David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Comer animais, uma opção baseada na imposição

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Não vejo como negar que quando comemos animais ou consumimos produtos baseados em animais, nos voltamos somente para nós mesmos (Fotos: Jo-Anne McArthur)

Quando uma pessoa é questionada sobre o motivo pelo qual se alimenta de animais, é bem comum ela dizer que se trata de uma opção, uma escolha. Quero dizer, parte-se da ideia de que o alimento de origem animal está disponível, logo basta optar por comprá-lo ou não, comê-lo ou não, de acordo com as suas preferências. Seguindo essa premissa, é perceptível que há uma escolha condicionada à oferta.

Porém, se compramos e consumimos um alimento que foi gerado por um animal ou que custou a vida de um animal, indubitavelmente a nossa opção está atrelada a não escolha do outro, uma desconsideração de seus interesses, logo uma arbitrariedade. Afinal, esse consentimento é inexistente. Sendo assim, não há como negar que as nossas opções ou escolhas existem como consequência do que impomos aos outros.

Tal injunção comumente envolve condicionamento, supressão, privação, sofrimento ou morte, já que é impossível, por exemplo, consumir partes de um animal sem que isso envolva violência ou morte. E morrer precocemente, sem dúvida alguma, não está entre os anseios de um animal privado de uma vida natural e criado simplesmente para atender interesses econômicos. Claro, interesses incentivados por um ávido mercado consumidor.

E não podemos negar que isso não se resume aos animais reduzidos a pedaços de carne. O mesmo pode ser dito sobre qualquer forma de exploração animal. Só para citar outro exemplo, pensemos na galinha e na vaca condicionadas a produzirem um número x de ovos e litros de leite por dia. Em que circunstância elas autorizaram a exploração de leite e ovos? Em que momento disseram que estão disponíveis para o nosso consumo?

Se nos apropriamos do que elas produzem, o fazemos simplesmente porque queremos, certo? Assim, evidentemente, o que importa são as nossas vontades; e essas vontades resultam de interesses fundamentados principalmente em condicionamento, herança cultural, hábitos alimentares e paladar. E tudo isso ajuda a fortalecer a capciosa e equivocada ideia de que animais existem simplesmente para nos servir.

Afinal, não somos nós que os condicionamos e os forçamos a atenderem as nossas expectativas? Não somos nós que os modificamos geneticamente para que eles correspondam aos nossos interesses econômicos e alimentares? O fato de não haver um código de comunicação em comum também reforça a crença na ideia de que comer animais é meramente “questão de opção”.

Isto porque a não verbalização favorece o falseamento da realidade sobre o comportamento animal e suas correlações com o meio e com outras espécies quando o que está em jogo são os nossos interesses econômicos e alimentícios. Um exemplo disso, quem nunca viu um animal sofrendo e, de repente, alguém tentou justificar que isso não era verdade? Valendo-se da asserção que envolve a subjetividade da comunicação não humana.

Não vejo como negar que quando comemos animais ou consumimos produtos baseados em animais, nos voltamos somente para nós mesmos. Ou seja, para os nossos interesses. O que existe sou eu, a minha vontade imperativa, e o que deve prevalecer é o meu desejo que abrenuncia tudo que não diz respeito à minha individualidade, ao meu prazer, à minha satisfação por mais efêmera que seja.

Um sujeito, por exemplo, que analisa um menu de uma lanchonete e escolhe um x-bacon, está optando por um alimento em vez de outro; e o seu rol de opções se limita à disponibilidade naquele cardápio. Ele não vai refletir sobre o fato de que a sua opção não existiria sem que alguém fosse privado de uma escolha.

No entanto, para que ele possa consumir aqueles pedaços de bacon no lanche, um animal teve de morrer, considerando o óbvio – que bacon são tiras extraídas das laterais, da traseira ou até mesmo da barriga de um suíno. O seu favorecimento está no fato de que ele não precisa testemunhar todo o processo que envolve a morte do porco, e a redução de partes do seu corpo a tiras de bacon.

