David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Nunca vou cortar com ela não!”

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Kengo Toyokawa fala sobre a estranheza dos homens de Paranavaí ao ver uma mulher barbeira em 1949

Barbearia funcionava junto ao Bar São Paulo (Acervo: Família Toyokawa)

Barbearia funcionava junto ao Bar São Paulo (Acervo: Família Toyokawa)

Em 1949, na barrenta Rua Manoel Ribas, no Centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, por onde trafegavam muitas carroças, não tinha quem não olhasse uma senhora no interior de um salão de duas portas aparando barba ou cortando os cabelos de algum cliente. “Mas, rapaz, mulher cortando cabelo de homem? Nunca vou cortar com ela não!”, diziam copiosamente os mais conservadores.

A cena rendia muita conversa. Um curioso chamava o outro e quando menos se esperava havia muita gente em frente ao salão discutindo sobre o assunto. “Essa mulher era minha avó, a dona da barbearia que se tornou a mais famosa da região. Naqueles primeiros anos, muita gente não aceitava e agia com preconceito”, diz o comerciante Kengo Toyokawa, proprietário do famoso bar homônimo.

Outros não se importavam, apenas ignoravam a conversa na entrada enquanto esperavam a vez de receber uma toalhinha confortável, quente e cheirosa que amaciava a pele do rosto. O corte de barba ou cabelo era sempre metódico e como diferencial privilegiava os detalhes. As técnicas seguiam os preceitos da tradição japonesa.

Mas a maioria da população masculina de Paranavaí, no Noroeste Paranaense, acostumada a ser freguês de homens, estranhava os cuidados daquela mulher habilidosa de mãos leves e finas que além disso era uma boa administradora. “No começo foi esquisito, mas depois me acostumei. Quando saía de lá alguém sempre perguntava como foi e se valia a pena. Eu explicava que ela comandava o salão. Aí que o povo estranhava ainda mais: ‘Ué, será, mas a muié memo?’”, lembra o pioneiro João Mariano sem velar o sorriso.

A barbearia da avó de Kengo surpreendia também pela rapidez no atendimento. A equipe era formada por cinco profissionais. “Você pode me apontar uma barbearia hoje que tenha cinco barbeiros? É raridade!”, destaca o comerciante, acrescentando que o interesse por trabalhar no comércio surgiu com os avós.

Aos poucos, a fama da barbearia aumentou e em finais de semana muitos trabalhadores do campo, desde colonos até peões que atuavam na mata, vinham a Paranavaí de charrete. Percorriam quilômetros para cortar cabelo e barba no salão ao lado do popular Bar São Paulo que tinha três portas e também pertencia aos Toyokawa. “A boa fama foi longe”, resume Kengo Toyokawa.

Antes de se mudar para Paranavaí, a família trabalhou um bom tempo nas lavouras de café, pelo menos até conseguir guardar um pouco de dinheiro. “Antes meus avós e meus pais moraram em Guaritá [atual Nova Aliança do Ivaí]. O mais curioso é que depois decidiram investir no comércio sem saber falar português”, relata Toyokawa.

A princípio, foi bem complicado, mas a persistência e a vontade de garantir um bom futuro fez os avós de Kengo superarem até mesmo a barreira do idioma. “No começo, eles negociavam tudo por gestos, uma comunicação universal. Depois aprenderam a falar bom dia e outras frases básicas. As coisas foram se ajeitando”, enfatiza.

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O impasse de terras durante a colonização

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Uma propriedade era vendida diversas vezes a várias pessoas em Paranavaí

Ulrico Goevert: “Antes da região ser aberta, ninguém queria vir pra cá” (Acervo: Casa da Cultura)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, entre as décadas de 1930 a 1950, os conflitos por posses de terras não envolviam apenas grilagem, mas também negociações em que uma mesma propriedade era vendida ou doada diversas vezes a várias pessoas e em tempos distantes.

De acordo com o pioneiro cearense João Mariano, o conflito normalmente surgia quando o proprietário encontrava a propriedade já habitada, o que significava que o imóvel foi vendido a outra pessoa. “O mais curioso é que os dois donos apresentavam documentos que comprovavam direitos sobre a mesma terra”, afirmou o padre alemão Ulrico Goevert em carta à revista alemã Karmelstimmen na década de 1950. Em alguns casos, o problema era resolvido amigavelmente. Em outros, só com o derramamento de sangue.

Não foram poucos os familiares de soldados reformados, combatentes da Guerra do Paraguai, ocorrida entre dezembro de 1864 e março de 1870, que apareceram em Paranavaí nas décadas de 1930 e 1950 para reclamar direitos sobre terras. Algumas escrituras eram tão antigas que foram assinadas pelo imperador Dom Pedro II entre os anos de 1871 e 1889. “Como o caixa imperial estava vazio, as tropas vencedoras foram pagas com terras legalmente documentadas”, frisou Goevert em publicação da Karmelstimmen em 1958.

