David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Sou um justiceiro social…

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Sou um justiceiro social, odeio as desigualdades sociais, as mazelas econômicas e políticas, sou contra a formação de latifúndios, mas não abro mão de ir ao mercado comprar minha carne, minhas caixinhas de leite e meus ovos.

Não me importo que isso signifique a manutenção do status quo, que esse dinheiro seja usado com finalidades que não me interessam, que sirva para eleger políticos que vão legislar em causa própria ou em benefício daqueles que os financiaram.

Tanto faz se isso tem impacto no meio ambiente, se nesse meio há casos de mão de obra análoga ao trabalho escravo; e menos ainda me importa se animais vão sofrer por causa disso. O mais importante é eu não saber de nada disso, porque assim posso continuar lutando por “justiça para todos”, uma justiça pela qual sou capaz de tudo, menos readaptar o meu paladar.





 

O que você pensa sobre as desigualdades sociais?

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Acervo: Escola Kids

Não é muito difícil descobrir ou pelo menos inferir o que uma pessoa pensa sobre as desigualdades sociais. Basta questioná-la sobre o que ela acharia de um mundo baseado em igualdade; onde uns não seriam absurdamente mais ricos do que outros. Até mesmo a hesitação, a expressão, pode dar um indicativo da resposta. Você já pensou sobre isso?

Estaria tudo bem para você não ter mais dinheiro do que os outros? Mais coisas do que os outros? Não poder se exaltar de suas aquisições materiais? E simplesmente porque o que você tem o outro também tem? Ou pelo menos ter o direito de ter se ele quiser. Ou imagine então um mundo onde as pessoas não dariam a mínima para coisas, porque coisas são basicamente o que são – em muitos casos, produtos aos quais atribuímos mais valor pelo que nos custam, pela exceção, pelo distanciamento que existe entre elas e os outros, do que pelo que são em um sentido funcional ou mesmo hedonista.

A ausência de distinção baseada no poder econômico ou no “acúmulo de coisas que não são acessíveis para uma maioria” possivelmente exigiria um esforço intelectual para se destacar, levando em conta que platitudes como “o que eu tenho que você não tem” não chamaria mais a atenção, e simplesmente porque o ter, materialmente, talvez fosse relegado à insignificância, ou pelo menos à adiáfora. E neste contexto o ser precisaria estar em constante evolução, ao contrário do ter, que não exige evolução moral de ninguém, caso a pessoa não queira. Prova disso são pessoas que nascem em um ambiente de grande poder econômico, e de repente, optam por não fazer nada no decorrer da vida a não ser gastar dinheiro para ocupar o tempo, desconsiderando todo o resto.

Há também pessoas com muito dinheiro que tendem a considerar seus chamados esforços, envolvam eles atividades ilícitas ou não, desrespeito ou não à vida e a dignidade humana e não humana, como sendo únicos, singulares, e por isso devem ser recompensados de forma dissemelhante, mesmo que isso signifique uma diferença do tipo: “O que você jamais ganhará a vida toda eu ganho em uma semana”. “Eu fiz o que você não seria capaz de fazer. Por isso estou onde deveria estar, onde não é o seu lugar.”

“Porque o meu esforço é muito maior que o seu, sou muito mais inteligente que você, então mereço, de fato, ganhar muito mais que você; e a você resta me servir, mesmo que para isso tenhamos que criar um simulacro de evolução para evitar que você ache que sua vida não está melhorando.” Em síntese, uma sutil estagnação oscilante. “Afinal, porque isso é o que cabe à sua limitada competência que está sempre longe de se igualar à minha”, diriam.

Muitas das mazelas que existem no mundo estão intrinsecamente relacionadas ao fato de que muitos daqueles que têm poder encaram sua força e distinção econômica como uma forma de certidão de superioridade, e o mundo diz que eles estão certos, por mais que leis que não valem na prática tentem informar o contrário. Porque leis são fundamentadas na plasticidade. Existem mais para parecer do que para ser.

