David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Lição’ tag

Na minha infância

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Pintura: Alexandros Christofolis

Na minha infância, um dia a professora chamou a minha mãe para denunciar que eu tinha colado em uma prova. Então fomos para a orientação. Chegando lá, a professora com toda a certeza que lhe cabe, começou:

— O David colou na minha prova. Dei uma folha para ele responder sobre um livro que leu e ele pediu mais cinco folhas para escrever sobre o livro “O Escaravelho do Diabo”, da Coleção Vagalume. Ele chegou a citar páginas inteiras do livro.
— Isso não significa nada — respondeu minha mãe.
— Como não? Ele tem nove anos. Nunca conseguiria fazer algo assim sem colar.
— Confio no meu filho e acho que ele pode provar que a senhora está errada.
— Como? Então prove!

Narrei mais de dez páginas do livro e a professora ficou me olhando com expressão estrambótica.

— Posso narrar ele inteiro se a senhora se quiser. São 128 páginas.

A orientadora então interrompeu a narrativa. A professora se desculpou comigo e com minha mãe. Mas, pelo seu olhar que ainda rememoro, continuou achando estranho o que aconteceu.

Quando meu pai me colocava de castigo, eu aproveitava para ler, e o castigo logo não era mais castigo. Assim eu acabava decorando parcialmente ou integralmente o conteúdo dos livros. Então poderia consultá-los dentro da minha própria mente.

 

 





Written by David Arioch

October 4th, 2017 at 1:52 am

Dizem que boi não fala

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Arte: Betty Mulligan

Na saída de Paranavaí, encontrei um boi tentando se coçar no tronco de uma árvore na entrada de um sítio. Ele parecia solitário, mas ao mesmo tempo tranquilo, sentindo a brisa massageando suas orelhas cendradas. Desci do carro. Não havia ninguém além dele. Ameacei me aproximar e o boi manteve os olhos em minha direção.

Não parecia incomodado com a minha presença. Cheguei perto e ele parou de se coçar e ficou me olhando por um instante, sem mover qualquer parte do corpo, como uma estátua de carne e osso. Cheguei mais perto. Continuou se esforçando em vão. Ainda mais perto. O boi não achou ruim. Ousei e massageei sua cabeça adornada por um belo par de chifres, uma verdadeira raridade num universo onde cornos são cerrados logo cedo.

Quando encostei a mão em seu dorso, ele abaixou a cabeça e depois a levantou. Então passei a mão exatamente onde ele não conseguia se coçar. Seu corpo tremia como de uma criança recebendo carícias. Depois de cerca de dois minutos, me afastei, até que um homem se aproximou.

— Ele é manso mesmo. Só tem essa cara que às vezes dizem que assusta, mas é bom de tudo. Não tem maldade nenhuma, diferente da gente.
— É o senhor que mora aí?
— Não…era a casa do Seu Barbosa. Só que ele já morreu e o boi ficou.
— Como assim? E nunca tentaram matar ele?
— Esse aí? Esse aí é o Tucurunda. É boi, mas a vizinhada cuida dele e respeita por causa da história dele.
— Que história?
— Ele salvou um menino de morrer afogado.
— Como assim?
— O Joinha foi criado junto com ele, o filho do Seu Barbosa, e há muito tempo ele os primos foram brincar no açude ali pra baixo. Quando o menino pisou em falso e afundou, o boi tava na margem e começou a mugir, mugir bem alto, até que o Seu Barbosa ouviu e veio correndo. Ele pulou na água e deu tempo de puxar o menino ainda com vida. Graças ao Tucurunda, né?
— Que história incrível…
— Pois é…e dizem que boi não fala.

 

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O que vem do bicho é do bicho

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Pintura: Child With Chicken, de Diego Rivera

Na escolinha, a professora Helena falou sobre a relação dos seres humanos com os animais e mostrou dezenas de figuras para os alunos.

— A brincadeira é formar duplas e montar as peças de acordo com o que cada animal oferece de bom para a gente, tudo bem?
— Siiiiiiiiiimmmmmm! – responderam.

Depois de distribuir os quadrinhos de madeira para as crianças, a professora percebeu que Rubinho preferiu ficar sentado em um canto.

