David Arioch – Jornalismo Cultural

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Hugo e Matheus

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Os dois novos alunos da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

Os dois novos alunos da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

Os irmãos Hugo e Matheus, um tem sete anos e o outro tem dez, são os novos alunos da Oficina do Tio Lú, na Vila Alta. Moradores do Jardim São Jorge, eles percorrem quilômetros de distância para aprender artesanato em madeira. “Em mais de dez anos de oficina, é o primeiro caso de pais que trazem os filhos nas minhas aulas. Isso me anima muito porque quase sempre as crianças chegam aqui sozinhas ou por iniciativa minha”, conta Tio Lú.

Para conhecer o trabalho do Tio Lú, acesse: https://davidarioch.com/2014/02/22/oficina-do-tio-lu/

Written by David Arioch

December 31st, 2015 at 11:35 am

Lelinho: usuário de drogas, ladrão e possível aidético

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Rapaz se tornou refém do narcotráfico com 12 anos e hoje não pode sair às ruas quando quer

Luiz Carlos: "Ele entrou num estado profundo de decomposição social e moral" (Foto: David Arioch)

Luiz Carlos: “Ele entrou num estado profundo de decomposição social e moral” (Foto: David Arioch)

Ao longo dos anos, vi muitas vezes na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, um garoto magricela de estatura mediana com as pupilas dilatadas, olhar sempre desconfiado, cabelos desgrenhados, rosto relativamente sujo e pés encardidos, que há muito tempo não recebem outro calçado que não seja um velho par de chinelos surrados. Para preservar sua identidade, o chamo de Lelinho. Hoje, com 18 anos, não gosta de ser observado, apesar de não reclamar, mas há muito tempo deixou de ser sociável. A forma como percorre as ruas do bairro em horários estratégicos denuncia que é procurado por integrantes de uma facção criminosa. Usuário de drogas, Lelinho está devendo, só que nem a camaradagem dos tempos de “laranja” do narcotráfico é capaz de garantir a sua integridade física. De vez em quando chega em casa todo machucado, com hematomas dos pés à cabeça.

Por enquanto o jovem está autorizado a viver. Até quando? Ninguém sabe. Já recebeu inúmeras visitas de homens armados avisando que qualquer dia a dívida vai ser cobrada com muito sangue. Refém do vício em crack, Lelinho já invadiu muitas casas para furtar fiação elétrica. Dava preferência por residências com placas de “aluga-se”. Quando os espólios eram insuficientes para sustentar o vício, apelava aos mais próximos. Chegou a furtar uma coleção de calcinhas novas de uma tia. Também vendeu o chuveiro de casa, as galinhas da avó e as ferramentas de ferraria e marcenaria do pai e do avô. Em síntese, “tudo virava pedra”.

Durante algum tempo trabalhou fazendo fretes e recolhendo produtos recicláveis com a carroça do avô. Motivado pela dependência química ainda furtava materiais e ferramentas que encontrava em áreas de construções. Mais tarde, por descuido, o cavalo adoeceu e morreu. A carroça foi abandonada no quintal, onde apodrece aos poucos escorada no tronco de uma sibipiruna. Ocasionalmente Lelinho circula de bicicleta por outros bairros e pelo centro de Paranavaí. Não se incomoda com o som ruidoso, o desconforto e os perigos das duas rodas sem pneus. Inclusive usa um rabicho improvisado para arrastar um carrinho barulhento, sem os aros de borracha. Sempre que recebe uma nova ameaça se afasta das ruas e se esconde dentro de casa por pelo menos um mês. Tem o apoio dos avós que se negam a reconhecer que o neto é usuário de drogas.

Um dia o avô pediu a um vizinho para chamar a polícia, alegando que Lelinho teve um surto e estava quebrando tudo dentro de casa. Quando a viatura chegou o idoso sorriu e tentou explicar que era só pra dar um susto no neto. “Não leva ele não, por favor!”, suplicou, se negando a admitir a seriedade da situação. Diariamente, assim que a escuridão toma conta de uma das ruas mal iluminadas da Vila Alta, Lelinho caminha até a entrada da casa de um vizinho, se agacha e recolhe as sobras de alguns cigarros de maconha. Em seguida, pacientemente transforma os restos misturados à fuligem e sujeira em um “baseado”. Depois de acendê-lo, senta sobre uma calçada estreita de cimento e ignora tudo à sua volta, até mesmo a presença de outras pessoas. É surpreendente o seu empenho em se distanciar da realidade.

