David Arioch – Jornalismo Cultural

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Hospital João de Freitas, a saúde com face humana

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Referência nacional em cardiologia, hospital de Arapongas se destaca pelo atendimento humanizado 

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No Hospital Regional João de Freitas é fácil encontrar pessoas das mais diversas regiões do Brasil (Acervo: Hospital Regional João de Freitas)

Chego às 8h no Hospital Regional João de Freitas, de Arapongas, no Norte do Paraná, numa manhã nublada e chuvosa. O estacionamento está movimentado e vejo uma moça correndo para dentro do hospital com uma grande bacia cheia de pequenos pedaços de bolo cobertos com papel alumínio. Em pouco tempo, ela retorna para buscar mais. Despreocupada com a água que cai impetuosa e gelada sobre seu corpo, a jovem se inclina, crente de que o mais importante é proteger os alimentos.

A chuva se intensifica e mais pessoas passam rapidamente pela porta de entrada em direção à recepção. Lá dentro, muitos aguardam atendimento sentados em quatro e cinco fileiras de bancos, cadeiras e poltronas. Os mais jovens cedem espaço aos mais velhos que ocupam quase que completamente os assentos. Não há gritaria, desordem, brigas ou queixas.

Em pé, a poucos centímetros da entrada, assisto tudo à minha volta. Escuto risadas, vejo sorrisos, olhares apreensivos, melancólicos e auspiciosos. Cada pessoa tem uma maneira particular de lidar com um grave problema de saúde. Como distração, enquanto não chega a hora do atendimento, alguns contam piadas. Outros relatam a própria história antes e depois da enfermidade. Há também quem prefere se calar, observando atitudes ou mantendo-se disperso nos próprios pensamentos.

Ao meu lado, um senhor diz que gostaria de ter cuidado mais da saúde quando era jovem. “Hoje pago o preço dos meus excessos, da minha falta de cuidados. Deveria ter dado mais importância à vida. Mas tudo bem. O mais importante é que continuo vivo e sou muito bem atendido aqui. Este hospital é um dos poucos que entrei que não tem cheiro de morte”, defende o aposentado João Oliveira, de 87 anos, sorrindo e aguardando internamento para tratar de um problema cardíaco.

Por volta das 8h30, uma fila espontânea se forma no fundo da primeira e principal sala de espera (Foto: David Arioch)

Na recepção, ninguém é deixado de lado (Foto: David Arioch)

Na recepção, ninguém é deixado de lado. Percebo que quem se aproxima para pedir alguma informação é prontamente atendido pelas recepcionistas. Com voz cordial, elas tratam todos com exímia educação. Também chama atenção o fato de não usarem uniformes ou muita maquiagem, garantindo mais informalidade ao ambiente, inclusive fazendo os pacientes sentirem-se mais próximos, como corrobora uma senhora acompanhando o pai.

Por volta das 8h30, uma fila espontânea se forma no fundo da primeira e principal sala de espera. Me aproximo e vejo que estão servindo os alimentos entregues pela mulher que caminhava a passos rápidos na chuva. Além de bolos e pãezinhos, são oferecidos café e chá. Sem necessidade de fiscalização, cada pessoa se limita a pegar uma unidade de cada alimento ou bebida. Quem vai além normalmente entrega o adicional para o pai, mãe ou outro familiar que aguarda atendimento.

Ainda assim, muitas pessoas não consomem nada. Alguns justificam que é importante deixar alimento e bebida disponível para quem não tem condições de pagar pelo café da manhã, já que a qualquer hora alguém pode passar pela porta de entrada com fome. Outra ação de solidariedade é colocada em prática por um jovem proprietário de três restaurantes em Arapongas.

Cumprindo uma promessa de que faria algo por seus semelhantes caso conseguisse abrir um restaurante, o rapaz visita o hospital toda terça-feira, às 12h, onde entrega pessoalmente 50 marmitas para pacientes internados. “Só pega marmita quem realmente precisa. As pessoas aqui têm consciência de certo e errado. Ninguém aceita nada sem necessidade”, justifica a pensionista Maria Neuza Silva.

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Anualmente, Everton Luiz passa por tratamento no Hospital João de Freitas (Foto: David Arioch)

No Hospital Regional João de Freitas, referência nacional em cardiologia, é fácil encontrar pessoas das mais diversas regiões do Brasil. Além de pacientes do Paraná, alguns informam que vieram de Brasília, Porto Velho, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Cuiabá e Campo Grande, entre muitas outras cidades. Quem vem de longe para acompanhar algum parente com menos de 65 anos pode ficar na Casa de Apoio mantida pelo hospital, caso não tenha dinheiro para custear hospedagem e alimentação.

No local, os hóspedes recebem um tratamento até melhor do que em muitos hotéis espalhados pelo país – com direito a várias refeições. Assim como todo hospital, por melhor que seja, o João de Freitas também tem suas falhas, mas que são facilmente ofuscadas pelas boas qualidades. Referência em cirurgia cardíaca, a prioridade é a humanização e a renovação das esperanças dos pacientes.

“A ouvidoria funciona muito bem. Até me perdi aqui de tão grande que é o hospital. Eles investem no ser humano, têm misericórdia e tratam todos da mesma forma. O atendimento demora um pouco, só que vale a pena. Cirurgias de ponte de safena, por exemplo, podem custar até R$ 80 mil numa clínica particular e aqui o SUS cobre tudo”, declara Maria Neuza que acompanhou o pai na realização de um exame de cateterismo pelo Sistema Único de Saúde. Se tivessem que pagar, teriam de desembolsar de R$ 3 a R$ 8 mil.

Quem chega ao João de Freitas com a guia de internamento precisa aguardar em uma segunda sala de espera a liberação de uma vaga na enfermaria. Lá, cada quarto recebe oito pessoas. E os pacientes se sentem bem mais tranquilos com a companhia, ainda mais levando em conta que acompanhantes são permitidos somente para quem tem 65 anos ou mais. “Isso ajuda a passar o tempo”, garante Maria Neuza.

Além de cinco refeições por dia, os pacientes recebem garrafinhas de suplementos proteicos de fabricação alemã, selecionado pela nutricionista do hospital. “Já me deram duas dessa. Rapaz, cada uma custa de R$ 15 a R$ 20. Eles realmente investem no nosso bem-estar”, comenta João Oliveira sorrindo. Interessante também é ver como os pacientes se ajudam dentro do quarto. Para não sobrecarregar as enfermeiras, os mais saudáveis ajudam os mais debilitados a trocar de roupas e a desinfetar os colchões pela manhã.

Não há queixas contra médicos ou enfermeiras. Muito pelo contrário. Além disso, há uma pesquisa diária avaliando a satisfação de pacientes e visitantes. “O cardiologista visita meu pai todos os dias. E toda hora recebemos enfermeiras checando como ele está se sentindo. O bom humor deles é contagiante, mesmo pra quem está numa situação tão delicada”, afirma a pensionista.

A alimentação não lembra em nada a típica comida de hospital. Segundo João Oliveira, parece mais comida caseira ou de restaurante. “Me sinto em casa, comendo arroz, feijão, cenoura e peito de frango cozido. O mesmo que a gente come, os médicos, as enfermeiras e outros funcionários também comem. Não existe diferença”, garante sem velar a satisfação. Antes de ser internado, o idoso recebeu na sala de espera uma sopa reforçada.

