David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Não Humanos’ tag

Cientistas reconhecem que animais se comunicam de forma semelhante à humana

without comments

Não são apenas os seres humanos que consideram rude as interrupções durante uma conversa

Descoberta revela não apenas a capacidade não humana de definições de comportamento social, como também inteligência (Foto: Reprodução)

Cientistas do Reino Unido e da Alemanha publicaram este mês na revista científica da “The Royal Society” um artigo intitulado “Taking turns: bridging the gap between human and animal communication”, em que reconhecem que os animais se comunicam de forma semelhante à humana.

De acordo com os cientistas Simone Pika, Ray Wilkinson, Kobin H. Hendrick e Sonja C. Vernes, animais não humanos, embora partilhem de um diferente código comunicativo em relação aos humanos, também costumam considerar a importância de “um ouvir enquanto o outro fala”. O que revela não apenas a capacidade não humana de definições de comportamento social, como também inteligência – o que não é limitado a poucas espécies. O artigo afirma que isso pode ser encontrado em todo o reino animal.

Durante muito tempo, acreditou-se que a pausa para ouvir enquanto o outro fala fosse uma característica estritamente humana, inclusive nos diferenciando dos primatas. O que, sobretudo, não é verdade, segundo os cientistas. Até mesmo animais como rato-toupeira reconhecem que a comunicação depende de turnos de emissões de sons – ou seja, é importante o silêncio de um dos interlocutores enquanto o outro se comunica.

Os autores do estudo afirmam que o “timing” é uma característica fundamental nos turnos de comunicação de animais humanos e não humanos. Mas o tempo de espera pode variar de espécie para espécie. Algumas aves, por exemplo, são conhecidas como “tagarelas” e “impacientes”, então não aguardam mais do que 50 milissegundos para “falarem” durante uma conversa. Já os cachalotes estão entre os animais mais pacientes porque, em resposta a um diálogo, normalmente “falam” dois segundos depois.

O artigo publicado pela The Royal Society deixa claro que não são apenas os seres humanos que consideram rude as interrupções durante uma conversa. Chapins e estorninhos europeus dão tanta importância ao “timing” em uma conversa que foram identificados como espécies que “treinam” para evitar a sobreposição durante a comunicação:

“Se ocorrer sobreposição, os indivíduos ficam em silêncio ou fogem, sugerindo que a sobreposição pode ser tratada, nessa espécie, como uma violação das regras socialmente aceitas de tomada de turnos”, informa o estudo “Taking turns: bridging the gap between human and animal communication”.

Os pesquisadores reconhecem que a falta de dados e de comunicação entre cientistas dificultou que estudos como esse fossem viabilizados anteriormente, já que o último trabalho nessa linha foi feito há 50 anos. Agora, Simone, Wilkinson, Hendrick e Sonja, que são especialistas em linguagem humana e animal, estão planejando traçar a história evolutiva da tomada de turnos durante a comunicação, o que pode permitir um novo entendimento das origens da linguagem, um território em que ainda há muito a ser explorado.

Referências

Pika, Simone; Wilkinson, Ray; Kendrick, H. Kobin; Vernes, C. Sonja. Taking turns: bridging the gap between human and animal communication. Proceedings of the Royal Society B – Biological Sciences. The Royal Society Publishing (6 de junho de 2018). 

Gabbattis, Josh. Animals are always talking to each other, scientific review finds. The Independent (6 de junho de 2018).

 

 

 

 





Written by David Arioch

June 20th, 2018 at 12:27 pm

Alguém diz: “O veganismo ensina as pessoas a respeitarem os animais, mas não as pessoas”

without comments

“O veganismo não ensina nada disso, mas tentarei entender o seu posicionamento”

Sim, o veganismo é uma filosofia de vida que se volta em primeiro lugar para o direito dos animais à vida (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Alguém diz:

— O veganismo ensina as pessoas a respeitarem os animais, mas não as pessoas.

— Me desculpe, meu camarada, mas há um equívoco substancial na sua afirmação. O veganismo não ensina nada disso, mas tentarei entender o seu posicionamento. Creio que você queira dizer que veganos priorizam os animais não humanos. Sim, no contexto do veganismo, naturalmente, porque o veganismo é uma filosofia de vida que se volta em primeiro lugar para o direito dos animais à vida, pelo direito de não sofrer em decorrência da má intervenção humana, mas isso não significa que veganos desrespeitem seres humanos ou não se importem com seres humanos. Porém, vamos considerar um cenário de veganos que desrespeitam pessoas. Seres humanos são seres complexos, têm suas peculiaridades e vicissitudes.

