David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?”

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Versão da Companhia das Letras relançada no Brasil em 2016

Os dois carneirinhos passam o dia amarrados ao lado do estábulo em um pedaço de chão nu. Seus balidos, constantes e monótonos, começaram a incomodá-lo. Ele vai até Petrus, que está consertando a bicicleta, de rodas para o ar. “Esses carneiros”, diz, “não acha que podiam ficar amarrados em algum lugar onde possam pastar?”

“São para a festa”, Petrus diz. “Sábado vou matar os dois para a festa. Você e Lucy vêm também.” Ele limpa as mãos.

“Estou convidando você e Lucy para a festa.”

“Sábado?”

“É, vou dar uma festa no sábado. Festa grande.”

“Obrigado. Mas mesmo sendo para a festa, não acha que os carneiros podiam pastar?”

Uma hora depois, os carneiros ainda estão amarrados, ainda balindo dolorosamente. Petrus não está em parte alguma. Exasperado, ele desamarra os bichos e prende ao lado da represa, onde a relva é abundante.

Os carneiros bebem moderadamente, depois começam a pastar tranquilamente. São de raça persa, de cara preta, parecidos um com o outro no tamanho, nas cores, até nos movimentos. Gêmeos, com toda certeza, destinados desde o nascimento à faca do açougueiro. Bom, nada de mais nisso. Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice?

Carneiros não são donos de si mesmos, donos da própria vida. Existem para ser usados, até a última gota, a carne comida, os ossos moídos e dados às galinhas. Não sobra nada, a não ser talvez a vesícula biliar, que ninguém come. Descartes devia ter pensado nisso. A alma, suspensa na bile escura, amarga, escondida.

Páginas 141 e 142 de “Desonra”, de J.M. Coetzee, publicado em 1999.

Written by David Arioch

November 11th, 2017 at 8:09 pm

Livro de culinária vegetariana publicado na Rússia em 1913 tem 1,5 mil receitas

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Em 1913, Olga Konstantinovna Zelenkova publicou o primeiro livro de culinária vegetariana da história da Rússia. Intitulado “Я никого не ем” ou “Eu Não Como Ninguém”, o livro é dividido em 350 categorias e conta com um total de 1500 receitas.

Written by David Arioch

November 9th, 2017 at 11:25 pm

Um presente do médico veterinário Ailton Salvador e do ex-deputado federal Alencar Furtado

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No livro, Alencar Furtado narra suas memórias (Fotos: David Arioch)

Ontem, ganhei um livro de presente do médico veterinário e grande profissional Ailton Salvador e do ex-deputado federal José Alencar Furtado, que hoje reside em Brasília. Atualmente com 92 anos, Alencar Furtado teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por ter denunciado as torturas praticadas no período da Ditadura Militar.

No livro “Um Pouco de Muitos – Memorizando”,  ele, que também foi pai do ex-deputado federal Heitor Alencar Furtado, falecido em 22 de outubro de 1982, narra as suas memórias. Fiquei honrado em ser presenteado por pessoas de grande caráter.

Written by David Arioch

August 16th, 2017 at 2:09 pm

Livro de poesia, música e HQ em defesa dos direitos animais vai ser lançado no sábado

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Livro “Os Animais Declamam e Cantam” vai ser vendido por R$ 35

Coordenado pelo jornalista Maurício Kanno, o livro “Os Animais Declamam e Cantam” vai ser lançado no sábado às 15h30 no Lar Vegetariano Vegan, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. A obra reúne colaborações literárias e visuais de artistas do Brasil, Peru, Chile, Equador, Colômbia, Argentina, Alemanha e Espanha.

“É um livro que reúne 87 poemas e músicas de 47 autores. O trabalho de compilação, ordenação, estímulo à produção e revisão crítica começou em 2013”, conta Maurício Kanno que coordenou outra antologia literária coletiva publicada em julho de 2016, reunindo 36 contos de 21 autores.

Os subcapítulos dos poemas brasileiros em “Os Animais Declamam e Cantam” foram intitulados como Irmãos Terráqueos, Humanos, Liberdade e Escravidão, e Festa, Dor e Humanos de Esperança. “E Ar, Terra e Água, no caso da poesia hispano-americana”, informa.

As músicas em defesa dos animais incluem rock, pop, samba, rap, paródias de Carnaval e de Natal, além de outros tipos de paródia. “Tivemos a contribuição de 10 artistas gráficos com 16 ilustrações e uma história em quadrinhos poética de sete páginas”, diz Kanno.

“Os Animais Declamam e Cantam” vai ser vendido por R$ 35. Quem não puder participar do evento, pode entrar em contato pelo e-mail mauricio.kanno@gmail.com para checar a disponibilidade de exemplares do livro. “Durante o lançamento, teremos declamações e apresentações das músicas que integram o livro. Além disso, o público e os autores podem debater sobre as obras publicadas”, enfatiza.

