David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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A caça

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Um homem encontrou um caçador acompanhado do filho na mata. Eles arrastavam com dificuldade o cadáver de uma onça-pintada.

— Querem ajuda?
— Sim, por gentileza.

Depois de percorrerem mais de um quilômetro, pararam ao lado de uma caminhonete. O caçador pediu que o homem fotografasse ele e o filho com a onça inanimada.

— Não posso fazer isso.
— Por quê?
— Pelo mesmo motivo que esse animal jamais exibiria o seu filho aos dele como se fosse um troféu.
— Você é louco? Isso é uma onça, não uma pessoa.
— O senhor tem razão. É justamente por não ser uma pessoa que ela não faria isso. Não goza dessa estranha capacidade. A propósito, por que mataram esse animal e o que farão com ele?
— Matamos porque é matreira. Já nos avisaram que ela tem invadido chácaras, sítios e fazendas da região.
— Quem disse ao senhor?
— Um sujeito que mora naquele sítio a leste.
— Isso é intrigante.
— Por quê?
— Porque é lá que eu moro. O que pretende fazer com a onça?
— Curtir o couro, fazer um tapete, um churrasco. Dizem que carne de onça tem gosto de lombo de porco. Vamos experimentar.
— O senhor tem comida em casa?
— Sim…
— Fartura?
— Sim…
— Então por que comer a carne desse animal? O senhor já viu outro ser vivo arrancar o couro de alguém para servir apenas para limpar-lhe os pés?
— Então farei um casaco.
— Imagino que o senhor tenha blusas e jaquetas em casa…
— Farei um cobertor.
— O senhor tem passado frio atualmente?
— Não…
— Imagino.
— Amigo, farei o que eu quiser. Não me interessa sua opinião. Só aceitei ajuda para carregá-la.
— Tudo bem. Mas o que o senhor ensina ao seu filho fazendo isso?
— Ensino que é importante estar preparado pra tudo.
— Humm…
— E o senhor pensa em viver em uma área de mata fechada?
— Não…
— Então em qual circunstância seu filho teria que matar um animal desses?
— Não interessa.
— O que você aprendeu com seu pai hoje?

O menino ficou em silêncio.

— Chega dessa conversa. Vá cuidar de sua vida.
— Tudo bem, senhor.

Entre as ramagens, um filhote de onça-pintada ameaçava se aproximar.

— O senhor tem uma dívida. Se um dia aquele filhote lhe cobrar, o senhor não poderá reclamar. 

O caçador riu, mas deixou a onça e partiu.





Written by David Arioch

October 19th, 2017 at 12:05 am

A incursão dos Chicos

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Macacos-prego deixam o bosque para garantir a sobrevivência na área urbana

O primeiro Chico avaliando o território antes da incursão (Foto:

O primeiro Chico avaliando o território antes da incursão (Foto: David Arioch)

Perto das 11h, não é difícil perceber uma movimentação tímida, curiosa e rasteira na Rua Benedito Brambila, na Vila Operária. O cheiro de comida na panela faz dezenas de macacos-prego, que desde os anos 1990 receberam o nome de Chico, migrarem da então infrutífera mata do Bosque Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, para as casas mais próximas.

Nem o asfalto quente, capaz de grelhar um pão em tempo recorde, intimida um bando liderado por um macaquinho experiente que passa as coordenadas aos menores. Eles parecem treinados para ocuparem posições estratégicas na incursão pela área urbana. Por segurança, a maioria atua somente em grupo. Mantendo certa distância para não atrapalhá-los, registrei as ações de um bando de cinco Chicos.

Enquanto o mais alto, de pelagem um pouco acinzentada e olhos arregalados, avaliava o movimento na Rua Benedito Brambila, com o corpo ligeiramente oculto sobre um gramado íngreme, os demais, e aparentemente mais jovens, observavam o entorno, escondidos atrás de alguns carros no estacionamento do bosque. A autorização para atravessar a rua foi um sinal sonoro acompanhado de gestos ligeiros. Mesmo com alguns vizinhos conversando em frente uma das casas, o líder dos macaquinhos não hesitou. Talvez porque sejam pessoas com as quais se acostumaram depois de tanto tempo de visitas diárias.

Um dos macaquinhos corre sobre o telhado da casa de dona Maria (Foto: David Arioch)

Um dos macaquinhos corre sobre o telhado da casa de dona Maria (Foto: David Arioch)

Tão logo o primeiro macaco-prego apressou o passo sobre o asfalto, saltou em cima de um muro, correu e lançou-se sobre o telhado, os demais repetiram o percurso, como se fossem ensinados a seguir sempre o mesmo trajeto. Juntos, logo desapareceram por entre as casas onde o aroma que vinha da cozinha era mais acentuado. Parecia que sabiam em quais residências a comida ficaria pronta mais rápido. Ou seja, em cinco anos de três incursões diárias, se tornaram especialistas na “hora do rango”.

A primeira visita ocorre sempre das 6h às 7h30, seguida pela segunda – das 11h às 12h30, e a terceira – das 17h às 18h30. “Moro aqui faz 20 anos e eles começaram a vir aqui em casa com frequência tem dez. Só que a situação se intensificou mesmo há cinco anos”, conta o empresário Gilberto Serafim Matos que mora em frente ao Bosque Municipal e relata as peripécias dos macacos com um grande sorriso.

Parte do bando com o espólio do almoço (Foto: David Arioch)

Parte do bando com o espólio do almoço (Foto: David Arioch)

Hoje, os Chicos são quase membros da família, tanto que a liberdade chega a ponto de passarem bons momentos diários na casa do seu Gilberto, onde conhecem todos os cômodos. Lá, fuçam na TV e em outros aparelhos eletrônicos, deitam no sofá e pulam sobre as camas. Até mesmo as mamães que transportam as suas macaquinhas nas costas frequentam a residência e se dão o direito de abrir o armário e pegar um pacote de biscoito recheado.

Só que a liberdade no local exige um certo controle, até porque alguns animais são mais geniosos. A dona de casa Maria de Fátima Santos cita o episódio em que um Chico pegou o tapete da cozinha e ficou rolando sobre ele em frente ao portão. Só parou com a algazarra quando foi recompensado com um pedaço de pão. “Se não desse, acho que ele teria sumido com o tapete”, comenta. No bairro, entre os alimentos levados pelos Chicos estão arroz, feijão, carnes, frutas, pães, bolos, ovos, biscoitos, bolachas, chips, rações de gato e cachorro, manteiga, margarina, óleo e azeite.

