David Arioch – Jornalismo Cultural

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Gary Francione rebate críticas bem-estaristas e explica por que o veganismo é uma questão de justiça

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Se você não é vegano, por favor, seja vegano. É uma questão de um imperativo moral. É uma questão de justiça” (Foto: Divulgação)

Esta semana, o professor de direito da Rutgers School of Law, de Newark, New Jersey, Gary Francione, uma das referências na luta pelo abolicionismo animal, publicou um artigo intitulado “Veganism as a Matter of Justice: A Short Reply to the Welfarists” nos sites Ecorazzi e Abolitionist Approach. No texto, Francione rebate as afirmações dos bem-estaristas de que o veganismo não é possível no mundo em que vivemos enquanto um imperativo moral, e que é preciso se adaptar à realidade da exploração animal – considerando apenas que devemos minimizar a violência e a crueldade contra as criaturas não humanas, mas sem abrir mão do consumo de alimentos e produtos de origem animal.

Para apoiar essa posição, os bem-estaristas alegam que se compramos alimentos veganos em lojas que vendem produtos de origem animal, não estamos sendo justos, logo não podemos assumir que sob essa perspectiva de permissividade o veganismo está em total acordo com o princípio da justiça que defendemos. Porém, o professor Gary Francione aponta que esse discurso é fragilizado porque, embora tenha como eixo norteador uma suposta baliza moral, é usado de forma capciosa em um contexto bastante específico, sem ponderar abrangência, possibilidade e até mesmo comparação com outras formas de preconceito e condicionamento que vão na contramão da justiça social, embora permitam uma avaliação de cenários congêneres.

Francione diz que quando ele promove o veganismo como um imperativo moral, pelo simples fato de que o veganismo é algo que nós somos moralmente obrigados a adotar, já que não temos o direito de criar e matar animais para nos beneficiar, algum bem-estarista costuma dizer que ao comprar comida vegana no supermercado e dar dinheiro para um explorador de animais, ele não é diferente daqueles que consomem “compassivamente” ovos de galinhas livres de gaiolas, carne de porco criado foras de grades, ou até mesmo daqueles que fazem a “segunda-feira sem carne; ou que trapaceiam e consomem alimentos de origem animal de vez em quando; ou que comem alimentos baseados em animais o tempo todo, mas apenas em pequenas quantidades:

“Os bem-estaristas afirmam que não tenho razão em dizer que o veganismo é uma questão de justiça ou um imperativo moral porque estou sendo injusto e não estou reconhecendo o veganismo como uma obrigação. Mas esse argumento não funciona. Não possui princípio limitativo e leva a uma conclusão aberta. Todo dinheiro é sujo. Então, mesmo que eu compre a minha comida em uma loja vegana, e não em um supermercado convencional, se essa loja emprega pessoas que não são veganas, ou se a loja vegana recebe produtos de pessoas que entregam produtos de origem animal para outras lojas; ou se os alimentos veganos vendidos na loja vegana são criados ou produzidos por fazendeiros ou produtores não veganos, ou se os fazendeiros veganos e os produtores veganos empregam trabalhadores não veganos, eu estou, seguindo o raciocínio dos bem-estaristas, apoiando a exploração. Portanto, os bem-estaristas estão comprometidos com a posição de que até que tenhamos um mundo vegano, não podemos ter a obrigação de nos tornarmos veganos, porque enquanto não tivermos um mundo vegano, não importa o que fizermos, estaremos dando dinheiro para exploradores de animais. Mas isso é claramente absurdo.”

Gary Francione afirma que a posição bem-estarista em relação ao veganismo não é diferente de dizer que não podemos promover a ideia de que o sexismo ou o racismo são injustos se patrocinarmos um negócio que é de propriedade de pessoas que são sexistas ou racistas, considerando que muitas empresas são de propriedade de corporações, e corporações são de propriedade de acionistas. Dado o nível de sexismo e racismo na população, isso significa, na sua concepção, que 99,9% do tempo, quando fazemos compras, estamos patrocinando um negócio que é de propriedade de racistas ou sexistas. Mesmo que esse negócio não seja de propriedade de racistas ou sexistas, existem racistas e sexistas que têm alguma conexão com o negócio para cujos bolsos nosso dinheiro está indo. Portanto, na perspectiva de Francione, o discurso dos bem-estaristas dá a entender que não podemos dizer que o sexismo ou racismo é injusto porque estamos sempre colocando dinheiro nos bolsos de racistas ou sexistas em algum ponto do caminho:

“Mas ninguém diria que não devemos falar sobre igualdade com um imperativo moral, porque ainda não alcançamos a igualdade. A maioria das pessoas veria o completo absurdo dessa posição. Mas ‘pessoas animais’ promovem essa posição absurda quando se trata de animais [não humanos]. E isso é muito especista.”

