David Arioch – Jornalismo Cultural

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Hoje é aniversário do Tio Lu

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Tio Lu usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime (Foto: David Arioch)

Hoje é aniversário do Tio Lu, da Oficina do Tio Lu. Fui até a Vila Alta dar um abraço nele e conversar um pouco. Ele está muito feliz de chegar aos 87 anos com pique para trabalhar e para ajudar a garotada do bairro. Tio Lu, que foi tema do meu documentário “Oficina do Tio Lú“, usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime.

Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 12:33 am

As transformações da Vila Alta

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Era um abandono total e você pode não concordar, mas acredito que o nosso trabalho tem parte nisso

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Tio Lú: “Com a sua ajuda, quero continuar sonhando mais pelos outros do que por mim” (Foto: David Arioch)

Fiquei feliz e emocionado hoje quando visitei o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima, o Tio Lú, idealizador da Oficina do Tio Lú, na periferia de Paranavaí. Durante um tranquilo bate-papo, ele me relatou que a Vila Alta não é mais o mesmo bairro de três anos atrás.

“Aqui antigamente você via briga direto nas ruas, nem que fosse bate-boca e confusão por bobagem. Assassinatos ou outros tipos graves de crimes não acontecem no bairro tem muito tempo. São raros. Nem sei te dizer quando foi a última vez. E notei que até moradores agressivos estão mais tranquilos, mais civilizados, mais tolerantes. Sempre fico sabendo de novos casos de criminosos que abandonaram a vida errada. Até as crianças estão mais conscientes de certo e errado, de suas obrigações. Parece que muita gente do bairro hoje se sente mais humana, menos insignificante. É como um renascimento. Aqui era um abandono total e você pode não concordar, mas acredito que o nosso trabalho tem parte nisso. Foi só depois que você começou a frequentar o bairro, ajudando, dedicando tempo, fazendo documentários e reportagens sobre a oficina e a vida dos moradores da Vila Alta, que surgiram melhorias, que a atenção se voltou um pouco para este lugar, melhorando até a autoestima da população. Você fez a Vila Alta existir para quem nem sabia que existia periferia em Paranavaí. Claro, não somos perfeitos, a oficina tem suas falhas, mas acredito que ela também tem feito a diferença no bairro, principalmente na vida dos mais jovens. E vejo os pais e avós também reconhecendo isso, o que é muito importante. Estou perto de completar 86 anos e às vezes tenho a impressão de que estou chegando no fim da linha, mas quero persistir e ver novas mudanças. Com a sua ajuda, quero continuar sonhando mais pelos outros do que por mim. Não tenho mais ambições pessoais na vida, a não ser ajudar essa molecada.”

A Oficina do Tio Lú é um dos trabalhos mais belos que conheci e tive o privilégio de acompanhar de perto. Durante a conversa, não pude deixar de dizer como é admirável ver alguém se doar tanto aos 85 anos, ainda mais levando em conta que nessa etapa da vida o ser humano tem grande facilidade em sofrer com crises existenciais. Também acho justo dizer que não consigo enxergar meu trabalho como tão importante, mas é muito gratificante ouvir algo assim do Tio Lú, de quem me tornei amigo no início de 2009.

Hugo e Matheus

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Os dois novos alunos da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

Os dois novos alunos da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

Os irmãos Hugo e Matheus, um tem sete anos e o outro tem dez, são os novos alunos da Oficina do Tio Lú, na Vila Alta. Moradores do Jardim São Jorge, eles percorrem quilômetros de distância para aprender artesanato em madeira. “Em mais de dez anos de oficina, é o primeiro caso de pais que trazem os filhos nas minhas aulas. Isso me anima muito porque quase sempre as crianças chegam aqui sozinhas ou por iniciativa minha”, conta Tio Lú.

