David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Pecuária’ tag

Valdir Colatto e Luiz Carlos Heinze querem “arrendar” terras indígenas

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Em 2016, o Estadão publicou a série de reportagens Terra Bruta, revelando que embora seja proibido criar gado em área indígena, fazendeiros já têm mais de 93 mil cabeças de gado na terra indígena dos javaé e carajás, na Ilha do Bananal (TO). Como se isso fosse pouco, atualmente, duas lideranças da Bancada Ruralista, Valdir Colatto (PMDB/SC) e Luiz Carlos Heinze (PP/RS) estão tentando viabilizar um projeto que permite o “arrendamento” de terras indígenas. Colatto também é o deputado federal responsável pelo projeto que tenta legalizar a caça de animais selvagens no Brasil.

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February 8th, 2018 at 7:36 pm

Estudo mostra que a pecuária é a atividade com maior apropriação de solo em áreas desmatadas da Amazônia

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Foto: Daniel Beltrá

O artigo “Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia”, publicado pela revista Nova Ecnonomia, do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia a evolução das causas imediatas do desmatamento da Amazônia, utilizando-se de regressões lineares.

O estudo mostra que nos estados da Amazônia não há atividade com maior apropriação de solo do que a pecuária, e exatamente por desempenhar papel tão determinante na região está fortemente associada com o desmatamento, inclusive sendo apontada como principal causa. E a agricultura em larga escala em vez de reduzir o impacto da pecuária no desflorestamento tem ajudado a ampliá-lo, até porque as duas culturas estão intrinsecamente relacionadas na região, já que uma depende da outra.

O artigo aponta que o crescente investimento em pecuária na região não tem previsão de desaceleração, até porque a pecuária exige baixos níveis de capital, pouco preparo para o solo e poucas restrições associadas ao relevo e áreas livres de troncos em florestas onde o desmatamento é extremamente acentuado.

Na área, a criação de gado normalmente é extensiva, o que significa que há grandes latifúndios contando com até uma cabeça por hectare. O estudo sugere que é preciso agir sobre a lógica dessa expansão, reduzindo o seu avanço sobre novas áreas da Amazônia. Para isso, é preciso com urgência que sejam estabelecidas novas políticas ambientais.

“É necessário também reduzir a motivação da expansão da pecuária nas áreas onde a propriedade da terra é incerta ou se encontra sobre o controle formal do governo (as chamadas áreas devolutas). Sem o aumento do grau de ordenamento sobre a propriedade da terra e do aumento da legalidade nas áreas ocupadas, a pecuária de baixa produtividade e baixo investimento de capital vai continuar fazendo parte da lógica de expansão da ocupação da terra na Amazônia”, informa o artigo “Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia”.

 

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August 21st, 2017 at 1:55 am

A pecuária como fator colaborativo do desmatamento na Amazônia

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Desmatamento é maior em áreas que pertencem ao Pará, Rondônia, Mato Grosso e Maranhão

De acordo com o artigo “O desmatamento na Amazônia e a importância das áreas protegidas”, que faz parte do Dossiê Amazônia Brasileira 1, publicado pela Universidade de São Paulo (USP), o modelo da ocupação demográfica da Amazônia legal nos últimos cinquenta anos tem levado a níveis significativos de desmatamento, resultante de múltiplos fatores, entre eles, a pecuária.

A área cumulativa desmatada na Amazônia legal brasileira chegou a cerca de 653.000 km² em 2003. O processo de desmatamento normalmente começa com a abertura oficial ou clandestina de estradas que permitem a expansão humana e a ocupação irregular de terras à exploração predatória de madeiras nobres.

[…] Existe uma relação direta entre a economia, o avanço da fronteira na Amazônia Legal e a taxa de desmatamento crescente desde 1990, influenciada pelo estado da economia nacional. Contudo, nos últimos anos, essa relação começou a modificar-se, pois a taxa de desmatamento foi crescente, apesar da falta de crescimento econômico .

[…] Os estados que mais desmataram a Amazônia brasileira entre 2001 e 2003 foram os do Pará, Rondônia, Mato Grosso e Maranhão, que, juntos, corresponderam por mais de 90% do desmatamento observado nesse período.

