David Arioch – Jornalismo Cultural

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Ser vegano é mais fácil do que você imagina

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Os equívocos no discurso de Anderson França contra os veganos

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Sobre veganismo, França revela incompreensão, talvez por pré-conceito baseado em recortes unilaterais

Anderson França já publicou inúmeras críticas equivocadas sobre veganos e o veganismo (Foto: Reprodução)

Anderson França é um escritor com muitos seguidores no Facebook. Admito que até pouco tempo atrás eu não sabia quem ele era, até que alguém me mostrou algumas de suas publicações fazendo críticas e oposição aos veganos e ao veganismo. Antes de escrever este texto, decidi dar uma rápida olhada no trabalho dele. Me parece um autor com uma perspectiva interessante da vida e do mundo, que tem uma preocupação com a questão da justiça racial e social; que não recorre a subterfúgios para abordar a realidade como é, de forma direta e clara. Porém, quando publica alguma crítica a veganos ou ao veganismo revela falta de entendimento do assunto, talvez por pré-conceito baseado em recortes unilaterais.

No dia 6 de fevereiro, ele publicou um texto declarando que “quando veganos dizem ‘humanos’, eles não querem assumir a responsabilidade dos humanos BRANCOS pelo consumo em massa de carnes. Eles mandam um ‘humanos’ pra tu pegar no ar.” Desculpe-me, mas essa interpretação não condiz com a realidade. O uso do termo “humanos” se sustenta em uma questão óbvia de semântica e literalidade. O veganismo é sobre nossas responsabilidades enquanto espécie, independente de cor, etnia ou qualquer outra coisa. Não se trata de amortização de responsabilidades, e isso parece incomodá-lo.

A questão é que se dizemos que os “brancos são os grandes culpados pela exploração de animais”, isso significa então que está tudo bem se os outros continuarem explorando e consumindo animais porque pretensamente a responsabilidade deles seria menor. Não, isso não é coerente e justo. Do ponto de vista do veganismo, qualquer ser humano envolvido na desnecessária exploração e objetificação animal contribui com esse sistema, de forma consciente ou inconsciente, já que atua como um reforçador dessa trivialização em menor ou maior proporção. Se me alimento de animais, não interessa a qual grupo étnico eu pertenço, porque evidentemente ajudo a endossar esse sistema exploratório.

Sim, “os brancos” foram os maiores responsáveis pela introdução do sistema industrial de criação de animais após a Segunda Revolução Industrial, até por uma questão óbvia de maior controle dos meios de produção. Não creio que isso seja novidade para vegetarianos e veganos. Não conheço ninguém que negue isso. Contudo, em menor ou maior nível, praticamente todos os povos humanos contemporâneos estão envolvidos na exploração e na objetificação animal.

O que muda basicamente são as motivações dessa exploração e desse consumo. Há minorias, como os inuítes e alguns outros povos nativos que vivem em áreas remotas, que fazem isso, de fato, por uma questão de sobrevivência. E há populações maiores, de bilhões de pessoas, às quais pertencemos, que estão nessa por fatores históricos e culturais. Afinal, desde muito cedo, nós, assim como nossos ancestrais, somos motivados a consumir animais porque estamos imersos na ilusão de que se alimentar de seres não humanos é essencial, por força de uma propaganda que visa apenas o lucro e que se fortaleceu a partir do início do século 20.

Segundo Anderson França em 18 de março de 2017: “São 9 da manhã, e Maria, vó de 4 filhos, pede pra um deles ir no mercadinho comprar uma caixinha de Nuggets. Ou como minha mãe, que no aperto, era linguiça da mais barata, UMA, pras bocas dividirem com arroz. Seco. Ou na família de milhões de pessoas, onde ‘a opção da proteína’ não é uma opção, as pessoas não comem carne porque querem, veganos.” O exemplo acima se enquadra na frágil crença na necessidade da proteína de origem animal. A população humana tem necessidades proteicas bem modestas, com exceção de atletas e praticantes de atividades físicas de alta intensidade. Se Maria ou a mãe de Anderson França tivessem descartado os nuggets ou a linguiça, a refeição teria sido mais saudável. Mas não o fizeram por costume e desconhecimento, o que é muito comum.

