David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Esses dias me perguntaram o que eu acho do Paulo Coelho

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Tratando-se de literatura, e o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim (Foto: Reprodução)

— Acho que o Paulo Coelho é um escritor que se propôs a fazer o trabalho que está fazendo e se tornou bem-sucedido nesse nicho. Não endosso nenhuma opinião ou posição ofensiva ou desdenhosa em relação a ele. Particularmente, tenho predileção por outro tipo de literatura, mas reconheço que ele tem os méritos dele.

Existe algo que chamam de “literatura comercial”, que é o que as pessoas mais consomem no mundo todo se tratando de literatura, e isso, claro, é encabeçado por best-sellers que podem ter sido ou não planejados pensando em vendagem e alcance de um grande público.

No entanto, não cabe a mim dizer se uma pessoa escreve algo estritamente para vender, porque acredito que dificilmente uma pessoa se dedicaria a produzir qualquer tipo de literatura se aquilo não despertasse nela nenhum tipo de gáudio, ou anseio de externalizar uma manifestação conscienciosa em algum nível, seja rasa ou profunda na interpretação subjetiva ou não de alguém.

Um autor que vende muitos livros pode até ter seu trabalho desconsiderado no que diz respeito ao enredo, estrutura, linguagem, etc. Mas se ele alcançou popularidade, no mínimo responde aos anseios culturais de um público bem diverso. Agora se isso acrescenta algo na vida do leitor, isso eu não sei dizer, porque sou apenas um leitor em meio a uma miríade, e minha opinião ou posição não é universal.

Por isso, sempre acho crítica literária algo perigoso quando o autor imprime pessoalidade em vez de avaliar uma obra ponderando sobre o meio, o contexto ao qual ela pertence. Se isso acontece, o que temos diante de nós não é exatamente uma crítica, mas um emaranhado de opiniões e impressões que passam uma ideia de “não gosto desse autor porque ele não corresponde ao meus anseios”, e isso não é muito profissional.

Ao longo da minha vida, li pouco ou quase nada de fantasia, principalmente da adolescência em diante. De terror, se você se refere a Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, sim, li consideravelmente. Talvez eu poderia citar também alguns autores clássicos como John Polidori, Mary Shelley e Bram Stoker; e alguns outros mais contemporâneos como Guy Endore, Stephen King, Clive Barker e Anne Rice, de quem não conheço profundamente o trabalho também. E se me perguntar sobre autores das novas gerações, simplesmente acho que eu não saberia citar nenhum nome.

Não nego que há muita coisa relacionada à literatura que não desperta a minha atenção, e está tudo bem. Ademais, isso não significa que o que não leio não tenha nenhum valor. Se uma obra do chamado “pior autor do mundo” proporciona algo de bom aos leitores, na minha opinião isso é relevante. Borges, por exemplo, passou boa parte de sua vida lendo os mesmos livros, ainda que diante de uma imensa biblioteca. Ele nem mesmo se considerava um grande leitor tratando-se de diversidade literária. Afirmava que pouco ou quase nada conhecia da literatura contemporânea. Nem por isso dedicava tempo falando mal de autores ou os desmerecendo.

U sintezi, o que quero dizer com isso tudo é que o meu gosto não é baliza do que é bom ou ruim. É basicamente o meu gosto, e ele fala essencialmente sobre mim, não sobre os autores que leio ou não leio.

 





 

Written by David Arioch

January 21st, 2018 at 2:03 pm

16 livros disponíveis gratuitamente no Le Livros para repensarmos nossas relações com os animais

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Como usuário de Kindle, frequentemente navego por livrarias e outros sites em busca de alguma novidade literária ou de algo relevante se tratando de livros digitais; até pela comodidade em ler principalmente quando estou fora de casa. Foi em uma dessas buscas que tive a ideia de dedicar um tempinho a reunir em um texto 16 livros disponíveis gratuitamente no site Le Livros. São obras que nos levam a refletir sobre as nossas relações com os animais não humanos. Há narrativas ficcionais e obras de caráter filosófico, jornalístico e científico de autores brasileiros e estrangeiros. Em menor ou maior proporção, todos têm algo a acrescentar à discussão e à percepção sobre os direitos animais.

“Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer

Jonathan Safran Foer discorre sobre o mundo da criação intensiva de aves, porcos e bois, assim como a pesca em larga escala e suas implicações. Após três anos de pesquisas, o resultado é um panorama revelador que mostra que o preço relativamente acessível dos produtos de origem animal só foi possível por causa da intensa violência e do tratamento cruel que dispensamos aos animais no regime industrial.

“De Gado a Homens”, de Ana Paula Maia

Edgar Wilson é um ex-carvoeiro que trabalha em um matadouro de gado em que a carne é destinada à produção de hambúrgueres que nunca experimentou. Exercendo com perícia a função de atordoador, o responsável pelo abate se vê, junto de seu chefe e de outros funcionários, surpreso diante da morte inesperada de animais e dos questionamentos despertados por tais eventos, até então considerados impossíveis.

“A Hora dos Ruminantes”, de José J. Veiga

Conta a história da pequena cidade de Manarairema, que é tomada por cães, que chegam às dúzias no vilarejo, causando uma inversão de papéis. Enquanto os moradores ficam acuados em suas casas, os animais passeiam livremente pela cidade. E, por último, a chegada de centenas de bois completa o quadro alegórico do romance.

 “Eles Sempre Estarão ao Seu Lado”, de Teresa J. Rhyne

O que levaria uma advogada amante de queijos e carnes a se tornar vegana? A reflexão despertada pelo amor por seu companheiro canino. Teresa Rhyne e Seamus, o beagle, sobreviveram ao câncer uma vez, então, quando Seamus desenvolve outro câncer, Teresa embarca em uma intensa jornada de mudanças. Quando ela se depara com outros dois cachorros que precisam de ajuda, incluindo um que foi resgatado de testes com animais, virar as costas parece impossível diante de toda a crueldade que ela descobre.

“Canto de Muro”, de Luís da Câmara Cascudo

O livro pode ser definido como um deslavado namoro com a natureza e reverência pelas espécies animais menos prestigiadas pelo bicho humano: ratos, cobras, escorpiões, morcegos, aranhas, baratas “profissionalmente famintas”, formigas, besouros, o grilo “solitário e tenor”, o sapo “orgulhoso, atrevido e covarde na classe musical dos barítonos”, as lagartixas, muito educadas, balançando “as cabecinhas triangulares concordando com tudo”, todo o povinho miúdo que vive nos quintais das velhas casas, nos cantos de muro, entre trepadeiras, tijolos quebrados, e um tanque, no qual vão se abeberar os bem-te-vis, os xexéus, as lavadeiras de casaca preta.

“Caninos Brancos”, de Jack London

Parte lobo, parte cão, Caninos Brancos é vendido por um índio ao perverso Beleza Smith. Sofrendo mil tormentos, o animal aprende que para sobreviver é preciso adaptar-se sempre e sempre. Nesta aventura clássica, Jack London mais uma vez traça um empolgante paralelo entre bicho e homem, natureza e civilização.

“Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee

A consagrada romancista australiana Elizabeth Costello, personagem criada por J. M. Coetzee, já havia protagonizado “A Vida dos Animais”, livro em que profere duas conferências sobre a crueldade com que são tratados os animais não humanos. Em “Elizabeth Costello”, ela vive um novo conflito e o assunto volta a ser rediscutido em um capítulo.

“Desonra”, de J.M. Coetzee

Embora “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello” tenham se popularizado nesse aspecto, a discussão em torno dos direitos animais na literatura de J.M. Coetzee começou modestamente com o romance “Desonra”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente, ainda mais quando o protagonista decide realizar trabalho voluntário em um local onde cuidam de animais enfermos e abandonados.

“A Mulher que Matou os Peixes”, de Clarice Lispector

“A mulher que matou os peixes infelizmente sou eu”, afirma Clarice Lispector confessando o “crime” que cometeu sem querer. E para explicar como tudo aconteceu, ela escreveu uma história de compreensão e afeto para com pessoas e bichos. Clarice conta sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa. Os que vieram sem ser convidados e foram ficando, e os que ela escolheu para criar, e que foram muitos: uma lagartixa que comia os mosquitos e mantinha limpa a sua casa, cachorros brincalhões, uma gata curiosa, um miquinho esperto, vários coelhos…

 “O Grande Ivan”, de Katherine Applegate

Ivan é um gorila que há 27 anos vive com outros animais em um cativeiro em um shopping. Impedido de sair de um espaço reduzido, as suas únicas distrações são uma TV velha, uma piscina suja e um balanço de pneu.