 

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August 21st, 2017 at 1:50 am

50% dos municípios da Amazônia não contam com fiscalização do desmatamento

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Foto: André Penner (AP)

De acordo com o artigo “Causas do desmatamento no Brasil e seu ordenamento no contexto mundial”, publicado pela Revista de Sociologia e Economia Rural, na Amazônia Legal, onde o desmatamento provocado pela pecuária é predominante, apenas 50% dos municípios contam com a presença de um órgão fiscalizador.

 

 





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August 21st, 2017 at 1:44 am

Google lança vídeo denunciando o papel da pecuária no desmatamento da Amazônia

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20% das florestas da Amazônia desapareceram com o desmatamento (Foto: Reprodução)

Este mês, o Google lançou um vídeo em seu canal no YouTube intitulado “Eu Sou Mudança – Consumo Consciente”. O trabalho bastante objetivo, que não chega a um minuto e meio de duração, denuncia, de maneira bem simples e didática, como a pecuária tem contribuído com o desmatamento na Amazônia. Ao final, enfatiza que “o desmatamento pode estar no prato de quem consome carne”, relacionando esse hábito com o impacto ambiental.

De acordo com o vídeo, na Amazônia, mais de 750 mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos, dois terços foram transformados em pasto, o equivalente ao tamanho da Espanha. Tudo começa assim, uma pequena estrada de terra é aberta na floresta, por onde entram madeireiros interessados no corte das árvores com maior valor comercial. Quando acabam de cortar, e deixam a área, chega o fazendeiro de gado pela mesma estrada, corta todas as árvores remanescentes e bota fogo em tudo para fazer pasto.

Aí o gado se espalha, em uma imensidão de território só ocupado por ele. Segundo informações do filme, a pecuária extensiva ainda é a maior responsável pela derrubada de floresta na Amazônia brasileira. É um ciclo vicioso. Após a derrubada da floresta, o pasto se degrada rapidamente, exigindo assim novas aberturas na floresta.

O vídeo diz também que 38% de toda a carne produzida no Brasil vem da Amazônia. Somos o maior exportador de carne do mundo. “Não seria exagero dizer que o desmatamento pode estar no seu prato. Até agora já são 20% de toda a Amazônia que se foi. Todo esse pasto, e pensar que era tudo floresta”, termina.

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July 30th, 2017 at 6:14 pm

O embuste do “Live Earth”

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Em 2007, foi realizado no Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, África do Sul, Japão, Alemanha, Brasil, China, Itália e Antártica uma série de shows que fizeram parte do “Live Earth”. O objetivo desse evento criado por Al Gore e Kevin Wall, era conscientizar as pessoas sobre o aquecimento global e as crises climáticas.

Sabe o que eles comercializavam nesses shows? Principalmente carnes e laticínios, sendo que a pecuária é apontada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação como a principal causa do aquecimento global. Incomodado ao saber disso, o músico britânico Morrissey se recusou a se apresentar. O mais incrível é que havia centenas de famosos. Será que essas pessoas não se informaram ou não se importaram?

Written by David Arioch

January 19th, 2017 at 1:27 am

Mito sobre a carne orgânica

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Excerto da matéria publicada no Diário do Noroeste

Saiu hoje, dia 17 de janeiro de 2017, uma matéria intitulada “Mitos e verdades da carne orgânica” na página 6 do Diário do Noroeste. Em especial, uma passagem me chamou a atenção e decidi compartilhar:

“2. É proibido utilizar o sistema de confinamento. MITO. Pode ser realizada a terminação no sistema de confinamento somente 90 dias antes do abate.”

Tal afirmação não foi feita por nenhum defensor dos direitos animais, mas sim pelo consultor de agropecuária José Carlos Ribeiro, da Boi Saúde – Pecuária Inteligente, que atende pecuaristas de todo o Brasil.

Ou seja, isso deixa claro que não existe gado criado sem passar por algum tipo de privação. É de conhecimento geral que nenhum animal é feliz em regime de confinamento.

Upton Sinclair e as mazelas da indústria frigorífica

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“Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”

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Upton Sinclair tinha 28 anos quando lançou The Jungle (Foto: Reprodução)

Em 1906, o escritor estadunidense e reformador social Upton Sinclair lançou o seu livro mais famoso. Intitulado The Jungle (A Selva), a obra que denuncia as mazelas da indústria frigorífica teve tanta repercussão nos Estados Unidos que o governo não viu outra saída, a não ser a criação da Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável, dentre outras competências, pela fiscalização da produção alimentícia.

A riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria fez com que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas nas primeiras décadas do século 20. E com o tempo, e a popularidade mundial do livro traduzido em mais de 50 idiomas, o número de adeptos da alimentação livre de ingredientes de origem animal cresceu exponencialmente.

Convertido ao vegetarianismo por influência de John Harvey Kellogg, criador do famoso cereal matinal, o escritor produziu uma obra de denúncia que até hoje é apontada como a mais influente sobre a matança de animais nos Estados Unidos. Embora alguns pesquisadores defendam que após alguns anos Upton Sinclair abandonou o vegetarianismo, citando como exemplo um texto de 26 páginas intitulado Fasting and the Use of Meat, seu livro continuou influenciando muita gente a não consumir mais carne e a lutar por reformas sociais envolvendo as agroindústrias.

O protagonista da obra é o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada. Desempregado, Rudkus aceita um emprego em um matadouro. Mas a desilusão cresce quando ele se vê endividado. Às raias da miséria, é obrigado a se sujeitar aos trabalhos mais sórdidos, além de amargar experiências traumatizantes como a morte do pai, vítima da falta de segurança nas linhas de produção da indústria frigorífica. Em uma das passagens da página 38 de The Jungle, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas.

“E o que será de todas essas criaturas?”, chorou Teta Elzbieta.

 “Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas vivas eram transformadas em alimento a cada ano.

Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada. Nesse trecho, Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne bovina se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.

À frente, havia uma grande roda de ferro, de 20 pés de circunferência e com anéis por toda a sua borda. (…) Quando a roda virou, o porco teve seu pé arrancado e arremessado para o alto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grito aterrorizante; os visitantes ficaram alarmados; as mulheres empalideceram e recuaram, escreveu Sinclair na página 40 de The Jungle.

No livro-denúncia de viés socialista, o sofrimento dos animais e dos homens estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. E nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na sua passividade.

A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. Publicado há mais de cem anos, The Jungle é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro.

Saiba Mais

Upton Sinclair nasceu em 20 de setembro de 1878 em Baltimore, Maryland, e faleceu em 28 de novembro de 1968 em Bound Brook, Nova Jersey.

O livro Dragon’s Teeth (Dentes de Dragão), que garantiu o Prêmio Pulitzer a Upton Sinclair em 1943, narra o zeitgeist e o drama dos eventos registrados na Europa que resultaram no início da Segunda Guerra Mundial.

Referências

Harris, Leon. Upton Sinclair: American Rebel. Thomas Y. Crowell Company, New York (1975).

Mason, M. Diane. Mullins, T. Janet. Vegetarian 101: History, Health and Tips. University of Kentucky (2016).

Sinclair, Upton. The Jungle. Dover Publications; Unabridged Edition (2001).

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Earthlings, o que os olhos veem e o coração precisa sentir

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Documentário mostra a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados

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Documentário é narrado pelo ator e vegano Joaquin Phoenix (Foto: Divulgação)

Lançado em 2005, Earthlings – Make the Connection (Terráqueos – Faça a Conexão) é um documentário escrito, dirigido e produzido pelo ambientalista estadunidense Shaun Monson que mostra até que ponto a humanidade chegou em relação aos maus-tratos de animais.

Pesado e chocante, o filme apresenta a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados. Também traz informações e imagens impactantes sobre espécies usadas como entretenimento ou cobaias em laboratórios farmacêuticos e da indústria da beleza.

Do início ao fim, o documentário, baseado em uma grande compilação de imagens de dezenas de autores, é narrado pelo ator hollywoodiano e vegano Joaquin Phoenix, o que ajudou muito na popularização do filme, assim como a trilha sonora assinada pelo compositor Moby, também vegano.

Logo nos primeiros minutos é difícil não se sentir mal com as cenas exibidas, e o que parece prestes a acabar, na verdade está apenas começando. E não é difícil entender qual é o propósito de Monson ao gerar esse mal-estar nos espectadores. É uma reação naturalmente saudável e esperada. Afinal, estranho seria se assistíssemos ao filme e não nos permitíssemos sentir empatia por tantos animais explorados e violentados.

