David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Queria entender a lógica desse pessoal que não faz nada por ninguém…

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(Foto: Peter Leone/Futura Press/Folhapress)

Queria entender a lógica desse pessoal que não faz nada por ninguém, que nunca olha para nada que não seja o próprio umbigo, mas despreza e tenta difamar o trabalho do Guilherme Boulos. O cara se doa para uma causa nobre que é fazer a diferença na vida de pessoas que perderam o lar ou que nunca tiveram um, e quando saiu como candidato à presidência foi um dos mais desprezados pela população brasileira mediana, que é uma das mais incultas do mundo.

Muitos brasileiros são culturalmente tão fragilizados em essência, em senso de identidade, que tendem a ver com desprezo e descrença discursos e ações que inspiram igualdade e equidade, mas aplaudem os discursos mais sáfaros, pobres em conteúdo, que exalam desfaçatez, incivilidade e apologia à violência.

Às vezes, a impressão que tenho, quando penso em líderes políticos, é que muitos brasileiros não gostam da ideia de alguém que pareça próximo deles no comando do país, que conheça, de fato, a realidade de muitos, mas sim de alguém que assuma a postura de um patrão, para que eles possam continuar sentindo-se como empregados, como sujeitos servis – com alguém que diga sempre o que fazer e como fazer. O endeusamento da figura de um presidente é uma prova disso, desse crônico distanciamento.

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November 27th, 2018 at 1:06 am

Imparcialidade é uma ilusão teórica sem respaldo filosófico

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Imparcialidade é uma ilusão teórica sem respaldo filosófico. Ainda criança, a partir do momento que você começa a enxergar o mundo, você se torna parcial, seja influenciado por suas razões, sentimentos, crenças, familiares, amigos, conhecidos ou até mesmo pela sua própria autoavaliação. Na faculdade de jornalismo um ou outro professor falava com certo romantismo da tal imparcialidade, mas essa imparcialidade também é parcial.

Quando alguém escolhe uma pauta, considerando importância e relevância, ou mesmo interesses particulares, editoriais ou empresariais, há parcialidade nisso; quando alguém constrói um texto, quando alguém abdica de um assunto ou suprime uma ideia e um parágrafo, isso é ser parcial. Quando alguém delimita uma abordagem…Até mesmo o uso e a escolha das palavras é ser parcial. Afinal porque escolhe-se esta e não aquela?

Escolhas são manifestações claras ou subjetivas de parcialidade. Então quando alguém diz que devo ser imparcial, acho que isso não faz o menor sentido. Viver é ser parcial, em menor ou maios proporção, mas muitas vezes chamamos de “parciais” somente aqueles com quem não concordamos, e obviamente que em crítica, consubstanciada ou vazia, de seu trabalho.

 

Written by David Arioch

October 9th, 2018 at 1:29 pm

Por que a massiva “má interpretação” de um discurso político não é um problema da população, mas sim do candidato

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Desde o início de sua campanha, Jair Messias Bolsonaro (PSL) está envolto em polêmicas. Seus defensores dizem que seus discursos, assim como do General Mourão, são frequentemente mal interpretados, que há má-fé. Exemplos são as recentes questões do 13º salário e de filhos criados sem pais. Eu discordo. Quando você se lança na política, você precisa entender em primeiro lugar a importância da boa retórica, do discurso, da clareza e da capacidade em transmitir o que realmente pensa, acredita e defende. É por isso que existe marketing eleitoral. Tenho amigos que trabalham nessa área há décadas, e os mais experientes dizem sempre que o que muitos eleitores interpretam é mais um problema do candidato do que do eleitor, porque a sua obrigação é não dar margem para a dubiedade, para crassos equívocos. Se você faz isso, sua equipe está equivocada e você está despreparado, simplesmente.

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September 30th, 2018 at 5:52 pm

Uma reflexão sobre o consumo de embutidos

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Será que as pessoas costumam considerar a quantidade de animais que deu origem a um pequeno embutido?

Em muitos casos, embutidos reúnem partes de diversos animais, não apenas de um (Arte: Tommy Kane)

Todo mundo já viu embutidos na seção de frios dos mercados, ou aqueles nuggets em caixinhas. Mas será que as pessoas costumam considerar a quantidade de animais que deu origem a um pequeno embutido? Você está diante de uma seção, e a poucos centímetros dos seus olhos há meio quilo de alguma coisa; e aquela alguma coisa muitas vezes reúne partes de diversos animais, não apenas de um.

Na realidade, creio que poucos ponderam que aquilo pertenceu a um animal, já que o costume faz com que a associação mais frequente seja com os pedaços comprados à mão do açougueiro. Isso não te parece surpreendente? Pedaços de diversos animais embalados e compactados em algo tão pequeno. Fragmentos que antes permitiram que tais seres sencientes existissem, mesmo que marcados pela mortandade precoce.

De repente, temos meio quilo de algo que um dia fez parte de um número indefinido de criaturas. Muitos animais, no caso dos nuggets – que basicamente são partes de frangos, seres sociais com personalidades distintas. E a mortadela e a salsicha? Sim, pedaços de muitos animais selecionados mecanicamente.

Isso significa que quando alguém come, por exemplo, uma salsicha, esse alguém pode estar consumindo não apenas a parte de um animal que um dia enxergou o mundo, caminhou sobre a terra, sobre um pedaço de concreto, e, a partir de suas características, manifestou seus próprios anseios e potencialidades de socialização.

Realmente, não. São vários animais que dão origem a um mesmo embutido – significando assim uma diversidade de identidades suprimidas por um desejo, na maioria dos casos, inconsciente pela morte de vulneráveis. Afinal, quando nos alimentarmos de animais, naturalmente não apenas damos o aval, mas ordenamos, mesmo que irrefletidamente, que suas vidas sejam diluídas às nossas vontades.