A limpeza também chama atenção. É praticamente impossível encontrar sujeira nas dependências do hospital. “Eles passam álcool em tudo”, assegura Maria Neuza, lembrando que cada quarto tem um líder que é o responsável por conservar o ambiente limpo. Conversando com pacientes do Hospital João de Freitas, muitos declaram que só não morreram porque o maior diferencial é a qualidade do atendimento e o carinho dispensado aos mais fragilizados.

“Só que tem que seguir as regras. Eu, por exemplo, como sou acompanhante, só posso sair em horário de visitação. Tenho uma hora à tarde e uma à noite pra me ausentar do hospital”, revela a pensionista. Entre os pacientes de um quarto da enfermaria está o jovem artista de rua Everton Luiz Rodrigues, de 33 anos. Malabarista desde a adolescência, e sem residência fixa, anualmente ele passa por tratamento no Hospital João de Freitas, onde conhece praticamente todos os profissionais do setor de cardiologia.

Everton, que tem um defeito cardíaco congênito, não pode correr ou fazer qualquer atividade que acelere demais os seus batimentos cardíacos. Ainda assim, vive cada dia como se fosse o último e aprendeu dentro do João de Freitas que sempre há motivos para ter esperanças. No corredor silencioso, aproveitando a pouca movimentação, ele coloca um bonezinho sobre a cabeça e faz uma rápida performance, indo de um lado para o outro, exibindo um sorriso genuíno para a plateia composta por uma pessoa. “Adoro dança e teatro. Artes cênicas são a minha vida”, confidencia.

Saiba Mais

Fundado em 16 de dezembro de 1993, o Hospital João de Freitas surgiu com o objetivo de suprir a necessidade de um hospital regional com tecnologia e mão de obra especializada. Acesse também: www.hospitaljoaodefreitas.com.br

A primeira etapa da recuperação de Jessé Piedade

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Ex-morador de rua começa sua trajetória para se livrar do alcoolismo

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Jessé se comprometeu em mudar de vida (Foto: Guimarães Junior)

Demoramos um pouco para achar hoje de manhã a Casa da Misericórdia, em Apucarana, no Norte do Paraná, onde o ex-morador de rua Jessé Piedade começou uma nova trajetória para se livrar do alcoolismo. Inclusive penso até em escrever uma crônica sobre a aventura até encontrarmos o lugar certo. No mais, a viagem foi tranquila. Chegando lá, nos surpreendemos. A Casa da Misericórdia me parece um santuário, inclusive em muitos momentos me recordei do livro homônimo de William Faulkner sobre a face bucólica do cenário rural do Sul dos Estados Unidos.

Ao lado da rodovia, à esquerda, na saída de Apucarana para Curitiba, atravessamos um elevado trilho de trem, onde um sinal verde permitia a nossa passagem, mas não uma visão clara do que estava por vir. Ainda assim continuamos descendo, sem qualquer certeza de que finalmente encontraríamos por aquelas bandas a Casa da Misericórdia. Depois de percorrer quilômetros de um cascalho misturado a pedregulhos, observamos em meio a um cenário campestre, muito bem arborizado, por onde despontavam araucárias de proporções colossais, algumas edificações brancas como neve.

Subimos por uma estradinha ladeada por uma lagoa, passamos por uma ponte de madeira, um pomar e uma horta. Logo vimos muitos homens nos observando nos mais diversos pontos da casa de recuperação. Havia desde jovens a idosos – papeando, lendo, literalmente pastoreando ovelhas e curiosos para saber quem chegava.

Descemos do carro, cumprimentei os que nos observavam, e alguns metros acima fiquei admirado com a maneira como a vegetação nativa envolve a Casa da Misericórdia, reafirmando sua condição de santuário. Lá, onde parece impenetrável o sol escaldante, a realidade urbana chega a ser desinteressante, ofuscada por um frescor amarante. Mais ao alto, notei uma igrejinha de moldes clássicos, onde um senhor barbudo de mais de 60 anos se inclinava sobre um violão e dedilhava as cordas, atraindo um pouco de atenção e sorrisos.

Me aproximei do lugar mais movimentado da casa e perguntei se alguém poderia me dizer onde encontro Henrique, diretor da Casa da Misericórdia. “Ah, o Henrique saiu, mas ele me avisou que você viria. Já está tudo certo”, disse Canarinho sorrindo, um ex-alcoólatra que abandonou o vício há anos e hoje ajuda na coordenação da casa. Apresentei Jessé Piedade e falei um pouco de sua história. Canarinho o motivou, mas deixou claro que a recuperação vai depender da própria força de vontade de Jessé.

“Aqui a gente não segura ninguém. A pessoa tem que gostar de estar aqui. Eu, por exemplo, moro aqui há mais de três anos. Não quis mais partir. Agora quando a pessoa desiste do tratamento, o que fazemos é avisar quem o trouxe aqui”, garante num tom de voz cordial e sincero.

Jessé deixou claro que entendeu o recado e comentou que se identificou muito com o lugar, praticamente um pedaço de paraíso onde a fragilidade pode ser substituída por força e segurança. Lá, também encontramos Everton Luiz Rodrigues, um rapaz que já conhecíamos. Artista de rua e sem residência fixa, ele está passando uma temporada na Casa da Misericórdia enquanto aguarda um novo chamado da direção do Hospital Regional João de Freitas, de Arapongas, onde faz tratamento cardíaco.

Pouco tempo depois, Henrique chegou, me apresentei e repeti a história de vida de Jessé Piedade. Quando falei da cobra chamada Sogra, com quem Jessé circulava pelas ruas de Paranavaí, o diretor da Casa da Misericórdia achou graça. Em seguida, declarou que ficou feliz em recebê-lo e deixou claro que agora os bons resultados vão depender do recém-chegado.

Ao sairmos do local, percebemos um certo pesar de Jessé, já preocupado com a chegada de visitas. Entretanto, ele admitiu que vai lutar para provar que a vontade de renascer é maior do que o destemor de morrer. Confortante também foi ver de longe, quando descíamos pela mesma estradinha que nos trouxe, Jessé rindo, conversando com Everton Luiz. Agora o ex-morador de rua tem mais um amigo e um motivo a mais para se sentir feliz na nova casa.

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Jessé Piedade é bem conhecido em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, onde há alguns anos se tornou morador de rua em decorrência do alcoolismo.

Deslizamento de terra na PR-444

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Rodovia foi temporariamente interditada entre Arapongas e Mandaguari (Foto: Guimarães Junior)

Deslizamento que presenciei hoje à tarde, entre Arapongas e Mandaguari, no Norte do Paraná – ocasionando a interdição da PR-444. A chuva intensa no período da manhã e da tarde dificultou o tráfego em várias rodovias do Norte e Noroeste do Paraná. Também encontramos um veículo severamente avariado, mas sem vítimas, na BR-376, perto da entrada de Mandaguaçu. A foto é do meu irmão Guimarães Junior que estava comigo.

 

 

Written by David Arioch

January 11th, 2016 at 10:45 pm

“Nunca vou cortar com ela não!”

