo.

Em 27 de fevereiro de 2013, aos 93 anos, Mary Midgley concedeu uma entrevista a Simon Jenkins, do The Guardian. Ela o recebeu em sua casa em Newcastle, e na ocasião disse que quando se trata de falar sobre as diferenças entre pessoas e animais, na verdade, essa diferença não é tão grande quanto consideramos. “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”, enfatizou.

Ela explicou a Jenkins que muitos dos problemas que enfrentamos hoje em relação à negação dos direitos dos animais à vida no contexto da ciência, por exemplo, está relacionado com o fato de que muitos cientistas não têm um senso de filosofia ou história.

“O culto à ciência agora é amplamente praticado. Quando comecei a olhar a maneira como as pessoas falam sobre a ciência, percebi que existe essa noção grotescamente exagerada do que é e o que faz. Foi quando me interessei pelo comportamento animal, no final da guerra. Até então, não acho que pensei sobre ciência como uma espécie de campo rival do pensamento, mas uma vez que você começa…”, revelou.

Segundo Mary, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais. Ela crê que se começarmos a reduzir tudo ao comportamento das células, estaremos reduzindo tudo ao determinismo, o que é um grande equívoco sob a perspectiva da filosofia moral.

Saiba Mais

Mary Midgley, que hoje tem 98 anos, nasceu em Londres em 13 de setembro de 1919.

Referência

Mary Midgley





Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores?

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Elizabeth Costello: “Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados”

Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa (Aristóteles percebeu isso claramente).

Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente faz algumas centenas de anos, quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita.

Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer o que quisermos com ele. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos cortar seu pescoço, arrancar seu coração, atirá-lo ao fogo. Não existe lei quando se fala de prisioneiros de guerra.

Páginas 118-119 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.

“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos de um animal que luta pela vida”

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“O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva” (Foto: Mary Britton Clouse)

“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos de um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão de horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do modo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.”

Página 126 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.

 

“Estar vivo é ser uma alma viva. Um animal – e somos todos animais – é uma alma inserida num corpo”

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“A sensação – uma sensação pesadamente afetiva – de ser um corpo com membros que têm uma extensão no espaço, de se estar vivo no mundo”

Estar vivo é ser uma alma viva. Um animal – e somos todos animais – é uma alma inserida num corpo. Foi precisamente isso que Descartes enxergou e, por razões pessoais, escolheu negar. O animal vive, disse Descartes, da mesma forma que a máquina vive. O animal não é nada além do mecanismo que o constitui. Se tem uma alma, a tem da mesma maneira que a máquina dispõe de uma bateria, para lhe fornecer a faísca que a faz funcionar. Mas o animal é uma alma inserida num corpo, e a qualidade de seu ser não é a alegria.

Cogito ergo sum é também uma famosa frase sua. É uma fórmula que sempre me incomodou. Pressupõe que um ser vivo que não faz o que ele chama de pensar é, de alguma forma, um ser de segunda classe. Ao ato de pensar, à cogitação, oponho a plenitude, a corporalidade, a sensação de ser – não uma consciência de si mesmo como uma espécie de fantasmagórica máquina raciocinante pensando pensamentos, mas ao contrário, a sensação – uma sensação pesadamente afetiva – de ser um corpo com membros que têm uma extensão no espaço, de se estar vivo no mundo. Essa plenitude contrasta em tudo com o estado fundamental de Descartes, que traz em si uma sensação de vazio: a sensação de uma ervilha chacoalhando dentro de uma vagem.

Páginas 89-90 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.

Written by David Arioch

November 17th, 2017 at 10:26 am

“Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?”

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Versão da Companhia das Letras relançada no Brasil em 2016

Os dois carneirinhos passam o dia amarrados ao lado do estábulo em um pedaço de chão nu. Seus balidos, constantes e monótonos, começaram a incomodá-lo. Ele vai até Petrus, que está consertando a bicicleta, de rodas para o ar. “Esses carneiros”, diz, “não acha que podiam ficar amarrados em algum lugar onde possam pastar?”

“São para a festa”, Petrus diz. “Sábado vou matar os dois para a festa. Você e Lucy vêm também.” Ele limpa as mãos.

“Estou convidando você e Lucy para a festa.”

“Sábado?”

“É, vou dar uma festa no sábado. Festa grande.”