“A Evolução de Bruno Littlemore”, de Benjamin Heale

Bruno Littlemore é um chimpanzé nascido no zoológico de Chicago, e logo transportado a um laboratório, onde fica sob os cuidados da primatóloga Lydia Littlemore. Como nasceu distante da natureza, o animal que tem uma inteligência muito acima da média não sabe como lidar com seus instintos mais primitivos.

 “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, de Mark Haddon

Christopher John Francis Boone gosta de animais, mas não entende nada de relações humanas. Um dia, christopher encontra Wellington, o cachorro da vizinha morto no jardim. É acusado de assassinato e preso. Depois de uma noite na cadeia, decide descobrir quem matou o animal. Então escreve um livro relatando suas investigações.

“Zoo”, de James Petterson

Uma misteriosa doença começa a se espalhar pelo mundo. Inexplicavelmente, animais passam a caçar humanos e a matá-los de forma brutal. A princípio, parece ser algo que se dissemina apenas entre as criaturas selvagens, mas logo os bichos de estimação também mostram as suas garras e as vítimas se multiplicam.

“A Criação”, de Edward O. Wilson

“A Criação” é um apelo para que deixemos o embate entre religião e ciência de lado para podermos salvar a vida no planeta, que nunca esteve tão ameaçado. Valendo- se de suas experiências como um dos biólogos mais destacados no cenário mundial, Edward O. Wilson prevê que, até o final do século, pelo menos a metade das espécies de plantas e animais da Terra poderá ter desaparecido, ou estará a caminho da extinção precoce.

“O Ano do Dilúvio”, de Margaret Atwood

Pensamentos uniformes, comportamentos programados, regimes de exceção, controle social, experiências genéticas e a luta por uma sobrevivência cada vez mais em risco pelo desrespeito à natureza compõem “O ano do dilúvio”, romance pós-apocalíptico da escritora canadense vegetariana Margaret Atwood.

“Os Elementos da Filosofia Moral”, de James Rachels

Abordando os temas centrais da filosofia moral de forma clara e despretensiosa, o autor guia o leitor pelos labirintos fascinantes de problemas, teorias e argumentos relacionados com o modo como devemos viver a vida. Um dos aspectos mais destacáveis da obra é a integração de diversos problemas de ética aplicada, como a eutanásia e os direitos animais.

O protovegetarianismo na literatura do poeta romano Ovídio

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“Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos ímpios”

Ovídio ajudou a eternizar o filósofo grego Pitágoras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente (Acervo: Ancient History Encyclopedia)

Influência para Dante Alighieri, Shakespeare, Caravaggio, Michelangelo, Boccaccio, Rembrandt, Rousseau, Chaucer, Kafka, James Joyce, Fernando Pessoa e Cruz e Sousa, entre outros importantes nomes da literatura e das artes plásticas, o poeta romano Ovídio se tornou mais conhecido pela autoria da obra em latim “Metamorfoses”, composta em 15 livros em hexâmetro heroico e considerada uma das mais importantes obras da mitologia clássica.

Quando “Metamorfoses” foi publicada pela primeira vez no ano 8 do século I, Ovídio chegou a ser considerado um contraventor em diversos círculos sociais, principalmente pela forma como descreve, mesmo que poeticamente, um mundo diferente daquele idealizado pelos imperadores da época. Até hoje a causa de seu exílio na remota Tomis (atual Constanta ou Constança, na Romênia), na Cítia Menor, ao Sul do Mar Negro, ainda á incerta, embora “Metamorfoses” tenha sido publicada no mesmo ano.

Mas não é difícil entender por que Ovídio, que gozava de grande popularidade, despertaria desconfiança e receio. Assim como alguns filósofos da Grécia Antiga que foram perseguidos por suas ideias que se voltavam mais para o desenvolvimento humano, equilíbrio entre os seres vivos e à potencialização de sensibilidades, como Sócrates, que foi obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso, Ovídio também não admitia restrições ao intelecto e à capacidade humana de gerir a compaixão e o respeito pela vida em suas multifárias formas.