Negamos que, por falta de informação ou não, muitos comem animais porque gostam ou por hábito, e até mesmo quando escolhem as chamadas “piores opções” ou as “opções mais baratas”. Afinal, que tipo de nutriente essencial à vida alguém pode obter consumindo empanados, linguiças e salsichão? Não seria um gesto de amor ou altruísmo alertar as pessoas sobre os malefícios desses alimentos em vez de defender esse consumo apenas para fazer oposição ao veganismo?

E por que as pessoas insistem no discurso que devemos comer arroz, feijão e carne? Mero costume, e a carne quase sempre é destacada até com mais importância do que outros alimentos vegetais nutritivos e mais baratos. Duvida? Procure por promoções em feiras e mercados. Eu, por exemplo, compro mais de 10 quilos de vegetais com R$ 15 a R$ 20 em promoções semanais; e são alimentos que suprem diversas das minhas necessidades nutricionais. Acha isso impossível? No Facebook, há grupos e páginas como Veganismo Popular, Veganos Pobres Brasil, Vegana Pobre e outros que auxiliam quem acredita que não tem condições financeiras para ser vegetariano ou vegano. Os participantes podem inclusive interagir com moradores da mesma cidade, tirarem dúvidas, etc.

Quando me falam da impossibilidade em ser vegano, costumo contar a história do poeta sírio cego Al Ma’arri que viveu no século XI e enfrentou grandes períodos de miséria em sua vida. Ele se alimentava principalmente de feijões e teve uma velhice tranquila. Al Ma’arri não consumia nada de origem animal. Então como alguém pode dizer que hoje é impossível não se alimentar de animais? Que hoje é difícil ser vegano se há centenas de anos outros trilharam esse caminho?

Em crítica aos veganos, Anderson França declarou em 18 de março de 2017 que “O agricultor SOCA veneno na fruta, e você compra, no seu supermercado da Zona Sul, após uma sessão de meditação no Jardim Botânico, tudo em harmonia, coloca na egobag, vai de bicicleta, passa sem falar com o porteiro, continua sendo um/uma egoísta que, agora, acha que é o momento de dizer pra milhões de pessoas, o quanto você estava certo. Que vida mesquinha, caras. Sai desse quadrado. Milhões de trabalhadores comem mal, comem comida processada, porque o tempo que gastam no trânsito, no trem, ônibus, BRT, Kombi, ida e volta, e o tempo no trabalho, lavando, descascando, embalando a fruta que você come depois do Ioga, isso tudo tira deles o momento com a família, tipo Fátima Bernardes no comercial com sorriso de orelha a orelha, servindo um prato com comida de plástico feita na agência de publicidade, com carininha, cenorinha, poesiazinha.”

Bom, eu não sei em quem o autor se baseou para fazer tal afirmação, mas é estranho usar um exemplo tão caricato e pejorativo para se referir a veganos de forma generalizada. Quem se preocupa com vidas não humanas é egoísta? Todos os veganos vivem na “Zona Sul”? Todos os veganos ignoram o porteiro? Todos os veganos têm tempo de sobra? É importante entender que veganos também lutam contra o uso de agrotóxicos, que por sinal é consumido em maior quantidade por quem consome animais do que por quem não consome, já que os animais criados para consumo se alimentam de enormes quantidades de vegetais contaminados com defensivos agrícolas, para não dizer pesticidas, praguicidas ou biocidas. Afinal, o ser humano tem predileção por matar e consumir animais herbívoros, já que a ideia de consumir um animal que comeu outro animal o enoja, a não ser quando ele é o próprio comedor de animais, o que é um ruidoso paradoxo.

Sobre as pessoas se alimentarem mal, como citado pelo escritor, creio que tenha mais relação com desinformação do que com tempo. Não considero a falta de tempo uma justificativa válida para não se alimentar um pouquinho melhor. A maioria dos veganos que conheço têm uma rotina bem atribulada. Há aqueles que saem de casa às 4h e retornam à noite. Quando o tempo é escasso, dedicam algumas horas do final de semana a prepararem alimentos e congelá-los para consumirem no decorrer da semana. Ou então improvisam com alimentos de rápido consumo, até mesmo frutas. Sou da seguinte opinião, se você não se importa com a sua própria vida, e prefere sabotá-la, siga em frente, mas saiba que talvez amanhã você não esteja aqui para amparar seus filhos e outros familiares. Não há nada que justifique o consumo de animais no mundo em que vivemos, muito menos o pretexto da saúde.