Invista em suas próprias batalhas, mas respeite as dos outros

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Invista em suas próprias batalhas, mas respeite as dos outros. Lutar neste mundo já não é fácil, mas lidar com pessoas criticando suas lutas realmente não é legal. Por isso sou da seguinte opinião: se uma pessoa luta por algo em prol de um mundo mais justo, será que realmente tenho motivos para criticá-la?

E se critico, será que faço isso de forma construtiva ou destrutiva? Será que minha crítica é baseada em um bem maior do que a minha vontade de ter razão ou de fazer oposição? Opiniões contrárias não são um problema; podem acrescentar muito. Mas opiniões que visam a desmotivação infelizmente podem ser lesivas dependendo da forma como as absorvemos.





 

Written by David Arioch

March 27th, 2018 at 7:10 pm

Uma breve reflexão sobre a alimentação

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Arte: Etsy

Essa é minha opinião, e cada um pode ter a sua. Quando alguém reproduz o discurso de um profissional em relação à alimentação (e aqui falo de um discurso reproduzido exaustivamente), a primeira coisa que gosto de saber é se a pessoa vive na prática o que diz. Se ela não vive, não consigo evitar de ficar desconfiado. Vejo pessoas reproduzindo discursos de profissionais (ou não – e alguns deles inclusive são vistos como “gurus”), demonizando muitos alimentos, e logo penso: “Se isso é verdade, e essa pessoa se alimenta tão perfeitamente bem, como defende em seu discurso, por que ela não aparenta ser realmente saudável?”





Written by David Arioch

September 12th, 2017 at 1:59 am

Considerações sobre o discurso “bandido bom é bandido morto”

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Crítica em forma de imagem que tem circulado sobre o assunto na internet 

Um problema que surge quando você se manifesta contra o discurso “bandido bom é bandido morto” é que há pessoas que “entendem” que você passa a mão na cabeça de assassinos, pedófilos, estupradores e outros sujeitos que cometem os piores crimes. Quando alguém diz que é contra o “discurso bandido bom é bandido morto”, normalmente o que a pessoa quer dizer é que não se deve nivelar todos os crimes e que todos eles devem ser punidos de acordo com a prática.

Conversando tranquilamente com um sujeito que defende o discurso “bandido bom é bandido morto”, ele me disse que independente de crime todos os criminosos merecem a “vala”. Achei tal comentário visceral, ainda mais levando em conta as minhas experiências de anos em contato com pessoas que cometeram os mais diversos delitos, além de laranjas, usuários de drogas, alcoólatras e andarilhos. Inclusive conheço e escrevi histórias de jovens que abandonaram o mundo do crime.

Expliquei que sou da opinião de que a justiça não deve ser feita por ele nem por mim, mas por quem tem competência e autoridade para tal, e obviamente que respeitando a legislação vigente. Penso que se as leis são falhas, também temos culpa, porque chegamos a esse ponto por uma questão de permissividade de nossa parte.

Irritado com minha observação, o sujeito retrucou que gostaria de ver minha reação quando um bandido matasse algum de meus familiares ou invadisse minha casa. Realmente sou privilegiado por nunca ter sido vítima de assalto, mas não consigo entender como uma pessoa pode torcer pelo mal do outro simplesmente por não partilhar da mesma opinião.

Devo ser vítima de algum ato bárbaro, cruel, para ter a mesma opinião que a sua? Devemos desejar que todos aqueles que não compartilham desse discurso sejam mortos, tenham familiares violentados e assaltados, só para que, num cenário hipotético, sejam forçados a mudarem de opinião e o outro se sinta satisfeito em sua razão?

Precisamos buscar a reafirmação de nossas crenças na hostilização do outro? Como isso pode não ser propagar mais violência? Se você sente raiva de mim por não concordar com o discurso generalizado “bandido bom é bandido morto”, e me deseja algum mal, o que te incomoda não é apenas a criminalidade, mas também a contrariedade, que surge inclusive na figura de muitas pessoas honestas, que nunca cometeram nenhum crime e desejam o melhor para os outros.

Written by David Arioch

January 19th, 2017 at 1:18 am

A importância das opiniões contrárias

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Quem se julga sábio, dificilmente se abre para o conhecimento de forma isenta (Arte: Hype Orlando)

Pode parecer estranho, mas aprendi a gostar de opiniões contrárias às minhas na adolescência. E acredito que isso faz parte de um processo de constante amadurecimento, principalmente porque acho mais importante ter dúvidas do que certezas. Afinal, sou movido pelas dúvidas. Me provam que pouco sei sobre tantas coisas e isso é estimulante porque me permite evitar ser petulante, recair o mínimo possível em senso comum ou generalizações.

Quem se julga sábio, dificilmente se abre para o conhecimento de forma isenta de pré-conceitos ou preconceitos. Além disso, é através das diferenças que aprendo a ser mais paciente. Se calar para ouvir pode ser um desafio quando as palavras não nos agradam, mas é recompensador porque é a maior prova de que a essência humana não abandonou o ser.

Quem busca semelhanças o tempo todo corre o risco de se inclinar sobre si mesmo e não perceber que o outro na realidade é apenas o seu próprio reflexo imutável e pulverizado, como um ouroboros distorcido. A internet, por exemplo, é um ambiente muito bom para uma avaliação de autocontrole. Nesses mais de seis anos usando o Facebook me agrada o fato de eu jamais ter xingado alguém, mesmo diante de provocações e ofensas.