Localização

O Lar Vegetariano Vegan fica na Rua Clélia, 278, em Perdizes – a três pontos de ônibus a partir da estação de metrô da Barra Funda. Depois é só descer no ponto do Sesc Pompeia, já que o restaurante fica na mesma rua do Sesc. Chegando ao endereço, suba para o andar superior.

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Um bate-papo sobre veganismo com Robson Fernando de Souza, criador do Veganagente

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Robson lançou há pouco tempo o seu livro “Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética”

Robson Fernando de Souza escreve sobre veganismo desde 2007 (Foto: Divulgação)

Formado em licenciatura em ciências sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e tecnologia em gestão ambiental pelo Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), o vegano Robson Fernando de Souza se tornou uma referência nas discussões e divulgação de ideias sobre o veganismo no Brasil por causa do seu trabalho à frente do site Veganagente.

Recentemente, ele publicou o livro “Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética”, que é direcionado tanto para quem tem interesse em saber o que é o veganismo, como também para quem já é vegano há muito tempo. O livro que apresenta bons motivos para alguém se tornar vegano e refletir profundamente sobre a exploração animal tem 502 páginas e está à venda no site Clube de Autores, onde pode ser adquirido em versão impressa e digital.

Em entrevista que me foi concedida, Robson, que desde 2007 produz conteúdo de conscientização sobre o veganismo, fala sobre a sua história com o veganismo, o trabalho com o Veganagente, o seu livro, veganismo interseccional, o crescimento do veganismo, literatura vegana, barreiras na divulgação do veganismo, bem-estarismo e representatividade vegana, além de outros assuntos pertinentes aos direitos animais. Confira:

Robson, quando surgiu o seu interesse pelo veganismo? Como foi isso?

 Meu interesse pela defesa animal como um todo surgiu em 2005, com a repercussão da novela América, da Globo, que fazia apologia aos rodeios, e dos casacos de pele de Jennifer Lopez. Na época, eu ainda consumia alimentos de origem animal em abundância. Ao longo de dois anos de contato com veganos e vegetarianos em diversas comunidades do saudoso Orkut, minha resistência ao vegetarianismo foi sendo “minada” e diminuindo pouco a pouco. Então, em agosto de 2007, na época do rodeio anual de Barretos, refleti o quanto estava sendo incoerente ao defender alguns animais (vítimas de casacos de pele e touros explorados nos rodeios) e comer outros (os animais ditos “de consumo”). Então, no dia 24 daquele mês, me tornei vegetariano, já parando de consumir todos os alimentos de origem animal de uma vez (nunca fui protovegetariano). Já o veganismo foi chegando aos poucos entre aquele dia e 13 de julho de 2008, quando concluí que meu boicote de produtos não veganos (sabonetes com sebo, cremes de barbear com lanolina, cremes dentais com glicerina animal etc.) chegou ao “patamar” necessário para me considerar vegano. Foi assim que meu interesse pelo veganismo surgiu.

 Por que você decidiu criar o site Veganagente? O que te motivou?

 A decisão de criar o Veganagente resultou do desejo de criar um blog especializado em veganismo e vegetarianismo, com artigos, receitas, memes, vídeos, respostas a antiveganos e outros materiais. Antes dele, eu postava conteúdo de veganismo e direitos animais no antigo tumblr Vegetariano da Depressão e no Consciencia.blog.br (meu outro blog). Eu já escrevia sobre veganismo, vegetarianismo e direitos animais desde setembro de 2007, quando comecei a escrever artigos de opinião. E já naquela já distante época senti vontade de escrever um livro que tivesse ou incluísse como tema essa área do conhecimento.

 Fale um pouco do seu trabalho com o Veganagente. Você trabalha sozinho? Qual é a periodicidade das publicações?

O Veganagente é um blog em que publico artigos sobre direitos animais, veganismo e também veganismo interseccional. Trabalho sozinho nas postagens, e a hospedagem está a cargo de um amigo meu, a quem sou muito grato. A periodicidade este ano tem sido de um ou dois artigos por semana, já que também me ocupo escrevendo livros e preparando meu futuro canal no YouTube.

Percebi que o site tem uma preocupação em mostrar que o veganismo não é apenas sobre animais não humanos, mas todos os animais.

 Isso, minha preocupação é ressaltar que a ética do veganismo e dos direitos animais abrange todos os seres sencientes. Por sua natureza antiespecista, não discrimina a espécie humana como superior nem inferior. O veganismo, por ser focado no combate ao especismo, não prega, por exemplo, o boicote a empresas com publicidade discriminatória, mas nem por isso considera opcional e dispensável o respeito ético aos seres humanos. Ele, por excelência, é uma manifestação ética interligada com outros ramos da ética humana.

Como você avalia hoje o veganismo interseccional? 