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Kengo Toyokawa fala sobre a estranheza dos homens de Paranavaí ao ver uma mulher barbeira em 1949

Barbearia funcionava junto ao Bar São Paulo (Acervo: Família Toyokawa)

Barbearia funcionava junto ao Bar São Paulo (Acervo: Família Toyokawa)

Em 1949, na barrenta Rua Manoel Ribas, no Centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, por onde trafegavam muitas carroças, não tinha quem não olhasse uma senhora no interior de um salão de duas portas aparando barba ou cortando os cabelos de algum cliente. “Mas, rapaz, mulher cortando cabelo de homem? Nunca vou cortar com ela não!”, diziam copiosamente os mais conservadores.

A cena rendia muita conversa. Um curioso chamava o outro e quando menos se esperava havia muita gente em frente ao salão discutindo sobre o assunto. “Essa mulher era minha avó, a dona da barbearia que se tornou a mais famosa da região. Naqueles primeiros anos, muita gente não aceitava e agia com preconceito”, diz o comerciante Kengo Toyokawa, proprietário do famoso bar homônimo.

Outros não se importavam, apenas ignoravam a conversa na entrada enquanto esperavam a vez de receber uma toalhinha confortável, quente e cheirosa que amaciava a pele do rosto. O corte de barba ou cabelo era sempre metódico e como diferencial privilegiava os detalhes. As técnicas seguiam os preceitos da tradição japonesa.

Mas a maioria da população masculina de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, acostumada a ser freguês de homens, estranhava os cuidados daquela mulher habilidosa de mãos leves e finas que além disso era uma boa administradora. “No começo foi esquisito, mas depois me acostumei. Quando saía de lá alguém sempre perguntava como foi e se valia a pena. Eu explicava que ela comandava o salão. Aí que o povo estranhava ainda mais: ‘Ué, será, mas a muié memo?’”, lembra o pioneiro João Mariano sem velar o sorriso.

A barbearia da avó de Kengo surpreendia também pela rapidez no atendimento. A equipe era formada por cinco profissionais. “Você pode me apontar uma barbearia hoje que tenha cinco barbeiros? É raridade!”, destaca o comerciante, acrescentando que o interesse por trabalhar no comércio surgiu com os avós.

Aos poucos, a fama da barbearia aumentou e em finais de semana muitos trabalhadores do campo, desde colonos até peões que atuavam na mata, vinham a Paranavaí de charrete. Percorriam quilômetros para cortar cabelo e barba no salão ao lado do popular Bar São Paulo que tinha três portas e também pertencia aos Toyokawa. “A boa fama foi longe”, resume Kengo Toyokawa.

Antes de se mudar para Paranavaí, a família trabalhou um bom tempo nas lavouras de café, pelo menos até conseguir guardar um pouco de dinheiro. “Antes meus avós e meus pais moraram em Guaritá [atual Nova Aliança do Ivaí]. O mais curioso é que depois decidiram investir no comércio sem saber falar português”, relata Toyokawa.

A princípio, foi bem complicado, mas a persistência e a vontade de garantir um bom futuro fez os avós de Kengo superarem até mesmo a barreira do idioma. “No começo, eles negociavam tudo por gestos, uma comunicação universal. Depois aprenderam a falar bom dia e outras frases básicas. As coisas foram se ajeitando”, enfatiza.

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Paranavaí e a sociedade de “colonização bruta”

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Uma cidade que de tão heterogênea surgiu com grandes falhas sociais

Paranavaí foi colonizada pelo próprio governo paranaense (Foto: Reprodução)

Sem planejamento, Paranavaí foi colonizada pelo próprio governo paranaense (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Não são poucos os pioneiros que afirmam que Paranavaí, no Noroeste do Paraná, é uma cidade formada a partir de uma sociedade de “colonização bruta”. Mas qual é o significado disso?Declarações como essa são justificadas por fatos envolvendo principalmente distinções culturais. Paranavaí foi colonizada pelo governo paranaense, ou seja, houve pouca participação ou abertura para a colonização de iniciativa privada ou planejada. Assim a organização precisava partir da própria comunidade.

Nos anos 1940, nos tempos da Fazenda Brasileira, Paranavaí contava com uma sociedade restrita, pouco sociável e formada pela política da conquista de novas terras. A colônia atraía todo tipo de gente porque os lotes eram baratos e, em algumas situações, até doados. “Havia a coletividade, mas sem articulação social. A maior parte das pessoas vinha pra cá com esse interesse em comum. Não socializavam quase. Assim surgiu uma sociedade com uma colonização bruta, sustentada apenas pelos mesmos objetivos econômicos”, afirma o pioneiro Ephraim Marques Machado.

Como havia povos das mais diferentes origens, por vários anos persistiu uma segregação entre os moradores. Muitos se relacionavam apenas com pessoas que vieram do mesmo estado, região ou país. “Em Paranavaí, naquele tempo, mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos. Sofri muito com isso”, lembra o pioneiro Sátiro Dias de Melo. O testemunho é endossado pelo pioneiro cearense João Mariano que viu muitos peões e colonos nordestinos serem escravizados por migrantes do Sul e Sudeste nos anos 1950 e 1960.

De acordo com Ephraim Machado, a heterogeneidade podia ser vista como um problema social, já que Paranavaí lembrava uma colônia dividida em pequenos povoados. “Os nortistas e os sulistas eram muito diferentes, então o distanciamento foi inevitável. Sem dúvida, algo que interferiu na evolução local. Paranavaí demorou para começar a se constituir como o que chamamos de sociedade nos moldes atuais”, avalia Machado.

População demorou para se articular socialmente (Foto: Toshikazu Takahashi)

População demorou para se articular socialmente (Foto: Toshikazu Takahashi)

A facilidade de acesso às terras fez Paranavaí receber muita gente diferente, não apenas migrantes que sonhavam com um pedaço de terra para construir uma moradia, plantar e assegurar o futuro da família. Aventureiros e oportunistas das mais diversas regiões do Brasil, até mesmo assassinos e ladrões, vinham para a região, crentes de que encontrariam um lugar isolado e de muitas riquezas. “O governo até fretava aviões para abandonar criminosos nas matas virgens das imediações de Paranavaí. O objetivo era não ter despesas e responsabilidades com essa gente”, diz João Mariano.

Pelo país afora, a colônia era conhecida como um local administrado pelo poder público, com pouca interferência da iniciativa privada. “Muitos gostaram daqui por isso”, declara Mariano. Já cidades colonizadas por companhias não atraíam tanta gente assim. O custo de vida não era barato e o investimento era maior em função do planejamento minucioso. E claro, também tinha mais exigências e mais burocracia. Outro diferencial é que em áreas loteadas pelo poder público havia menor participação de autoridades e maior facilidade na realização de negociações escusas.

Intimidada pelo baixo custo dos lotes da antiga Fazenda Brasileira, a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), conhecida por vender imóveis por preços mais altos, criou uma situação desconfortável entre as décadas de 1940 e 1950. “A companhia chegou até Nova Esperança e ali parou. Eles queriam nos isolar. Não deixavam ninguém fazer nada em Paranavaí, inclusive convenciam quem queria investir aqui de que seria um mau negócio”, lamenta Mariano.