Tudo está ao seu alcance de forma palatável, atrativa, simplificada e até mesmo romântica, bastando apenas consumi-lo; sem nem mesmo a necessidade de direcionar os seus olhos para o que come, já que o paladar é facilmente satisfeito por um estímulo sensorial baseado no aroma e no sabor. E são exemplos como esse que perenizam a cavilosa ideia de que se alimentar de animais é meramente uma questão de opção.

É muito fácil defender essa ideia quando não temos qualquer contato com a impossibilidade de escolha que compõe o cenário inclemente e prosaico da realidade animal não humana. Sendo assim, quando falamos em consumo de alimentos ou produtos de origem animal enquanto opção, escolha, estamos também deixando claro que não interessa a ausência de escolhas que não dizem respeito a nós. Em síntese, subsiste uma defesa consciente ou inconsciente da arbitrariedade e da iniquidade em relação à vida animal não humana.





 

Mastite e a exploração de vacas

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Você percebe mais uma vez como estamos imersos em uma cultura especista, que encara os animais não humanos como nada mais do que produtos, quando cientistas ligados à saúde animal apontam como principal prejuízo da mastite, uma grave inflamação das glândulas mamárias, a queda na produção de leite da vaca.

Será que a saúde da vaca deveria ficar em segundo plano? Não em uma perspectiva mais justa. Li um artigo sobre produção de leite e contagem de células somáticas em vacas leiteiras intitulado “Milk Production and Somatic Cell Counts: A Cow-Level Analysis”, de J.K. Hand, A. Godkin e D.F. Kelton, publicado no Journal of Dairy Science.

Nesse trabalho, os pesquisadores citam como piores consequências da mastite a baixa na produção, o que consequentemente leva ao “descarte” (esta foi a palavra usada) das vacas. Sim, as vacas que não atingem sua meta na produção de leite são mortas.

Também são citados os “grandes” e indesejados gastos com tratamento de infecções severas. Curiosamente, muitas das infecções que atingem as vacas estão associadas ao ritmo de exploração industrial. Ou seja, o ser humano gera o problema e ainda age como se o prejuízo fosse provocado pela vaca.

 



Written by David Arioch

December 27th, 2017 at 4:38 pm

Breve reflexão sobre o consumo de alimentos de origem animal

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Alguns motivos para repensar o consumo de laticínios

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O que acontece com as vacas quando cai a produção leiteira? Elas são enviadas para o matadouro (Acervo: AAU)

Em um vídeo publicado na internet sobre a exploração de vacas na indústria leiteira, mostrando as consequências para a saúde do animal, apareceram pessoas que vivem dessa exploração tentando desqualificar o que foi mostrado.

Tudo bem, e o que acontece com as vacas quando cai a produção leiteira? Elas são enviadas para o matadouro. Ou seja, são mortas, e reduzidas à carne assim como o boi. Não é à toa que o Gary Francione diz que vê mais sofrimento em um copo de leite do que em um pedaço de carne. Afinal, elas passam por dois tipos de exploração.

Não creio que seja coerente usar o discurso da Mimosa, do gibi do Chico Bento. Afinal, a indústria trabalha com prazos, e esses prazos não levam em conta as necessidades do animal que estão além da produção, como específicos fatores emocionais e psicológicos que costumam ser voláteis.

É intrigante notar que depois de ser explorada diariamente para a extração de leite em regime industrial (o que inclusive gera um desgaste à saúde do animal), o “produtor” ainda retribui a cortesia enviando a vaca para a morte. Estou errado? Me mostre uma vaca leiteira que “morreu de velhice” e quando deixou de produzir passou a ser tratada como um “membro da família”.

Vamos dizer que hipoteticamente a vaca seja bem tratada. E o que é feito com o bezerro macho, considerado descartável pela indústria leiteira? Não conheço produtores de leite que criam bezerros machos, até porque não têm utilidade para eles. Então o destino comum é a morte. E claro, a vaca fica extremamente estressada quando é separada do filho, que na maioria das vezes não volta a reencontrar. Não seria esta uma reação natural de mãe? Que direito temos de intervir nisso? E olhe que nem discorri sobre os nose flaps, usados para forçar o desmame dos bezerros.

