David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Maldade’ tag

Vaquejada não é esporte, é violência

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Viver na ignorância é uma bênção e uma maldade

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Obra de Andres Salvador que retrata o tema

Viver na ignorância é uma bênção e uma maldade. Uma bênção porque você não toma conhecimento de muitas coisas realmente duras. Mas também uma maldade porque são os outros que amargam as consequências da sua ignorância.

 

 





Written by David Arioch

April 29th, 2017 at 3:38 pm

A falta de sentido da caça

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O que leva uma pessoa a viajar milhares de quilômetros para matar um animal em seu habitat? Como um sujeito desse pode sentir-se forte ou feliz por assassinar um ser vivo que nunca representou ameaça à sua vida? É um dos maiores exemplos de soberba e estupidez. Qualquer dia, quero escrever sobre o perfil de caçadores, porque ninguém me tira da cabeça que tem algo de errado com essas pessoas, e quero saber exatamente o que é.

Written by David Arioch

January 25th, 2017 at 11:43 pm

Um grande artista nem sempre é um bom exemplo de ser humano

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Há inclusive aqueles que foram considerados artistas de caráter duvidoso

Picasso sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados (Foto: Arnold Newman/Getty Images)

Picasso sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados
(Foto: Arnold Newman/Getty Images)

 

É comum alguém acreditar que um grande artista é um bom exemplo de ser humano, até mesmo uma pessoa perfeita, mas é importante ter em mente que isso não condiz com a realidade. Exemplos nunca faltam. Há inclusive aqueles que foram considerados por alguns como seres humanos de caráter duvidoso e que entraram para a história da arte como verdadeiros gênios, como é o caso do compositor alemão Richard Wagner, cujo antissemitismo dizem que chegou a ponto dele declarar que judeus são incapazes de produzir arte. Apesar disso, alguns estudiosos de sua obra dizem que ele tinha alguns amigos judeus.

O maestro judeu Daniel Barenboim, o maior intérprete da música de Wagner, chegou a fazer releituras das obras do compositor alemão em Israel e justificou que o germânico poderia ser repreendido, mas não sua música. “Ele não compôs uma única nota antissemita”, declarou quando questionado sobre o assunto. A explicação se sustenta até mesmo na ponderação de que bondade e maldade enquanto características pessoais são qualidades morais que não se aplicam à arte, principalmente do ponto de vista estético.

O editor do New York Times e crítico literário Charles McGrath defende que uma pessoa, independente de moralidade ou caráter, pode não apenas escrever um bom romance ou pintar uma bela tela como suavizar ou externalizar um grande infortúnio. “Pense em Guernica, de Picasso, ou Lolita, de Nabokov. É um romance excepcional sobre o abuso sexual de uma menor e descrito de uma maneira que faz com que o protagonista pareça quase simpático”, argumenta.

Pound era assumidamente antissemita e protofacista (Foto: Reprodução)

Pound era assumidamente antissemita e protofacista (Foto: Reprodução)

Degas, até hoje cultuado pelo seu perfil fervorosamente humanista, era antissemita e um defensor do tribunal francês que condenou o capitão Alfred Dreyfus, do exército francês, falsamente acusado de traição. Ezra Pound, expoente do modernismo, também era antissemita e protofascista, posições que ele assumia sem receio, embora a maioria não levasse a sério suas declarações sobre o assunto por considerá-lo excêntrico e até mesmo louco.

E na mesma esteira seguia seu amigo T.S. Eliot, da Igreja Anglicana, poeta que se orgulhava de uma posição ideológica muito próxima a de Pound. Já Picasso, sempre chamou a atenção pelos seus relacionamentos conturbados. Das sete mulheres com quem se envolveu amorosamente, duas cometeram suicídio e outras duas enlouqueceram.

Outro pintor com uma história de vida intrigante é o alemão Walter Sickert, referência da pintura avant-garde britânica. A escritora norte-americana Patricia Cornwell publicou um livro em que acusa Sickert de ser o famoso Jack O Estripador. Norman Mailer, duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, tentou assassinar a esposa.

Filho escreveu carta a Hemingway dizendo como ele destruiu sua vida (Foto: Reprodução)

Filho escreveu carta a Hemingway dizendo como ele destruiu sua vida (Foto: Reprodução)

O pintor Caravaggio e o poeta e dramaturgo Ben Jonson participaram de duelos em que mataram seus adversários sem o menor remorso. E a lista segue extensa. Genet era ladrão, Rimbaud foi traficante de armas e Byron praticou incesto. Flaubert também se envolveu em um escândalo por pagar por sexo com garotos, sim, menores. “A base de toda grande obra de arte é uma pilha de barbárie”, escreveu uma vez o crítico literário alemão Walter Benjamin.