E a sociedade e o sistema em que estamos imersos manda iterados sinais de que isso é pura vericidade. E o que dificulta qualquer mudança não é a incapacidade de reconhecer que isso não é benéfico para a maioria, mas sim que desde sempre, até mesmo entre os mais miseráveis há aqueles que não gostariam de um mundo justo, de igualdade; logo jamais lutariam por isso se desejam ocupar a posição daqueles que “estão no topo”, sejam eles criminosos ou não. Claro, porque a sua inexistência é uma consequência natural do que você não possui, segundo a perspectiva comum. Então perpetua-se a crença de que existirei à medida do que terei.

 





 

Written by David Arioch

February 5th, 2018 at 2:06 pm

Veganos e o compromisso de não contribuir com a exploração animal

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Retratos de um sistema exploratório que objetifica animais, os colocando em condição de privação e sofrimento. São seres vivos que, em muitos casos, nascem e morrem sem saber por que existiram (Fotos: Jo-Anne McArthur)

De vez em quando me deparo com alguém dizendo que veganos são hipócritas porque não estão livres de usarem algo de origem animal. Sim, essa pessoa tem razão ao dizer que não estamos livres de usarmos algo de origem animal, ou testado em animais. Mas sabe por que não somos hipócritas?

Justamente porque tomamos para nós a responsabilidade de não contribuir com a exploração animal. Afinal, nos esforçamos para evitá-la. Sabemos que a exploração existe, e temos conhecimento do mal que ela causa. E é por isso que entendemos que não temos o direito de fazer isso com os animais. Então ser vegano é um esforço constante de se livrar das armadilhas de uma indústria que explora os animais o máximo possível.

Hipocrisia, no meu entendimento, e aproveitando esse discurso agressivo que não raramente encontro por aí, é o fato de saber que a exploração animal existe, que é possível se esforçar para não tomar parte nisso, e ainda assim virar as costas e apontar o dedo para quem tenta contribuir com uma vida mais digna para os animais não humanos.

Muitos veganos se empenham em conscientizar as pessoas sobre as consequências que envolvem a fabricação dos muitos produtos de origem animal. E a partir do momento que a indústria reconhece que as pessoas já não aprovam o uso de animais em um produto, ou que sejam realizados testes em animais, ela é obrigada a rever o seu papel, se não junto aos animais, pelo menos junto aos consumidores, o que já força uma desaceleração que envolve esse tipo de exploração.

É importante não ignorar que se estamos imersos em um universo onde a maior parte dos produtos é de origem animal, ou pelo menos traz algo de origem animal na composição, é porque a maioria da população segue indiferente à exploração e ao sofrimento animal; assim inexistindo uma grande demanda que poderia mudar os rumos das nossas relações com os animais. Sem dúvida, as opções de alimentos e outros produtos isentos de exploração animal vão surgindo conforme as pessoas se recusarem a alimentar esse sistema injusto e mortífero.

 

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Não brigo para parecer mais ou menos vegano aos olhos de ninguém

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Arte: Sue Coe

Não brigo para parecer mais ou menos vegano aos olhos de ninguém. O foco do meu trabalho não é esse, mas sim informar, conscientizar e sensibilizar as pessoas sobre a exploração animal. Sou um cara comum, que anda e vive como uma pessoa comum. Como já disse outras vezes, as pessoas podem me chamar do que elas quiserem: vegano, vegetariano ou nada. Eu me importaria ou brigaria por algo assim se a minha luta fosse por identidade, mas não é. Minha luta é por justiça, e essa luta independe disso.

 





Abdicar do consumo de laticínios é um ato de justiça em prol dos animais

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A realidade prova que o romantismo na exploração de vacas leiteiras é apenas um mito

Considero um equívoco quando alguém me diz que o problema do sofrimento dos animais nos grandes laticínios poderia ser resolvido se as pessoas comprassem leite de pequenos produtores. Tudo bem, então você compra leite do pequeno produtor e eu também. Daí quando as pessoas perguntarem, explicamos que o ideal é nunca comprar de grandes produtores.

