David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Sim, o plano ainda é o mesmo”

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“Claro que sim. Nada mudou”

Em uma longa fila, enquanto eu aguardava pacientemente e observava a movimentação, um camarada me ligou.

Eu — Sim, o plano ainda é o mesmo. Não precisa se preocupar.

Eu — Claro que sim. Nada mudou.

Eu — Ele confirmou que vai fazer a instalação.

Eu — Pode confiar. O material realmente é de boa qualidade.

Eu — Melhor, impossível. Com ele, não tem erro.

Eu — Acho que teremos uma explosão daquelas, de felicidade.

Eu — Sim, está tudo acertado. Vai ser uma surpresa tremenda. Só tem que tomar cuidado pra ninguém perceber nada antes.

Eu — Não, creio que não. Ele disse que o trabalho de instalação é garantido. Sim, não precisa ativar nada, vai vir tudo pronto.

Eu — Arriscado? Não, de modo algum.

Conforme a conversa fluía, notei algumas pessoas me assistindo. Mas simplesmente ignorei. Uma senhora com olhar assustado, e que estava logo atrás de mim, apontou o dedo em direção à minha barba, e saiu da fila a passos ligeiros. Não entendi o motivo e continuei a conversa.

Eu — Você avisou?

Eu — Eles vão correr onde depois?

Eu — Eles já tinham me avisado.

Mais duas pessoas saíram da fila.

Eu — Sim, ele não quer que o grupo leve crédito por nada. Já pediu anonimato.

Eu — Claro que não. Não tem a menor chance. Vai acontecer como planejado.
Mais uma pessoa se afastou.

Antes de desligar o celular, Roberto comentou:

— Uma pena que eles não poderão participar por causa do treino, mas espero que o braço mecânico funcione e que o Seu Zé goste, porque deu tanto trabalho pra conseguir um.

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Written by David Arioch

June 8th, 2017 at 1:45 am

“Não, filho. Não pegue coisas do chão”

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Na feira, enquanto eu selecionava salsinha…

Na feira, enquanto eu selecionava salsinha, sem que eu o tocasse, um maço caiu da banca. Quando agachei, o peguei e coloquei na cesta, uma senhora chamou-me a atenção:

— Não, filho. Não pegue coisas do chão. Isso nunca é bom.

— Mas por que, senhora? Estou pegando do chão aquilo que veio do chão, que nasceu do chão.

— Hum…olhe, filho, nunca tinha pensado por esse lado – comentou sorrindo.

— Além disso, se ela pulou da banca, é porque quer ir embora comigo, não acha?

— É…acho que você tem razão… mas cuide bem dela. Não faça mal a ela, senão ela vai se arrepender de ter pulado da banca.

— Sim, acho que não posso decepcioná-la…

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June 2nd, 2017 at 5:11 pm

“Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca”

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Passei no mercado para buscar pão para a minha mãe (Foto: Reprodução)

Saí da academia e passei no mercado para buscar pão para a minha mãe. Na fila do caixa rápido, um cara ficava me observando. Até que ele se aproximou e disse:

— Caramba, mano! Tenho que te falar! Você tem um visu que dá medo! Olha o físico e a cara desse homem aqui, Renata!

Envergonhada, a moça que o acompanhava apenas sorriu e comentou:

— Não liga não. Meu irmão é assim mesmo.

Com meu típico sorriso enviesado, comentei que estava tudo bem. Então ele continuou:

— Po, olha esse cara! Bruto demais dos pés até a touca. Que barba sinistra, meu velho!

Eu já constrangido, sem saber o que dizer, pensei até em sair da fila do caixa rápido. Então Renata o puxou pelo braço, o levando para o setor de hortifruti. De lá, ele ainda falou:

— Serião, mano! Se você me der um tapa acho que eu não levanto.

Enquanto algumas pessoas riam e sorriam, eu só acenava a cabeça e tentava esconder a vergonha por trás da barba.

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Written by David Arioch

May 6th, 2017 at 1:34 am

A consciência de José

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“Lendo os ingredientes para ver se não encontra nada de origem animal, não é mesmo?”

Arte: Shawn Sheperd

No mercado, enquanto eu olhava os produtos na seção de cereais, um camarada, a quem vou chamar de José, passou por mim, me cumprimentou e disse: “Checando se não encontra nada de origem animal entre os ingredientes, não é mesmo?” Balancei a cabeça em concordância e sorri.

