David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“O primeiro exemplar do seu livro já é meu”

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Foto: David Arioch

“Você nasceu com o dom de escrever. O primeiro exemplar do seu livro já é meu”, disse o jornalista Chicão Soares. Ouvir isso de um profissional com mais de 60 anos de profissão, e que fundou jornais no Paraná e em São Paulo, é um privilégio imenso.

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August 4th, 2016 at 11:30 pm

Posted in Paranavaí

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Um bate-papo com Chicão Soares

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Chicão Soares trabalha como jornalista desde 1955 (Foto: David Arioch)

Chicão Soares trabalha como jornalista desde 1955 (Foto: David Arioch)

Passei a primeira hora da minha manhã de trabalho batendo um papo sobre jornalismo histórico com o jornalista Chicão Soares. Uma figura ímpar que já entrou para a história do jornalismo paranaense – são 61 anos dedicados à profissão. “Já pensei em parar de escrever, mas não consigo. Além disso, na minha família a tradição é não morrer antes dos 100. Então tenho muito o que fazer”, enfatizou sorrindo.

Written by David Arioch

August 2nd, 2016 at 2:28 pm

Minhas reportagens em projeto de incentivo à leitura

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Inclusão das reportagens no projeto foi feita pelo escritor e professor Antonio Neto (Fotos: Reprodução)

Ontem, fiquei muito feliz ao saber que as minhas reportagens “Sou prostituta sim, acompanhante não” e “Latinha, infância fragmentada pelo crack?” estão sendo usadas no projeto Descobrindo o Ato de Ler o Mundo, de incentivo à leitura, de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, por sugestão do professor e escritor Antonio Neto. O trabalho é desenvolvido com estudantes do último ano do Ensino Médio. Incrível como a textualidade é capaz de transpor fronteiras. Em breve sai reportagem sobre o assunto no meu blog.

As duas reportagens estão nos links abaixo:

//davidarioch.com/2013/02/07/sou-prostituta-sim-acompanhante-nao/

//davidarioch.com/2011/07/13/latinha-infancia-fragmentada-pelo-crack/

Entre a cruz e a espada

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O Informante, de Michael Mann, apresenta o dilema de um executivo de uma indústria tabagista

Wigand é demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha (Foto: Reprodução)

Wigand é demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha (Foto: Reprodução)

Lançado em 1999, o filme O Informante (The Insider), do cineasta estadunidense Michael Mann, apresenta o dilema do executivo Jeffrey Wigand (Russell Crowe), demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha. O drama controverso e documental foi inspirado no artigo The Man Who Knew Too Much, de Marie Brenner, publicado na revista Vanity Fair.

No momento em que Jeffrey Wigand é demitido, o produtor do programa jornalístico 60 Minutes, da CBS, Lowell Bergman (Al Pacino) recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros. A partir daí, Bergman procura uma fonte confiável para se aprofundar no assunto e acaba conhecendo Wigand.

Na mesma esteira, há um jornalista e um executivo preocupados em denunciar uma substância cancerígena que acelera a dependência química e psicológica. Para Bergman, isso também significa marcar para sempre a história da indústria tabagista. Passando por séria crise financeira, Jeffrey Wigand decide contribuir com o produtor, mas muda de ideia quando o presidente da indústria tabagista onde trabalhava o pressiona através de um acordo de confidencialidade.

Após muita insistência, Wigand acaba concedendo a primeira entrevista ao 60 Minutes. Logo ele vê sua vida se complicar. A influência da indústria é tão grande que seu mundo desaba. O executivo perde a família e fica em uma situação que parece irresolúvel. É punido por seguir os princípios éticos de um cidadão, não de uma empresa ou instituição. Preocupado com as incertezas do futuro, não sabe como reagir aos acontecimentos.

Apesar disso, acredita que a justiça há de ser feita e arrisca a própria liberdade ao dizer tudo o que sabe durante o julgamento contra a empresa. Wigand também concorda em conceder uma entrevista mais reveladora ao 60 Minutes. Porém, o produtor Lowell Bergman é traído pelos próprios superiores que se negam a veicular o conteúdo. Em contra-ataque, a indústria tabagista cria factoides sobre a vida de Wigand e os lança na mídia com a intenção de acabar com a sua credibilidade e torná-lo um pária.