Em pouco tempo, teremos uma infinidade de pessoas indo pelo mesmo caminho, e assim esses pequenos produtores serão obrigados a tornarem-se grandes produtores ou a saírem do negócio, já que eles deverão suprir a demanda ou ceder espaço para quem faça isso. A verdade é que enquanto as pessoas continuarem consumindo leite, inclusive muito mais do que os próprios bezerros, a intensa exploração da vaca vai continuar. Afinal, usa-se leite em quase tudo, até mesmo na composição de adoçantes.

Não há uma solução mais sustentável do que abdicar desse consumo, muito menos como evitar que todas as vacas do mundo passem por algum tipo de sofrimento ou privação enquanto as pessoas consomem quantidades exorbitantes e mesmo nocivas de laticínios. Não existe nem mesmo área para que todas as vacas da indústria leiteira sejam criadas de forma “humanizada”. Afinal, essa é a realidade do sistema industrial predominante, que atua conforme a demanda. E se a demanda é grande, o ritmo de produção é acelerado, o que significa que mais do que nunca o lucro se torna prioritário.

Além disso, os produtores de leite do Brasil descobriram há muito tempo que é possível lucrar até três ou quatro vezes mais criando o gado leiteiro sob regime de confinamento, seguindo o exemplo de países como os Estados Unidos. Logo não vejo por qual motivo eles iriam abdicar desse sistema se não for por força de uma grande desaceleração no consumo, já que o mercado age em conformidade com as reações dos consumidores.

Um fato a se considerar sobre a produção nacional de leite é que em 2015, de acordo com dados da Leite Brasil, somente as 15 maiores empresas do ramo de laticínios do Brasil foram responsáveis por quase 10 bilhões de litros de leite. Só a Nestlé respondeu por 1,8 bilhão de litros. Levando isso em conta, como alguém pode afirmar que não contribui com a exploração industrial das vacas simplesmente porque não bebe o leite comercializado por grandes produtores? Isso não diz nada.

Seria uma grande ilusão, a não ser que a pessoa seja vegetariana ou vegana, porque quem consome laticínios, ou não lê os rótulos dos produtos (que costumam conter derivados lácteos) e os compra, naturalmente contribui para a manutenção desse sistema. Mesmo que alguém afirme que as vacas sejam “bem tratadas”, que não sofrem violência, isso não muda o fato de que elas são submetidas à ordenha natural ou mecânica por anos, até que, com a queda da produção, são vendidas aos frigoríficos, abatidas e reduzidas a pedaços de carne expostos em um açougue. Não podemos ignorar também que muitos bezerros também têm a morte como destino por causa da alta demanda de laticínios. Ou seja, o leite que seria usado para alimentar o filhote da vaca é destinado aos seres humanos.

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Ensine seu filho a ser justo com os animais

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Foto: Caters News Agency

Ensine seu filho a ser justo com os animais, e assim ele também será justo com os seres humanos. Mas se permite que ele seja pernicioso com os animais não humanos, provavelmente ele entenderá que não há problema em ser injusto também com os de sua espécie, já que o seu senso de justiça há de diluir-se em seu ego.

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Written by David Arioch

February 11th, 2017 at 5:20 pm

Coetzee: “É mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer”

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Um vencedor do Nobel de Literatura preocupado em mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais

Coetzee: “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso”

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é conhecido como um homem tímido e recluso, que não gosta de dar entrevistas desde 1974, quando iniciou sua carreira literária. Porém, para veículos que atuam em defesa dos direitos animais, ele sempre se mostrou mais receptivo e disposto a fazer concessões.

Um exemplo é uma rara entrevista, intitulada “Animals, Humans, Cruelty and Literature”, publicada em maio de 2004 na revista Satya, fundada em 1994, no Brooklyn, em Nova York. A matéria, baseada na entrevista que o jornalista Henrik Engström realizou com Coetzee por e-mail, veio a público pela primeira vez no jornal sueco Djurens Rätt. Mesmo após a entrevista, o jornal que aborda os direitos animais conseguiu manter contato com o escritor sul-africano ao longo de um ano.

