David Arioch – Jornalismo Cultural

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John Feldmann: “Os laticínios são os piores. Cheguei a preferir que as pessoas comessem um bife do que bebessem um copo de leite”

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“Porque pelo menos a vaca logo estaria livre de sua vida miserável. Com o leite, a situação é outra”

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“Percebi que eu precisava mudar de vida [tornar-se vegetariano]” (Foto: Fuse TV)

Vocalista e guitarrista da banda de punk rock/ska Goldfinger, o vegano John Feldmann, que já vendeu mais de 34 milhões de discos, é conhecido por usar a música como forma de ativismo em defesa dos direitos animais. Um grande exemplo é a composição “Free Me”, ou seja, “Me Liberte”, que faz parte do álbum “Open Your Eyes”, de 2002. Na composição, ele mostra imagens registradas em matadouros e critica o tratamento dado aos animais explorados pela indústria alimentícia.

“Sou um cara muito ocupado e eu costumava comer muito fast-food. Percebi que eu precisava mudar de vida [tornar-se vegetariano]. Decidi fazer o que meu coração dizia. Hoje me sinto mais vivo espiritualmente e sei que estou fazendo a coisa certa. Para mim, se tornou difícil assistir as pessoas comendo carne”, disse em entrevista ao FamousVeggie.com.

Principal compositor da banda Goldfinger, fundada em Los Angeles em 1994, Feldmann defende que atualmente há muitas opções para veganos e vegetarianos, e a internet pode facilitar muito a pesquisa sobre o que comer ou onde comer. Entre as suas especialidades na cozinha estão tacos, torradas francesas e shakes veganos. “Mesmo tendo filhos, eu ainda tenho as mesmas crenças e tudo o mais”, garantiu a Alex Obert, do Journey of a Frontman, em entrevista publicada em 22 de agosto de 2014.

Desde que se tornou vegetariano aos 29 anos, Feldmann decidiu fazer dos direitos animais a sua principal bandeira. Ele é da opinião que, se alguém estiver disposto a ouvi-lo, ele é capaz de passar o dia todo falando sobre a importância dos direitos animais, justificando que a causa se tornou a coisa mais importante da sua vida.

“Mas eu não quero que um garoto pague para ver o nosso show e escute apenas as minhas opiniões. Sou um artista, não um político. É apenas uma questão de dizer: ‘É nisso que acredito. Talvez você possa conferir.’ Sinto que um ou dois minutos em um show de uma hora é tempo o suficiente”, afirmou em entrevista à revista Satya em maio de 2003.

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“Naquele tempo, eu não tinha ideia das atrocidades nos matadouros” (Foto: Divulgação)

Algumas pessoas podem dizer que a realidade retratada no clipe “Free Me”, da banda Goldfinger não retrata a realidade de todos os matadouros, e que são casos isolados. Porém, para quem pensa assim, Feldmann tem uma mensagem: “A verdade é que isso acontece em todos os lugares e a todo momento. No final dos meus shows, pelo menos 20 jovens me dizem que vão se tornar vegetarianos ou veganos por causa desse vídeo [Free Me], ou da música, ou da nossa banda. Isso é a coisa mais poderosa de todas que conquistei em minha carreira”, declarou.

Questionado sobre o que o motivou a tornar-se vegetariano e mais tarde vegano, ele contou que a sua transformação começou quando, por meio de informações do Instituto Earth Island, de São Francisco, ele soube dos abusos sofridos pelos golfinhos. “Eu disse: ‘Isso é errado, o que posso fazer?’ Então parei de comer atum de empresas que usavam redes [responsáveis pela morte de golfinhos]. A partir daí, comecei a prestar atenção nos circos, de onde vem o couro, coisas assim”, informou em entrevista à Satya.

A mudança maior veio com “Babe”, de Chris Noonan, lançado em 1995. O filme levou John Feldmann a fazer a conexão entre os animais e a origem da comida. “Parei de comer porcos assim que vi o filme. Então todas as outras coisas, como pedaços crocantes de frango que eu mordia, fiquei como: ‘Por que estou comendo isso? O que estou fazendo?’ É tão errado! Naquele tempo, eu não tinha ideia das atrocidades nos matadouros”, justificou.

