David Arioch – Jornalismo Cultural

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Nascemos para a liberdade

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Nos condicionamos facilmente às prisões (Arte: Blacksmiley)

Nascemos para a liberdade, mas nos condicionamos facilmente às prisões. Isto porque elas são sedutoras, e nos parecem mais viáveis, alcançáveis. Temos uma intrigante capacidade de rejeitar e negar a liberdade que um dia deu mais sentido às nossas vidas.

A alegria de sonhar como nos tempos de criança não raramente cede espaço ao temor da desilusão, e as incertezas de qualquer realização se transformam em fuga e rejeição. E assim, desaparecemos pouco a pouco. Quem sabe, assumimos a identidade daquilo que outrora temíamos.

É triste morrer vagarosamente sem reconhecer a própria finitude. Há dias que assumem a forma de pesadelos, mas que são naturalizados de forma a não parecerem tão ruins. Então busca-se viver somente, e não se sabe se verdadeiramente, nos finais de semana, nos feriados, quando se vela um pesar que parece impossível de enterrar.

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Written by David Arioch

April 17th, 2017 at 8:31 pm

Um corpo que padece

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Parei de andar tem alguns meses, logo que meu corpo assumiu o controle da minha vida

(Arte: Mindcage, de Rodrigo Aviles)

“Continuo sem me mover e só consigo pensar na última vez em que fiquei em pé” (Arte: Mindcage, de Rodrigo Aviles)

Acordei um dia e percebi que meu corpo já não era meu. Tentei me movimentar na cama e não adiantou. Eu pertencia a ele, mas ele não me pertencia. Então continuei deitado observando o teto em meio à escuridão plangente. Havia traços disformes e oscilantes. Não! Mais do que isso! Uma imundície densa e clara que me lembrou aquelas medonhas bactérias que vi nas aulas de biologia na adolescência.

Eu nunca tinha reparado como o forro podia ser tão sujo. Acho que concentra a medula da nossa podridão. Ou será que era minha imaginação? Talvez eu fosse a própria bactéria, agraciada com uma visão panorâmica de mim mesmo. Vai saber! A verdade é que minha respiração continuava fétida e ruidosa. Como era horrível! Meu nariz simulava um aterro sanitário, espalhando chorume a cada expirada. E o que escorria dele eu nem sentia ou via. Afinal, desse espetáculo repulsivo que usava meu corpo como palco, fui relegado a mero espectador.

Como me esforcei para silenciar minha mente. Claro que não consegui! Fechei os olhos por alguns minutos e a temperatura do ambiente caiu para cinco ou seis graus Celsius. Tremi mais de ódio do que de frio. Eu estava coberto com um edredom branco, velho e encardido, com algumas manchas amareladas – rodelas de mijo que o maldito do gato do vizinho deixou de presente quando invadiu meu guarda-roupas. Que lazarento!

Tudo bem! Logo esqueci do bichano e quis me levantar para dar uma lição na mãe natureza. Como eu queria arrastá-la pelos cabelos. Quem sabe a cada chumaço arrancado ela subisse um grau de temperatura. Com 15 chumaços, eu a deixaria parcialmente careca e teria 20 ou 21 graus. E que vitória! Ainda poderia usar aqueles cabelos para fazer um espanador ou uma pequena cortina para um teatrinho de bonecos.

Rinite, bronquite e sinusite, sinusite, bronquite e rinite, difícil descobrir quem queria me ferrar mais. Bah! Quero enganar a quem? Fumei mesmo! E fumei muito! Chegando a quatro maços por dia! Eu era uma chaminé mais eficaz do que qualquer Maria Fumaça já vista. Sou o maior colecionador de doenças pulmonares que este mundo desconhece. Eu deveria estar no Guinness Book! Segurando o meu maior troféu, o único pulmão que me restou, tão preto que parece sobejo de carvão pós-churrasco.

E daí? Meus dentes eram tão louros, e meu hálito tão fedegoso que eu poderia fazer cosplay do Beetlejuice. Eu adorava jogar fumaça na cara dos outros, principalmente de quem desprezava fumantes. Eu chegava pertinho, como quem não queria nada, concentrava bem a fumaça e a soltava bem na hora que alguém abria a boca para falar alguma coisa. Daí era só falsear expressão de constrangimento – um par de olhos arregalados, uma respirada profunda e uma inclinada de cabeça, pedir desculpas e me afastar. Me diverti muito quando não existia ambiente para não fumantes. Ah! Deixa pra lá…Não quero mais falar disso!

