David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Posso te fazer uma sugestão?

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Fotos: Reprodução

Posso te fazer uma sugestão? É a mesma que faço quando me convidam para dar palestras para crianças e adolescentes nas escolas. O que você sabe sobre seu pai? Sua mãe? Seu avô? Sua avó? Seu bisavô? Sua bisavó? Você tem alguma história da infância deles que pode me relatar neste momento? Você sabe como sua mãe era na adolescência?

Não estou falando de foto, mas de personalidade. E seu pai?
Você sabe de algum episódio marcante que ele viveu, por exemplo, na fase mais tenra da infância? Está estranhando minhas perguntas? Então, é que nossos familiares morrem e nós nem sabemos quem eles eram. Que tal descobrir quem eles eram? Para além do nosso parentesco. Afinal, todo ser humano, é mais do que irmão, pai, mãe, vô, vó…

Quando nasci, meu avô já era o vovô, e minha avó também já era a vovó. Sim, pra mim já tinham feições de velhinhos, era como tivessem nascido velhinhos. Não tinha como eu saber como eles eram antes de eu nascer, então eu pedia que eles me contassem histórias. Desde a minha infância, meu avô fazia isso por iniciativa própria, porque ele já nasceu um contador de histórias.

Ainda assim, nos últimos anos de vida dele, comecei a registrar as nossas conversas em um gravador; dezenas de horas. E mais tarde, mesmo sem saber quando ele morreria, coincidiu de eu produzir um pequeno documentário sobre a sua vida, registrando seu cotidiano, intercalado com histórias de sua infância, da mocidade, da família, do envelhecimento, e do que a vida representava para alguém perto dos 90 anos.

Admito que não tenho o costume de ir a velórios, não fui nem mesmo no velório do meu pai. Se me chamar para algum, provavelmente recusarei, mas por um motivo que nem eu mesmo sei explicar, compareci ao do meu avô. Ele estava deitado, com semblante sereno, a pele álgida e arroxeada, e eu me recordando de suas histórias. Eu sabia que ele não estava mais ali, mas quando o caixão foi lacrado, imaginei centenas de livros se fechando, livros que nunca mais serão lidos ou abertos.





 

Written by David Arioch

February 9th, 2018 at 10:58 am

Minhas histórias sobre Paranavaí e seus personagens

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Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí

Compartilho histórias sobre Paranavaí e seus personagens porque pesquisei e escrevi sobre isso ao longo de dez anos. Assim que entrei na verdadeira fase adulta, e influenciado pelo regionalismo literário e pelo jornalismo literário que teve e tem grande peso na minha vida, fui levado por esse caminho. Inclusive sou grato por ter conquistado alguns prêmios em decorrência disso, embora eu nunca tenha gostado de competição.

Desde criança, sou muito curioso. E sempre estranhava quando eu perguntava o nome de uma via, alguém respondia, mas não sabia dizer quem era aquela pessoa que foi homenageada com nome de rua. Mas acredito que a minha curiosidade em relação ao passado, tempos longínquos em que nem mesmo meus pais tinham nascido, começou com minhas visitas ao cemitério na infância.

Eu passava horas percorrendo túmulos, lápides e gavetas lendo datas e tentando imaginar como era o mundo daquelas pessoas. Também fui influenciado pelos contadores de histórias da minha família, como meu falecido avô. Bem distante de coisas como bairrismo, ufanismo ou coisa do tipo, sou apenas alguém que reconhece que todo lugar, independente de tamanho, tem muitas histórias; mas narrá-las de algum modo vai depender sempre da boa vontade humana.

Gosto da oralidade como fonte de escrita, porque posso ter contato com muitas bibliotecas em forma de gente. E claro, antes que elas partam e levem consigo todas as páginas que foram seus olhos, suas experiências, suas vidas. Afinal, sempre que um caixão se fecha, livros são enterrados.

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June 14th, 2017 at 1:15 am

As histórias do vovô

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Hoje, digo que o vovô foi o maior contador de histórias que conheci (Foto: David Arioch)

Meu avô, pai de minha mãe, faleceu no final de fevereiro. Desde criança, nunca o chamei de vô, mas sim de vovô. Ele foi o último dos meus avós a partir. Já não tenho mais nenhum. Não escrevi a respeito no dia do falecimento, isto porque acho que na data em que uma pessoa próxima morre os sentimentos e as lembranças de quem fica não estão na mais perfeita sinergia.