Apesar disso, a arte consegue perseverar como enobrecedora porque ela inspira e transporta o leitor ou espectador. “Ela refina nossas discriminações, amplia a nossa compreensão e simpatia. Se ela faz isso conosco, imagine o que ela não é capaz de fazer com seus autores? Nos apegamos a essas noções porque cremos que a arte nos leva à evolução moral”, enfatiza McGrath.

Questionado se bons exemplos também fazem boa arte, o editor do New York Times responde que há muitos bons artistas que são decentes ou moralmente íntegros. Ou seja, que não são racistas, não batem em suas esposas, não ignoram suas famílias, não praticam injúrias nem mesmo sonegam impostos. “O artista é alguém vinculado à sua própria lei. Ele acaba por ser até mesmo egoísta, mas em muitas situações porque precisa. Grandes artistas tendem a viver para sua arte mais do que para os outros”, declara.

Dickens expulsou a esposa de casa e mandou o filho para a Austrália (Foto: Reprodução)

Dickens expulsou a esposa de casa e mandou o filho para a Austrália (Foto: Reprodução)

A afirmação de McGrath pode ser facilmente comprovada se avaliarmos as biografias de artistas como Fitzgerald, Faulkner, Bellow, Yates e Agee, homens que tiveram casamentos desfeitos, filhos negligenciados e pouco amados. E será que a arte vale a infelicidade dos mais próximos? Hemingway se casou quatro vezes e teve dois filhos problemáticos.

Quando Gregory completou 21 anos, ele escreveu uma carta ao pai dizendo como ele destruiu sua vida e a de outros quatro familiares. Depois de se tornar uma transexual alcoólatra em Miami, Gregory morreu em uma penitenciária feminina. Outros agravantes eram o perfil mulherengo de Hemingway e suas constantes bebedeiras. Além disso, sempre se importou mais em escrever do que em cuidar da família.

Assim que se casou com Catherine Hogarth, Charles Dickens, um dos mais famosos romancistas ingleses, prometeu que seria um pai e marido exemplar, levando em conta a própria infância miserável, acentuada pela ausência da figura paterna. No entanto, fez tudo diferente. Foi um pai desleixado e péssimo marido. Irritado ao ver que a cada gravidez a sua esposa ficava mais gorda e doente, Dickens se tornou um sujeito amargo.

“Ele expulsou a própria esposa de casa e anunciou em sua revista que fez isso porque ela era uma mãe tão irresponsável que nem os filhos a suportavam. Mais tarde, despachou o filho Edward, de 16 anos, para a Austrália e nunca mais o viu novamente. Dickens morreu sob o domínio completo da arte, uma arte cruel que exige de seus praticantes uma desumana servidão”, avalia Charles McGrath.

Referência

McGrath, Charles. Good Art, Bad People, The New York Times, The Opinion Pages, Global Agenda, Genius At Work. 22/06/2012.

A recompensa e o medo da danação

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“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas?”

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Representação do inferno criada pelo pintor italiano Sandro Botticelli

Ao longo da minha vida, tive contato com diversas religiões e algumas antagônicas em certos aspectos. Fiz catequese e participei de escolas dominicais na minha infância e nos primeiros anos da adolescência. Até para minha surpresa, eu costumava estar entre os melhores alunos, embora minhas dúvidas soassem acéticas ou dignas de um infiel para alguns ou muitos. Ainda assim, eu não hesitava em refletir profundamente sobre o que lia e ouvia. Mesmo pequeno, não tinha facilidade em absorver qualquer coisa como verdade inquestionável.

O comportamento humano já me intrigava naquele tempo porque para além das cortinas de fé eu percebia algo nas pessoas que me parecia estranho e paradoxal. “Seja um bom menino que mais cedo ou mais tarde a recompensa aparece”, me diziam muitos quando eu ainda era criança. E esse discurso se repetiu muitas outras vezes e das mais variadas formas. As palavras mudavam, mas não deixavam de transmitir a mesma mensagem. Até que um dia eu comecei a me questionar.

“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas? Se descobrissem que se trata de um dever como ser humano e simplesmente isso? E se após a morte lhe fosse reservado um lugar ao lado daqueles que você considera descrentes, ruins e degenerados? Você ainda faria tudo que fez? Seria realmente a mesma pessoa? E se não houver recompensa, não há motivo para ser bom ou justo?”