Alguns proprietários não tinham recursos para investir na colonização (Acervo: Casa da Cultura)

Mas por que depois de décadas é que os primeiros proprietários apareceram para reclamar direitos de posse? A verdade é que muitos daqueles que foram beneficiados com propriedades em Paranavaí, inclusive soldados do Exército Brasileiro, não possuíam recursos financeiros para investir na colonização da área, além de outros que não tinham interesse em desmatar uma localidade que até então não era povoada.

“Antes da região ser aberta ninguém queria vir pra cá, mas depois apareceram proprietários com documentações do Século XIX. A situação se complicou porque o governo paranaense repassou as terras à colonizadoras que lotearam tudo e venderam pequenas parcelas aos colonos. Disso nasceu muita injustiça e revolta”, disse Goevert.

Em Paranavaí, também houve casos de pessoas que pagaram caro pelos imóveis e receberam documentos falsos. De acordo com o padre alemão, os problemas só começaram a ser resolvidos quando o Governo do Paraná enviou funcionários para lidarem com todas as situações envolvendo posse de terras. “Se alguém chegasse com documento antigo exigindo os seus direitos era estabelecido um acordo. Se a pessoa realmente quisesse aquela terra teria de pagar ao novo proprietário por todas as despesas com benfeitorias. Muitas vezes, a soma era tão alta que a pessoa desistia”, garantiu Ulrico Goevert.

Colonizadoras enganaram muita gente

Em publicação no periódico alemão em 1958, o padre também falou sobre as colonizadoras fraudulentas que ludibriaram muita gente. Algumas adquiriam glebas de pelo menos 20 mil alqueires e vendiam chácaras com 5 e 10 alqueires a preços abaixo do mercado. As negociações eram feitas em escritórios sediados em cidades bem distantes de Paranavaí, como São Paulo. “Muitos se interessavam apostando na especulação da terra. Então quando a propriedade já estava valorizada, o proprietário vinha conhecer o local e se deparava com pessoas já vivendo no seu imóvel”, destacou Goevert.

Colonizadoras enganaram muita gente em Paranavaí (Acervo: Casa da Cultura)

Quando o reclamante ia até a Inspetoria de Terras se informar sobre o problema, nada era feito. Sempre ouviam as seguintes palavras: “O senhor é só mais uma das vítimas desta colonizadora fraudulenta. Realmente teve azar.”

Entre os anos 1930 e 1950, nem todas as colonizadoras compraram terras, algumas as conseguiram após prestarem serviços ao Governo do Estado. Prática muito comum naquele tempo era a de aventureiros se embrenharem na mata virgem e percorrerem rios, realizando pesquisas topográficas sobre a região ao longo de meses. Encerrado o trabalho, o resultado era apresentado ao governador que em retribuição doava áreas de milhares de alqueires para o aventureiro colonizar.

Criminosos eram trazidos a Paranavaí

Os pioneiros perderam as contas de quantos refugiados e criminosos de outros Estados e países vieram a Paranavaí entre as décadas de 1920 e 1950. Não foram poucos os que mudaram de nome ao chegar à colônia, interessados em construir uma nova vida. “Também houve muitos que me confidenciaram terem praticado crimes hediondos. Mas eu não podia fazer nada, a não ser ajudá-los”, revelou o padre alemão Ulrico Goevert em publicação à revista alemã Karmelstimmen em 1958.

O cearense João Mariano lembrou que até a década de 1940, a mata primitiva de Paranavaí era muito usada pelo Governo Paranaense para despejar criminosos de alta periculosidade. “Até os anos 1950, jogaram muitos bandidos lá na região que hoje pertence a Nova Aliança do Ivaí, assim como em Querência do Norte. O Estado não queria mais gastar dinheiro com essa gente. Como a pessoa não tinha pra onde ir, no caso de sobreviver, o jeito era virar peão e se adequar à nova vida. Alguns ainda conseguiam trabalho como jagunços, pois eram bons no gatilho”, enfatizou Mariano.

Aqueles que preferiam manter o estilo de vida criminoso viviam somente o presente, sem se preocupar com o futuro. Por isso, muitos gastavam tudo que ganhavam com bebidas e orgias. “Quem vivia nesse mundo, mais cedo ou mais tarde, seguia essa sequência: roubo, morte e homicídio”, assinalou Goevert.

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Mortes que entraram para a história de Paranavaí

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Conheça os crimes dos anos 1950 jamais esquecidos pelos pioneiros 

Nos anos 1950, Paranavaí ficou conhecida em todo o Paraná como a “Capital do Crime” (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

No início dos anos 1950, Paranavaí ficou conhecida em todo o Paraná como a “Capital do Crime”. À época, acontecia pelo menos um homicídio por dia na cidade. Muitos assassinatos eram motivados por brigas envolvendo posse de terras.

Em Paranavaí, não há registros sobre centenas de crimes que aconteceram nos anos 1940 e princípio da década de 1950. Não são poucos os que foram enterrados como indigentes. Às vezes a família do falecido nem recebia o registro de óbito. Em muitos casos, a única informação discriminada no obituário era “causa mortis desconhecida”, deixando patente o desinteresse das autoridades em investigar muitos crimes. No entanto, restaram os pioneiros que, falando ou escrevendo, trazem à tona alguns dos fatos mais obscuros da história local.