Nos tempos de colonização, Paranavaí foi palco de muitas brigas de corretores de imóveis. “Não esqueço que em 1950, antes de me casar, eu morava no Hotel Real, na antiga Rua Espírito Santo, e ali mesmo o Cangerana assassinou um sujeito por causa de comissão de terras”, relata Machado. Os pioneiros também se recordam do episódio em que um homem matou na Avenida Paraná, no prédio do antigo Banespa, três pessoas que o enganaram em uma negociação.

Ephraim Machado: "As pessoas partilhavam apenas os mesmos interesses econômicos" (Foto: Toshikazu Takahashi)

Ephraim Machado: “As pessoas partilhavam apenas os mesmos interesses econômicos” (Foto: Toshikazu Takahashi)

“Os maiores crimes dos tempos da colonização foram provocados por causa de comissão e não disputa de terras”, ressalta Ephraim Machado, embora admita que houve muitas situações em que o capitão Telmo Ribeiro, braço direito do ex-diretor da Penitenciária do Estado do Paraná, Achilles Pimpão, e amigo do interventor federal Manoel Ribas, teve de intervir em casos de grilagem de terras. Ribeiro foi proprietário de uma fazenda que se transformou no Jardim São Jorge.

No entanto, nada se sabe sobre as implicações legais das atuações de grileiros em Paranavaí, deixando subentendido que muita gente pode ter construído fortunas sem se submeter, em qualquer momento, aos rigores da lei. “Desconheço qualquer caso de alguém de Paranavaí que foi punido por causa disso. Ainda assim, sei que encrenca maior se deu na Gleba Sutucu, Areia Branca, dos Pismel e também na Gleba 23. Teve quem foi tirado da terra à força. Juridicamente, não tenho a mínima ideia de como tudo foi feito”, comenta Machado.

O fato de Paranavaí ser tão grande até o início dos anos 1950 facilitava a grilagem de terras. À época, a colônia tinha uma vasta área que ia até as fronteiras com os estados do Mato Grosso (área do atual Mato Grosso do Sul) e São Paulo. Quem iria fiscalizar tudo isso e com quais recursos, sendo que hoje, mesmo com tantos avanços, ainda existe grilagem no Brasil?”, questiona João Mariano.

Sátiro de Melo: "Mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos" (Foto: Toshikazu Takahashi)

Sátiro de Melo: “Mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos” (Foto: Toshikazu Takahashi)

Uma transformação social imposta pela pecuária

O pioneiro Ephraim Marques Machado explica que até os anos 1960 era comum um proprietário de terras contratar meeiros para se responsabilizarem pela produção agrícola. “O camarada ia até São Paulo e Minas e falava: ‘Olha, eu tenho 200 alqueires em Paranavaí e vou produzir 100 mil pés de café. Preciso de cinco famílias e dou a ‘meia’ para plantar. Então ele dividia tudo em partes iguais e cada um cuidava de um pedaço”, exemplifica. Com isso, o bom resultado financeiro foi garantido até o surgimento das geadas. A última que castigou a região foi a de 1975.

Nas décadas de 1960 e 1970, Machado viu centenas de meeiros de Paranavaí migrarem para as regiões de Toledo, Marechal Cândido Rondon, Umuarama e Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Outros se mudaram para o Norte. Muitas propriedades foram transformadas em pasto depois de 1964 e 1965, quando a colonização caiu bastante. “É aquela: ‘onde entra o boi sai o homem’. O café já não tinha mais tanto valor e o pasto acabou com o que sobrou”, pondera Ephraim. Quem partiu para novas frentes de trabalho trocou a lavoura de café por algodão, amendoim e arroz.

Fazendas que tinham 300 alqueires e garantiam o sustento de pelo menos 15 famílias passaram a ser ocupadas por apenas uma. Em outros casos, nem isso. “A migração modificou a sociedade local. A própria cultura da cidade passou por uma transformação”, enfatiza Ephraim Machado.  A partir da década de 1970, Paranavaí, que até então atraiu tanta mão de obra para as lavouras, chamou muita atenção de empreendedores e pecuaristas de outras cidades e estados. Eram pessoas de alto poder aquisitivo que aqui se fixaram para ocupar posição de grande status econômico e social.

Saiba Mais

Nos anos 1950, já viviam em Paranavaí, além de migrantes de todas as regiões do Brasil, portugueses, italianos, alemães, poloneses, russos, ucranianos, tchecos, iugoslavos, húngaros, espanhóis, neerlandeses, japoneses, franceses, suíços, sírios e libaneses, além de outros povos.

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Alegria e sofrimento na era de ouro do rádio

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Ephraim Machado: “A gente tocava tudo com motor e bateria de carro”

Machado: "Difícil era fazer o aparelho funcionar numa época sem energia elétrica" (Foto: Diário do Noroeste)

Machado: “Difícil era fazer o aparelho funcionar numa época sem energia elétrica” (Foto: Diário do Noroeste)

 O pioneiro e empresário Ephraim Marques Machado chegou a Paranavaí, no Noroeste Paranaense, em 1948, pouco tempo depois que seu pai, agente fiscal do Governo do Paraná, foi enviado para instalar a Coletoria Estadual. Admite que no primeiro momento não gostou do que viu na colônia, então retornou para Londrina, onde morava com o tio Odinot Machado, homenageado com um nome de rua em Paranavaí. “Fiquei lá uns seis meses e meu pai insistiu outra vez. Disse que estava muito bom aqui, então voltei”, relata.

A princípio, Machado iria apenas ajudar o pai, mas dois meses depois decidiu investir em um serviço de alto-falantes. “Eu já queria conquistar a minha independência”, conta o pioneiro que nasceu em Castro, na região de Ponta Grossa, no Centro Oriental Paranaense. No final de 1948, Ephraim circulava pela cidade com um microfone e uma caixa amplificadora. Até hoje, lembra como as “vozes saíam por cima”. A sede da modesta rede de comunicação de Machado ficava em frente à Banca do Wiegando, na Rua Marechal Cândido Rondon, de onde administrava os dez alto-falantes espalhados em pontos estratégicos da cidade.

Algumas caixas podiam ser vistas perto do antigo Terminal Rodoviário e outras onde é hoje a Academia Unimed, na Avenida Distrito Federal. Quando o pioneiro anunciava algo em uma caixa, a mesma mensagem era reproduzida em todas as outras. “Foi assim até 1956, quando coloquei a Rádio Cultura no ar, um trabalho iniciado em 1950. Contratava gente da cidade e de fora, o que aparecesse”, explica. A sede da emissora na Rua Getúlio Vargas, onde é a atual Loja Ipiranga, chegou a ter três andares, dois construídos por Machado e um por Luiz Ambrósio.

Como a maior parte da população não tinha televisor e o cinema abria as portas somente aos sábados e domingos, o pioneiro cativava a comunidade com os programas de auditório. “Sempre aproveitava para levar ao Aeroclube [atual tênis Clube – em frente ao Ginásio Lacerdinha] os artistas que se apresentavam na rádio. Então o povo tinha a chance de assistir shows do Jorge Goulart, Nora Ney, Mestre Sivuca, Orquestra Casino de Sevilla e muitos outros”, cita.

No começo, o empresário tinha uma equipe de oito profissionais. Do total, cinco eram locutores. Quem chefiava a redação era o jornalista Ivo Cardoso, mas as notícias eram apresentadas por Jackson Franzoni e Evaldo Galindo. Havia muitos colaboradores, o que fazia a diferença quando surgiam problemas técnicos. “O equipamento de transmissão não era tão caro. O difícil era fazer o aparelho funcionar numa época sem energia elétrica. A gente tocava a rádio com motor e bateria de carro. Tudo era grande, até o gravador”, destaca.