Um dos trabalhos feitos por Lelinho quando participava da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

Um dos trabalhos feitos por Lelinho quando participava da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

O artista plástico Luiz Carlos Prates já tentou ajudá-lo muitas vezes, só que o rapaz se nega a ouvi-lo. “Entrou num estado profundo de decomposição social e moral. Quando não está se drogando, ele passa muito tempo dormindo. Acorda de madrugada e fica vagando por aí”, lamenta Luiz Carlos. Na época em que comercializava crack, a entrada da casa dos avós virava ponto de venda. Sentado em uma cadeira na calçada, e entre um gole e outro de cachaça, o avô virava o rosto e fingia que não via nada. Ao anoitecer, encostavam carros, motos e bicicletas de vários bairros de Paranavaí. “Parecia um ‘enxame de abelhas’, onde tem droga tem gente. Era aquele desfile. Lá encostava cada carrão”, garante o artista plástico.

Mesmo atuando no narcotráfico, o rapaz nunca conseguiu comprar nada, inclusive se tornou laranja porque ficou devendo para a mulher que lhe deu as primeiras pedras de crack. Em uma rara ocasião o garoto apareceu na casa do artista plástico para mostrar o “presente” que recebeu. Ingênuo e orgulhoso exibiu um telefone celular. Um aparelho velho sem a tampa traseira. “Tu não vê que essa mulher só quer te usar? Ela só lucrando e você aí na merda, se afundando cada vez mais. Te deu essa porcaria pra tu avisar ela quando a polícia chega e te complicar mais ainda. Vai ficar andando todo sujo com esse chinelo de dedo velho até quando?”, disse Prates exaltado e preocupado. Mais tarde, a traficante que o introduziu no mundo das drogas foi expulsa do bairro, o que não o livrou desse caminho porque o garoto começou a trabalhar em outra “boca de fumo”. Hoje não atua mais no narcotráfico, mas ainda é perseguido pelas dívidas que contraiu com o vício.

Ontem o artista conversou com Lelinho e o irmão mais velho do rapaz. Os dois usuários de drogas saíram há poucos dias da prisão por envolvimento com furtos. “O verdadeiro malandro sou eu que estou nesta vida com 85 anos e nunca fui preso, nunca usei drogas, nunca fumei. Tu acha que é malandragem estar preso, sem liberdade pra fazer nada? Perde os melhores anos de sua vida na cadeia, uma luta inglória, não ganha nada!”, aconselhou Luiz Carlos. Para piorar, Lelinho e o irmão tiveram relações sexuais com uma moça do bairro diagnosticada com Aids. Ainda assim o jovem evita falar sobre o assunto e deixa claro o seu desinteresse em procurar ajuda médica. “Está cada vez mais seco e vive fedendo. Quem cuida das roupas dele é uma prima que busca, lava e passa. Faz até compras no mercado pra ele. Segue nessa vida de dependência química há seis anos. Não percebe que isso o destruiu”, destaca o artista plástico.

“Olha, filho da puta, quando eu crescer vou comprar um 22 e te dar um tiro na cara”

Morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, Lelinho começou a ficar agressivo aos sete anos, quando o pai o levava para a escola com uma carroça. Com o tempo o garotinho não quis mais saber de estudar. Rebelde, saltava do veículo e corria o máximo que podia, se embrenhando na mata do Bosque Municipal de Paranavaí. Para coibir as fugas, um vizinho se dispôs a ajudar. Ia atrás de bicicleta para segurá-lo, caso corresse.

Em uma das vezes que foi segurado pelo braço e não conseguiu escapar o menino esbravejou: “Olha, filho da puta, quando eu crescer vou comprar um revólver 22 e te dar um tiro na cara.” Apesar das ameaças, até hoje nunca segurou uma arma. Nem mesmo reagiu nas muitas vezes em que foi espancado depois de se tornar usuário de drogas. Quando Lelinho estava com 10 anos, o artista plástico Luiz Carlos Prates o convidou para participar da Oficina do Tio Lú, projeto que ensina crianças e adolescentes a criarem obras de madeira. O garoto concordou. Na realidade, mais do que isso, ficou eufórico. Logo se tornou um dos melhores alunos da oficina, tanto que Luiz Carlos se emociona ao se recordar da dedicação de Lelinho. “Fazia cada coisa linda. Era caprichoso demais”, lembra.