Para conhecer o trabalho do Tio Lú, acesse: https://davidarioch.com/2014/02/22/oficina-do-tio-lu/

Written by David Arioch

December 31st, 2015 at 11:35 am

Lelinho: usuário de drogas, ladrão e possível aidético

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Rapaz se tornou refém do narcotráfico com 12 anos e hoje não pode sair às ruas quando quer

Luiz Carlos: "Ele entrou num estado profundo de decomposição social e moral" (Foto: David Arioch)

Luiz Carlos: “Ele entrou num estado profundo de decomposição social e moral” (Foto: David Arioch)

Ao longo dos anos, vi muitas vezes na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, um garoto magricela de estatura mediana com as pupilas dilatadas, olhar sempre desconfiado, cabelos desgrenhados, rosto relativamente sujo e pés encardidos, que há muito tempo não recebem outro calçado que não seja um velho par de chinelos surrados. Para preservar sua identidade, o chamo de Lelinho. Hoje, com 18 anos, não gosta de ser observado, apesar de não reclamar, mas há muito tempo deixou de ser sociável. A forma como percorre as ruas do bairro em horários estratégicos denuncia que é procurado por integrantes de uma facção criminosa. Usuário de drogas, Lelinho está devendo, só que nem a camaradagem dos tempos de “laranja” do narcotráfico é capaz de garantir a sua integridade física. De vez em quando chega em casa todo machucado, com hematomas dos pés à cabeça.

Por enquanto o jovem está autorizado a viver. Até quando? Ninguém sabe. Já recebeu inúmeras visitas de homens armados avisando que qualquer dia a dívida vai ser cobrada com muito sangue. Refém do vício em crack, Lelinho já invadiu muitas casas para furtar fiação elétrica. Dava preferência por residências com placas de “aluga-se”. Quando os espólios eram insuficientes para sustentar o vício, apelava aos mais próximos. Chegou a furtar uma coleção de calcinhas novas de uma tia. Também vendeu o chuveiro de casa, as galinhas da avó e as ferramentas de ferraria e marcenaria do pai e do avô. Em síntese, “tudo virava pedra”.

Durante algum tempo trabalhou fazendo fretes e recolhendo produtos recicláveis com a carroça do avô. Motivado pela dependência química ainda furtava materiais e ferramentas que encontrava em áreas de construções. Mais tarde, por descuido, o cavalo adoeceu e morreu. A carroça foi abandonada no quintal, onde apodrece aos poucos escorada no tronco de uma sibipiruna. Ocasionalmente Lelinho circula de bicicleta por outros bairros e pelo centro de Paranavaí. Não se incomoda com o som ruidoso, o desconforto e os perigos das duas rodas sem pneus. Inclusive usa um rabicho improvisado para arrastar um carrinho barulhento, sem os aros de borracha. Sempre que recebe uma nova ameaça se afasta das ruas e se esconde dentro de casa por pelo menos um mês. Tem o apoio dos avós que se negam a reconhecer que o neto é usuário de drogas.

Um dia o avô pediu a um vizinho para chamar a polícia, alegando que Lelinho teve um surto e estava quebrando tudo dentro de casa. Quando a viatura chegou o idoso sorriu e tentou explicar que era só pra dar um susto no neto. “Não leva ele não, por favor!”, suplicou, se negando a admitir a seriedade da situação. Diariamente, assim que a escuridão toma conta de uma das ruas mal iluminadas da Vila Alta, Lelinho caminha até a entrada da casa de um vizinho, se agacha e recolhe as sobras de alguns cigarros de maconha. Em seguida, pacientemente transforma os restos misturados à fuligem e sujeira em um “baseado”. Depois de acendê-lo, senta sobre uma calçada estreita de cimento e ignora tudo à sua volta, até mesmo a presença de outras pessoas. É surpreendente o seu empenho em se distanciar da realidade.

Um dos trabalhos feitos por Lelinho quando participava da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

Um dos trabalhos feitos por Lelinho quando participava da Oficina do Tio Lú (Foto: David Arioch)

O artista plástico Luiz Carlos Prates já tentou ajudá-lo muitas vezes, só que o rapaz se nega a ouvi-lo. “Entrou num estado profundo de decomposição social e moral. Quando não está se drogando, ele passa muito tempo dormindo. Acorda de madrugada e fica vagando por aí”, lamenta Luiz Carlos. Na época em que comercializava crack, a entrada da casa dos avós virava ponto de venda. Sentado em uma cadeira na calçada, e entre um gole e outro de cachaça, o avô virava o rosto e fingia que não via nada. Ao anoitecer, encostavam carros, motos e bicicletas de vários bairros de Paranavaí. “Parecia um ‘enxame de abelhas’, onde tem droga tem gente. Era aquele desfile. Lá encostava cada carrão”, garante o artista plástico.