Os macacos furtam ou roubam qualquer alimento ao alcance das mãos. Se a fome for muito grande, eles consomem no local. Do contrário, levam para o bosque e comem em cima das árvores. Um dia, um dos Chicos foi iludido pela própria fome quando furtou uma fruteira com alimentos de plástico. Inconformado, passou horas batendo as “frutas” contra o tronco da árvore, na ilusão de extrair algo comestível. “Eles adoram pão caseiro. Teve um que abraçou um do tamanho dele e sumiu em direção ao bosque”, lembra a dona de casa Maria José Rodrigues Barros que em outra oportunidade teve de interromper o café da manhã por causa de uma saraivada de pedras.

Hora de ser rápido para não ficar sem "rango" (Foto: David Arioch)

Hora de ser rápido para não ficar sem “rango” (Foto: David Arioch)

O ataque só cessou quando dona Maria os convidou à mesa. Embora não sejam muito exigentes quanto a comida, há alimentos que os Chicos odeiam tanto que fazem questão de urinar em cima. Exemplo é a horta de salsinha e cebolinha da dona Maria, um dos alvos prediletos da macacada. Novas histórias surgem a cada dia. Entre as mais recentes está a de um garoto que andava em frente ao bosque e teve o pacote de chips roubado.

Outra vítima foi o vizinho de dona Fátima. O rapaz chegou em casa com dois quilos de bife e minutos depois se surpreendeu com um bando correndo e rindo bosque adentro com a sacola de carne. Inusitado também foi o episódio em que levaram um gatinho preto para o topo de uma árvore, pensando que o animalzinho era filho de uma das macaquinhas do bando. “Eles fazem maldade também de vez em quando. Tem uns 15 dias que um grupo pegou o meu galo e o enforcou até matar. O bichinho não teve chance nenhuma”, revela dona Fátima.

Se tiver comida dentro, nem panelas, recipientes plásticos e canecas passam despercebidos. Muitos utensílios domésticos foram encontrados presos em galhos de árvores. “Daqui de casa, levaram até fatura de energia elétrica e água. Só tivemos certeza quando vimos os papéis balançando lá no bosque”, confidencia seu Gilberto. Uma vez a família de dona Maria pensou que a casa tivesse sido invadida por ladrões porque encontrou praticamente tudo revirado. Só descobriram mais tarde que a bagunça foi provocada pelos Chicos.

Um se distancia do grupo para beber azeite de oliva (Foto: David Arioch

Um se distancia do grupo para beber azeite de oliva (Foto: David Arioch)

“Agora é engraçado, mas não vou negar que na hora a gente fica com raiva e até ódio. Acontece sim. Só que ninguém judia porque sabe que estão nessa situação por falta de comida”, pondera dona Fátima. Outros vizinhos endossam a opinião da dona de casa. É fácil notar o carinho dos moradores da Vila Operária pelas dezenas de macacos que vivem no Bosque Municipal de Paranavaí. Espertos e persuasivos, os primatas conquistaram até a simpatia de gatos e cães da Rua Benedito Brambila. Chegam até a montarem a sobre alguns cachorros. “Até pitbull se acostumou com eles”, enfatiza dona Maria.

Os moradores já passaram por situações em que os Chicos levaram embora compras de alimentos que deveriam durar mais de um mês. E mais, beberam todos os ovos de uma casa invadida e depois fizeram caretas e riram dos moradores. “Eles sabem o que fazem. Então tem situações que gostam de provocar mesmo”, avalia dona Fátima antes de cair na gargalhada.

Nem se sente intimidado pela câmera (Foto: David Arioch)

Nem se sente intimidado pela câmera (Foto: David Arioch)

Outra curiosidade é que nas casas situadas no entorno do bosque não se vê sacos ou sacolas de lixo. A explicação é uma só – evitar bagunça. Seu Gilberto, por exemplo, esconde o lixo dentro de uma kombi até a hora da coleta. A macacada não dá trégua nem aos domingos. Dona Maria não se recorda quando foi a última vez que dormiu bastante no final de semana. Por volta das 6h, é sempre surpreendida por cinco ou seis Chicos correndo sobre o telhado. “O barulho é tão intenso que parece uma boiada passando”, exagera a dona de casa enquanto ri.

Preocupados com a situação dos macacos-prego do Bosque Municipal, os moradores do bairro são unânimes em afirmar que os animais passam fome há anos. Um reflexo dessa realidade é a imagem que registrei de um Chico bebendo azeite de oliva extravirgem. Uma solução para o problema pode ser a criação de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, responsável pelos animais e também pela manutenção do local, com supermercados, hipermercados e frutarias de Paranavaí. Sabemos que qualquer empresa do ramo recebe uma parcela de alimentos com aspecto comprometido, fora de condições de comercialização. Em vez de descartarem, eles poderiam destiná-los aos macacos. Neste caso, o papel da secretaria seria disponibilizar um veículo para o transporte dos alimentos.

As lembranças de José Francisco de Oliveira

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“Tinha uma pensão onde as discussões sempre acabavam em morte”

Seu Zé: “A situação era feia até em Piracema. No distrito, tinha uma pensão onde as discussões sempre acabavam em morte” (Fotos: David Arioch)

O paulista José Francisco de Oliveira se mudou para Paranavaí em 1944, nos tempos da Fazenda Brasileira. À época, deixou Avaré, no interior de São Paulo, para trabalhar na abertura de estradas, embora tenha ouvido falar do Distrito de Montoya em 1932, quando Getúlio Vargas já havia desapropriado a região. “Eu era ‘molecão de tudo’ e contaram pra gente muito do que aconteceu aqui. Pra você ver como a história ia longe”, diz Oliveira que apesar de sofrer com a deficiência auditiva ainda se recorda com precisão de muitos fatos dos anos 1940.

“Seu Zé”, de 95 anos, como é mais conhecido, é um desses pioneiros que não fizeram fortuna e com o passar das décadas foram relegados ao anonimato, mesmo tendo contribuído para o desenvolvimento da região. O aposentado fala do passado sem ocultar um misto sentimento de alegria, tristeza e saudade. Hoje em dia, com o corpo e a voz cansada, sai pouco de casa, combalido por problemas de saúde.