No entanto, houve um período em que o artista plástico precisou interromper a Oficina do Tio Lú para produzir obras a serem comercializadas na ExpoParanavaí. Com o fim da feira agropecuária que exigiu dez dias de dedicação do artista, Luiz Carlos procurou Lelinho e logo ficou receoso por não encontrá-lo. “Um traficante foi preso e a mulher dele assumiu a boca de fumo, então ela começou a iludir crianças e adolescentes para entrarem no esquema. Uma dessas crianças era o meu aluno que na época não tinha completado nem 12 anos”, revela. Lelinho não era mais o mesmo. Não queria mais conversar com Luiz Carlos e adquiriu o hábito de se esconder. Quando passava perto da casa do artista, atravessava a rua ou virava o rosto.

“Tentei falar com os avós do menino, contar que o comportamento dele era de um usuário de drogas. Não quiseram acreditar. Só que não demorou pra ele começar a furtar. Quando eu tentava aconselhar, justificavam que tinha gente tentando incriminar o garoto”, enfatiza Prates que até hoje não desistiu de livrá-lo do mundo das drogas. Outro agravante na vida de Lelinho é a falta de estrutura familiar. A mãe abandonou o filho e o marido para viver com outro homem. Quando o relacionamento não deu certo, o amante encomendou o assassinato da mulher. Para não morrer, ela fugiu para São Paulo e só retornou quando pararam de procurá-la. “O pai dele era um homem bom. Não posso dizer o mesmo da mãe que nunca se importou com o filho e o marido. Hoje ela circula pelo bairro como um farrapo humano e ainda virou traficante. Só anda com drogados. Não sei se está louca ou finge estar”, comenta Luiz Carlos.

Quem mais se importava com Lelinho era o pai, falecido recentemente em Arapongas, no Norte Central Paranaense, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC). De acordo com Prates, um homem trabalhador e de boa índole. O problema era o vício em cocaína, mal que o matou com apenas 36 anos. “Apesar de tudo, ainda vejo bondade no Lelinho. Se a família desse uma força, tenho certeza que conseguiriam recuperá-lo. Eles estão em negação, preferem fazer vista grossa. Não percebem que a qualquer momento o menino pode morrer de overdose ou ser morto”, reclama Luiz Carlos Prates.

Frase do artista plástico Luiz Carlos Prates

“Todo viciado é ladrão. Pode ser podre de rico, ainda assim ele sente necessidade de furtar ou roubar.”

Uma manhã em algum lugar da Vila Alta

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Um breve relato de histórias e experiências inusitadas na periferia de Paranavaí

Muitos personagens do bairro circulam pela estrada de terra ao lado do Bosque Municipal (Foto: David Arioch)

Muitos personagens do bairro circulam diariamente pela estrada de terra ao lado do Bosque Municipal (Foto: David Arioch)

Ligo à noite para o artista plástico Luiz Carlos Prates e combinamos de conversar pela manhã na sua casa, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. O papo seria sobre a Oficina do Tio Lú, um projeto de recuperação de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Chego antes das 9h e percebo que o portão está cadeado. Um vizinho acena e grita que o “Seu Luiz” pegou a “magrela” e foi ao centro. Faço outra ligação para o Tio Lú e ele pede que eu o aguarde. Enquanto isso fico em frente à Casa 10 da Rua B observando o movimento de pessoas, veículos e animais. À esquerda, uma estrada de terra que dá acesso à Farinheira Cassava possui o maior fluxo de veículos do bairro. Carros, caminhões, picapes e motos circulam dia e noite pelo local. Do outro lado, é possível ver o Bosque Municipal de Paranavaí, inclusive alguns macacos e pássaros que se aproximam da cerca de arame que separa a mata nativa da rua.

