David Arioch – Jornalismo Cultural

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Nestor e Pompeu

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Nestor ria efusivamente conforme as patas traseiras e curtas de Pompeu se moviam para a frente

Nestor caminhava à noite pelas imediações da Praça da Xícara quando viu um jovem ensanguentado (Foto: Helder Shiroshima)

Nestor caminhava à noite pelas imediações da Praça da Xícara quando viu um jovem ensanguentado (Foto: Helder Shiroshima)

A primeira vez que vi Nestor e Pompeu eu tinha cerca de oito anos. Foi num terreno baldio na esquina de casa, na Rua Pernambuco, onde em meio à capoeira que crescia livremente havia um tanque velho e uma torneira encardida de plástico. Nestor, um rapaz de não mais que 35 anos e estatura mediana, banhava seu cachorro mestiço que imóvel o observava esfregando-lhe o dorso com um pedaço carcomido de sabonete.

Depois do banho, Nestor enrolou Pompeu em uma toalha branca já amarelecida e forrou o chão com um lençol azul-celeste que tirou da mochila. Com as costas escoradas na parede vizinha, sentou e começou a assear Pompeu, tentando reduzir ao máximo a umidade do corpo do cãozinho pardo até então silencioso. O que mais me chamou a atenção naquele dia foi o fato de que a comunicação entre os dois era baseada em olhares, não em palavras. Os dois se entendiam na completude da ausência de diálogos. Quando Nestor sorria, o dorso de Pompeu tremia e o seu rabo chicoteava o ar em regozijo.

Me intrigava a expressão de serenidade, traduzida em um tipo peculiar de satisfação, daqueles dois seres que adotavam todo lugar ou lugar algum como morada provisória. Nestor usava um surrado par de sandálias amendoadas de borracha, uma camiseta bege de algodão e uma calça jeans azul com barras que não chegavam a tocar-lhe os calcanhares, lembrando um tipo pula-brejo. Pompeu tinha porte mediano, aspecto saudável e feições tão expressivas que chegava a parecer um ser humano. Tudo que Nestor comia, ele dividia em partes iguais com Pompeu. A comunicação entre os dois pouco parecia a de espécies diferentes. Juntos, se completavam de maneira singela e curiosa.

Um dia, enquanto chovia, observei Pompeu a metros de distância, saltando no ar com a boca aberta, engolindo a água fria da chuva. Nestor ria efusivamente conforme as patas traseiras e curtas de Pompeu se moviam para a frente – como se impulsionasse o próprio corpo para golpear o nada ou o vazio do alheamento humano. “Simbora, Pompeu, já brincou bastante. Tu vai ficar doente. Vem pra cá!”, disse Nestor ao notar como o focinho do companheiro tornara-se tão fino e pândego por causa da chuva.

Do outro lado da rua, um gatinho abandonado na sarjeta miava tão alto e esganiçado que Pompeu correu até ele mantendo as orelhas em pé para assimilar melhor o som. Assustado, o filhotinho acinzentado e molhado se encolheu diante de uma boca de lobo por onde a água escorria em direção à completa escuridão. Entre um olhar para Pompeu e outro para o bueiro caliginoso, se retraiu ainda mais, inclinando a cabeça em direção ao peito, e aceitou seu destino sem miar outra vez. Pompeu então o segurou pelo couro entre a região do pescoço e do dorso e o carregou até uma cobertura improvisada no terreno baldio na esquina de casa.

Lá, o cão manteve o gatinho aninhado entre suas patas, aquecendo seu corpo trêmulo e diminuto, castigado pela água fria, mas que para ele, um animalzinho nascido há pouco tempo, talvez fosse tão gelada que lhe amofinasse até os ossos. “Vejo que tu fez nova amizade”, comentou o lacônico Nestor ajeitando o boné sobre a própria cabeça. O novo integrante da família recebeu o nome de Curumim em um batismo selado com um pouquinho de ração canina transformada em mingau e servida em uma tampa plástica.

No dia seguinte, pela manhã, corri até a esquina para ver se continuavam no mesmo lugar. Sem graça e sem querer, fiquei frente a frente com Nestor. Ele estava saindo para buscar mais ração. “Ei, amigo! Vou ter que dar uma saidinha. Você pode ficar de olho naqueles dois?”, pediu. Sem dizer palavra, movimentei a cabeça em concordância e caminhei até Pompeu e Curumim que dormiam agarrados um ao outro. Sem mover as patas, Pompeu levantou um pouco os olhos e voltou a dormir, assim como Curumim. Talvez minha presença não significasse risco algum a eles, concluí.