Ainda assim, não se abstém de sorrir e gargalhar quando se recorda da mocidade e da família grande que hoje se resume a três pessoas. Por força do hábito, e da empolgação pela visita, não consegue se comunicar sem gesticular e faz o possível para detalhar com preciosismo cada um dos momentos que considera os mais históricos dos 68 anos vividos em Paranavaí.

Em 1944, ao chegar à Fazenda Brasileira, José Francisco de Oliveira desembarcou na pensão de Durvalino Moreira. Logo o pioneiro se tornou um dos responsáveis pela abertura da estrada que ligaria Paranavaí a Nova Esperança. ”Aqui era só capoeira e quiçaça. Quando chegamos à Capelinha [Nova Esperança], não tinha água e tivemos de abrir um poço com 90 metros de profundidade. Daí não quiseram fazer a cidade num ponto mais arriba e seguiram pra baixo”, conta. Além de ser encarregado de alguns peões, Seu Zé desmatava e carpia. Tinha de percorrer muitos quilômetros para fazer bueiros e pontes com lascas de coqueiro.

“Mas acontecia de não pagarem a gente por má vontade mesmo”

Por volta de 1945, Oliveira ajudou a ampliar uma estrada até Peabiru, na região de Campo Mourão. No mesmo ano, o chefe dos peões, José Augusto Machado, o encarregou de criar novas vias na Barra do Surucuá. “Abri até a fazenda do falecido Estevão. Em 1946, fui até Assaí [no Norte Pioneiro Paranaense] buscar minha mãe e meus irmãos”, relata. Na mesma década, viajou a Salamanca, a 32 quilômetros de Guaíra, no Oeste Paranaense, para trabalhar em novas áreas de desmatamento e construção de residências.

O pioneiro que nunca ficou mais de seis meses longe de Paranavaí também atuou na criação da estrada até Mirador. Seu Zé trabalhou muito, mas nem sempre recebeu pelo serviço. “Certa vez, o responsável pelas obras morreu numa terça-feira, daí falaram pra gente que o irmão dele poderia acertar a situação. Por azar, o outro morreu na sexta-feira e não recebemos de ninguém. Mas acontecia de não pagarem a gente por má vontade mesmo”, conta, acrescentando que o chefe dos peões na região de Paranavaí era amigo do interventor federal Manoel Ribas.

Nos anos 1940, era comum o assassinato de ladrões de madeira. Muitos eram mortos às margens do Rio Paraná. “A situação era feia até em Piracema. No distrito, tinha uma pensão onde as discussões sempre acabavam em morte. A vítima era enterrada logo atrás do estabelecimento”, lembra Oliveira. Outro fato que é mencionado com clareza pelo Seu Zé diz respeito a um pioneiro que se envolveu com uma mulher casada e foi assassinado pelo marido traído. No dia do julgamento do homem, um grupo de policiais fazia a escolta em frente ao fórum quando apareceu um rapaz atirando contra o suspeito. “Naquele tempo, você matava na frente da polícia e de testemunhas e ainda escapava da condenação”, comenta.

O pioneiro que encomendou a morte do homem traído era irmão do amante. Conhecido em toda a região como um violento grileiro de terras, o contratante ordenou o assassinato de outras dezenas de pessoas, entre fazendeiros e colonos. Ao longo dos anos, o homem que mais tarde recebeu até homenagens em Paranavaí fez tantas inimizades que certo dia pagaram para que o piloto responsável por levá-lo de avião até Londrina, no Norte Central Paranaense, saltasse de paraquedas, deixando o grileiro diante da morte. “Só sei que o sujeito morreu”, ressalta Seu Zé.

José Francisco de Oliveira presenciou a chegada de 300 bois trazidos a Paranavaí através do Porto São José, onde a travessia já era feita de balsa. À época, grande parte da carne bovina da localidade vinha do Mato Grosso ou São Paulo. O episódio se tornou inesquecível porque o fazendeiro que encomendou a boiada fez um acordo de pagar pelos animais ao final do percurso. Porém, em vez de entregar o dinheiro, o comprador disparou vários tiros contra o vendedor e em seguida desovou o cadáver nas águas do Rio Paraná. “Era uma família rica. A viúva pagou investigadores para procurar pelo marido, mas nunca mais viu nem o corpo do homem”, revela.

“Do nada, os bichinhos começaram a fazer ‘tiu, tiu, tiu’, ‘prim, prim, prim’, ‘tiziu, tiziu, tiziu’”

87 anos de amor aos animais

O pioneiro José Francisco de Oliveira, o Seu Zé, sobrevive com um salário mínimo por mês e, mesmo sem condições de ter uma vida mais digna, se preocupa em cuidar dos animais que circulam pela sua pequena residência. Gasta cerca de sete pacotes de quirela por mês alimentando centenas de pássaros. “Tem dia aqui que chego a contar 200 rolinhas de uma vez. Fica tudo preto. Eu não mato um passarinho de jeito nenhum, nem que eu morra de fome. Não aceito que um bicho morra para que eu possa me alimentar. Teria vergonha de matar um animal pra comer”, conta.

O pioneiro começou valorizar a liberdade dos animais em 1925, aos oito anos, quando morava em uma roça nas imediações do Rio Capivari, no interior de São Paulo. “Eu estava andando por aquelas bandas carregando quatro gaiolas cheias de passarinhos, daí, do nada, os bichinhos começaram a fazer ‘tiu, tiu, tiu’, ‘prim, prim, prim’, ‘tiziu, tiziu, tiziu’ e eu parei, fiquei olhando e escutando. Carreguei eles mais um pouco e quando cheguei em casa, abri cada uma das gaiolas e soltei todos. Nunca mais prendi nenhum passarinho. Se eu tivesse dinheiro, comprava tudo pra soltar”,  garante Seu Zé.

Impressões sobre o entrevistado

Seu Zé se emociona o tempo todo no decorrer da entrevista. Demonstra gratidão por ser lembrado pelos muitos anos dedicados à abertura de centenas de quilômetros de estradas. Faz brincadeiras durante a conversa, age com uma inquietude jovial e lamenta pela deficiência auditiva, não por tê-la, mas, segundo o pioneiro, pelo fato dos outros terem que lhe repetir a mesma pergunta tantas vezes.

José Francisco de Oliveira tem um estilo de vida simples, sem apego material, passa horas do dia em introspecção, envolvido em uma forma bastante pessoal de espiritualidade. Admite que diariamente divaga até um passado que lhe conforta a existência. Seu Zé confidencia sentir muita falta da mulher e da filha que faleceram, mas não tem arrependimentos nem medo de morrer.