Bergman recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros (Foto: Reprodução)

Bergman recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros (Foto: Reprodução)

“Vale a pena arriscar a própria vida por uma verdade que não foi levada ao público?”, questiona o filme para em seguida dar a resposta. Apesar dos riscos, Wigand acredita no valor da honestidade, mesmo sendo um homem comum lidando com problema incomum. Outra constatação interessante de O Informante é que a partir da história do executivo, Lowell Bergman percebe o poder de seu próprio programa.

Idealista, Bergman não desiste de honrar seus compromissos com a fonte, nem quando é impedido de veicular entrevistas boicotadas por “problemas corporativos”. Na contramão de Lowell está o menos idealista e mais pragmático Mike Wallace (Christopher Plummer), apresentador que preocupado somente com a carreira opta por seguir ordens da direção da emissora.

Wallace só encara a situação com os olhos de Bergman depois de ser enganado por seus superiores que ordenam a reedição de suas entrevistas. Um ponto importante elencado pela obra é o compromisso ético de Bergman com a profissão e não com a empresa para a qual trabalha, mesmo que infelizmente isso seja demasiado incomum fora da ficção.

Talvez a melhor pergunta seja aquela que Bergman faz aos seus companheiros: “Você é um homem de notícias ou de negócios?” É exatamente esse questionamento que muitos jornalistas deveriam se fazer. Afinal de contas, o jornalismo genuíno nasce do interesse público, não patronal.

Embora Wigand seja o informante primário, no decorrer do filme, Bergman também assume a mesma função quando se torna fonte para seus colegas de profissão de outros programas e emissoras. Lowell desempenha esse papel com o intuito de derrubar o falso dossiê composto pelos inimigos do executivo. Como informante, o desempenho do produtor é decisivo para que as informações de Wigand não sejam comprometidas.

As ações de Bergman também obrigam a CBS a veicular o programa com a entrevista concedida pelo executivo. Com uma vitória dúbia, o produtor deixa a emissora, desiludido pela falta de responsabilidade social e profissionalismo da diretoria. No final, tanto o produtor quanto o executivo se veem na mesma posição. São dois homens que desistiram de ganhar muito dinheiro porque acreditam que a verdadeira ética não tem preço.

Written by David Arioch

March 7th, 2016 at 8:23 pm

O Quarto Poder, ficção social sobre as mazelas da grande mídia

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Controverso filme de Costa-Gravas continua tão atual quanto em 1997, quando foi lançado

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Max Brackett (Dustin Hoffman) é o exemplo de jornalista que recorre a todos os subterfúgios viáveis e inviáveis para garantir uma matéria “quente” (Foto: Reprodução)

Lançado em 1997, Mad City, que no Brasil recebeu o nome de O Quarto Poder, é um dos filmes de ficção social mais populares e controversos do cineasta grego Costa-Gravas. A obra aborda o poder que a mídia tem de manipular e sobrepujar o público, tendo como referencial um jornalista inescrupuloso que não mede esforços para recuperar o seu antigo espaço em uma grande rede de TV.

No filme, o repórter Max Brackett (Dustin Hoffman) é o exemplo de jornalista que recorre a todos os subterfúgios viáveis e inviáveis para garantir uma matéria “quente”. Ele usa como bode expiatório o ingênuo e desorientado Sam Baily (John Travolta) que num rompante, ao saber que foi demitido, ameaça com uma espingarda a diretora do museu onde trabalhava.

Após o disparo acidental com a arma, Baily é considerado um sequestrador, em um episódio nunca imaginado pelo próprio segurança. Encarando a situação como o deus ex machina de sua carreira, Brackett começa a influenciar as ações de Sam que jamais cometeu um crime. Preocupado com o desenrolar da ação, Max sugere que Baily crie uma lista de exigências. Do contrário, jamais será levado a sério pela polícia ou pela mídia.

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O ingênuo Baily é manipulado por Brackett que o transforma em herói e vilão (Foto: Reprodução)

Se até então seu objetivo era reaver o antigo emprego, a insistência de Max faz com que Sam mude o discurso sem perceber que está atuando como coadjuvante de um espetáculo em que o verdadeiro showman é o jornalista. A própria história de Sam é reescrita por Max. Ele se torna a ponte de comunicação de Baily com o mundo externo.