Sentado no chão, tirei o meu boneco Comando Travessia (Hawk) do bolso e comecei a brincar, sem fazer muito barulho, simulando uma incursão por um curto trecho de gramínea. Tudo parecia tranquilo. Eu ouvia o som tênue da brisa que contrabalanceava com o sol que cobria o centro do terreno, iluminando o pouco verde fulgurante e rasteiro que balouçava pejoso.

De repente, senti coceira na mão esquerda. Quando olhei o chão onde me apoiei, vi um bando de formigas enfileiradas transportando alimentos por um trajeto em que a ausência de sol talvez tornasse a jornada menos tortuosa. Apenas mudei de lugar e continuei em silêncio. Olhei para a rua e assisti os passantes nos observando com olhares curiosos e inquisidores. Entre passos céleres e vagarosos, alguns sorriam enquanto outros se protegiam sob feições carrancudas. Carros, motos e caminhões subiam e desciam nas mais distintas velocidades. A pressa de uns, por bem, não era de todo contagiante.

Nestor retornou depois de hora e meia, trazendo mais ração em uma sacola da Casa Moreira. Pompeu comia sem alarde. Observava o entorno e engolia vagarosamente. Afoito, Curumim lambuzava até as orelhas e as patas sobre a pastinha de ração com água. Após uma gargalhada expansiva, destacando bem os dentes, Nestor comentou:

“Curumim é como esses carros e essas pessoas que vimos passar agorinha há pouco. Têm pressa pela simples e ingênua motivação de ter. Não sabem na verdade o porquê e mesmo que soubessem não faria diferença. Não há que se ter pressa para nada. O que a pressa já trouxe de bom? A pressa na verdade diz muito sobre nossas falhas. Curumim ainda é bebê e na idade certa há de aprender. É uma pena que poucos se importam com isso hoje em dia.” Na época, não entendi muito bem, mas achei bonito o discurso.

Nestor possuía cabelos longos e traços indígenas, embora eu desconhecesse sua origem. Seus olhos castanhos eram sempre serenos, mesmo quando alguém o confrontava ou ofendia, o que não era tão raro. Alguns o desprezavam justificando que ele vivia na rua e não tinha trabalho fixo, logo não poderia ser “homem de bem”. O fato de não pedir esmolas pouco pesava na consciência de seus críticos. Nestor não se incomodava. Gozava de seu próprio código de vida, tanto que só aceitava algo se pudesse retribuir.

Mais tarde, numa noite amena, brincando de cabra-cega na varanda de casa com meu irmão e dois amigos, ouvi um barulho vindo da rua. Pedi para minha mãe me deixar ir lá fora ver o que estava acontecendo. Ela autorizou que eu saísse por poucos minutos. Corri até a esquina e encontrei Nestor ensanguentado com as costas escoradas na parede chapiscada do terreno baldio. O sangue, misturado às lágrimas, escorria de seu rosto trigueiro e ele gemia em silêncio, com os braços arroxeados envolvendo Pompeu que emitia um uivo abafado, afônico e lastimoso. Curumim fazia o mesmo, protegido por Pompeu.

Minutos antes, três homens encostaram um Opala preto, desceram e, carregando pedaços de pau, caminharam até Nestor. “Olha, vagabundo, se reagir, a gente mata o cachorro e o gato. Outra coisa, mande eles ficarem quietos senão a coisa vai feder mais ainda pro seu lado, seu índio de merda!”, esbravejou um homem de mais de 45 anos, apontando para o revólver de calibre 38 na cintura, acompanhado dos dois filhos que participaram da selvageria. Assim que Nestor amarrou Pompeu e Curumim com o lençol azul-celeste, tantas vezes usado para servir de abrigo, os três começaram a golpeá-lo.

Caiu desnorteado no chão, ouviu pessoas gritando e viu num átimo anuviado os três agressores correndo em direção ao Opala e partindo bruscamente. Nestor não morreria mais naquele dia. Passado um mês, sentiu-se muito bem após receber atendimento hospitalar e contar com os cuidados da vizinhança que o acolheu com mais desvelo do que nunca.

Algum tempo depois, não sei ao certo quanto, Nestor caminhava à noite pelas imediações da Praça da Xícara quando viu um jovem ensanguentado, caído na calçada. Vítima de assalto, recebeu uma facada no pescoço. Sem pensar duas vezes, Nestor tirou a própria camiseta, fez um torniquete, colocou o rapaz em seus ombros e caminhou até o Pronto Socorro da Santa Casa de Paranavaí. Sua força era prodigiosa. Pesando em torno de 70 quilos, transportou sem dificuldade uma pessoa de 85.