“Obrigado. Mas mesmo sendo para a festa, não acha que os carneiros podiam pastar?”

Uma hora depois, os carneiros ainda estão amarrados, ainda balindo dolorosamente. Petrus não está em parte alguma. Exasperado, ele desamarra os bichos e prende ao lado da represa, onde a relva é abundante.

Os carneiros bebem moderadamente, depois começam a pastar tranquilamente. São de raça persa, de cara preta, parecidos um com o outro no tamanho, nas cores, até nos movimentos. Gêmeos, com toda certeza, destinados desde o nascimento à faca do açougueiro. Bom, nada de mais nisso. Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?

Carneiros não são donos de si mesmos, donos da própria vida. Existem para ser usados, até a última gota, a carne comida, os ossos moídos e dados às galinhas. Não sobra nada, a não ser talvez a vesícula biliar, que ninguém come. Descartes devia ter pensado nisso. A alma, suspensa na bile escura, amarga, escondida.

Páginas 141 e 142 de “Desonra”, de J.M. Coetzee, publicado em 1999.

Written by David Arioch

November 11th, 2017 at 8:09 pm

Cortes de carne nada mais são do que fragmentos de cadáveres

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Pessoas sempre se incomodam quando alguém se refere à carne como cadáver. Apesar do impacto da palavra, não há nada de errado em se referir à carne dessa forma. Cortes de carne nada mais são do que fragmentos de cadáveres, como o escritor J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, destaca em livros como “Desonra”, “Elizabeth Costello” e “A Vida dos Animais”.

É apenas uma questão de constatação da realidade. Quem chama carne de cadáver pensa na origem da carne, ou seja, no animal que morreu para que ela fosse comercializada nos açougues. Quem se incomoda com essa palavra, normalmente se nega a crer que o que está comendo custou a vida de um animal. Afinal, não existe carne sem morte.





Written by David Arioch

February 15th, 2017 at 11:17 pm

Coetzee: “É mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer”

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Um vencedor do Nobel de Literatura preocupado em mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais

Coetzee: “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso”

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é conhecido como um homem tímido e recluso, que não gosta de dar entrevistas desde 1974, quando iniciou sua carreira literária. Porém, para veículos que atuam em defesa dos direitos animais, ele sempre se mostrou mais receptivo e disposto a fazer concessões.

Um exemplo é uma rara entrevista, intitulada “Animals, Humans, Cruelty and Literature”, publicada em maio de 2004 na revista Satya, fundada em 1994, no Brooklyn, em Nova York. A matéria, baseada na entrevista que o jornalista Henrik Engström realizou com Coetzee por e-mail, veio a público pela primeira vez no jornal sueco Djurens Rätt. Mesmo após a entrevista, o jornal que aborda os direitos animais conseguiu manter contato com o escritor sul-africano ao longo de um ano.

O que diferencia Coetzee de muitos outros atores que abordam a questão animalista é que ele não qualifica o amor e a compaixão pelos animais como imprescindíveis na causa animal. Para o escritor, o mais importante é que os seres humanos reconheçam que não existe justiça quando matamos animais para transformá-los em comida ou produtos, independente de espécie. Ou seja, a exploração animal é inaceitável do ponto de vista moral e ético.

E foi por causa dessa visão que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A sua indicação veio logo após o lançamento do livro “Elizabeth Costello”, de 2003, em que ele dedica dois capítulos a discutir a relação dos seres humanos com os animais. “Os animais estão na minha ficção ocupando um papel subsidiário, em parte, porque eles realmente ocupam um papel meramente subsidiário em nossas vidas. E em parte, porque não é possível escrever sobre a vida dos animais com a devida complexidade”, justificou.

Questionado se ele acredita que a indicação do seu livro ter sido feita justamente pela abordagem da questão animalista, Coetzee admitiu que um único livro não é capaz de mudar o mundo em relação a isso, mas talvez tenha um pequeno impacto. Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura do sul-africano começou com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, principalmente quando ele decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

E o que decepcionou Coetzee à época foi o fato de que as editoras ignoraram o papel dos animais em seu livro. “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso. Os personagens refletem a forma como os animais são tratados no mundo em que vivemos, como existências insignificantes que só reconhecemos quando suas vidas cruzam as nossas”, lamentou a Engström.