Quem são seus familiares e amigos, como ele vivia, o motivo do crime e as exigências – todas as respostas a essas perguntas são arquitetadas pelo repórter. Mestre na arte de manipular espectadores, na primeira parte do filme Max eleva Sam à condição de herói para depois transformá-lo em vilão – um terrorista desequilibrado.

Brinca com o poder ao induzir a opinião pública, mostrando que é capaz de fazer qualquer um amar ou odiar aquele homem que sob sua influência transforma crianças em reféns dentro de um museu. Max joga com todos, até mesmo com a diretora da instituição, dizendo que ela deveria agradecer a Sam pelo que ele fez, já que o sequestro está tornando o museu um espaço nacionalmente famoso, prestes a entrar para a história dos Estados Unidos.

Baily se torna tão dependente de Brackett que é o repórter quem define o que o segurança deve dizer ao chefe de polícia. Crente de que o jornalista é seu amigo, Sam não tem a mínima ideia de que Max usa a ilha de edição móvel para editar todos os depoimentos positivos coletados a seu respeito, preservando apenas os negativos. Para realçar ainda mais a vilania do personagem, Max veicula fragmentos desfavoráveis de entrevistados que nunca conheceram Sam Baily.

É axiomática a forma como Max é um perito na arte de persuadir pessoas a pensarem o que ele quer. Outro exemplo é a cena em que o repórter diz que o amigo de Sam baleado acidentalmente está ganhando muito dinheiro ao dar entrevistas sobre o suposto sequestrador. Se aproveitando do fato de que Baily está desempregado, Brackett já imaginava que o segurança ficaria sobressaltado com a notícia.

A verdade é que a vida de Sam pouco importa, tanto que dois jornalistas de uma mesma emissora digladiam pelo direito de ficarem ao lado do sequestrador quando a ação ganha repercussão nacional. A preocupação maior dos repórteres envolve estritamente promoções, bônus e status.

Outro ponto destacável é o momento em que o repórter se aproxima do chefe de polícia e pede autorização para a emissora entrar com o equipamento no museu para entrevistar Baily, oferecendo como compensação uma propaganda com viés político que pode tornar o chefe de polícia a autoridade de maior evidência nos Estados Unidos. Em síntese, Mad City prova que o quarto poder se confunde ao primeiro poder, já que a mídia pode ser mais poderosa que o governo e a própria polícia.

“De gente importante, quem você entrevistou?”

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Meu gravador Zoom H1, companheiro de longa data (Foto: Reprodução)

Meu gravador Zoom H1, companheiro de longa data (Foto: Reprodução)

Nesses dez anos trabalhando como jornalista, fui convidado algumas vezes para conversar com estudantes em escolas. Um dia, há alguns anos, quando uma professora abriu espaço para os alunos fazerem perguntas, uma garotinha com idade entre 13 e 14 anos questionou o seguinte:

“Quais pessoas você gostou mais de entrevistar? De gente importante, quem você entrevistou?” Eu, como alguém que tenta sempre andar na contramão da obviedade, dei uma resposta pouco usual, mas que repito sempre que necessário: “Olha, você seria uma pessoa importante pra eu entrevistar. Todo mundo aqui tem potencial pra render boas matérias. Meus melhores personagens, os mais importantes, são aqueles que ninguém imagina que vale ou rende uma matéria. Na minha profissão, gratificante é transformar em personagem alguém que nunca se viu como um.”

Contribuição

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Written by David Arioch

January 17th, 2016 at 5:12 pm

Um dia de foca

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Visivelmente encolerizada, a mulher pensou que fomos lá para prejudicá-los, criar um factoide

Não havia muitas pessoas circulando pelas ruas pacatas da cidade (Foto: Reprodução)

Não havia muitas pessoas circulando pelas pacatas ruas de Querência do Norte (Foto: Reprodução)

Ser jornalista já me permitiu passar por muitas situações insólitas. Uma delas surgiu em Querência do Norte, no extremo Noroeste do Paraná, em 2006. Na manhã daquele dia, que pouco importa a data específica, o meu amigo e jornalista Cleber França saiu de Maringá, passou em Paranavaí e juntos fomos para Querência a bordo de um Renault Clio prata, acostumado a circular pelos terrenos mais inóspitos da região.