Os problemas de transmissão eram frequentes, pois nem sempre o gerador de energia funcionava como o esperado. Às vezes, a rádio ficava dias fora do ar, um sofrimento inevitável. “Quando surgiu a primeira instalação elétrica, tive que puxar uma fiação de mais de um quilômetro de distância. Começava em uma chácara pra lá da Avenida Tancredo Neves e tinha que trazer por trás da Igreja São Sebastião”, conta o homem que trouxe a Paranavaí os mais diversos tipos de geradores de energia. O melhor funcionou bem por apenas seis meses.

À direita, construção da primeira rádio do pioneiro (Foto: Toshikazu Takahashi)

À direita, construção da primeira rádio do pioneiro (Foto: Toshikazu Takahashi)

No Brasil da época, pouco se ouvia falar em equipamentos de qualidade. A solução era importar quase tudo, inclusive gravadores, um privilégio para poucas emissoras do Norte do Paraná. Certa vez, o pioneiro fez a transmissão de uma eleição de Mandaguari, de quem Paranavaí ainda era distrito. Na ocasião, pediu emprestado um cabo de comunicação da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Infelizmente, de Alto Paraná até Paranavaí não se ouvia praticamente nada por causa da chiadeira.

Ephraim Machado considera os anos 1950 e 1960 como os melhores do rádio local e regional. A justificativa é que naquele tempo o espectro não era tão carregado. “Depois de alguns anos, melhorou bem. Conseguíamos falar até com pessoas de Santa Isabel do Ivaí e Porto São José. Hoje, a rádio AM não atinge esses lugares com a mesma potência. Só se for FM. Há muita interferência de sinais de TV, comunicação amadora, etc. Não temos mais o espectro livre”, frisa. Até o final da década de 1950, pelo menos 50% da população de Paranavaí já possuía um aparelho de rádio em casa.

Para Machado, o rádio começou a se popularizar no Brasil em 1942 e só em 1954 deu um grande salto, liderando a comunicação de massa no país. A chegada da Companhia Paranaense de Energia (Copel) fez a diferença na cultura radiofônica local a partir de 1964. “Em 1962, vinha uma sobra de energia de Maringá que durava das 20h às 6h. Era limitada, mas melhor que nada”, avalia.

Rádio Cultura ainda sem a tradicional fachada nos anos 1950 (Foto: Toshikazu Takahashi)

Rádio Cultura ainda sem a tradicional fachada nos anos 1950 (Foto: Toshikazu Takahashi)

As instabilidades do rádio em Paranavaí surgiram nos anos 1970, exigindo melhores estratégias dos comunicadores e empresários para manterem-se no ramo. Ephraim Machado perseverou e ainda montou a Rádio Caiuá FM em 1980, emissora que começou a operar em 1984. Como a realidade já era bem diferente e o empresário contava com mais recursos, trouxe a Paranavaí os equipamentos mais sofisticados.

“Subia em postes, puxava fio, consertava aparelho, motor e microfone…”

O pioneiro Ephraim Machado começou a trabalhar com radiodifusão aos dez anos. A primeira função foi de trocador de discos. Anos mais tarde, quando surgiu a oportunidade de montar uma emissora, aprendeu a fazer de tudo. “Subia em postes, puxava fio, consertava aparelho, motor e microfone. Mexia no estúdio cortando som e reformava a acústica para dar mais eco. Fui até faxineiro e transportador de óleo. Minhas lembranças são boas porque passei por todos os setores”, relata o pioneiro que fazia questão de ocupar o tempo livre com trabalho.

Machado fala com preciosismo dos tempos de repórter, quando entrevistou os governadores Moisés Lupion e Bento Munhoz da Rocha Neto, além do presidente Juscelino Kubitschek. Embora só fosse para as ruas quando faltava algum repórter, o pioneiro adorava fazer entrevista política em época de eleição. Segundo Ephraim, era algo mais livre, diferente de hoje que o entrevistador precisa estar atento às exigências da justiça eleitoral.

Emissora recebeu artistas como Jorge Goulart, Nora Ney e Sivuca (Foto: Toshikazu Takahashi)

Emissora recebeu artistas como Jorge Goulart, Nora Ney e Sivuca (Foto: Toshikazu Takahashi)

“Atualmente, você corre muitos riscos quando entrevista uma autoridade política. Só tem liberdade se for falar com suspeito de crimes, daí é costumeiro o repórter fazer a típica escarrada de besteiras que vemos por aí. É triste ver como temos tanto lixo na radiodifusão brasileira”, critica o empresário que em algumas situações perdeu boas entrevistas por causa da falta de energia. Às vezes, o gravador parava de funcionar de repente.

Uma das linhas da Rádio Cultura, fundada pelo pioneiro, chegava até a sede do Atlético Clube Paranavaí (ACP), atual Praça dos Pioneiros. A fiação foi feita por Ephraim Machado que a ligava a um amplificador chamado de “maleta”, uma espécie de base do famoso microfone de fio comprimido. “Quando era ao vivo, a gente sempre preferia fazer tudo no estúdio, por questão de segurança”, pondera.

O primeiro operador de rádio amador de Paranavaí

O pioneiro Ephraim Machado foi o primeiro operador de rádio amador de Paranavaí. No final dos anos 1940, se comunicava até com pessoas do Rio Grande do Sul. Muita gente o procurava para dar recados aos parentes que viviam em outras cidades e estados. “Repassava mais notícias de falecimentos e de necessidades primárias da população. Era um serviço em prol da coletividade. Perdi as contas de quantas vezes saí de Paranavaí para levar recado em Paraíso do Norte, São João do Caiuá, Planaltina do Paraná, Amaporã, Tamboara, Alto Paraná e outras localidades”, afirma.

Machado considera o rádio amador um veículo que ajudou o interior do Brasil antes da implantação do telefone. Muitas vidas foram salvas graças ao aparelho. “Meu principal sinal vinha de uma empresa cafeeira que se comunicava com os portos de Paranaguá e Santos. Servi Paranavaí por muitos anos nessas condições”, garante. O pioneiro também se recorda de um rapaz que no final da década de 1940 trabalhava como rádio telegrafista na colônia, a serviço de uma companhia de terras.

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Fafipa, a faculdade mais antiga do Noroeste do Paraná

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Nelson Akiyoshi: “Falavam que nossa cidade não tinha importância social nem estrutura para comportar uma faculdade”

Primeira sede da Fafipa, onde é o atual Senac (Foto: Selma Kozel Paupitz)

Primeira sede da Fafipa, onde é o atual Senac (Acervo: Selma Kozel Paupitz)

Em 1965, Nelson Akiyoshi era professor do Colégio Estadual de Paranavaí. Naquele tempo, Paranavaí tinha uma grande demanda de profissionais com formação superior. Então dentro do colégio surgiu uma discussão sobre a viabilidade de se fundar uma faculdade, a primeira do Noroeste do Paraná. “Nossa principal necessidade era formar professores, pois tínhamos poucos. O problema é que outros envolvidos aproveitaram a oportunidade para fazer propaganda política em cima dessa ideia, angariando votos”, contou Akiyoshi.