O professor Gary Francione também declara que os bem-estaristas não raramente afirmam que não podemos ser ‘100% veganos’ porque há produtos de origem animal em plásticos, superfícies de estradas, pneus e muitas outras coisas com as quais não podemos evitar contato. Portanto, segundo eles, não podemos insistir no veganismo como um imperativo moral e como um princípio de justiça porque não há diferença entre uma pessoa que tem um celular feito de plástico e contém algum subproduto de origem animal, e uma pessoa que come um pouco de queijo, ou ovos de galinhas “criadas soltas”, ou caldo de galinha em uma sopa de legumes, etc.:

“Mais uma vez, esta posição é absurda. Primeiro de tudo, ser vegano significa não comer, vestir ou usar produtos de origem animal na medida do praticável – onde se tem uma escolha significativa. Podemos decidir o que comer e usar ou quais produtos usar. A justiça exige que não escolhamos coisas que contenham partes do corpo de pessoas exploradas – humanas e não humanas – sempre que tivermos uma escolha. Nós não temos escolha sobre o que foi colocado na superfície das estradas ou em plásticos, que são usados para quase tudo que existe. Em segundo lugar, a razão pela qual há subprodutos de origem animal em tudo é porque matamos mais de um trilhão de animais em todo o mundo anualmente. Os subprodutos de matadouros são baratos e prontamente disponíveis. E isso continuará enquanto continuarmos a consumir produtos de origem animal.”

Para Francione, é importante compreender que nunca aceitaríamos tal argumento se isso se aplicasse ao contexto humano. Essa transigência só existe porque falamos de seres de outras espécies, que são vulneráveis, e culturalmente e historicamente estão sob o jugo humano há muito tempo:

“Considere o seguinte: em uma sociedade racista e sexista, pessoas brancas e homens se beneficiam porque o racismo e o sexismo efetivamente transferem riquezas (dinheiro, oportunidades de trabalho, etc.) para longe de pessoas que são discriminadas e para aqueles que estão em classes ou grupos privilegiados. Se aplicássemos o argumento bem-estarista a esse contexto, teríamos que concluir que os brancos não podem argumentar que o racismo é injusto porque os brancos privilegiados não têm escolha a não ser se beneficiar do racismo (assim como os veganos não têm escolha senão usar os caminhos oferecidos). Teríamos que concluir que os homens se beneficiam do sexismo e da misoginia apenas em virtude de serem homens (assim como os veganos entram em contato com os plásticos que estão em tudo). Mas ninguém tomaria essa posição no contexto humano.”

Uma afirmação que Gary Francione aponta como uma das mais equivocadas dos bem-estaristas é a de que como não podemos evitar subprodutos de origem animal em tudo que nos rodeia, não podemos afirmar que é injusto escolher consumir esses produtos de origem animal quando “há uma escolha”. Sendo assim, ele defende que a posição bem-estarista é exatamente o mesmo que dizer que, porque as pessoas brancas se beneficiam do racismo, não há diferença entre a pessoa branca que se opõe ao racismo e a pessoa branca que se engaja em uma conduta menos racista.

“A posição bem-estarista é exatamente como dizer que, porque os homens se beneficiam do sexismo mesmo quando se opõem a ele, não há diferença entre o homem que se opõe ao sexismo e o homem que realmente agride as mulheres de vez em quando. Mais uma vez, ninguém tomaria essas posições no contexto humano. Devemos rejeitar a posição flagrante e bem-estarista do especismo por uma questão muito clara. Se você não é vegano, por favor, seja vegano. É uma questão de um imperativo moral. É uma questão de justiça”, argumenta e sugere.