A vítima chegou ao hospital com a tez lívida e jamais teria sobrevivido sem a compassiva intervenção do desconhecido. Ao avisarem que o rapaz não corria mais risco de morte, Nestor deu um breve sorriso veraz e caminhou até a saída do hospital. Logo uma médica o alcançou e disse que uma pessoa queria muito falar com ele. “Foi esse rapaz que salvou seu filho”, revelou ela. Constrangido, o pai da vítima agradeceu, sem olhar diretamente nos olhos de Nestor que sequer piscava diante do homem, observando com bonança e acuidade sua reação.

“Tens aqui seu filho, tão importante para ti como são os meus para mim. Lá fora existe vida em cada centímetro de nossos passos. Não há nada neste mundo que nunca tenha sido tocado pela vida. Ela é sempre maior do que tudo que tocamos e vemos, mesmo quando cegos ou desassistidos pela compreensão. Desconheço algo de maior valor, imagino que também pense assim o senhor. Afinal, o que resta ao homem se não tiver ele o direito de respirar, de caminhar ou de existir onde quiser e como quiser?”, declarou Nestor antes de desaparecer na noite enluarada e estrelada que principiava o fim de um longo período de cerração.

O homem, aflito ao ver Nestor no hospital, foi o responsável por atacá-lo no terreno baldio na esquina de casa. E o rapaz fora de perigo era seu filho, um dos que desferiu-lhe alguns golpes nas costas com um pedaço de pau. “Ajudai-me, óh Manitu, a não julgar meu semelhante antes que eu tenha andado sete dias com suas sandálias”, diz uma oração sioux.

“Meu objetivo era fazer com que as famílias se fixassem aqui”

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Otávio Marques de Siqueira veio a Paranavaí por recomendação do major Fernando Flores

Antigo Hospital do Estado foi fundado por Siqueira (Foto: Reprodução)

O médico gaúcho Otávio Marques de Siqueira, responsável pela construção do Hospital Professor João Cândido Ferreira, onde é hoje a Praça da Xícara, se mudou para Paranavaí em 1949, a pedido do major Fernando Flores. Além de se responsabilizar pela saúde da população, Siqueira foi incumbido de convencer os migrantes a fixarem residência em Paranavaí e não em Alto Paraná.

Otávio Marques de Siqueira veio a Paranavaí pela primeira vez no tempo da Fazenda Brasileira, em 1941, após participar da inauguração da primeira balsa do Porto São José, um recurso que intensificaria as relações entre Paraná e Mato Grosso. Em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás, Siqueira relatou que naquele ano quando chegou à Brasileira se deparou com um imenso vazio. “Não havia nada por aqui, só quiçaça e capoeira”, afirmou o pioneiro gaúcho que chegou ao povoado por meio da única estrada que existia à época, reaberta pelo Capitão Telmo Ribeiro em 1939.

Siqueira conheceu em Londrina o diretor da 4ª Inspetoria de Terras do Estado, Francisco de Almeida Faria, que lhe mostrou um mapa retangular de Paranavaí. “Ele olhou com o jeitão dele e falou: ‘Isto está muito monótono’, então traçou duas diagonais no mapa e saiu duas avenidas, uma era a Paraná”, enfatizou o médico que teve os primeiros contatos com o cotidiano da colônia em 1945, mas se mudou para Paranavaí em 1949, a convite do major Fernando Flores que em Londrina lhe falou sobre a necessidade de se construir um hospital em Paranavaí.

“Antes de vir pra cá, eu exercia o cargo de diretor da Santa Casa de Londrina”, destacou Siqueira que coordenou a construção do extinto Hospital Professor João Cândido Ferreira, o Hospital do Estado, em área onde está atualmente a Praça Dr. Sinval Reis, conhecida como Praça da Xícara. Após a inauguração, o pioneiro assumiu o cargo de diretor do hospital. “O Dr. Siqueira era um médico muito bom”, comentou o pioneiro gaúcho Severino Colombelli, acrescentando que Otávio Marques salvou muitas vidas.

Siqueira não veio a Paranavaí apenas para atuar como médico. “Meu objetivo era fazer com que as famílias se fixassem aqui e não em Alto Paraná”, revelou. Pioneiros lembram que esse tipo de missão era muito comum, pois todos aqueles que vinham ao povoado para assumir alguma liderança também tinham o papel de atrair novos moradores. A publicidade mais apregoada em Paranavaí era a de que cada propriedade valeria até cem vezes mais no futuro. Porém, muitos diziam que isso não passava de utopia.

A colônia era um local tranquilo em 1949, quando os principais pontos comerciais pertenciam a Carlos Faber, Severino Colombelli, Luiz Ambrósio e José Francisco, irmão de Natal Francisco, segundo o médico que nunca se esqueceu da vez em que pioneiros pegaram uma jaguatirica nas imediações do antigo Cine Ouro Branco.