Escritor considera a alimentação vegana elitista, mas faz publicidade de “salmão com arroz basmati e legumes”. (Imagem: Reprodução)

Também me chamou a atenção uma publicação de Anderson França do dia 27 de junho de 2017 em que ele faz publicidade de um prato de “salmão com arroz basmati e legumes” por R$ 38 + taxa de entrega. Partindo de alguém que publica textos sobre acessibilidade e critica o veganismo por ser um “movimento elitista” e inacessível, reconheço que foi uma estranha surpresa. Fiquei imaginando quantas frutas, legumes, tubérculos e leguminosas eu poderia comprar com R$ 38 + taxa de entrega. Daria para alimentar ocasionalmente vários veganos. Provavelmente, eu compraria mais de 30 quilos de vegetais em um bom dia de promoção, e sem incentivar a exploração animal ou desconsiderar o risco de intoxicação por consumo de salmão criado em cativeiro e colorido artificialmente.

Outro ponto de reflexão é que a idealização de “qualidade de vida” associada ao consumo de “carnes nobres”, que parte de um equivocado senso comum, e é reproduzida por tanta gente, é a mesma dos glutões burgueses britânicos da era vitoriana, dos abastados da Grécia Antiga e dos imperadores romanos, que faziam da carne um símbolo de ostentação, de segregação social. Sendo assim, será que é coerente o oprimido buscar tomar parte em hábitos perpetuados a partir de uma consciência opressora? Não seria isso uma contradição? Ou será que o discurso de oprimido deve girar apenas em torno do que não diz respeito às nossas próprias inconsistências?

Anderson França enfatizou também que veganos brancos fazem parte de “uma civilização baseada na conquista e submissão de outros povos, e criam narrativas que sempre os coloca no centro.” Como veganos podem se colocar no centro se eles lutam contra o antropocentrismo e o especismo? Tomar para si o protagonismo de algo pode ser uma falha humana, mas sem relação com ser vegano. Uma rápida consulta sobre o conceito de veganismo rebate essa concepção não apenas incorreta como capciosa.

Eu já acredito que ao defender o consumo de animais o autor está endossando exatamente o que critica: “a civilização baseada na conquista e submissão de outros povos”. Se uma pessoa financia esse sistema, usufruindo do que ele oferece, ela tem responsabilidade sobre isso, não importando sua cor ou etnia, já que quando falamos em objetificação ou coisificação visando lucro o que importa é apenas uma coisa – números, tanto faz a cor ou etnia de quem está consumindo ou pagando.

Segundo Anderson França sobre o “pensamento eurocentrado” e o veganismo em 6 de fevereiro: “Visa manter os privilégios do sujeito branco, e de seus descendentes. Portanto, não seria demais revisitarmos o que estamos chamando de SISTEMA nos últimos 2 mil anos, uma vez que esse sistema passa por cima de outros para manter a sua narrativa. É aí que mora o perigo. Não é nem sobre o que você põe na sua boca ou no seu corpo, ou porque ‘ama’ animais, ou porque entende que isso seria justo com o ecossistema. É porque, por trás disso, ainda persiste a mão dessa cultura sobre outras.”

Veganos podem ter atitudes equivocadas como qualquer pessoa que luta por outra causa. No entanto, é importante ter o cuidado de não reproduzir inverdades, dando a entender que o veganismo é um movimento de “perpetuação do poder dos brancos”. Em 1944, o movimento vegano surgiu sim e formalmente por iniciativa de um inglês, logo caucasiano, chamado Donald Watson. Sim, em uma realidade europeia, mas por interesse de um carpinteiro que vivia na pequena Keswick, e que não tinha qualquer pretensão financeira em criar um movimento, mas apenas um anseio de fazer com que outras pessoas, assim como ele, passassem a reconhecer os animais como sujeitos de uma vida. Watson não pertencia a qualquer elite e se dedicava a isso voluntariamente.

Não vejo sentido em rivalidades desnecessárias que tencionam desmerecer uma causa simplesmente porque do alto de nossas predileções individuais não nos interessa porque não são sobre nós, mas sim sobre outras espécies. Todo tipo de exploração é tema de grande urgência se envolve vidas imersas em um universo de desconsideração. E nesse momento, o mais importante talvez seja um outro olhar para além do que chamamos de “nossas prioridades”.