E o sentimento vai ao encontro de uma frase muito bem colocada por Joaquin Phoenix em Earthlings: “Se todos tivessem que matar os animais com as próprias mãos para consumir carne, provavelmente muito mais pessoas se tornariam vegetarianas.” Então como isso é impossível de acontecer, o autor optou por chocar de outra forma, nos convidando a conhecer esse universo como cúmplices, responsáveis em maior ou menor grau pela existência de um mercado baseado na exploração e extermínio de terráqueos não humanos.

Earthlings é visceral? Com certeza! E levando isso em conta alguém pode alegar que as imagens do filme não representam a realidade de todos os animais. Sim, é uma justificativa a se considerar, já que o tratamento oscila de acordo com objetivos, consumidor final, recursos e preceitos morais e éticos.

Earthlings foi escrito, dirigido e produzido pelo ativista Shaun Monson (Foto: Peta)

Earthlings foi escrito, dirigido e produzido pelo ativista Shaun Monson (Foto: Peta)

No entanto, nada altera o fato de que independente de cidade, estado ou país, estamos sempre diante de animais relegados a uma vida breve ou longa de servidão. Sem dúvida, são seres que mais cedo ou mais tarde vão morrer, claro, assim que servirem a um propósito que não foi escolhido por eles.

É provável que muita gente não acredite que faça parte do processo que envolve a indústria da exploração animal, porém não há como negar que se gostamos de cães e gatos, por exemplo, mas consumimos produtos de origem animal, somos negligentes e ilógicos porque temos uma conduta assentada no especismo, uma crença de viés cultural que cria a falsa ilusão de que somos justos mesmo quando não somos.

Nos baseamos na ilusão de que somos superiores, logo melhores, e todos os demais seres da natureza existem apenas para satisfazer nossas pretensas necessidades. É exatamente nisso que subsiste o argumento do documentário. Em Earthlings, presenciamos inclusive a perda da identidade dos animais. Quando confinados por longos períodos, eles enlouquecem e já não se reconhecem mais como semelhantes.

Exemplos são os porquinhos que praticam canibalismo após longos períodos de cárcere. O documentário se esforça para privilegiar a diversidade, e por isso aborda desde a realidade dos animais domésticos em situação de abandono, vítimas de eutanásia e outros tipos de execuções que visam conter as superpopulações, até golfinhos brutalmente assassinados para que os japoneses possam comercializar sua carne como “carne de baleia”.

Trilha sonora foi assinada pelo também vegano Moby (Foto: Reprodução)

Trilha sonora foi assinada pelo também vegano Moby (Foto: Reprodução)

E se a violência contra os animais se perpetua é porque infelizmente ainda há muitos consumidores que pouco se importam com a procedência e o custo real, para além do dinheiro, daquilo que consomem. “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”, escreveu Liev Tolstói, como bem citado em Earthlings, em referência ao infame anseio humano de estar sempre suplantando algo ou alguém – o que ainda pouco aprendemos a controlar.

“Nós chegamos como senhores da Terra, com estranhos poderes de terror e misericórdia. O ser humano devia amar os animais como o experiente ama o inocente, e como o forte ama o vulnerável. E quando somos tocados pelo sofrimento dos animais, aquele sentimento fala bem de nós, mesmo se o ignoramos. E aqueles que dispensam o amor pelas outras criaturas, como o puro sentimentalismo, ignoram uma parte importante e boa da humanidade. Mas nenhum humano vai perder nada ao ser gentil com um animal. E, na verdade, faz parte de nosso propósito dar-lhes uma vida feliz e longa. Na floresta, o Rei Lear pergunta a Gloster: ‘Como você vê o mundo?’ E Gloster, que é cego, responde: ‘Vejo-o porque o sinto.’”, narra Joaquin Phoenix, parafraseando “Rei Lear”, de Shakespeare, no final de Earthlings.

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Como a pecuária contribui com o aquecimento global

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Documentário apresenta a verdade inconveniente negligenciada por Al Gore em 2006

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Cowspiracy aponta a pecuária como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia (Foto: Divulgação)

Lançado em 2014, Cowspiracy – The Sustainability Secret é um documentário de Kip Andersen e Keegan Kuhn que mostra de que forma a pecuária tem contribuído com o aquecimento global, inclusive sendo apontada como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia.