Ademais, as doenças modernas desenvolvidas em vacas leiteiras estão intrinsecamente ligadas ao sistema de produção, ou seja, de exploração. Logo na minha opinião isso prova que não existe nada de natural nessa prática. Condiciona-se um animal a viver como se fosse isento de vontades e anseios básicos e complexos, ou seja, como uma máquina de produção.





Written by David Arioch

November 27th, 2017 at 12:54 pm

“Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito”

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Minha mãe me ligou e contou que encontrou um amigo de longa data que cria gado leiteiro.

— Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito. Está compensando mais como carne do que como fonte de leite.
— Mas quem vai fazer isso? Você?
— Não, não tenho essa coragem. O peão que vai matar.
— Mas você não é o responsável por ela?
— Não adianta. Não consigo matar nenhum animal. Não consigo nem olhar.
— Você tem entrado no blog do David?
— Sim, mas os textos dele sobre veganismo eu não leio. Só leio os outros.
— Por que não?
— Prefiro não ler. Não quero ficar com isso na cabeça.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 11:52 pm

Mãe e filho

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Foto: Wired

Vi uma criança chorando, forçada a ficar longe de sua mãe. Claro que ela não queria, mas não tinha forças para fazer a sua vontade prevalecer. Sua mãe também tentou se aproximar. Não adiantou. Correu para alcançar o filho. Tarde demais. Manteve os olhos no horizonte, vendo o caminhão se afastar com a criança na carroceria.

Enquanto a seguravam, parecia querer atravessar a cortina de poeira com os olhos. Balançou a cabeça e manteve a perspectiva. A observava e ela reagia. Olhos baixos e escuros, cabelos cobrindo parcialmente a fronte. Um olhar sorrateiro, o último registro daquele amor despedaçado pela violência da vida.

Ninguém chorou pela situação, só os dois que amargavam as agruras da inocência, da intransigência e da sofreguidão. Ele morreria mais cedo, a mãe morreria mais tarde depois de uma vida de servidão. Sobreviveriam as lembranças dos toques, das brincadeiras, das cabeças se tocando e se amornando. A bonomia da amamentação. Talvez o cheiro do campo, da relva. Sim, alguém de sensibilidade não esqueceria.

Mais surgiriam e mais morreriam. A história se repetiria muitas vezes no campo, quando fosse dada a ordem: “Aqui o bezerro não mama mais. Esse leite é pra vender. Pode levar!” Seria muita sorte permitir que os dois se encontrassem como pedaços de bife sobre um prato. Não! Não! Não! A morte, sob jugo humano, clama por destinos diferentes, destinos que não permitem encontros, porque quando a mãe partir os cascos da criança não existirão mais.

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Sobre queijos preparados com um complexo de enzimas extraídas do estômago de bezerros mortos

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Com o surgimento de técnicas mais modernas, o estômago do bezerro passou a ser congelado, moído e colocado em uma solução de extração de enzimas

Você já pensou na possibilidade de estar consumindo ou já ter consumido algum queijo preparado com um complexo de enzimas extraídas do estômago de um bezerro morto? Pois é, isso pode parecer absurdo, mas não é e vou explicar o motivo baseando-me em três livros de referência sobre a produção de queijo.

Rennet ou coalho de origem animal é um complexo de enzimas produzidas no estômago de mamíferos ruminantes. É ele que facilita o processo de digestão dos bezerros durante a fase de amamentação. Há queijos industrializados que possuem essa enzima extraída da mucosa interna da quarta câmara de estômago (abomaso) dos bezerros após o desmame.

Se ele for extraído de bezerros mais velhos, que normalmente são alimentados apenas com pasto e grãos, naturalmente o Rennet terá pouca ou nada de quimosina. O que significa níveis elevados de pepsina, assim sendo destinado somente ao preparo de queijos e leites especiais. De acordo com o livro “Traditional Cheesemaking Manual”, de Charles O’Connor, como cada ruminante produz um tipo especial de coalho para digerir o leite de sua própria espécie, isso significa que o rennet de cabra é introduzido no leite de cabra e o rennet de cordeiro no leite de ovelha.