À época, o prefeito criou uma comissão com representantes do Núcleo Regional de Educação, além de autoridades de classe e magistrados. Segundo o professor, a preocupação maior do administrador municipal era mostrar que estavam se mobilizando. Em outro sentido, o presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual de Paranavaí, Ivo Cardoso, pediu para Nelson Akiyoshi assumir o trabalho da agremiação. “Fiquei como representante da criançada, dos alunos. Cada um tinha sua finalidade e aos poucos fomos afastando a comissão que criaram com intenção política”, explicou.

Os primeiros passos da Faculdade de Filosofia de Paranavaí

Preocupado, Akiyoshi começou a se aprofundar em estudos sobre implantação de instituições públicas de ensino superior. Algum tempo depois, acompanhado por alunos e professores, realizou uma viagem até Curitiba para conversar com a superintendente de ensino superior Maria de Lourdes Zanardini de Camargo. Entusiasmada com a ideia de uma faculdade em Paranavaí, a superintendente pediu que elaborassem um projeto detalhado e depois o encaminhassem a Curitiba.

Bem articulada, a equipe sob o comando de Nelson Akiyoshi preparou um projeto completo que incluiu levantamento socioeconômico de toda a região e declaração de autoridades públicas, inclusive do prefeito. “Foi um bom trabalho de base. Mandamos tudo para Curitiba e logo foi apreciado pelo Conselho Estadual de Educação. Era o primeiro passo para implantação da faculdade que começou municipal e se tornou estadual”, frisou.

Paranavaí tem uma das primeiras faculdades do interior do Paraná (Foto: Selma Kozel Paupitz)

Nelson Akiyoshi: “Políticos de Maringá foram até Curitiba reclamar de Paranavaí” (Foto: Reprodução)

Por problemas políticos e burocráticos, o Grêmio Estudantil e os professores engajados na conquista tiveram de recorrer a deputados estaduais e federais para agilizar o processo de instalação da instituição. “Vários abraçaram a causa porque entenderam como uma excelente oportunidade de conquistar mais eleitores”, declarou o professor.

Em 1966, apesar dos obstáculos, conseguiram a permissão para o funcionamento da Fundação Faculdade de Filosofia de Paranavaí que começou a operar com poucos professores de graduação superior. “Ficamos entusiasmados e contratamos mais docentes. O próximo passo foi a adequação dos professores. Incentivamos cada um a fazer especializações, cumprindo os quesitos legais para conseguirmos a certificação estadual. Foi muito trabalhoso, mas valeu a pena”, admitiu Akiyoshi.

“Maringá não gostou nem um pouco”

Paranavaí teve motivos para comemorar. Foi pioneira em ensino superior no Noroeste do Paraná, superando Maringá que apenas três anos depois conseguiu fundar a Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Maringá não gostou nem um pouco. Autoridades políticas foram até Curitiba reclamar de Paranavaí. Falaram que a nossa cidade não tinha importância social nem estrutura para comportar uma faculdade”, confidenciou.

Akiyoshi: "Políticos de Maringá falaram que a nossa cidade não tinha importância social" (Fotos: Arquivo Pessoal)

Akiyoshi foi o maior responsável pela criação da Fafipa (Fotos: Arquivo Pessoal)

A qualidade do ensino norteou a instituição logo no início. O entusiasmo dos professores em lecionar estimulou os acadêmicos a se tornarem docentes. “Tivemos essa felicidade. Se você der uma olhada no quadro de professores vai ver que há muitos anos formamos profissionais para darem aula na Fafipa. Claro, eles fizeram pós-graduação, mestrado e doutorado fora, mas a base é aqui”, defendeu o professor Nelson. No começo, não foram poucos os profissionais contratados pela faculdade que deixaram outros estados e cidades.

Akiyoshi se recordou da professora Lucinda Michelon que saiu do Rio Grande do Sul para dar aula de história em Paranavaí, além de muitos professores vindos de Curitiba. Nos primeiros anos, a instituição oferecia os cursos de pedagogia, iniciação em ciência (curso válido para lecionar a alunos de primeira e quarta série do ensino fundamental), geografia, história e letras. Como havia grande procura de professores em toda a região, o aperfeiçoamento era obrigatório para se manter no mercado de trabalho. A instalação da faculdade também permitiu que muitos regularizassem a própria situação.

Os vestibulares mais exigentes

Os primeiros vestibulares da Fafipa estavam entre os mais exigentes do Paraná, tanto que poucos inscritos conseguiam a aprovação. A solução era realizar segunda chamada para preencher o número de vagas. Mas isso não acontecia por desinteresse dos estudantes. A verdade é que nos anos 1960 e início de 1970, muitos alunos eram chefes de família com graves problemas financeiros. “Eles recorriam a nós pedindo ajuda. E o mais incrível é que sempre davam um jeito de participar dos movimentos estudantis. Havia uma seriedade surpreendente, rara hoje em dia”, avaliou o ex-diretor da Fafipa.

Logo no início, faculdade já atraiu estudantes de mais de 50 cidades (Foto: Reprodução)

Logo no início, a faculdade já atraía estudantes de mais de 50 cidades (Foto: Reprodução)

A instituição passou por sérias dificuldades econômicas nos primeiros anos. Houve várias promessas de repasse de recursos do Governo do Paraná, mas nada foi concretizado. O único apoio recebido foi do poder público municipal. Para evitar que a faculdade fosse fechada, Nelson Akiyoshi sugeriu a criação de uma mensalidade a ser paga de acordo com as condições financeiras dos estudantes. A ideia foi colocada em prática e mesmo recebendo pouco, os professores entendiam a situação e se empenhavam em ajudar.

A primeira sede da Fafipa foi na Avenida Rio Grande do Norte, onde é hoje o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). O prédio foi doado para a faculdade pela Câmara Municipal de Paranavaí. “Nosso compromisso era proporcionar educação. Bem diferente de uma instituição que visa lucro, fazíamos tudo com a intenção de evitar onerar os responsáveis pelo funcionamento da Fafipa e os estudantes”, ressaltou. Mais tarde, levando em conta as necessidades da região, a instituição foi atrás de novos cursos que contribuíram para transformar Paranavaí em um dos destinos preferidos dos estudantes do Norte do Paraná.

“Me afastei porque a Fafipa virou um trampolim político”

Nelson Akiyoshi lamentou que após algumas décadas a faculdade se tornou uma “sucursal” de outras universidades, recebendo poucos investimentos e tendo de se submeter a conflitos de interesses e jogos políticos. “Não começamos o nosso trabalho para tudo ser sucateado. Sofremos muito para que a Fafipa existisse. Depois a vimos perder o seu valor se comparada a tantas universidades bem mais jovens que se tornaram prioridade para o Governo do Paraná”, desabafou.

Sobre as dificuldades na implantação da faculdade, o professor citou as eleições de 1965, quando o prefeito José Vaz de Carvalho, comprometido em trabalhar para o candidato a governador Affonso Camargo Neto, mudou de lado e apoiou o adversário Paulo Pimentel. Já os professores e o Grêmio Estudantil seguiram a recomendação do governador Ney Braga e apoiaram Camargo Neto que prometeu agilizar a instalação da faculdade.

