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Harry F. Harlow e a indução de macacos ainda bebês à depressão

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Foto: Revista Time

1959 – Harry F. Harlow realizou uma série de experimentos em que induzia macacos ainda bebês à depressão. Em uma foto da revista Life, o macaquinho aparece agarrado a uma macaca de pano que ele acreditava ser sua mãe. Mais tarde, os macaquinhos foram colocados para conviverem com suas mães biológicas. No entanto, como também foram enclausuradas e privadas do convívio social desde o nascimento dos bebês, elas mais tarde não reconheceram qualquer vínculo. Uma das macacas mordeu os dedos das mãos e dos pés do seu filhote no primeiro contato. Já outra macaca esmagou o crânio do próprio bebê no chão. Essa experiência foi colocada em prática para avaliar as reações dos macacos rhesus em situação de ausência afetiva e maternal.

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Written by David Arioch

September 18th, 2017 at 6:05 pm

A ansiedade social de Kafka

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Samsa é a gradação surrealista do escritor em estado patológico, como uma figuração quimérica

Kafka1906

1906 – Kafka sofria de ansiedade social (Foto: Reprodução)

O primeiro e mais pungente indício de que o escritor tcheco Franz Kafka sofria de ansiedade social está na sua obra mais famosa – “A Metamorfose”, de 1915. A transformação de Gregor Samsa revela não apenas o medo, aceitação seguida de ostracismo e o rompante de cólera do protagonista diante de um mundo que pouco representa além da compressão da sua própria existência, mas também as inúmeras facetas das afecções e doenças então inominadas que atingiam Kafka.

Samsa é a gradação surrealista do escritor em estado patológico, como a sua própria figuração quimérica e exemplarmente estruturada a partir de seus problemas registrados em cartas e diários. “Sou incapaz de viver com as pessoas, de falar. Vivo imerso em mim. Me sinto apático, sem juízo e com medo. Não tenho nada a dizer a ninguém. Nunca!”, escreveu em uma das cartas enviadas à tradutora tcheca Milena Jesenská, com quem se correspondeu entre os anos de 1920 e 1923, estabelecendo um grande laço de confiança.

Estar sozinho era tão essencial para Kafka que ele via nisso uma genuína forma de poder, algo que dissolvia o seu interior e o preparava para trazer à tona o que ele resguardava de mais profundo em seu âmago. “Quando estou voluntariamente só, há uma ligeira ordenação em meu interior e isso faz com que eu não sinta falta de nada”, declarou.

Introvertido, as interações sociais faziam com que o autor se sentisse drenado. Somente a completa solitude garantia a recuperação de sua energia e serenidade. “Escrevo diferente de como falo e falo diferente de como penso”, revelou. Kafka experimentou beber para lidar com a ansiedade social, um método comum incentivado por seus colegas, mas que não o ajudou em nada. “Não posso usar drogas para enganar a minha solidão, pois ela é tudo que tenho. E quando os efeitos das drogas e do álcool se dissiparem, será tudo que meus colegas terão também”, refletiu.

Ele reconhecia o condão da sua eloquência com a escrita, porém sempre se deparou com uma barreira que o impedia de se expressar da mesma maneira quando conversava com alguém. “Sou muito tímido para dizer o que realmente penso e acabo me sentindo mal por isso”, confidenciou. Franz Kafka lamentava o desconforto por não conseguir se comunicar com outras pessoas da mesma forma que ele fazia com os parentes mais próximos.

“Não fico ansioso com minha irmã mais nova e eu gostaria de ser assim com todos. Destemido e poderoso, é como me sinto quando escrevo. É como se minha ansiedade não existisse. A ideia de alguém ler o que escrevo também nunca me incomodou, a não ser que peçam que eu fale sobre o que escrevi”, registrou em outra carta.

“Sou incapaz de viver com as pessoas, de falar. Vivo completamente imerso em mim"

“Sou incapaz de viver com as pessoas, de falar. Vivo completamente imerso em mim” (Foto: Reprodução)

Em uma de suas queixas, o escritor admitiu que nunca teve um relacionamento sério e que a ideia de ter filhos lhe parecia muito distante. “Quando alguém fala comigo, não consigo evitar de pensar que posso ser atacado, então meu instinto é fugir”, desabafou, lembrando-se de um episódio em que um dia à meia-noite um conhecido se aproximou dele em frente a uma cafeteria quase deserta e o convidou para uma conversa. Assustado, Kafka declinou o pedido e foi embora às pressas.

Outros convites se repetiram e ele sempre suspeitava que se aproximavam dele por piedade. Foram poucas as ocasiões em que o escritor concordou em sentar-se à mesa com pessoas que não faziam parte de sua família. “Tudo que não é literatura me aborrece e eu odeio isso. Me falta toda a aptidão para a vida familiar, exceto, na melhor das hipóteses, como observador. Quando recebemos visitas em casa me vejo prestes a me tornar alvo de algum tipo de malícia”, relatou.

Milena Jesenská: "Ele era tímido, gentil e amável, mas escreveu livros muito dolorosos" (Foto: Reprodução)

Milena Jesenská: “Ele era tímido, gentil e amável, mas escreveu livros muito dolorosos” (Foto: Reprodução)

Kafka se julgava como alguém sem vida social, que passava as noites na pequena varanda de casa, observando o rio. Não se considerava uma boa pessoa. “Eu pouco me preocupo com os outros. Sou uma pessoa ridícula. Se você estiver um pouco apaixonada por mim, só posso crer que seja comiseração. E de minha parte, só posso sentir medo”, segredou em carta à jovem Hedwig W., escrita em Praga em 29 de agosto de 1907. Para ela o escritor produziu o poema “Anos Atrás”.