Frases de Seu Zé

“Nessa claridade, já tô olhando os 96 anos.”

“Sei que ninguém é melhor que ninguém porque no fundo somos todos uma mesma pessoa.”

Curiosidade

José Francisco de Oliveira nasceu em 7 de agosto de 1917.

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O sacrifício do casamento

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Moradores de Paranavaí tinham de se casar em Mandaguari

Geraldo Bruno e Guilhermina Baptista foram a Mandaguari a pé para formalizar a relação (Foto: Akmitsu Yokoyama)

Geraldo Bruno e Guilhermina Baptista foram a Mandaguari a pé para formalizar a relação (Foto: Akmitsu Yokoyama)

Geraldo Bruno e Guilhermina Baptista viviam na zona rural de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, e decidiram se casar em 1951, após dois anos de namoro. O maior obstáculo na época era que não havia cartório de registro civil, obrigando-os a ir até Mandaguari. Apesar da distância de cem quilômetros, o casal aceitou o desafio para formalizar a relação. Saíram de mãos dadas numa madrugada de outono, antes do galo cantar, com a intenção de chegar a Mandaguari no mesmo dia. “Fomos a pé e não deu tempo de achar o cartório aberto, então dormimos numa pensão, em quartos separados, e nos casamos no dia seguinte pela manhã”, relata a pioneira Guilhermina Baptista, acrescentando que hoje quando conta aos netos pensam que é invencionice.

Geraldo e Guilhermina levaram as roupas e os sapatos do casamento dentro de uma bolsa de estopa, pois sabiam que chegariam sujos em Mandaguari. “O caminho foi bem tortuoso, mas a vontade de casar era tanta que parecia que não existia mais nada além de nós dois na estrada”, comenta Guilhermina em tom de nostalgia, esboçando um largo sorriso. Geraldo Bruno, com um olhar disperso no tempo, lembrou que viajaram de galocha porque tinha chovido dias antes e o lamaçal pelo caminho podia deixá-los descalços se percorressem todo o trajeto com calçados comuns. “Atenção era tudo porque dependendo de onde a gente pisava a lama afundava”, frisa Bruno.

A viagem foi longa e os dois não conseguiram chegar limpos a Mandaguari, mas pelo menos viajaram com roupas escuras para evitar que a sujeira ficasse mais evidente. “Quando passava algum caminhão ou jipe por perto, a gente tinha que cortar pela mata. A paisagem fazia valer a pena. Era bonita demais e tinha muitos bichos pela floresta, fora o verde que forrava o chão pra gente pisar em cima, o que deu mais segurança”, diz Guilhermina.

Cerimônia religiosa foi realizada na Capela São Sebastião (Acervo: Fundação Cultural)

O casamento no cartório de Mandaguari foi testemunhado por desconhecidos, pois naquele tempo a viagem não compensava para quem iria apenas assinar o testemunho da oficialização. Além disso, poucos tinham automóvel. Por isso, alguns casais tinham de ir a Mandaguari a pé para se casar.

Em Paranavaí, os familiares já estavam preparando a cerimônia na igreja e também a festa de casamento. “Deixamos tudo acertado. Mesmo assim a viagem demorou mais do que a gente imaginou. Levamos dois dias pra ir a Mandaguari casar e depois voltar pra Paranavaí. Na volta, a gente ficou mais feliz porque tinha dado tudo certo”, afirma Geraldo Bruno. A viagem foi muito cansativa, mas, entre sorrisos e olhares, o casal declara que seria capaz de fazer tudo de novo se ainda fossem jovens. Guilhermina confidenciou que antes do matrimônio o relacionamento se limitou a abraços não muito íntimos e carícias na mão.

“Era tudo muito diferente de hoje, havia uma relação muito forte de respeito e cumplicidade. Era bem mais gostoso porque muitas moças só se envolviam quando sabiam quais eram as intenções do rapaz. A gente também tinha certas curiosidades, mas valia a espera”, enfatiza. Quando não eram casados, de acordo com Geraldo Bruno, só saíam de casa com a autorização dos pais de Guilhermina. “Só dava pra namorar nos finais de semana e ainda assim tinha um limite, por volta das 21h, no máximo, eu tinha que levá-la pra casa. Se passasse um minuto além da conta era punido. Ficava uma semana sem ver a Guilhermina”, explica. Geraldo e Guilhermina Bruno têm mais de 80 anos e estão juntos há mais de 60.

Curiosidade

Em 1951, Paranavaí ainda era Distrito de Mandaguari. O título de município só foi assegurado em dezembro de 1952.

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Comerciante se livrou da morte em São Paulo

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Severino Colombelli foi um dos primeiros comerciantes de Paranavaí

Prédio comercial dos Colombelli nos anos 1940 (Foto: Reprodução)

Na década de 1940, o pioneiro e comerciante Severino Colombelli costumava viajar até São Paulo para buscar produtos que comercializava em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Certa vez, se livrou da morte ao perder o voo de retorno.

Para o gaúcho Severino Colombelli viajar fazia parte da profissão de comerciante numa época em que as mercadorias não eram entregues nas lojas. Por isso, era costume deixar a sua companheira, Inez Colombelli, cuidando da casa comercial em Paranavaí durante as frequentes viagens a São Paulo.

Em entrevista à Prefeitura de Paranavaí há algumas décadas, Inez relatou que Colombelli embarcava no antigo Aeroporto Edu Chaves, localizado onde é hoje o Colégio Estadual de Paranavaí (CEP). “Como o Severino viajava muito, eu ficava sozinha com o nosso filho, mas na loja sempre havia algum funcionário pra me ajudar”, afirmou Inez Colombelli, acrescentando que quando conheceu o gaúcho, ele já buscava produtos em São Paulo.

Mesmo acostumada com as viagens de Severino, Inez não conseguia evitar a preocupação e apreensão. Nunca se esqueceu da vez em que o marido demorou nas compras e quando chegou ao aeroporto era tarde demais. “Não deu tempo de embarcar e soubemos que o avião que ele perdeu caiu e morreu quase todo mundo. Só uma criança sobreviveu”, revelou a comerciante.