E de que forma o coalho de origem animal é extraído? Bom, no método mais clássico, defendidos principalmente por produtores mais tradicionais de queijo, os estômagos limpos dos bezerros são cortados em pedaços pequenos e imersos em água salgada ou soro de leite, juntamente com uma porção de vinagre ou vinho para reduzir o pH da solução. Após a filtragem, o rennet é usado para coagular o leite. Cerca de um grama de coagulante extraído de um pedaço do estômago de um bezerro serve no método tradicional para coagular dois a quatro litros de leite.

Com o surgimento de técnicas mais modernas, o estômago do bezerro passou a ser congelado, moído e colocado em uma solução de extração de enzimas. É importante entender que as enzimas no estômago do bezerro são produzidas de forma inativa. Por isso, só são ativadas através da acidez estomacal. Quando o ácido é neutralizado, o extrato de coalho é filtrado em vários estágios até atingir uma potência específica. Neste caso, um grama de extrato de rennet pode coagular até 15 quilos de leite.

Hoje em dia, é difícil dizer qual queijo possui ou não coalho de origem animal porque a indústria de laticínios demanda muito mais coagulantes do que a indústria de vitela poderia fornecer. Sendo assim, criou-se alternativas a partir de fungos, micróbios e plantas – como folhas secas de alcaparra, cardo e cynara, usados principalmente em países mediterrâneos, segundo informações do livro “Technology of Cheesemaking”, de Barry Law.

Porém, como o uso de vegetais e micróbios com finalidades coagulantes não é uma unanimidade no mercado de laticínios, há fabricantes que ainda fazem uso de coagulantes de origem animal. Sendo assim, o uso de enzimas extraídas do estômago de bezerros não é uma prática obsoleta, segundo informações do livro “Cheese: Chemistry, Physics, and Microbiology, Volume 1”, de Patrick F. Fox, Paul L.H. McSweeney, Timothy M. Cogan e Timothy P. Guinee, lançado em 2004. De qualquer modo, saiba que rennet ou coalho de origem animal está disponível à venda em qualquer site que comercialize produtos para a fabricação de queijo, inclusive no Ebay e Mercado Livre.

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Roland Straller e a inversão de papéis entre animais humanos e não humanos

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Mulheres no lugar de vacas leiteiras, na perspectiva de Straller

Roland Straller é um artista vegano alemão que gosta de abordar a inversão de papéis na relação entre animais humanos e não humanos. Na série “Got Milk?”, ele convida os consumidores de leite a passarem um dia na pele das vacas leiteiras exploradas em regime industrial. Straller é satírico e suas obras de caráter quase sempre sepulcral destacam a perversidade semeada pela indiferença e pela legitimação de um caos que parece invisível aos olhos da maioria.





Written by David Arioch

August 26th, 2017 at 6:12 pm

Por que não precisamos e não devemos consumir leite

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Walter Willett: “Seres humanos não têm nenhuma necessidade de consumir leite de origem animal”

Leite de outros animais não é um alimento essencial para os seres humanos

Leite é um alimento produzido por mamíferos para alimentar seus bebês. Realmente seres humanos dependem do leite, mas somente até o momento em que seu sistema digestivo se adapte a uma alimentação sólida. Nesse período, não é necessário mais do que o leite materno. Depois que passam a se alimentar de sólidos, os animais não têm necessidade de consumir leite. Porém, como esse consumo há muito tempo se tornou um hábito, e muitas vezes mais associado ao paladar do que à saúde, muitas pessoas não veem motivo para parar.

Quando você não consome leite, não é raro alguém em estranhar e perguntar quais são suas fontes de cálcio, vitamina D, riboflavina e outros nutrientes. Isso é uma reação cultural, porque vivemos imersos em uma realidade onde o consumo de laticínios é tão apregoado como essencial que é difícil para tanta gente assimilar o fato de que não precisamos de leite para obter esses nutrientes.