Há muitas pessoas de causas humanitárias, e me incluo entre elas, que se tornaram veganas e ativistas dos direitos animais. O veganismo, como uma questão de justiça social não concorre com outras causas. Muito pelo contrário. Sobre o veganismo ser elitista, sim, isso é inegável se partirmos de uma perspectiva de acesso à informação e oferta de produtos industrializados. Há produtos que realmente são caros, até porque a oferta corresponde à demanda. Porém, é possível viver muito bem sendo vegano sem consumir esses produtos.

Para reforçar a minha contrariedade em relação a esse discurso do Anderson França, de que o veganismo é inacessível, cito o exemplo de Thallita Xavier, autora do artigo “Como é ser vegana e favelada”. Thallita inclusive ministra palestras simplificando o veganismo, mostrando como ele é facilmente praticável – bastando querer. Anderson França aparenta desconhecer a existência do Movimento Afro Vegano e da Feira Afro Vegan, realizada no Rio de Janeiro, e que tem motivado a criação de outras feiras nos mesmos moldes em outras capitais brasileiras.

O escritor ignora também que a defesa dos direitos animais não é sobre privilégios para não humanos, mas sim sobre o direito à vida, o direito de não sofrer por intervenção humana. Veganos têm o claro entendimento de que os animais são sencientes, conscientes e inteligentes; e não existem para nos servir, já que isso demanda privação, sofrimento e morte. Infelizmente, matamos por ano cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos. Isso deveria ser aceitável? É um motivo bastante justo para abdicar desse consumo.

Sempre que me deparo com alguém publicando algo contra o veganismo, imagino se essa pessoa tem ideia do impacto de seu discurso; se ela sabe a quem está beneficiando. Por quê? Porque veganos lutam contra a desvalorização da vida animal, e quem se empenha em desqualificar o veganismo, dependendo do discurso, pode contribuir involuntariamente com quem realmente se beneficia disso. Um exemplo? Muitas pessoas que dizem lutar por justiça social ignoram o fato de que a criação de animais para consumo e a produção de alimentos para nutrir esses animais movimenta muito dinheiro no mundo todo.

Além disso, fora as consequências para os animais, há também a comprovada agressão ao meio ambiente, como registrada na Amazônia, onde a pecuária responde por 65% do desmatamento, invadindo inclusive áreas protegidas, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Creio que não seja nenhuma novidade que grandes produtores e empresas desse ramo buscam favorecimento e flexibilização legal para crescerem e lucrarem cada vez mais. Então, o que eles fazem? Eles patrocinam políticos ou até mesmo se lançam na política para legislarem em causa própria – claramente perenizando as desigualdades sociais. E nesse cenário, quem são os maiores prejudicados? A população humana, os animais e a natureza.





 

Sou um justiceiro social…

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Sou um justiceiro social, odeio as desigualdades sociais, as mazelas econômicas e políticas, sou contra a formação de latifúndios, mas não abro mão de ir ao mercado comprar minha carne, minhas caixinhas de leite e meus ovos.

Não me importo que isso signifique a manutenção do status quo, que esse dinheiro seja usado com finalidades que não me interessam, que sirva para eleger políticos que vão legislar em causa própria ou em benefício daqueles que os financiaram.

Tanto faz se isso tem impacto no meio ambiente, se nesse meio há casos de mão de obra análoga ao trabalho escravo; e menos ainda me importa se animais vão sofrer por causa disso. O mais importante é eu não saber de nada disso, porque assim posso continuar lutando por “justiça para todos”, uma justiça pela qual sou capaz de tudo, menos readaptar o meu paladar.





 

Direitos animais não são sobre privilégios para não humanos

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Sue Coe: “Ser vegano está além do que você come. É um movimento de justiça social”

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“Enquanto falamos, somos capazes de ouvir um bezerro que foi tirado da própria mãe e chora sem parar por três dias. Essa é a realidade [da produção de leite]”

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Sue Coe: “Quando você segura uma galinha, você percebe que há uma força de vida lutando para sobreviver”

Nascida em 21 de fevereiro de 1951, a artista e ilustradora Sue Coe, uma das maiores referências em arte sobre direitos animais, cresceu perto de um matadouro em Tamworth, Staffordshire, na Inglaterra. A experiência fez com que ela desenvolvesse um grande interesse em sensibilizar as pessoas sobre a crueldade contra os animais. Porém, seus pais esperavam que ela trilhasse outro caminho. Na adolescência, eles queriam que Sue se tornasse uma secretária ou trabalhasse em uma fábrica. Idealista, ela preferiu se arriscar como artista.