A Família Colombelli se mudou para Paranavaí em 1946, mas antes Severino veio sozinho conhecer a região. Deixou São Sebastião do Caí, na região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e chegou aqui no dia 11 de junho. “A cidade já estava toda traçada. Tinha a casa de comércio do Faber, Otacílio Egger, Pupulin, Marsal, Tirapeli, Thomaz Estrada e Vicente Pernambuco”, relatou o gaúcho, acrescentando que a área comercial se limitava à Rua Getúlio Vargas, em frente ao atual Hotel Elite.

Pioneiro embarcou para São Paulo no antigo aeroporto (Foto: Reprodução)

A ideia de fixar residência em Paranavaí surgiu por acaso, pois Colombelli tinha intenção de se mudar para o interior de São Paulo, onde lhe diziam que havia boas terras para a criação de gado. Entretanto, durante uma viagem de trem, o comerciante conheceu um homem que lhe falou que não havia terra melhor para a pecuária que a de Paranavaí.

A primeira impressão que o gaúcho teve da colônia foi muito ruim, se sentiu como se estivesse no cenário de um filme de faroeste. “Vim para montar comércio e encontrei tudo parado. Tinha umas sete casinhas cobertas com telhas e o resto era tudo rancho, cerca de 500. Logo depois fiz amizades com Thomaz Estrada, Dr. José Francisco, Doca, Renan e Celeste”, contou. Entre os pioneiros que já viviam há um bom tempo na colônia, embora distantes do perímetro urbano, estavam João de Moraes, Jota, Biomiro, Família Palmiano e Pereira Diniz, Zé Pretinho, Emílio Dias e Henrique Palma.

Casa comercial ficava aberta até a noite

Houve um período tão crítico para o comércio local no final dos anos 1940 que Severino Colombelli pensou em ir embora. “Todos que vão para o sertão tem vontade de vencer na vida. No fim, eu quis voltar, mas ninguém queria comprar o que eu tinha”, admitiu o pioneiro. Já na década de 1950, o progresso de Paranavaí foi retomado. De acordo com Inez, a casa comercial dos Colombelli chegou a ter 11 funcionários.

“Vendíamos muito e a maioria dos fregueses trabalhavam na derrubada de mata. Me recordo do baiano, um freguês muito bom. Ele fazia uma lista de pedido, pagava e não pechinchava”, exemplificou. O fluxo de clientes era tão grande que a loja não tinha hora para fechar. Às vezes, o atendimento passava das 20h porque alguns fregueses faziam compras logo após a procissão.

Não eram raros os dias em que os Colombelli tinham de abrir a loja de madrugada para vender cobertores, pregos e outros produtos úteis àqueles que iam para a mata. “O pioneiro Garbin Neves aparecia aqui de madrugada atrás de cobertor. Muita gente vinha fazer compras à noite. Paranavaí foi muito boa pra nós”, ressaltou Inez Colombelli.

Sem velar a nostalgia, a comerciante se emocionou em lembrar o período em que não era preciso se preocupar com segurança. “O alfaiate Gentini ia fazer refeição na casa do Herculano e deixava toda a alfaiataria aberta. Ninguém se preocupava em fechar as casas porque todo mundo era de confiança”, salientou. A violência começou a ganhar mais destaque entre os anos de 1950 e 1953, quando houve muitos conflitos que terminaram em assassinatos. “Uma vez no Hotel Real mataram três de uma vez”, enfatizou Severino Colombelli.

Saiba Mais

Conforme palavras do pioneiro Severino Colombelli, as autoridades em Paranavaí eram o Sargento Marcelino, o administrador Hugo Doubek e o Capitão Telmo Ribeiro.

Curiosidade

Severino Colombelli nasceu em 4 de setembro de 1915 em São Sebastião do Caí, Região Metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Malária matou centenas de pessoas em Paranavaí

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Doença dizimou uma parcela da população nos anos 1940

Proximidade com a mata tornou a população de Paranavaí um alvo fácil (Foto: Francisca Schueroff)

Durante a colonização, a malária foi a doença que mais atingiu a população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. À época, centenas de pessoas morreram, principalmente crianças.

Nos anos 1940, a Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, se situava no meio da selva, realidade que logo contribuiu para a proliferação da malária entre os moradores do povoado. A enfermidade foi a que mais afetou a população, segundo o pioneiro catarinense Carlos Faber. “A maleita era a doença mais comum na região. O pessoal tinha que buscar remédio lá na Inspetoria de Terras”, relatou Faber em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás.

Todo mundo sofria com a doença, mas os adultos tinham mais resistência. “Tive uma maleita de rachar o cano. Ainda assim, sobrevivi. Já o meu filho, com a falta de recursos, não conseguiu. Aqui não tinha quase remédios. A gente tinha que buscar em outras cidades”, revelou o paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho.

Era muito fácil contrair malária naquele tempo. Bastava passar o dia na mata que já corria o risco de ser picado pelo mosquito anofelino, transmissor da doença. Os alvos mais fáceis eram os peões que trabalhavam no desmatamento da região. No entanto, é importante frisar que muita gente também contraiu a doença dentro de casa, pois as condições de higiene eram precárias.

Maleita atingiu principalmente os peões que trabalhavam na derrubada de árvores (Foto: Francisca Schueroff)

“O meu sofrimento aqui foi muito grande. Peguei maleita quando tinha 75 quilos. Com a gravidade da doença, cheguei a pesar 40. Juntar a minha pele era como juntar a minha roupa. Estive pra apagar”, contou o pioneiro João Silva Franco que tinha cerca de 40 anos e teve de suportar 43 graus de febre, calafrios, tremedeiras, dores de cabeça, vômitos e hiperidrose (sudorese excessiva).

Certa noite, depois de contrair malária, João Franco chegou em casa a cavalo acompanhado do amigo Salatiel Loureiro, conhecido como Mário. “Estava ventando muito e quando cheguei ao rancho me deitei e depois não consegui levantar”, lembrou.

No amanhecer do dia seguinte, o pioneiro paulista não se lembrou de nada. “Me tiraram de casa e eu nem sei como foi. Acordei mais ou menos umas 11h e só depois me dei conta que estava na cama do farmacêutico João Machado”, enfatizou. A cura da doença, o pioneiro atribui ao farmacêutico e a sua própria natureza. “Sobrevivi porque nasci em terra de mata”, justificou. Machado é considerado um dos primeiros médicos de Paranavaí. Atendeu Palhacinho inúmeras vezes e também salvou muitas vidas.

