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Liev Tolstói e o primeiro passo para o vegetarianismo

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No ensaio “Первая ступень” ou “O primeiro Passo“, publicado em 1892, o escritor russo Liev Tolstói, autor de clássicos como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, aborda a sua simpatia pelo vegetarianismo enquanto uma filosofia de vida de viés moral. Inclusive narra algumas histórias que o motivaram a tornar-se vegetariano. Ele também discute as implicações do consumo de carne e explica porque considera a exploração animal uma prática que endossa a violência. Usa como referência exemplos de visitas que realizou a matadouros em Tula, ao sul de Moscou. À época, o que o motivou a entender como funciona a indústria da exploração animal foi o livro “Ethics of Diet“, do britânico Howard Williams, publicado em 1883.

Para ler uma versão traduzida do ensaio, clique neste link.

 

 

Tolstói: “Não ouçam os médicos antigos que preconizam o uso da carne, porque o fazem unicamente por teimosia”

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Tolstói: “O movimento moralizador que constitui a base de todo progresso se cumpre sempre lentamente”

Quando Liev Tolstói foi questionado sobre o motivo pelo qual ele acreditava que a privação da carne é a primeira etapa para a vida moral, o escritor russo disse que a resposta poderia ser encontrada no livro “The Ethics of Diet”, de autoria do inglês Howard Williams, lançado em 1883.

Segundo Tolstói, a obra representa não apenas a voz de um homem, mas da humanidade, na pessoa de seus melhores representantes desde que chegamos ao que ele chama de idade da razão. Em seu ensaio “O Primeiro Passo”, publicado em 1892, o escritor russo justificou que embora a imoralidade da alimentação de origem animal seja conhecida, a verdade é que ela continua sendo ignorada porque a maioria prefere não confrontar a sua própria consciência moral.

“O movimento moralizador que constitui a base de todo progresso se cumpre sempre lentamente. […] Tal é o movimento vegetariano; este movimento está expresso tão bem por todos os escritos que se incluem no livro citado [The Ethics of Diet], como pela existência da própria humanidade, a qual tende mais e mais, sem que sequer o perceba, a passar da alimentação animal ao regime vegetal, e este movimento se manifesta com uma força particular e consciente no vegetarianismo, que adquire cada vez maior extensão”, escreveu Liev Tolstói.

O escritor fez essa otimista observação depois de ver a evolução do movimento vegetariano, principalmente na Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, onde, no início do século 20, já crescia o número de pousadas e hotéis vegetarianos. Para Tolstói, o vegetarianismo é um sinal da aspiração séria e sincera da humanidade em direção à perfeição moral. Poetizando os desígnios do vegetarianismo, comparou a alegria em ver a evolução do movimento com o exemplo de um homem disposto a alcançar gradualmente o andar mais alto de um edifício.

Para o escritor russo, o melhor caminho é o mais simples, ou seja, é preciso começar subindo o primeiro degrau da escada. “Aqueles que duvidam disso, leiam os numerosos livros escritos por médicos e sábios. Eles provam que a carne não é necessária como alimento. Não ouçam os médicos antigos que preconizam o uso da carne, porque a preconizaram seus antecessores; e o fazem unicamente por teimosia […]”, criticou.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Tolstói: “Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue”

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“Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois”

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Tolstói: ““A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os casco” (Foto: Reprodução)

Em um dia quente de julho, uma sexta-feira, o escritor Liev Tolstói visitou mais um matadouro em Tula, ao sul de Moscou. Sentiu um odor de sangue ainda mais intenso do que da última vez. O trabalho dos açougueiros prosseguia, e ele observava o pátio cheio de gado. Também havia animais nos galpões adjacentes ao prédio central.  Carretas e mais carretas carregadas de bois, vacas e bezerros chegavam ao matadouro.

Em alguns carros puxados por cavalos, ele viu bezerros vivos empilhados com as patas para cima. Os veículos se aproximavam do matadouro e descarregavam. “Havia ainda outros carros com bois mortos, cujas patas se moviam conforme as sacudidas do veículo. Mostravam suas cabeças inertes, seus pulmões vermelhos e o fígado marrom. Todos saíam do matadouro. Junto à cerca, havia cavalos montados, que pertenciam aos fazendeiros. Estes, com suas longas blusas e de chicote à mão, iam e vinham pelo pátio, ou marcavam com alcatrão o gado que lhes pertencia”, escreveu Tolstói.

Depois de negociar o preço, os fazendeiros vigiavam o transporte do gado do pátio até o galpão, e de lá até o prédio. Todos pareciam preocupados por causa das negociações. Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois. Se importavam tanto com isso quanto com a composição química do sangue que escorria pelo chão”, lamentou o escritor russo.