O impacto foi ainda maior quando descobriu que porcos são espertos como os cães. Depois, ele continuou pesquisando e encontrou muitas filmagens de matadouros. “Aquilo foi horrível. Quanto mais eu buscava, mais eu encontrava. Para mim, os laticínios são os piores. Cheguei a preferir que as pessoas comessem um bife do que bebessem um copo de leite, porque pelo menos a vaca logo estaria livre de sua vida miserável. Com o leite, a situação é outra [o sofrimento é prolongado, já que elas são abatidas somente quando param de produzir leite]”, lamentou à Satya.

Embora tenha sido lançado em 2002, até hoje o vídeo da música “Free Me”, ou “Me Liberte”, em que Feldmann reage contra a indústria da exploração animal ao dar voz aos animais, é considerado um dos hinos dos direitos animais, inclusive sendo usado até hoje por organizações e ativistas de todo o mundo.

Me Liberte

Eu não pedi pra você me tirar daqui
Eu não pedi para ser quebrado
Eu não pedi para acariciar o meu pelo
Você me trata como uma lembrança sem valor

Mas minha pele é densa
E minha mente é forte
Fui criado como meu pai
Não fiz nada de errado

Então me liberte
Eu só quero sentir o que a vida deveria ser
Eu só quero espaço suficiente para me virar
E enfrentar a realidade
Então me liberte

Quando você vai se dar conta de que
Você está errado
Você não consegue nem pensar por si mesmo
Você não consegue se decidir
Por isso, minha mente é uma jaula
Eu odeio toda a maldita raça humana
Que diabos você quer de mim?
Mate-me se você não sabe
Ou me liberte

Eu só quero sentir o que a vida deveria ser
Eu só quero espaço suficiente para me virar
Porque vocês estão todos ferrados
Algum dia talvez você me trate como a si mesmo.

Saiba Mais

John Feldmann nasceu em 29 de junho de 1967 e decidiu começar a tocar guitarra aos 16 anos, quando ouviu “Mommy’s Little Monster”, da banda Social Distortion, fundada pelo vegetariano Mike Ness.

Com o Goldfinger, entre os anos de 1996 e 2008, John Feldmann lançou os álbuns “Goldfinger”, “Hang-Ups”, “Stomping Ground”, “Open Your Eyes”, “Disconnection Notice” e “Hello Destiny”.

 Referências

http://goldfingermusic.com

http://www.famousveggie.com/interviews/john_feldmann.aspx

https://journeyofafrontman.com/2014/08/22/on-the-line-with-john-feldmann-of-goldfinger/

http://www.satyamag.com/may03/feldman.html

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Mike Ness: “Devo sempre lutar pelos animais porque eles não podem falar por eles mesmos”

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“Ninguém iria assar o cachorro da família. Por que com a vaca ou com a galinha é diferente?”

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Mike Ness: “Sou um lutador. Essa parte de mim nunca vai mudar”

Em 1978, o vocalista e guitarrista Mike Ness, inspirado em bandas britânicas como Sex Pistols e The Rolling Stones, fundou o Social Distortion nos Estados Unidos. Além da banda ser uma das mais importantes do ressurgimento do punk rock na década de 1980, é também apontada como uma das que alcançou maior sucesso comercial na história do punk rock.

Vegetariano há mais de 35 anos, Mike Ness relatou em entrevista a Maranda Pleasant, da revista Origin, dos Estados Unidos, em 5 de dezembro de 2012, que ele se considera um ativista pelo direitos animais, vegetarianismo e meio ambiente.

“Nunca fui de hastear bandeiras, mas posso dar o exemplo. Sinto que se de algum modo o público está de olho em você, isso significa que você tem um pouco de influência. As pessoas que têm a mente fechada, podem dizer: ‘Ah, isso é interessante! Talvez haja mais do que eu pensava”, declarou.

Em entrevista ao portal Idioteq, de Vasórvia, na Polônia, publicada em maio de 2012, Karol Kamiński comentou que Mike Ness é um bom exemplo da dicotomia entre pessoa pública e vida privada. “Você é esse cara durão todo tatuado e ainda assim…” Então o fundador do Social Distortion continuou:

“Sou um vegetariano que tem três chihuahuas e faz ioga e boxe. Houve um momento em minha trajetória que percebi que se eu me importasse com o que as pessoas pensam de mim, eu não estaria sendo eu mesmo. Não estou preocupado com a minha masculinidade. Sei qual é a diferença entre as coisas que fazem um homem de verdade e a falácia do que as pessoas pensam que faz de você um homem.”