“O prefeito enganou o Ney Braga e nos deixou sozinhos, sem qualquer explicação. Pagamos o preço porque o Camargo Neto foi derrotado. Quando íamos até Curitiba pedir algo, o Paulo Pimentel se recusava a nos atender. Fazia aquele jogo de empurra”, reclamou. Independente dos problemas, os professores de Paranavaí perseveraram e em menos de um ano alcançaram o objetivo. Embora falasse a quem quisesse ouvir que a Fafipa o deixou muito orgulhoso e lhe trouxe algumas das melhores lembranças ao longo da vida, Nelson Akiyoshi nunca escondeu a mágoa de ver a faculdade transformada em uma instituição diferente da sonhada.

Professor Nelson: "Sofremos muito para que a Fafipa existisse" (Foto: Prefeitura de Paranavaí)

Professor Nelson: “Sofremos muito para que a Fafipa existisse” (Foto: Prefeitura de Paranavaí)

“Começamos a trabalhar com quatro turmas, uma de cada curso. Havia muito idealismo. Isso foi se acabando e me afastei porque a Fafipa virou um trampolim político. Sempre fui o que sou, dentista, então voltei pra minha profissão. Tinha largado tudo para me dedicar à faculdade”, enfatizou o professor que em 1966 teve que enfrentar uma pessoal crise financeira para se empenhar na conquista da permissão de funcionamento da instituição.

“Nelson Akiyoshi foi o maior batalhador da história da Fafipa”

Akiyoshi começou a lecionar porque gostava de trabalhar com adolescentes e jovens adultos. Se sentia realizado em uma sala de aula e envaidecido por mostrar o conhecimento que tinha para dividir com os alunos. “Eu desconhecia minha vocação como professor. Foi por uma casualidade que a descobri. Muitas vezes, passamos a vida sem saber que temos certos talentos”, salientou e disse que quando era professor de biologia se sentia mais jovem em contato com os estudantes.

O entusiasmo o animava tanto que sempre foi lembrado como um dos mais ativos líderes de grupos de estudantes e professores de Paranavaí. “Eu digo que o Nelson Akiyoshi foi o maior batalhador da história da Fafipa. Ninguém lutou tanto. Ele fez tudo acontecer com o trabalho de uma boa equipe formada por professores e alunos”, pontuou o comerciante Romeu Valmor Voida que ingressou na Fafipa em 1970 e se graduou em geografia.

Voida se conduziu pelo passado ao detalhar como era quando a instituição funcionava onde é o atual Senac. Segundo o comerciante, havia um prédio de “material” e outro de madeira com salas, biblioteca e diretório acadêmico. Na década de 1970, geografia, letras (inglês e francês) e pedagogia eram os cursos mais disputados. Pessoas de pelo menos 50 cidades do Paraná participavam do vestibular da Fafipa que oferecia também os cursos de estudos sociais e matemática.

Muitos chegavam sujos na sala de aula

Quando o professor Roberto Ferreira assumiu a diretoria, a instituição obteve o reconhecimento do governo federal. A carga horária mínima a ser cumprida era de 75%. A maior parte dos alunos evitava ao máximo faltar às faltas, mesmo que isso significasse chegar sujo à sala de aula. “Muita gente ia de kombi fretada pra faculdade. Não tinha asfalto e quando atolava tinha que descer e ajudar. Era lama pra todo lado e isso acontecia com frequência”, testemunhou Romeu Voida que se recorda dos contratempos enfrentados pelos muitos colegas de Porto Rico, Querência do Norte, Diamante do Norte, Itaguajé, Paranacity e outras cidades.

A Fafipa tinha fama de ser uma das melhores faculdades do interior do Paraná pelo alto nível dos professores, tanto que não havia reclamações quanto ao corpo docente. Voida decidiu cursar geografia quando retornou do exército e ingressou na empresa Transparaná. Foi convencido por quatro amigos que também se interessaram pelo curso. “Meu sonho era agronomia, mas era praticamente particular, não dava pra mim. Fui o último a entrar no grupo e o único a concluir geografia”, assinalou rindo.

Turma de geografia de 1973 se reúne a cada cinco anos

A turma de Voida já se reuniu várias vezes. Um dos eventos mais marcantes foi a festa de 25 anos após a conclusão do curso que contou com 33 dos 39 acadêmicos formados – 60% atuam na área. Depois realizaram o encontro de 30 anos com 22 ex-alunos. Houve uma queda no total de participantes porque vários faleceram. Alguns colegas de Romeu Valmor se tornaram prefeitos. Os exemplos são Cláudio Pauka em São João do Caiuá e Mário Miyamoto em Paranacity. Apesar de tudo, o grupo mantém o compromisso de se reunir a cada cinco anos.

Voida foi vice-presidente do diretório acadêmico em 1970. Nos anos subsequentes, assumiu como secretário, diretor e presidente. A responsabilidade da diretoria era lidar com os aspectos sociais da vida acadêmica. “Estávamos lá sempre que precisavam da gente. Organizamos muitas festas comemorativas. Quase tudo tinha nossa participação”, garantiu. Comparando passado e presente, o comerciante se queixou que na atualidade há muito individualismo entre os estudantes.

Para Romeu Valmor, a Fafipa só sobreviveu as adversidades graças ao empenho dos primeiros diretores e de muitos professores. “Foram profissionais excelentes, bem respeitados. Por isso a faculdade ainda está aí. As dificuldades existem sim e sempre vão existir, mas sempre cabe a diretoria correr atrás do que é melhor para a instituição, professores e alunos”, sugeriu.

Frase de Nelson Akiyoshi, primeiro diretor da Fafipa

“Hoje existe menos dedicação e menos compromisso. O aluno não sabe o que quer e larga um curso para fazer outro.”

Curiosidades

Antes da faculdade ser instalada na Avenida Rio Grande do Norte, atual Senac, o local já abrigava o Colégio Estadual de Paranavaí (CEP).

Em maio de 2013, a Fafipa completa 47 anos.

Observação do autor

Em 2006 tive a oportunidade de conversar por algumas horas com um dos principais fundadores da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (Fafipa), o ex-diretor, ex-vereador, professor e dentista Nelson Akiyoshi, falecido em 6 de julho de 2009, que desabafou e se emocionou ao relembrar os primeiros anos de funcionamento da faculdade. Infelizmente, perdi o arquivo da entrevista há alguns anos, mas o recuperei recentemente e o transformei nesta longa matéria. Outra importante e valiosa fonte sobre o assunto foi o comerciante Romeu Valmor Voida que ingressou na Fafipa em 1970.

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60 Anos de Paranavaí

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Paranavaí, 14 de novembro de 2012.

60 anos de um município com uma história que ultrapassa cem (Foto: Amauri Martineli)

São 60 anos de um município com uma história que ultrapassa os cem. Paranavaí não seria o que é hoje se não fosse por centenas de peões que criaram uma estrada com mais de 110 quilômetros de extensão ligando a velha Fazenda Ivaí ao Porto São José; se não fosse por pessoas que resistiram a 40 dias e 40 noites de chuvas dormindo em um barracão de bicho da seda. Além disso, reconstruíram uma ponte e atravessaram a nado o Rio Paraná para conseguirem chegar à Vila Montoya. Nem a Revolução de 1930, que culminou em desemprego para toda uma população que teve de caminhar mais de 220 quilômetros, impediu a colônia de renascer novamente sob o signo do café.

