David Arioch – Jornalismo Cultural

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Psicopatia Tarantinesca

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Reservoir Dogs e a incursão por um mundo dissocial

Em Reservoir Dogs, Tarantino explora a violência e a ironia (Foto: Reprodução)

Em Reservoir Dogs, Tarantino explora a violência e a ironia da criminalidade (Foto: Reprodução)

Lançado em 1992, Reservoir Dogs, que chegou ao Brasil com o título de Cães de Aluguel, é o longa-metragem de estreia do cineasta Quentin Tarantino. A partir de imagens e diálogos tão violentos quanto irônicos, o filme propõe incursão a um universo onde criminosos se confrontam, motivados pela própria natureza.

É sempre bom lembrar que Quentin Tarantino se tornou cineasta tendo como principal formação os centenas de filmes que assistiu quando trabalhava como atendente de uma videolocadora. Justamente por isso, a sua primeira obra reúne heterogeneidade e cosmopolitismo, características que o acompanhariam por toda a filmografia da carreira.

Com influências que vão da cultura pop até o cinema alternativo, Reservoir Dogs conta a história de seis criminosos que não se conhecem e são contratados para praticar um grande assalto a uma joalheria. No entanto, durante o crime, a polícia chega ao local antes do previsto e na fuga um dos assaltantes é baleado e morre. Os sobreviventes, entre eles um gravemente ferido, fogem e vão para um galpão, onde aguardam a chegada do chefe da quadrilha. Enquanto isso, os bandidos trocam acusações sobre quem os delatou para a polícia.

Steve Buscemi e Harvey Keitel em cena antológica (Foto: Reprodução)

Steve Buscemi e Harvey Keitel em cena antológica (Foto: Reprodução)

No filme, a primeira cena em que discutem sobre a música Like a Virgin, da diva pop Madonna, funciona como uma ponte de alegorias. Cada personagem interpreta com extrema pessoalidade o significado da letra, denunciando traços da personalidade. Tarantino ousa ainda mais. Tanto que um dos criminosos cita uma canção como referência para a criação de uma metáfora que revela importantes informações sobre a história.

Sem se ater a linearidade, o cineasta mostra com requinte descritivo alguns fragmentos da vida dos bandidos. Aos poucos, o espectador percebe que a quadrilha reúne muitas das características inerentes a um ser humano aparentemente comum, seja sob uma perspectiva maniqueísta ou não. Nesses momentos, são destacados desde a complacência até a exasperação e a psicopatia – transtorno de personalidade dissocial que no filme só pode ser percebido de acordo com a ânsia do personagem.

Para o elenco, o diretor reuniu nomes de peso como Harvey Keitel, Steve Buscemi, Tim Roth, Michael Madsen e Chris Penn. No primeiro longa-metragem da carreira, Quentin Tarantino apresenta uma curiosa estética cinematográfica – enaltece os detalhes sem prejudicar a trama. Além de uma câmera testemunhal, o filme é pautado em uma narrativa agressiva e que combate o falso moralismo.

O autor deixa evidente sua opinião na obra: “Para uma mente criminosa, a vida é descartável como um copo.” Prova isso visualmente quando mistura – sem qualquer parcimônia – sangue, morte e comicidade, ratificando a banalização do “existir”.

O sangrento faroeste à Tarantino

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Django Unchained mistura bang-bang, drama e comédia em um cenário de violência extrema

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Christoph Waltz e Jamie Foxx interpretam uma dupla de caçadores de recompensas (Foto: Reprodução)

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Samuel L. Jackson rouba a cena como o ruidoso nigger house Stephen (Foto: Reprodução)

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Leonardo DiCaprio incorpora o cruel Calvin Candie (Foto: Reprodução)

Django Unchained, do cineasta estadunidense Quentin Tarantino, é uma obra audaciosa com quase 2h50. Mesmo longa, é capaz de cativar a atenção do espectador do início ao fim. Memoráveis as interpretações do austríaco Christoph Waltz, Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson. Me diverti muito com o personagem Big Daddy, interpretado pelo multifacetado Don Johnson que incorpora a comicidade, a sátira e a estupidez dos latifundiários sulistas estadunidenses nos tempos da escravidão – é uma bela caricatura da ignorância.

Surpreendente a maneira como Tarantino consegue costurar bang-bang à americana, drama, comédia e ao mesmo tempo brincar com elementos da cultura pop, transportando a música contemporânea e urbana dos EUA para o Velho Oeste Pré-Guerra da Secessão. Tarantino é ousado e acredito piamente que ele faz filmes para si mesmo, mas nessa de ser autoral, de fazer um cinema híbrido, que homenageia os gêneros e cineastas com quem muito aprendeu, acaba sempre, de algum modo, traduzindo os anseios do público que frequenta as salas de cinema do mundo todo. Um exemplo?

Django Unchained foi lançado mundialmente no final de dezembro e conseguiu desbancar milhares de obras que ganharam o mercado estadunidense no ano passado. Ainda assim, foi eleito nos EUA um dos dez melhores filmes do ano. Quentin Tarantino 2012 continua criativo, experimentador, filosófico e não tem medo de conduzir o público ao nonsense. Justo, já que nem todo personagem, assim como ser humano, tenta ou precisa fazer sentido o tempo todo. Talvez por isso, o trabalho do homem seja sucesso de público e crítica.

O filme tem uma estética incandescente que remete ao western spaghetti e casa magistralmente com o objetivo do personagem principal, Django (Jamie Foxx), um ex-escravo que se torna um caçador de recompensas e parte em busca de sua Broomhilda, numa livre interpretação do mito germânico e islandês de Brunhilde e Siegfried. A exemplo de Inglourious Basterds e da franquia Death Proof, Tarantino explora com muita violência audiovisual – é sangue do início ao fim, o tema retaliação. O cineasta presta tributo ao cinema B que para cobrir as lacunas das falhas orçamentárias apelava para o gore ou splatter. Entre os personagens, não posso deixar de destacar o old house nigger Stephen, interpretado ruidosamente pelo inconfundível Samuel L. Jackson.

O homem é fiel apenas ao seu “dono” e, embora tenha uma autonomia de pensamentos, age como se fosse um animal de estimação. Em uma das extremidades da hipocrisia, trata os demais escravos como se não fossem iguais a ele – nem mesmo humanos. Interessante como Quentin Tarantino expõe através do caçador de recompensas alemão King Schultz (Christoph Waltz), personagem que qualifica Django para o trabalho, a origem negra do escritor francês Alexandre Dumas na biblioteca do fazendeiro francófilo Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um cruel escravocrata. Como não poderia deixar de ser, a música incidental do filme é assinada pelo lendário Ennio Morricone, o maior compositor de trilhas sonoras do cinema western.