Em 1950, o desenvolvimento local chamou a atenção do governador Moisés Lupion que enviou a Paranavaí um funcionário encarregado de vender imóveis. “Deu liberdade para que ele fizesse o que bem entendesse, desde que atraísse pessoas com muito dinheiro”, pontuou Siqueira. Logo surgiu uma onda de assassinatos motivados pela posse de terras. De acordo com o médico, as propriedades eram tomadas na marra. “Eu não me preocupei, nem me meti nisso”, declarou.

Saiba Mais

Otávio Marques de Siqueira nasceu em 18 de julho de 1914 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

O sonho de Carlos Faber

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Fundador da Casa Faber acreditou no progresso de Paranavaí

Faber chegou a Paranavaí em 1944 (Foto: Reprodução)

Em 1944, o pioneiro catarinense Carlos Faber, de origem alemã, cruzou a mata primitiva do Noroeste Paranaense para abrir uma das primeiras casas de comércio de Paranavaí. Embora viveu aqui inúmeras dificuldades, o fundador da Casa Faber resistiu a tudo por acreditar em um sonho, o progresso da cidade.

Apostar na evolução de um povoado que se resumia a algumas casinhas e ranchos nos anos 1940 não era tarefa para qualquer um. No entanto, o catarinense Carlos Faber, à época com 54 anos, vislumbrou o desenvolvimento de Paranavaí. Antes de falecer, em 30 de junho de 1993, aos 103 anos, Faber ainda encheu os pulmões de ar e disse: “Paranavaí é uma cidade muito boa e bonita. Tenho certeza que vai crescer mais ainda.” Para entender o amor do catarinense por Paranavaí é preciso conhecer a história do pioneiro.

Carlos Faber nasceu em Tubarão, interior de Santa Catarina, em 30 de maio de 1890. Na juventude, empreendeu muitas viagens pelo sertão catarinense e interior do Rio Grande do Sul. Perdeu as contas de quantas vezes cruzou mares a bordo de uma canoa, obstinado em conhecer as novas cidades que se formavam. O pioneiro se mudou para o Norte do Paraná ainda jovem e fixou residência na Gleba Roland, hoje Rolândia, no Norte Central Paranaense. Lá, abriu uma casa de comércio que ele mesmo abastecia. Saía à noite ou de madrugada a pé para buscar mercadorias em Londrina. Voltando para casa, atravessava a mata carregando mais de 40 quilos de produtos nas costas.

Aos 54 anos, em 1944, Carlos Faber ainda ostentava o mesmo espírito de aventureiro da mocidade. Foi colocado à prova em Londrina quando conheceu o jovem agrimensor Ulisses Faria Bandeira que lhe falou sobre a Fazenda Brasileira, atual Paranavaí. “Resolvi me aventurar pelo mato cortado por umas picadinhas”, comentou em entrevista ao jornalista Saul Bogoni décadas atrás.

A viagem à Brasileira durou cinco dias, parte do trajeto foi percorrido a pé e o restante a bordo de uma velha jardineira da Viação Garcia que trazia mais duas pessoas. O ônibus fazia o trajeto uma vez por semana. “Em Maringá, dormi num rancho de palmito. Lembro que perto tinha duas casas velhas. Maringá era praticamente isso”, frisou o catarinense.

A surpresa veio depois com os estreitos picadões quase engolidos pela mata virgem. O motorista da jardineira tinha de desviar da vegetação que insistia em cobrir a estrada, fora os galhos que quase atravessavam as janelas do ônibus. “Lembro que a picadinha era tão fechada que para todos os lados se via onça, veado, cateto e passarinhos de todas as espécies”, afirmou Faber que em Paranavaí se deparou com um universo de mato bruto, antigos cafezais e ranchos velhos. Um era de propriedade do pioneiro Sebastião Freitas.

Casa de Secos e Molhados que o comerciante abriu em 1944 (Foto: Reprodução)

Dias depois, o comerciante voltou para Rolândia e relatou a mulher, Hulda Faber, tudo que viu. “Ela concordou em experimentar o lugar, então viemos de mudança e deixamos os filhos lá”, revelou. A viagem, dessa vez de caminhão, durou dois dias e meio, pois o solo arenoso fazia o veículo atolar com facilidade, obrigando o catarinense a ajudar o motorista a empurrá-lo.

Em Paranavaí, o casal foi muito bem recebido pelo administrador da colônia, Hugo Doubek. “Quando cheguei percebi que não tinha lei, e só duas famílias de colonos viviam aqui, os outros moravam nas redondezas”, salientou o pioneiro que em 18 de junho de 1944 abriu uma casa de comércio.