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Ness: “Amo ser vegetariano e acredito que é a escolha certa para mim”

Em entrevista a Shelley Peckham, do blog True Endeavors, publicada em 29 de novembro de 2011, Ness disse que se você não tem nada em sua vida pelo que lutar, você não tem nada – você não está realmente vivendo, em referência à sua luta pelos direitos animais e também por inúmeras causas sociais.

“Quando eu era adolescente, minha luta era pela música. Eu tive que defendê-la. A reação ao punk rock era muito violenta e volátil às vezes, e eu tive que lutar por isso. Mas agora há outras coisas que me deixam apaixonado. Sou um lutador. Essa parte de mim nunca vai mudar”, informou.

Colaborador voluntário da organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta), Mike Ness já apareceu em vários vídeos falando sobre a contradição humana de amar alguns animais e relegar outros à morte simplesmente para transformá-los em comida. “Tenho a responsabilidade de ajudar a fazer do mundo um lugar melhor. Ninguém iria assar o cachorro da família. Por que com a vaca ou com a galinha é diferente?”, questionou retoricamente.

Nos shows do Social Distortion, não são raras as vezes em que Ness encontra algum meio de falar de forma sutil e argumentativa o motivo pelo qual ele é vegetariano e defende os direitos animais. “Devo sempre lutar pelos animais porque eles não podem falar por eles mesmos. Amo ser vegetariano e acredito que é a escolha certa para mim”, anunciou em vídeo publicado pela Peta em abril de 2009.

Saiba Mais

Mike Ness nasceu em 3 de abril de 1962 e foi criado em Orange County, na Califórnia.

Entre os anos de 1983 e 2012, ele gravou sete álbuns com o Social Distortion. Além disso, lançou dois álbuns em carreira solo.

 Referências

http://www.originmagazine.com/2012/05/12/interview-with-mike-ness-of-social-distortion/

http://www.idioteq.com/social-distortions-mike-ness-interviewed-by-the-tribune-may-2012/

https://trueendeavorsblog.com/2011/11/29/somewhere-between-heaven-and-hell-an-interview-with-social-distortions-mike-ness/

Tim McIlrath: “Foi como se eu não tivesse mais estômago para isso [comer carne]”

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“Eu era um cara do tipo: ‘Foda-se isso. Nunca vou parar de comer carne.”

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McIlrath teve um choque de realidade ao receber informações sobre a exploração de animais (Foto: Reprodução)

O vocalista e guitarrista da banda estadunidense de hardcore melódico Rise Against, Tim McIlrath, contrariando todas as possibilidades, já que ele se via como alguém que jamais abandonaria o consumo de carne, tornou-se vegetariano. Isto porque acidentalmente McIlrath teve um choque de realidade ao receber informações sobre a exploração de animais na indústria alimentícia.

Em entrevista a Big D, do zine The Black & Blue Press, ele contou que aos 17 anos saiu para comprar um CD e uma camiseta quando alguém colocou um panfleto sobre a exploração de animais em seu bolso. À época, ele não via o vegetarianismo com bons olhos, mas ainda assim teve uma reação inesperada.

”Eu era um cara do tipo: ‘Foda-se isso. Nunca vou parar de comer carne.’ Esse panfleto ficou no meu bolso por dias. Até que um dia, enquanto eu esperava o ônibus, senti algo no bolso e pensei: ‘O que é essa porcaria?’ Então comecei a ler e de repente: ‘Puta merda!’ […] Foi como se eu não tivesse mais estômago para isso. Era como colocar um garfo na minha boca e eu ficar: “Aaaaah, não posso comer isso mais’ Então me tornei vegetariano e nunca mais olhei para trás”, relatou em entrevista a Big D em outubro de 2006.

O panfleto que fez McIlrath abandonar o consumo de carne foi criado pela organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta). Segundo o músico, clipes como “Meat is Murder”, do The Smiths, e bandas como Earth Crisis e Snapcase fortaleceram ainda mais a sua decisão, assim como vídeos da realidade dos matadouros e livros sobre como os animais não humanos são tratados pela indústria alimentícia.

Em entrevista ao expert em punk rock Ryan Cooper, do portal About.com, o vocalista da banda Rise Against citou a baixa qualidade dos produtos de origem animal e qualificou como nojento o sistema de produção de carnes e laticínios. “Não tive mais estômago e condição física para seguir adiante. […] Agora me sinto responsável em passar isso para as próximas gerações, assim como outras bandas fizeram antes”, disse a Cooper. Tim McIlrath realiza campanhas voluntárias para a Peta, visando incentivar principalmente os jovens a aderirem ao vegetarianismo ou ao veganismo.