Nos primeiros minutos após a minha chegada, três garotinhas com idade entre 12 e 13 anos me chamam a atenção enquanto percorrem uma estrada de terra. Se esforçam para se defender das cortinas de poeira deixadas por uma sequência de caminhões. Tenho a impressão de ver cada uma carregando uma boneca enquanto conversam. Só percebo o engano quando ouço um choro intervalado. Não eram bonecas, mas sim bebês. Quando as três descem um pouco mais, um rapaz me diz que duas das meninas já têm dois filhos. “Essas novinhas engravidaram dos vizinhos lá da rua de baixo. Isso não é anormal aqui, acontece com frequência”, explica. Quando o rapaz vai embora, a simpática Dona Lindinalva, namorada do Seu Luiz, estaciona a bicicleta, me cumprimenta e faz questão que eu pegue uma cadeira para não precisar esperar em pé.

Assim que ela se despede para cuidar dos afazeres domésticos, chega R.D.S., um garoto de 13 anos que conheci em 2012. “Vi você descendo de carro lá na rua de cima, então vim pra cá”, diz sorridente enquanto segura uma gaiola com um coleirinho chamado Maverick. O passarinho foi capturado por R.D.S. que gosta de domesticá-los. Ocasionalmente os vende pela melhor oferta. Depois de mudar a gaiola de posição três ou quatro vezes, evitando expor a ave ao sol, ele grita para um vizinho. “Ô véi, quer comprar coleirinho?” O rapaz então pergunta o preço e R.D.S. responde que aceita R$ 30. A negociação se estende por um bom tempo, até que o vizinho diz que paga pelo coleirinho o que tiver no bolso. “E aí, topa ou não? É pegar ou largar”, desafia.

R.D.S. fica tentado em aceitar, mas tem receio de que o rapaz não tenha dinheiro algum. Na Vila Alta, quem concorda com esse tipo de transação não pode desfazer o negócio se a surpresa for desagradável. “Sei não, viu? Acho que você tá me ‘zuando’”, desconfia o garoto. O sujeito gargalha e se cala. O silêncio sincronizado parece atrair a atenção de Maverick que começa a cantar e voar de um lado para o outro da gaiola. Ao ver a agitação do coleirinho, pergunto a R.D.S. por que ele prende o passarinho dentro da gaiola. “Pra cuidar dele. Ensino a cantar melhor ainda. Sou bom nisso, tanto que eles andam em cima do meu ombro, braço e cabeça”, argumenta e acrescenta que com o tempo abre a gaiola e deixa o pássaro livre.

R.D.S. tem boas lembranças da época em que passava horas observando as aves numa área conhecida como “barragem”, bastante frequentada pelos jovens do bairro. Para chegar ao local é preciso ir até o final da Vila Alta e atravessar um brejo a pé. “A ‘barragem’ foi abandonada quando começaram a matar gente lá. O pessoal ficava com medo. Depois de muito tempo melhorou de novo”, garante R.D.S. que brincava no lugar quase todos os dias. Em seguida, o garoto assobia para o coleirinho que retribui cantando em um tom ainda mais elevado. R.D.S. confidencia que muita gente também gostava de fumar maconha na “barragem”. Jovens com idade entre 8 e 15 anos recebiam o produto de um mesmo fornecedor. “A gente pagava R$ 5 em três cigarros grandes de maconha. Tinha época que queria fumar toda hora. Não dava vontade de fazer mais nada. Ficava ‘relaxadão’”, revela.

Para sustentar o vício, R.D.S. percorria o lixão da Vila Operária e o da Vila Alta procurando fios de cobre. Com a venda, ia até uma “boca de fumo” e comprava maconha. Por vontade própria e incentivo de bons amigos, o garoto parou de fumar há seis meses e já está se preparando para voltar a estudar. O que motivou o adolescente a passar a maior parte do tempo nas ruas e também a se tornar usuário de drogas ainda na infância foi o mau relacionamento familiar. R.D.S. mora com os avós e desde que aprendeu a andar teve de aceitar a ausência da mãe e a convivência com um avô alcoólatra que o xinga diariamente. “Sempre diz que sou lixo, que atrapalho a vida dele e nunca vou ser ninguém. Pra ele, eu não sirvo pra nada”, reclama em tom de mágoa.