O que diferencia Coetzee de muitos outros atores que abordam a questão animalista é que ele não qualifica o amor e a compaixão pelos animais como imprescindíveis na causa animal. Para o escritor, o mais importante é que os seres humanos reconheçam que não existe justiça quando matamos animais para transformá-los em comida ou produtos, independente de espécie. Ou seja, a exploração animal é inaceitável do ponto de vista moral e ético.

E foi por causa dessa visão que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A sua indicação veio logo após o lançamento do livro “Elizabeth Costello”, de 2003, em que ele dedica dois capítulos a discutir a relação dos seres humanos com os animais. “Os animais estão na minha ficção ocupando um papel subsidiário, em parte, porque eles realmente ocupam um papel meramente subsidiário em nossas vidas. E em parte, porque não é possível escrever sobre a vida dos animais com a devida complexidade”, justificou.

Questionado se ele acredita que a indicação do seu livro ter sido feita justamente pela abordagem da questão animalista, Coetzee admitiu que um único livro não é capaz de mudar o mundo em relação a isso, mas talvez tenha um pequeno impacto. Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura do sul-africano começou com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, principalmente quando ele decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

E o que decepcionou Coetzee à época foi o fato de que as editoras ignoraram o papel dos animais em seu livro. “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso. Os personagens refletem a forma como os animais são tratados no mundo em que vivemos, como existências insignificantes que só reconhecemos quando suas vidas cruzam as nossas”, lamentou a Engström.

Coetzee é um escritor que não prioriza a conquista de direitos legais para os animais. Sua maior preocupação é mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais. “O mais importante de todos os direitos, é o direito à vida. Não posso prever que um dia os animais terão esse direito em forma de lei. Então o que podemos fazer é mostrar para o maior número de pessoas o custo psíquico e espiritual da forma como tratamos os animais, e assim talvez mudar nossos corações”, enfatizou.

O escritor não qualifica os seres humanos como naturalmente cruéis. Ele exemplifica o fato de que para sermos cruéis teríamos que fechar sempre os nossos corações para o sofrimento do outro. “É inerentemente mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer do que anular nossas simpatias pelo homem que vamos enviar para a cadeira elétrica. […] Evoluímos nossos mecanismos psíquicos, sociais e filosóficos para lidar com a matança de aves. Por razões complexas, usamos os mesmos mecanismos para permitir a matança de seres humanos somente em tempos de guerra”, avaliou.

Segundo J.M. Coetzee, um erro que cometemos com muita frequência é o de não perceber que o modo de consciência das espécies não humanas é bem diferente da consciência humana. Acredita-se que o ser humano é capaz de habitar a consciência de um animal, enquanto que por meio da faculdade da simpatia é possível para o ser humano saber como é ser alguém. “Os escritores são reputados por possuir fortemente esta qualidade particular. Se é de fato, ou pelo menos muito difícil habitar a consciência de um animal, então ao escrever sobre os animais, há uma tentação de projetar sobre eles pensamentos e sentimentos que podem pertencer somente à nossa própria mente humana e coração”, ponderou.

Coetzee crê que somos sempre tentados a procurar nos animais o que desperta com mais facilidade nossa simpatia ou empatia, na tentativa de favorecer espécies animais que, por uma razão ou outra, nos parecem quase humanas em seus processos mentais e emocionais. “Assim os cães são tratados como quase humanos, enquanto os répteis são tratados como completamente estranhos”, citou em referência ao especismo, conduta humana que legitima a exploração animal.

Sem animais de estimação em casa, o escritor se contenta em dizer que “considera” ter uma relação pessoal com pássaros e sapos que visitam sua propriedade. “Mas não creio por um minuto que eles acham que têm relações pessoais comigo. Sim, sou vegetariano. Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”, confidenciou.