Referências

http://punkmusic.about.com/od/interviews/a/McIlrath.htm

http://theblackandbluepress.blogspot.com.br/2006/10/interview-rise-against-tim-mcilrath-joe.html

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Vírus 27, um dos embriões do movimento skinhead brasileiro

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Uma das poucas bandas a unir carecas, punks (skunks) e pessoas sem ligação com qualquer movimento 

Capa do disco "Brasil Oi", lançado pela banda em 1988 (Arte: Reprodução)

Capa do disco Brasil Oi”, lançado pela banda em 1988 (Arte: Reprodução)

O Vírus 27 é uma banda brasileira fundada em São Paulo em 1982 por fãs do Dead Kennedys – até hoje um dos maiores nomes do punk rock graças à criatividade e imprevisibilidade de seu líder Jello Biafra. Infelizmente, pouco tempo após a criação da banda, dois integrantes do Vírus 27, Ademilson, que inclusive escolheu o nome do grupo, e Di, morreram.

Embora nos primeiros anos do Vírus 27 tenha restado apenas o baixista Pezão da formação original, a banda já estava se afastando do punk rock tradicional, se tornando um dos embriões do movimento skinhead brasileiro e um dos poucos grupos a unir carecas, punks (skunks) e até pessoas sem ligação com qualquer movimento ideológico, que apenas se identificavam com a proposta musical. A importância do Vírus 27 durante a Ditadura Militar é incontestável, ainda mais levando em conta o teor de suas canções de protesto em shows, atraindo multidões de jovens insatisfeitos.

Mais tarde, desempregado e enfrentando sérias dificuldades financeiras, Pezão teve de trocar a difícil realidade proletária do meio urbano pela área rural, onde começou a trabalhar como cortador de cana, sendo obrigado a deixar definitivamente o Vírus 27. Com a nova mudança de formação, Braz continuou na bateria e ingressaram na banda o baixista Lula (ex-Negligentes), o guitarrista Júnior e o vocalista e guitarrista Joe 90 que se tornaria um dos compositores mais importantes do oi! brasileiro.

A estreia nacional do Vírus 27 veio com o convite para participar da coletânea “Ataque Sonoro” que reuniu os maiores nomes do punk rock nacional. No ano seguinte, empolgados com a boa repercussão, lançaram o álbum “Parasita Obrigatórios”, baseado em 16 composições e um bônus que se tornou um hino: “Vida Longa aos Skinheads”.

Em 1987, participaram da hoje rara coletânea “Ronda Alternativa”, uma iniciativa da saudosa Devil Discos. No ano seguinte, o disco “Brasil Oi!” reafirmou a posição de destaque do grupo como expoente do oi! nacional, com letras que exaltavam tanto as virtudes brasileiras, com viés patriótico, quanto a invisibilidade social e outros problemas vividos pela maior parte da população. “Caso Sério”, de 1996, foi o último álbum lançado pelo Vírus 27, um ano depois de terem participado da compilação “Oi! Um Grito de União”, da extinta Rotten Records.

Com uma longa trajetória iniciada no início da década de 1980, a banda conquistou projeção nacional e internacional com a sua formação mais clássica – Joe 90 (vocal e guitarra), Emerson Flocks (baixo) e Léro (bateria). A música do Vírus 27 sempre foi simples e coesa, como o próprio gênero oi!, uma ramificação do punk rock, demandava, e a produção também era independente e underground, limitações que inclusive agregaram novo status e conceito do ponto de vista estético. Incrível como uma música Oi! – “Caminhos Incertos”, lançada nos anos 1980, continua tão atual.

“Quanto tempo faz,
Que o povo não se entende
Quanto tempo faz,
que vocês não me compreendem”…

Curiosidade

O nome Vírus 27 é uma referência ao selo Alternative Tentacles, fundado por Fello Biafra, dos Dead Kennedys, em 1979.

Saiba Mais

Historicamente, a cultura skinhead em essência nunca defendeu o uso de violência, muito menos qualquer forma de racismo ou preconceito. Esse tipo de conduta é inerente aos boneheads, um movimento completamente diferente que inclusive se apropria de forma equivocada e ilícita da palavra skinhead, um termo hoje totalmente vulgarizado e descontextualizado por causa da desinformação.