E para endossar a denúncia, os realizadores usam como referência o relatório anual da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) que cita a pecuária como uma das grandes culpadas pela degradação do solo, mudanças climáticas, poluição, esgotamento de água e perda da biodiversidade.

Quando o assunto veio à tona em 2006, a ONU iniciou um trabalho de defesa da reeducação alimentar baseada em dietas vegetarianas, ou pelo menos a redução do consumo de carne e laticínios, uma transformação que pode desacelerar a produção e ajudar a combater o aquecimento global.

Com o relatório em mãos, o documentarista Kip Andersen questiona os porta-vozes de grandes organizações de proteção ao meio ambiente, como Green Peace, Sierra Club, Rain Forest Action Network, 350.org, Amazon Watch e Oceana, sobre o motivo de jamais terem falado sobre o papel da agroindústria no aquecimento global.

Insistente, Andersen faz com que a diretora da Amazon Watch, Leila Salazar Lopez, abra o jogo em um segundo encontro, quando ele a questiona sobre o silêncio dessas entidades. Antes ele ressalta a gravidade da situação ao informar que a Amazônia Brasileira, o lugar com a maior biodiversidade do planeta e que já perdeu 80% de sua área original, pode desaparecer nos próximos dez anos por causa da desenfreada produção de gado e soja.

“Podemos ver o que aconteceu no Brasil depois da aprovação do Código Florestal. Quem falava contra os lobistas e os interesses das agroindústrias era assassinado. Um exemplo é o caso do José Cláudio Ribeiro da Silva [falecido em 2011], um dos ativistas que dizia que a agropecuária estava destruindo a Amazônia. Veja o exemplo de Dorothy Stang, a freira que morava no Pará e foi assassinada. Muita gente fala, mas muitos ficam calados porque não querem acabar com uma bala na cabeça”, argumenta Leila.

A freira Dorothy Stang se opôs ao desmatamento praticado pela agropecuária durante anos. Certa noite, ao entrar em casa foi brutalmente baleada à queima-roupa por um matador de aluguel. Além dela, mais de 1100 ativistas foram mortos no Brasil nos últimos 20 anos, de acordo com o filme.

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Keegan Kuhn e Kip Andersen, responsáveis pela produção de um dos documentários mais controversos dos últimos anos (Foto: Divulgação)

“Quem se beneficia e faz lobby para este sistema agrícola são os maiores produtores alimentares, os maiores produtores de carne. Quando eles crescem e enriquecem, eles usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos”, destaca Wenonah Hauter, diretora executiva da ONG Food & Water Watch.

A partir daí tudo fica claro para os documentaristas. Kip Andersen, que se inspirava em Al Gore para se tornar ambientalista, se decepcionou quando soube que esse foi o motivo pelo qual o ex-vice-presidente não citou a pecuária no documentário An Inconvenient Truth, sobre as causas do aquecimento global.

De acordo com o ambientalista e escritor Will Tuttle, diariamente a população humana, que chegou a sete bilhões em 2011, consome 20 bilhões de litros de água e 9,5 bilhões de quilos de comida. Enquanto isso, 1,5 bilhão de bovinos, de um total de 70 bilhões de animais criados no mundo todo, consomem 170 bilhões de litros de água e 61 bilhões de quilos de comida. “Quase um bilhão de pessoas passam fome todos os dias”, acrescenta Tuttle, realçando o absurdo da situação.

Além disso, 50% da produção de legumes e vegetais é destinada aos animais. Só nos Estados Unidos, 90% da soja é para o consumo das criações. “Comparando com a carne, podemos produzir, em média, 15 vezes mais proteínas a partir de fontes vegetais, e usando o mesmo tipo de terra, seja fértil ou não. Hoje, 82% das crianças que passam fome vivem em países onde a comida é dada aos animais. O mais incrível é que temos condições de alimentar todos os seres humanos”, revela o pesquisador Richard Oppenlander, autor do livro Food Choice and Sustainability.

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Infográfico do documentário Cowspiracy (Tradução: Nó de Oito)

Em uma de suas pesquisas, Andersen descobriu que um hambúrguer de 110 gramas requer mais de 2,5 mil litros de água se for levado em conta todo o processo antes de chegar ao consumidor final. “Equivale a tomar banho por dois meses”, compara. E para a produção de quatro litros de leite são necessários 3,8 mil litros de água. E a demanda desproporcional à produção se acentua a cada dia. John Taylor, proprietário da Bivalve Organic Dairy, informa que não há terras o suficiente no mundo para que leiterias orgânicas como a sua ganhem espaço. Ele acredita que os laticínios não são sustentáveis.