Ele continuou: “Cara, aqueles seus textos sobre veganismo mexem com a cabeça da gente. Tenho que reconhecer.” Gostei de saber disso e comentei que a ideia é justamente essa. José deu um sorriso amarelecido e partiu empurrando seu carrinho de rodinhas tortas que dificultavam uma movimentação mais rápida.

Depois de 10 a 15 minutos, na seção de farináceos, o vi na fila do açougue. Provavelmente ele estava aguardando a vez desde que trocamos algumas palavras. Assim que me viu, desviou os olhos. Empunhando uma longa faca recém-usada para fatiar parte de algum animal, o açougueiro ajeitou o boné branco com uma mão enluvada e perguntou o que ele desejava. Mesmo à distância, ouvi sua resposta: “Não desejo nada, meu senhor, nada! Muito obrigado! Tenha um bom dia!”, e se afastou, esfregando a mão sobre o topo da cabeça e empurrando o carrinho em sentido oposto.

Continuando as compras, na seção de hortifruti, fiquei feliz por encontrar brócolis e couve-flor orgânicos a preços acessíveis. Peguei dois de cada, coloquei no carrinho e olhei à minha direita. José, como se carregasse bebês nos braços, deitou duas bandejas de iogurte grego e uma garrafa de bebida láctea dentro do carrinho quando notou minha presença.

Ele corou e tirou todos os laticínios do carrinho, recolocando-os no expositor. Testemunhando a cena, uma idosa baixinha segurando uma caixinha de leite de arroz com as duas mãos falou: “Você fez bem, filho! Leite de bicho faz mal. Olhe como você está vermelho!” Só ouvi um não sonoro e desajeitado que afastou a boa senhora, mas não sem antes fazê-la agigantar os olhos e levar as duas mãos ao coração, sem entender o que aconteceu.

Quando me recordei que em casa não havia mais alho, me apressei até a banca e, coincidência ou não, vi José segurando duas bandejas de ovos de galinha. Ele parecia preocupado em ser visto por alguém, e movia a cabeça de um lado para o outro. Não notou que havia uma plaquinha amarela avisando que o piso estava escorregadio. Gritei seu nome em vão. José não ouviu e foi ao chão, caindo sentado e resfriando o traseiro. Não restou um ovo inteiro.

A raiva era tanta que ele grunhiu: “Nunca mais como ovo na minha vida! Nunca mais! Para os diabos com os ovos!” Sorte ou não, nenhum o atingiu. Me aproximei para ajudá-lo a levantar, só que ele recusou: “Estou bem, David. Me deixe, estou bem!” As pessoas o observavam sem entender o que se passava com José. Preocupado com as horas, caminhei até as seções de produtos de limpeza e higiene, o que me tomou um tempinho considerável.

Já no caixa, logo à minha frente, encontrei José esvaziando o carrinho e colocando as compras sobre o balcão. No fundo, restavam três bandejas de embutidos, um saquinho com carne moída e outro saquinho com bifes. Ele os posicionou sobre o balcão, mas quando me viu logo atrás, levou um susto e sorriu. Retribuí o sorriso e José chamou a atenção da moça do caixa: “Olhe, alguém deve ter colocado por engano esses embutidos e essas carnes no meu carrinho. Isso aqui não é meu. Vou deixar aqui do lado.”

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April 25th, 2017 at 1:35 pm

Sete pãezinhos e um fujão

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Peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade (Foto: Reprodução)

Na padaria do mercado, peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade. De repente, escuto um som fofo e morredouro na sua sutilidade – do tipo “ploft” suave. O pãozinho agoniza no chão. Gerado há pouco tempo, já não tem mais razão de ser, caído sem chance de se restabelecer. Posso ver nos olhos da atendente que ela discorda. Me observa de soslaio, esperando apenas uma distração e, quem sabe, numa plena desatenção, uma oportunidade de enfiar no saco o “pãozinho sujo”, privado da própria vocação.

Não tiro os olhos dela. Ela reage virando as costas para mim, e manipula o saco de pão com uma astúcia que parece sem fim. Não desiste! E meus olhos continuam mirando-a. Escuta meus passos. Sei disso porque vejo suas orelhas vibrando e seus olhos titubeando. Estamos mais próximos do que antes. E minha sombra desarmoniza suas intenções. Ela disfarça por mais um ou outro segundo, sorri em minha direção, e encosta o pãozinho na parte externa do saco marrom.

Há um ou dois minutos, ele era igual aos outros. Ninguém pode negar, mas foi maculado, e aos seus irmãos já não pode se juntar. Que assim seja feita a justiça do alimento! Juro que por um segundo vi um traço que parecia um sorriso. Um pão sorrindo? Impossível! Ou não? A moça da padaria me entrega o saco de pão quente. Ruborizada, me dá um último sorriso, sem velar o ar de derrota.