O ceifador de vidas

Um dos personagens mais controversos da história de Paranavaí e região, quando todo o Extremo Norte do Paraná pertencia a Paranavaí, é o migrante paulista João Pires que atuou como jagunço em toda a colônia, principalmente em áreas que hoje pertencem a Loanda e Santa Isabel do Ivaí. Pires se tornou proprietário de uma fazenda conhecida como Derrubada Grande que mais tarde recebeu o nome de Guaritá e depois Nova Aliança do Ivaí.

Pioneiros contam que Pires era um ceifador de vidas, carregava “nas costas” dezenas de mortes, todas motivadas por posses de terras. O padre alemão Ulrico Goevert creditava todas as riquezas do migrante ao sangue que ele derramava por onde passava, sem qualquer remorso. “Durante anos, pensei em silêncio: espera um pouco, ‘Seu Pires’, e chegará o teu dia de cair liquidado no chão!”, revelou o frei no livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”. João Pires era famoso pelo requinte de crueldade com o qual tratava suas vítimas.

Ao migrante paulista, não interessava se eram jovens, velhos ou mulheres que viviam nas propriedades que era encarregado de grilar. Se a pessoa resistisse em desocupar a área, Pires “passava fogo” em toda a família, sem deixar sobreviventes. O migrante conquistou fortuna ao prestar serviços para fazendeiros. Naquele tempo, os “quebra milho”, como eram chamados os jagunços, ganhavam muito dinheiro com a grilagem de terras. O pagamento era proporcional a área que conseguiam desocupar. “Num determinado dia, o Pires encontrou seu justiceiro”, contou o frei alemão.

Assassinatos eram motivados por conflitos de posse de terras (Acervo: Ordem do Carmo)

O migrante paulista caiu em uma emboscada e foi alvejado com inúmeros tiros. Mesmo com tantos ferimentos, conseguiu ajuda e foi trazido a Paranavaí na carroceria de um caminhão. Internado no Hospital do Estado, resistiu ao máximo. Porém, cientes da gravidade do estado de saúde de João Pires, os médicos chamaram frei Ulrico para ministrar os últimos sacramentos.

“Fiz a minha obrigação sacerdotal. Algumas horas mais tarde, ele se levantou e chamou o médico, pediu que o curasse só até o ponto de estar em condições de se vingar do inimigo. Afirmou que o mataria a tiros”, lembrou o padre que reprovou a atitude do homem. Logo em seguida, João Pires arregalou os olhos e deu um grito exasperado: “Ali vem o diabo para me buscar!”. Depois disso, o homem caiu morto na cama.

Um amigo do migrante que também teve o mesmo destino foi “Gustavo, o Grande Brigão”. Se qualquer desconhecido o olhasse, o homem já arrumava confusão. Gustavo foi assassinado com tiros à queima-roupa pelo próprio motorista. “No dia do sepultamento, fui ao quarto do falecido e encontrei o cano de uma pistola no lugar de uma cruz”, relatou frei Ulrico.

O abraço da morte

No início da década de 1950, havia dois homens muito amigos que viviam às margens do Rio Paraná. Porém, a amizade foi abalada quando um soube que diante de outras pessoas o outro o criticava. Sentindo-se traído, o homem decidiu se vingar. Pegou o barco e atravessou o rio para encontrar o amigo. Quando chegou lá, no momento em que se cumprimentaram com um abraço, o homem traído cravou a peixeira nas costas do “amigo”, atravessando o coração. O autor do homicídio deixou o homem caído, agonizando até a morte, e voltou para casa.

Antes de chegar à margem, encontrou os dois filhos da vítima e gritou: “Visitei o pai de vocês. Ele os tratará melhor no futuro”. Sem entender, os rapazes seguiram para casa. Quando chegaram em terra firme e viram o pai morto nem pensaram em se vingar. Segundo o frei alemão Ulrico Goevert, os jovens ficaram gratos, pois o homem os maltratava demais.

“Ficou que nem bicho morto que você arrasta e joga no mato”

O pioneiro paulista João da Silva nunca se esqueceu da morte de um jagunço que vivia em Paranavaí e foi assassinado em Cidade Gaúcha, também no Noroeste Paranaense, em uma tentativa frustrada de grilagem de terras. “Quando isso aconteceu, nem enterrado ele foi. Ficou que nem um bicho morto que você arrasta e joga no mato. Ainda tenho lembranças de um turco que foi morto no centro da cidade”, destacou João da Silva em entrevista ao escritor Paulo Marcelo Soares da Silva, registrada no livro História de Paranavaí.