No 15º livro de “Metamorfoses”, há dois capítulos em especial que chamam a atenção. Na versão traduzida do original em latim para o inglês por Anthony S. Kline, no capítulo “Os Ensinamentos de Pitágoras: Vegetarianismo”, Ovídio ajudou a eternizar o filósofo grego Pitágoras como um dos precursores do vegetarianismo no Ocidente, o que contribuiu para dar origem ao termo “pitagóricos” em referência a “vegetarianos”, locução que passaria a existir formalmente apenas no século 19, em referência a quem se abstém do consumo de carne e de outros alimentos de origem animal. Sendo assim, é importante reconhecer que se a história do vegetarianismo no Ocidente remete a mais de 2,5 mil anos, em parte isso se deve a autores como Ovídio, já que Pitágoras, por exemplo, não publicou nada em vida.

Em “Metamorfoses”, o poeta romano narra que havia um homem que fugiu de Samos porque, odiando a tirania de seus governantes, preferiu viver em exílio voluntário. Segundo Ovídio, embora os deuses estivessem longe, Pitágoras poderia visitá-los através do céu e do poder de sua mente, já que o que a natureza negou à visão humana, Pitágoras poderia desfrutar a partir do seu terceiro olho – em menção à sua capacidade intuitiva atilada.

Pitágoras fazia questão de dividir o seu conhecimento com o público. De acordo com o poeta romano, ele reunia multidões silenciosas que ouviam as maravilhas de suas palavras quanto à origem do universo e das causas das coisas. Discorria sobre o mundo físico, os deuses, o surgimento da neve, a origem dos relâmpagos, das tempestades, dos trovões e das estrelas. Na realidade, sobre tudo que era oculto ou mesmo intencionalmente velado. Incentivava também a abstenção do consumo de animais, um fato em especial que estimulou o pintor flamengo Peter Paul Rubens a conceber a pintura que receberia o nome “Pitágoras advogando o vegetarianismo”, criada entre os anos de 1618 e 1620.

“Ele foi o primeiro a condenar o ato de servir carne à mesa. […] Seres humanos, parem de profanar seus corpos com alimentos ímpios. Há colheitas, há maçãs envergando os galhos; e uvas amadurecendo nas videiras; há ervas aromáticas; e aquelas que podem ser suaves e gentis sobre as chamas; […] A terra pródiga de sua riqueza, fornece-lhe um suave sustento e oferece comida sem morte ou derramamento de sangue”, exorta Ovídio citando Pitágoras.

O poeta romano escreveu, baseando-se no discurso do grego, que a carne satisfaz a fome dos animais selvagens, embora não todos eles, já que cavalos, ovelhas e bovinos se alimentam de grama. “Tigres armênios, leões furiosos, lobos e ursos desfrutam de comida molhada com sangue. Ó, quão errada é a carne feita de carne; para um corpo voraz engordar, engolindo outro corpo; para uma criatura viver a partir da morte de outra criatura! Assim, entre essas riquezas, a terra, a maior das mães, cede. Você não é feliz a menos que rasgue, com dentes cruéis, lastimosas feridas, recordando assim a prática do ciclope; e você não pode satisfazer o seu voraz apetite e a sua inquieta fome a menos que você destrua outra vida”, critica.

Entre os ensinamentos de Pitágoras, Ovídio aborda a Era do Ouro, uma época em que os seres humanos eram felizes porque se satisfaziam com os frutos das árvores e com as ervas que a terra produzia, assim não contaminando os seus lábios com sangue. Naquele tempo, os pássaros abriam caminho no ar em segurança, sem terem o que temer, assim como os leões que vagavam sem medo da intervenção humana: “Mas, uma vez que alguém, quem quer que fosse, invejava as presas do leão e enchia sua insaciável barriga com carne, abria-se caminho para o crime.”

Ovídio relata que a violência humana contra os animais começou a partir da violência e da morte das “feras selvagens”. E tal ferocidade, também citada no diálogo de Sócrates com Glauco, e registrado por Platão em “A República”, remete à ganância humana, aos homens invadindo áreas naturais cada vez maiores não para satisfazerem suas necessidades básicas, mas sim para lucrarem com suas produções, o que deixa subentendido que havia aqueles que já não se contentavam com a igualdade. Estes buscavam status, distinção baseada no poder pecuniário.

“A perversidade se espalhou ainda mais, e acredita-se que o porco foi considerado o primeiro a merecer o abate porque arrancou as sementes com o seu largo focinho e destruiu a esperança de uma colheita. A cabra foi levada à morte, no altar da vingança, para navegar pelas vinhas de Baco. Esses dois sofreram pelos seus crimes!”, conta Ovídio, acrescentando que rebanhos tranquilos como de ovelhas, animais naturalmente pacíficos, também foram vítimas da procacidade humana, mesmo sem terem invadido ou destruído plantações.

