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O retorno de Brancaleone

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Quando Monicelli ironizou os cavaleiros cruzados

Vittorio Gassman revive Bracaleone no clássico de 1970 (Foto: Reprodução)

Vittorio Gassman revive Brancaleone no clássico de 1970 (Foto: Reprodução)

Seguindo a fórmula de L’armata Brancaleone (O Incrível Exército de Brancaleone), o cineasta italiano Mario Monicelli lançou em 1970 o clássico Brancaleone Alle Crociate (Brancaleone Nas Cruzadas). O filme é uma anti-heroica e bem-humorada crítica a visão romântica sobre os cavaleiros cruzados.

Em Brancaleone Alle Crociate, o protagonista anti-herói Brancaleone (Vittorio Gassman) é líder de um exército de perdedores que viaja rumo à Terra Santa. Logo no início da jornada, a ausência de um estratagema, que dá a tônica da falta de hierarquia e de propósitos coletivos, termina em massacre. Então o trapalhão Brancaleone decide formar uma nova armada, composta pelos sobreviventes; nada mais que derrotados com anseios totalmente individualistas. Tudo isso soma para ratificar com muita ironia o extremo da contradição existencial do homem.

No segundo filme da franquia Brancaleone, Mario Monicelli novamente faz críticas escrachadas e satíricas sobre o perfil do cavaleiro medieval, figura muito humana e caricata na obra. A ideia do autor é justamente antagonizar a imagem clássica do cavaleiro – o que muitos livros e filmes épicos vendem como exemplo de fidalguia. O cineasta não poupa nem a Igreja Católica ao mostrar uma briga de egos entre os papas Gregório e Clemente. Um ordena o genocídio de seguidores do outro, quando na realidade a religião deveria cumprir o seu papel de valorizar a vida.

Há também, como de costume na filmografia de Monicelli, o clássico humor pastelão. Exemplos são as cenas em que Brancaleone confronta o seu companheiro e teimoso pangaré Aquilante, uma paródia do cavalo Rocinante, de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saveedra. Brancaleone Alle Crociate é uma comédia de gradação em que o espectador é estimulado a rir de situações corriqueiras e subjetivas.

Um exército de perdedores

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L’armata Brancaleone, uma crítica bem humorada de valores como honra e bravura na Idade Média

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Filme é uma paródia de Dom Quixote de La Mancha (Foto: Reprodução)

Lançado no Brasil como O Incrível Exército de Brancaleone, L’armata Brancaleone é uma obra-prima de Mario Monicelli, expoente da commedia all’italiana. O filme se passa na Baixa Idade Média, durante a crise do feudalismo, e faz uma crítica bem-humorada de valores como honra e bravura.

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Brancaleone lidera um exército de marginalizados (Foto: Reprodução)

Em 1966, L’armata Brancaleone entrou para a história do cinema mundial como a primeira película a satirizar o que está registrado em livros e filmes sobre a Idade Média. A obra, uma paródia de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, apresenta um grupo de maltrapilhos que mata um cavaleiro para roubar o documento que lhe garante a posse de um feudo em Aurocastro.

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Valor caricato da tragédia também se estende a crença no messianismo (Foto: Reprodução)

Como nenhum dos bandidos tem o perfil adequado para substituir o herdeiro da propriedade, convidam o devoluto cavaleiro Brancaleone da Norcia (Vittorio Gassman) para se juntar a eles. De uma estupidez surreal, mas ambicioso, o homem em nada personifica um guerreiro polivalente, muito pelo contrário. Brancaleone é um anti-herói falacioso que golpeia árvores e gosta de se impor mantendo-se ereto sobre um pangaré ocioso e arredio chamado Aquilante.

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Vittorio Gassman em uma de suas melhores interpretações (Foto: Reprodução)

O personagem não defende nenhum ideal, mas sonha em adquirir fortuna, nem que seja de forma ilícita, para custear excessos com bebidas e mulheres. É dotado de um niilismo de ocasião e um pragmatismo que oscila conforme o seu humor e boa vontade. Brancaleone não se importa em desafiar os fracos e fugir dos fortes. É o real “cavaleiro” que ganhou qualidades ficcionais na história oficial e teve as verdadeiras características ocultadas.

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Obra mostra a decadência do feudalismo e emergência do capitalismo (Foto: Reprodução)

Além disso, os companheiros do protagonista são muito atrapalhados. Juntos, formam um exército de rejeitados, composto por um obeso, um lunático, uma criança, um velho judeu e um falso líder. Em situações críticas, Brancaleone deixa as decisões a critério do personagem menos lúcido. A desordem é acumulativa e passa por uma gradação enquanto o grupo percorre a Europa em um dos momentos mais obscuros da História.

A antiepopeia, pautada no período em que o trinômio guerra, peste e fome se torna o estopim da decadência do feudalismo e emergência do capitalismo, enaltece o feio a partir da estrutura cenográfica, fisionomia e traje dos personagens. O valor caricato da tragédia se estende à crença no messianismo. Exemplo é a clássica cena em que um padre, comandando peregrinos em viagem à Terra Santa, cai de uma ponte e morre.

Os fiéis se dispersam, dando a impressão de que com a morte da autoridade religiosa se esvai a fé. Monicelli ainda apresenta interpretações particulares da queda do Império Bizantino e invasão muçulmana na Europa. Também é inesquecível a música de abertura do filme, do compositor Carlo Rustichelli que ao longo da vida compôs para mais de 250 filmes, tornando-se um dos nomes mais célebres da Itália quando o assunto é trilha sonora.