Estudou ilustrações e arte comercial na Chelsea School of Art e na Royal College of Art, em Londres. Mesmo sonhando com um futuro nesse ramo, ela se sentia incomodada com o fato de que as mulheres inglesas que atuavam nessa área só eram contratadas para ilustrar livros infantis. Coe não queria isso.

Para a sua surpresa, o dom para as artes chamou a atenção de revistas inglesas e de outros países europeus. Quando se mudou para Nova York em 1972, aos 21 anos, ela decidiu enveredar pelo caminho do artivismo, ou seja, começou a produzir arte como uma ferramenta de ativismo político. Na matéria “Staying True to a Unique Vision of Art”, publicada pelo Los Angeles Times em 1º de abril de 2001, ela relatou que o que a atraiu nos Estados Unidos foi o multiculturalismo, uma abertura de espírito muito emocionante.

Em Nova York, ela recebeu importantes convites para abordar questões como fome, miséria, terrorismo e racismo. Suas ilustrações ocuparam espaço privilegiado em edições de importantes veículos de comunicação, como o New York Times, New Yorker, Time, Newsweek, Village Voice, Esquire, Mother Jones e Rolling Stone.

Ainda nos anos 1970, enquanto vendia suas obras, Sue Coe deu aulas na School of Visual Arts, de Nova York. “Ela se estabeleceu como uma versátil artista adepta de pinturas, desenhos, litografias, colagens e gravuras, habilmente usando guache, grafite, aquarela, lápis de cera e carvão. […] Ela mostra problemas sociais ignorados ou ocultados pelo governo, corporações, sociedade e mídia. Ela costuma ser comparada a artistas como Honoré Daumier, Käthe Kollwitz e Francisco Goya”, escreveu Susan Vaughn, do LA Times.

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Foi no início dos anos 1980 que Sue Coe se voltou para a situação dos animais mortos para consumo humano. Ao longo de seis anos, ela realizou pesquisas e visitou matadouros de várias regiões dos Estados Unidos. “Quando comecei, pensei: ‘Ah, isso não vai mudar.’ Então percebi que poderia motivar as pessoas. Acho que o melhor que pode acontecer é você instigar o diálogo. Acredito que a maioria das pessoas tem a mente aberta”, informou Coe à Susan.

A artista inglesa, que se considera uma jornalista visual, possui um estilo mordaz que lembra o trabalho do escritor e reformador social Upton Sinclair, autor de The Jungle (A Selva), que denunciou as mazelas da indústria frigorífica em 1906. Modesta, Sue Coe diz que se um dia alcançar 1% da genialidade do pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, autor de Slaughtered Ox (Boi Abatido), de 1655, ela se sentirá realizada.

Autora de livros de ilustrações como “Dead Meat”, de 1995; “Pitt’s Letter”, de 2000; “Sheep of Fools”, de 2005; “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, de 2012; e “The Animals’s Vegan Manifesto”, de 2017, ela contribuiu para que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas e veganas por meio de sua arte engajada na defesa dos direitos animais. Muitas de suas ilustrações denunciam principalmente a cruel realidade vivida por animais criados e mortos para tornarem-se comida. “Por favor, veja por si mesmo, vá a um matadouro. Veja o que ocorre e, se você não pode, pergunte a si mesmo o porquê”, sugeriu.