Referência

Engström, Henrik. Satya Mag. Animals, Humans, Cruelty and Literature – A Rare Interview with J.M. Coetzee (2004).

http://www.satyamag.com/may04/coetzee.html

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Coetzee: “Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça”

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“Basta apenas um olhar para que uma criança se torne vegetariana por toda a sua vida”

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Coetzee: Dada a chance, as crianças sempre verão além das mentiras com as quais somos bombardeados pelos anunciantes (Foto: Jerry Bauer)

Basta apenas um olhar para que uma criança se torne vegetariana por toda a sua vida. Com essas palavras, o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2003, e considerado um dos maiores autores de língua inglesa da atualidade, emocionou uma grande plateia em Sidney, na Austrália, no dia 22 de fevereiro de 2007, quando falou sobre os direitos dos animais. A repercussão foi tão positiva que seu discurso foi publicado em alguns dos mais importantes jornais do mundo.

“Animais felizes transformados de forma indolor em nuggets, o sorriso da vaca do comercial de leite que diz doar o próprio leite para nós. Dada a chance, as crianças sempre verão além das mentiras com as quais somos bombardeados pelos anunciantes. A respeito disso, crianças nos fornecem as mais brilhantes esperanças. Elas têm corações ternos, que não foram endurecidos por anos de conivência com a crueldade e com o comportamento antinatural”, declarou o vegetariano J.M. Coetzee.

Para o escritor avesso a entrevistas, qualquer pessoa disposta a refletir sabe que há algo de muito errado na relação entre os seres humanos e os animais, e isso se tornou mais aberrante nos últimos 100 anos, quando a pecuária se apropriou dos métodos industriais de produção. “A indústria de alimentos supera o comércio de peles e o uso de animais em laboratórios quando falamos em números de vidas animais afetadas. A grande maioria usa e consome produtos dessas indústrias, mas se sente mal quando pensa no que acontece nas fazendas industriais e nos matadouros. Por isso, eles organizam suas vidas de tal maneira que eles evitam pensar nisso. Também fazem de tudo para garantir que seus filhos sejam mantidos na escuridão, porque sabemos que crianças têm bom coração e mudam facilmente”, enfatizou.

Para Coetzee, o primeiro sinal de que os animais já não eram mais vistos como algo além de produtos apareceu no século 19, com o surgimento das primeiras fazendas industriais. Desde então, a humanidade tem se negado a reconhecer que animais não são meras unidades disponíveis à exploração humana. “Este aviso veio tão alto e claro que parecia ser impossível ignorá-lo. Mais tarde, um grupo sanguinário da Alemanha [em referência aos nazistas] teve a ideia de adaptar a metodologia dos currais industriais. Eles foram pioneiros nesse sistema que eles não chamavam de matadouro, mas sim de área de processamento de seres humanos”, assinalou.

Segundo o escritor, naturalmente esse horror chocou a humanidade. Muitos diziam: “Que terrível! Tratar seres humanos como gado!” Considerando isso, ele observou que se talvez as pessoas tivessem refletido um pouco mais à época, a queixa teria sido bem diferente: “O mais justo seria falar: ‘Que crime terrível! Tratar seres humanos como meras unidades de um processo industrial.’ E assim veríamos com outros olhos a proporção desse crime, já que é um crime contra a natureza resumir qualquer ser vivo a uma unidade de um processo industrial”, ponderou.

Independente do que diz os utilitaristas, Coetzee argumentou que a pecuária tradicional sempre foi suficientemente brutal. Sobre a exploração animal, pessoas sempre dirão: “Sim, é terrível a forma como vivem as porcas reprodutoras e os vitelos. Mas, quem vai, em seguida, encolher seus ombros e perguntar: ‘O que posso fazer sobre isso?’”, criticou o escritor sul-africano.

O papel do movimento em defesa dos direitos dos animais é oferecer opções para que as pessoas saibam o que fazer logo que descobrem o que acontece com os animais. “As pessoas precisam saber que há alternativas aos produtos de origem animal. Que essa alternativa não exige sacrifícios em saúde e nutrição, e nem mesmo são caras. O único sacrifício envolvido nisso é dos próprios animais não humanos”, destacou J.M. Coetzee.

