David Arioch – Jornalismo Cultural

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Psoglav, o carnívoro

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No folclore balcânico há uma criatura telúrica que chamam de Psoglav, que teria vivido em algumas regiões que hoje fazem parte da Bósnia e de Montenegro. Ganhou fama de demônio, inclusive esteticamente, pelo fato de se alimentar de carne humana, chegando a desenterrar cadáveres.

Mas Psoglav era naturalmente carnívoro, e ainda assim se popularizou como um chavelhudo, pois sua sobrevivência, vinculada a uma condição rara, o tornava dependente do consumo de carne. Com o tempo, sua história ganhou novos elementos, para reafirmarem sua “natureza demoníaca”.

Porém, se ele se alimentava de carne por uma questão incontestável de sobrevivência, deveríamos chamá-lo de demônio? Ainda mais levando em conta que nos alimentamos da carcaça de outros seres vivos por uma questão cultural e opcional, ou seja, não por uma necessidade.

 

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Insane Clown Posse e a mitologia da violência nos guetos

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“Criamos o Dark Carnival para que as pessoas entendam o peso de suas ações”

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Shaggy 2 Dope e Violent J, criadores da mitologia Dark Carnival (Foto: Divulgação)

Fundado em 1989 por Violent J (Joseph Bruce) e Shaggy 2 Dope (Joseph Utsler), o duo de horrorcore Insane Clown Posse, de Detroit, nos Estados Unidos, se popularizou nos anos 1990 por misturar rock e hip-hop, criando um estilo autoral que influenciou músicos e bandas de vários gêneros dentro e fora dos EUA. O que mais chama atenção no trabalho do ICP é que eles são praticamente os únicos a difundirem o horrorcore além do cenário alternativo norte-americano.

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O Insane Clown Posse já lançou 13 álbuns ao longo da carreira (Foto: Divulgação)

A maior parte das músicas do Insane Clown Posse têm relação com o Dark Carnival, uma curiosa mitologia autoral que se baseia na ideia de que as almas das pessoas são enviadas ao limbo, onde aguardam seu destino: céu ou inferno. Para onde cada um vai é determinado pelas suas ações individuais. Entre as músicas apontadas como as mais clássicas do duo estão “The Great Milenko”, “Hokus Pokus”, “The Neden Game”, “Halls of Illusions”, “Boogie Woogie Wu”, “What is a Juggalo?” e “Tilt-A-Whirl”.

Em 2000, quando Violent J estava viajando de Cleveland para Detroit, ele parou em um posto de combustíveis e comprou uma fita K7 com a música “Let’s Go All the Way”, do duo de new wave Sly Fox, de Miami, na Flórida. Joseph Bruce gostou tanto do som que quis regravá-lo. E o resultado foi que a nova versão entrou para a lista de melhores do Insane Clown Posse. Disponibilizada no YouTube em 2007, ultrapassou mais de quatro milhões de visualizações e agradou até quem não simpatizava com o trabalho do ICP.

Ao longo da carreira, o duo já lançou 13 álbuns. O primeiro e que marcou a criação do Dark Carnival foi o “Carnival of Carnage” que usa a mitologia como uma representação da violência dentro dos guetos dos Estados Unidos. E não somente isso. A partir de satíricas críticas sociais, o duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta, como desdobramento da miséria e da indiligência. Sendo assim, nas letras do ICP, a violência se desenvolve como prognóstico de um caos mais do que iminente e financiado pelas esferas mais altas do poder.

Duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta (Foto: Divulgação)

Duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta (Foto: Divulgação)

No início da década de 1990, Violent J e Shaggy 2 Dope desenvolveram um conceito intitulado “Joker’s Cards” que abrange os álbuns “Carnival of Carnage”, de 1992; “The Ringmaster”, de 1994; “The Riddle Box”, de 1995; “The Great Milenko”, de 1997; “The Amazing Jeckel Brothers”, de 1999; “Bang! Pow! Boom!”, de 2009; “The Mighty Death Pop!”, de 2012; e “The Marvelous Missing Link: Lost”, de 2015.

As cartas do Coringa (Joker’s Cards) são enviadas como aviso pelo Insane Clown Posse aos representantes das classes mais altas e também aos políticos que ignoram os apelos das classes baixas. “Nós a entregamos a quem ignora os gritos das cidades. Cada uma das nossas cartas têm um papel específico dentro do Dark Carnival. Falamos da maldade cotidiana para que as pessoas entendam a importância de salvar a alma humana”, explicam Bruce e Utsler.

O conteúdo pesado das letras já chamou a atenção de muitos jornalistas e críticos que apontaram o duo como um paradoxo em essência, já que o ICP tenta ser espiritualista ao mesmo tempo que aborda a violência sem ressalvas. “Sobre isso, só posso dizer que o mais importante é falar a língua das ruas. Tentamos soar interessante para o público, nos aproximando da realidade deles e ganhando sua confiança. Se você é uma pessoa das ruas, é claro que você tem que trilhar esse caminho. Criamos o Dark Carnival para que as pessoas entendam o peso de suas ações”, argumentam.

Conhecidos como juggalos, os fãs do Insane Clown Posse possuem expressões, gírias e costumes bem próprios, tanto na forma de agir quanto de se vestir, como se fizessem parte de uma tribo. E todos os anos milhares de fãs se reúnem no The Gathering, inicialmente sediado em Cave-In-Rock, Illinois, e atualmente em Thornville, Ohio. O evento realizado pelo duo através da Psychopathic Records tem o apoio de astros do rap e do cinema como Ice Cube, Coolio, Vanilla Ice, MC Hammer, Busta Rhymes e Charlie Sheen, além de bandas como Cypress Hill, Drowning Pool, Gwar, Fear Factory, Cannibal Corpse, Andrew W.K., Soulfly e Mushroomhead.