Written by David Arioch

February 12th, 2016 at 11:29 pm

Quando o punk rock transforma vidas

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Banda finlandesa formada por portadores de síndrome de down e autismo usa o gênero como forma de conscientização

Pertti Kurikan Nimipäivät surgiu na Finlância em 2009 (Foto: Reprodução)

Pertti Kurikan Nimipäivät surgiu na Finlância em 2009 (Foto: Divulgação)

Pertti Kurikan Nimipäivät é uma banda finlandesa de punk rock old school formada em 2009 por quatro homens com mais de 40 anos que sofrem de síndrome de down e autismo. Apesar das dificuldades e adversidades que tiveram de enfrentar para se tornarem músicos, perseveraram e lançaram em 2010 o split Ei yhteiskunta yhtä miestä kaipaa em parceria com a banda Kakka-hätä 77.

Na sequência, gravaram o single Päättäjä on pettäjä e os EPs em vinil Osaa eläimetkin pieree, de 2011, que faz parte da coletânea Punk & Pillu (da Mauski Records), e Asuntolaelämää, de 2012, ano em que lançaram também o primeiro álbum, intitulado Kuus kuppia kahvia ja yks kokis. Após a duradoura parceria com as gravadoras Airiston Punk-Levy e Hikinauhat Records, o Pertti Kurikan Nimipäivät assinou um contrato com a Sony Music e lançou no dia 13 de janeiro o single Aina mun pitää.

Distante das novas tendências do rock, o Pertti Kurikan Nimipäivät tem como principais influências alguns grupos do cenário underground que entraram para a história do punk rock finlandês há 30 anos ou mais. Exemplos são as bandas Karanteeni, Kollaa kestää, Ratsia, Sensuuri, Eppu Normaali, Ypö-Viis e Pelle Miljoona ym.

Banda é tema do documentário The Punk Syndrome, de 2009 (Foto: Reprodução)

Banda é tema do documentário The Punk Syndrome, de 2009 (Foto: Divulgação)

Mesmo trabalhando com uma proposta pessoal e diferenciada de conscientização sobre a síndrome de down e o autismo, a banda que usa a música como forma de manifesto só começou a ganhar boa visibilidade na Europa em 2012, quando os documentaristas Jukka Kärkkäinen, J-P Passi e Sami Jahnukainen lançaram o filme The Punk Syndrome.

Inspirado no cinema-verdade, o documentário não recorre a comentários e posicionamentos de especialistas para despertar a conscientização sobre os problemas dos integrantes. Muito menos tenciona ser um baluarte institucional ou a favor de alguma organização não-governamental. É um filme que surpreende pela simplicidade e maneira bem-humorada de destacar que a música pode ser o principal combustível motivador na vida das pessoas.

Nesse contexto, a célebre frase de Nietzsche que dizia que a vida sem música seria um erro se aplica ao gênero punk rock no universo pessoal e coletivo de Pertti Kurikka (guitarrista e compositor), Kari Aalto (vocalista e letrista), Sami Helle (baixista) e Toni Välitalo (baterista).

Desde o lançamento do documentário, a popularidade da banda tem aumentado (Foto: Reprodução)

Desde o lançamento do documentário, a popularidade da banda tem aumentado (Foto: Divulgação)

Ao mesmo tempo que é revelador, The Punk Syndrome consegue ser dúbio, enigmático e subjetivo. Não há explicações para muitas das situações registradas no filme justamente porque os autores preferem deixar aos espectadores à livre interpretação. No documentário, o punk rock é uma entrada e uma saída. A entrada para um mundo de liberdades e de manifestações sensoriais longe de regras e padrões. É também uma saída de um mundo de pré-conceitos, privações, limitações inconclusivas e diagnoses obtusas.

A banda cresce ao longo do filme e ganha luz numa grande projeção de entendimento e esclarecimento. Há uma gradação do princípio da obscuridade para um reencontro com a luminância. O que ratifica a ideia é o momento em que Pertti, Kari, Sami e Toni começam a se apresentar fora da Finlândia, sua terra natal.

Há que se ponderar também sobre o fato de que ainda é gritante a diferença entre como um autista ou portador de síndrome de down se vê e como nós os vemos. Talvez ainda nos falte a sensibilidade de enxergar as suas potencialidades de forma mais justa, honesta e menos piedosa.