O escritor também apontou para um fenômeno alentador. O fato de que atualmente as indústrias que exploram animais estão sendo empurradas para a defensiva. Ou seja, hoje, elas são sempre questionadas sobre suas ações. “As organizações de direitos dos animais mostram que as práticas indefensáveis e injustificáveis da indústria têm tão e somente motivações econômicas. A indústria está indo ladeia abaixo e já prevê que uma tempestade vai arrastá-la. Na medida em que há uma guerra de relações públicas, a indústria prova que já perdeu essa guerra”, analisou.

No dia 30 de junho de 2016, J.M. Coetzee também abordou os direitos dos animais no auditório do Museu Reina Sofia, em Madrid, na Espanha. “Eu não sou um amante dos animais. Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça”, informou Coetzee de antemão. Vegetariano, o escritor sul-africano tem ajudado a promover os direitos dos animais há várias décadas.

Uma de suas obras mais importantes, e que fala justamente sobre o assunto, é a novela metaficcional “The Lives of Animals”, publicada pela editora da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, em 1999. A obra de caráter filosófico gira em torno dos conflitos vividos por uma professora e conferencista vegetariana que, ao advogar os direitos dos animais, encontra resistência no âmbito familiar e no trabalho. “Humanos pensam que são muito mais importantes do que os animais. Por isso, rejeitam a consciência animal. As pessoas precisam cultivar sua empatia”, defendeu J.M. Coetzee.

Saiba Mais

John Maxwell Coetzee nasceu em 9 de fevereiro de 1940 na Cidade do Cabo, na África do Sul.

Referências

Coetzee, J.M. Exposing the beast: factory farming must be called to the slaughterhouse. Opinions – Article. The Sydney Morning Herald, Austrália (22/02/2007).

Coetzee, J.M.. Animals can’t speak for themselves – it’s up to us to do it. Opinions – Article. The Age, Austrália (22/02/2007).

AFP. Nobel laureate J.M. Coetzee speaks against animal cruelty. Daily Mail, Reino Unido (01/07/2016).

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Violência, psicopatia, justiça e individualismo

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Por motivo torpe, motorista perseguiu a moto e causou uma tragédia (Foto: Blog Leandro Oliveira)

Em Maringá, motorista perseguiu uma moto e causou uma tragédia por motivo torpe (Foto: Blog Leandro Oliveira)

Ontem à noite, em Maringá, no Norte do Paraná, um motociclista atingiu o retrovisor de um Volkswagen Golf próximo ao Parque do Japão. Irritado, o motorista de 24 anos perseguiu o motociclista, atingiu a moto e a arrastou por metros. O rapaz de 18 anos que estava na garupa da moto faleceu no hospital e o condutor de 21 anos segue em estado grave. É mais um caso que revela claramente a falta de empatia das pessoas, a incapacidade de se colocar no lugar do outro, reconhecer falhas e ser tolerante com as vicissitudes do mundo atual.

Psicopatia está mais presente na sociedade contemporânea do que nunca (Foto: Reprodução)

Psicopatia está mais presente na sociedade contemporânea do que nunca (Foto: Reprodução)

Há estudos afirmando que 1% da população mundial possui transtorno de personalidade antissocial. Ou seja, 70 milhões de pessoas. Será mesmo que esses dados são precisos? Se levarmos em conta os fatos do cotidiano, não é difícil inferir que nos deparamos todos os dias com os mais distintos casos de manifestações de sociopatia e psicopatia. Sendo assim, é difícil crer que há somente 70 milhões de pessoas com tal transtorno em meio a uma população de sete bilhões. Livros como “The Sociopath Nextdoor”, lançado por Martha Stout em 2006, e “Snakes in Suits: When Psychopaths Go To Work”, de Paul Babiak, de 2007, reforçam o meu raciocínio e fazem refletir sobre a possibilidade do número de psicopatas chegar a pelo menos 10%.