Olhe! Nunca tinha reparado como o forro ganha desenhos tracejados na madrugada. São como lombrigas abjetas que dominam os bastidores da casa. Acho que também sou uma porque já não sinto mais minhas vértebras. Me resumo a uma matéria modorrenta e estiolada. Quem sabe tudo que vejo e desprezo seja em alguma proporção uma representação de mim mesmo.

Fiquei imaginando quantos bichos tétricos e horrendos não habitam este lugar noite após noite. Aposto que se eu derrubasse tudo encontraria centenas de animais sem nome, jamais catalogados. Seres que só existem por poucas horas da madrugada, quando confundimos realidade, sonho e pesadelo. Pode ser que se alimentem de esperanças, devaneios e reflexões prolongadas.

Certo! Continuo sem me mover e só consigo pensar na última vez em que fiquei em pé. Me parecia tão irrelevante, inútil. “Cuidado com a coluna, postura ereta, um passo após o outro”, quanta tolice! Eu só queria sentar e deitar, deitar e sentar. Talvez eu tivesse nascido para ser um tatu-bola. Só que rolar também exige tanto esforço que sinto calafrios só de imaginar. E a pressão abdominal na hora de girar? Triste e dolorosa! Ser uma lesma é igualmente desprezível porque sou impaciente e quero tudo na hora. Bom, não me sinto representado por nenhum animal, racional ou não.

Como gosto de comida! Me alimentei tão mal a minha vida toda e isso me proporcionava o mais insólito dos prazeres. Onde havia alguém se alimentando corretamente, eu me aproximava e sentava ao lado. Queria que a pessoa ficasse incomodada com a minha presença. Eu era um despertador de reações sorumbáticas. Eu queria chocá-la, vê-la siderada pelos meus maus hábitos.

“Isto! Este sou eu! E sou contra tudo aquilo em que você acredita. Estou aqui como a prova cabal de que o mundo não pertence a vocês. A ditadura da saúde não vai prevalecer. Ainda somos maioria e não seremos derrotados. Eu não permitirei! Nunca! Nunca! Veja! Olhe o tamanho dele, quanta gordura! Pedi que a atendente colocasse mais 200 gramas de bacon e 200 gramas de queijo cheddar. Quanto mais industrializado, melhor! Exigi o triplo de gordura trans! Observe! Observe o óleo escorrendo pelas rebarbas do meu lanche. Tem tanto óleo que poderemos fritar batata dentro da minha boca depois que eu comê-lo. Você aceita?”, sugeri, exibindo meus dentes saburrentos e caramelizados pelos churros que comi antes como aperitivo. Chocada, a moça ao meu lado na praça de alimentação se levantou e foi embora sem dizer palavra.

Atividades físicas? Eu as desprezei desde o primeiro dia que as vi! Em qualquer lugar por onde eu passasse, se alguém me convidasse para me exercitar, eu não pensava duas vezes antes de mandar às favas. Que desaforo! Para os diabos com essa baboseira! Viverei e morrerei como quiser! Para que ficar em pé, caminhar ou correr? Odeio tudo isso com todas as minhas forças! Não acredito nem mesmo que fomos feitos para andar! De quem foi essa ideia? Tomara que o morfético tenha morrido brutalmente!

Pensando em bípedes e quadrúpedes, como eu adorava carne! Comia mais de 15 quilos por semana, até que contraí aterosclerose. Beleza! O que está feito está feito. Só que não há como negar que foi uma das melhores fases da minha vida. Quando eu andava pelo centro da cidade, as pessoas achavam que estavam próximas de um açougue ou matadouro. Não! Não havia nada do tipo por perto. Era a fragrância natural exalada pelo meu corpo. “Que cheiro de carne crua, de onde vem isso?”, “Nossa! Que fedor de vaca morta!”, “Acho que tem um açougue novo por perto”, ouvia copiosamente.

As bebedeiras constantes também marcaram a minha vida. Claro! Eu dizia que era um socialzinho. Haha! Bobo de quem acreditasse. O que eu bebia três vezes por semana era o que muitos não consumiam em um mês. Eu precisava ser bom no que fazia. Por isso descobri um método eficaz para ampliar a minha tolerância ao álcool. Claro que não vou dizer qual é! Sim! Fui bem longe, tão longe que meu fígado não teve condições de me acompanhar. Hoje vivemos em lugares separados.