Sem dúvida, era um carro que surpreendia pelo viço, chegando a voar por metros em áreas de estradas ruins, onde muita gente só trafegaria de caminhão ou caminhonete. A verdade é que ele parecia acostumado a nos transportar pelos mais diferentes destinos da região, em busca de curiosidades, personagens e histórias pitorescas.

No caminho para Querência do Norte encontramos animais silvestres mortos na estrada, o que me parecia sempre trágico, principalmente quando os filhotes cercavam o pai ou a mãe que nunca mais veriam, emitindo gemidos vigorosos ou fragilizados. O som não transformava nada ao seu redor. Sequer parecia mover a tiririca que brotava no canto do asfalto tórrido. Ainda assim a iteração da cena não a tornava menos adventícia. Talvez fosse reles para tantos outros, não para mim que via cada morte animal como um exemplo da nossa displicência e efemeridade existencial.

Bom, continuando. Chegamos em Querência por volta das 9h30. Era um dia quente, dando a impressão de um Sol maior e mais baixo, e não havia muitas pessoas circulando pelas pacatas ruas da cidade, onde os cantos dos pássaros se misturavam aos sons de rodas, latidos e miados. No centro, fomos até uma lanchonete e pedi informações sobre onde poderíamos encontrar um líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da cidade, considerado um dos mais antigos do Paraná.

Então um senhor simpático, usando sandálias, bermuda e camisa, parou de polir as garrafas de cachaça e sugeriu que deixássemos o assunto de lado, alegando que desconhecidos, principalmente jornalistas, poderiam ser hostilizados. “Procure outra história porque essa daí acho que não vai prestar. Vai por mim”, disse o homem sem piscar, mantendo um sorriso enviesado e um olhar fixo em nossa direção. Agradecemos e saímos da lanchonete.

A verdade é que nosso objetivo principal era coletar informações sobre a realidade dos produtores de arroz irrigado. No entanto, como éramos movido pela abelhudice dos focas, jornalistas recém-formados, queríamos fazer muito mais. Em poucas horas, fomos aos portos Natal, Felício e 18. Entrevistamos proprietários e funcionários de balsas, além de ribeirinhos e pescadores. À tarde, voltamos para a área urbana de Querência do Norte e conversamos com alguns produtores de arroz. Todos foram bem receptivos.

Antes de nossa partida, conhecemos um personagem aparentemente bonachão, um agricultor de meia-idade que no passado ocupou posição de destaque no MST da cidade. Ele nos convidou para ir até uma cooperativa fotografá-lo com um saco de arroz. Chegando lá, entramos em um enorme barracão de estocagem, onde havia centenas de sacos bem posicionados. Para ser fotografado, sugerimos que o homem sorrisse, mostrando o conteúdo do saco e também deixando o cereal escorrer entre seus dedos.

Depois de fotografá-lo várias vezes, quando estávamos saindo do barracão fomos interrompidos pela diretora da cooperativa. “O que vocês pensam que estão fazendo?”, questionou. Respondemos que fomos convidados por um senhor bigodudo que se apresentou como sócio da cooperativa. Assim que olhamos para o lado, o homem entrou em seu carro e partiu sem dar explicações.

Visivelmente encolerizada, a mulher pensou que fomos lá para prejudicá-los, criar um factoide. Chamou a atenção de seis ou sete homens que estavam mais próximos e, esbravejando, ordenou: “Tranquem todas as saídas! Eles não vão sair daqui tão cedo!” Na sequência, ouvi o som retumbante do denso portão de ferro se fechando, com a trava já acionada. Dei um sorriso amarelecido e, mesmo tentando velar a tensão, estremeci, sentindo uma perna mais leve que a outra.

Alguns caras à nossa volta nos observavam com desprezo e chalaça, inclusive pressionando as próprias mãos, num gesto de intimidação. Quando tentei explicar quem éramos e o que fazíamos ali, ela disse que não interessava. “Sei muito bem que trabalho vocês fazem. Já recebemos gente como vocês há poucos dias. Única coisa que quero é essa câmera fotográfica”, exigiu olhando diretamente para o Cleber que a segurava com as duas mãos, como se embalasse o próprio filho.