Muitas pessoas não ocultam mais o seu desejo pelo retorno do Código de Hamurabi (Foto: Reprodução)

Há pessoas que não ocultam mais o desejo pelo retorno do Código de Hamurabi (Foto: Reprodução)

Há mais de 20 anos, muitos pensadores da chamada hipermodernidade preconizaram que isso aconteceria hoje em dia. O mundo está se tornando um semeadouro de impaciência e todos os dias pessoas perdem um pouco mais de sensibilidade e plasticidade. A cada ano que passa a vida vale um pouco menos. Muitos se consideram aptos a decidir quem merece viver e quem merece morrer.

Mas o problema maior subsiste no fato de que com o crescimento dessa linha de pensamento é inevitável pensar na possibilidade de que o mundo pode se tornar um lugar muito pior. Vejo isso como um retorno ao primitivismo. Já não é mais velado o desejo do retorno da Lei de Talião, do Código de Hamurabi.

A violência insufla as pessoas de um tipo peculiar de medo que faz com que elas matem ou desejem a morte de outrem não porque acham que é a única forma de sobreviver, mas sim porque são alimentadas diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis.

No início dos anos 2000, me recordo que em âmbito acadêmico ainda se falava muito em disfunção narcotizante que é a incapacidade de se sensibilizar com a violência a partir do momento que ela se torna fato recorrente do cotidiano. Por exemplo, é o caso de uma criança que convive com assassinatos e por isso em certo ponto da vida os considera normais.

Muitos são alimentados diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis (Arte: Reprodução)

Muitos são alimentados diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis (Arte: Reprodução)

Mais de dez anos depois, o problema se tornou um pouco mais grave. Há muitas pessoas que não apenas consideram a violência como algo intrínseco à realidade, como acham justo tomar parte dela. É aquela consciência de que se as leis não funcionam corretamente, posso criar as minhas próprias. Ou seja, serei o senhor de meus atos e ninguém terá o direito de me deter, já que rejeito e condeno os mecanismos de justiça da atualidade.

Outro agravante é o fato de que se todos alimentarem um senso de justiça individualista, não há de tardar para as pessoas menosprezarem um pouco mais a vida. Sendo assim, um indivíduo pode achar justo matar alguém porque invadiu sua casa. Outro pode considerar plausível assassinar uma pessoa porque lhe deve dinheiro ou porque arranhou a pintura do seu carro em um acidente. O justo seria um criminoso aos olhos do injusto e vice-versa. Sendo assim, não seria tão obtuso acreditar no futuro como o prólogo do fim da humanidade.

O dilema da agiotagem

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Bruno Dalólio: “A situação chega a ponto em que o devedor se limita a pagar apenas os juros”

Bruno Dalólio: "Em poucos meses, os R$ 40 mil se transformaram em R$ 115 mil" (Foto: David Arioch)

Bruno Dalólio: “Em poucos meses, os R$ 40 mil se transformaram em R$ 115 mil” (Foto: David Arioch)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, não são poucos os casos de pessoas com restrições de crédito que recorrem aos agiotas para conseguir empréstimos. Nessas circunstâncias, o problema maior surge quando o devedor se torna incapaz de honrar o pagamento mensal da dívida, se submetendo a cobranças de juros que chegam a 10% por mês, uma prática criminosa, de acordo com a Constituição Federal.

“Quando a dívida se torna acumulativa chega a ponto em que o devedor se limita a pagar apenas os juros, ou seja, a situação fica totalmente fora de controle”, explica o bacharel em direito e estudioso do assunto, Bruno Ricardo Dalólio que há muito tempo acompanha o dilema vivido por inúmeros paranavaienses que emprestaram dinheiro de agiotas.

Um exemplo é uma família de microempresários que enfrentava dificuldades financeiras, mas por estarem com restrições de crédito, pegaram R$ 40 mil de um usurário. “O empréstimo, na realidade, foi feito a um amigo deles. A idéia era dividir o valor, assim cada um pagaria metade todo mês. Só que o tal amigo fugiu com a maior parte do dinheiro e deixou a dívida com essa família”, explica Dalólio, acrescentando que como os devedores não tinham condições de arcar com o pagamento mensal a dívida ganhou proporções inimagináveis.