Agora me veio à mente as lembranças da minha transformação. Parei de andar tem alguns meses, logo que meu corpo assumiu o controle da minha vida. Se manifestava sobre onde queria ir e quando. Tão caprichoso, genioso! Caso não gostasse da ideia, ele travava como um brinquedo com pilha gasta. Será que é vingativo? Pois é! Como pode ser tão odioso? Na semana passada, permitiu pela última vez que eu movimentasse a perna direita e o braço esquerdo.

Continuo observando o forro, atento a duas lagartixas que se alimentam de um besouro. Apoiado sobre a janela aberta, o gato endiabrado do vizinho, com as orelhas mirando a lua cheia, lambe as próprias patas e as observa. Me recordo do Escaravelho do Diabo, tão valioso e tão inútil, assim como é a vida para tanta gente. Me sinto cansado, alheio ao meu corpo. Meus olhos se fecham e reconheço que não sou mais humano, somente presa de quem fui predador. “Que o teu corpo não seja a primeira cova do teu esqueleto”, escreveu Jean Giraudoux no livro Notes Et Maximes, Le Sport, de 1928.

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Alcatraz, uma série subestimada que acabou cancelada

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Série traz nomes conhecidos como Sam Neill, Sarah Jones e Jorge Garcia (Foto: Divulgação)

Série traz nomes conhecidos como Sam Neill, Sarah Jones e Jorge Garcia (Foto: Divulgação)

Em 2012, acompanhei a série Alcatraz, exibida pela Fox e produzida por J.J. Abrams, o mesmo produtor de Lost. Infelizmente a série foi tão subestimada que acabou cancelada. Ainda assim, recomendo a qualquer um que goste de séries de drama e mistério que assistam a primeira e única temporada de Alcatraz. O enredo gira em torno dos 302 presos que desapareceram da Ilha de Alcatraz, a prisão de segurança máxima mais famosa dos Estados Unidos, sem deixar pistas numa noite de 1963.

O mais interessante é que a série se passa na atualidade e, aparentemente, cada um dos detentos retorna em um episódio. Reaparecem e cometem crimes a mando de quem os livrou da prisão à época. O mais intrigante é que os presos voltam com a mesma aparência, como se tivesse passado apenas mais um dia e não 48 anos.

A série tem um caráter crítico bem curioso, tanto é que Jack Sylvane, veterano da Segunda Guerra Mundial e o primeiro fugitivo a ressurgir na atualidade, foi confinado em Alcatraz porque roubou uma mercearia que vendia selos, ou seja, por ironia, um crime federal. No elenco, estão alguns nomes bem conhecidos como Sam Neill, Sarah Jones e Jorge Garcia.

Written by David Arioch

January 27th, 2016 at 10:24 pm

Sean Kernan e a essência do confinamento

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Kernan: "Você não pode generalizar sobre raça ou sobre a criminalidade."

Kernan: “Você não pode generalizar sobre raça ou sobre a criminalidade.”

Nos anos 1977 e 1979, o fotógrafo estadunidense Sean Kernan conseguiu autorização para fotografar detentos de duas prisões: uma na Virgínia do Oeste e outra no Alabama. O resultado foi um trabalho que apresenta as emoções mais conflitantes de quem vive em uma prisão.

“Você não pode generalizar sobre raça ou sobre a criminalidade. Mas, acima de tudo, você não pode odiar. Do contrário, vai entender a situação de forma errada”, disse Kernan em entrevista ao New York Times.

Acesse: seankernan.com

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Written by David Arioch

January 21st, 2016 at 11:38 pm

Era uma vez um sonho americano

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Down By Law, confinados a uma realidade marginal

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Filme conta a história de três detentos alheios ao sonho americano (Foto: Reprodução)

Lançado em 1986, Down By Law, do estadunidense Jim Jarmusch, consagrado nome do cinema independente, conta a história de três detentos alheios ao sonho americano. Mesmo sem perspectiva de futuro, eles conseguem fugir, mas fora da cadeia se dão conta de que continuam presos, confinados a uma realidade marginal.

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John Lurie, Roberto Benigni e Tom Waits são os protagonistas de Down By Law (Foto: Reprodução)

Zack (Tom Waits) e Jack (John Lurie) são dois personagens condenados a prisão por crimes que não cometeram, embora ganhem a vida praticando atividades ilícitas. Enviados para a mesma cela, os dois se evitam como se fossem pessoas antagônicas. Mas a verdade é oposta. Não se gostam por serem semelhantes; um parece refletir a imagem do outro. A convivência é difícil, inclusive o diretor Jim Jarmusch explora a situação com tomadas longas e uma fotografia em preto e branco que privilegia tons mais escuros.