Também afirmou que sua vida se pautava na permanente tentativa de comunicar o incomunicável, explicar o inexplicável. “Estou sempre escrevendo sobre algo que habita meus ossos e que só pode ser experimentado através deles. Basicamente sinto o medo se espalhando por mim, um temor paralisante de pronunciar uma palavra. E não somente pavor, mas também um anseio por algo maior do que tudo o que representa o medo”, confessou em carta a Milena Jesenská.

Como Milena definiu Franz Kafka

“Ele era tímido, gentil e amável, mas escreveu livros muito dolorosos. Viu um mundo cheio de demônios invisíveis que rasgam e destroem pessoas indefesas. Ele era lúcido e sábio demais para a vida. Chegou a um ponto que dominado pela fraqueza não conseguiu mais lutar. Era uma fraqueza dos nobres, de quem teme o mal entendido, a indelicadeza e as mentiras intelectuais. Era de uma casta de pessoas com sensibilidade que poucos são capazes de entender. Um solitário com um olhar profético que através de uma olhadela é capaz de perceber coisas que outros jamais notariam. Ele próprio representava um mundo profundo e extraordinário.”

Nascida em 10 de agosto de 1896, em Praga, então território do Império Austro-Húngaro, Milena foi a principal tradutora de Kafka – da língua alemã para a tcheca.

Saiba Mais

Nascido em Praga em 3 de julho de 1883, Franz Kafka faleceu aos 40 anos em decorrência de uma tuberculose laríngea que o impedia de se alimentar. Curiosamente, quando faleceu, Gregor Samsa, seu personagem mais famoso, estava bem magro porque há muito tempo não se alimentava. O escritor que pouco se importava com a fama só ficou conhecido após sua morte.

Referências

Kafka, Franz. Letters to Milena, Schocken Books, 1952.

Kafka, Franz. Letters to Family, Friends and Editors, Schocken Books, 1959.

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A vida de Sabina Spielrein

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Jornada da Alma narra a história da russa que se apaixonou por Carl Jung

Filme mostra Sabina como influência para Jung e Freud (Foto: Reprodução)

Prendimi l’anima,  lançado no Brasil como Jornada da Alma, é um filme de 2002, do cineasta italiano Roberto Faenza. Baseada na psicanálise, a obra conta a história de Sabina Spielrein, paciente com quem Carl Jung, o fundador da psicologia analítica, teve um relacionamento.

Em Jornada da Alma, Sabina Spielrein (Emilia Fox) é uma jovem russa entregue pelos pais a um hospital psiquiátrico em Zurique, na Suíça, onde a terapia de choque até então era o único método de tratamento. Nesse contexto, Sabina conhece o médico Carl Jung (Iain Glen) que inspirado nas ideias revolucionárias de Freud coloca em prática o método da livre associação. A técnica consiste no paciente falar tudo que pensa enquanto o psiquiatra avalia anseios, receios, traumas e lembranças.

Russa revolucionou a educação infantil (Foto: Reprodução)

As primeiras experiências com Sabina são bem sucedidas. Mas o método que gera complacência e certa intimidade entre médico e paciente vai além do esperado. A jovem russa se apaixona por Carl Jung que propõe torná-la amiga de sua mulher. Crente de que tal pedido anularia sua existência, Sabina volta para a Rússia após se formar em medicina e se especializar em psicanálise. Fica claro no filme o peculiar caráter de revisão histórica ao destacar Sabina Spielrein como influência para Jung e Freud. E mais, mostra como a russa revolucionou a educação infantil ao fazer uso da psicanálise para potencializar qualidades individuais.

Uma das cenas mais impactantes do filme é o momento em que Sabina tenta suicídio após Jung se afastar temporariamente do hospital. A personagem deixa um testamento pedindo aos médicos que cremem seu corpo, mas conservem a cabeça para que Jung possa dissecá-la. Surpreso, o psiquiatra se entrega a Sabina sob o signo de uma metáfora; doa a ela um seixo que segundo ele representa a sua alma.

Francis Ford Coppola revisita Roger Corman

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Filme carrega referências do cinema de Corman e Hitchcock

Demência 13, um thriller que figura entre os grandes filmes B da história

Lançado em 1963, o thriller de horror “Demência 13”, o primeiro longa-metragem do cineasta estadunidense Francis Ford Coppola, revisita o trabalho de Roger Corman, uma das grandes referências dos filmes B de todos os tempos.

“Demência 13”, filme que marcou a estreia oficial de Coppola, é lembrado como um clássico em que a influência de Corman fez o cineasta se aproximar da fórmula hitchcockiana de fazer suspense. Um grande exemplo são as referências à psicologia freudiana. A obra que ganhou status de cult surpreende principalmente pela velocidade dos acontecimentos.

A história apresenta o casal Richard Haloran (William Campbell) e Louise Haloran (Luana Anders) que todos os anos realiza na Irlanda um ritual de celebração da memória da filha Kethleen (Barbara Dowling), morta há 29 anos. Porém, os planos do casal terão a interferência de um assassino que inicia uma carnificina nas imediações do Castelo Haloran. “Demência 13” é um clássico que revela os primeiros indícios da genialidade de Coppola.

O cineasta constrói um misto sólido e intrigante de suspense e horror sem precisar apelar para cenas pesadas de violência, assim como aborda os conflitos psicológicos dos personagens sem necessidade de forçar diálogos a partir de tomadas longas. É um filme com uma linguagem objetiva e clara, assim como as cenas que destoam do artificialismo que mais tarde povoaria os filmes do gênero. Com a obra, Coppola também coloca em prática técnicas em que personagens antagonizam o ambiente. Um exemplo é a cena do casal despontando na noite tenebrosa.