Ele se negou a entregar a câmera e a mulher caminhou em nossa direção. Balançou os braços no ar e ordenou que as fotos fossem apagadas. Com receio de perder todo o nosso trabalho, não deixamos ela tocar no equipamento. Contudo, concordamos em deletar as fotos da cooperativa diante dela. Embora ainda irritadiça, algum tempo depois ela concordou em abrir o portão.

“Olhe a placa do carro e o adesivo no vidro traseiro. Nunca estivemos aqui. A senhora nos confundiu com alguém,” justifiquei, tentando amenizar a situação pela última vez. Sem interesse em dialogar, a mulher apenas recomendou: “Só digo mais uma coisa. Se sair uma foto daqui em algum jornal, pode ter certeza que vou atrás de vocês. Ah, se vou!”, prometeu.

Diante de tanta intransigência, apenas nos calamos e deixamos aquele lugar. Lá fora, rimos pateticamente, como se o medo jamais tivesse nos alcançado. E não evitei de me recordar da profética recomendação do dono da lanchonete ao saber que a diretora da cooperativa também fazia parte do MST. Nem esqueci da expressão do agricultor falsamente bonachão que talvez estivesse rindo de nós e não para nós nas fotos, antevendo a confusão.





Como o heavy metal me levou para o jornalismo

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O que me levou para o jornalismo foi o heavy metal, sim, a vertente mais pesada do rock

Eu à esquerda - "Fiz parte de uma geração de jovens que seguia de fato o ideal do 'faça você mesmo'" (Foto: Arquivo Pessoal)

Eu à esquerda – “Fiz parte de uma geração de jovens que seguia de fato o ideal do “faça você mesmo” (Foto: Edson Batista Filho)

Às vezes, alguém me pergunta como me interessei por jornalismo e de que forma me tornei jornalista. Me recordo que com 15 anos eu já tinha esse interesse bem definido. Não escolhi essa profissão por acaso ou por falta de opções. Na realidade, acho até curioso quando alguém me questiona sobre isso porque minha história é pouco ou nada usual.

O que me levou para o jornalismo foi o heavy metal, sim, a vertente mais pesada do rock, e um estilo ainda hoje amado por muitos e odiado por tantos outros. Na minha adolescência, eu escrevia para zines, revistas feitas por fãs que entrevistavam bandas, escreviam artigos, resenhas e matérias curtas sobre o gênero. Já tínhamos publicações online, além de impressas.

No final da década de 1990 e início de 2000 era uma alternativa empolgante, uma oportunidade para produzirmos conteúdo sobre bandas que nunca ou raramente veríamos nas revistas brasileiras mais tradicionais de rock. E foi nessa época que fundamos e lançamos através de redes nacionais e internacionais de IRC um zine chamado Marcha Fúnebre, inspirado no conceito da composição de Frédéric Chopin.

Tínhamos uma equipe bem consistente e unida, formada por pessoas de Norte a Sul do Brasil. Embora o projeto tenha alcançado alguns milhares de pessoas, a nossa projeção era maior. No entanto, por causa de outros compromissos, só conseguimos manter o zine ativo por dois anos. Ainda assim foi um período de grande aprendizado porque tínhamos a responsabilidade de produzir material toda semana. A melhor parte de tudo era o intercâmbio cultural.

E foi assim que tive o privilégio de entrevistar, mesmo que de forma amadora, jornalisticamente falando, bandas de mais de 15 países da América do Sul, América do Norte, Oceania e Europa – dos mais distintos subgêneros do heavy metal. Alguns grupos estavam na estrada desde o final dos anos 1980. O respeito que recebi durante aqueles anos fez crescer muito mais a minha admiração por fãs e músicos do gênero.

Fiz parte de uma geração de jovens que seguia de fato o ideal do “faça você mesmo”. Sabíamos que não era necessário ser famoso ou trabalhar em uma revista de grande circulação para estar em contato com bandas que marcaram nossas vidas. Também era divertido viajar para entrevistar os músicos antes ou depois dos shows, ou então filmar a apresentação para depois fazer uma permuta de materiais. Além disso, valorizávamos ao máximo as bandas brasileiras, de nossos estados e cidades.