Referência

Francione, Gary. Veganism as a Matter of Justice: A Short Reply to the Welfarists. Ecorazzi (2 de abril de 2018).

 





A transformação de um ex-líder de um grupo racista dos EUA

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Mudança radical de Bryon Widner

Bryon Widner era um dos líderes de um dos grupos racistas mais violentos dos Estados Unidos. Seu corpo era todo coberto por tatuagens que faziam apologia ao racismo e à violência em suas mais variadas formas. Um dia, ele percebeu que se continuasse nesse caminho não viveria muito tempo. Então decidiu mudar de vida.

Uma entidade conseguiu patrocínio para a remoção da maior parte das tatuagens de seu corpo. Ele passou por 25 cirurgias. Nesse ínterim, teve a oportunidade de reencontrar um dos homens negros que espancou. Widner pediu desculpas e o rapaz comentou: “Eu já o tinha perdoado.”

Para conhecer a história de Bryon Widner, assista ao documentário “Erasing Hate”, lançado em 2011 por Bill Brummel:

http://documentarylovers.com/film/erasing-hate/

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June 18th, 2017 at 6:34 pm

Rosa Parks: “Não é tão difícil ficar sem comer carne. [Me tornar vegetariana] Era algo que eu queria fazer”

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Rosa Parks foi vegetariana por mais de 40 anos (Foto: Reprodução)

Rosa Parks foi vegetariana por mais de 40 anos (Foto: Reprodução)

Em 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks se recusou a obedecer ao motorista James F. Blake, quando ele exigiu que ela cedesse o seu lugar a um passageiro branco e se sentasse na seção relegada aos negros no fundo do ônibus. Por tal feito, embora não tivesse sido a primeira, ela foi presa e depois tornou-se um símbolo de resistência contra a segregação racial nos Estados Unidos.

Considerada mais tarde a primeira dama dos direitos civis e a mãe do movimento pela liberdade, ela tornou-se colaboradora de importantes líderes, como Edgar Nixon e Martin Luther King Jr. Chegou a ser considerada pela revista Time como uma das 20 pessoas mais influentes do século 20. E para além dos direitos civis, também ajudou na divulgação do vegetarianismo enquanto estilo de vida. “Não é tão difícil ficar sem comer carne. [Me tornar vegetariana] era algo que eu queria fazer”, declarou, de acordo com a organização independente Vegetarians of Washington.

Rosa, que nasceu em 4 de fevereiro de 1913 em Tuskegee, Alabama, e faleceu em Detroit, Michigan, aos 92 anos, em 24 de outubro de 2005, gostava de comer principalmente brócolis, verduras, batata-doce e feijões. “Por mais de 40 anos, tenho sido vegetariana. Cresci em uma família pobre. Tive problemas de saúde muito cedo por causa da minha má alimentação. Por isso, me alimentar de forma saudável é uma prioridade para mim”, disse em entrevista à psiquiatra Judith Orloff, publicada em 2004 no livro “Positive Energy: 10 Extraordinary Prescriptions for Transforming Fatigue, Stress and Fear into Vibrance, Strength and Love”.

Rosa recebeu muitas homenagens ao longo da vida, e provavelmente as mais importantes foram o prêmio da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) e a Congressional Gold Medal, concedida pelo Congresso dos Estados Unidos, e entregue pelo então presidente Bill Clinton em 15 de junho de 1999. “Rosa Parks ajudou a divulgar o vegetarianismo. Ela era conhecida por promover a paz e a justiça. E também atribuía o seu sucesso, saúde e estamina a sua alimentação vegetariana estrita”, informou.

Referências

https://vegofwa.org/tag/famous-vegetarians/

http://www.peta2.com/blog/rosa-parks-vegetarian/

http://www.peta.org/blog/8-famous-vegetarians-might-surprise/

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Written by David Arioch

January 2nd, 2017 at 3:04 pm

Quando Antunes Filho chocou o Brasil

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compasso

Zózimo Bulbul, o primeiro homem negro a beijar uma mulher branca no cinema nacional (Foto: Reprodução)

Antunes Filho chocou o Brasil em 1969 quando deu ao ator Zózimo Bulbul um grande papel no filme “Compasso de Espera”. Na obra, Zózimo beija uma mulher branca. Aquela foi a primeira vez que os brasileiros viram um homem negro beijando uma mulher branca em um filme nacional. A obra gerou tanta comoção que descortinou a propaganda do Brasil como um país onde supostamente se vivia a democracia racial.