— O que foi, Rubinho? Você está passando mal? Sentindo alguma dor?
— Não…
— O que houve?
— Estou triste só…não quero brincar.
— Mas por que não? Você sempre amou brincadeiras envolvendo animais.
— Dessa eu não gostei.
— O quê?
— Esse jogo é de enganar.
— Como?
— Ah, não fala a verdade e quase todo mundo acredita.
— Qual é a verdade?
— Enquanto a gente se diverte os animais sofrem, e quase ninguém liga.
— Como assim, Rubinho?
— Ah, tia. Você falou que o boi, o frango, o porco e o peixe dão a carne; que a vaca dá o leite, a galinha dá o ovo e a abelha dá o mel. Isso não é certo…
— Por que você acha isso?
— Porque eles não dão nada pra gente, tia. Eles morrem, ficam presos ou sofrem por causa disso. É errado. Um dia, o vovô quase matou uma galinha na nossa frente. Ela se balançava e tentava escapar, com as perninhas pro ar. Fazia um barulhinho tão triste com o bico. Eu e a Marcelinha choramos e o vovô soltou ela. O chão ficou forrado de pena. Tadinha, se escondeu no galinheiro e começou a fazer um sonzinho esquisito. Acho que ela tava chorando. Ele ia matar ela só pra fazer galinha ao molho.
— A vida deles é essa, Rubinho.
— Mas não precisa, né? Eu e a Marcelinha não comemos carne, a gente nem sente falta. Tô vivo aqui. Ela também.
— Tudo bem, Rubinho. Mas não tem problema em tomar leite e consumir os ovos da galinha e o mel da abelha.
— Acho que tem sim, tia. Até o ano passado, o leite da minha mãe era meu. Então o leite da vaca é do bezerrinho até acabar. Não acho certo tomar o leite que é dele.
— Mas e os ovos e o mel?
— Ah, tia, não como nada de bicho não. O que vem do bicho é do bicho. Acho que se fosse pra mim ele me oferecia.
— É, Rubinho. Não posso negar que você tem um bom argumento.
— A gente não precisa de nada disso. Tem tanta coisa gostosa pra gente comer sem judiar de ninguém.
— Eu acredito.
— Minha mãe faz bolo, torta, pão, sorvete, tudo isso sem nada dos bichinhos.
— Sério?
— É sim. Na semana que vem vou trazer um bolo bem fofinho pra todo mundo experimentar.
— Traga sim. Tenho certeza de que vamos adorar.

Rubinho desfez o semblante tristonho, sorriu, abriu o caderno e mostrou um desenho para a professora. Um homem idoso soltava um peixe em um rio. Ao seu lado, havia um cão, um boi, um porco, uma cabra e uma galinha.

— Quem é esse?
— É o vovô, ele não come mais carne.
— Que legal! Então você conseguiu mudar a cabeça do vovô?
— Sim…no ano passado.
— Isso é incrível! Você deve ter ficado muito feliz.
— Fiquei sim!
— Muito bom, Rubinho! Parabéns!
Ah, tia. Aquela hora eu falei que os animais não dão nada pra gente. Eles dão sim.
— O quê, Rubinho?
— Eles dão lição de vida.

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Você se lembra de mim?

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There Is Always Hope, Banksy

Perto do Banco do Brasil, um rapaz se aproximou de mim sorrindo e perguntou se eu me recordava dele.

— Lembro sim. Você ficou um tempo na rua, não?
— Sim. Então, parei com o crack, mano. Na verdade, parei com tudo.
— Que bom, cara. Muito bom mesmo saber disso.
— É…agora estou bem mesmo. Estou limpo desde o final do ano passado. Não tive nenhuma recaída e estou trabalhando também.
— Você é um exemplo. Pode ter certeza. Isso é uma grande notícia.
— Você acha que estou bonito?
— Está sim. Nem parece o mesmo cara.
— Recuperei todo o peso que perdi enquanto fumava pedra. Olha minha roupa limpinha e nova.
— Ficou muito bem em você.
— Comprei sexta quando recebi o pagamento.
— Que beleza.
— Fiquei mais de ano vagando pela rua, noiado mesmo. Você lembra que eu andava pedindo dinheiro, né?
— Lembro, claro que lembro.
— Isso já passou. Voltei a trabalhar como ajudante de marceneiro também. Tô feliz, cara, de verdade.
— Me desculpe se estou incomodando, falando demais.
— Que isso. Claro que não. É sempre bom receber uma notícia assim. Anima qualquer um com um pouquinho de sensibilidade.
— Valeu mesmo! Vou indo porque amanhã tenho que acordar bem cedo pra trabalhar.
— De nada, cara. Fique bem. Bom trabalho e siga o seu caminho.