Quando abro o saco, e, descuidado, inalo a fumaça que me esbraseia o salão, vejo sete irmãozinhos parifomes repousando. Do outro lado, o pãozinho fujão se esconde de baixo de um segundo balcão, e desaparece em um buraco do tamanho de minha mão.

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Written by David Arioch

April 9th, 2017 at 12:49 am

As duas senhorinhas

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Hoje, na fila do caixa rápido do Cidade Canção, notei duas senhorinhas conversando. Uma delas olhou para a outra e disse: “Vá na minha frente porque você é mais velha.” E a outra replicou: “Aé? É mesmo? Grande coisa!” Idosos e sua espontaneidade inimitável…

 






Written by David Arioch

March 23rd, 2017 at 1:06 am

No estacionamento

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Um dia, no estacionamento do mercado, uma mulher arremessou uma embalagem pela janela. Como ela ainda não tinha saído do lugar, caminhei até lá, inclinei meu corpo, peguei o lixo sem falar nada, coloquei no meu bolso e continuei andando. Olhei brevemente para ela e não me recordo de já ter visto outra pessoa tão constrangida em situação semelhante.

Written by David Arioch

January 21st, 2017 at 1:34 am

O pão quente e a barba

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Foto: Reprodução

Por volta das 17h30, minha mãe me ligou, pedindo que eu fosse ao Cidade Canção comprar pão. Chegando lá, caminhei até a padaria e perguntei para a atendente se eu poderia ver como o pão é preparado. Atenciosa, me mostrou até a lista dos ingredientes usados no pão. Sim, o pão deles não tem nenhum ingrediente de origem animal. Satisfeito, caminhei em direção ao caixa.

Enquanto o pão quente soltava fumaça, ela sorriu e disse que talvez fosse melhor colocar o saco de pão dentro de uma sacola plástica. “Ah, é perigoso amassar”, justificou. Falei que não era necessário.

Após uma breve caminhada, assim que abri a porta do carro, me dei conta que a minha barba estava quente, defumada e com cheiro de pão. Mais de 30 minutos depois, ainda me sinto como se estivesse na padaria.

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Written by David Arioch

January 16th, 2017 at 1:51 pm

O homem e o carrinho

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No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne

No mercado, vi um senhor fazendo um esforço hercúleo para empurrar um carrinho abarrotado de carne. Havia tanta carne que por um momento ele parou de empurrá-lo. Em seguida, enxugou o líquido viscoso que escorria de um dos sacos de carne, lambuzando sua mão direita. Seu carrinho não era o único na mesma situação.

Antes que eu me afastasse, um de seus filhos se aproximou e o questionou se não havia carne demais no carrinho. Incomodado, o homem respondeu, num paradoxo ruidoso: “Carne é vida. Melhor sobrar do que faltar.” Por outro lado, ele sentia-se desconfortável porque uma de suas mãos estava grudenta. Sem velar a expressão de repulsa, na tentativa de limpá-la, ele acabou esfregando a mão em uma porção de belas laranjas.

Em menos de minuto, algumas testemunhas se aproximaram e viram as laranjas manchadas pelos glutinosos vestígios de carne. Então reclamaram: “Que sujeito nojento! Eu que não pego essas laranjas!” E partiram empurrando seus carrinhos cheios de peru, tender, pedaços de carne bovina e bandejas de presunto.

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“Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

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Fui ao mercado há pouco. Chegando lá, apertei o botão do alarme do carro e nada. Não funcionou. Então me dei conta que o pressionei com tanta força que o botão afundou. Tentando resolver a situação, notei algumas pessoas me observando por causa da minha barba. Não consegui evitar de pensar: “Agora, além de terrorista, vão achar que sou ladrão.”

Depois, no setor de hortifruti, comecei a analisar alguns pacotes de romãs. De repente, cinco haitianos se aproximaram e começaram a observá-los também. Enquanto eles conversavam em crioulo, eu seguia procurando as melhores porções.
Quando eu tirava a mão de um pacote, os haitianos faziam o mesmo.

Dois ou três minutos depois, peguei em definitivo um pacote. Então um deles fez o mesmo. Assim que me afastei, ouvi alguém dizendo algo como: “Sa a se bon. Mizilman an konnen!”, que significa: “Esse é bom! Muçulmanos sabem!”

Written by David Arioch

December 24th, 2016 at 7:35 pm