A amizade com o Capitão Telmo Ribeiro

A Casa Catarinense, que mais tarde recebeu o nome de Casa Faber, se situava onde é hoje o Banco do Brasil. Era um comércio de Secos e Molhados, onde Carlos Faber comercializava tecidos, cereais, ferragens e muitos outros produtos. “Meus primeiros clientes foram Heitor Barreiro, Telmo Ribeiro e Vendolino Schueroff. Depois, vendi bastante pro pessoal do Governo do Estado que abria os picadões”, disse o homem que chegou à colônia com um capital de 300 mil réis.

Logo a Casa Faber se tornou referência comercial na Colônia Paranavaí. Pioneiros se recordam que toda a população do Distrito de Graciosa se deslocava até o comércio do catarinense para comprar tecidos. “Antes eu saía pouco da loja porque de 1944 a 1946 houve muitos tiroteios que acabaram em mortes”, disse Faber que em 1949 pensou em deixar Paranavaí quando soube do progresso de Maringá e Londrina.

Casa Catarinense (depois Casa Faber), onde é hoje o Banco do Brasil (Foto: Reprodução)

De acordo com o pioneiro, o comércio estava falido, pois a população local parou de crescer. Além disso, os ônibus chegavam a Paranavaí no máximo três vezes por mês. “Isso aconteceu porque a estrada era muito ruim”, assinalou. Para piorar, naquele tempo a maleita foi a doença que mais atingiu a comunidade. Como não havia farmácia, os moradores buscavam remédios no escritório do administrador da colônia, Hugo Doubek.

Apesar do período de descrença, Carlos Faber resistiu às dificuldades motivado por um sonho. Acreditou no progresso local enquanto muitos, já desiludidos, partiram de Paranavaí. “Outros comerciantes também acreditaram, como João Machado, José de Oliveira, João de Barros e Severino Colombelli. Tudo isso quando as ruas eram abertas a mão, no machado”, ressaltou.

O pioneiro catarinense era amigo de um dos homens mais controversos da história local, o Capitão Telmo Ribeiro. Carlos Faber o considerava um bom homem, com o qual sempre podia contar. “Costumava me oferecer ajuda, mas nunca precisei”, justificou. Aos domingos, o comerciante e o filho Henrique iam até a residência de Telmo Ribeiro, onde passavam a tarde toda conversando. “Ele também aparecia em minha casa para tomar chimarrão”, complementou.

Saiba Mais

Em 1995, o vereador Nivaldo Mazzin criou o Projeto de Lei 59 que deu a uma via de Paranavaí o nome de Carlos Faber em homenagem ao pioneiro. Vale lembrar também que o catarinense recebeu o título de Cidadão Honorário de Paranavaí.

Carlos e Hulda Faber tiveram nove filhos: Henrique, Érico, Carlos Frederico, Frida, Guerta, Adélia, Erna, Hilda e Marta.

Curiosidade

Carlos Faber construiu a primeira casa de alvenaria de Paranavaí, em frente à Praça Dr. Sinval Reis, conhecida como Praça da Xícara.

Contribuição

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O gado dormia no centro de Paranavaí

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Bois e vacas passavam a noite nas ruas mais movimentadas da cidade

Nos anos 1940 e 1950, os animais eram criados soltos (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Entre os anos de 1940 e 1950, era muito comum encontrar mais animais do que pessoas circulando à noite por Paranavaí, no Noroeste Paranaense. O gado tomava conta das ruas de maior tráfego, onde aproveitava para descansar e dormir até o dia amanhecer.

Na década de 1940, a população de Paranavaí começou a perceber um comportamento incomum. Com a chegada da noite, os bovinos abandonavam as propriedades e iam até o centro da cidade. Lá, deitavam e dormiam sem se preocupar com a presença de transeuntes. O que facilitava a movimentação do gado era o fato de serem criados soltos. “Não tinha mangueira, nem nada pra cercar naquele tempo”, contou o pioneiro José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás.

Como ainda não havia iluminação nas ruas, os moradores só saíam à noite com lanterna farolete ou lampião para não trombarem com os animais. “Pra piorar, tinha um fumaceiro danado que começava na Inspetoria de Terras e ia até onde é hoje a Praça dos Pioneiros. Isso acontecia porque havia muitos cipós na cidade e o pessoal colocava fogo em tudo”, lembrou Palhacinho que durante a colonização encontrou muitos bois, vacas e cavalos deitados nas ruas. A Avenida Paraná, a via mais importante de Paranavaí na época, era a preferida dos animais.