Logo se você busca perfeição entre veganos, devo dizer que está buscando isso no lugar errado. Simplesmente porque perfeição não existe em nenhum contexto. E desrespeitar pessoas é algo que deve ser analisado sob um prisma mais abrangente. Quero dizer, a não ser que você veja alguém exercendo um desrespeito contínuo ou inerente, isso pode ser apenas uma manifestação equivocada e circunstancial. Bom, um sujeito de quem você não goste, ou que você qualifique como “imbecil”, pode sim ser vegano. Afinal, ser vegano não isenta ninguém de ter falhas. Eu mesmo tenho muitas, e é exatamente por isso que não condeno quem defende os animais, mas carregue falhas em seu histórico.

Eu particularmente não conheço nenhum caso de veganos que tenham feito conscienciosamente mal às pessoas. Sim, os seres humanos podem se exaltar em seus discursos, praguejar a humanidade, criticar o descaso humano em relação aos animais não humanos; até mesmo xingar. Claro, há pessoas que se excedem, mas percebo que isso normalmente acontece quando nos deixamos guiar pela emoção e pela situação, então não racionalizamos nosso discurso e agimos impulsivamente. Mas isso não significa que uma pessoa seja ruim ou odeie, de fato, a humanidade. Afinal, não vivemos no pleno ostracismo. Nos comunicamos com alguém em algum momento, não? Ademais, o veganismo é feito por pessoas, logo há essencialmente um senso coletivista.

E desrespeito muitas vezes é um retrato do momento, um retrato até mesmo difuso. Além disso, todos podemos mudar (ou não), crescer, amadurecer, evoluir, o que quer que seja. Logo quem sou eu para dizer quem deve ou merece ser vegano ou não? Outro ponto. Sua afirmação também carrega uma falha histórica. O vegetarianismo ético, os direitos animais e o veganismo foram idealizados por humanitários. Sim, isso mesmo, por pessoas que antes se preocupavam com seres humanos e entenderam que era importante estender isso aos seres não humanos.

Então realmente não acho muito apropriado dizer que o veganismo ensina as pessoas a não respeitarem pessoas. A história está repleta de personagens protovegetarianos, vegetarianos, protoveganos e veganos que defenderam e defendem os animais humanos e não humanos – o que não significa que defender pessoas seja, de fato, uma premissa ou obrigação. Henry Salt, por exemplo, um dos nomes mais importantes da era vitoriana na defesa dos animais e pioneiro da teoria dos direitos animais, foi o fundador da Liga Humanitária Inglesa.

Não podemos ignorar também que há inúmeras bandeiras específicas em defesa dos humanos, mas só uma em defesa dos animais, e realmente isso faz uma diferença não circunstancial, mas sim substancial. Claro que em um cenário ideal seria muito bom se houvesse respeito a animais humanos, não humanos, uma harmonia verdadeiramente abrangente. Mas creio que as coisas vão evoluindo com o tempo e com as nossas predisposições.





 

Direitos animais não são sobre privilégios para não humanos

without comments





 

Natal, época de solidariedade entre seres humanos e aumento da crueldade contra não humanos

without comments

Natal, época de solidariedade entre seres humanos e aumento da crueldade contra não humanos (Ilustração: Matt Kenyon)

Written by David Arioch

December 24th, 2017 at 11:11 pm

Mark Rowlands explica por que os animais não humanos são sujeitos morais

without comments

“Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração”

Animais são facilmente motivados por estados emocionais que Mark Rowlands define como emoções morais (Acervo: Mark Rowlands)

Em 2012, o filósofo galês Mark Rowlands, professor da Universidade de Miami e autor do best-seller “The Philosopher and the Wolf”, publicou o livro “Can Animals be Moral?”, em que explica por que os animais não humanos são sujeitos morais. No livro, Rowlands apresenta argumentos que ratificam o quão equivocado é o discurso de que os seres humanos têm capacidades que os outros animais não têm, por isso eles não são sujeitos morais.

Rowlands reconhece que os seres humanos têm a capacidade de uma consciência moral com a qual os outros animais não podem rivalizar, porém rebate que não é necessário que um indivíduo não humano tenha a capacidade de analisar seus motivos enquanto sujeito moral para ser um sujeito moral.

Para contrapor essa perspectiva, entre outros exemplos, ele cita o luto dos animais ao perderem membros familiares, e também casos de seres não humanos que se recusam a se alimentarem caso o custo de uma refeição seja infligir dor a um semelhante. Essas são evidentemente razões morais básicas que compõem o universo dos animais não humanos.