Sempre que a questionam sobre como ela consegue retratar situações dolorosas sem enlouquecer, Sue Coe argumenta que o seu trabalho é uma forma de terapia, além de sentir-se motivada pela possibilidade de mudar a mente das pessoas em relação a como os animais são vistos e tratados. “Quando você segura uma galinha, e elas são feitas apenas de carne e ossos, mas você sente um coração batendo rapidamente, você percebe que há uma força de vida lutando para sobreviver, é isso que me move”, argumentou em entrevista ao LA Times.butcher-to-the-world-fix

Durante alguns anos, a ilustradora vegana Sue Coe viveu em um apartamento de um quarto em Nova York, dedicando-se às ilustrações. Embora famosa nesse meio, sempre vendeu impressões de alguns de seus trabalhos a preços bem acessíveis. “Não compro coisas que não preciso. Meu trabalho é mais importante do que possuir um micro-ondas [por exemplo]”, ponderou, acrescentando que destina parte de seus lucros à Farm Sanctuary, em Watkins Glen, em Nova York. O santuário cuida de animais que seriam mortos pela indústria agropecuária.

Segundo Sue, mesmo que você seja uma artista e tente desenhar 50 vacas ou 50 ovelhas, você precisa ter em mente que todas elas têm diferentes personalidades. E se você for a um santuário e começar a desenhá-las, elas se apoiarão em você, e você sentirá o seu doce hálito com aroma de feno:

“Cada uma é tão individual e diferente. E desenhar apenas 50 é quase impossível. Por isso, preciso olhar nos olhos de uma ovelha ou de todos os animais que encontro em um matadouro, o que representa apenas uma gota do sangue de todos os animais massacrados. E assim que sou notada, muitos deles me olham diretamente nos olhos, e o que eles dizem, eu registrei isso em um livro. O que eles dizem é tão claro como se escrevessem em inglês e com letras gigantes: ‘Por que vocês estão fazendo isso comigo?’ É o que eles estão dizendo.”

Em entrevista a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine, de Nova York, em 2 de agosto de 2012, Sue Coe contou que pessoas influentes do mercado editorial de Nova York tentaram se livrar dela nos anos 1980. Mesmo que não tenham conseguido fazer com que desistisse do seu trabalho, ela prefere dizer que não tem uma carreira, mas sim uma missão: “Já amarguei meses e meses sem dinheiro, pensando: ‘Ah, como eu gostaria de ter sido capaz de vender este mês, ou coisa parecida. Mas estou tão acostumada com isso agora. Então nunca pensei no meu trabalho como uma carreira.”

Ela jamais se esqueceu do dia em que acompanhou um bando de cabras e ovelhas arrastadas para um matadouro. Compenetrada no comportamento dos animais, ela se distanciou de si mesma. “Continuei a desenhar mecanicamente, e o resultado é um desenho que nunca estará à venda. É um lembrete para mim, do porquê estou fazendo esse trabalho”, justificou.

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Questionada sobre como faz para conseguir entrar em matadouros onde nenhum jornalista entrou antes, Sue Coe explicou que tudo depende da abordagem e das ferramentas que você carrega. “Levo apenas papel e lápis, e as pessoas podem ver o que estou fazendo. Não estou roubando nada. Não vou tirar nada. Se eles querem meus desenhos, eles podem tê-los. Contanto que eu não retrate trabalhadores como monstros, o que nunca faço de qualquer maneira, embora algumas vezes fiz isso, tenho de admitir”, revelou em entrevista a Caryn Hartglass no podcast “It’s All About Food” em 20 de junho de 2012.

Sue Coe prefere visitar matadouros menores, porque esses são os que menos dificultam suas visitas. Mesmo assim, ela sempre se depara com uma mesma situação – funcionários de matadouros com receio de ficarem desempregados. “Eles não querem ser atacados por ativistas dos direitos animais. Então eles me veem e simplesmente conversamos sobre qualquer assunto que eles queiram. Muitos deles são falantes de espanhol. Então dou-lhes um desenho, e eles podem olhar e dizer se devo mudar alguma coisa. Eles apenas olham e dizem: ‘Ah, isso é bom! Você poderia ser estenógrafa’”, narrou.

Sue perdeu as contas de quantos matadouros visitou ao longo de décadas. Só no livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, de 2012, ela traz ilustrações de experiências em 35 a 40 matadouros. “É muito mais fácil entrar em matadouros halal [islâmico] ou kosher [judaico] porque eles são pequenos, de propriedade familiar. Os maiores são da IBP [International Pork and Beef]. Entrei [em matadouro deles também], mas foi muito difícil. Costumo chegar dizendo: ‘Sou uma artista. Gostaria de desenhar.’ Eles dizem sim ou não”, resumiu.