A verdade é que há muitas opções saudáveis para se obter, por exemplo, o cálcio. Podemos citar couve, acelga, chicória, espinafre, mostarda, folha de brócolis, rúcula, agrião, alface, salsa, aveia, feijão-branco, brócolis, laranja, gergelim, linhaça, lentilha, agrião, batata-doce, amêndoas, beterraba e mamão, entre outras frutas, verduras, oleaginosas, sementes e grãos. Além disso, banana e laranja são melhores fontes de potássio do que o leite, caso alguém o apresente como importante fonte desse micronutriente. Como fontes de fósforo, também há alimentos mais saudáveis –  como aveia, feijão, sementes de abóbora, e amendoim. Ou seja, tudo isso endossa o fato de que o leite não é essencial.

É importante considerar que para o cálcio chegar aos ossos, é necessário manter uma boa ingestão de vitamina C, vitamina K, vitamina D3, potássio e magnésio. Em síntese, uma boa combinação de vegetais supre facilmente essa necessidade, segundo a médica e pesquisadora Rosane Oliveira, professora do Departamento de Saúde Pública da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia. Fato que também merece atenção é que o excesso de cálcio consumido a partir do leite pode contribuir para a baixa absorção de ferro. Isso se aplica também à caseína e à proteína do soro do leite. Outro problema é que o excesso de sódio, proteína animal, álcool e cafeína favorecem o roubo de cálcio dos ossos.

Rosane Oliveira observou que quando consumimos 415 miligramas de cálcio por dia, nossos intestinos se tornam mais eficientes na absorção do cálcio. Assim, nossos rins são preservados por mais tempo. Caso o excesso de cálcio não seja eliminado do nosso organismo, ele é depositado no coração, rins, músculos e pele, nos tornando vulneráveis às doenças; e isso pode ser desencadeado pelo consumo de leite.

“Uma dieta rica em proteína animal tem uma alta taxa de excreção de cálcio, o que significa que você é forçado a consumir mais cálcio para compensar essa excreção. Ao seguir uma dieta baseada em vegetais, que também é baixa em sódio e cafeína, as taxas de excreção de cálcio diminuem. Sendo assim, a ingestão de cálcio baseada em plantas pode ser muito menor”, escreveu Rosane, que é doutora em nutrição, no artigo “Getting clarity about calcium”, publicado em maio de 2015 no site Forks Over Knives.

É importante entender também que, assim como o ferro, o magnésio e o cobre, o cálcio é um mineral que pode ser encontrado no solo, onde é absorvido pelas raízes das plantas. Isso significa que os animais, por exemplo o gado, obtêm cálcio consumindo essas plantas ricas em cálcio. Mesmo que tenhamos sido condicionados a crer que o cálcio provém naturalmente do leite e de seus derivados, isso não é verdade, já que os animais são fontes intermediárias. Ou seja, as fontes originais de cálcio são as plantas.

De acordo com o médico e pesquisador estadunidense Neal Barnard, fundador do Comitê Para a Medicina Responsável (PCRM), não há motivo para que os seres humanos consumam leite de vaca. “Há muitas razões para evitá-lo. […] Um elevado risco de incidência de câncer de próstata e mortalidade tem sido associado ao consumo de leite e pode desencadear câncer de ovário. Cálcio é um nutriente necessário, mas podemos facilmente obter o suficiente a partir de alimentos vegetais. Em vez de prejudicar nossa saúde como o leite de vaca, esses alimentos vegetais fortalecem o nosso sistema imunológico e nos ajudam a evitar graves doenças”, escreveu no artigo “Cow’s milk is unnecessary and even harmful”, publicado em janeiro de 2013.