Mesmo atuando no narcotráfico, o rapaz nunca conseguiu comprar nada, inclusive se tornou laranja porque ficou devendo para a mulher que lhe deu as primeiras pedras de crack. Em uma rara ocasião o garoto apareceu na casa do artista plástico para mostrar o “presente” que recebeu. Ingênuo e orgulhoso exibiu um telefone celular. Um aparelho velho sem a tampa traseira. “Tu não vê que essa mulher só quer te usar? Ela só lucrando e você aí na merda, se afundando cada vez mais. Te deu essa porcaria pra tu avisar ela quando a polícia chega e te complicar mais ainda. Vai ficar andando todo sujo com esse chinelo de dedo velho até quando?”, disse Prates exaltado e preocupado. Mais tarde, a traficante que o introduziu no mundo das drogas foi expulsa do bairro, o que não o livrou desse caminho porque o garoto começou a trabalhar em outra “boca de fumo”. Hoje não atua mais no narcotráfico, mas ainda é perseguido pelas dívidas que contraiu com o vício.

Ontem o artista conversou com Lelinho e o irmão mais velho do rapaz. Os dois usuários de drogas saíram há poucos dias da prisão por envolvimento com furtos. “O verdadeiro malandro sou eu que estou nesta vida com 85 anos e nunca fui preso, nunca usei drogas, nunca fumei. Tu acha que é malandragem estar preso, sem liberdade pra fazer nada? Perde os melhores anos de sua vida na cadeia, uma luta inglória, não ganha nada!”, aconselhou Luiz Carlos. Para piorar, Lelinho e o irmão tiveram relações sexuais com uma moça do bairro diagnosticada com Aids. Ainda assim o jovem evita falar sobre o assunto e deixa claro o seu desinteresse em procurar ajuda médica. “Está cada vez mais seco e vive fedendo. Quem cuida das roupas dele é uma prima que busca, lava e passa. Faz até compras no mercado pra ele. Segue nessa vida de dependência química há seis anos. Não percebe que isso o destruiu”, destaca o artista plástico.

“Olha, filho da puta, quando eu crescer vou comprar um 22 e te dar um tiro na cara”

Morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, Lelinho começou a ficar agressivo aos sete anos, quando o pai o levava para a escola com uma carroça. Com o tempo o garotinho não quis mais saber de estudar. Rebelde, saltava do veículo e corria o máximo que podia, se embrenhando na mata do Bosque Municipal de Paranavaí. Para coibir as fugas, um vizinho se dispôs a ajudar. Ia atrás de bicicleta para segurá-lo, caso corresse.

Em uma das vezes que foi segurado pelo braço e não conseguiu escapar o menino esbravejou: “Olha, filho da puta, quando eu crescer vou comprar um revólver 22 e te dar um tiro na cara.” Apesar das ameaças, até hoje nunca segurou uma arma. Nem mesmo reagiu nas muitas vezes em que foi espancado depois de se tornar usuário de drogas. Quando Lelinho estava com 10 anos, o artista plástico Luiz Carlos Prates o convidou para participar da Oficina do Tio Lú, projeto que ensina crianças e adolescentes a criarem obras de madeira. O garoto concordou. Na realidade, mais do que isso, ficou eufórico. Logo se tornou um dos melhores alunos da oficina, tanto que Luiz Carlos se emociona ao se recordar da dedicação de Lelinho. “Fazia cada coisa linda. Era caprichoso demais”, lembra.

No entanto, houve um período em que o artista plástico precisou interromper a Oficina do Tio Lú para produzir obras a serem comercializadas na ExpoParanavaí. Com o fim da feira agropecuária que exigiu dez dias de dedicação do artista, Luiz Carlos procurou Lelinho e logo ficou receoso por não encontrá-lo. “Um traficante foi preso e a mulher dele assumiu a boca de fumo, então ela começou a iludir crianças e adolescentes para entrarem no esquema. Uma dessas crianças era o meu aluno que na época não tinha completado nem 12 anos”, revela. Lelinho não era mais o mesmo. Não queria mais conversar com Luiz Carlos e adquiriu o hábito de se esconder. Quando passava perto da casa do artista, atravessava a rua ou virava o rosto.