Quando permitem que Sue Coe visite um matadouro, ela é revistada e em seguida lhe entregam um uniforme. “Não é necessário que alguém entre em um matadouro para ver e entender o que acontece lá dentro. Você esquece muito rapidamente, pessoas esquecem, mas eu nunca esquecerei. Vou fazer isso até morrer, porque é minha responsabilidade com os rostos que vi. Esse é o meu trabalho. Essa era a vida deles. Eu os vi. Eles olharam em meus olhos, e eles me viram”, garantiu a ilustradora a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine.4- The Ghosts Of The  Skinned Want Coats Back.jpg

Com a experiência de quem acompanha a realidade dos animais explorados na indústria alimentícia desde os anos 1980, Sue admite que produzir centenas e centenas de desenhos e pinturas sobre a questão animalista intensificou sua conexão com os animais. Em entrevista a Elin Slavick do Media Reader, em 2005, ela destacou a importância de educar o público sobre a trajetória do “alimento” de origem animal antes dele chegar à mesa:

“Acredito na bondade das pessoas, e acho que elas são inteligentes o suficiente para fazerem uma boa escolha. Abram as portas dos matadouros e das fazendas. Deixe as pessoas verem como as porcas são mantidas presas suas vidas inteiras, sem espaço para girarem o corpo. Porcos em estado natural [livres], passam 70% de suas horas de vigília explorando o ambiente, se enraizando na sujeira e socializando. Os bezerros, fracos demais para manterem-se de pé, são alimentados apenas com leite, encaixotados e enviados para o abate. Há cientistas que dizem que as vacas leiteiras estão tão cansadas quanto um ser humano correndo em uma maratona, por causa do estresse em seus corpos em decorrência da enorme produção de leite. E as galinhas, que vivem sem espaço suficiente para estica suas asas, são seis por cada gaiola até o momento do abate; ficam com os ossos tão fracos que desenvolvem fraturas por causa do estresse físico.” (An Interview with Sue Coe By Elin Slavick, Media Reder, 2005).

Sue Coe jamais acreditou que as leis do bem-estarismo, que alega diminuir o sofrimento do animal reduzido a produto, vão culminar no abolicionismo animal. Para ela, não existe bem-estar quando se fala em um animal que vai ser eventualmente morto para o consumo humano. “Sob este sistema econômico, a pressão é para que a pequena fazenda fique maior ou vá à falência. Penso que esta luta para melhorar as condições de vida dos animais criados em fazenda tem chamado a atenção das pessoas. Ela tira a pressão sobre o pequeno criador, que pode receber subsídios para migrar da criação de animais para a produção de vegetais, e isso [em médio ou longo prazo] acabará por eliminar os métodos das fazendas industriais”, analisou.

Sue viaja muito ministrando palestras sobre desenhos e ilustrações, e não para ativistas dos direitos animais, mas sim para comunidades, locais em que, para a sua surpresa, seu trabalho é muito bem recebido. “Costumo dizer que as fazendas industriais são erradas e discutirmos sobre isso. Então eles falam que vão parar de consumir produtos de origem animal. Agora a pergunta número um que recebo é: ‘Está tudo bem em comer produtos do abate humanitário?’ Claro que digo que não! Não está tudo bem em comer qualquer animal, de pequenas ou grandes fazendas. E as pessoas entendem. Se alguém se torna um farol por causa do meu trabalho, esse é o meu prêmio. Como disse um ativista, é como empurrar uma pedra até uma colina com a ponta do nariz. Não é fácil, mas pode ser feito”, relatou a Caryn Hartglass, do podcast “It’s All About Food” e a Susan Vaughn, do Los Angeles Times.

“Não podemos nem chegar perto da opressão do direito corporativo [da indústria da exploração animal]. Nossa propaganda é como um minúsculo dedal cheio de verdades – uma minúscula partícula. Mas essa partícula é muito perigosa para eles. Por isso que eles estão constantemente tentando esmagá-la. Quero dizer, tudo que temos a fazer é um panfleto, cartaz ou grafite, e isso pode explodi-los em um sopro, porque tudo que eles fazem é baseado em mentiras. E [sabemos que] um pouco de verdade pode se espalhar por águas oleosas.” (Drawing Attention: Sue Coe, de Sunaura Taylor, Bomb Magazine, 2 de agosto de 2012.) 