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Written by David Arioch

June 19th, 2017 at 12:17 am

A lição de Dona Maria

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Dona Maria cuidando de seus companheiros animais (Fotos: David Arioch)

Em março de 2014, comecei a produzir um documentário sobre a realidade da periferia. Durante as filmagens, conheci a Dona Maria, uma senhora que trabalhava recolhendo materiais recicláveis.

Em uma manhã, testemunhei o estado lastimável de sua casinha, atingida por uma forte enxurrada. Ela me contou que perdeu quase tudo. Apesar da situação extremamente difícil, a sua maior preocupação era com os animais com quem ela convivia. 

No interior do casebre, sobre uma pequena cama, estava uma cadelinha, a quem ela tratava como se fosse uma filha. Dias antes, a cachorrinha tinha passado mal e ela percorreu quilômetros a pé, até encontrar um médico veterinário.

No casebre, moravam também outros dois cães que gostavam de ficar perto da única porta, como se fossem responsáveis pela segurança do lar. Em cima de um colchão, me deparei com o que mais me chamou a atenção – três pratinhos com ração.

Dona Maria não ganhava nem o suficiente para a subsistência, chegando até a passar fome, e dois dias antes quase perdeu a casinha construída com as próprias mãos. Apesar de tudo, ela afirmou que o mais importante era cuidar de seus três companheiros animais.

 

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Written by David Arioch

June 15th, 2017 at 3:03 pm

Sobre uma grande decepção

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Arte: Azraelengel

Ontem, eu tive uma grande decepção com uma pessoa bem próxima de mim. Ela fez algo que eu jamais seria capaz de fazer. Por ser alguém em quem eu confiava, senti um imenso mal-estar nas primeiras horas. Fiquei atordoado tentando processar o que aconteceu, que mais parecia um pesadelo do que realidade. Não senti raiva nem ódio; não ofendi, não xinguei, só lamentei. Sou grato à vida por ter me feito assim.

O que as pessoas me oferecem de ruim, não ofereço a elas, porque não é algo que condiz com a minha natureza. Muito pelo contrário, seria somente eu não sendo quem sou, mascarando a minha própria identidade. Achei melhor optar pela distância, mas em vez de praguejar ou dizer qualquer coisa negativa, o que nunca foi do meu feitio, preferi desejar votos sinceros de que ela receba o melhor da vida, porque é isso que realmente desejo. Eu me recupero e a vida continua.

Written by David Arioch

June 14th, 2017 at 1:54 am

“Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?”

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Arte de Thomas Sidney Copper – Art Gallery Collection

No mercado, perto da fila do açougue, ouvi uma garotinha conversando com a mãe. Com a naturalidade típica das crianças, perguntou por que ela tinha que comer carne.

— Porque você precisa de proteína pra crescer forte e saudável.

— Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?

Constrangida, a mulher saiu da fila do açougue com a filha enquanto algumas pessoas riam e outras refletiam.





Ransom Riggs e o conto do filho vegetariano de um fazendeiro

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“Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo”

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O livro “Contos Peculiares”, do escritor estadunidense Ransom Riggs, é considerado um livro dentro dos livros, já que ele surgiu a partir da série “O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”. Como pesquiso sobre direitos animais, vegetarianismo e veganismo na literatura, dos dez contos que fluem com facilidade e fazem o leitor mergulhar em um universo quimérico de possibilidades e impossibilidades, um me chamou mais a atenção. É a história de um jovem bastante sensível que reconhece o direito à vida de todas as criaturas. E por isso, se recusa a comê-las, explorá-las ou puni-las, mesmo sendo filho de um fazendeiro.