“Tentei falar com os avós do menino, contar que o comportamento dele era de um usuário de drogas. Não quiseram acreditar. Só que não demorou pra ele começar a furtar. Quando eu tentava aconselhar, justificavam que tinha gente tentando incriminar o garoto”, enfatiza Prates que até hoje não desistiu de livrá-lo do mundo das drogas. Outro agravante na vida de Lelinho é a falta de estrutura familiar. A mãe abandonou o filho e o marido para viver com outro homem. Quando o relacionamento não deu certo, o amante encomendou o assassinato da mulher. Para não morrer, ela fugiu para São Paulo e só retornou quando pararam de procurá-la. “O pai dele era um homem bom. Não posso dizer o mesmo da mãe que nunca se importou com o filho e o marido. Hoje ela circula pelo bairro como um farrapo humano e ainda virou traficante. Só anda com drogados. Não sei se está louca ou finge estar”, comenta Luiz Carlos.

Quem mais se importava com Lelinho era o pai, falecido recentemente em Arapongas, no Norte Central Paranaense, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC). De acordo com Prates, um homem trabalhador e de boa índole. O problema era o vício em cocaína, mal que o matou com apenas 36 anos. “Apesar de tudo, ainda vejo bondade no Lelinho. Se a família desse uma força, tenho certeza que conseguiriam recuperá-lo. Eles estão em negação, preferem fazer vista grossa. Não percebem que a qualquer momento o menino pode morrer de overdose ou ser morto”, reclama Luiz Carlos Prates.

Frase do artista plástico Luiz Carlos Prates

“Todo viciado é ladrão. Pode ser podre de rico, ainda assim ele sente necessidade de furtar ou roubar.”

Oficina do Tio Lú no Encontro com Fátima Bernardes

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Artista plástico de Paranavaí recebeu a equipe do programa ontem

Tio Lú, alguns garotos da oficina e a equipe do Encontro com Fátima Bernardes (Foto: David Arioch)

Tio Lú, alguns garotos da oficina e a equipe do Encontro com Fátima Bernardes (Foto: David Arioch)

Anteontem, eu estava retornando de Curitiba, quando parei em Califórnia por volta das 22h para atender uma ligação. Era o Tio Lú, artista plástico da Vila Alta, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que faz um trabalho de recuperação de crianças em situação de vulnerabilidade social. Feliz, me contou que ontem de manhã receberia a equipe de jornalismo do programa Encontro Com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Emocionado, me agradeceu várias vezes pela divulgação da sua oficina em texto e vídeo. 

Depois pediu que eu fosse até a casa dele antes das 9h para dar uma força. Gostei muito da experiência. Fiquei emocionado em ver que após seis anos acompanhando a Oficina do Tio Lú, o trabalho do Seu Luiz vai ter uma repercussão muito maior. Outra felicidade foi encontrar o artista plástico Jesus Soares que teve importante participação nesse processo. Inclusive foi quem me apresentou ao Tio Lú há seis anos. Jesus fez questão de contribuir, tanto que dedicou a manhã toda e parte do início da tarde.

Admito que não tenho o hábito de assistir TV, mas fiquei grato em ver o carinho e a sensibilidade da equipe do programa com todo mundo que participou e testemunhou esse trabalho que findou só por volta das 14h. Tiveram uma grande preocupação em conhecer a fundo o projeto do Tio Lú. Recolheram fotos, vídeos produzidos de forma independente e checaram todos os outros materiais já publicados sobre o assunto.

É muito legal saber que o Seu Luiz, já com 84 anos, dois joelhos problemáticos e diagnosticado com uma hepatite C no final de dezembro, continua lutando pelos seus ideais, se esforçando para fazer a diferença em um mundo cada vez mais individualista e materialista. A garotada também merece só elogios. Deram um grande show de comprometimento e gratidão. A reportagem gravada em Paranavaí vai ao ar no programa Encontro com Fátima Bernardes na terça-feira.