 O veganismo interseccional teve uma grande visibilidade entre 2014 e a primeira metade de 2016, época de diversos embates entre vegans interseccionais e vegans puristas (os que defendem “animais não humanos em primeiro lugar”). Na época, também ocorriam eventos veganos nas periferias urbanas. Hoje o movimento vegano interseccional continua atuando significativamente no Brasil, mas, pelo que tenho visto no Facebook, não tem mais se manifestado de maneira tão sonora quanto antes. Talvez por conta do contexto político e econômico da crise no Brasil; e talvez por alguns conflitos internos nos movimentos sociais e pelo fato de muita gente estar exausta de tanto discutir com vegans que reproduzem ou assumem posturas ideológicas de direita e que são anti-humanistas.

O que você acha que dificulta o entendimento do que realmente é o veganismo interseccional?

Estimo que seja por motivos como a má vontade ideológica de alguns veganos de direita e assumidamente antiesquerdistas. Também há pouca divulgação do veganismo interseccional na internet (neste momento, o Veganagente é um dos únicos blogs de visibilidade razoável no Brasil que tem como tema o veganismo interseccional), fora a ausência de livros sobre esse tema no país, e a não difusão de materiais estrangeiros por aqui (em inglês e espanhol há muito conteúdo interseccional). Pelo que tenho visto, como são poucas as pessoas falando via internet sobre o que é e o que não é o veganismo interseccional, e boa parte do conteúdo disponível nas buscas do Google é de artigos contrários a essa versão do veganismo, o entendimento para muitas pessoas sobre o tema tem sido distorcido e confundido.

Livro reúne 50 artigos produzidos entre os anos de 2013 e 2017 (Foto: Reprodução)

O Seu livro “Veganismo – as muitas razões para uma vida mais ética” reúne 50 artigos. É correto dizer que ele é direcionado tanto para quem não é vegano quanto para quem tem interesse em se aprofundar no assunto?

Isso. Tem 50 artigos, e tem esse direcionamento para simpatizantes e curiosos iniciantes sobre o veganismo, e também para vegetarianos e veganos novatos ou veteranos que querem se aprofundar na temática do veganismo e dos direitos animais.

Foi difícil a publicação do livro? Como foi o processo de seleção dos artigos? Quais foram suas prioridades?

 A publicação do livro não foi difícil porque que eu já sabia do Clube de Autores como lugar para publicar e vender livros sob demanda. A seleção dos artigos, por sua vez, consistiu em selecionar diversos artigos da categoria de artigos “Seja Vegan” do Veganagente, reestilizá-los, melhorá-los, adicionar-lhes fontes e também escrever artigos totalmente novos – alguns destes não estão disponíveis no Veganagente, só estão no livro. A prioridade foi dada aos artigos que correspondem a essa categoria de postagens.

Você é vegano desde 2008 e começou o Veganagente em 2013. Os artigos publicados no livro foram produzidos em que período?

 O livro contém versões melhoradas e rebuscadas de artigos cujas versões originais datam entre 2013 e 2016, e artigos inéditos escritos entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017.

Sei que o livro está à venda no Clube de Autores. Ele pode ser encontrado em mais algum outro lugar? Você está aberto a novos pontos de vendas?

No momento, ele só está à venda no Clube de Autores. Precisarei convertê-lo na versão Epub para poder vendê-lo em outras livrarias virtuais, parceiras do Clube. Sobre outros pontos de venda, está aberta a possibilidade de donos de estabelecimentos veganos e vegetarianos adquirirem cópias impressas do livro, obtendo desconto no frete e no custo de impressão de exemplares comprados em boa quantidade, e revendê-los localmente para faturar um pouco.

Ao longo de anos pesquisando e lendo sobre veganismo, quais autores e obras você indicaria para quem quer pesquisar sobre o assunto?

Alguns autores que recomendo são Sônia Felipe (Galactolatria: mau deleite, Por uma questão de princípios, Acertos Abolicionistas: A Voz dos Animais etc.), Carol Adams (A Política Sexual da Carne), Andrea Franco Lopes (Por Que Me Tornei Vegetariano), Gary Francione (Introdução aos Direitos Animais), Leon Denis (livros sobre educação vegana) e Tom Regan (Jaulas Vazias). Outros autores ainda preciso estudar com mais dedicação.

 Você acredita que o veganismo está crescendo no Brasil?

Por um lado, o número de pessoas que se consideram veganas e o de materiais diversos (livros, vlogs, blogs, quadros na TV etc.) sobre culinária livre de alimentos de origem animal tem crescido. Isso é uma notícia muito boa. Mas por outro, o conhecimento intelectual sobre a ética vegana, os direitos animais e o movimento vegano-animalista parece estar em baixa. Percebo isso na postura de muita gente, que age “veganamente” por meios puramente emocionais e consumeristas, não em defesa racional e convicta dos direitos animais enquanto fenômeno sociopolítico e da ética animal e seus princípios. Além disso, estão em extinção os blogs e sites de artigos de opinião e conscientização vegano-abolicionistas. O Veganagente, a ANDA, a versão em português do Animal Ethics e, em menor frequência, a Sociedade Vegana são quatro dos únicos sites divulgadores desse tipo de material em atividade regular no país.