Um dia o garoto teve uma intoxicação alimentar e precisou ser socorrido pelo artista plástico Luiz Carlos Prates. No Pronto Atendimento Municipal explicaram que o caso era grave e se tivessem demorado um pouco mais o adolescente poderia ter morrido. “Meu pai é legal. Gosta de me dar presentes. A gente mora na mesma cidade, mas ele só vem me buscar uma vez a cada dois meses”, explica. O relacionamento com a mãe sempre foi tenso. Por isso, apesar dos conflitos, R.D.S. ainda prefere morar com os avós.

Seu Luiz: "Muitos homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas" (Foto: David Arioch)

Seu Luiz: “Homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas” (Foto: David Arioch)

Enquanto conversamos, uma senhora com pelo menos 60 anos desce a rua da Farinheira Cassava equilibrando um botijão de gás sobre a cabeça. Ao lado, um cãozinho mestiço de pelagem escura a acompanha como se fosse um guarda-costas. Minutos mais tarde, Seu Luiz chega de bicicleta e quatro jovens se aproximam. Depois de sentar em uma cadeira sobre a calçada, o artista plástico mostra uma mulher caminhando ao lado do Bosque Municipal. Aparentando ter no máximo 30 anos, a jovem já teve mais de 15 filhos. “É uma moça que poderia ter se esforçado e seguido por um caminho diferente. Ela comandava uma casa de prostituição em São João do Caiuá [a menos de 30 quilômetros de Paranavaí]. Veio pra cá porque a expulsaram de lá. Teve uma época em que o trabalho dela era aliciar as meninas do bairro para se tornarem prostitutas”, confidencia Seu Luiz.

Pela mesma rua percorrida pela moça chega à esquina um senhor com cerca de 70 anos conhecido como Didi. Espancado na noite anterior, o idoso perdeu quase todos os dentes. Restaram apenas dois ou três e algumas lascas ainda presas à gengiva. Visivelmente bêbado e com as pernas trêmulas, Didi tenta articular algumas frases confusas enquanto sorri e levanta os braços em direção ao céu. Parece viver o seu momento em um mundo tão pequeno que fica alegre ao perceber que é observado por algumas pessoas. “Meu nome é Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbbo. Isso mesmo! Mufumbbo com b duplo e Mocó com acento no segundo o!”, comenta aparentemente “anestesiado” pela embriaguez. Quando falam com ele, o homem fica eufórico, sente-se importante por receber um pouquinho de atenção.

Com a partida de Didi, Seu Luiz relata a história do dia em que pediu a um dos seus alunos para lhe arrumar um cachorro preto. “Expliquei que queria um animalzinho com essa descrição para me fazer companhia”, enfatiza. Uma semana depois do pedido atendido, o artista plástico estranhou que o cachorro estava com a pelagem opaca e ficando esbranquiçado. Foi quando se deu conta que como o garoto não conseguiu encontrar nenhum cachorro preto, ele pegou um cão branco e o pintou. “A tinta foi desaparecendo. Nem acreditei no que tinham feito”, lembra rindo.

Antes de eu ir embora, dois adolescentes começam a falar baixo durante a passagem de um homem de não mais que 20 anos. O rapaz de sorriso enviesado, estatura mediana, magro e cabeça raspada só anda pelo bairro em horários estratégicos. Marcado para morrer por uma facção criminosa, o jovem segue a vida enquanto pode. “Não chama o doido aqui não. Se os caras ‘emparelharem’ ele aqui, todo mundo vai levar bala junto”, reclama um rapaz alto e corpulento que abandonou o crime há alguns anos. Sem demora, o jovem dobra a esquina e não o vemos mais. No chão por onde passou, ficam apenas as marcas irregulares da sola do par de chinelos. Ninguém sabe se ele vai sobreviver a mais um dia ou se vai ser encontrado assassinado em algum lugar da periferia de Paranavaí.

Por volta das 11h30, uma picape Ford F-350 preta cruza a Rua B. Mais adiante, uma moça desce do veículo e rapidamente entra dentro de casa. “Aqui é assim. Muitos homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas. São sujeitos casados, com filhos e que ‘vendem mentiras’. Sonhadoras, elas acreditam que eles gostam delas, que vão mudar de vida, mas quase sempre são descartadas como se fossem lixo”, critica Tio Lú, acrescentando que não são poucos os homens de alto poder aquisitivo que procuram garotas menores de idade no bairro.