Me deparo todos os dias com pessoas que sustentam a própria fé e a ideia de fazer o bem como uma moeda de troca para ser beneficiado no futuro ou no pós-morte, como se Deus tivesse assinado algum termo de responsabilidade ou de indenização pela vida terrena que muitos depreciam na ânsia pelo paraíso. Como não encarar isso como uma forma de mercantilização da bondade? Por que não ser bom porque é sensato e condiz com a natureza humana quando ela não é subtraída da própria essência?

Acredito de fato que o ser humano é naturalmente benevolente, quando não o é significa que em algum momento suas características naturais foram corrompidas. Também penso que o justo nem sempre é verdadeiramente justo por um senso moral, por um senso altruísta. Muitas vezes a bondade nasce do medo da punição, da danação, de ser relegado à escuridão eterna. “Foi tarde. Tá ardendo no inferno, no colo do capeta”, já ouvi copiosamente. E que autoridade tem alguém em afirmar isso? Ou até mesmo desejar o mal a alguém? Quem somos nós para definir o que as pessoas merecem?

Diversas religiões falam que o fiel, o bom, ganhará os céus. Mas ser devoto de uma religião não significa ser bom e vice-versa. A bondade, como a caridade, independe de religião. Ela precisa fluir sempre de dentro do ser humano para fora, e mesmo distante de uma igreja há quem faça ela prevalecer até mais do que a de um suposto fiel. Crer que é melhor por ter uma religião reafirma apenas uma posição de devoto de ocasião.

Muitas vezes também li e ouvi pessoas afirmando que Deus há de punir seus desafetos porque ninguém “mexe com um servo ou serva de Deus”. Aí então surge uma curiosa distorção de crenças em que o religioso se coloca numa posição de deidade enquanto a Deus é delegada a função de subserviência, como um servo que deve atender aos caprichos de alguém com uma visão distorcida e particularista de justiça. Assim há seres humanos que não apenas se veem como merecedores de recompensa, mas vão muito além – eles a exigem em retribuição à fé que afirmam possuir incondicionalmente.

A maldade também envelhece

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Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados

(c) The Ashmolean Museum of Art and Archaeology; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho caminhando sozinho (Arte: The Ashmolean Museum of Art and Archaeology)

Andando pelas ruas, sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho arciforme ou maltrapilho caminhando sozinho. Mesmo sem interagir com o personagem, dizem à distância segura: “Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” Claro, uma reação natural e previsível, até porque temos tendência a sentir comiseração pelos desamparados.

Curioso, um dia decidi me aprofundar na história de um idoso que vaga pelo centro da cidade e pelos bairros centrais recolhendo materiais recicláveis. Para preservar sua identidade, vou chamá-lo de Adamantino, não por acaso, mas sim por uma questão criteriosa de significação. Adamantino tem o perfil ideal para despertar inclusive a maviosidade dos mais empedernidos.

O protagonista da minha história tem baixa estatura, mais de 80 anos, cabelos brancos como algodão descaroçado, olhos graves e pele pintalgada pela frequente exposição ao sol. Também é corcovado – suas costas se elevam quase à altura do topo da cabeça. Ao longe, criam a ilusão de que ele transporta algo sobre a própria cordilheira.

Meu primeiro contato com Adamantino foi por acaso, quase em frente de casa. Ele estava revirando o lixo do vizinho e me aproximei com dois sacos cheios de latinhas. “O senhor quer essas latinhas?”, perguntei, observando suas costas disformes viradas para mim. Eram tão alterosas que só não encafurnavam sua nuca e suas orelhas por causa da sua baixa estatura. Me compadeci de vê-lo naquela difícil situação. Imaginei que talvez minha atitude lhe poupasse um pouco de tempo e quilômetros de infecundas pernadas.

Mesmo após ouvir minha voz, o idoso não mudou de posição. Manteve as mãos trigueiras, finas, calejadas, enrugadas e afoitas mergulhadas num lixo onde ele disputava espaço com tresloucadas moscas-varejeiras. O aroma pestilento em nada o incomodava. Talvez estivesse tão acostumado com a podridão que seu olfato fosse capaz de extrair perfume de chorume.

Enquanto eu segurava os sacos, ele olhou para mim rapidamente e disse: “Tá! Passa pra cá! O que mais você tem lá na sua casa?”, interpelou, agarrando os sacos com tanta firmeza que chegou a espremer com violência as latinhas. Respondi que iria ver. Sem dizer mais nada, mirou o outro lado da rua, ajeitou as latinhas dentro de um velho carrinho amadeirado e arrastou os chinelos até a próxima casa. Retornei em menos de três minutos para lhe entregar uma caixa com garrafas pet e questionei se ele também aceitava papelão.