Estima-se que centenas de moradores de Paranavaí foram vítimas fatais da malária na década de 1940. “Quando isso aconteceu, todos tiveram vontade de ir embora porque não havia condições de se viver aqui”, comentou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

Frases dos pioneiros sobre a doença

José Ferreira de Araújo (Palhacinho)

“Eu peguei essa maleita do Rio Ivaí.”

Palmira Gonçalves Egger

“Os remédios a gente quem preparava. Tinha que correr para não morrer.”

“Tinha um padre que também socorria as pessoas com seu carro.”

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O medo da onça!

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Paranavaí surgiu em meio ao habitat das onças

Onças abatidas por caçadores de Graciosa (Acervo: Casa da Cultura)

Nas décadas de 1930 e 1940, era comum os moradores da Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se depararem com cobras, antas, jaguatiricas, catetos, queixadas, macacos e veados-campeiros por causa da proximidade da área urbana com a mata. Mas nenhum desses animais assustou tanto a população quanto as onças-pintadas e pardas que viviam na região.

“Tinham que tocar elas para continuarem o trajeto”

Paranavaí surgiu em meio ao habitat de uma população de onças. A justificativa está em um fato corriqueiro percebido no início dos anos 1940, quando muitos migrantes que vinham para cá viveram a mesma experiência. Durante a viagem para cá, motoristas de ônibus e caminhões eram obrigados a parar os veículos porque as onças não davam passagem.

“As pessoas [até mesmo os passageiros] tinham que dar um jeito de tocar elas para continuarem o trajeto. A gente via também anta e cascavel na estrada”, relatou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho.

Tamanduá-Bandeira caçado nos anos 1950 (Foto: Francisca Schueroff)

Nem todos queriam afastar as onças. Alguns pioneiros que se arriscavam como caçadores, mesmo inexperientes, tentavam conquistar prestígio adentrando a mata para abater os animais. Contava-se muito com a sorte, algo que nem sempre os acompanhava. Quem aprendeu isso na prática foi um caçador amador do Povoado de Guaritá (atual Nova Aliança do Ivaí), antiga Derrubada Grande, vitimado por duas onças nos anos 1940.

“Tiraram carne de algumas partes para colocar em outras”

O rapaz estava caçando em companhia de alguns cães quando viu três onças empoleiradas em uma árvore. Não pensou duas vezes e atirou em uma. Ao ser atingido, o animal caiu e foi atacado pelos cães. “As outras duas onças pularam em cima do homem e começaram a rasgar as suas costas e nádegas. Quando os cachorros chegavam perto, aí que elas mordiam. Nisso, o rapaz já tinha jogado a espingarda e ficou lá deitado, então as onças correram pro mato”, frisou Palhacinho.

Quem socorreu a vítima foi o pioneiro Lourencinho Barbosa que o trouxe de carroça até Paranavaí. “Tiveram de tirar carne de algumas partes para colocar em outras. Ele passou por uma cirurgia em Curitiba e voltou aqui depois de três meses, todo deformado”, lembrou José Ferreira. O pioneiro mineiro Enéias Tirapeli jamais esqueceu o dia em que um homem chegou a Paranavaí com uma onça morta, deitada sobre o cavalo. “Até os animais se espantaram. O bicho tinha doze palmos de comprimento”, assegurou.

 

José Belentani- apelido era Balantam

Cães de caça usados na época da colonização (Foto: Francisca Schueroff)

Na época, vivia aqui José Belentani, conhecido como Balantam, que se tornou um dos maiores caçadores do Paraná depois que abriram a estrada para o Distrito de Piracema. Beletam matava até duas onças por dia. “Não esqueço quando ele chegou aqui com a onça debruçada no arreio do cavalo. Era tão grande que o focinho alcançava o chão”, contou o pioneiro cearense Raimundo Leite, acrescentando que Arlindo Baiano era outro grande caçador local.

“A onça arrancou cinco quilos de carne com uma mordida na nuca”

Se por um lado, alguns conseguiam prestígio e fama matando onças, por outro, a maioria preferia nunca encontrar o animal. Exemplo disso foi o pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros quando certa noite, retornando de viagem, parou em um rancho para descansar.

“As portas estavam fechadas e quando abriram perguntei do que eles estavam com medo. Aí me mostraram uma enorme porca de quem a onça arrancou cinco quilos de carne só com uma mordida na nuca”, enfatizou Tereziano de Barros que sentiu cheiro de onça durante todo o trajeto de volta a Paranavaí. Naquele tempo, o receio de encontrar o animal fazia muita gente pensar duas vezes antes de adentrar a mata ou sair de casa à noite.

Nos anos 1930 e 1940, foram registrados muitos casos de animais de criação mortos pela felina. “Uma vez o irmão do Pedro Palmiano foi ver a porcada dele e a onça estava comendo um porco. Ele ficou com tanta raiva que atravessou o animal com uma foice e um facão”, assinalou Paulo Tereziano. Também houve casos de mulheres que foram atacadas enquanto tomavam banho e lavavam roupas às margens do rio.

De acordo com o pioneiro catarinense Carlos Faber, os mais desatentos eram facilmente surpreendidos pelas onças. “Teve o caso de um rapaz que foi atacado por duas. Sorte dele que os companheiros vinham logo atrás e mataram os bichos”, ressaltou. O pioneiro paulista Valdomiro Carvalho perdeu as contas de quantas vezes ouviu barulho de onças na mata. “Eu usava uma carrocinha com dois cavalos e sempre carregava um encerado. Ouvia os bichos de noite quando eu pousava em algum lugar”, salientou Carvalho.

“Você já viu homem pegar onça assim?”

Nos anos 1940, o pioneiro José Ferreira de Araújo foi visitar o primo em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo. Em viagem a cavalo, passando por Santo Inácio e Guaraci, no Norte Central Paranaense, Araújo trouxe alguns cães de caça. O pioneiro seguiu pela Estrada Boiadeira, nas imediações de Santa Fé e Arapongas. “Era muito suja a Boiadeira, muito fechada. Tanto que eu tive que enrolar uns panos na cabeça porque tinha muitas abelhas e teias de aranha. Os cachorros até se enrolavam nos cipós. Na volta, a gente foi parar no Distrito de Sumaré”, disse.