Citando os ensinamentos de Pitágoras, Ovídio declara que o ser humano imerso na violência contra os animais é um ingrato, indigno da dádiva que é o milho. Também fala dos homens que forçavam os bovinos a puxarem o arado, e quando estes já não gozavam da mesma vitalidade eram mortos a sangue frio, com golpes de machado no pescoço:

“Não era suficiente ter cometido tal maldade; envolveram os deuses em seus crimes e acreditam que os deuses se deleitavam com o abate dos bois que sofriam. A vítima, com sua beleza excepcional (uma vez que ser agradável é prejudicial), e que se distinguia pelas fitas rituais de ouro, era posicionada em frente ao altar enquanto ouvia, sem entender, as orações, e via o milho que trabalhou tanto para produzir sendo colocado entre seus chifres, e depois derrubado, manchado com o sangue das facas que refletiam na água límpida.”

Tencionando descobrir qual era a verdadeira vontade dos deuses, os homens, imersos na violência legitimada, arrancavam os pulmões do peito dos animais enquanto estes ainda estavam vivos, com o coração rufando. “Disso (tão grande é a fome do homem pelo alimento proibido) você se alimenta, ó raça humana! Não, eu imploro, concentre sua mente nas admoestações. Quando você coloca a carne do gado abatido em sua boca, sabe e sente que está devorando uma criatura amiga”, censura o autor.

No capítulo “Os Ensinamentos de Pitágoras: A Santidade da Vida”, Ovídio defende que, seguindo os preceitos de Pitágoras, devemos permitir e garantir que os animais vivam em segurança e de forma honrada, não cabendo a nós intervir no curso de suas naturezas, nem decidir quando suas vidas devem findar simplesmente por um capricho hedonista:

“Não podemos preencher as nossas barrigas como se estivéssemos em um banquete canibal. Que perversidade eles fazem, quão impiedosamente se preparam para derramar o próprio sangue humano, aquele que rasga a garganta de um bezerro com a faca e escuta insensível o seu balido; […] que chora como uma criança, ou se alimenta de uma ave que eles mesmos alimentaram. Até que ponto isso não é um verdadeiro assassinato? Para qual caminho isso leva? […] Deixe o boi morrer de velhice. Não engane os pássaros com galhos molhados nem aprisione o veado, assustando-os com cordas emplumadas ou iscas traiçoeiras como ganchos farpados. […] Deixe sua boca livre de seu sangue, desfrute de uma comida mais suave.”

Saiba Mais

Ovídio nasceu no ano 23 a.C. em Sulmona, na atual Itália, e faleceu no ano 17 ou 18 da Era Cristã em Tomis, na Cítia Menor.

Além de “Metamorfoses”, Ovídio legou obras como “Amores”, “Cartas de Pônticas”, “As Heroides”, “Curas para o Amor”, “A Arte de Amar” e “Tristezas”.

Referências

Ovid. Anthony S. Kline. Ovid’s Metamorphoses. University of Virginia (2000).

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).





 

“Warriors” de Sol Yurick e “Anábase” de Xenofonte

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Se você gosta do livro “The Warriors”, do Sol Yurick, ou da adaptação cinematográfica do livro feita pelo Walter Hill, sugiro que leia “Anábase” porque tudo leva a crer que “The Warriors” foi inspirado nessa que é a obra mais famosa de Xenofonte.

Na obra grega, a história se passa antes da era cristã e é protagonizada por soldados, não por violentos membros de gangues. Porém, tanto os soldados de Xenofonte quanto os marginais de Yurick enfrentam uma série de obstáculos para retornarem para casa. Sem dúvida, se ler uma, vale a pena ler a outra.





Written by David Arioch

January 2nd, 2018 at 12:06 am

Kostolias e a história do jovem que foi preso por ser vegetariano

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“Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância” 

Lançado em 2016 pela Editora Jaguatirica, “O Exilado Político Vegetariano” é um romance de Alexandre Kostolias baseado em fatos reais. A obra conta a história de Hernán López, um rapaz de origem humilde, morador de um dos bairros mais pobres de Santa Fé, na Argentina, que é perseguido e preso em janeiro de 1970. O motivo? Hernán é vegetariano.