O pioneiro José Francisco Siqueira, conhecido como Zé Peão, se recorda da morte de dois japoneses e um mineiro. “Um peão veio lá da região de Santa Cruz do Monte Castelo buscar o pagamento em Paranavaí. Quando chegou aqui os japoneses falaram que não iriam pagar”, contou. Durante a discussão, o rapaz sacou a arma e atirou nos dois devedores. O motorista dos japoneses ainda tentou intervir, mas foi baleado e morreu. “Outra morte que chamou muita atenção foi de um tal de Canário, assassinado lá em Jurema [atual Amaporã]. Quem mandou matar foi um fazendeiro de Jacarezinho [no Norte Pioneiro Paranaense]”, frisou Zé Peão em antigo depoimento à prefeitura.

Em entrevista ao jornalista Saul Bogoni há algumas décadas, o pioneiro catarinense Carlos Faber citou como inesquecível a morte de dois brasileiros e um japonês em uma das ruas mais movimentadas de Paranavaí no início de 1946. “O japonês tinha uma fazenda e o rolo era por causa de terras. O que matou foi preso depois de alguns meses”, enfatizou.

Pessoas que os pioneiros apontaram como jagunços da Colônia Paranavaí

João Pires, Frutuoso Joaquim de Sales, Gustavo Brigão, Pedro Krüger, Laurentino, Narciso Barbudo, Napoleão, Chico Catingueiro, Pracídio, Macaúba, Canjerana, Maneco Borges, Nocera e Guri.

Curiosidades

Durante a colonização de Paranavaí, poucos eram os fazendeiros que se envolviam diretamente nos conflitos de terras. O costume era contratar jagunços ou “quebra milho” para tratarem da situação. Para isso, eram muito bem remunerados.

Era comum a fuga para o Mato Grosso quando a situação ficava muito complicada para os envolvidos em atividades criminosas em Paranavaí.

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A opressão na mata

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Empreiteiro escravizava peões que trabalhavam na derrubada de mata

Derrubada de mata atraía muita mão de obra nos anos 1940 e 1950 (Foto: Francisca Schueroff)

Nos anos 1940, muitos pioneiros de Paranavaí atuaram na abertura de estradas no Novo Norte do Paraná. Em algumas situações, as condições de trabalho eram tão precárias que os trabalhadores passavam fome e até morriam.

O que a população de Paranavaí desconhece até hoje é que muitas das vias que ligam a cidade a outros municípios, criadas há mais de 60 anos, tiveram um preço bem alto. Custaram dezenas de vidas de trabalhadores.

Na década de 1940, não havia nenhum tipo de fiscalização na abertura de estradas, assim permitindo que alguns empreiteiros do Governo do Paraná explorassem ao máximo os peões. Naquele tempo, a jornada de trabalho ultrapassava 16 horas diárias.

Quem viveu a dura realidade de trabalhar na mata, ajudando a abrir novas vias, foi o mineiro Arlindo Francisco Borges. O pioneiro passou por experiências surpreendentes em 1946, quando a Colônia Paranavaí se resumia a um “matagal mal fechado”, conforme palavras de Borges.

Naquele ano, Arlindo Francisco, que sonhava com um futuro melhor, chegou a colônia em uma jardineira da Viação Garcia que fazia a linha Londrina-Paranavaí. Logo conseguiu um serviço como peão. O trabalho na derrubada de mata era pesado e rendia 500 réis por alqueire, valor que era pago pelo Governo do Paraná. A primeira via aberta pelo pioneiro foi a Rua Paraíba, começando pelo antigo Terminal Rodoviário e indo até o antigo Cemitério Municipal, na região central.

“Abri também a Rua Acre, entre a Rua Bahia, perto da Santa Casa de Paranavaí, e Rua Mato Grosso. Meu irmão, um sobrinho e um amigo trabalhavam comigo”, relatou Arlindo Borges em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás. À época, um dos responsáveis por coordenar o trabalho de abertura de estradas era o Capitão Telmo Ribeiro.

O trabalho pesado durava pelo menos 16 horas por dia (Foto: Francisca Schueroff)

“A área que ele cuidava ia desde o Surucuá até o Jardim São Jorge”, disse. Em Paranavaí, quem executava e acompanhava as obras era o empreiteiro Zeca Machado que trabalhava para o Governo do Paraná. Borges e Machado tiveram uma boa relação de trabalho.

Além de criar novas ruas e avenidas em Paranavaí, o mineiro trabalhou muito tempo fora do povoado. Primeiro, ajudou a abrir uma estrada que ligou Paranavaí a Capelinha, atual Nova Esperança. “Também atuei na abertura de uma via daqui até o Porto São José”, declarou.

Quando estava abrindo uma estrada que ligava Maringá a Campo Mourão, Arlindo Borges viveu o pior momento da vida como peão. O empreiteiro da obra, de quem não citou o nome, não prestou nenhum tipo de assistência aos trabalhadores, muito pelo contrário, os tratou com um desrespeito e despotismo que beirou às raias da escravidão.

“Ele se recusou a dar comida pra gente, nos deixou com fome durante o tempo em que trabalhamos lá. Um dia, não estávamos aguentando mais, daí eu e mais cinco decidimos voltar pra Paranavaí”, revelou Borges, acrescentando que na região havia mais empreiteiros com a mesma índole.