Os Estados Unidos são um dos maiores consumidores de laticínios do mundo, e ainda assim um dos países com maiores índices de fraturas de ossos. Ou seja, o consumo de leite não garante que ninguém sofra de problemas ósseos. Por outro lado, fraturas ósseas são menos comuns em países que não têm uma cultura de alto consumo de laticínios. Nos Estados Unidos, de acordo com a International Osteoporosis Foundation (IOF), osteoporose e diminuição da massa óssea atingem 44 milhões homens e mulheres com idade igual ou superior a 50 anos. No Brasil, onde o consumo per capita é de 156 litros por ano, 10 milhões de pessoas, aproximadamente uma pessoa a cada 17, tem osteoporose.

O estudo “Milk intake and risk of mortality and fractures in women and men: cohort studies”, publicado pelo British Medical Journal em outubro de 2014, mostrou que pessoas que consumiram grandes quantidades de cálcio através do leite não tiveram redução em fraturas ósseas nem evitaram osteoporose. Na verdade, aqueles que consumiram altas quantidades de cálcio (mais de 1,1 mil miligramas por dia) apresentaram os maiores índices de fraturas de quadril e osteoporose em comparação a quem consumiu bem menos cálcio.

As pesquisas foram realizadas com mais de 61 mil mulheres e mais de 45 mil homens suecos ao longo de mais de 20 anos. A conclusão foi a de que não há nenhum benefício em consumir mais do que 700 miligramas de cálcio por dia para a saúde óssea. Também é importante ponderar que as populações do Norte da Europa são consideradas as que melhor se adaptaram ao consumo de laticínios no decorrer da história da humanidade.

Porém, o que reforça a defesa de que o leite não é um alimento realmente tão benéfico mesmo para a saúde dessas populações, que aparentemente têm menos dificuldade em digeri-lo, é o fato de que, no decorrer da pesquisa, mais de 17 mil mulheres suecas e mais de 5 mil homens que consumiam leite diariamente tiveram graves problemas de fraturas ósseas. Além disso, das pessoas que participaram da pesquisa, mais de 15 mil mulheres e mais de 10 mil homens já falecidos tiveram suas mortes associadas ao consumo de laticínios.

“Seres humanos não têm nenhuma necessidade de consumir leite de origem animal, uma evolutiva e recente adição à dieta”, escreveu Walter Willett e David Ludwig, do Boston Children’s Hospital, no artigo “Three Daily Servings of Reduced-Fat Milk – An Evidence-Based Recommendation?”, publicado no jornal JAMA Pediatrics em setembro de 2013, que refuta a necessidade de seres humanos consumirem leite e ainda aponta as consequências do excesso de laticínios.

Willett, que é médico e tem doutorado em saúde pública, é professor de nutrição e epidemiologia da Harvard T.H. Chan School of Public Health, professor de medicina da Harvard Medical School e chairman do Departamento de Nutrição da Universidade Harvard. Por suas contribuições à área da nutrição, o jornal The Boston Globe afirmou que, considerando a importância do seu trabalho, ele é um dos nutricionistas mais influentes do mundo na atualidade.

Walter Willett também publicou um estudo em que relacionou o consumo de carne, principalmente a processada, ao risco de morte precoce, levando em conta a facilidade com que a gordura trans é capaz de obstruir artérias. Também respeitado e prestigiado, David Ludwig, o co-autor da pesquisa sobre laticínios, trabalha em um dos maiores e mais bem-sucedidos projetos de tratamento de crianças obesas dos Estados Unidos, realizado no Boston Children’s Hospital.

No periódico JAMA Pediatrics, Walter Willett e seus colegas da Universidade Harvard revelaram os resultados de uma pesquisa com 96 mil homens e mulheres ao longo de décadas. Intitulado “Milk consumption during teenage years and risk of hip fractures in older adults”, o estudo divulgado em janeiro de 2014 mostrou que o alto consumo de leite na adolescência não ajuda a prevenir fraturas quando as pessoas ficam mais velhas. “O alto consumo de lácteos também tem sido associado a um risco aumentado de câncer no final da vida, incluindo câncer de mama e câncer colorretal”, alertou.