Pouco antes das 12h, dou uma carona para o Seu Luiz até o centro de Paranavaí. Deixamos a Rua B e subimos em direção à Vila Operária. Faltando 200 metros para sair da Vila Alta, vemos um senhor aparentando ter entre 55 e 65 anos abrindo a porta de uma picape Hilux branca para uma adolescente entrar. “Essa menina tem 15 ou 16 anos”, revela o artista plástico. Alguns segundos depois o homem acelera e a picape desaparece em uma curva a 100 metros do Centro da Juventude de Paranavaí.

Written by David Arioch

May 28th, 2015 at 1:45 pm

“Sempre vejo os meninos vendendo drogas”

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Luiz Carlos Prates fala sobre a realidade dos jovens da Vila Alta

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Prates é um artista que recupera menores em situação de risco (Fotos: David Arioch)

Morador da Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o artista plástico gaúcho Luiz Carlos Prates há mais de 15 anos acompanha de perto tudo que acontece na comunidade, onde desenvolve um trabalho de recuperação de menores em situação de risco. Para Prates, a única forma de livrar os jovens do narcotráfico é fazendo um intenso trabalho social.

“Seu Luiz”, de 82 anos, como é mais conhecido, costuma circular com frequência pelas ruas da Vila Alta. Só em um sábado à tarde, contabilizou 13 crianças comercializando crack. “Sempre vejo os meninos vendendo drogas. É comum virar passador, bode expiatório, testa de ferro ou laranja. Mas a parte mais triste é que o destino deles nesse caminho é a cadeia ou a morte”, diz. No bairro, há casos de adolescentes com 15 anos que já se envolveram tanto com o narcotráfico que não se imaginam desempenhando outra atividade.

Prates relata com tristeza o exemplo de um adolescente para quem estava dando lições de artesanato. “Em 2011, passei por uma fase difícil e tive que interromper as aulas voluntárias por alguns dias para fazer algumas peças pra vender. Quando retomei a oficina, o menino sumiu. Fui procurar ele e descobri que um ‘traficante já tinha tomado conta’”, lamenta.

No bairro, é grande a quantidade de crianças e adolescentes fora das escolas. Muitos não têm pais e são criados pelos avós, segundo informações dos moradores da Vila Alta. “Não têm estrutura familiar e ficam disponíveis ao mundo das drogas”, avalia uma das lideranças do bairro, a catadora de recicláveis Maria de Fátima Oliveira que quando caminha pela Vila Alta sempre se depara com restos de drogas nas ruas, principalmente saquinhos de plástico com vestígios de crack.

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Maria de Fátima conta que sempre encontra vestígios de drogas nas ruas

Seu Luiz, que coordena um grupo de 12 crianças e adolescentes, afirma estar feliz por tê-los livrado do mau caminho, embora ressalte que ainda há muito trabalho a ser feito. “De todas as crianças que cuido hoje, a maioria não tem pai e mãe em casa. Mas o problema maior é que aqui no bairro não são poucos os jovens envolvidos com drogas que são filhos de desempregados, ladrões, prostitutas, traficantes e viciados”, comenta.

Como o bairro é distante da região central, o consumo de narcóticos começou por volta de 1980, de forma discreta e restrita. Mas a situação se agravou, tanto que muitas crianças conhecem a forma e o cheiro da droga. Os 12 alunos do artista plástico são um exemplo. “O meu neto de oito anos também identifica com facilidade quando estão usando alguma coisa”, complementa Maria.

L.F.B, de 10 anos, que em função da alimentação deficiente aparenta ter de sete a oito, já experimentou cola de sapateiro, tiner, éter, maconha, crack e cocaína por influência de falsos amigos. “Quando conheci não sabia nem o nome certo dos produtos. Não ‘tô’ mais nessa onda não, mas conheço muita gente que ‘tá’”, declara enquanto desvia os olhos e ajeita o boné surrado sobre a cabeça.

Luiz Carlos: "A Vila Alta sempre foi abandonada pelo poder público"

Luiz Carlos: “A Vila Alta sempre foi abandonada pelo poder público”

Seu Luiz se recorda do episódio em que um garoto estava trabalhando em uma cooperativa de recicláveis quando denunciaram ao Conselho Tutelar. “Foram até o local, tiraram o menino de lá e advertiram a cooperativa. Não apresentaram nenhuma solução, tanto que pra ganhar algum dinheiro hoje o garoto vende drogas em frente a própria casa”, relata.