Uma das vítimas da ditadura argentina, ele é arrastado de dentro da própria casa e jogado dentro de uma cela, sem direito a advogado ou qualquer tipo de intervenção a seu favor – nem mesmo contato com qualquer pessoa que não seja o carrasco “La Bestia”. Para realçar a quimera da situação, somente depois de semanas, quando é interrogado pela primeira vez pelo “Comisario Supervisor”, é que a Polícia da Província de Santa Fé reconhece que não há outro motivo para o rapaz estar preso, a não ser por sua filosofia de vida vegetariana; já que ele não é “comunista” nem “maricón” – considerados crimes na Argentina da época.

Na cela, Hernán mal dorme, pois sabe que sempre às 6h o carrasco “La Bestia” os visita. “O que lhe aconteceria? Só para começar, levaria um choque elétrico com bastão, o mesmo usado para conduzir gado para o abate nos frigoríficos. O pavor de levar choque com bastão atingia Hernán visceralmente: um dos motivos de suas convicções vegetarianas era o horror que lhe causava só de pensar na forma como os animais são abatidos nos matadouros. Era impossível saber o que o aguardava”, relata Kostolias nas páginas 32 e 33.

A recusa de Hernán López em consumir carne é considerada execrável porque o regime político da Argentina de 1970 considerava a pecuária como o maior orgulho econômico do país. E o desprezo de Hernán por essa cultura baseada na morte de animais era vista como uma atitude antipatriótica, passível de punição.

“Todos tinham muito orgulho da carne de Santa Fé. Bem, quase todos. Hernán López detestava carne. Pertencia a uma categoria de gente sobre a qual, naquelas bandas, pesavam muitas suspeitas, mas poucas informações: os vegetarianos. Hernán sempre sentira aversão por carne. Era algo que vinha desde a sua infância. Os bifes que o obrigavam a comer eram ingeridos com muita dificuldade, lhe causavam náuseas”, narra o autor na página 40.

Por ser vegetariano, os problemas de Hernán surgiram muito cedo. Os primeiros atritos foram com o pai Juan, um homem violento tanto dentro quanto fora de casa. Tendo trabalhado por muito tempo na “lida de gado”, atividade que associava à própria masculinidade, considerava uma afronta ter que tolerar um filho vegetariano sob o mesmo teto, ainda mais em um contexto onde carne era inclusive sinônimo de bem-estar. Associada às mulheres, trazia a equivocada ideia de saúde; e associada aos homens, a equivocada ideia da virilidade:

“Todo bife ancho e asado de costilla que trazia para casa, – com frequência cada vez menor – ganho em troca de serviços esporádicos prestados a algum rancheiro, era sagrado, e Hernán era forçado a comer a sua parte. Se necessário fosse, sob ameaça de chicote e pancada.”

Por isso, a convivência com o pai vaqueiro marcou uma das piores fases da vida do jovem protagonista. Mesmo sentindo profunda aversão, uma repulsa visceral por todos os tipos de carne, se viu obrigado a aprender a engolir sem mastigar – tentando não pensar em tudo que, para ele, estava evidentemente associado ao ato de consumir carne:

“Aprendeu a cortar pedaços no tamanho exato, grandes o suficiente para reduzir o número de vezes que tinha que cometer o sacrifício, pequenas o bastante para passar pela goela abaixo. E fazendo sempre um tremendo esforço para não vomitar. Não é de surpreender que quando seu pai faleceu de cirrose hepática aos 44 anos, Hernán não tenha ficado triste com a ocorrência. Respirou aliviado e nunca mais foi obrigado a comer carne.”

Já detido e encarcerado, em um dos interrogatórios com o “Comisario Supervisor”, Hernán pergunta se é crime ser vegetariano. Então o homem admite que nada consta no Código Penal, porém afirma que ser vegetariano pode se enquadrar como uma ofensa cultural, um delito social.

“Mas eu não considero um delito muito grave ser vegetariano. Eu mesmo, às vezes, prefiro um dourado do Rio Paraná na chapa, ao invés de um bife ancho”, declara o interrogador. Hernán, mesmo diante de uma situação difícil explica que um autêntico vegetariano não come peixe. Só grãos, legumes, verduras, raízes, frutas, coisas assim. Então o “Comisario” não reage bem à explicação do rapaz.

