David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Se eu gostaria de ser mais jovem?

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Thinking Man #2, de Linda Apple

Se eu gostaria de ser mais jovem? Não, não gostaria, simplesmente porque ser mais jovem significaria perder algo que aprendi ao longo de minutos, horas, meses e anos. A minha consciência muda a cada instante de reflexão. Não creio que sou o mesmo de ontem. Acho que o passado pode ser referência em uma série de coisas, mas não é onde quero estar ou morar, porque isso significaria abdicar do tempo presente, de mim mesmo.

Se fico imerso por muito tempo no que já foi, deixo de agir para submergir. O problema em relação à minha memória, não é a memória, mas o que faço a partir dessa memória – se tenho real controle sobre ela. Se me impulsiona ou me instiga, não tenho do que me queixar, mas se é algo que me fustiga ou me esgota, não há dúvida de que tenho o que ponderar.

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Written by David Arioch

June 10th, 2017 at 1:23 am

Uma tentativa de furto

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Vi um cara de costas tentando abrir a porta do meu carro

No sábado, quando eu estava perto da rodoviária, esqueci meu celular no carro. Quando voltei para buscar, vi um cara de costas tentando abrir a porta do meu carro.

— Cara, o que você está fazendo aí?

— Ô parceiro, foi mal mesmo. Deixei cair algo aqui perto da porta. Perdão…

— É mesmo? Então me mostre aí o que você perdeu.

— Peraí. Tô procurando aqui.

— Não estou vendo nada.

Quando cheguei mais perto, reconheci o sujeito. Era um garoto que conheço há anos.

— Cara, você estava tentando abrir o a porta do meu carro. Sério mesmo que você achou que isso fosse uma boa ideia?

— Ah, mano! Não é nada disso não. Te disse.

— Rapaz, meu carro é legal, pode até render uma grana, mas você acha que ele vale mais do que sua vida? Sua liberdade? Conheço sua família. Seu pai vive em uma cadeira de rodas e sua mãe ganha a vida trabalhando até anoitecer fazendo faxina. São gente boa. Não merecem isso. O que tem de errado contigo?

— Ah, mano! Que se foda! Ninguém dá emprego, então tô arriscando.

— E valeu a pena se arriscar? E se eu fosse um desconhecido armado? Um cara agressivo poderia atirar em você ou te matar a pancadas por causa disso. Não se importa de ser preso também?

— Sei lá, mano! Só vi o carro de longe e colei aqui. Não pensei em nada não. Nem sabia que era seu.

— Não faça isso não, cara. Não sabia que você tinha virado ladrão. Tem quanto tempo isso?

— Tô sem trampo tem meses, doido. E a mulher lá já disse que vai mandar prender se não pagar a pensão da criança de novo. Então prisão por prisão, tá tudo na merda mesmo.

— Você já cometeu outros crimes?

— Só coisa pouca, tipo radinho, duas, três vezes.

— Você tem que idade?

— 21…

— Rapaz, sai dessa vida porque isso vai ficar caro pra você.

— E vou fazer o que?

— O que você sabe fazer? Terminou o ensino médio?

— Terminei sim, mano. Mas só trabalhei como servente de pedreiro até hoje, mas ninguém tá pegando.

— Sei, cara. Vou aliviar essa pra você, mas se eu souber que você tem aprontado, não vou deixar quieto não. E vou procurar me informar sobre o que você anda fazendo por aí. Outra coisa, segunda-feira você vai aparecer nesse endereço aqui às 7h30 sem falta. Já vou deixar avisado. Se você der mancada comigo…

Hoje, passei em uma obra no final da tarde para falar com um amigo que é construtor.

— O rapaz realmente leva jeito. Se ele mantiver o ritmo, vamos ver se colocamos ele num curso de pedreiro.

— Boa notícia. Bom saber disso.

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Written by David Arioch

May 30th, 2017 at 1:16 am

A beleza invisível aos olhos

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David Lynch mostra que um corpo deformado não anula as qualidades de um homem

Apesar da condição física, John Merrick é inteligente, sensível e gentil (Foto: Reprodução)

O Homem Elefante, do cineasta estadunidense David Lynch, é um filme de 1980 sobre a história de John Merrick (John Hurt), um jovem inglês com 90% do corpo deformado que mesmo vivendo sob a condição de aberração preserva grandes qualidades. Merrick vive sob a tutela do senhor Bytes (Freddie Jones) que explora a degradação física do personagem em um show de horrores. Constantemente violentado pelo tutor, só começa a reconhecer a própria existência como ser humano quando conhece o médico Frederick Treves (Anthony Hopkins). Sensibilizado com a situação, Treves consegue tirar Merrick do circo.

A degradação física de John representa muito mais do que o seu definhamento existencial. É um espelho da própria sociedade; como se cada pessoa que se assustasse com a feiura do rapaz confrontasse a si mesmo, seus defeitos e preconceitos. O cineasta David Lynch desmitifica também a ideia de que apenas pessoas de classes baixas se interessam pelo grotesco, o que é provado se compararmos duas cenas. Em uma, John Merrick é atração para um grupo de bêbados. Já em outra, é o novo entretenimento da aristocracia.