“Quero papelão não! Isso aí não vale nada!”, respondeu com o cenho franzido – um olhar naturalmente agreste combinando com a boca árida que me lembrou chão sequioso em tempo de estiagem. O crispado das mãos e dos braços mirrados formavam caminhos que não se encontravam, traços que se perdiam na inexatidão, na sinuosidade descalabrada da sua própria vida, imaginei, incerto de coisa alguma.

Me despedi e, sem que ele dissesse nada, continuei o espiando de casa. Apesar de tudo, ainda me parecia uma figura miúda e triste. Fiquei pensando em como seus olhos castanhos e opacos eram enigmáticos. Em profundidade, eram como reféns da vacuidade. E logo percebi que ele não gostava que lhe olhassem diretamente nos olhos – desviava e se apoiava no carrinho com tanta força que as unhas riscavam o madeirite.

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“Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” (Arte: David Simons)

A barba por fazer, a roupa esfarrapada, saburrenta e encardida, os cabelos desgrenhados, o andar remansoso e a ausência de dois botões da camisa, que revelavam um peito ossudo e abissalmente avermelhado – coberto por micoses, são predicados que fizeram de Adamantino um querido desconhecido. “Oi! O senhor precisa de ajuda?”, perguntou uma moça encostando o carro ao lado do idoso. Ele levantou os olhos bruscamente e respondeu algo que não consegui entender. Ela fez um comentário e partiu. A cena se repetiu mais duas vezes com outros personagens.

Depois daquele dia, não resisti em investigar a vida de Adamantino antes de se tornar aquele velhinho por quem tantos se compadeciam. Descobri que ele viveu em Paranavaí nos tempos da colonização. Então se mudou e retornou somente quando virou um andrajoso. Chegou ao Noroeste do Paraná em 1950. Era jovem e cheio de sonhos, e o mais importante deles envolvia maquinação.

Com falsa escritura, envelhecida com excremento de grilo, se apropriou de um sítio a 20 quilômetros da área urbana. Em menos de cinco anos, comprou três fazendas. Conseguiu ampliar rapidamente o patrimônio. Fez amizade com cafeicultores e contratou um “quebra-milho” para assaltá-los, deixando os produtores à própria sorte, correndo risco de falência. Se postulando como amigo e salvador, aparecia nos momentos mais críticos emprestando dinheiro a juros baixos para que os beneficiados não precisassem abandonar a produção de café.

Assim que a soma era investida maciçamente no plantio, ele aguardava a maturação dos cafeeiros. Antes do início da colheita, pagava para que os “quebra-milho” invadissem os cafezais de madrugada esparramando estrategicamente centenas de brocas-do-café pelas plantações. Em pouco tempo, a praga dizimava os cafezais. Com o prejuízo, as vítimas não conseguiam honrar os empréstimos e eram obrigadas a liquidar a dívida repassando as propriedades a Adamantino.

Tirânico, um dia ele expulsou a filha de casa porque descobriu que ela namorava às escondidas o filho de um colono nordestino. “Que diabos um desgraçado desse pode trazer de benefício pra nossa família? Que suma daqui ela e esse crápula sem eira nem beira!”, justificou depois de arrastar a jovem pelos cabelos, a lançando contra um espigão de coroa-de-cristo que ornamentava as rebarbas do descampado em frente ao casarão. A moça nunca mais voltou para casa, nem o pai autorizou a esposa ou um dos outros três filhos a procurá-la. Mais tarde, soube que a jovem passava por dificuldades financeiras, mas deixou claro que quem tentasse ajudá-la teria o mesmo destino.

Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados. “Não quero perdição. Antes comer pouco e render no serviço do que inchar o bucho e ficar de ‘gracice’ por aí, ‘amendoando as orelhas’ [dormindo escondido]. A fome motiva o infeliz a trabalhar mais pra poder comer outra vez”, justificava. Embora gozasse de grande fortuna, às vezes, quando precisava que alguém resolvesse algum problema na cidade, obrigava um dos filhos a percorrer o trajeto a pé para não gastar dinheiro com combustível, alegando que não seria difícil arrumar carona para voltar para casa, dividindo o espaço da carroceria com porcos e galinhas.