Normalmente estão em estado de transição da irrealidade para a realidade, e o que se pode escrever nesse estado pode não representar exatamente o que se quer. E comigo sempre foi assim. Gosto de escrever sobre alguém quando estou no meu estado sereno de avaliação das coisas.

Antes do vovô falecer, antes mesmo de imaginarmos que isso aconteceria, a nossa convivência se tornou diária por quase dois anos. Gravei horas e mais horas de bate-papo com ele. Sentávamos em “cadeiras de área”, como ele dizia, ao lado das pimenteiras e de outros alimentos orgânicos que ele cultivava. Abelhas o visitavam todos os dias no mesmo horário, e ele nunca se incomodava. Muito pelo contrário, comemorava.

Decidi registrar tudo que ele narrava porque isso é importante, porque os idosos são os livros da cultura oral. A matéria do vovô poderia desaparecer, mas não a essência do que ele tinha a oferecer. Ele não era um ser humano perfeito, assim como também não sou, mas foi com ele que aprendi a amar histórias e contá-las.

Ele era uma biblioteca ambulante, um memorialista. Desde a minha infância, devo ter passado milhares de dias sentado ao seu lado ouvindo histórias de um passado remoto, que quase ninguém conhece porque não foi registrado nos livros. Quero dizer, pelo menos até eu decidir conservar suas palavras.

Hoje, digo que o vovô foi o maior contador de histórias que conheci na minha vida, e quando o vi dentro de um caixão, com o corpo gelado e a tez rija, eu já sabia que ele não estava mais lá, mas sim dentro de todos aqueles que resguardaram suas histórias.

 

 

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Written by David Arioch

May 11th, 2017 at 5:07 pm

O trauma espanhol

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Soldados de Salamina explora o obscurantismo da Guerra Civil Espanhola

Lola busca informações sobre o paradeiro do poeta Rafael Sánchez Mazas (Foto: Reprodução)

 O filme Soldados de Salamina, idealizado pelo cineasta espanhol David Trueba e lançado em 2003, explora o obscurantismo da Guerra Civil Espanhola partindo da suposta execução do escritor e falangista Rafael Sánchez Mazas.

A protagonista da obra é a escritora em crise Lola Cercas (Ariadna Gil) que decide se aprofundar em uma pesquisa in loco sobre a Guerra Civil Espanhola. O ponto de partida é a ordem de execução do poeta Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange Espanhola, grupo paramilitar que se aliou ao ditador Francisco Franco em 1936. Decidida a descobrir como Mazas sobreviveu, Lola viaja em busca de personagens que participaram do evento.

Cena antológica do soldado dançando com um rifle ao som de Suspiros de España (Foto: Reprodução)

Enquanto Lola é uma personagem alheia a própria história, inclusive se entrega a pesquisa como razão existencial, o seu estado de vulnerabilidade é uma simbologia da Espanha da época; confusa e controversa, principalmente com relação aos elementos históricos da Guerra Civil Espanhola ocultados por conveniência política. No decorrer do filme, Lola constrói uma outra identidade de si mesma conforme encontra novas informações sobre o episódio da execução de Rafael Sánchez.

O cineasta David Trueba deixa evidente na trama a importância da memória histórica para a preservação da identidade de um país, tanto que a personagem principal só consegue reconstituir importantes fatos da Guerra Civil Espanhola a partir da oralidade, pois não havia muitas provas materiais do que aconteceu com Mazas. O filme oferece poucas respostas, mas faz muitas perguntas e termina de uma maneira que impele o espectador a refletir sobre o assunto enquanto a folclórica canção “Suspiros de España”, de Antonio Álvarez Alonso, ainda ecoa.

Sobre a estética cinematográfica, os destaques são a quebra de linearidade, estruturada a partir de flashbacks, e a fotografia sobre a qual incide pouca luminosidade dando a ideia do quão a Guerra Civil Espanhola é um trauma histórico obscuro; um acontecimento com riqueza de detalhes desconhecidos pela população.