David Lynch mostra que a decadência humana independe de classe (Foto: Reprodução)

Os burgueses camuflam a curiosidade pelo mórbido agindo como se tivessem real interesse pela saúde do rapaz. Dessa maneira, independente de classe social, todos compõem o espectro da decadência humana. No início do filme, é possível crer que o cineasta apresenta uma história maniqueísta, com pessoas boas e más. Porém, aos poucos tal ideia desvanece e Lynch mostra que no fundo todos são seres humanos, guiados por interesses, seguros e inseguros, e conscientes e inconscientes de suas intenções. O momento em que o médico questiona a própria conduta, comparando-se ao cruel senhor Bytes, é um exemplo de como a culpa surge a partir de critérios subjetivos.

Se nas primeiras cenas é perceptível a influência do cinema expressionista alemão, principalmente nos momentos em que há distorções envolvendo cenários e personagens, em uma tentativa de ressaltar o caótico e aberrante, tudo parece mudar quando o cineasta David Lynch propõe uma viagem pelo interior de John Merrick. Gradativamente o espectador sente empatia pelo horripilante protagonista. Merrick é dotado de uma beleza interior que se contrapõe à aparência: é inteligente, sensível e gentil.

A confissão de um crime

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Jovem confessou ao padre que assassinou um amigo em nome da honra 

Frei Ulrico: “Ele assassinou um amigo que se recusou a casar com sua irmã.”

Há mais de cinquenta anos houve inúmeros casos em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, de homens que tiveram relações sexuais com moças, se comprometeram em casar e depois desistiram. Em tais circunstâncias a família da mulher sempre obrigava o homem a desposá-la sob ameaça de morte. À época, um jovem confessou ao frei alemão Ulrico Goevert que assassinou um amigo que se recusou a casar com sua irmã.

Quando um rapaz se relacionava sexualmente com uma moça, mas não pretendia se casar, a única chance de sobrevivência era ir embora do Paraná. “Fazia isso ou era levado para o cemitério mais cedo”, frisou o frei no livro de sua autoria “Histórias e Memórias de Paranavaí”.

As palavras do frei refletem a realidade de um tempo em que não era raro os membros da sociedade civil fazerem justiça com as próprias mãos. Exemplo disso é uma história relatada quando frei Ulrico estava em uma missão popular.

Certo dia, o frei e mais dois padres ouviram confissões até as 2h da madrugada. Assim que terminaram, chegou um rapaz de 20 anos. Em alto tom, para que todos ouvissem, o jovem narrou que ele e o pai, o homem que estava logo atrás, precisavam contar algo ao vigário. Enquanto o padre observou atentamente, o rapaz disse: “Cometemos um crime, mas não estamos arrependidos. O cometeríamos hoje de novo, se necessário.”

O padre pediu que falasse baixo, mas o jovem se recusou. Emendou que todos sabiam o que fez, nem por isso sentia vergonha. Chamou a atenção do frei Ulrico e relatou que em uma festa familiar a irmã de 19 anos dançou até ficar cansada. Em seguida, um amigo se comprometeu em levá-la para casa. ”No dia seguinte, encontrei minha irmã chorando na roça durante o trabalho. Ela contou que o meu amigo tinha lhe roubado a inocência. Comentei que isso era triste e eu como irmão providenciaria tudo para que o casamento acontecesse em breve”, declarou o rapaz.

No mesmo dia, à noite, o jovem procurou o amigo e ele concordou em se casar. O irmão da moça o advertiu que a situação precisava ser resolvida o mais breve possível, pois se tratava da honra da família. “Falei que ele teria um prazo de quatro semanas e que eu não toleraria qualquer adiamento. Do contrário, a honra seria lavada com sangue. Pra ele, não era novidade porque já conhecia esta lei não escrita”, enfatizou o jovem.

A família da moça sempre ficava atenta aos anúncios de casamentos feitos pela Igreja São Sebastião para saber se o jovem intimidado agendou a data da cerimônia. Após o domingo, cansados de esperar, o irmão e o pai da moça foram até a casa do rapaz e o ameaçaram. “Você casa até o dia 15 do próximo mês ou no dia 16 nós o pegaremos”, alertaram. O homem não cumpriu o combinado, então o irmão e o pai dela o mataram a pancadas na roça no dia 16. “O enterramos ali mesmo. Não nos arrependemos e faríamos tudo de novo, do mesmo jeito”, confessou o rapaz ao frei Ulrico que ao ouvir toda a narração ficou apático, sem reação.

Depois, o padre questionou se a polícia foi informada do acontecido. O jovem revelou que após o crime foram direto para a delegacia. Confuso, frei Ulrico perguntou: “E não prenderam vocês?” O rapaz afirmou que não. O delegado só quis saber se enterraram o corpo. Responderam que sim e o policial apenas comentou: “Então tá tudo em ordem!”

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