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Jim Jarmusch explora a incomunicabilidade dos personagens (Foto: Reprodução)

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Mesmo após a fuga, os foragidos não se sentem livres (Foto: Reprodução)

Aos poucos, a história toma outro rumo, até estético. Os diálogos se tornam mais densos e as cenas mais curtas com a chegada do detento Roberto (Roberto Benigni), um verborrágico imigrante italiano, mas bem humorado, que leva luz e vida ao mórbido e opaco ambiente. A princípio, Zack e Jack tentam evitá-lo. Entretanto, cedem quando Roberto afirma ter um plano para fugirem da prisão. Dos três, o único que realmente foi preso por um crime que cometeu é o italiano. Jarmusch destaca a subjetividade e o paradoxo ao mostrar um homicida ingênuo enquanto os outros dois condenados, mesmo inocentes, personificam o estereótipo de um criminoso.

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Cenário onde o imigrante Bob se depara com o sonho americano (Foto: Reprodução)

O cineasta mostra a incomunicabilidade com uma peculiaridade assombrosa. Bob, que mal sabe falar inglês, é efusivo e raramente fica em silêncio. Já Zack e Jack, autênticos estadunidenses, têm dificuldades de se relacionarem. No decorrer da trama, o imigrante italiano, admirador da cultura norte-americana, consegue uma esposa. Jarmusch faz o espectador crer que o abestalhado Roberto encontrou um “lar” na América, quem sabe a concretização particular do american way of life. Em contraponto, os dois americanos da Louisiana continuam vivendo nos EUA como se fossem estrangeiros; vagam em rumo de um objetivo existencial.

Uma das cenas mais impactantes de Down By Law surge quando os três criminosos encontram uma casa durante a fuga. No interior, Jim Jarmusch recria o ambiente de uma cela, com beliches típicos de penitenciárias e colchões cobertos por lençóis iguais. O objetivo é transmitir a ideia de que mesmo livres ainda estão presos, não a um espaço material, mas a uma condição existencial que os acompanhou por toda a vida. É uma referência a responsável por privar-lhes de sentirem-se livres – a marginalidade.

A trilha sonora do filme foi composta especialmente pelo ator, músico e artista plástico John Lurie que fez parte do grupo The Lounge Lizards, um clássico do jazz estadunidense. Outra curiosidade sobre Down By Law é que o filme venceu importantes festivais de cinema e disputou em 1986 o prêmio Palme d’Or, o mais importante do Festival de Cannes. Vale lembrar ainda que a influência da obra se estende ao cenário musical. O exemplo mais emblemático é a banda de punk-rock Down By Law, muito famosa nos EUA e que já se apresentou no Brasil algumas vezes.

Um sargento inusitado

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Sargento Marcelino ficou conhecido pelos métodos nada ortodoxos de impor ordem

Área onde o sargento Marcelino construiu a prisão de caibros de peroba (Foto: Reprodução)

Na época da colonização de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, nenhuma autoridade policial ficou tão conhecida quanto o sargento Marcelino, homem que para impor a ordem utilizava métodos nada ortodoxos.

Sargento Marcelino era policial em Arapongas, no Norte Central Paranaense, quando foi enviado para trabalhar em Paranavaí, no tempo em que a colônia era conhecida como Fazenda Brasileira. Marcelino assumiu como delegado em substituição ao Sargento Bahia,  considerado um policial muito tolerante. Os moradores reclamavam que o antigo delegado não fazia valer as leis no povoado.

“O sargento Marcelino era diferente, um homem danado de bravo, valente e autoritário”, comentou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás. Quem buscou os pertences de Marcelino em Arapongas foi o pioneiro espanhol Thomaz Estrada que além de comerciante trabalhava com o transporte de mudanças.

Nos anos 1940, dois soldados davam assistência ao sargento. Em determinados dias, quando não tinham nada para fazer, os policiais se ocupavam plantando algodão e milho. Eram trabalhadores, segundo José Ferreira, acrescentando que quem “endireitou” a colônia foi o sargento Marcelino.

Sobre o trabalho do policial, são raras as queixas dos pioneiros. A maioria o elogia. O ex-prefeito Ulisses Faria Bandeira definiu o sargento como um negrão forte e exigente, de pulso filme e que prestou muitos serviços a Paranavaí. “Era um homem de peso e de atitude. O pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros também reconheceu a importância do policial, porém, assim como outros pioneiros, o considerava bem esquisito.