Paranavaí no tempo em que o gado dormia na região central (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Com o tempo, o gado se espalhou pela cidade. Quando o Cine Theatro Paramounth foi inaugurado em 1948, os animais já tinham o hábito de dormir na Rua Marechal Cândido Rondon, nas imediações da Banca do Wiegando. “Ficava cheio de vacas deitadas. Já estavam acostumadas. O gado fazia as sujeiras e a gente estava sempre sujeito a pisar em cima”, relatou Araújo, acrescentando que os animais ficavam no centro até o dia amanhecer.

Houve casos também em que o gado invadiu propriedades. Ninguém tinha o costume de murar ou cercar as casas. Os animais eram tranquilos, mas surpreendiam ao serem vistos no interior de cozinhas e salas das residências dos pioneiros. As invasões aconteciam quando estavam com fome.

Paranavaí começou a crescer em 1946

Paranavaí começou a se desenvolver a partir de 1946, graças a chegada de muitos migrantes que ouviam falar muito bem a respeito do povoado. Com o crescimento populacional, o comércio também se expandiu. “Construímos uma capela e fizemos as primeiras festinhas. Em 1947, o Ulisses Faria Bandeira [agrimensor e ex-prefeito de Paranavaí] fez a primeira pavimentação de uma rua, lá em frente a Praça dos Pioneiros”, contou Palhacinho, pioneiro que buscava cascalho e areia no Porto Mirador.

Naquele ano, chegou tanta gente em Paranavaí que “parecia a corrida do ouro”, segundo o pioneiro mineiro José Antonio Gonçalves. Para acomodar os migrantes e imigrantes foi construído um grande albergue perto da Praça da Xícara. “Todo mundo era acolhido lá”, enfatizou.

Ainda em 1947, o Governo do Paraná parou de conceder terrenos para a construção de moradias na região central. O objetivo era fomentar o comércio, destinando lotes na área somente a quem tivesse intenção de abrir um negócio. “Ainda tinha muitas estradinhas e ranchos esparramados por Paranavaí. A ideia era organizar isso tudo. Não esqueço que o Ulisses foi o responsável por cortar as ruas”, declarou.

O Tabuinha Alto e o Tabuinha Baixo

Um fato que hoje chama atenção, mas era muito comum no final dos anos 1940, era o costume dos migrantes de encostarem tábuas nas residências. “O povo que chegava em Paranavaí fazia isso e dormia embaixo das tabuinhas pro lado de fora da casa. Foi assim, no alvoroço, que o povo começou a construir para um lado e para o outro”, revelou Araújo.

Quando todas as casas de Paranavaí eram construídas com tábuas, dois rapazes ganharam destaque. Eram os responsáveis pelo transporte de quase toda a madeira usada na construção das residências. “Conhecidos como Tabuinha Alto e Tabuinha Baixo, eles quem cortavam a madeira e faziam as tabuinhas. Também desmontavam de um lugar para levar pra outro”, salientou Palhacinho.

Tabuinha Alto e Tabuinha Baixo fizeram sucesso quando havia poucos veículos em Paranavaí. Quase todo mundo comprava madeira da dupla. “Graças a eles, logo tivemos um monte de casinhas em Paranavaí”, comentou.

Frase da pioneira Ana Maria Estrada

“A casa era rodeada de mato e as vacas dormiam na porta do armazém.”

Um sargento inusitado

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Sargento Marcelino ficou conhecido pelos métodos nada ortodoxos de impor ordem

Área onde o sargento Marcelino construiu a prisão de caibros de peroba (Foto: Reprodução)

Na época da colonização de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, nenhuma autoridade policial ficou tão conhecida quanto o sargento Marcelino, homem que para impor a ordem utilizava métodos nada ortodoxos.

Sargento Marcelino era policial em Arapongas, no Norte Central Paranaense, quando foi enviado para trabalhar em Paranavaí, no tempo em que a colônia era conhecida como Fazenda Brasileira. Marcelino assumiu como delegado em substituição ao Sargento Bahia,  considerado um policial muito tolerante. Os moradores reclamavam que o antigo delegado não fazia valer as leis no povoado.

“O sargento Marcelino era diferente, um homem danado de bravo, valente e autoritário”, comentou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás. Quem buscou os pertences de Marcelino em Arapongas foi o pioneiro espanhol Thomaz Estrada que além de comerciante trabalhava com o transporte de mudanças.

Nos anos 1940, dois soldados davam assistência ao sargento. Em determinados dias, quando não tinham nada para fazer, os policiais se ocupavam plantando algodão e milho. Eram trabalhadores, segundo José Ferreira, acrescentando que quem “endireitou” a colônia foi o sargento Marcelino.