A literatura que se produz no Brasil sobre veganismo e direitos animais é substancial?

 Até certo ponto, sim. Há muitos livros sobre culinária vegana, poesias, contos, crônicas etc. sobre esse tema. O problema é que a grande maioria dos livros não é fácil de ser encontrada à venda – alguns até já saíram do mercado. Além disso, a produção teórica acadêmica e paradidática sobre veganismo e direitos animais parece ter desandado nos últimos anos, com pouquíssimos títulos sendo lançados e divulgados.

O que você aponta de mais positivo e de mais negativo no veganismo hoje?

 O mais positivo tem sido o crescimento numérico de vegans e de materiais de culinária vegetariana (livre de ingredientes de origem animal). O mais negativo, como falei em outras respostas mais acima, é a carência de embasamento intelectual, teórico, racional da convicção vegana de muita gente, que, por esse motivo, acaba ficando fortemente suscetível a retomar o consumo de produtos animais por influência de antiveganos e bem-estaristas. Outros pontos negativos, que abordo com certa frequência no Veganagente, são que o veganismo tem crescido muito pouco na periferia, por motivos como dificuldade de acesso a materiais sobre veganismo e direitos animais; há também um foco elitista por parte dos empreendedores do “nicho vegano” e carência de opções veganas muito boas em restaurantes, lanchonetes e supermercados (no caso de produtos não alimentícios, como cremes dentais e lâminas de barbear); e o veganismo no Brasil hoje corre um risco muito sério de ser rebaixado de modo de vida ética e politicamente engajado a um mero nicho de consumo individualista e desprovido de razões éticas e racionais.

Quais são as maiores barreiras na divulgação do veganismo?

 O viés elitista de grande parte dos divulgadores do veganismo, a relativamente pouca presença de veganos militantes (moradores da localidade ou não) nas periferias; as dificuldades imensas de acesso a livros de teoria vegano-abolicionista (como falei anteriormente, são muito difíceis de serem encontrados no mercado, e na maioria das vezes são caros); a desinformação que levou muitos a se considerarem “veganos” sem respeitar a ética animal (o que distorce, desempodera e prejudica a divulgação conscientizatória do veganismo); as mexidas de pauzinhos por parte do mercado pra rebaixar o veganismo a um mero nicho de mercado e estilo de vida e consumo aético, e a decadência do universo de divulgação da teoria animalista no Brasil (como dito, hoje restam pouquíssimos sites brasileiros com colunas e artigos esclarecedores sobre o tema).

O que você pensa sobre discursos mais agressivos por parte dos veganos?

 Já sobre os discursos agressivos de muitos veganos, quero focar no ódio que alguns têm por não veganos (a), nas comparações irresponsáveis entre exploração animal e opressões humanas (b), na atitude de argumentarem com grosseria e impaciência (c) e nas defesas de “soluções” autoritárias para coibir a exploração animal (d).

a) Odiar não vegans é uma violação grave do princípio vegano-abolicionista de promover educação e conscientização. É um dos legados perversos de pessoas como Gary Yourofsky, que vez ou outra se cansam do seu lado educativo e escancaram o ódio que têm por aqueles que estão tentando educar. A atitude que nós vegans devemos ter é de tratar os não veganos com educação, respeito, tolerância e diplomacia, se queremos lhes mostrar pela informação e pelo exemplo o quanto é benéfico ser vegan.

 b) Existe o costume clássico de se tentar promover comparação entre formas de exploração animal e formas de violência e dominação contra humanos – por exemplo, comparar a pecuária com a escravidão imposta aos negros, ou a exploração de vacas “leiteiras” com violências contra a mulher, ou o especismo com o Holocausto nazista. É uma estratégia super desastrosa de se promover os direitos animais, já que desconsidera que a animalização foi e é uma maneira muito comum de se promover a inferiorização de minorias políticas, e fazer analogias entre pessoas dessas minorias e animais não humanos acaba sempre correndo um risco altíssimo de ser encarado, tanto por não vegans como por vegans membros de movimentos sociais, como uma forma de animalização preconceituosa e legitimação dos discursos de discriminação racista, misógina, antissemita etc. O resultado disso é ofender essas pessoas e afastá-las do veganismo, com risco até mesmo de torná-las antiveganas. Portanto, o mais prudente e ético a se fazer é evitar comparações desse tipo.

c) Infelizmente muitos veganos costumam argumentar de maneira grosseira, antipedagógica, impaciente e autoritária com não veganos, quase obrigando-os a considerar o veganismo e aceitar sem questionar que ele deve ser aderido mesmo sem ser plenamente compreendido. É uma outra forma de se atrapalhar a disseminação vegana, já que tende a causar não curiosidade e simpatia, mas sim antipatia e repulsa pelo veganismo e pelas pessoas veganas, além de ser uma violação ética, já que o vegano grosseiro está desrespeitando os não veganos a quem dedica sua grosseria.