Não havia nenhum açougueiro no pátio. Todos trabalhavam.  Ao final do dia, tinham matado pelo menos cem bois. Tolstói entrou no prédio central e ficou junto à porta. Ele não poderia entrar porque não havia espaço. Enquanto o gado se amontoava, o sangue gotejava do teto, espirrando nos açougueiros. “Se eu tivesse entrado, também mancharia minha roupa”, enfatizou.

O escritor russo testemunhou um dos homens derrubando um boi enquanto outro animal deslizava por uma das pistas. No mesmo local, um boi com as patas brancas já não agonizava. Morto, era esfolado por um açougueiro. Pela porta oposta, passava um boi vermelho e gordo. Ele resistia enquanto o arrastavam. Mal chegou à entrada, e um açougueiro o golpeou no pescoço com um machado.

Caiu pesadamente no chão, voltou-se de lado e moveu convulsivamente as patas e o rabo. Logo outro açougueiro se lançou sobre ele, pegou-lhe pelos chifres, e fez com que sua cabeça ficasse rente ao chão para que outro açougueiro o degolasse. Pela ferida aberta, o sangue vermelho escuro brotava como de uma fonte, e um menino sujo de sangue o recolhia com uma bacia de metal. Apesar de tudo, o boi se esforçava para não morrer. Não parava de se mover, sacudindo a cabeça e agitando involuntariamente as patas.

“A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os cascos, o que obrigava os açougueiros a afastarem-se. Tão logo a bacia encheu, o rapaz a colocou na cabeça e a levou para a fábrica de albumina, enquanto outro menino trouxe outra bacia”, registrou Tolstói.

O boi esperneava desesperadamente. Quando cessou de correr o sangue, o açougueiro levantou a cabeça do boi e começou a esfolá-lo. O animal não tinha morrido. “Tinha a cabeça já esfolada e vermelha, com veias brancas. Sua pele pendia dos dois lados, e o boi não cessava de mover-se. Outro açougueiro pegou o boi por uma pata, a quebrou e a cortou: o ventre e as outras pernas continuavam estremecendo convulsivamente”, testemunhou o escritor russo.

Sem demora, alguns homens lhe cortaram os membros restantes e os lançaram em um monte, onde já havia muitos membros de animais. Depois arrastaram o boi, já sem vida, até a polia e o penduraram. Da mesma forma, morreram outros três bois. Todos passaram pelo mesmo processo; cortaram suas cabeças, cujas línguas pendiam entre os dentes. Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue. Se esforçava para escapar de suas mãos. Sem chance, o arrastavam ao centro do prédio e o golpeavam até cair.

“De perto, vi repetir a mesma operação, e de que maneira se obrigava os animais a entrar. Cada vez que pegavam um boi do galpão e o arrastavam por meio de uma corda amarrada aos chifres, o animal, farejando sangue, resistia, mugia e retrocedia. Dois homens não conseguiram arrastá-lo à força. Então um dos açougueiros se aproximou, pegou o boi pelo rabo, o torceu e rompeu-lhe uma vértebra. O animal avançou temeroso. Quando terminaram de matar os bois de um pecuarista, deram início ao abate dos animais de outro”, confidenciou o escritor russo Liev Tolstói.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Tolstói: “Já que se come carne, é preciso ver como se matam os bois”

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Tolstói: “A realidade teve mais impacto sobre mim do que a minha imaginação” (Foto: Reprodução)

Em uma sexta-feira, o escritor russo Liev Tolstói foi a Tula, ao sul de Moscou, encontrar um amigo que ele considerava bondoso e sensível. Durante a conversa, pediu que o acompanhasse até um matadouro. O homem concordou em conhecer as instalações, inclusive admitindo curiosidade, porém deixou claro que não entraria no local se os animais estivessem sendo abatidos. “E por que não? Precisamente, é isso que quero ver. Já que se come carne, é preciso ver como se matam os bois”, argumentou Tolstói.

O amigo, que também era caçador, logo um matador, declinou a proposta, mas acabou concordando. Quando chegaram ao matadouro, notaram um odor intenso e repugnante de putrefação. O mau cheiro aumentava conforme eles se aproximavam do edifício de tijolos vermelhos com cúpulas e longas chaminés.

“Entramos pela porta da garagem. À direita, há um grande pátio cercado, que tem uma área de um quarto de hectare. Ali é onde duas vezes por semana amontoam o gado vendido. A portaria fica na extremidade desse pátio. À esquerda, há dois prédios com portas ogivais. O pavimento é de asfalto, forma um duplo declive; e contém aparatos para pendurar os bois mortos”, informou o escritor russo.