Sobre o trabalho do policial, são raras as queixas dos pioneiros. A maioria o elogia. O ex-prefeito Ulisses Faria Bandeira definiu o sargento como um negrão forte e exigente, de pulso filme e que prestou muitos serviços a Paranavaí. “Era um homem de peso e de atitude. O pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros também reconheceu a importância do policial, porém, assim como outros pioneiros, o considerava bem esquisito.

Tal fama se deve ao fato de Marcelino ter usado métodos nada ortodoxos para manter a ordem na colônia. Na década de 1940, o sargento mantinha uma pequena prisão de caibros de peroba em frente ao local onde foi construída a Praça Dr. Sinval Reis (Praça da Xícara). Lá, Marcelino prendeu muitos bêbados. “Tinha os coitados que trabalhavam no mato, no meio daquela mosquitada. Quando vinham para a cidade traziam um dinheirinho e enchiam a cara. Então o sargento os prendia lá até melhorar”, explicou José Ferreira.

A corrente que virou cadeia

Um dia, quando retornou ao serviço, o sargento Marcelino encontrou a cadeia em chamas. Interpretou aquilo como uma afronta. O autor supôs que o policial não teria mais onde prender ninguém. Bravo e nervoso, o sargento foi até a serraria do pioneiro José Ebiner e pediu que o marceneiro o arrumasse uma corrente bem grande. Com o material, Marcelino fez um argolão de ferro e gritou em meio ao local onde ficava a pequena cadeia: “Vou tocar essa corrente em pescoço de nego safado. Aí quero ver.”

Logo o sargento fez sua primeira vítima. Era um peão chamado Darci que foi até a casa de uma senhora ver se ela não queria lavar-lhe as roupas. A mulher se sentiu desrespeitada pela proposta feita enquanto o marido trabalhava na abertura das estradas da colônia. ”Ela denunciou para o Marcelino que o prendeu e passou o correntão nele”, relatou Palhacinho, se referindo à “nova prisão” do sargento, instalada em cima de uma prancha de peroba.

A corrente não era muito pesada, mas a pessoa tinha de segurá-la com o braço para não doer o pescoço. Curiosos, o pioneiro mineiro José Alves de Oliveira, conhecido como Zé do Bar, e José Araújo foram ver o peão Darci quando o sargento Marcelino o prendeu com a corrente. “Ficamos olhando com aquele olhão. Na mesma hora, o sargento saiu na porta da cozinha com um prato enorme de comida. Falou ao Darci que a mulher logo faria o prato dele”, destacou Araújo.

Quando viu Zé do Bar e Palhacinho observando o preso, o delegado gritou: “Ué, vocês também querem vir na corrente?” Os dois saíram correndo envergonhados e espalharam pela colônia que ninguém deveria ir lá. “Podia ser importante ou não, o homem realmente prendia ao correntão”, enfatizou Ferreira Araújo.

Antes de soltar os contraventores, que ficavam presos ao pé de um toco por período de uma noite e um dia, ou até mais tempo, Marcelino mandava dar a eles um purgante à base de sementes de mamona amassadas numa caneca d’água, de acordo com o pioneiro José Francisco Siqueira, conhecido como Zé Peão.

Outro fato curioso que aumentou a fama do então delegado foi um castigo que ele aplicou a um praticante de umbanda. Marcelino foi até o armazém do espanhol Thomaz Estrada e comprou um metro de fumo. “Perguntei pra que ele queria aquilo. O sargento disse que era pra bater num nego sem vergonha e macumbeiro [sic]. E bateu mesmo”, assegurou Estrada.

Conforme palavras do pioneiro gaúcho Severino Colombelli, o sargento Marcelino fazia de tudo contra os malfeitores. “Por isso, aqui não tinha ladrão. Paranavaí seria a melhor cidade do Brasil se ainda tivesse um sargento Marcelino. Ele era enérgico”, finalizou.

Saiba Mais

No período em que viveu em Paranavaí, sargento Marcelino trabalhou com três policiais: cabo Salata, soldado Sebastião e soldado Luizinho.

Curiosidade

Na época da colonização era chamado de peão o homem que trabalhava na derrubada da mata.

Frases dos pioneiros sobre o sargento Marcelino

José Francisco Siqueira (Zé Peão)

“Foi um grande aqui. Deixou nome e nunca fez burrada.”

“A cadeia era um pé de palma. O caboclo fazia desordem, o Marcelino pegava o cadeado e o prendia a árvore.”

Enéias Tirapeli

“Era um pretão aparelhado com o Capitão Telmo Ribeiro.”