 d) Outra forma de autoritarismo no meio vegano é a defesa de “soluções” baseadas no uso da força para coibir, por exemplo, sacrifícios de animais em religiões afrobrasileiras. Sou veemementemente contra esse tipo de ritual, só que essa contrariedade não precisa vir com insensibilidade ao fato de que religiões como o candomblé e a quimbanda (umbanda não sacrifica animais) são alvos de perseguição religiosa e racial, e muitos “cristãos” fundamentalistas, que na verdade não ligam pros animais, usam a defesa animal como pretexto pra promover seu racismo e sua intolerância contra as religiões do povo negro. Fica claro, com esse contexto, que defender a criminalização do sacrifício religioso de animais vai ao mesmo tempo, empurrar esses rituais pra clandestinidade, fazendo-os acontecer às escondidas, e institucionalizar mais ainda a perseguição racista e de intolerância religiosa. Defendo que se dê voz e espaço para os afrorreligiosos negros veganos debaterem a ética animal dentro de suas comunidades religiosas e, pouco a pouco, reformarem a teologia candomblecista e quimbandista para que se encontre uma maneira de favorecerem aos Orixás sem o uso do sacrifício animal. Defender lei e polícia contra essas religiões só vai agravar a violência contra seres humanos e animais não humanos.

 Como você avalia o bem-estarismo?

 Sobre o bem-estarismo, é uma completa cilada que infelizmente ainda consegue convencer pessoas não veganas ou iniciantes no veganismo de que “é possível” usar animais não humanos como propriedade de maneira “respeitosa” e “humanitária”. Na verdade, é uma versão reformista do especismo, mantendo as mesmíssimas bases morais de se usar os animais como se fossem seres inferiores que “pertencem” aos seres humanos. Portanto, aconselho às pessoas que sempre tenham dois pés atrás diante de discursos bem-estaristas, porque eles não estão aí para libertar os animais, mas sim para continuar explorando-os livremente e com a aprovação da população.

 Tem algo que você considera que todos os veganos deveriam fazer e algo que você crê que eles jamais deveriam fazer?

 Algo que todos os veganos deveriam fazer é respeitar a ética vegana e seus princípios, inspirar-se nestes para se tornarem seres humanos melhores e perceberem que não é válido o argumento de que é possível ser vegan e ao mesmo tempo machista, racista, reacionário, xenófobo, misantropo, transfóbico, heterossexista, intolerante religioso, elitista, gordofóbico etc. E o que não deveriam fazer é ser seletivos no cumprimento da ética vegana, excluir seres humanos (todos ou a maioria) de sua consideração moral, usar estratégias irresponsáveis e insensíveis de divulgação dos direitos animais (como comparar minorias políticas humanas e animais não humanos, assim como as opressões que castigam essas categorias, promover discursos de ódio e difundir um veganismo excludente, despolitizado e pouco acessível.

Você diria que existe algum grupo formalmente organizado que realmente representa o veganismo no Brasil?

 Eu sinceramente não me identifico com nenhum desses grupos.

Vi que você está aberto a doações para ajudar a financiar o seu trabalho com o Veganagente. As pessoas têm contribuído em uma proporcionalidade justa ao seu ritmo de produção?

 Em relação às doações, eu recebo em torno de 100 reais a cada dois ou três meses, muito distante do que realmente preciso. Portanto, a quem me lê, peço que, se curte bastante meu trabalho e quer ajudar a fortalecê-lo e melhorá-lo, expresse sua gratidão e retribuição por meio do financiamento recorrente no APOIA.se: https://apoia.se/robfbms

Robson, agradeço a sua disponibilidade em responder abertamente a cada uma das perguntas. Alguma mensagem final?

Estou com dois livros em andamento no momento, e projetos para mais uma dúzia de outros títulos. Se você curte meu trabalho e é grato por ele, apoie-me por meio do APOIA.se (https://apoia.se/robfbms) e/ou adquira meu livro, impresso ou em versão digital, no Clube de Autores.

Saiba Mais

Os temas preferidos de Robson Fernando Souza são sociologia, direitos animais e veganismo, além de temas humano-ambientais como educação ambiental, sociedade e meio ambiente, desenvolvimento e meio ambiente, e ética ambiental.

Conheça o trabalho de Robson Fernando de Souza:

 http://veganagente.com.br/

http://consciencia.blog.br/

 

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C. David Coats e a ilusão dos animais felizes por “darem” carne, leite e ovos à humanidade

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Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm” é um livro bastante atual sobre a realidade da exploração animal

A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro

Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm”, do defensor dos direitos animais C. David Coats traz uma capa bonitinha, bem colorida. Quem o julga a partir da imagem principal se engana ao pensar que se trata de mais uma obra que romantiza a exploração animal. Muito pelo contrário. A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro que propõe um debate bem atual; que dialoga com a realidade no que diz respeito à dura vida dos animais criados, principalmente nos moldes industriais, para serem reduzidos à comida e outros produtos.