Após as evidências dos estudos sobre o consumo de leite, Willett e Ludwig criticaram o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e a Academia Americana de Pediatria por incentivarem o consumo de três xícaras de leite por dia. Eles reprovaram inclusive o consumo de leite desnatado. David Ludwig destacou que o fato do leite conter baixo teor de gordura não faz dele um alimento a ser recomendado como parte da dieta alimentar padrão.

“Seguimos a recomendação de beber leite por tanto tempo que poucos de nós param para considerar o quanto é pouco natural o consumo de leite”, enfatizou Joe Keon, doutor em nutrição e autor do livro “Whitewash”, no artigo “Do You Need Milk?”, de Catherine Guthrie, publicado na revista de saúde Experience Life em abril de 2014.

Michael Greger: “Leite é um alimento saudável para bezerros”

Para o médico Michael Greger, especialista em nutrição e fundador do site NutritionFacts.org, leite é um alimento saudável para bezerros, para filhotes de vaca. “Por que o leite é associado com o aumento de risco de câncer de próstata? Leite é um coquetel de hormônios do crescimento que faz com que um pequeno animal bovino ganhe algumas centenas de quilos em poucos meses. Então ele é desenvolvido como um alimento para o crescimento rápido, o que é ótimo se você é um bezerro, mas se você é um humano adulto esse excesso de hormônios do crescimento não é uma coisa boa”, declarou em entrevista registrada no documentário “Food Choices”, lançado em 2016 por Michal Siewierski.

Conforme informações do artigo “Hormones in Dairy Foods and Their Impact on Public Health – A Narrative Review Article”, publicado pelo Iranian Journal of Public Health e pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos em junho de 2015, os hormônios esteroides são compostos muito potentes em alimentos lácteos, e exercem profundos efeitos biológicos em animais e humanos. “A maioria dos conhecimentos anteriores sobre os esteroides está de acordo com suas concentrações fisiológicas, e às vezes supra-fisiológicas de esteroides, mas recentemente descobriu-se que esses compostos, mesmo em doses muito baixas, podem ter efeitos biológicos significativos. Deve ser dada atenção especial aos efeitos, que podem ocorrer durante determinados momentos sensíveis, como períodos perinatais e puberais”, ressalta a pesquisa.

No artigo “As doenças relacionadas ao consumo de leite de vaca”, publicado pela Food Med em 5 de agosto de 2015, a autora Pamela Blumer explica que, no final dos anos 1980, e visando o aumento da produção de leite, a multinacional Monsanto desenvolveu o hormônio somatropina bovina recombinante: “Nos adultos, isso pode promover o crescimento anormal das células e levar a alguns tipos de câncer, como de mama e gastrointestinal.” Para reforçar essa afirmação, ela cita o estudo sueco “Milk intake and risk of mortality and fractures in women and men: cohort studies”, mencionado anteriormente.

Outro ponto agravante, segundo Pamela Blumer, é que o uso de somatropina bovina recombinante causa sofrimento aos animais, já que tem como efeitos colaterais febre, falta de apetite, desenvolvimento anormal de membros, mastite (inflamação das glândulas mamárias), distúrbios reprodutivos, entre outras doenças que podem levar o animal à morte.

Leite de vaca traz pus em sua composição

Uma informação pouco divulgada também é que o leite de vaca, principalmente o industrializado, traz células somáticas, conhecidas como pus, em sua composição. Isso é uma consequência de inflamações e doenças que atingem o gado leiteiro, como a mastite. No Brasil, a oferta de leite com pus é regulamentada pelo governo por meio da Instrução Normativa nº51, de 2002, que permite que cada mililitro de leite contenha até 600 mil células somáticas (pus). Ou seja, os consumidores estão sempre sujeitos a consumirem secreções decorrentes de infecções bacterianas extracelulares. Enfim, algo proveniente do mal-estar ou de alguma doença que atinge esses animais.