Link do vídeo produzido pela equipe do Encontro Com Fátima Bernardes (atualizado no dia 21-04-2015):

http://globotv.globo.com/t/programa/v/gabriela-lian-mostra-trabalho-de-artesao-de-84-anos/4124935/

Conheça um pouco mais o trabalho do Tio Lú nos links abaixo:

//davidarioch.com/2014/02/22/oficina-do-tio-lu/

//davidarioch.com/2014/10/14/ajudando-jovens-em-situacao-de-risco/

Ajudando jovens em situação de risco

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Oficina do Tio Lú tira crianças e adolescentes das ruas de Paranavaí, no Noroeste do Paraná

Luiz Carlos: "me dedico a eles porque sei que eles precisam mais de mim do que eu de dinheiro" (Foto: David Arioch)

Luiz Carlos: “Me dedico à oficina porque sei que eles precisam mais de mim do que eu de dinheiro” (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, há poucos metros do Bosque Municipal de Paranavaí, na Casa 10 da Rua B, um corredor leva à Oficina do Tio Lú, um atelier bastante movimentado, onde 12 crianças e adolescentes em situação de risco ocupam o tempo livre transformando pedaços de madeira em obras de arte.

Sob a tutela do artista plástico Luiz Carlos Prates Lima, de 83 anos, aqueles que estão tendo o primeiro contato com a atividade aprendem sobre a utilidade de cada ferramenta, além de conservação de materiais e precauções de uso. “Ensino a lixar, medir e trabalhar simetria. Explico como reconhecer as qualidades de cada tipo de madeira. Aqui existe um passo a passo pra tudo”, garante Luiz Carlos que mostra também a importância do trabalho coletivo na criação de cada obra, o que melhora também a capacidade de socialização dos participantes.

Oficina atende jovens da Vila Alta de segunda à sexta (Foto: David Arioch)

Oficina atende jovens da Vila Alta de segunda a sexta (Foto: David Arioch)

Os mais experientes aprendem a fazer um bom acabamento e a desenhar peças, levando em conta a finalidade das obras. Se for decorativa, há uma preocupação maior com o valor estético. “Sou feliz aqui porque o ‘Seu Luiz’ é como um pai pra nós. Prefiro ficar na oficina do que na rua ou em casa”, comenta o aluno Robson Silva, de 12 anos, que se emociona e sorri com timidez ao contar que já lucrou R$ 50 com as peças produzidas na Oficina do Tio Lú.

Aproveitando a presença do amigo, Ariel Gonçalves Souza, também de 12 anos, se aproxima e conta com orgulho que sabe fazer carrinho, carroça e calhambeque de madeira. “Lixo bem, pode ver!”, comenta em tom de voz seguro. Luiz Carlos confirma: “É verdade. Ele monta direitinho cada peça.”

Na hora do trabalho, o silêncio toma conta do atelier (Foto: David Arioch)

Na hora do trabalho, o silêncio toma conta do atelier (Foto: David Arioch)

A harmonia na oficina é conduzida pelo jeito sério, mas comunicativo e carinhoso do artista plástico que se preocupa com o que acontece com os alunos dentro e fora da oficina. “Você ‘tá’ precisando de outro calçado. Nós vamos dar um jeito nisso”, diz Luiz Carlos para o lixador Vitor Hugo Gonçalves Souza, de 12 anos, que estava usando um tênis com dois furos grandes nas laterais.

Mateus Brito Gonçalves, primo de Vitor, ajeita o boné e conta que aprendeu a fazer até fogãozinho. “Ah! Tenho um amigo que conseguiu arrumar a bicicleta com o dinheiro das peças que fez e vendeu”, revela Robson. Ao longo da conversa, o artista plástico chama a atenção de um garoto que fala um palavrão sem perceber a gravidade do ato. “Foi mal, ‘Seu Luiz’”, reconhece o aluno envergonhado e cabisbaixo.

Seu Luiz: "Ensino a lixar, medir e trabalhar simetria. Explico como reconhecer as qualidades de cada tipo de madeira. Aqui existe um passo a passo pra tudo" (Foto: David Arioch)

Seu Luiz: “Existe um passo a passo pra tudo” (Foto: David Arioch)

Os participantes da Oficina do Tio Lú são todos amigos. A maioria se conhece há anos. Mesmo assim as brincadeiras são permitidas só nos intervalos, como a “hora do lanche” que começa às 17h, pouco antes do final da aula. Durante a oficina, os sons mais altos saem principalmente das lixadeiras. “Aqui é bom porque a gente não fica na rua e ainda ganha um lanche caprichado”, comenta Mateus sorrindo.