No prefácio da obra, já são levantadas pertinentes reflexões que destacam como o ser humano consegue ser contraditório e destrutivo:

O ser humano não é um animal maravilhoso? Ele mata animais selvagens – pássaros, todos os tipos de felinos, coiotes, castores, marmotas, camundongos, raposas e dingos – aos milhões com a intenção de proteger os animais de criação e seus alimentos.”
Então ele mata os animais de criação aos bilhões e os come. Este hábito, por sua vez, mata milhões de seres humanos; porque comer todos esses animais leva a condições degenerativas de saúde que são fatais, como doenças cardíacas, doenças renais e câncer. Na sequência, o ser humano tortura e mata milhões de animais para encontrar a cura para essas doenças.

Em outros lugares, milhões de seres humanos estão morrendo em decorrência da fome e da desnutrição; isto porque os alimentos que eles poderiam comer estão sendo usados na engorda de animais de criação. Enquanto isso, algumas pessoas estão tristemente morrendo de rir desse absurdo da humanidade, que mata tão facilmente e violentamente, e uma vez por ano envia cartões orando pela paz na Terra.

Em “Old MacDonald’s Factory Farm”, C. David Coats aponta que nos anos 1980 já era difícil encontrar animais brincando nas fazendas, simplesmente porque as técnicas de produção em massa e os programas de eficiência no agronegócio já se voltavam para os volumes excessivos de produção com custos cada vez menores. Ou seja, a banalização da vida acentuou-se e os animais passaram a amargar ainda mais privação e sofrimento com o surgimento das chamadas fazendas industriais.

Afastados da vida natural, os animais reduzidos a produtos não passam de matéria-prima. Em crítica a essa normalização da crueldade, Coats narra o que há de mais sombrio na natureza humana na sua relação com as outras espécies, quando motivado pela ambição e ganância. Ele cita como exemplo a realidade de animais confinados em espaços onde a movimentação é quase impossível. Também discorre sobre suas pesquisas na indústria da suinocultura, onde testemunhou animais vivendo acorrentados.

O escritor informa que a maioria dos animais explorados pela indústria não vivem mais do que 1/3 do que viveriam se não fossem explorados e mortos. Porcos em caixas, gado com o chifre arrancado sem anestesia, vacas leiteiras mortas e reduzidas à carne de hambúrguer quando já não atingem a meta na produção de leite; bezerros mantidos anêmicos no escuro até serem abatidos para que as pessoas possam comer bifes de vitela; aves com bicos cortados com lâmina quente e confinadas a vida toda; tudo isso endossa um cenário macabro que faz parte da realidade cotidiana da maioria dos animais de criação.

No livro, o cenário da produção de alimentos de origem animal é descrito com uma crueza fiel à realidade, se distanciando visceralmente da propaganda que faz os animais parecerem felizes em morrer para saciar supostas necessidades humanas. É um retrato de uma realidade que só pode ser compreendida dessa forma se o leitor analisá-la de forma sensível. Na perspectiva de “Old MacDonald’s Factory Farm”, é preciso se colocar no lugar do animal ou pelo menos reconhecer que não são apenas os seres humanos e os outros animais com quem convivemos no cotidiano que têm direito à vida.

Fazendas onde os animais se divertem “doando” leite, ovos e carne? Não no mundo real, deixa claro C. David Coats que também aborda temas como impacto ambiental, engenharia genética e consequências dos produtos de origem animal para a saúde humana. Ele discute ainda a expansão da agropecuária e a absurda quantidade de área destinada à produção de alimentos usados na nutrição animal. Outro ponto de destaque do livro é o debate sobre a aplicação excessiva de antibióticos nos animais de criação, o que já era visto nos anos 1980 como um perigo para a saúde humana.

Além disso, Coats não se limita a criticar a exploração animal. Como o livro é resultado de anos de pesquisa, ele também apresenta ações e ideias de projetos de transição da agropecuária para produções sustentáveis e que não gerem privação e sofrimento animal – como a de alimentos orgânicos, entre outras sugestões que poderiam ser colocadas em prática para substituir produtos de origem animal.

Mesmo lançado em 1989, o livro discorre sobre problemas que ainda compõem a nossa realidade. Em uma rápida pesquisa em outras fontes, encontramos provas de que ainda hoje os animais estão longe de ter uma vida justa. Tal conclusão, até mesmo excetuando a questão de tortura ou outros tipos de violência, parte do princípio de que são seres sem direito à vida, já que existem simplesmente para atender nossas pretensas necessidades e morrer, cumprindo um papel que é vantajoso ao ser humano, mas nocivo às espécies que têm sua expectativa de vida extremamente reduzida.