Diante da portaria, eles viram seis açougueiros sentados. Estavam com os aventais ensanguentados e as mangas arregaçadas, exibindo braços musculosos. Como o expediente terminara há 30 minutos, eles descansavam. As portas abertas do matadouro ajudavam a amplificar o odor nauseante de sangue quente. Lá, viram um pavimento turvo e brilhante. Em suas valas, havia sangue coagulado.

“Um dos açougueiros nos explicou de que modo se mata, e nos mostrou o lugar em que acontece tal operação. Não a compreendi de todo, mas ao contrário do que eu pensava, a realidade teve mais impacto sobre mim do que a minha imaginação”, admitiu Liev Tolstói.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Written by David Arioch

January 6th, 2017 at 5:39 pm

Tolstói: “Sentia desejos de visitar os matadouros, para assegurar-me por mim mesmo da essência do problema de que se fala quando se trata do vegetarianismo”

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Tolstói: “Sentia desejos de visitar os matadouros, para assegurar-me por mim mesmo da essência do problema de que se fala quando se trata do vegetarianismo” (Foto: Reprodução)

No ensaio “O primeiro Passo“, o escritor russo Liev Tolstói, autor de clássicos como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, fala de sua simpatia pelo vegetarianismo enquanto uma filosofia de vida de viés moral. Inclusive narra algumas histórias que o motivaram a tornar-se vegetariano.

Na obra, ele conta que decidiu visitar Tula, ao sul de Moscou, quando falaram-lhe que os matadouros da localidade, seguindo o exemplo das grandes cidades, colocaram em prática um novo sistema, em que os animais sofriam o mínimo possível antes de serem mortos.

À época, o que o motivou a entender como funciona a indústria da exploração animal foi o livro “Ethics of Diet“, do britânico Howard Williams, publicado em 1883.

“Sentia desejos de visitar os matadouros, para assegurar-me por mim mesmo da essência do problema de que se fala quando se trata do vegetarianismo; mas me ocorria algo parecido a o que se nota quando se sabe que se vai experimentar um sofrimento agudo que ninguém pode impedir. Adiava sempre minha visita.

Mas recentemente encontrei no caminho um abatedor que ia a Tula. Era um trabalhador pouco hábil e sua tarefa consistia em amarrar os animais. Perguntei-lhe se não lhe davam pena os bovinos.

— O que obteria com isso? De qualquer forma, tenho que matá-los.

Mas quando lhe disse que não é necessário comer carne, a qual constitui um alimento de luxo, concordou comigo que verdadeiramente era de sentir.

— Mas o que fazer? É preciso ganhar a vida. Antes, temia matar: meu pai não matou jamais nem uma galinha.

De fato, à maioria dos russos lhes repugna matar, sentem piedade, e expressam tal sentimento pela palavra “temor”. Ele também temia, mas deixou de temer, e me explicou que a sexta-feira era o dia de mais trabalho.

Tive recentemente uma conversa com um soldado, açougueiro, que também se admirou ao dizer-lhe eu que era uma lástima matar. Contestou-me que é um costume necessário; mas finalmente, concordou que dá pena, e acrescentou:

— Sobretudo quando o boi se encontra resignado e manso, quando vai ao abate com toda confiança. Sim, inspira muita piedade.

É horrível! Horríveis são, de fato, não os sofrimentos e a morte dos bovinos, mas o fato de que o homem, sem nenhuma necessidade, cale seu sentimento elevado de simpatia por seres vivos como ele, e seja cruel vencendo sua repugnância. Quão profunda é no coração do homem a proibição de matar a um ser vivo!”

“O primeiro Passo” foi escrito originalmente em 1892.

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Tolstói: “O porco gritava de um modo desesperado, com gritos que pareciam humanos”

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“Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos” (Foto: Reprodução)

Entramos numa aldeia, e vimos, com perdão seja dito, um porco engordado, branco rosado, que pegaram em uma casa para matá-lo. O porco gritava de um modo desesperado, com gritos que pareciam humanos. No momento preciso que passávamos por ali, começaram a degolá-lo.

Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos; o animal escapou, mas o seu sangue escorria. Sou míope, e não vi todos os detalhes da cena: vi unicamente um corpo rosado como o de um homem e ouvi os grunhidos desesperados. O carroceiro observava tudo aquilo sem afastar a vista. Pegaram de volta o porco, o derrubaram e o submeteram.

Quando cessaram seus gritos, o carroceiro lançou um profundo suspiro:

— Como pode Deus permitir isso?

Tal exclamação demonstra o profundo asco que inspira ao homem a matança. Mas o exemplo, o costume da voracidade, a afirmação de que Deus admite tais coisas, fazem com que os homens percam por completa esse sentimento natural.

Liev Tolstói, O Primeiro Passo, página 20, publicado originalmente em 1883, como prefácio de A Ética da Dieta, de Howard Williams.

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