Coetzee é um escritor que não prioriza a conquista de direitos legais para os animais. Sua maior preocupação é mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais. “O mais importante de todos os direitos, é o direito à vida. Não posso prever que um dia os animais terão esse direito em forma de lei. Então o que podemos fazer é mostrar para o maior número de pessoas o custo psíquico e espiritual da forma como tratamos os animais, e assim talvez mudar nossos corações”, enfatizou.

O escritor não qualifica os seres humanos como naturalmente cruéis. Ele exemplifica o fato de que para sermos cruéis teríamos que fechar sempre os nossos corações para o sofrimento do outro. “É inerentemente mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer do que anular nossas simpatias pelo homem que vamos enviar para a cadeira elétrica. […] Evoluímos nossos mecanismos psíquicos, sociais e filosóficos para lidar com a matança de aves. Por razões complexas, usamos os mesmos mecanismos para permitir a matança de seres humanos somente em tempos de guerra”, avaliou.

Segundo J.M. Coetzee, um erro que cometemos com muita frequência é o de não perceber que o modo de consciência das espécies não humanas é bem diferente da consciência humana. Acredita-se que o ser humano é capaz de habitar a consciência de um animal, enquanto que por meio da faculdade da simpatia é possível para o ser humano saber como é ser alguém. “Os escritores são reputados por possuir fortemente esta qualidade particular. Se é de fato, ou pelo menos muito difícil habitar a consciência de um animal, então ao escrever sobre os animais, há uma tentação de projetar sobre eles pensamentos e sentimentos que podem pertencer somente à nossa própria mente humana e coração”, ponderou.

Coetzee crê que somos sempre tentados a procurar nos animais o que desperta com mais facilidade nossa simpatia ou empatia, na tentativa de favorecer espécies animais que, por uma razão ou outra, nos parecem quase humanas em seus processos mentais e emocionais. “Assim os cães são tratados como quase humanos, enquanto os répteis são tratados como completamente estranhos”, citou em referência ao especismo, conduta humana que legitima a exploração animal.

Sem animais de estimação em casa, o escritor se contenta em dizer que “considera” ter uma relação pessoal com pássaros e sapos que visitam sua propriedade. “Mas não creio por um minuto que eles acham que têm relações pessoais comigo. Sim, sou vegetariano. Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”, confidenciou.

Referência

Engström, Henrik. Satya Mag. Animals, Humans, Cruelty and Literature – A Rare Interview with J.M. Coetzee (2004).

http://www.satyamag.com/may04/coetzee.html

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Coetzee: “Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça”

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“Basta apenas um olhar para que uma criança se torne vegetariana por toda a sua vida”

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Coetzee: Dada a chance, as crianças sempre verão além das mentiras com as quais somos bombardeados pelos anunciantes (Foto: Jerry Bauer)

Basta apenas um olhar para que uma criança se torne vegetariana por toda a sua vida. Com essas palavras, o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2003, e considerado um dos maiores autores de língua inglesa da atualidade, emocionou uma grande plateia em Sidney, na Austrália, no dia 22 de fevereiro de 2007, quando falou sobre os direitos dos animais. A repercussão foi tão positiva que seu discurso foi publicado em alguns dos mais importantes jornais do mundo.

“Animais felizes transformados de forma indolor em nuggets, o sorriso da vaca do comercial de leite que diz doar o próprio leite para nós. Dada a chance, as crianças sempre verão além das mentiras com as quais somos bombardeados pelos anunciantes. A respeito disso, crianças nos fornecem as mais brilhantes esperanças. Elas têm corações ternos, que não foram endurecidos por anos de conivência com a crueldade e com o comportamento antinatural”, declarou o vegetariano J.M. Coetzee.

Para o escritor avesso a entrevistas, qualquer pessoa disposta a refletir sabe que há algo de muito errado na relação entre os seres humanos e os animais, e isso se tornou mais aberrante nos últimos 100 anos, quando a pecuária se apropriou dos métodos industriais de produção. “A indústria de alimentos supera o comércio de peles e o uso de animais em laboratórios quando falamos em números de vidas animais afetadas. A grande maioria usa e consome produtos dessas indústrias, mas se sente mal quando pensa no que acontece nas fazendas industriais e nos matadouros. Por isso, eles organizam suas vidas de tal maneira que eles evitam pensar nisso. Também fazem de tudo para garantir que seus filhos sejam mantidos na escuridão, porque sabemos que crianças têm bom coração e mudam facilmente”, enfatizou.