Tantos anos após o lançamento do livro de C. David Coats, vimos poucas mudanças positivas em relação a isso, até porque a demanda por produtos de origem animal, acompanhando o crescimento populacional, aumentou muito desde o final da década de 1980.

Segundo Osler Desouzart, membro da diretoria consultiva do World Agricultural Forum e diretor da OD Consulting, em 1980 o consumo de carnes per capita era de 30,6 quilos ao ano, e em 2013 chegou a 43,1 quilos. Em um mundo onde a demanda é muito grande, naturalmente abre-se bastante espaço para a omissão no que diz respeito à violência contra animais de criação, já que há uma naturalização e legitimação da violência em prol de um pretenso bem maior – a produção de carne, leite, ovos e outros produtos que custem a privação e a vida de seres não humanos.

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Quando um garoto assume o papel de um porco no matadouro

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Em pig, o objetivo do escritor é mostrar como a violência humana é legitimada

Lexington, um jovem que cresceu como vegetariano estrito, vai a um restaurante e experimenta um prato baseado em repolho e carne de porco. Ele nunca tinha comido aquilo e fica maravilhado com a experiência, tanto que decide descobrir a origem da carne. Então viaja até um matadouro, onde assiste o sofrimento dos porcos preparados para o abate.

O primeiro porco é mantido imóvel por meio de uma corrente que envolve seus pés. E essa corrente é presa a um cabo que se move para cima e para baixo. Logo o porco é arrastado enquanto emite grunhidos desesperados ao longo da linha de abate. Apesar da crueldade, Lexington acha o processo fascinante, enquanto os funcionários da linha de produção se mostram entediados.

De repente, por um descuido, uma das pernas do rapaz fica presa a uma corrente e ele é arrastado por um cabo. Os funcionários não se importam, indiferentes ao processo que se repete diariamente. A descrição do que acontece com Lexington é extremamente gráfica e contempla todo o processo de abate. A única diferença é que há um humano no lugar de um porco.

E o maior apelo da história subsiste na associação que o escritor Roald Dahl faz entre suínos e humanos. Sua abordagem vai ao encontro da ciência, que qualifica os porcos como animais inteligentes. Porém, a diferença mais significativa está na incapacidade de terem pensamentos abstratos, serem esperançosos ou recorrerem a Deus. E por isso sua dor é mais avassaladora do que a humana, segundo a própria obra.

Sobre Pig, obra do britânico Roald Dahl publicada em 1960. Ao escrevê-la, o objetivo do escritor era mostrar como a violência humana é legitimada, aceita como parte de um “processo natural”.

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Written by David Arioch

December 26th, 2016 at 7:54 pm

Pré-lançamento do meu livro “Areia Branca – Histórias de Paranavaí”

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semana-literaria

Pré-lançamento começa às 20h na Unidade Central do Sesc de Paranavaí (Imagem: Reprodução)

Hoje, às 20h, começa o pré-lançamento do meu livro “Areia Branca – Histórias de Paranavaí” na Unidade Central do Sesc. Atualmente o livro está em fase de diagramação. Como sou chato e tenho algumas pendências para resolver, vai levar um tempinho ainda pra ele ser lançado. Tenho muitas histórias legais e surpreendentes para contar. Apareçam por lá e fiquem à vontade para me fazer perguntas. É tudo de graça.

“A obra reúne em ordem cronológica dezenas de histórias sobre a colonização e formação de Paranavaí. A partir de fatos intrigantes e insólitos, envolvendo personagens lendários e anônimos, a obra conduz o leitor à imersão em um universo onde a realidade parece inspirada pela ficção.”

Written by David Arioch

September 12th, 2016 at 3:34 pm

“O primeiro exemplar do seu livro já é meu”

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Foto: David Arioch

“Você nasceu com o dom de escrever. O primeiro exemplar do seu livro já é meu”, disse o jornalista Chicão Soares. Ouvir isso de um profissional com mais de 60 anos de profissão, e que fundou jornais no Paraná e em São Paulo, é um privilégio imenso.

Written by David Arioch

August 4th, 2016 at 11:30 pm

Posted in Paranavaí

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Dorian Gray e a homossexualidade de Oscar Wilde

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“De todos os homens na Inglaterra, sou o que menos necessita de propaganda”

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Relacionamento entre Wilde e Douglas custou a prisão do autor de O Retrato de Dorian Gray (Foto: Reprodução)

Sua frivolidade afeminada, sua insinceridade estudada, seu cinismo teatral, seu misticismo de mau gosto e sua filosofia irreverente estão deixando um rastro de vulgaridade espalhafatosa. Foi com estas palavras que os mais conservadores definiram o romance The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray), do irlandês Oscar Wilde, quando a obra apareceu pela primeira vez em 24 de abril de 1891 em uma edição da Lippincot’s Monthly Magazine, sediada na Filadélfia, nos Estados Unidos.