Cinco dias sem comer nada

O caminho longo e tortuoso foi percorrido a pé pelos peões que há cinco dias não comiam nada. “A gente não tinha mais forças. Tivemos que posar no mato duas noites durante a volta, até chegar a sede da colônia. No caminho, viemos comendo banana que a gente encontrava na mata. Foi assim que conseguimos chegar aqui”, assinalou e ressaltou que se dependessem do contratante teriam morrido.

O fato mais alarmante narrado pelo pioneiro é que durante o trajeto encontraram muitas pessoas em situação semelhante. Havia um grande número de peões trabalhando em áreas próximas e muitos já estavam exauridos e doentes. Arlindo Francisco lembrou que os maus-tratos eram freqüentes e se a pessoa adoecesse era deixada para trás.

Nos casos em que os trabalhadores morreram, o empreiteiro apenas interrompeu o serviço, reuniu alguns peões e os enterrou na mata mesmo. O episódio se repetiu dezenas de vezes. Segundo Borges, o encarregado das obras nunca se preocupou em avisar a família do falecido ou em levar o corpo para a colônia. “Ele oprimia demais a gente e isso acabou só quando ele morreu”, desabafou.

Saiba Mais

Muitos peões foram esmagados por toras de árvores durante a derrubada de mata nos anos 1930, 1940 e 1950.

Frases dos pioneiros

João da Silva Franco

“Aqui nós fizemos ruas e estradas a braço porque não havia máquinas. Abrimos daqui a Nova Aliança do Ivaí [antiga Derrubada Grande e depois Guaritá], do finado João Pires, e também Amaporã que naquele tempo era Jurema.”

“Quando os peões se juntavam, rodava a pinga.”

Raimundo Leite

“Gustavo Marques, Lázaro Vieira, Antonio Foicim, Pedro Barizon e o Diamante também faziam a abertura das matas.”

Frutuoso Joaquim de Salles

“Em 1929, a Brasileira já estava instalada e o pessoal vinha aqui derrubar mato.”

José Ferreira de Araújo (Palhacinho)

“Tinha os coitados que trabalhavam no mato, no meio da mosquitada. No dia que vinham para a cidade traziam um dinheirinho e enchiam a cara.”

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O medo da onça!

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Paranavaí surgiu em meio ao habitat das onças

Onças abatidas por caçadores de Graciosa (Acervo: Casa da Cultura)

Nas décadas de 1930 e 1940, era comum os moradores da Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se depararem com cobras, antas, jaguatiricas, catetos, queixadas, macacos e veados-campeiros por causa da proximidade da área urbana com a mata. Mas nenhum desses animais assustou tanto a população quanto as onças-pintadas e pardas que viviam na região.

“Tinham que tocar elas para continuarem o trajeto”

Paranavaí surgiu em meio ao habitat de uma população de onças. A justificativa está em um fato corriqueiro percebido no início dos anos 1940, quando muitos migrantes que vinham para cá viveram a mesma experiência. Durante a viagem para cá, motoristas de ônibus e caminhões eram obrigados a parar os veículos porque as onças não davam passagem.

“As pessoas [até mesmo os passageiros] tinham que dar um jeito de tocar elas para continuarem o trajeto. A gente via também anta e cascavel na estrada”, relatou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho.

Tamanduá-Bandeira caçado nos anos 1950 (Foto: Francisca Schueroff)

Nem todos queriam afastar as onças. Alguns pioneiros que se arriscavam como caçadores, mesmo inexperientes, tentavam conquistar prestígio adentrando a mata para abater os animais. Contava-se muito com a sorte, algo que nem sempre os acompanhava. Quem aprendeu isso na prática foi um caçador amador do Povoado de Guaritá (atual Nova Aliança do Ivaí), antiga Derrubada Grande, vitimado por duas onças nos anos 1940.

“Tiraram carne de algumas partes para colocar em outras”

O rapaz estava caçando em companhia de alguns cães quando viu três onças empoleiradas em uma árvore. Não pensou duas vezes e atirou em uma. Ao ser atingido, o animal caiu e foi atacado pelos cães. “As outras duas onças pularam em cima do homem e começaram a rasgar as suas costas e nádegas. Quando os cachorros chegavam perto, aí que elas mordiam. Nisso, o rapaz já tinha jogado a espingarda e ficou lá deitado, então as onças correram pro mato”, frisou Palhacinho.

Quem socorreu a vítima foi o pioneiro Lourencinho Barbosa que o trouxe de carroça até Paranavaí. “Tiveram de tirar carne de algumas partes para colocar em outras. Ele passou por uma cirurgia em Curitiba e voltou aqui depois de três meses, todo deformado”, lembrou José Ferreira. O pioneiro mineiro Enéias Tirapeli jamais esqueceu o dia em que um homem chegou a Paranavaí com uma onça morta, deitada sobre o cavalo. “Até os animais se espantaram. O bicho tinha doze palmos de comprimento”, assegurou.