The Punk Syndrome foi premiado na Finlândia, Suíça, Estados Unidos e Ucrânia. Recebeu elogios de revistas como Variety e Empire, além do jornal britânico The Observer. Por enquanto, a meta do Pertti Kurikan Nimipäivät é se apresentar no EuroVision, um dos maiores festivais de música da Europa. A banda disputa uma das vagas com outros 17 classificados.

Conheça o som da banda:

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Written by David Arioch

February 4th, 2015 at 1:22 pm

Era uma vez um sonho americano

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Down By Law, confinados a uma realidade marginal

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Filme conta a história de três detentos alheios ao sonho americano (Foto: Reprodução)

Lançado em 1986, Down By Law, do estadunidense Jim Jarmusch, consagrado nome do cinema independente, conta a história de três detentos alheios ao sonho americano. Mesmo sem perspectiva de futuro, eles conseguem fugir, mas fora da cadeia se dão conta de que continuam presos, confinados a uma realidade marginal.

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John Lurie, Roberto Benigni e Tom Waits são os protagonistas de Down By Law (Foto: Reprodução)

Zack (Tom Waits) e Jack (John Lurie) são dois personagens condenados a prisão por crimes que não cometeram, embora ganhem a vida praticando atividades ilícitas. Enviados para a mesma cela, os dois se evitam como se fossem pessoas antagônicas. Mas a verdade é oposta. Não se gostam por serem semelhantes; um parece refletir a imagem do outro. A convivência é difícil, inclusive o diretor Jim Jarmusch explora a situação com tomadas longas e uma fotografia em preto e branco que privilegia tons mais escuros.

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Jim Jarmusch explora a incomunicabilidade dos personagens (Foto: Reprodução)

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Mesmo após a fuga, os foragidos não se sentem livres (Foto: Reprodução)

Aos poucos, a história toma outro rumo, até estético. Os diálogos se tornam mais densos e as cenas mais curtas com a chegada do detento Roberto (Roberto Benigni), um verborrágico imigrante italiano, mas bem humorado, que leva luz e vida ao mórbido e opaco ambiente. A princípio, Zack e Jack tentam evitá-lo. Entretanto, cedem quando Roberto afirma ter um plano para fugirem da prisão. Dos três, o único que realmente foi preso por um crime que cometeu é o italiano. Jarmusch destaca a subjetividade e o paradoxo ao mostrar um homicida ingênuo enquanto os outros dois condenados, mesmo inocentes, personificam o estereótipo de um criminoso.

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Cenário onde o imigrante Bob se depara com o sonho americano (Foto: Reprodução)

O cineasta mostra a incomunicabilidade com uma peculiaridade assombrosa. Bob, que mal sabe falar inglês, é efusivo e raramente fica em silêncio. Já Zack e Jack, autênticos estadunidenses, têm dificuldades de se relacionarem. No decorrer da trama, o imigrante italiano, admirador da cultura norte-americana, consegue uma esposa. Jarmusch faz o espectador crer que o abestalhado Roberto encontrou um “lar” na América, quem sabe a concretização particular do american way of life. Em contraponto, os dois americanos da Louisiana continuam vivendo nos EUA como se fossem estrangeiros; vagam em rumo de um objetivo existencial.

Uma das cenas mais impactantes de Down By Law surge quando os três criminosos encontram uma casa durante a fuga. No interior, Jim Jarmusch recria o ambiente de uma cela, com beliches típicos de penitenciárias e colchões cobertos por lençóis iguais. O objetivo é transmitir a ideia de que mesmo livres ainda estão presos, não a um espaço material, mas a uma condição existencial que os acompanhou por toda a vida. É uma referência a responsável por privar-lhes de sentirem-se livres – a marginalidade.

A trilha sonora do filme foi composta especialmente pelo ator, músico e artista plástico John Lurie que fez parte do grupo The Lounge Lizards, um clássico do jazz estadunidense. Outra curiosidade sobre Down By Law é que o filme venceu importantes festivais de cinema e disputou em 1986 o prêmio Palme d’Or, o mais importante do Festival de Cannes. Vale lembrar ainda que a influência da obra se estende ao cenário musical. O exemplo mais emblemático é a banda de punk-rock Down By Law, muito famosa nos EUA e que já se apresentou no Brasil algumas vezes.