Cobiçoso e insatisfeito, Adamantino preparou um plano para se apropriar da fazenda do amigo que o trouxe a Paranavaí. Chovia muito no dia em que mandou um empregado bater na porta da casa de Rui. O som do aguaceiro era tão intenso que era impossível ouvir quem chegava e quem saía da fazenda. Reconhecendo o visitante, o homem permitiu que ele entrasse. Quando Rui se posicionou para guardar a pardacenta capa de chuva, Matraca tirou uma pistola da algibeira e atirou contra o anfitrião.

Os dois balaços nas costas, à queima-roupa, deixaram o homem agonizando no chão, com olhos perdidos, sem entender a motivação do crime. Ladeado por uma poça de sangue, e ciente de que a morte logo lhe surrupiaria a vida, Rui se esforçou para agarrar a perna do criminoso com a mão direita e balbuciar com muita dificuldade: “Sei que foi Adamantino que te mandou. Diga a ele que, ao contrário da minha, a vida dele vai ser longa, tão longa que ele vai desejar ter morrido primeiro.”

Em menos de minuto, dois rapazes desceram pelas escadas e não tiveram tempo de reagir. Dois tiros depois, rolaram, caindo mortos aos pés do quebra-milho. A sangue frio, chutou as vítimas para ver se reagiam e partiu satisfeito com o desfecho da empreitada. Pelo trabalho, Matraca ganhou a escritura de uma fazenda no Mato Grosso, para onde fugiu na mesma noite. Antes passou na delegacia assumindo a autoria do crime. Após a confissão, o liberaram. Matraca nunca mais foi visto.

Na madrugada do crime, Adamantino foi até a fazenda de Rui com a polícia. Havia um nevoeiro tão denso que pouco se via no horizonte, onde os cafeeiros pareciam imersos num vazio sempiterno. No interior da casa, o homem conteve o sorriso quando viu Rui caído e sem vida. A alegria se transformou em tristeza ao se deparar com um dos jovens aos pés da escada. Lá estava Nestorzinho, ferido mortalmente com um tiro no peito. Matraca, que não conhecia o filho mais novo de Adamantino, matou o rapaz por engano, crente de que era filho de Rui.

Quando a família do grileiro descobriu a verdade sobre o crime, não fizeram alarde nem ameaçaram denunciá-lo. Simplesmente o abandonaram, deixando para trás toda a riqueza e os privilégios conquistados em um período de dez anos. Em 15 dias, a casa enorme da fazenda já não abrigava mais ninguém, a não ser Adamantino e seu próprio dinheiro, estocado até dentro de buracos no quintal. Alguns empregados também se afastaram do homem, com receio de que ele atraísse algum tipo de danação eterna.

Sem saber o que fazer com o capital, Adamantino redescobriu o seu propósito quando uma sequência de geadas o levou à falência. O que restou de sua fortuna, gastou procurando a família em vão. Há quem acredite que sua família partiu para Portugal, onde viviam os pais da ex-esposa. A última vez que vi Adamantino em Paranavaí foi no ano passado. Ele saía de uma casa abandonada, acompanhado de um adolescente que arrastava longos e lustrosos fios de cobre.

Entre o portão e a calçada, o velho tirou um bolo de dinheiro do bolso sujo da calça surrada, separou duas notas e entregou ao garoto que partiu abespinhado, como se não tivesse recebido o combinado. Adamantino sorriu; foi a primeira e única vez que o vi mostrar os dentes. Enfiou muitos metros de fio de cobre dentro de um saco escuro, armazenou tudo no carrinho e o empurrou por uma curva tranquila, ladeado por uma calçada de mosaico português. Mais adiante, os paus-d’arco lançavam flores em seu caminho. E logo uma senhora parou o carro ao seu lado e perguntou: “Parece que o dia está muito difícil pro senhor. Precisa de alguma coisa?”

Seguindo em direção oposta, lembrei da minha passagem preferida de Eugenia Grandet, de Balzac: “Quando o cura da paróquia veio ministrar-lhe a extrema-unção, seus olhos, mortos na aparência desde algumas horas, reanimaram-se à vista da cruz, dos candelabros, do repositório de água benta, de prata, os quais ele mirou fixamente, mexendo pela última vez a narina. Quando o padre aproximou-lhe dos lábios o crucifixo de prata dourada para fazê-lo beijar a imagem de Cristo, Grandet fez um gesto medonho para agarrá-lo, e esse último esforço custou-lhe a vida.”

Curiosidades

Quebra-milho significa pistoleiro, jagunço, capanga.

O personagem que me inspirou foi embora de Paranavaí anos antes de eu pensar em escrever a história “A maldade também envelhece”.