Em poucos meses, os R$ 40 mil se transformaram em R$ 115 mil e o agiota entrou em contato com a família, tentando coagi-los a pagar o valor total. O primeiro erro da família foi procurar um agiota. E claro, confiar no tal amigo ao ponto de permitir que os convencesse a passar a escritura de um imóvel residencial no nome do agiota, como garantia do pagamento da dívida. “Tudo isso serviu para fazer com que um ato ilegal parecesse legal. Em suma, foi uma prática de enriquecimento ilícito”, argumenta Bruno Ricardo, destacando que a gravidade da situação dificulta e muito a recuperação do imóvel.

A família que prefere não se identificar relata que para não ter problemas com a justiça o usurário mascara o empréstimo como se fosse o pagamento mensal de um aluguel. “É uma situação muito difícil. Nenhum de nós dorme há muito tempo. Estamos vivendo um pesadelo”, admite um dos inadimplentes. A matriarca da família, proprietária do imóvel repassado ao agiota, se emociona e chora durante a entrevista prevendo a possibilidade de perder a casa onde sempre morou. Na última avaliação imobiliária, foi constatado que a residência tem um valor venal de R$ 160 mil. Constrangido, um dos familiares enfatiza que o desespero motiva o ser humano a cometer atos dos quais se arrepende mais tarde.

É difícil provar que se trata de agiotagem (Arte: Reprodução)

Dalólio: “É difícil conseguir provas e testemunhas” (Arte: Reprodução)

Para Bruno Ricardo Dalólio, é importante que pessoas sensibilizadas por problemas financeiros não se deixem seduzir pelo momento, afinal os juros cobrados mensalmente por um agiota ultrapassam até mesmo o limite anual tolerado pelo Sistema Financeiro Nacional, com respaldo no Banco Central e no Conselho Monetário Nacional (CMN). “Na nossa cidade, há muitos outros casos parecidos, inclusive de pessoas que tentaram suicídio”, diz Dalólio. O Instituto Nacional de Defesa dos Consumidores Financeiros (Andif) qualifica a agiotagem como crime e recomenda que qualquer pessoa lesada preste queixe na delegacia.

O problema é que depois de feito o boletim de ocorrência acontece muito da vítima ser surpreendida com a resposta de que nada pode ser feito porque falta os requisitos de materialidade e autoria do crime. “Quando isso não é observado, eles arquivam sem contextualizar o problema”, reclama Bruno Ricardo.

É difícil provar que se trata de agiotagem

Uma das principais dificuldades de quem se envolve com agiotagem é justamente provar que a negociação se enquadra como prática onzenária. “É difícil reunir provas e até mesmo conseguir testemunhas. É o tipo de situação que pode se arrastar por anos na justiça até ter um desfecho”, avalia Dalólio.

Isso acontece porque o direito privilegia a forma. Segundo Bruno Ricardo, só documentos têm valor legal. “Existe muito conservadorismo na nossa justiça brasileira, até por parte dos advogados. É o senso comum teórico dos juristas. E assim, a pessoa perde um direito que deveria ser garantido porque o mais importante é o que está no papel”, lamenta e acrescenta que devido as manobras de agiotas há casos em que o fórum pode se tornar palco de negociação ilícita.

Dicas do Instituto Nacional de Defesa dos Consumidores Financeiros (Andif)

1 – Fuja dos agiotas e classificados de jornal que ofereçam dinheiro fácil.

2 – Jamais passe a escritura de um imóvel ou outro bem, a título de garantia, para nenhuma pessoa.

3 – Nunca peça dinheiro emprestado por telefone ou internet.

4 – Não assine notas promissórias, cheques, duplicatas em branco ou confissões de dívidas.

5 – Nunca forneça dados pessoais por telefone.

6 – As pessoas lesadas por práticas onzenárias (agiotagem) devem registrar, em primeiro lugar, queixa em um posto policial. Depois devem procurar um órgão de defesa do consumidor que pode fazer uma representação junto ao Ministério Público.

7 – Para os consumidores que passarem seus bens aos agiotas há recursos jurídicos que possibilitam reaver os imóveis.