 

José Belentani- apelido era Balantam

Cães de caça usados na época da colonização (Foto: Francisca Schueroff)

Na época, vivia aqui José Belentani, conhecido como Balantam, que se tornou um dos maiores caçadores do Paraná depois que abriram a estrada para o Distrito de Piracema. Beletam matava até duas onças por dia. “Não esqueço quando ele chegou aqui com a onça debruçada no arreio do cavalo. Era tão grande que o focinho alcançava o chão”, contou o pioneiro cearense Raimundo Leite, acrescentando que Arlindo Baiano era outro grande caçador local.

“A onça arrancou cinco quilos de carne com uma mordida na nuca”

Se por um lado, alguns conseguiam prestígio e fama matando onças, por outro, a maioria preferia nunca encontrar o animal. Exemplo disso foi o pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros quando certa noite, retornando de viagem, parou em um rancho para descansar.

“As portas estavam fechadas e quando abriram perguntei do que eles estavam com medo. Aí me mostraram uma enorme porca de quem a onça arrancou cinco quilos de carne só com uma mordida na nuca”, enfatizou Tereziano de Barros que sentiu cheiro de onça durante todo o trajeto de volta a Paranavaí. Naquele tempo, o receio de encontrar o animal fazia muita gente pensar duas vezes antes de adentrar a mata ou sair de casa à noite.

Nos anos 1930 e 1940, foram registrados muitos casos de animais de criação mortos pela felina. “Uma vez o irmão do Pedro Palmiano foi ver a porcada dele e a onça estava comendo um porco. Ele ficou com tanta raiva que atravessou o animal com uma foice e um facão”, assinalou Paulo Tereziano. Também houve casos de mulheres que foram atacadas enquanto tomavam banho e lavavam roupas às margens do rio.

De acordo com o pioneiro catarinense Carlos Faber, os mais desatentos eram facilmente surpreendidos pelas onças. “Teve o caso de um rapaz que foi atacado por duas. Sorte dele que os companheiros vinham logo atrás e mataram os bichos”, ressaltou. O pioneiro paulista Valdomiro Carvalho perdeu as contas de quantas vezes ouviu barulho de onças na mata. “Eu usava uma carrocinha com dois cavalos e sempre carregava um encerado. Ouvia os bichos de noite quando eu pousava em algum lugar”, salientou Carvalho.

“Você já viu homem pegar onça assim?”

Nos anos 1940, o pioneiro José Ferreira de Araújo foi visitar o primo em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo. Em viagem a cavalo, passando por Santo Inácio e Guaraci, no Norte Central Paranaense, Araújo trouxe alguns cães de caça. O pioneiro seguiu pela Estrada Boiadeira, nas imediações de Santa Fé e Arapongas. “Era muito suja a Boiadeira, muito fechada. Tanto que eu tive que enrolar uns panos na cabeça porque tinha muitas abelhas e teias de aranha. Os cachorros até se enrolavam nos cipós. Na volta, a gente foi parar no Distrito de Sumaré”, disse.

A viagem que já era muito difícil ficava pior ainda quando escurecia e Palhacinho parava em algum lugar para dormir. O medo de onça era tão grande que o pioneiro colocava os animais de um lado e deitava “beirando o fogo”. Outro episódio jamais esquecido aconteceu quando ele e o companheiro Ulisses perseguiram uma onça ao final de uma corredeira no Rio Ivaí. “A água estava muito forte e ela nadava rio abaixo. O Ulisses me falou para correr e pular no bote. Liguei o motor e fomos atrás dela. Quando chegamos perto que vimos que era uma onça grande”, explicou.

Ulisses pediu que José Ferreira se aproximasse mais do animal para que pudessem pegá-la viva. “Aí eu falei: pegar nada! Você tá louco? Você já viu homem pegar onça assim?”, relembrou. Os dois continuaram seguindo o animal até que ele saiu do outro lado do Rio Ivaí. “O Ulisses passou a mão na espingarda e atirou, mas errou e ela sumiu”, revelou Palhacinho.

Saiba Mais

Na década de 1950, onças ainda invadiam propriedades rurais de Paranavaí.

Naquele tempo, não havia preocupação quanto à preservação de muitas espécies de animais.

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Dedicação à música clássica

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Conservatório Nice Braga levou arte erudita a mais de mil pessoas durante 44 anos

Salas de onde ressoavam os pianos Essenfelder e Schwartzmann (Crédito: David Arioch)

É impossível falar de música erudita em Paranavaí sem citar o saudoso Conservatório Nice Braga. Com uma história de 44 anos, a escola que encerrou atividades no final de 2006 formou mais de mil alunos em piano clássico. E mais, se tornou referência no Noroeste do Paraná, principalmente por usar as metodologias dos conservatórios europeus.

Em 1962, o professor Arnoldo Poll entrou em contato com a Prefeitura de Paranavaí e solicitou um terreno para a implantação de uma escola de música. No mesmo ano, o pedido foi atendido e a construção foi concluída em pouco tempo, graças ao empenho da comunidade que trabalhou sem cobrar nada. Assim surgiu o Conservatório Nice Braga que recebeu tal nome em homenagem a mulher do então governador Ney Braga.