Uma vez por semana, Luiz Carlos também oferece almoço para a garotada. No sábado que antecedeu o Dia das Crianças, o aroma do frango desfiado, especialidade da artesã Lindinalva Silva Santos, companheira do artista plástico, foi tão longe que até quem não era aluno pediu para participar da festinha que reuniu 16 crianças e adolescentes. “Gosto assim, todo mundo comendo à vontade e saindo daqui satisfeito”, diz Luiz Carlos que ao final do almoço costuma reunir todo mundo para um bate-papo sincero.

Robson Silva: "“Sou feliz aqui porque o ‘Seu Luiz’ é como um pai pra nós" (Foto: David Arioch)

Robson Silva: “Sou feliz aqui porque o Seu Luiz é como um pai pra nós” (Foto: David Arioch)

Na ocasião, os garotos falam sobre a vida, a família e o cotidiano. Em seguida, ouvem conselhos de quem os trata como se fossem filhos. É interessante ver como respeitam Luiz Carlos, provavelmente porque encontraram no artista uma figura paterna, alguém que se importa muito com o futuro deles.

Não é à toa que a Oficina do Tio Lú, criada para atender jovens em situação de risco de segunda a quarta, das 14h às 18h, hoje funciona de segunda a sexta, das 8h às 11h30 e das 14h às 17h30. “Se dependesse deles, não iriam embora não. Agora faço minhas peças só de madrugada. Durante o dia, me dedico à oficina porque sei que eles precisam mais de mim do que eu de dinheiro”, avalia Luiz Carlos que também desempenha funções de pai substituto.

Mesmo sob sol escaldante, Luiz Carlos e Lindinalva já saíram muitas vezes de bicicleta para levar alunos enfermos ao Pronto Atendimento Municipal e Unidade Básica de Saúde (UBS). “Tiramos bicho-de-pé, lidamos com anemia, sarna e outras coisas mais. Fazemos tudo ao nosso alcance quando não conseguimos ajuda profissional”, garante o artista.

Saiba Mais

Localizada na periferia, a Vila Alta é um dos bairros mais pobres de Paranavaí.

Criada de forma independente por Luiz Carlos Prates Lima, hoje a Oficina do Tio Lú é um exemplo de trabalho social em prol de jovens carentes.

Oficina do Tio Lú

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Uma viagem por um universo de abnegação

"Tio Lú" mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença (Fotos: Reprodução)

“Tio Lú” mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença (Fotos: Reprodução)

Lançado no início da semana, Oficina do Tio Lú é o meu mais novo trabalho audiovisual. Parte da série “Realidade da Periferia”, o documentário conta a história do artista plástico Luiz Carlos Prates Lima, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que se dedica a recuperar crianças e adolescentes em situação de risco.

Na Vila Alta, um dos bairros mais pobres da cidade, Luiz Carlos, que está sempre enfrentando dificuldades financeiras, deixa de lucrar para ensinar os mais jovens a criarem obras de arte a partir das mais diferentes fontes de matéria-prima.

A oficina do artista fica no fundo da própria casa, onde ele faz crianças e adolescentes se distanciarem do mundo das drogas, da fome e da miséria. Oficina do Tio Lú é uma viagem por um universo de abnegação. Na obra, Tio Lú mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença em um mundo cada vez mais consumista e materialista.

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: David Arioch

Colaboração: Jesus Soares

Trilha Sonora: Crash Nomada, Racionais MC’s, Ney Matogrosso e Cólera

Fotos: David Arioch, Gugu Ditzel e Arquivo Pessoal de Luiz Carlos Prates Lima

Personagens: Luiz Carlos Prates Lima, Jesus Soares, Paulo José Zanelato Silva, Lindinalva Silva Santos, Maria de Fátima Oliveira, Danilo Medeiros França, Lucas Antônio Souza Silva, Odair Correa Junior, Gustavo Jesus Souza, Vagner Souza Santos, Weder França Melo, Kelvin Santos Melo, Ariel Gonçalves Souza, Robson Silva, João Paulo Rodrigues Alves e Juvenal Ferreira Silva.

Duração: 46 Minutos