A viagem que já era muito difícil ficava pior ainda quando escurecia e Palhacinho parava em algum lugar para dormir. O medo de onça era tão grande que o pioneiro colocava os animais de um lado e deitava “beirando o fogo”. Outro episódio jamais esquecido aconteceu quando ele e o companheiro Ulisses perseguiram uma onça ao final de uma corredeira no Rio Ivaí. “A água estava muito forte e ela nadava rio abaixo. O Ulisses me falou para correr e pular no bote. Liguei o motor e fomos atrás dela. Quando chegamos perto que vimos que era uma onça grande”, explicou.

Ulisses pediu que José Ferreira se aproximasse mais do animal para que pudessem pegá-la viva. “Aí eu falei: pegar nada! Você tá louco? Você já viu homem pegar onça assim?”, relembrou. Os dois continuaram seguindo o animal até que ele saiu do outro lado do Rio Ivaí. “O Ulisses passou a mão na espingarda e atirou, mas errou e ela sumiu”, revelou Palhacinho.

Saiba Mais

Na década de 1950, onças ainda invadiam propriedades rurais de Paranavaí.

Naquele tempo, não havia preocupação quanto à preservação de muitas espécies de animais.

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1945: Epidemia de leishmaniose ataca Paranavaí

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Surto de úlcera de Bauru matou dezenas de moradores

Doubek: “Atendíamos até cinquenta pessoas por dia” (Foto: Revista Saúde Pública)

Em 1945, muitos não escaparam da epidemia de leishmaniose tegumentar americana (LTA), conhecida como úlcera de Bauru, que atacou Paranavaí, no Noroeste Paranaense. A doença vitimou dezenas de pessoas em um período de grande carência médica.

Naquele ano, os moradores de Paranavaí ocupavam não mais que 40 casas, todas feitas de tábuas, e a única coberta por telhas era a residência usada como sede administrativa. Paranavaí ainda era sertão, tanto que animais campestres como veados-campeiros eram vistos todos os dias, até mesmo em frente as portas das casas. “Aqui era um lugar lindo porque era tudo mata. Não existia nada, mas tinha muito mosquito”, comentou o pioneiro paulista Salatiel Loureiro em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás.

Em meio as belezas de um tempo em que o homem interagia diariamente com a natureza, surgiu na colônia um surto de leishmaniose tegumentar americana (LTA). Segundo o pioneiro Hugo Doubek, em entrevista à prefeitura há algumas décadas, a epidemia de úlcera de Bauru se alastrou muito rápido. Como não havia médicos e nem enfermeiros em Paranavaí, Doubek se viu obrigado a lidar com os enfermos. “Tive até que adquirir prática em aplicar injeções na veia. Felizmente, foi enviado um enfermeiro, Eurico Hummig, que exercia a função de guarda sanitário em Curitiba”, lembrou o pioneiro que foi administrador da colônia.

Na década de 1940, a leishmaniose foi classificada pelo Governo Federal como doença da margem de mata. A proximidade de Paranavaí das áreas florestais facilitou a disseminação da doença que tem como transmissor o mosquito-palha. “Que luta tivemos! Atendíamos até cinquenta pessoas por dia. Na época, o médico José Pedro Vicentini tinha pedido exoneração e foi substituído por Aguilar Arantes. Devo dizer que ele fez milagres”, frisou Hugo Doubek, acrescentando que o médico não descansou enquanto não encontrou o medicamento certo para curar os doentes.

A situação era tão alarmante que até mesmo o governador Manoel Ribas veio a Paranavaí buscar os enfermos para levá-los a Curitiba. Dentre os doentes estava o pioneiro paulista João da Silva Franco que se recusou a ir para a capital receber tratamento médico. “Me tratei aqui mesmo porque não podia deixar minha mulher e minha filha sozinhas. O problema é que quem não queria ir para Curitiba era expulso de Paranavaí. Ameaçaram fazer isso comigo”, relatou. Tal atitude refletiu o medo e a desinformação da população, pois LTA é uma doença infecciosa que não é contagiosa, de acordo com o Ministério da Saúde.

João Franco: “A gente lavava as feridas com água de peroba e de guaiçara” (Foto: Revista Saúde Pública)

Doença deformou moradores

Quando adoeceu, João Franco contou pelo menos 18 feridas grandes pelo corpo. Segundo o pioneiro, só não apareceram úlceras no rosto. “Tinha na barriga, nas costas, nas pernas e nos braços. Por muita fé em Deus, me sarei. Resisti por natureza forte”, explicou.

Nem todo mundo teve a sorte do pioneiro paulista. Mais de 90 portadores de leishmaniose, entre adultos e crianças, foram levados de caminhão para Curitiba. “Daqueles que foram pra lá, alguns voltaram vivos, mas outros morreram”, enfatizou João Franco.

Em pouco tempo, foram registradas dezenas de mortes em decorrência da úlcera de Bauru que não só causava lesões cutâneas como deformava o rosto, impedindo o enfermo de se alimentar ou desempenhar qualquer outra atividade. “Muitas pessoas, até crianças, ficaram com os narizes e orelhas deformados. O que a gente mais fazia era lavar as feridas com água de peroba e de guaiçara. A situação era difícil porque Paranavaí era uma ilha isolada na mata virgem”, disse Franco.

O pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, declarou que a assistência médica era precária. “O Estado tinha mania de mandar uns médicos incompetentes pra cá. Alguns vinham porque queriam pegar uma beira lá”, reclamou. João da Silva Franco faz coro às palavras de Araújo. “Vivemos no mato por mais de 20 anos. Era muito difícil porque não havia tratamento de espécie alguma”, desabafou.

O dia em que a água acabou

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Em 1957, Joaquim Pereira Briso abasteceu Terra Rica com água de um poço particular

Moradores exibem como troféu a água trazida do centro de Terra Rica (Crédito: Reprodução)

Moradores exibem como troféu a água trazida do centro de Terra Rica (Foto: Reprodução)

Em 1956, durante a colonização, a população de Terra Rica, no Noroeste do Paraná, enfrentou muitas dificuldades envolvendo saneamento básico. Mas o diferencial veio no ano seguinte, quando uma eventualidade fez um serrador se tornar o principal fornecedor de água da cidade.

De acordo com o pioneiro Antônio Carlos Lage, ex-vice-prefeito e ex vereador, a população de Terra Rica enfrentou problemas com o abastecimento de água de janeiro de 1957 a 1970. À época, o município ainda não tinha sistema de saneamento. “A gente tinha que buscar água em um caminhão pipa que ficava parado no centro”, conta Lage.