Alguns anos depois, ainda na década de 1960, o professor vendeu o conservatório, a título de direito, para Luzia Guina Machado, também falecida, que administrou a escola durante 38 anos, segundo o ex-auxiliar administrativo do Conservatório Nice Braga, Israel Rodrigues, que entrou na escola de música em 1984 para estudar órgão. “A Luzia me convidou para ajudá-la na administração por dez dias. O tempo passou e fiquei 22 anos”, reitera Israel sorrindo.

Entre 1962 e 2003, sob dedos habilidosos os pianos ressoavam pelas imediações da escola de música, fazendo os transeuntes se sentirem imersos em um universo de beleza e sensibilidade. “Não conhecia música clássica, mas sempre que passava lá em frente ficava encantada”, relata a dona de casa Roberta Castelo. As releituras no conservatório incluíam composições como as clássicas sonatas de Beethoven e o primitivismo de Bartók.

Até o final da década de 1990, foram realizados muitos concursos no auditório da escola, segundo a professora de música Neuza Diogo que se matriculou no Conservatório Nice Braga com o objetivo de concluir o curso de piano clássico iniciado em São Paulo. “Em 1962, eu estava no sétimo ano fundamental e quando terminei me convidaram para dar aula”, lembra. O que começou como uma atividade remunerada casual durou 35 anos.

À época, quatro professores lecionavam na escola de música, mas logo foram contratados mais quatro. Segundo Neuza, a procura pelo curso de piano clássico era tão grande que o interessado tinha de reservar uma vaga em novembro para começar a estudar em janeiro. “Pra você ter uma ideia, só eu como professora assinei mais de 800 diplomas de alunos que concluíram estudos de piano. Em Paranavaí, a maioria dos conservatórios que vieram depois foram fundados por professoras que foram minhas alunas”, frisa.

A escola não era referência apenas para a população local. Professores de música de Nova Londrina, Loanda, Querência do Norte, Paraíso do Norte, Terra Rica, Alto Paraná, Nova Esperança, Nova Aliança do Ivaí e muitas outras cidades se formaram no Nice Braga. A qualificação profissional sempre foi o maior objetivo do conservatório que foi comparado às escolas de música da Europa.”Lembro da carta de uma aluna que se mudou para a Alemanha. Ela nos parabenizou pelo curso porque a nossa grade curricular é compatível com a deles. Houve o caso de um rapaz também que vive na Inglaterra e falou a mesma coisa”, enfatiza Rodrigues.

A professora Neuza Diogo admite ser impossível mensurar com precisão o total de alunos que passaram pelo conservatório. “Foram muitos, provavelmente mais de mil. Mas o auge, sem dúvidas, foi em 1968, quando tínhamos mais de 200 alunos. Dávamos aulas de piano, teclado, órgão, violão, violino, balé e jazz”, pontua.

O Silêncio do Nice Braga

Em 2006, o Conservatório Nice Braga perdeu a magia de outros tempos. Com apenas oito alunos matriculados, a impossibilidade de manter a escola aberta crescia a cada dia. Em um passeio pelas pequenas salas do conservatório, tornou-se comum encontrar os belos e bem conservados pianos Essenfelder e Schwartzmann, que antes pareciam ter vida própria e emocionavam os passantes, aposentados, relegados ao ostracismo. Lá fora, até mesmo vizinhos estranharam o silêncio.

O auxiliar-administrativo do Conservatório Nice Braga, Israel Rodrigues, diz acreditar que tudo foi uma consequência natural do desinteresse pela música clássica. Para ele, era como se as pessoas tivessem um bloqueio em relação ao erudito. “Se divulgar que teremos uma audição do gênero, acredite, apenas estudantes de música vão participar. Os demais não se importam”, lamenta. Opinião também dividida pela professora de música Neuza Diogo. “Hoje em dia, os alunos querem apenas o popular”, frisa.

Espaço agora abriga Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado (Crédito: David Arioch)

Espaço agora abriga Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado (Crédito: David Arioch)

Os primeiros sinais de mudanças surgiram na década de 1990, e dez anos depois as dificuldades aumentaram. Segundo Rodrigues, não sobrava mais dinheiro para suprir despesas com manutenção, limpeza e jardinagem. Até 2003, a situação foi contida porque os gastos eram proporcionais ao número de aprendizes. “Até o último momento, tínhamos oito alunos. Mas a situação já era insustentável e o jeito foi fechar a escola”, destaca.

Com o fechamento do Conservatório Nice Braga, o município reassumiu a propriedade e repassou R$ 12 mil aos familiares da ex-diretora Luzia Guina Machado pela realização de benfeitorias ao longo de décadas. Mantido pela Fundação Cultural, hoje o espaço é sede da Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado, onde dezenas de crianças e adolescentes participam gratuitamente de oficinas de música. Além disso, as características originais do imóvel foram mantidas, preservando a história do conservatório.