— Hmmm. Tem certeza? Um evidente radicalismo. Você tem certeza de que não é marxista-leninista?”, questiona.

“O Exilado Político Vegetariano”, de Alexandre Kostolias é uma obra sobre um jovem com identidade própria que tenta trilhar o seu próprio caminho em um mundo onde até mesmo a pretensa tolerância está coberta, implícita e explicitamente, de incomplacência. Enquanto as cortinas da vida caem, Hernán López deseja apenas viver à sua maneira, sem ser julgado e condenado por isso.

Em síntese, e na minha concepção, “O Exilado Político Vegetariano” é um livro sobre alguém que, até então imerso em um minúsculo universo de particular inocência e simplicidade, é lançado em um mundo de conflitos constantes entre individualidade, coletividade e alteridade que se diluem entre si. Por onde Hernán passa, há um desespero existencialista, se não o dele, o dos outros, que em face da liberdade de escolha não veem outro sentido na vida que não vivê-la, sofregamente ou não, independente de erros e acertos, e da angústia em um mundo em constante e célere transformação.

Para além do enredo, um dos pontos altos do livro é a leveza e irreverência da narrativa de Alexandre Kostolias, que intercala momentos de tensão com muito bom humor. Em alguns aspectos, a estrutura narrativa e a fluência textual de “O Exilado Político Vegetariano” me trazem lembranças do estilo individual despojado de Charles Bukowski.

Saiba Mais

“O Exilado Político Vegetariano” está à venda na Amazon, Cultura, Saraiva, Americanas e Submarino.





A obrigatoriedade e o prazer da leitura

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Tive amigos e colegas na minha infância e adolescência na escola que não apenas desgostavam da leitura como a desprezavam. A ideia da obrigatoriedade como as principais experiências com a leitura os levou a isso. Eles não viam a leitura para além do condicionamento. Não encaravam a leitura como uma escolha, uma opção.

Não tive esse problema porque fui estimulado a ler dentro de casa, e de forma bem natural. Quero dizer, ouvindo histórias, encontrando livros espalhados pela casa, convivendo com leitores, ganhando livros, fazendo minhas próprias escolhas; inclusive quando ficava de castigo no quarto dos meus pais e tinha o direito de ler e escolher o que ler.

Então, na escola, a ideia da leitura não me incomodava porque eu já havia sido estimulado nos primeiros anos de vida. Porém, aquelas crianças que não passaram por isso, com raras exceções, tinham dificuldade de aceitar o fato de que eram obrigadas a lerem algo. Afinal, a experiência com a leitura era condicionada, atrelada às obrigações escolares e vista como chata ou enfadonha.

Realmente há muitas crianças e adolescentes que não são capazes de pensarem em leitura sem logo associarem a notas, provas, trabalhos, Enem, vestibular. Logo, para muitos, por mais estranho que isso possa parecer, a ideia de ficar longe de livros é vista como prazerosa. O que, de fato, não deveria acontecer ou ser visto com normalidade. Porém, é uma consequência natural da maneira como se cria vínculo com os livros.

E quando o desinteresse pela leitura é crônico, a ideia da leitura vem embutida de más experiências que poderiam ter sido boas, se bem semeadas. Sendo assim, qual seria um bom caminho para evitar isso? A princípio, acredito ainda que estimular a leitura dentro de casa, mas de forma natural.

Creio que a oralidade, a contação de histórias, é o primeiro ponto de partida antes e durante o processo de alfabetização, porque aguça a imaginação e a criatividade da criança, despertando a vontade de conhecer mais histórias; e esse interesse aproxima as crianças dos livros. Logo não é difícil estimular uma criança a gostar de ler a partir da narração de histórias. Naturalmente, funciona como uma ponte que pode construir um vínculo de fruição perene e genuína.

Claro, conheci também crianças, adolescentes e adultos que desenvolveram o gosto pela leitura fora de casa, de forma independente, mas por fatores não tão recorrentes. Então, realmente sou da opinião de que os níveis de interesse pela leitura seriam muito maiores se houvesse de fato um incentivo doméstico.

Neste caso, que tal começar contando histórias ou lendo para as crianças próximas de nós? Com tantos projetos de democratização da leitura hoje em dia não é difícil doar ou presentear crianças com livros. Há inclusive bibliotecas, ONGs, institutos e instituições de ensino que fazem doações de obras literárias; distribuição de kits e coleções.