Para Coetzee, o primeiro sinal de que os animais já não eram mais vistos como algo além de produtos apareceu no século 19, com o surgimento das primeiras fazendas industriais. Desde então, a humanidade tem se negado a reconhecer que animais não são meras unidades disponíveis à exploração humana. “Este aviso veio tão alto e claro que parecia ser impossível ignorá-lo. Mais tarde, um grupo sanguinário da Alemanha [em referência aos nazistas] teve a ideia de adaptar a metodologia dos currais industriais. Eles foram pioneiros nesse sistema que eles não chamavam de matadouro, mas sim de área de processamento de seres humanos”, assinalou.

Segundo o escritor, naturalmente esse horror chocou a humanidade. Muitos diziam: “Que terrível! Tratar seres humanos como gado!” Considerando isso, ele observou que se talvez as pessoas tivessem refletido um pouco mais à época, a queixa teria sido bem diferente: “O mais justo seria falar: ‘Que crime terrível! Tratar seres humanos como meras unidades de um processo industrial.’ E assim veríamos com outros olhos a proporção desse crime, já que é um crime contra a natureza resumir qualquer ser vivo a uma unidade de um processo industrial”, ponderou.

Independente do que diz os utilitaristas, Coetzee argumentou que a pecuária tradicional sempre foi suficientemente brutal. Sobre a exploração animal, pessoas sempre dirão: “Sim, é terrível a forma como vivem as porcas reprodutoras e os vitelos. Mas, quem vai, em seguida, encolher seus ombros e perguntar: ‘O que posso fazer sobre isso?’”, criticou o escritor sul-africano.

O papel do movimento em defesa dos direitos dos animais é oferecer opções para que as pessoas saibam o que fazer logo que descobrem o que acontece com os animais. “As pessoas precisam saber que há alternativas aos produtos de origem animal. Que essa alternativa não exige sacrifícios em saúde e nutrição, e nem mesmo são caras. O único sacrifício envolvido nisso é dos próprios animais não humanos”, destacou J.M. Coetzee.

O escritor também apontou para um fenômeno alentador. O fato de que atualmente as indústrias que exploram animais estão sendo empurradas para a defensiva. Ou seja, hoje, elas são sempre questionadas sobre suas ações. “As organizações de direitos dos animais mostram que as práticas indefensáveis e injustificáveis da indústria têm tão e somente motivações econômicas. A indústria está indo ladeia abaixo e já prevê que uma tempestade vai arrastá-la. Na medida em que há uma guerra de relações públicas, a indústria prova que já perdeu essa guerra”, analisou.

No dia 30 de junho de 2016, J.M. Coetzee também abordou os direitos dos animais no auditório do Museu Reina Sofia, em Madrid, na Espanha. “Eu não sou um amante dos animais. Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça”, informou Coetzee de antemão. Vegetariano, o escritor sul-africano tem ajudado a promover os direitos dos animais há várias décadas.

Uma de suas obras mais importantes, e que fala justamente sobre o assunto, é a novela metaficcional “The Lives of Animals”, publicada pela editora da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, em 1999. A obra de caráter filosófico gira em torno dos conflitos vividos por uma professora e conferencista vegetariana que, ao advogar os direitos dos animais, encontra resistência no âmbito familiar e no trabalho. “Humanos pensam que são muito mais importantes do que os animais. Por isso, rejeitam a consciência animal. As pessoas precisam cultivar sua empatia”, defendeu J.M. Coetzee.

Saiba Mais

John Maxwell Coetzee nasceu em 9 de fevereiro de 1940 na Cidade do Cabo, na África do Sul.

Referências

Coetzee, J.M. Exposing the beast: factory farming must be called to the slaughterhouse. Opinions – Article. The Sydney Morning Herald, Austrália (22/02/2007).

Coetzee, J.M.. Animals can’t speak for themselves – it’s up to us to do it. Opinions – Article. The Age, Austrália (22/02/2007).

AFP. Nobel laureate J.M. Coetzee speaks against animal cruelty. Daily Mail, Reino Unido (01/07/2016).

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