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Memórias de um Paranagoano

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Dedé é um desses pioneiros esquecidos pela história oficial, mas que contribuiu para a construção de um patrimônio

Dedé ajudou a construir o Terminal Rodoviário de Paranavaí (Foto: Leonardo Brito)

Dedé ajudou a construir o Terminal Rodoviário de Paranavaí (Foto: Leonardo Brito)

O autônomo José Jovino da Silva, conhecido como Dedé, de origem alagoana, abandonou o Nordeste e se radicou em Paranavaí em 1957. Aqui desempenhou muitas atividades, inclusive a de pedreiro na construção do Terminal Rodoviária Urbano, criado há mais de cinco décadas.

Dedé mudou-se para Paranavaí com o mesmo sonho de todos os migrantes e imigrantes: a oportunidade de uma vida melhor. Infelizmente, o objetivo pelo qual tanto lutou não foi alcançado, ou melhor, não da forma idealizada.

Mesmo assim, José Jovino admite, com calma e parcimônia, que nunca teve saudades da sua terra natal. “Saí de Alagoas com quatro anos, e do nordeste na adolescência, então me considero paranaense. Além disso, aqui se vive de forma mais digna, mais humana”, declara o autônomo que viveu na prática as agruras da seca nordestina retratada na obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.

O sabor e o aroma da farofa de mandioca com jabá, Dedé ainda preserva na memória, como um elemento cultural catártico que por um instante anula as experiências trazidas pela fome e miséria durante a infância.  “Lembro também da sede que sentia depois de comer”, diz o autônomo franzindo a testa e desviando o olhar. Tímido, José Jovino ri com as mãos tapando parte do rosto.

A iguaria tipicamente nordestina foi o principal alimento de José e mais 12 familiares durante sete dias de viagem, quando saiu da Bahia rumo a São Paulo. “Isso foi em 1955. Tinha 30 pessoas no caminhão pau-de-arara. Uma parte da carroceria estava ocupada por coco baiano e a outra parte por fumo arapiraca dos grossos. Viemos em cima de tudo isso. Embaixo tinha só uma lona”, afirma.

Durante a viagem mais longa de sua vida, deixando para trás amigos e familiares, Dedé teve a primeira experiência com uma fatalidade. Quando o caminhão estava chegando a Aparecida do Norte, em São Paulo, um senhor que sofria de distúrbios psicológicos saltou do caminhão, naquele momento, trafegando em alta velocidade. “Ele morreu na hora. Nem deu tempo de levar até um hospital. É uma cena que nunca saiu da minha memória”, informa em tom reflexivo.

Caminhão pau-de-arara trouxe José Jovino a Paranavaí (Foto: Roberto Faria)

Caminhão pau-de-arara trouxe José Jovino a Paranavaí (Foto: Roberto Faria)

Como se revivesse o passado, os olhos de José Jovino cintilam ao relembrar o primeiro contato com a malha viária. “Só conheci o asfalto em 1955. Também me emocionei no dia 7 de setembro daquele ano, quando vimos um desfile na Avenida Paulista, em São Paulo. Fiquei surpreso com um movimento tão bonito. Como fomos criados no mato, até babei de emoção”, frisa Dedé sorrindo e corando as maçãs do rosto.

De São Paulo, José Jovino veio ao Paraná. À época, com apenas 17 anos. Já estava acostumado ao trabalho braçal desempenhado desde os 14. Quando chegou a Paranavaí, Dedé conseguiu um serviço de colono, se responsabilizando pela produção de sete mil pés de café.

“Não deu certo porque houve uma crise financeira muito feia. Mas ainda bem que iam começar a construir o Terminal Rodoviário Urbano e me deram trabalho. Fiquei lá até o fim da obra. Lembro que tinha mais de 40 pessoas trabalhando”, reitera.

O autônomo José Jovino da Silva, 70, com fala mansa, disperso em um passado de satisfações e desventuras, diz que não sabe precisar quantas atividades desempenhou. “Já fui de tudo um pouco, mas nada me tomou mais tempo que a lavoura”, conta Dedé estendendo os braços e mostrando as mãos calejadas pelo trabalho braçal.

“Me sinto como se não existisse”

Na atualidade, o maior objetivo do autônomo é conseguir todos os documentos necessários para se aposentar. Sem qualquer registro de identificação, Jovino sofre por estar com a saúde debilitada e, mesmo assim, ter de trabalhar para se sustentar.

“Perdi tudo há 40 anos. Nem me recordo mais como é ter uma carteira de identidade. Durante muito tempo tive pelo menos o registro de nascimento, mas a casa em que morava tinha fiação elétrica muito velha e pegou fogo. Fiquei sem nada. Agora estou correndo atrás de novos documentos”, lamenta lacrimejando.

O desconhecido pioneiro sonha com a aposentadoria, para então tornar-se barbeiro, atividade que segundo ele não exige tanto esforço físico. “Antes tenho de voltar a existir legalmente. Me sinto como se não existisse”, comenta.

Saiba Mais

José Jovino da Silva nasceu em 1940.