“A não ser que comecemos a substituir as casas por pasto. E isso só pode acontecer se a população diminuir. E como sabemos que ela vai continuar a crescer, o jeito é buscar alternativas. Vemos por aí leite de soja, de amêndoas, e muitos outros produtos com misturas diferentes. Levam insumos e proteínas. Acredito que veremos mais disso no futuro”, avalia Taylor.

O ativista vegano Howard Lyman, autor do livro Mad Cowboy, passou 45 anos envolvido com a agropecuária. Há alguns anos, quando participou do programa Oprah Winfrey Show, ele denunciou as mazelas do setor e teve de responder a dezenas de processos. Em entrevista a Kip Andersen, confidenciou que levou cinco anos para se livrar das ações movidas pelas agroindústrias. “Tenho certeza de que se eu fosse novamente ao programa, hoje eu seria condenado, mesmo falando a verdade”, lamenta.

Lyman também deixa claro que Andersen e Keegan Kuhn corriam riscos ao abordarem um assunto tão controverso. Após quase 60 minutos de documentário, eles recebem uma ligação de uma patrocinadora avisando que não vai mais investir em Cowspiracy. “A maioria fica chocado ao saber que ativistas ambientais são considerados a pior ameaça terrorista de acordo com o FBI. Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais”, enfatiza o jornalista Will Potter, autor do livro Green Is The New Red, e que há anos é monitorado pelo FBI.

A maior parte do documentário, os realizadores não acompanham de perto a realidade dos animais, principais vítimas da agroindústria. Quando decidem fazê-lo, ficam surpresos com o que veem e aprendem. “Não importa se as galinhas são de fazendas orgânicas ou não. A verdade é que a partir do momento que a produção diminui elas são mortas”, relata Marji Beach, diretora de educação do santuário Animal Place.

O autor do best-seller In Defense of Food, Michael Pollan, prevê que quando a população mundial chegar a nove bilhões de pessoas o consumo de carne vai diminuir. “Não teremos como produzir tantos cereais para alimentar os animais de corte”, argumenta, crente de que o futuro está na sustentável dieta vegetariana.

No encontro com Lyman, Andersen ouve o ativista afirmando que um ambientalista não pode consumir produtos de origem animal. “Engane-se se quiser. Aliás, se quiser alimentar o seu vício, faça-o, mas não chame a si mesmo de ambientalista ou protetor dos animais”, assinala.

O discurso tem tanto impacto que Kip Andersen decide se aprofundar no veganismo. Para isso, ele visita o médico Michael A. Kepler, vegano há 32 anos e que leva uma vida saudável. Kepler inclusive faz o acompanhamento de gestantes veganas. “Nascem 216 mil pessoas no mundo a cada dia, e assim precisamos de 14 mil hectares de terra cultivável todos os dias. O que é impossível de se conseguir”, reconhece o produtor de vegetais orgânicos John Jeavons, autor do livro How to Grow More Vegetables.

Enquanto um vegano requer 0,6 hectare de terra por ano para se alimentar, um ovolactovegetariano precisa do triplo e uma pessoa com dieta onívora necessita de uma área 18 vezes maior que essa. “Isto porque pode-se produzir 16 mil quilos de vegetais em 0,6 hectare e apenas 170 quilos de carne na mesma área. Uma dieta vegana também produz a metade de CO2 de uma dieta onívora. E ainda gasta só 9% de combustíveis fósseis, 8% de água e 5% do solo”, frisa Kip Andersen.

Will Tuttle acredita que em grande escala a adoção do veganismo poderia contribuir muito para a recuperação do ar, das florestas, rios e oceanos, além do próprio restabelecimento da saúde humana. “Nenhuma outra escolha é tão abrangente e tem um impacto tão positivo sobre a vida na Terra do que deixar de consumir produtos de origem animal e adotar o estilo de vida vegano”, pontua o escritor.

Curiosidade

Ao final do documentário, Skip Andersen decide adotar o estilo de vida vegano.

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