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Sue Coe não se define politicamente. Ela alega que isso pode interferir na mensagem. Em sua opinião, não é útil rotular-se. “Como artista, desejo que o espectador olhe através dos meus olhos, veja o que vi, e não olhe para a cor dos meus olhos. […] Não sei se a alegria é possível para cada ser vivo, mas cada ser vivo faz o máximo que pode para evitar sofrimento e dor”, disse a Elin Slavik, do Media Reader.

Vivendo há alguns anos em uma cabana sustentável e com energia solar em uma floresta ao norte de Nova York, Sue Coe não raramente escuta o que ocorre nas fazendas vizinhas. “Enquanto conversamos, somos capazes de ouvir um bezerro que foi tirado da própria mãe e chora sem parar por três dias. Essa é a realidade [da produção de leite]”, lamentou a Caryn Hartglass.

Sobre a sua descrença no suposto abate humanitário, a artista também relatou como exemplo a experiência de um amigo que visitou um matadouro no Canadá. No local, eles têm câmaras de gás, onde os porcos seguem um sistema de linha única. Porém, quando o animal percebe a iminência da morte, ele faz de tudo para sair do local, inclusive tentando escalar as laterais:

“Nesse processo, eles são eletrocutados nos olhos, que é uma parte tão sensível deles quanto a nossa. Eles são cutucados para seguirem no sistema de linha única. Assim, o chamado abate humanitário acaba por ter o dobro de tortura. É por isso que quando os defensores dos direitos animais se envolvem com isso, eles precisam ser muito cuidadosos, porque a indústria da carne é apenas sobre como lucrar. E eles podem incluir câmaras de gás porque são baratas, já que mata seis animais de cada vez. É por isso que acho incrivelmente ingênuo, ou terrível, quando os defensores dos direitos animais se envolvem nesse tipo de manipulação da indústria da carne”, confidenciou ao podcast “It’s All About Food” em 20 de junho de 2012.slaughterhouseentrance

Sue Coe argumenta que o único caminho de assegurar um tratamento mais justo aos animais não humanos é o veganismo. Ninguém precisa ser um amante dos animais para se tornar vegetariano ou vegano. O mais importante é entender que eles também têm direito à vida “Ser vegano está além do que você come. É um movimento de justiça social. Não se trata de uma escolha enquanto consumidor”, explicou a Caryn.

A ilustradora espera que chegue o dia em que os direitos animais e as questões de justiça social sejam bem aceitos, e as pessoas vejam como era o passado e digam: “Aqueles eram tempos sombrios, quando seres humanos costumavam matar animais para comer.” Sue crê que é muito fácil ser seduzido pela ideia de que os seres humanos são simplesmente maus. Porque se vermos o que fazemos deliberada e inconscientemente aos animais não humanos, a nós mesmos, a tudo, é muito fácil pensar que não há esperanças.

“É muito sedutor, mas não é verdade. Temos agora uma estrutura econômica que atinge a pior parte da espécie humana. Imagino uma sociedade com um tipo de estrutura econômica diferente – porque eu absolutamente acredito que os seres humanos farão o melhor sempre, se eles tiverem a oportunidade de tentar. Vi isso em tantos países diferentes no mundo, onde as pessoas são tão pobres, mas ainda partilham suas últimas coisas. Acho que seres humanos geralmente são muito nobres, estamos apenas presos neste maldito sistema que nos reflete. É uma ingenuidade política pensar que o ativismo dos direitos animais é apenas uma questão – que qualquer ativista é uma pessoa de apenas uma questão”, assinalou em entrevista a Sunaura Taylor, da Bomb Magazine publicada em 2 de agosto de 2012.

Saiba Mais

Para quem quiser conhecer melhor o trabalho de Sue Coe, acesse: www.graphicwitness.org

A artista inglesa pede que as pessoas visitem o site do santuário que ela ajuda em Nova York. Na página, há muitas informações sobre investigações de crueldades contra animais em fazenda – www.farmsanctuary.org.

Referências

http://www.graphicwitness.org/coe/latimes.htm

http://elena-kuzmina.blogspot.com.br/2008/05/art-activism-interview-with-sue-coe-by.html

http://bombmagazine.org/article/6696/

http://responsibleeatingandliving.com/interview-with-gary-steiner-and-sue-coe/

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