Com a penetração ainda modesta da internet no Brasil, esse era o tipo de motivação que fazia a diferença em nossas vidas. Em alguns casos, quando a entrevista não podia ser feita pessoalmente, também recorríamos às correspondências, se necessário. Assim as fotos não raramente chegavam impressas dentro de um envelope.

Não havia retorno financeiro. Não ganhávamos dinheiro por esse trabalho, mas a sensação de satisfação, o reconhecimento e a alegria em contribuir de alguma forma fazia tudo valer a pena, até mesmo as nossas despesas que às vezes não eram poucas. Éramos motivados pela forma mais clássica de idealismo.

Me recordo que quando eu estava no segundo ano do curso de jornalismo muitos zines já tinham desaparecido pelos mais diferentes motivos, e o nosso Marcha Fúnebre também acabou sucumbindo diante das adversidades. Então continuei escrevendo como colaborador ocasional de publicações de camaradas que modestamente deram continuidade a esse trabalho no Brasil, Estados Unidos, Suécia e Alemanha.

Expressado o expresso, só me resta declarar que quem me conhece como jornalista não me conheceria se não fosse pelo heavy metal. Na realidade, digo ainda hoje que tudo que faço tem muito a ver com minhas escolhas nos tempos de adolescência – e o heavy metal foi uma das mais importantes delas.

Com ele, aprendi mais sobre solidariedade, abri os olhos para notar a importância dos marginalizados e reconhecer a existência de um submundo. Também sofríamos preconceito em figura explícita e velada, mas acredito que perseveramos diante de centenas de situações que nos empurravam para as mais variegadas formas de uniformização e conformismo.

De fato, abandonei o visual daqueles tempos há anos, o que considero uma mudança natural, já que a transformação é inerente ao ser humano. Contudo, os verdadeiros predicados que o heavy metal me proporcionou hei de carregar por toda a vida, num lugar onde a observação perfunctória nada vê.

Written by David Arioch

December 29th, 2015 at 12:13 pm

Um autêntico pioneiro do jornalismo regional

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Há mais de 50 anos, Euclides Bogoni registra a história do Noroeste do Paraná

Bogoni é jornalista há mais de 50 anos

Bogoni: “Comecei no jornalismo de modo empírico, por idealismo, sem nenhuma formação específica” (Foto: Diário do Noroeste)

O jornalismo entrou na vida de Euclides Bogoni há mais de 50 anos. Desde então, o jornalista assumiu a missão de registrar a história da região de Paranavaí, o Noroeste do Paraná. Motivado por um idealismo surgido na época dos heróis do sertão, Bogoni foi um poeta que se transformou em jornalista quando arte literária e relato noticioso faziam parte de um mesmo panorama cultural e informativo.

O catarinense começou a escrever na juventude. Se dedicava a produzir poemas para publicar em livros. De Alto Paraná, onde seu pai tinha uma empresa, decidiu se mudar para Paranavaí. Aqui abriu um escritório. Assim como outro Euclides (da Cunha), aproveitou o conhecimento literário para narrar com caráter épico a trajetória dos heróis do sertão.

Em 1954, Bogoni foi convidado a ser redator-chefe da Folha de Paranavaí, cargo que assumiu com a missão de escrever poemas e artigos em que sugeria construções de obras públicas. Segundo o jornalista, a estrutura do jornal era precária. Não havia oficinas e a impressão era feita em outras cidades. “Como eu tinha um escritório, às vezes datilografava as matérias lá mesmo. Comecei no jornalismo de modo empírico, por idealismo, sem nenhuma formação específica”, afirma Euclides Bogoni em tom reflexivo.

No ano seguinte, houve uma paralisação tão grande em função das geadas que o jornal para o qual Euclides Bogoni trabalhava faliu. Outros veículos de imprensa que existiam em Paranavaí e região tiveram o mesmo destino. Então o jornalista decidiu fundar o Diário do Noroeste, um dos jornais mais antigos do Paraná, até hoje sob direção de Bogoni.

No início, o veículo era composto por dois funcionários e a edição possuía apenas quatro páginas, raramente chegando a seis.  “Não se separava matéria por editorias. Os assuntos não eram divididos nas páginas. A única diferença de destaque era o tratamento com a manchete”, lembra.