Para as lideranças do bairro, até os anos 1990, a participação do Conselho Tutelar e de outras autoridades era mais efetiva. A criança ou adolescente com problemas era obrigado a assinar um documento em que se comprometia a mudar, recebendo todo o acompanhamento necessário. “Este lugar sempre foi abandonado pelo poder público. Falo da Vila Alta, não da Vila Operária. As pessoas precisam aprender a diferenciar os bairros”, desabafa Luiz Carlos Prates e sugere que o primeiro passo seja educar os moradores da Vila Alta.

O boia-fria Jurandir Oliveira defende que pessoas de outros bairros e cidades costumam cometer crimes e se refugiarem na Vila Alta. “É triste porque fica a impressão de que faz parte da comunidade, o que não é verdade. Nem tudo que acontece de ruim na cidade deve ser atribuído a nós. É injusto”, reclama.

Curiosidade

A Vila Alta tem pouco mais de três mil moradores.

Artista deixa de lucrar para ajudar jovens da Vila Alta

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Luiz Carlos Prates: “Quero que façam trabalhos muito melhores do que os meus”

Prates: “Minha principal preocupação sempre foi tirá-los das ruas” (Foto: David Arioch)

O artista plástico Luiz Carlos Prates, referência na arte de manipular couro, osso, chifre e madeira está ensinando artesanato a 12 crianças e adolescentes na Vila Alta, em Paranavaí. As aulas realizadas em período integral às segundas, terças e quartas-feiras exigem muita dedicação, tanto que o artista produz menos para garantir que os alunos aprendam o máximo possível. “Continuo na ativa porque preciso vender minhas peças para comprar o material usado na instrução deles. Às vezes, conseguimos algumas doações”, comenta Prates.

Nos três primeiros dias da semana, o artista deixa de lucrar para dar toda atenção aos alunos. “Quero que façam trabalhos muito melhores do que os meus. Me envolvo de coração com eles, tanto que a minha principal preocupação sempre foi tirá-los das ruas. Como são crianças vulneráveis, faço de tudo para evitar que se entreguem ao mundo do crime e das drogas”, explica Luiz Carlos que é muito respeitado no bairro por pessoas de todas as faixas etárias. Como incentivo, os alunos levam para casa as peças produzidas, ou seja, podem doá-las ou vendê-las, se preferirem. “Quando querem vender, são melhores que eu”, afirma Prates enquanto sorri orgulhoso, ladeado pelos alunos que o consideram um avô.

“Como incentivo, os alunos levam para casa as peças produzidas” (Foto: David Arioch)

Quando encontra uma criança à toa na rua, o artista logo pergunta se tem interesse em aprender artesanato e justifica os benefícios. Recentemente, conquistou a parceria da psicóloga Cristina Pontes que uma vez por semana atende os alunos como voluntária. “Pretendo construir um pequeno escritório ao lado do atelier para que ela possa falar com eles aqui mesmo e individualmente”, destaca Luiz Carlos, lembrando que o projeto se desenvolveria com mais facilidade se conseguissem patrocínio para custear os lanches dos alunos e também a aquisição de ferramentas.

Entre os aprendizes estão Gustavo de Jesus Souza, 13; William Viana Castro, 15; Alisson Ferreira França, 15; Danilo Medeiros França. 12; Welinton Silva, 13; Daniel Pereira Silva, 10; Luan Guilherme Moraes, 15; e Éderson França de Melo, 12. Gustavo é o primeiro aluno do projeto no qual ingressou há oito meses. Produziu mais de 20 peças. “Gosto muito daqui. Prefiro trabalhar com madeira, e já fiz copo, concha, cinzeiro, casa, cadeira e carrinho que foi o mais difícil”, revela. Quem quiser contribuir com o projeto pode ligar para (44) 3422-7635.