José Antonio Gonçalves

“Marcelino era um senhor de corpo forte. Ele quem mandava na cidade.”

Thomaz Estrada

“Autoridade aqui era só o Marcelino.”

Contribuição

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O primeiro cemitério de Paranavaí

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Cemitério abrigou vítimas de doenças, desastres e assassinatos

Primeiro cemitério surgiu no início dos anos 1940 (Acervo: Fundação Cultural)

O primeiro cemitério de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foi criado na Avenida Rio Grande do Norte, cruzamento com a Rua Minas Gerais, no início dos anos 1940. Lá, foram enterradas centenas de pessoas, principalmente vítimas de doenças, desastres e assassinatos.

Não se sabe ao certo em que ano surgiu o primeiro cemitério da Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, mas pioneiros afirmam que foi no início da década de 1940. A ideia de construí-lo surgiu quando a Brasileira ainda não contava com assistência médica especializada. Á época, um homem contraiu varíola e faleceu pouco tempo depois. Como não havia cemitério em Paranavaí, o administrador geral da Colônia, Hugo Doubek, reuniu alguns homens e juntos transportaram o falecido até Londrina.

No dia, chovia sem parar e a estrada de chão só complicou a situação. A proximidade com a mata também dificultou o tráfego. “Se empurrou mais o caminhão do que se aproveitou dele”, disse Hugo Doubek. Quando chegaram a Londrina, foram até a delegacia explicar a situação para o delegado Achilles Pimpão, amigo do capitão Telmo Ribeiro.

Pimpão os repreendeu por levarem o morto até lá e ordenou que arrumassem um lugar para a construção do cemitério na Brasileira. Doubek então decidiu que a necrópole seria construída entre a Avenida Rio Grande do Norte e a Rua Minas Gerais, onde surgiu mais tarde a Seicho-No-Ie.. “O cemitério foi lá por muito tempo. Dali em diante era tudo mato, uma quiçaça só”, relatou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, acrescentando que muita gente importante foi enterrada na necrópole.

As mortes mais comuns aconteciam quando os migrantes estavam na mata cortando árvores. Às vezes, não dava tempo dos trabalhadores desviarem dos troncos e morriam esmagados e soterrados. Doubek investigava cada fatalidade para se certificar de que realmente era acidente e não homicídio. “Caía muito pau em cima das pessoas. Muita gente também foi vítima de doença”, complementou Palhacinho. Havia muitas crianças enterradas no cemitério da Avenida Rio Grande do Norte, principalmente vítimas de tifo, pneumonia e doença de macaco.

Mortes aconteciam durante o corte de árvores imensas

“Morreram muitos macacos aqui, então a doença se alastrou. Tinha dia que morria até quatro crianças. Quem consolava as mães era o frei alemão Ulrico Goevert”, revelou o pioneiro paulista João da Silva Franco. Uma morte que chamou atenção nos anos 1940 foi a de um rapaz que quis se exibir. “Pegou um avião pequeno e ficou voando por cima da colônia, fazendo gracinha para a namorada. Ele se descuidou e caiu”, contou o pioneiro mineiro Enéias Tirapeli. Muita gente assistiu a tragédia.

Frei Ulrico Goevert consolava as mães que perdiam os filhos (Foto: Wilmar Santin)

Mortos de toda a região eram enterrados em Paranavaí

A grande fase do crime em Paranavaí começou em 1944 e foi até 1946, segundo o pioneiro catarinense Carlos Faber. “Muita gente morreu nesse período”, declarou. Por isso, não demorou muito para o cemitério ser ocupado por centenas de cadáveres. O pioneiro espanhol Thomaz Estrada chegou a ver até seis homicídios em apenas um dia em frente ao Hospital do Estado, atual Praça Dr. Sinval Reis, mais conhecida como Praça da Xícara. “Tinha que correr para não morrer”, comentou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

No cemitério da Rua Rio Grande do Norte não foram enterrados apenas moradores de Paranavaí, mas também de muitas glebas, povoados e vilas que não tinham necrópole. Perto do antigo Grupo Escolar, próximo ao local onde está a Praça da Xícara, havia um necrotério para onde enviavam os mortos da região.

“Quantas vezes nós vimos os caminhões chegarem lá carregados de cadáveres. Vinham da região de Nova Londrina e Areia Branca [atual São Pedro do Paraná e Porto São José]. Isso era normal”, afirmou o pioneiro mineiro José Antonio Gonçalves. Sobre o motivo das mortes, Gonçalves é enfático: “Alguns queriam glebas do tamanho da região. Não dava nem tempo de brigar. O que morria de gente aqui era incrível, uma barbaridade.”