Segundo o pesquisador Edson Paulo Calírio, a situação era tão complicada que muitos moradores perdiam horas do dia carregando grandes baldes até a região central, onde os enchiam com água e, mesmo muito pesados, percorriam quilômetros até chegar em casa. Naquele tempo, o déficit era tão grande que as famílias se reuniam para decidir se a água seria usada para lavar roupa ou louça.

Centro da cidade na época da chegada de Joaquim Briso (Crédito: Reprodução)

Centro da cidade na época da chegada de Joaquim Briso (Foto: Reprodução)

Tudo ficou mais difícil em 1957, quando, certo dia, os moradores foram até o centro da cidade e não encontraram água. O problema se tornou calamidade ao saberem que, por uma eventualidade, ficariam sem o caminhão pipa por tempo indeterminado. O veículo era o único meio para transportar a água do rio até o cidade. “Terra Rica foi fundada por pessoas pobres e humildes. Então naquele tempo era difícil encontrar alguém com condições financeiras para fazer um poço”, relata o pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso.

Naquele ano, Briso era o único morador de Terra Rica que tinha um poço. Segundo ele, não como um artifício de luxo, mas de necessidade, pois constantemente precisava de água no trabalho. “Eu tinha uma serraria, e o poço foi feito ali mesmo pra abastecer a minha máquina a vapor. Mas quando soube do problema, resolvi ajudar. No mesmo dia, o pessoal foi lá buscar água. Alguns iam a pé, outros iam de carroça”, lembra Joaquim Briso emocionado.

O pioneiro passou dias sem dormir ajudando a população a tirar água do poço que tinha pouco mais de 50 metros de profundidade. Segundo Antônio Lage, era uma época de muita solidariedade. “As pessoas naturalmente tinham muito calor humano para dar”, salienta o ex-vice-prefeito em tom calmo e reflexivo.

No início da década de 1960, as primeiras torneiras foram instaladas no centro de Terra Rica. Porém, Edson Calírio reitera que a água ainda era limitada. “Agora a gente vê a recompensa. Não dependemos diretamente do governo estadual. Temos uma autarquia municipal que oferece água e rede de esgoto para toda a população. Além disso, a nossa água atualmente é a mais barata do Paraná”, assegura o pesquisador.

“Viajava porque era obrigado”

O pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso chegou a Terra Rica em 1956, já com a intenção de construir uma serraria. “Dava para contar nos dedos das mãos quantas casas tinha aqui”, afirma Briso que descobriu a cidade por acaso.

Durante uma viagem, deixando a cidade natal de Paraguaçu Paulista, em São Paulo, Joaquim Briso atravessou a fronteira com o Paraná e chegou ao Porto São José. Viajou motivado pela curiosidade. “Tinha só um boteco montado aqui. O resto, era só mata, daqui até Nova Londrina”, explica.

Surpreso pela quantidade exorbitante de terras devolutas, o pioneiro não pensou duas vezes e decidiu começar uma nova vida no Paraná.  Retornou a Paraguaçu Paulista para avisar os familiares e se mudou para Terra Rica.

A motivação foi determinante para aguentar uma nova viagem de 14 horas dentro de um jipe. “Não existia nem estrada, só carreador. Então viajar naquele tempo era visto como coisa de aventureiro”, conta o pioneiro. Joaquim Luiz tinha pouco ou nenhum prazer durante as viagens, já que toda vez corria o risco do veículo atolar. Segundo o pioneiro, era muito comum encontrar caminhões e carros abandonados pelo caminho.

“Viajava porque era obrigado. Tinha negócios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então pegar a estrada era uma luta. Saía daqui hoje para chegar a uma cidade próxima amanhã. Quando viajava, demorava uns dias pra voltar, cansava demais”, revela.

À época, os moradores de Terra Rica mantinham mais contato com Estados da região Sudeste do que do Sul. “Nossa ligação era com o Estado de São Paulo”, complementa Briso em referência aos primeiros pioneiros que eram paulistas.

Viagem a Paranavaí durava cinco horas

Até o final da década de 1950, uma viagem de Terra Rica a Paranavaí durava em média cinco horas. O pioneiro Antônio Carlos Lage é testemunha disso. Ele e o também pioneiro Joaquim Luiz Pereira Briso tinham negócios com o Banco Comercial, então quando precisavam vir a Paranavaí, iam até um boteco em frente a Estação Rodoviária de Terra Rica e convidavam mais pessoas para viajarem de graça.

Antônio Lage buscava pessoas em frente a Estação Rodoviária (Crédito: Reprodução)

Antônio Lage buscava pessoas em frente a Estação Rodoviária (Foto: Reprodução)

Mas a cortesia de vez em quando tinha um preço. Quando o jipe atolava, todo mundo tinha de descer e ajudar. “Eram 60 quilômetros. Hoje, um trajeto curtíssimo. Naquele tempo, por causa da precariedade da estrada, parecia que estávamos no fim do mundo”, avalia Lage que, acompanhando Joaquim Briso, chegou a Terra Rica em 1956.

Briso se recorda com clareza de outra desventura muito comum na década de 1950: o atraso na entrega de correspondências. Certa vez, a mãe de Joaquim Briso adoeceu e, como não havia serviço telefônico na região, a mulher do então serrador enviou um telegrama para informá-lo do acontecido.

A correspondência despachada de Paraguaçu Paulista, São Paulo, chegou em Terra Rica depois de 20 dias. “Fiquei aqui seis dias e depois decidi viajar para a minha terra. Quando cheguei lá, vi minha mãe doente. Fiquei uns dias lá e retornei. Passaram-se mais uns dias antes do telegrama chegar”, assinala Joaquim Luiz.

Frases de destaque – Antônio Carlos Lage

“Tudo faz parte do começo de uma cidade, mas ela não se faz logo com tudo, surge aos poucos.”

“Terra Rica é uma cidade onde um dava a mão ao outro, até por questão de necessidade.”

Saiba mais

Em 1965, Terra Rica chegou ao ápice da produção cafeeira: 400 mil sacas de café beneficiado.

A colonização de Terra Rica foi feita por pioneiros paulistas que vieram ao Paraná com a intenção de produzir café.

As derrubadas de mata começaram em 1949 e se intensificaram de 1950 a 1952.

A colonização de Terra Rica foi feita pela Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná (Sinop).