Intitulado “O Gafanhoto”, o conto começa narrando a história de Edvard, um homem que deixou a Noruega em busca de prosperidade nos Estados Unidos. Ele passou por tantas dificuldades no passado que decidiu dedicar-se completamente a uma fazenda que comprou no Território de Dakota, na região setentrional da Luisiana.

Recordando-se da experiência vivida por um amigo que se apaixonou, casou, teve filhos e vivia na pobreza, Edvard evitava relacionamentos. Porém, como sentimentos independem de razão ou mesmo querer, o norueguês se apaixonou, casou e mais tarde teve um filho. A criança nasceu com um coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.

Mas a felicidade gerada pelo nascimento do filho, que trouxe muitas expectativas a Edvard, chegou ao fim quando a esposa fragilizada acabou falecendo após o parto. Tendo de criar o menino sozinho, o fazendeiro sentiu raiva da criança por ela ser especial – estranha e delicada.

Mesmo ciente de que o menino não tinha culpa da morte da esposa, todo o amor de Edvard se transfigurou em amargura. Nem as semelhanças físicas dos dois sensibilizaram o homem, que se sentia incomodado por ter um filho com coração tão imenso que se apaixonava facilmente:

“Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.”

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Quando o menino tinha 14 anos, uma nuvem de gafanhotos que se estendia por quilômetros devorou o capim, o milho e o trigo da localidade. Os insetos arrancaram até a lã dos carneiros. Encarados como a maior ameaça dos últimos tempos, os colonos iniciaram uma guerra contra os gafanhotos, e assim cada cidadão foi obrigado a entregar quinze quilos de gafanhotos mortos por semana. Quem não fizesse isso, seria multado.

Enquanto Edvard cumpria o seu papel, Ollie recusou-se a matar qualquer inseto. O menino via valor na vida de todas as criaturas, inclusive dos gafanhotos, e saía de casa arrastando os pés para não matar nenhum deles. Irritado com o comportamento do filho que lhe custou uma multa, Edvard virou as costas para ele.

Ninguém na cidade conversava mais com o menino, e sentindo-se muito solitário, Ollie fez amizade com um gafanhoto, tornado seu confidente. O inseto, alimentado às escondidas, era mantido embaixo da cama para que Edvard não o visse. “Não é sua culpa que todos o odeiem. Você só está fazendo o que foi criado para fazer”, disse ao gafanhoto que recebeu o nome de Thor. Em resposta, ouviu somente um “Crii-criiic”.

Quando Edvard descobriu que havia um gafanhoto morando sob o seu teto, ele o arremessou na lareira e Ollie chorou depois de ouvir o lamento agudo do seu grande amigo não humano. Expulso de casa, o menino passou a noite no campo até ser encontrado pelo pai. O homem ficou chocado ao reconhecer que o filho se tornou um gafanhoto gigante. Sem saber o que fazer, buscou a ajuda de um velho sábio que possuía um livro justificando a metamorfose:

“Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.”

Edvard então foi informado de que o filho só voltaria a forma normal se fosse realmente amado por alguém. Incapaz de demonstrar o seu amor, e sentindo repulsa por Ollie ter se tornado um dos seres que ele mais desprezava, o homem alardeou por toda a cidade que ele daria a sua fazenda a quem amasse seu filho e o fizesse retornar à forma humana.

O menino em forma de gafanhoto acabou capturado por filhos de colonos. Eles o aprisionaram, mas não conseguiram alcançar o objetivo, pois nenhum deles o amava, nem mesmo o respeitava. Vendido para um velho caçador, o gafanhoto começou a conviver com cães de caça, até que assumiu a forma de um cão. Durante uma caçada, ele soube que sua função era recolher os gansos abatidos pelo caçador.

No dia seguinte, reprovando a atitude do homem, ele fugiu pelo campo com os gansos. Sem saber do paradeiro do filho, Edvard sentiu-se muito mal pela perda de Ollie. Mais tarde, o fazendeiro casou-se novamente e teve uma filha a quem deu o nome de Asgard. A menina, que de tão bondosa era muito semelhante a Ollie, não enfrentou a mesma intransigência por parte do pai, provavelmente porque o homem temia cometer os mesmos erros.