Descrevo laticínios como carne líquida. Basicamente, como a carne vermelha, tem alto teor de gordura, colesterol e nada de fibras. Na verdade, pode ser pior do que a carne vermelha. A caseína que usam para dar liga no queijo é cheia de química. E são químicos tão viciantes que se assemelham à heroína [nesse aspecto], pois não temos quatro estômagos como os bezerros [para metabolizá-la corretamente]. E infelizmente o leite está em tudo”, lamentou a escritora de literatura wellness Karyn Calabrese em registro no documentário “Food Choices”, de 2016.

De acordo com a doutora em nutrição Pamela A. Popper, fundadora do Fórum Wellness, uma das coisas mais difíceis para as pessoas abandonarem são os laticínios, e exatamente porque estabelecem uma nociva relação de dependência com esses alimentos. “Tomar controle da sua saúde é olhar para as informações e fazer escolhas conscientes”, comentou.

O médico especialista em nutrição e autor do livro “The Starch Solution”, John McDougall e o bioquímico e doutor em nutrição T. Colin Campbell, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos e publicou o best-seller “The China Study” em 2005, defendem há muito tempo que existe um mito sobre a necessidade do consumo de leite, e esse tipo de consciência é o que motiva a indústria de laticínios. Afinal, se as pessoas não acreditarem que o consumo de leite é benéfico, elas deixarão de comprá-lo.

Saiba Mais

No estudo “Comparison of Nutritional Quality of the Vegan, Vegetarian, Semi-Vegetarian, Pesco-Vegetarian and Omnivorous Diet”, publicado em 2014 na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, foi avaliada a densidade mineral óssea de veganos e onívoros. Os resultados surpreenderam porque mostraram que mesmo veganos com uma ingestão bastante reduzida de cálcio e proteína apresentaram um bom nível de densidade óssea.

De acordo com o Comitê para Medicina Responsável dos Estados Unidos (PCRM), 75% da população mundial sofre de alguma disfunção no processo de digestão de laticínios. Ou seja, alactasia (não possui enzimas lactase), diminuição enzimática secundária ou diminuição gradativa de lactase. O que significa que esse é o percentual de pessoas do mundo todo que têm dificuldade de digerir corretamente e naturalmente, logo sem o uso de enzimas artificiais, o leite e outros produtos baseados em laticínios.

Referências

https://www.forksoverknives.com/milk-myth-why-you-dont-need-dairy-for-calcium/#gs.FnZ2rfw

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3967195/

http://thekindlife.com/blog/2013/01/why-milk-is-harmful-by-dr-neal-barnard/

http://www.bmj.com/content/349/bmj.g6015

http://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/1704826

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24247817

https://experiencelife.com/article/do-you-need-milk/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4524299/

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-09352008000100003

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3967195/

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-204X2006000100021

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-35982007000200010

http://www.scielo.br/pdf/cab/v17n4/1809-6891-cab-17-04-0534.pdf

https://www.statista.com/statistics/263955/consumption-of-milk-worldwide-since-2001/

http://www.pcrm.org/health/diets/vegdiets/what-is-lactose-intolerance

Food Choices, Michal Siewierski (2016).

As doenças relacionadas ao consumo do leite de vaca

 

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Written by David Arioch

August 21st, 2017 at 4:38 pm

Países com alto consumo de laticínios também têm altos índices de osteoporose e fratura óssea

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Consumo de leite não significa menos fratura óssea ou menor chance de ter osteoporose

Os Estados Unidos são um dos maiores consumidores de laticínios do mundo, e ainda assim um dos países com maiores índices de osteoporose e fraturas de ossos. Ou seja, o consumo de leite não garante que ninguém sofra de problemas ósseos. Por outro lado, fraturas ósseas são menos comuns em países que não têm a cultura do consumo de laticínios.

Nos Estados Unidos, de acordo com a International Osteoporosis Foundation (IOF), osteoporose e diminuição da massa óssea atingem 44 milhões de homens e mulheres com idade igual ou superior a 50 anos. No Brasil, onde o consumo per capita é de 156 litros de leite por ano, 10 milhões de pessoas, aproximadamente uma pessoa a cada 17, tem osteoporose.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 1:38 am