Cover que rendeu mais popularidade ao duo:

 

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Congelando o tempo no âmago da vida

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Ninguém escapa do tempo, mas o ser humano tem a seu favor a jovialidade espiritual

Mitológica Fonte da Juventude, do pintor alemão Lucas Cranach

Mitológica Fonte da Juventude, do pintor alemão Lucas Cranach

Quando se fala de velhice, os mais jovens ficam despreocupados, pois ainda estão desfrutando dos prazeres propiciados pela jovialidade. Já quem tem idade avançada começa a se preocupar com os traços do tempo que afetam o perfil estético. A consequência é que muitas pessoas passam a encarar a vida com uma visão pessimista envolta por piedade, medo e constrangimento; uma nebulosidade que começa a transcender.

Enquanto alguns acreditam que a temporalidade é um grande inimigo para quem não quer envelhecer, outros preferem aceitá-la, defendendo que é a melhor forma de encarar a vida de forma saudável. Pessoas assim creem que ninguém deve preocupar-se, sequer com o tempo, porque isso pode impedi-lo de aproveitar a vida.

Um exemplo de quem optou por viver sem grandes preocupações é o escritor belorizontino João de Freitas, 50, que escreveu o livro “A fonte da juventude” que traça um paralelo entre tempo, idade e saúde. “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho. Procuro agir da forma que acho mais adequada para minhas energias não se esgotarem rápido”, diz.

A fonte da juventude tem origem mitológica e explica que Júpiter, o deus dos deuses, transformou a ninfa Juventa em uma fonte cuja água devolvia a mocidade. Mas Júpiter escondeu a fonte, e ninguém sabia onde a encontrar. Isso mostra que alguns mitos representam o sonho da humanidade de “driblar” um de seus maiores receios e ter controle sobre o que lhe foi imposto como fator da natureza.

Muitas pessoas já devem ter assistido algum filme ou lido algum livro que mostra uma mística fonte em que qualquer pessoa que beber daquela água vai ter a oportunidade de retardar o envelhecimento e assim manter-se jovem para sempre. Pois é, essa fonte ao certo a maioria não sabe se existe ou onde pode ser encontrada, mas especialistas afirmam que para envelhecer com saúde é preciso boa alimentação e prática regular de atividades físicas. Assim poderão trilhar o caminho da velhice “de mãos dadas com o tempo”.

João de Freitas “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho” (Foto: Arquivo Pessoal)

João de Freitas “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho” (Foto: Arquivo Pessoal)

Das mudanças físicas trazidas pela inexorabilidade do tempo ninguém escapa, mas o ser humano ainda possui a seu favor a tenaz vivacidade de manter a jovialidade espiritual. “Depois do trabalho chego em casa cansado, tomo banho e logo em seguida me sinto como se tivesse 50 anos, isso porque mantenho uma vida ativa, o trabalho faz com que eu me sinta assim”, explica o empreiteiro João Mariano, 80.

A temporalidade que pode fazer do homem jovem de hoje um ancião no futuro é o triunfo de quem consegue enxergar o lado positivo com o avanço da idade. “O indivíduo vai ganhando mais sabedoria. O conhecimento é o que podemos acumular de bom com o tempo. Se eu soubesse desde a infância tudo que sei hoje, poderia estar em posição muito mais vantajosa”, conta Freitas.

Em contraponto, o tempo traz a finitude, um dos grandes medos da humanidade, fazendo com que porventura cada um se agarre em explicações que para si pareçam as mais “plausíveis”. “Diante da certeza da morte, uns pensam em ressurreição, outros em reencarnação, e ainda há aqueles que acreditam na sobrevida à morte, cada ideia visa amenizar a grande certeza que temos, que um dia morreremos”, frisa o escritor.

O médico e escritor norte-americano Peter kelder fez um estudo sobre o assunto e lançou um livro em 1939 intitulado “A fonte da juventude”. Na obra, os princípios básicos para se envelhecer com saúde estão em rituais milenares tibetanos que mantêm o corpo em harmonia por meio de sete vórtices localizados no corpo humano, assim retardando o envelhecimento. Além disso, o autor explica que a boa alimentação por meio de alimentos naturais, e pouco variados, é de suma importância para se alcançar a longevidade.

Bons hábitos alimentares devem estar positivamente adequados ao organismo do indivíduo. É imprescindível para evitar problemas que surgem com o tempo. Apesar do empreiteiro de 80 anos nunca ter lido o livro de Peter kelder ou ter recebido recomendação médica, revela que come pouca carne vermelha, pois prefere carne branca como frango ou peixe, e evita ingerir refrigerantes, doces, enlatados e conservas.

Os cuidados com a saúde, envolvendo atividades físicas e alimentação, além da busca da paz espiritual, são algumas das formas encontradas pelo ser humano que tem o desejo de prolongar a vida em substituição da mitológica fonte da juventude que por enquanto ninguém sabe onde Júpiter escondeu, nem mesmo os cientistas. Mas para se chegar a terceira idade arraigado no âmago da vida basta cada um buscar a sua própria “fonte da juventude”, afastando-se dos preceitos determinados pela crescente cultura do comodismo que leva somente à displicência.

Written by David Arioch

June 30th, 2009 at 2:59 pm