Um dia, tendo somente nabos para comer, o fazendeiro comemorou quando encontrou um ganso no campo, disperso de seu bando. Edvard capturou o animal e o levou para casa, feliz com a possibilidade de um jantar à base de carne de ganso. “Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo!”, insistiu a menina que desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.

Lembrando-se do filho, Edvard concordou em poupá-lo. Em pouco tempo, o animal tornou-se o melhor amigo de Asgard. E todos respeitavam o seu desejo de não querer vê-lo morto nem ferido. A convivência dos dois e o amor que ela dedicava ao ganso fez com que ele, numa manhã, retornasse à sua forma humana.

Acompanhado de Asgard, o pai ficou extremamente emocionado e perguntou a Ollie se ele poderia perdoá-lo. “Eu o perdoei há anos. Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa”, declarou o rapaz de bom coração.

Ransom Riggs

De acordo com a Editora Intrínseca, Ransom Riggs cresceu na Flórida, mas reside na terra das crianças peculiares, Los Angeles. Formou-se no Kenyon College e na Escola de Cinema e TV da Universidade do Sul da Califórnia, além de fazer alguns curtas-metragens premiados. Nas horas vagas é blogueiro e repórter especializado em viagens, e sua série de ensaios de viagem, Strange Geographies, seu primeiro romance, pode ser lida em ransomriggs.com.

Saiba Mais

“Contos Peculiares”, de Ransom Riggs, foi lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca.

“O Gafanhoto” é o oitavo conto da obra.

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Um ratinho na cozinha

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Arte: Risachantag

Com não mais que sete anos, numa noite fui até a cozinha e encontrei meu pai sentado no chão, aparentemente falando sozinho. Quando me aproximei, vi que tinha um rato perto dele, desses que a maioria despreza e mata quando invadem a cozinha. Ele conversava com o animalzinho, e achei aquilo intrigante.

Por alguns meses, meu pai encontrou todas as noites aquele ratinho ruço, o alimentando com a mais singela malácia. Mazzaropi sempre retornava quase no mesmo horário, com diferença de minutos. Um dia, ele desapareceu. Então perguntei ao meu pai o que ele faria: “Nada, porque na hora certa ele seguiu o seu caminho, o que não deve ser traçado por nós só porque demos a ele um pouquinho daquilo que chamamos de carinho.”

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Written by David Arioch

January 25th, 2017 at 11:40 pm

A efêmera poesia do efêmero

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Seu corpo era amarelo, marrom e preto, mas conforme balançava as asas, tudo se uniformizava num dourado lampejante (Foto: Reprodução)

Quando criança, um dia perguntei à minha mãe o que significa efêmero. Ela não respondeu. Dois dias depois, fomos até um riacho e em meio à relva havia um inseto parecido com uma libélula. Se movia com leveza e tinha a mesma sofreguidão da água se chocando contra as rochas. Seu corpo era amarelo, marrom e preto, mas conforme balançava as asas, tudo se uniformizava num dourado lampejante.

Como era fim de semana, minha mãe sugeriu que passássemos o dia naquele lugar, assistindo a rotina daquele inseto singular. No final da tarde, depois de um cochilo, acordei e o vi voando em direção a uma pequena árvore. Lá, se aninhou e repousou. Eu e minha mãe nos aproximamos um pouco e vimos que o espécime nem se movia, parecia fragilizado. Pensei até que tivesse morrido.

Minha mãe me advertiu para ter calma. Uma hora depois, o inseto depositou uma grande quantidade de ovos em um dos galhos mais ocultos e não mais se moveu, simplesmente faleceu. Então perguntei o que houve. “Por que ele morreu assim e logo hoje que viemos aqui?” Minha mãe sorriu e me explicou que aquele inseto na realidade era uma fêmea que se tornou adulta pela manhã:

“A vida adulta dela começou pouco antes da nossa chegada e terminou agora. Ela existe somente para que outros existam. Mal se alimenta porque o tempo é curto e seus filhos precisam nascer. Por isso o nome dela é efêmera, e é isto que significa efêmero, tudo que tem curta duração; uma palavra que deveria ser sempre usada em referência aos presentes da comunhão que não temos o privilégio de usufruir porque é chegada a hora de partir.”

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Written by David Arioch

January 22nd, 2017 at 12:55 pm