“Quando fazem isso, eles [os animais] estão fazendo exatamente o que fazemos quando agimos com base nessas razões: estão agindo de forma moral”, defende o filósofo que na obra apresenta falhas nos discursos de Aristóteles, Immanuel Kant e muitos outros filósofos, pensadores e cientistas que concordariam que os animais não se qualificam como sujeitos morais porque não são capazes de analisar criticamente suas motivações e a relação entre suas ações e motivações.

Em “Can Animals Be Moral?”, o autor defende a reivindicação de possibilidade, ponderando que animais são facilmente motivados por estados emocionais que ele define como emoções morais. Entre os exemplos estão a compaixão, empatia, simpatia, tolerância, luto, ciúmes, malícia, medo e pavor. Rowlands frisa que os animais podem agir moralmente com base nessas emoções que possuem conteúdo moral identificável. “A atribuição de motivação moral aos animais é quase sempre considerada como impossível. Em parte, [muitos] filósofos têm razões respeitáveis, embora em última análise, equivocadas. Mas, em parte, eles estão confusos”, declara.

O filósofo argumenta que os animais são sujeitos morais no sentido de que eles são sujeitos de emoções carregadas moralmente. Os animais não humanos compõem a sua própria categoria de “assuntos morais”. Ademais, enquanto sujeitos morais, podem ser agentes morais, pacientes morais; ou ambos, como defendido pelo filósofo moral David DeGrazia. “Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração quando são tomadas decisões sobre ele ou que impactam sobre ele”, escreveu Mark Rowlands.

Para DeGrazia, em uma perspectiva também compartilhada por Rowlands, uma manifestação de que os animais podem ser agentes morais são ações não condicionadas ou não instintivas em que eles manifestam virtudes ou escolhas. Partindo desse exemplo, os animais podem ser considerados agentes morais sempre que suas ações permitirem uma concepção razoável de agência moral, ou seja, de capacidade de agir ou de se abster de agir intencionalmente ou de forma não previamente determinada.

“Devo argumentar que existe outra opção: enquanto os animais são realmente pacientes morais, e não apenas agentes morais, eles também podem ser sujeitos morais”, enfatiza Mark Rowlands. No entanto, um problema comum é que enquanto pacientes morais, normalmente os interesses dos animais não humanos não são considerados, principalmente quando submetidos a ações de agentes morais que não os consideram como sujeitos morais.

A própria filosofia é um exemplo disso, já que ainda hoje a moralidade não humana sofre com a negação filosófica em muitos círculos. Rowlands critica o desinteresse de muitos filósofos, inclusive alguns grandes pensadores, em relação ao status moral não humano. Ele vê isso como uma grande falha histórica, ponderando que a filosofia sempre se debruçou sobre questões como racionalidade, motivação, autonomia, normatividade, autoconsciência e livre arbítrio. São questões que poderiam ter sido muito melhor discutidas se desde o princípio não tivéssemos nos limitado a uma perspectiva que não se preocupou em ir além da observação humana sobre seres humanos.

A maior falha de muitos filósofos da atualidade, assim como filósofos de outros tempos, é que eles não perceberam como os animais são bons em nos fazer refletir, segundo Mark Rowlands. Outra observação interessante apresentada pelo filósofo galês é que a ciência nunca simpatizou muito com a filosofia moral. Porém, ainda assim se apropriou da linguagem da moralidade; passando a usar terminologias morais como altruísmo, empatia, equidade e justiça no contexto do discurso científico.

São apropriações que surgiram principalmente nas últimas décadas quando cientistas passaram a se dedicar mais aos estudos de fundamentação empírica sobre cognição e emoção envolvendo animais não humanos. Contudo, isso prova que a mudança em relação ao entendimento de seres não humanos como sujeitos morais também está acontecendo no campo da ciência, embora ainda haja resistência.

Rowlands acredita que muitos cientistas rejeitam a filosofia moral que envolvem também seres não humanos porque creem que é uma ameaça à objetividade. Contudo, além de ser uma crença equivocada, é contraproducente, porque o ceticismo exagerado em relação aos outros animais ajudou a fortalecer o antropocentrismo e o especismo, impondo limites inexoráveis ao conhecimento humano sobre a vida, o mundo e a natureza. O filósofo galês vê a ciência como um caminho, mas não a considera prioritária ou exclusiva no entendimento das emoções animais, isto porque a filosofia moral também depende de evidências empíricas; e hoje a própria ciência tem buscado, mais do que em qualquer outro período, entender o comportamento animal a partir dessas evidências.

Saiba Mais

Mark Rowlands é um filósofo que se dedica ao estudo do status moral de animais não humanos. Ele nasceu em Newport, no País de Gales, em 1962.

Referência

Rowlands, Mark. Can Animals be Moral? Oxford University Press. Reprint Edition (2012-2015).





Written by David Arioch

December 12th, 2017 at 7:52 pm