Nem mesmo uma série de incêndios criminosos que atingiu os cafezais e centenas de moradias em 1931 inviabilizou a sobrevivência do povoado. Paranavaí também não seria o que é hoje se não fosse a iniciativa do interventor federal Manoel Ribas para que o engenheiro Francisco Natel de Camargo diminuísse a influência paulista, abrindo novas estradas e ampliando a relação da Velha Brasileira com o restante do Paraná. Paranavaí tem uma extensa história de obstáculos, até mesmo por parte do poder público que só voltou a se preocupar com a localidade em 1935.

Infelizmente, muitos personagens importantes são praticamente desconhecidos da população. Falo do marceneiro Hugo Doubek, o curitibano que se tornou o primeiro administrador de Paranavaí. Doubek não apenas administrava a colônia, mas cuidava de toda a população. Quando houve um surto de leishmaniose em Paranavaí, passou dias na selva tentando encontrar ervas que pudessem lhe auxiliar na cura dos enfermos.

Não dormiu por semanas, prestando atendimento numa época em que a colônia não tinha médicos. Evitou a morte de muita gente, desde crianças a idosos. Fez muito mais; impediu assassinatos envolvendo brigas por terras. Como era um mestre marceneiro, até construiu casas para os moradores de Paranavaí. Em 1944, Hugo Doubek e Ulisses Faria Bandeira demarcaram toda a área da colônia a pé. Percorreram centenas de quilômetros até as fronteiras com São Paulo e Mato Grosso.

O ex-vereador Otacílio Egger é outra figura de destaque que todo paranavaiense deveria saber quem foi. O primeiro político eleito pela colônia, Egger fazia questão de participar de todas as sessões da Câmara Municipal de Mandaguari em 1948. À época, não se importava em sair de Paranavaí a pé num dia para estar em Mandaguari no outro para defender os interesses da população. Temos muitos personagens ainda anônimos, mas esses são alguns que faço questão de enaltecer neste dia em que comemoramos mais um aniversário.

Amo Paranavaí porque a conheço, e acho que não há nada mais incompleto que amar no desconhecimento.

Filmes poderão ser enviados a 2ª MIC até o dia 5 de setembro

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Mostra abre espaço para filmes de curta, média e longa-metragem

Nos dias 7 e 8 de outubro será realizada a 2ª Mostra Internacional de Cinema de Paranavaí (MIC) na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade. Para participar, basta inscrever algum filme de curta, média ou longa-metragem até o dia 5 de setembro, a contar da data de postagem. O objetivo da Fundação Cultural é incentivar a produção audiovisual e também dar visibilidade aos cineastas brasileiros e estrangeiros, amadores e profissionais.

Cada participante pode enviar quantidade ilimitada de trabalhos, no entanto, vale lembrar que ao se inscrever para a 2ª MIC automaticamente é repassado a Fundação Cultural o direito de exibição dos filmes, sejam para fins promocionais da mostra ou divulgação de conteúdo em eventos culturais e educativos. Também será oferecido ao público um ambiente propício a troca de informações.

Nenhum dos trabalhos enviados será devolvido, pois farão parte da videoteca da Fundação Cultural. A inscrição é totalmente gratuita, no entanto, o custeio do envio das obras é de responsabilidade dos realizadores. Os participantes precisam enviar duas cópias de cada trabalho em DVD e no formato DVD acompanhado de encarte que deve conter imagens da obra e sinopse.

Por se tratar de uma mostra não haverá prêmios em dinheiro. Porém, os dez melhores filmes de cada categoria, eleitos por uma comissão julgadora formada por profissionais ligados a comunicação social e ao cinema, receberão certificados de participação. Os trabalhos que não respeitarem o prazo de envio não serão exibidos. Informações sobre a programação e o funcionamento do festival serão publicadas em breve no site da Fundação Cultural de Paranavaí: http://www.novacultura.com.br. Para mais informações, basta ligar para (44) 3902-1128.

O regulamento e a ficha de inscrição podem ser baixados no seguinte endereço:

http://www.mediafire.com/?jm91wgadsf5gpeb

Museu preserva fragmentos da colonização de Paranavaí

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Espaço reúne um acervo de mais de 600 peças doadas por pioneiros

Uma das salas de exposição permanente do Museu de Paranavaí (Foto: Casa da Cultura)

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí, que funciona nas dependências da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, foi criado em 2007 e deste então se consolidou como importante referência para quem quer aprender um pouco sobre a colonização de Paranavaí, no Noroeste do Paraná

Mantido pela Fundação Cultural, o museu reúne um acervo de mais de 600 peças doadas por pioneiros. A coordenadora da Casa da Cultura, Rosi Sanga, explica que o espaço do museu conta com uma exposição permanente e uma temporária. “Há desde fotografias, objetos do cotidiano, instrumentos de trabalho, da história do café, itens numismáticos, documentos, obras de arte e coleções. É um acervo muito rico”, avalia Rosi, acrescentando que as fotos estão entre os maiores atrativos do museu e chamam a atenção de crianças e adultos.

Para muitos visitantes, principalmente aqueles que viveram o pioneirismo paranavaiense nos anos 1940 e 1950, estar em contato com tantas peças familiares evoca um tempo de muita saudade e nostalgia. “Enquanto as crianças se surpreendem, animadas com os instrumentos usados pelos avós, os mais velhos saem daqui chorando, muito emocionados”, revela a coordenadora, ressaltando que apenas de visitas aleatórias já receberam este ano milhares de pessoas, sem contar os estudantes que frequentam as oficinas da Casa da Cultura. Um dos destaques é a oficina Literarte que atende turmas de crianças e adolescentes no museu com o objetivo de reviver o passado a partir de brincadeiras, histórias e atividades artísticas.

Fotos estão entre os maiores atrativos (Foto: Casa da Cultura)

No Museu de Paranavaí, as peças estão contextualizadas e organizadas por categorias. Há inclusive reproduções de espaços que remetem a um estilo de vida pautado pela luta. Exemplo é uma estrutura montada pela coordenadoria do museu para transmitir às novas gerações a sensação de viver em um rancho no período de colonização. Objetos pessoais e do cotidiano dispostos com esmero num ambiente rústico dão a tônica de uma peculiar fidelidade. Há instrumentos muito bem conservados usados por parteiras e pelos peões que trabalhavam na derrubata de mata.

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí funciona de segunda à sexta das 8h às 11h30 e das 13h30 às 17h. Entretanto, caso haja pedidos de abertura em outros dias e horários, Rosi Sanga deixa claro que basta agendar uma data. “A ideia do museu nasceu de uma parceria com a professora doutora Luciana Regina Pomari, do Departamento de História da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (Fafipa). Desde então, fomos reconhecidos por todos os órgãos representativos nacionais e estaduais”, enfatiza Rosi. O Museu de Paranavaí também está em todos os catálogos e guias de museus do Brasil. Em 2007 e 2008, tiveram o acompanhamento da Coordenação do Sistema Estadual de Museus (Cosem) que ministrou cursos e treinamentos em Paranavaí. Para mais informações, basta ligar para (44) 3902-1049.

Site do Museu de Paranavaí: http://museuparanavai.webnode.com.br/