Tal fama se deve ao fato de Marcelino ter usado métodos nada ortodoxos para manter a ordem na colônia. Na década de 1940, o sargento mantinha uma pequena prisão de caibros de peroba em frente ao local onde foi construída a Praça Dr. Sinval Reis (Praça da Xícara). Lá, Marcelino prendeu muitos bêbados. “Tinha os coitados que trabalhavam no mato, no meio daquela mosquitada. Quando vinham para a cidade traziam um dinheirinho e enchiam a cara. Então o sargento os prendia lá até melhorar”, explicou José Ferreira.

A corrente que virou cadeia

Um dia, quando retornou ao serviço, o sargento Marcelino encontrou a cadeia em chamas. Interpretou aquilo como uma afronta. O autor supôs que o policial não teria mais onde prender ninguém. Bravo e nervoso, o sargento foi até a serraria do pioneiro José Ebiner e pediu que o marceneiro o arrumasse uma corrente bem grande. Com o material, Marcelino fez um argolão de ferro e gritou em meio ao local onde ficava a pequena cadeia: “Vou tocar essa corrente em pescoço de nego safado. Aí quero ver.”

Logo o sargento fez sua primeira vítima. Era um peão chamado Darci que foi até a casa de uma senhora ver se ela não queria lavar-lhe as roupas. A mulher se sentiu desrespeitada pela proposta feita enquanto o marido trabalhava na abertura das estradas da colônia. ”Ela denunciou para o Marcelino que o prendeu e passou o correntão nele”, relatou Palhacinho, se referindo à “nova prisão” do sargento, instalada em cima de uma prancha de peroba.

A corrente não era muito pesada, mas a pessoa tinha de segurá-la com o braço para não doer o pescoço. Curiosos, o pioneiro mineiro José Alves de Oliveira, conhecido como Zé do Bar, e José Araújo foram ver o peão Darci quando o sargento Marcelino o prendeu com a corrente. “Ficamos olhando com aquele olhão. Na mesma hora, o sargento saiu na porta da cozinha com um prato enorme de comida. Falou ao Darci que a mulher logo faria o prato dele”, destacou Araújo.

Quando viu Zé do Bar e Palhacinho observando o preso, o delegado gritou: “Ué, vocês também querem vir na corrente?” Os dois saíram correndo envergonhados e espalharam pela colônia que ninguém deveria ir lá. “Podia ser importante ou não, o homem realmente prendia ao correntão”, enfatizou Ferreira Araújo.

Antes de soltar os contraventores, que ficavam presos ao pé de um toco por período de uma noite e um dia, ou até mais tempo, Marcelino mandava dar a eles um purgante à base de sementes de mamona amassadas numa caneca d’água, de acordo com o pioneiro José Francisco Siqueira, conhecido como Zé Peão.

Outro fato curioso que aumentou a fama do então delegado foi um castigo que ele aplicou a um praticante de umbanda. Marcelino foi até o armazém do espanhol Thomaz Estrada e comprou um metro de fumo. “Perguntei pra que ele queria aquilo. O sargento disse que era pra bater num nego sem vergonha e macumbeiro [sic]. E bateu mesmo”, assegurou Estrada.

Conforme palavras do pioneiro gaúcho Severino Colombelli, o sargento Marcelino fazia de tudo contra os malfeitores. “Por isso, aqui não tinha ladrão. Paranavaí seria a melhor cidade do Brasil se ainda tivesse um sargento Marcelino. Ele era enérgico”, finalizou.

Saiba Mais

No período em que viveu em Paranavaí, sargento Marcelino trabalhou com três policiais: cabo Salata, soldado Sebastião e soldado Luizinho.

Curiosidade

Na época da colonização era chamado de peão o homem que trabalhava na derrubada da mata.

Frases dos pioneiros sobre o sargento Marcelino

José Francisco Siqueira (Zé Peão)

“Foi um grande aqui. Deixou nome e nunca fez burrada.”

“A cadeia era um pé de palma. O caboclo fazia desordem, o Marcelino pegava o cadeado e o prendia a árvore.”

Enéias Tirapeli

“Era um pretão aparelhado com o Capitão Telmo Ribeiro.”

José Antonio Gonçalves

“Marcelino era um senhor de corpo forte. Ele quem mandava na cidade.”

Thomaz Estrada

“Autoridade aqui era só o Marcelino.”

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