Ok, mas e no caso de jovens que não desenvolveram o gosto pela leitura? Neste caso, creio que vale a sugestão de abrir uma porta para a leitura baseando-se em predileções. Até mesmo uma biografia de alguém que um adolescente admire, ou um livro que deu origem a um filme ou jogo de videogame pode ser um bom princípio. Quando o interesse pela leitura é nulo, querer que uma pessoa leia uma obra que não a interessa sob uma perspectiva individual pode ser realmente contraproducente. Então por que não identificar interesses e usar isso como ponto de partida? Afinal, a leitura nos humaniza.





Written by David Arioch

December 28th, 2017 at 5:31 pm

A autoconsciência de Kafka

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Arte: Moonwild

Franz Kafka tinha uma autoconsciência tão poderosa, conhecia a si mesmo de maneira tão insólita, que antecipou em Gregor Samsa a sua própria morte. O seu personagem mais famoso amargou fome severa nos seus últimos dias, até ser encontrado morto e excepcionalmente magro.

Menos de dez anos depois da publicação de “A Metamorfose”, Kafka faleceu em decorrência de uma tuberculose laríngea que o impedia de se alimentar. E o que dizer ainda de “Um Artista da Fome”? Obra que transita da metáfora da sua própria marginalização para a inevitável literalidade do seu principiado fim.

 

Written by David Arioch

December 28th, 2017 at 5:25 pm

Knut Hamsun, o escritor norueguês que influenciou outros importantes nomes da literatura

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Håndkolorert dias. Forfatterene Knut Hamsun og Marie Hamsun står foran en stor høysåte sammen med en hund. *** Local Caption *** Hamsun, Knut, forfatter (1859-1952) Hamsun, Marie, forfatter (1881-1969)

Knut Hamsun foi um escritor norueguês que influenciou e inspirou Franz Kafka, Thomas Mann, Hermann Hesse, Isaac Bashevis Singer, Ernest Hemingway, H.G. Wells, Stefan Zweig e Charles Bukowski, entre outros escritores. Para quem não conhece o trabalho dele, sugiro que leiam “Fome”, “Pan” e “Um Vagabundo Toca em Surdina”. Hamsun era um autor bastante controverso, que nunca fez questão de velar a sua simpatia por um tipo telúrico de anti-civilização.

Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores?

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Elizabeth Costello: “Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados”

Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa (Aristóteles percebeu isso claramente).

Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente faz algumas centenas de anos, quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita.

Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer o que quisermos com ele. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos cortar seu pescoço, arrancar seu coração, atirá-lo ao fogo. Não existe lei quando se fala de prisioneiros de guerra.

Páginas 118-119 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.

“Estar vivo é ser uma alma viva. Um animal – e somos todos animais – é uma alma inserida num corpo”

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“A sensação – uma sensação pesadamente afetiva – de ser um corpo com membros que têm uma extensão no espaço, de se estar vivo no mundo”

Estar vivo é ser uma alma viva. Um animal – e somos todos animais – é uma alma inserida num corpo. Foi precisamente isso que Descartes enxergou e, por razões pessoais, escolheu negar. O animal vive, disse Descartes, da mesma forma que a máquina vive. O animal não é nada além do mecanismo que o constitui. Se tem uma alma, a tem da mesma maneira que a máquina dispõe de uma bateria, para lhe fornecer a faísca que a faz funcionar. Mas o animal é uma alma inserida num corpo, e a qualidade de seu ser não é a alegria.

Cogito ergo sum é também uma famosa frase sua. É uma fórmula que sempre me incomodou. Pressupõe que um ser vivo que não faz o que ele chama de pensar é, de alguma forma, um ser de segunda classe. Ao ato de pensar, à cogitação, oponho a plenitude, a corporalidade, a sensação de ser – não uma consciência de si mesmo como uma espécie de fantasmagórica máquina raciocinante pensando pensamentos, mas ao contrário, a sensação – uma sensação pesadamente afetiva – de ser um corpo com membros que têm uma extensão no espaço, de se estar vivo no mundo. Essa plenitude contrasta em tudo com o estado fundamental de Descartes, que traz em si uma sensação de vazio: a sensação de uma ervilha chacoalhando dentro de uma vagem.

Páginas 89-90 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.

Written by David Arioch

November 17th, 2017 at 10:26 am