“A recepção cultural começa no feto”

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Domingos Pellegrini fala sobre o poder da oralidade e da leitura na construção da identidade humana

“A própria contação de estória é uma ação civilizatória” (Foto: Amauri Martineli)

Autor de inúmeras obras literárias premiadas, entre as quais “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho” que venceram o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, o londrinense Domingos Pellegrini é o escritor de todos os públicos, pois seus livros, sejam infanto-juvenis ou romances, falam com a humanidade, independente de estar representada numa figura infantil ou adulta.

Pellegrini já trabalhou como jornalista, publicitário e professor universitário, porém, há quinze anos, mesmo sem ter certeza do que o futuro lhe reservava, tomou a decisão de se dedicar ao que admite ser um dom, a criação de histórias que nascem regionais e se universalizam, brindando o leitor com um sentimento de pertencimento. Um exemplo é a obra “Terra Vermelha” que gira em torno de uma família de colonos pés-vermelhos de Londrina, numa ficção embutida de realidade que carregada de humanismo sensibiliza e desperta identificação até mesmo num camponês de uma vila islandesa.

Detentor de um estilo de escrever peculiar, claro e simplificado, mas que sempre propõe profusão reflexiva, uma subjetiva influência de escritores como o estadunidense Ernest Hemingway e os brasileiros Graciliano Ramos e Manuel Bandeira, Domingos Pellegrini é na atualidade um dos escritores mais respeitados e bem sucedidos do Brasil. Em outubro, o autor lança sua mais recente obra: “Herança de Maria”.

No dia 28 de abril, quinta-feira, às 15h, tive a oportunidade de entrevistar Pellegrini no Grande Hotel, na Rua Getúlio Vargas, em Paranavaí. O escritor se preparava para participar à noite do projeto “Autores e Ideias”, do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, onde dividiu o palco com a mineira Angela Lago, renomada escritora e ilustradora de literatura infantil.

Espontâneo e bem-humorado, Domingos Pellegrini transformou a entrevista em um diálogo informal com caráter de bate-papo, e tudo foi acompanhado pelo fotógrafo, artista e diretor cultural da Fundação Cultural de Paranavaí, Amauri Martineli, e também pelo artista e técnico em atividade do Sesc, Dorival Torrente. Pellegrini falou sobre muitos assuntos ao longo de mais de uma hora, como a importância da contação de histórias na infância, internet, literatura e democratização do ensino. Confira alguns trechos logo abaixo.

Levando em conta que a sua vinda a Paranavaí foi motivada por uma discussão sobre a contação de histórias e a literatura infanto-juvenil, como o senhor avalia a relação entre a descoberta do mundo na infância e a oralidade?

Eu vejo que a história oral para crianças é muito importante porque a recepção cultural começa no feto. A partir do nascimento, uma simples cantiga de ninar já começa a ditar nossas emoções e comportamentos. Com uma música de rock a criança se agita e com uma música clássica ela se acalma. Com base nisso, percebemos que a voz humana encanta e nada substitui isso, é o poder da oralidade. Quer se sentir bem? Pegue uma criança e leia para ela, isso afasta qualquer emoção ou sentimento negativo.

Partindo da ficção literária, até que ponto a oralidade contribui no processo civilizatório?

A própria contação de história é uma ação civilizatória. Quando a criança ouve um conto, nasce um sentimento de pertencimento. Ela se sente parte de uma sociedade, reconhece a sua própria língua e depois percebe que é capaz de inventar e criar. A fogueira em volta da qual as pessoas se reuniam no passado para contar histórias ainda existe, é o abajour de hoje. Cada vez mais o mundo precisa de contadores. Se o Wellington [Menezes de Oliveira], que cometeu aquele massacre no Rio de Janeiro, tivesse alguém que lhe contasse histórias, ele não se tornaria uma pessoa tão solitária, nem cometeria aquele ato.

Em um contexto sócio-cultural, o que representa o contador de histórias nos dias de hoje?

Hoje em dia, ser contador de histórias é uma profissão que exige imaginação, talento e ética, pois até os quatro anos de idade tudo que a criança absorve é a partir da oralidade. Quando ela pisca é como se virasse a página de um livro mental em um clima de cumplicidade e magia criado a partir da voz. Quanto mais uma criança ouve histórias, mais os seres imaginários são absorvidos como parte da família humana. Pelo fato de sermos os únicos animais que fazem arte de forma intencional é importante despertar logo cedo a identificação com a humanidade.