“Na revisão para a publicação do livro, Wilde atenuou um pouco a evidente homossexualidade e a decadência enquanto tema, mas adicionou comentários introdutórios que foram vistos como ofensivos na Inglaterra pós-vitoriana. Ele escreveu que não existe tal coisa como um livro moral ou imoral. Livros são bem escritos ou mal escritos. Isso é tudo”, parafraseia o escritor canadense e professor de literatura Steve King.

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John Gray, poeta londrino que inspirou Oscar Wilde (Foto: Reprodução)

Se por um lado, o livro vendeu bem. Por outro, Wilde se viu obrigado a aperfeiçoar a sua arte do desprezo, já que as pessoas começaram a apontar o dedo para ele nas ruas, tornando-o um dos escritores mais controversos da época. Sua esposa, Constance Lloyd, reclamava que desde que Oscar escreveu O Retrato de Dorian Gray, ninguém mais queria falar com eles.

O escritor pouco se importou com o fato. “Eu acredito que posso dizer sem vaidade que, de todos os homens na Inglaterra, eu sou o que menos necessita de propaganda. Estou extremamente cansado de toda essa propaganda. Não sinto nenhuma emoção quando vejo meu nome no papel, porque escrevi o livro inteiramente para o meu próprio prazer. Sou indiferente ao fato dele se tornar popular ou não”, declarou Oscar Wilde na época.

O nome do protagonista, Dorian Gray, foi inspirado no poeta inglês John Gray, definido pelo também dublinense George Bernard Shaw como “um dos mais abjetos discípulos de Wilde”. “Independente de qual era a imagem que Gray pintou de sua relação com Oscar Wilde, ele mal tinha começado a assinar suas cartas como ‘Dorian’ quando foi espetacularmente substituído pelo lorde Alfred [Bosie] Douglas, um poeta que viria a ser a mais famosa e fatal atração de Wilde”, declara King.
Além de ser mais jovem, mais rico e considerado mais bonito que John Gray, Douglas, que era filho do Marquês de Queensberry, tinha lido o romance de Oscar Wilde 14 vezes, depois de tê-lo ganhado de presente de um amigo em comum com o autor irlandês. O seu primeiro encontro com Wilde ocorreu em junho de 1891. E o relacionamento escuso dos dois durou até 1896, quando Wilde foi condenado por ser homossexual. A prova usada em seu julgamento foi uma carta de amor de Oscar para Douglas, apresentada pelo Marquês de Queensberry.

O escritor negou sua homossexualidade até que a correspondência veio à tona. Por causa do escândalo, sua família se mudou para a Suíça e trocou o sobrenome para Holland. Condenado a dois anos de prisão por “indecência grave”, Wilde escreveu na cadeia a obra The Ballad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading), eternizada através da citação: “Para cada homem que mata a coisa que ele ama.” Antes de falecer em 30 de novembro de 1900, aos 46 anos, Oscar Wilde passou os últimos meses de vida em completo abandono. Até mesmo Alfred Douglas virou-lhe as costas.

Saiba Mais

Oscar Wilde nasceu em Dublin em 16 de outubro de 1854.

Suas obras mais notáveis são The Picture of Dorian Gray, The Importance of Being Earnest, The Happy Prince and Other Tales e Salome.

Trecho de O Retrato de Dorian Gray (Página 59)

As cenas pintadas eram o meu mundo. Eu não conhecia nada além de sombras e acreditava que fossem reais. Você veio – oh, meu belo amor! – e libertou minha alma da prisão. Você me ensinou o que a realidade é, de fato. Esta noite, pela primeira vez em minha vida, vi além do vazio, do blefe, da puerilidade, da oca cerimônia que eu sempre interpretei. Esta noite, pela primeira vez, me tornei ciente de que Romeu era horrível, e velho, e pintado, que a luz da lua sobre o pomar era falsa, que o cenário era vulgar e que as palavras que eu tinha de falar eram irreais, não eram as minhas, não eram o que eu queria dizer. Você trouxe algo mais elevado, algo do qual a arte é apenas um reflexo. Você me fez entender o que é realmente o amor. Meu amor! Meu amor! Estou farta de sombras. Você é mais para mim do que toda arte pode ser. O que tenho eu a ver com as marionetes de uma peça? Quando cheguei esta noite, eu não podia entender como foi que tudo isso fugiu de mim. Subitamente, o significado disto amanheceu em minha alma.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Pearce, Joseph. The unmasking of Oscar Wilde. Ignatius Press, 2004.

Oscar Fingal O’Fflahartie Wills Wilde, Alfred Waterhouse Somerset Taylor, Sexual Offences > sodomy, 20th May 1895“. Old Bailey Proceedings Online. Acessado em 3 de junho de 2016.

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