David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Paladar’ tag

O preço do pernil

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Ilustração: Vanni Cuoghi

Tem três pés e muita dificuldade para andar. Não desiste. Entre passos e pequenos saltos, se aproxima de um homem comendo tranquilamente um sanduíche. À sombra da sibipiruna, o rapaz de bermuda leva um susto quando sente um focinho gelado tocando-lhe a panturrilha descoberta.

Solta um gemido doloroso e aponta o focinho para o próprio ferimento. Falta-lhe uma perna. O estranho continua sem entender o que aquilo significa. Entre mastigadas e desinteresse, se irrita quando o porquinho toca-lhe a mão com a cabeça.

— Pelo amor de Deus, né? Você quase derrubou meu lanche. Vá pra lá, tá me irritando.

Mais uma vez. Persistência. Entre duas fatias de pão, o último pedaço de pernil cai sobre um punhado de folhas. O rapaz se levanta. Sisudo, furibundo, esfaimado. Suor quente. A ameaça do chute não intimida. O pequeno o observa sem se mover. Ameaça. Sim, ameaça humana.

— Te mato, caramba! Mato mesmo!

O porquinho empurra o pequeno pedaço de carne. Faz um desenho com o focinho.

— O que você tá fazendo?

Continua arrastando o focinho pelo solo.

— Hã?

Um pernil, disforme, mas um pernil riscado na terra. No núcleo, um pedaço da carne suja.

O porquinho deita no chão. Ganha uma perna incapaz de mover. Pouca carne. Carne sem vida. Riscos. É o que resta.

— Você quer dizer que comi sua perna?

O porquinho se levanta, o observa e vai embora. Dor, passos curtos e incertos, pulinhos, pulinhos alternados.

A carne já não é carne. O rapaz cava um pequeno buraco com as mãos, enterra o pedaço de pernil e cobre com terra. Escreve no chão: “Que a minha busca pelo perdão triunfe sobre o prazer da gustação.”

 





Nosso paladar é condicionável em proporção à nossa força de vontade

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Se sou controlado pelo meu próprio paladar, também posso ser controlado por outros fatores

Nosso paladar é condicionável em proporção à nossa força de vontade. Se ela for pequena, há de revelar também o quanto são grandes as nossas fragilidades, e o quanto nos submetemos à nossa ausência de autocontrole. Se sou controlado pelo meu próprio paladar, também posso ser controlado por outros fatores. E tudo isso ajuda a criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós.

 





Written by David Arioch

July 8th, 2017 at 5:06 pm

Considerações sobre compaixão e paladar

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Companheiros, pintura do alemão Hartmut Kiewert

Quem diz que veganos e vegetarianos não têm bons argumentos naturalmente coloca o paladar acima do direito à vida. Mas quem pensa assim não dirá que simplesmente não se importa tanto com o fato de que alguém há de morrer para que um prazer fortuito seja saciado.

Então, para parecer justo, cria-se justificativas obtusas que são cortinas de fumaça que tentam velar anseios puramente sensoriais. Compaixão é um sentimento superior a qualquer estímulo efêmero desencadeado pelo paladar.

E acho que sobre isso, não há muito o que discutir, já que a compaixão é um dos sentimentos mais nobres da humanidade, enquanto que a gustação, um sentido condicionável, não existe com a finalidade de fazer do ser humano um refém, revelando suas fraquezas. Muito pelo contrário, é algo que o ser humano pode e deve aprender a disciplinar.

 

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Written by David Arioch

February 17th, 2017 at 11:18 pm

Mata-se um ser vivo por um prazer efêmero

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Arte do livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, da artista inglesa Sue Coe

Quando alguém come um animal, e diz que aquele ser morreu cumprindo o seu papel, eu pergunto: Será que a mãe, o pai, o filho ou a filha daquele animal partilha da mesma opinião? Se eles nascem com essa finalidade, por que então eles e os seus se emocionam, não reconhecem a morte precoce como natural e até mesmo ficam enlutados?

Os animais têm emoções, sentimentos, e aqueles que colocamos sobre a mesa nunca morrem sorridentes ou satisfeitos em tornarem-se comida. Ademais, demonstram dor e sofrimento de maneira bastante óbvia. É triste reconhecer que mata-se um ser vivo por um prazer efêmero, que não ultrapassa minutos.

Aquele que se regozija com a morte em benefício do próprio paladar ignora o fato de que a morte também o habita, já que somos aquilo que fazemos, comemos, pensamos e sentimos. Como podemos almejar a paz enquanto nos alimentamos de morte?

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Written by David Arioch

February 11th, 2017 at 5:13 pm