A atual literatura infanto-juvenil desempenha bem a missão de proporcionar a criança uma leitura que a permita refletir sobre a sua realidade, o mundo que a cerca?

Sim. Claro que há autores que escrevem apenas para divertir, no entanto, há muitos outros que tratam da ética. Não sou moralista, mas acredito na humanidade e na idéia de que as pessoas podem se tornar melhores. Sou da geração que tinha horizontes bem rurais em 1950, quando as pessoas viviam em um mundo limitado pelas crendices. Tudo isso mudou.  O Brasil passa por uma revolução cultural que muitos outros países viveram há 150 anos, como Alemanha, Inglaterra, França e Japão. Está havendo a democratização do ensino. Temos mais pessoas alfabetizadas, mais leitores e ao contrário de antigamente acabou-se aquele pensamento de que você deveria se tornar doutor ou então não seria nada. Hoje, temos muito mais gente fazendo curso superior. Além disso, há alternativas como os cursos técnicos.

“Só escrevo sobre aquilo que conheço, vejo e vivo” (Foto: Amauri Martineli)

Com a popularização da internet e também das publicações virtuais, como incentivar o interesse dos mais jovens pelo livro impresso?

Eu não vejo conflito entre a internet, o livro e outras formas primitivas de fruição com as formas mais atuais, muito pelo contrário, são meios de comunicação que se complementam. Hoje, um pai pode contar uma história para o filho dormir mesmo estando a milhares de quilômetros de distância, por meio de uma webcam. É uma conquista que só é possível graças a tecnologia, a internet.

A literatura infanto-juvenil brasileira está se renovando ou se restringe mais às adaptações e readaptações de obras do passado?

Com certeza, se renova. O Brasil passa por uma revolução tecnológica e cultural que inclui a literatura infanto-juvenil. Há uma grande preocupação em se transmitir cada vez mais valores a partir de uma arte feita com beleza, criatividade, amor, imaginação e ética.

Quando o senhor descobriu o talento de escrever para públicos de todas as faixas etárias?

Decidi escrever um livro sobre uma árvore que dava dinheiro e percebi que não tinha muito a ver com o público adulto, então me direcionei ao público infanto-juvenil. “A Árvore que Dava Dinheiro”, lançado em 1981, tem enredos fantásticos em que uso metáforas para abordar problemas como inflação e estagnação econômica. A história ensina que para se conseguir dinheiro é importante trabalhar.

A autobiografia é uma de suas características mais marcantes, de que maneira isso influi na concepção de uma obra?

Comecei a escrever poemas aos 14 anos e desde então só escrevo sobre aquilo que conheço, vejo e vivo. Na obra “Terra Vermelha”, por exemplo, eu falo sobre a minha terra. Prefiro sempre mostrar as características de um personagem por meio da ação e não de adjetivos. Gosto de uma escrita mais econômica. Ainda assim o que eu faço é criar um mundo de imaginação, onde misturo realidade e ficção.

Há previsão de lançamento de alguma obra ainda este ano?

Meu último lançamento foi “Professor Milionário”, em 2009, que fala de um professor que venceu na loteria e usou o dinheiro para investir na escola em vez de se entregar ao consumismo. Mas até outubro será lançado pela Editora Leya, de Portugal, uma das maiores do mundo, o meu livro “Herança de Maria”, uma homenagem a minha mãe, uma mulher guerreira, a frente do seu tempo, que tinha autonomia em suas decisões. A obra será 30% ficção e 70% realidade.

Quais as lembranças das inúmeras vezes em que participou dos eventos culturais de Paranavaí?

Vir a Paranavaí é sempre uma experiência muito interessante. Aqui tem gente interessada em discutir, falar abertamente sobre arte. De fato, há um quociente cultural mais denso do que em outras cidades. Percebo, e não é de hoje, que Paranavaí tem uma tradição de atividades culturais. Lembro de quando estive aqui com a palestra-recital “Saques e Toques” [“Poesia para Ver, Ouvir, Sentir e Pensar” – durante o Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) de 2009] e a participação do público me surpreendeu. Naquela ocasião, abordei temas diversos como ecologia, relações humanas e cidadania.

Curiosidade

O escritor Domingos Pellegrini nasceu em 23 de julho de 1949 em Londrina, no Norte Central Paranaense.