Atualmente o padrão mínimo do jornal regional é de 16 páginas, chegando a 28 graças ao advento da impressora rotativa. “Algo bem diferente da época em que sofríamos com a impressora manual. Além disso, só tínhamos acesso as informações de outras cidades e estados por meio do teletipo e de sinais via rádio”, frisa.

Euclides Bogoni foi um poeta que se tornou jornalista

Idealista, fundou o Diário do Noroeste em 1955 (Foto: Diário do Noroeste)

Com quase 55 anos de carreira profissional, Euclides Bogoni, mesmo não tendo cursado jornalismo, defende a obrigatoriedade do diploma. Segundo o jornalista, a formação acadêmica possibilita maior agregação de cultura e impõe ao profissional o respeito à ética. “Muitos que não fizeram faculdade têm facilidade em exercer a profissão, mas a situação é muito melhor quando a pessoa tem o diploma”, pondera. Se não fosse jornalista, provavelmente Euclides Bogoni seria advogado ou professor. “Na minha família, todos os meus irmãos lecionam”, justifica sorrindo.

O jornalista lembra que ingressou no meio impresso por causa da aptidão literária. Só parou de escrever poemas quando se restringiu ao relato noticioso. “Com o tempo, a inspiração desapareceu. Jornalismo é uma área que requer dedicação e promove um grande desgaste intelectual”, assegura.

“Jornal regional não sobrevive sem o poder público”

O jornalista Euclides Bogoni, proprietário do jornal Diário do Noroeste, admite que nenhum meio de comunicação regional sobrevive sem a participação financeira do poder público. “Os jornais publicam 80% de informações que não são pagas, então é justo recebermos para divulgar informações oficiais da prefeitura, por exemplo”, avalia.

O gerenciamento da comunidade se respalda nas ações da prefeitura, câmara municipal e poder judiciário, segundo o jornalista. São três poderes que precisam criar uma ponte de comunicação com a população. “O jornal é o mecanismo usado para o cidadão se informar sobre o que está acontecendo nesse meio”, explica.

Bogoni se queixa que durante as eleições o Diário do Noroeste é falsamente acusado de favorecer determinados candidatos. “Pode acontecer de algum candidato ser noticiado mais vezes em função de ter melhores condições culturais e políticas. Porém, nunca deixamos de dar espaço a ninguém. Na realidade, acolhemos quem nos procura”, assinala.

“Não existe jornal que não receba pressão”

Sobre a importância da ética, o jornalista Euclides Bogoni enfatiza que é de suma importância para a boa condução do jornalismo. “Sempre precisamos ter compromisso com a verdade. Entretanto, sabemos que a concorrência faz com que jornalistas de caráter duvidoso ajam em desacordo a tudo isso. Se entregar ao sensacionalismo sempre promove erros graves”, comenta. Se um veículo publica uma informação errada, o único jeito de amenizar a situação é usar o mesmo espaço para fazer a correção.

O jornalista vê com bons olhos a liberdade de imprensa na atualidade se comparada ao período da ditadura militar, mas faz uma ressalva. “A censura sempre vai existir, mesmo em menor proporção. Não existe jornal que não receba pressão”, sentencia. Euclides Bogoni lembra também que no final da década de 1950 grande parcela da população de Paranavaí era inculta. Isso também dificultava o trabalho dos veículos de comunicação, principalmente porque poucos entendiam o propósito de um jornal.

Para o jornalista que trabalhou por muito tempo recebendo dados via sinal de rádio, a internet é determinante em ajudar os jornais regionais na coleta de informações de âmbito estadual, nacional e internacional. “É uma aliada principalmente quando a notícia é de grande importância, como alguma manifestação governamental. Tudo está mais fácil porque a internet trouxe rapidez e instantaneidade”, garante.

Frases do jornalista Euclides Bogoni

“O jornalismo é uma profissão muito bonita em que o jornalista tem que se dedicar em tempo integral. Isto gera um desgaste intelectual muito grande. Mas, acima de tudo, é uma profissão que satisfaz e contribui para o desenvolvimento social.”

“Quando usávamos impressora plana, a impressão começava às 18h e terminava lá pelas 2h. Hoje a nossa impressora rotativa roda de duas a duas horas e meia por dia. O trabalho é bem rápido.”