A arte sulista de Luiz Carlos Prates

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Um mestre na arte de manipular couro, madeira, chifre e osso

Luiz Carlos, mestre na arte de manipular couro, madeira, chifre e osso (Foto: David Arioch)

Luiz Carlos, mestre na arte de manipular couro, madeira, chifre e osso (Foto: David Arioch)

O artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima é mestre na arte de manipular couro, madeira, chifre e osso, matérias-primas usadas para criar obras que resgatam elementos da cultura sulina.

Luiz Carlos nasceu em 1º de junho de 1930 em Alegrete, no Rio Grande do Sul, cidade natal do grande poeta Mário Quintana. O dom para as artes, descoberto na infância, foi incentivado pela avó africana que era pintora e desenhista. Na juventude, Prates de Lima decidiu investir na carreira de artista plástico e ingressou no Instituto de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Depois de formado, lecionou na Fundação Gaúcha do Trabalho. “Eu ensinava artesanato com chifres, ossos, madeira e couro”, afirma Luiz Carlos que trabalha com artes plásticas há mais de 60 anos. O artista que produz arte com as mais diversas matérias-primas é especialista não apenas na criação de esculturas, mas também de pinturas e desenhos. “Gosto de tudo relacionado à arte, e hoje quero passar isso para os outros porque já estou em idade avançada”, pondera.

Luiz Carlos conheceu Paranavaí há muito tempo, contudo só voltou a cidade em 1997, quando decidiu fixar residência. “Gostei muito daqui, e nesse período percebi que o pessoal gosta muito de obras em chifre e madeira. Também encomendam peças feitas com ossos, nem que seja por curiosidade”, revela, acrescentando que até hoje nunca precisou criar nenhuma obra que não gostasse.

Esmero do artista é percebido até numa pequena peça (Foto: David Arioch)

Esmero do artista é percebido até numa pequena peça (Foto: David Arioch)

O que mais chama atenção é que as peças feitas por Luiz Carlos Prates remetem à cultura sulista. Os exemplos estão no pequeno atelier improvisado no quintal. Lá, carretas dividem o espaço com chaleiras, cuias e ervas; tudo feito em madeira. A atmosfera rural do ambiente também parece contribuir para a plasticidade das obras. Quase tudo lembra outros tempos, até o esmero do artista ao entalhar e lixar uma peça menor que um dedo. São lembranças tornadas materiais e palpáveis do passado de Luiz Carlos.

Artista já produziu até 70 peças por semana

O carinho do artista ao segurar cada obra dá uma ideia do valor que a arte agrega a sua vida. Após mais de 60 anos de profissão, Luiz Carlos Prates de Lima ainda é exigente consigo mesmo. Realiza trabalhos sob encomenda, porém entrega uma peça apenas quando tem certeza que deu tudo de si.

Obras são inspiradas na cultura sulista (Foto: David Arioch)

Obras são inspiradas na cultura sulista (Foto: David Arioch)

“Há obras que levam até dois meses, mesmo trabalhando o dia todo. Exemplo é um quadro aplicado que fiz”, explica. Já outras peças são feitas em pouco tempo. O artista conta que dependendo do pedido chega a produzir até 70 obras por semana. “Além do Paraná, já enviei peças para o Japão, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e outros estados. Acho que para o Brasil todo”, garante em tom de orgulho.

Para o artista de fala calma e pausada, a matéria-prima mais fácil de manipular é a madeira, já o chifre é considerado o mais difícil. “O entalhe todo do chifre é feito só com lixa. É bem artesanal e tem que ter paciência”, justifica. Uma das obras mais produzidas pelo artista plástico é a carreta que leva cerca de uma semana para ficar pronta. Até hoje, Prates de Lima criou pelo menos 120. Uma curiosidade sobre as obras do artista é a influência indireta do naturalismo. Luiz Carlos evita dar brilho às peças, não as idealizando para não distanciá-las da realidade. “Gosto do verniz fosco, um trabalho encerado de madeira, sem brilho”, comenta.

Artista trabalha com artes plásticas há mais de 60 anos (Foto: David Arioch)

Artista trabalha com artes plásticas há mais de 60 anos (Foto: David Arioch)

Curiosidade

Quando morava no Rio Grande do Sul, antes de tornar-se evangélico, o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima construía carros alegóricos, fantasias de carnaval e até escrevia enredos para escolas de samba.

Contato

Interessados em conhecer o trabalho do artista plástico podem ligar para (44) 9865-1391.