Written by David Arioch

November 24th, 2016 at 10:35 pm

H.P. Lovecraft e o racismo

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“O racismo de Lovecraft é um elemento-chave para a compreensão do mundo que ele criou”

Howard_Phillips_Lovecraft

S.T. Joshi: “Não nego que ele era racista, mas naquele tempo todo mundo era” (Foto: Reprodução)

Cresci lendo obras do escritor estadunidense Howard Phillips Lovecraft, um dos grandes nomes da literatura de horror e fantasia. Com a chegada da maturidade, comecei a ter uma nova percepção sobre seus livros. Em síntese, percebi por intermédio experiência que não é a mesma coisa ler na adolescência e depois na fase adulta obras como “Herbert West–Reanimator”, “The Call of Cthulhu”, “The Silver Key”, “The Case of Charles Dexter Ward”, “The Dunwich Horror” e “At the Mountains of Madness”, só para citar as mais conhecidas.

É uma constatação natural, levando em conta a versatilidade autoral do escritor, hoje considerado um ícone pop da hipermodernidade que influenciou não apenas escritores e colocou em evidência um novo filão literário, mas também inspirou centenas de filmes, dezenas de séries de TV e milhares de compositores mundo afora, principalmente de bandas de rock e heavy metal.

Porém, há um lado obscuro de H.P. Lovecraft que muita gente desconhece, inclusive fãs que não se aprofundaram muito em seu trabalho. E não falo de nada relacionado a horror ou fantasia. Me refiro ao fato do escritor ser apontado como racista, embora isso seja pouco divulgado sob a justificativa de não acrescentar nem subtrair nada de sua literatura.

Contudo, no ensaio “The Genetics of Horror: Sex and Racism in H. P. Lovecraft’s Fiction”, o escritor Bruce Lord refuta essa afirmação reverberada pelos defensores mais radicais do escritor. “O racismo de Lovecraft é um elemento-chave para a compreensão do seu trabalho e do mundo que ele criou”, informa.

Ele tem razão. Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial e isso não tem nada a ver com a defesa do politicamente correto. São apenas exemplos de que escritores também revelam em menor ou maior proporção os seus preconceitos e pré-conceitos em obras que se tornaram icônicas quando falamos de literatura mundial.

Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial (Arte: Francesco Francavilla)

Histórias famosas como “The Street” e “The Horror at Red Hook” dão mostras categóricas de discriminação racial (Arte: Francesco Francavilla)

No caso de Lovecraft, o escritor indiano S.T. Joshi, que escreveu sua biografia, diz que é preciso levar em conta o contexto da época. “Não nego que ele era racista, mas naquele tempo todo mundo era”, declara. Contudo, Joshi ignora o fato de que nessa época nos Estados Unidos já havia escritores e antropólogos que usavam a ciência como principal instrumento de combate ao racismo. Dois nomes que merecem ser citados são Franz Boas e Bronisław Malinowski.

Em “The Horror at Red Hook”, Lovecraft apresenta o detetive Thomas F. Malone, um sujeito sensível e com muita imaginação. Quando sai às ruas e observa pessoas de pele escura, ele vê as mais diversas formas do horror. Quem não lê o livro com atenção, pode julgar que o fato de serem negros ou imigrantes não passa de uma casualidade, mas há fontes que provam o contrário.

Sonia Greene, que foi esposa do escritor, confidenciou anos mais tarde que, quando Lovecraft se mudou para Nova York, ele logo deixou claro o quanto era xenofóbico. “Sempre que andávamos em meio à multidão e nos deparávamos com pessoas das mais diferentes raças [etnias], uma característica comum de Nova York, ele ficava lívido de raiva e quase perdia a cabeça”, enfatizou.

HP-Lovecraft

Críticos viram no racismo de Lovecraft um tipo de ausência de amor próprio e até mesmo ódio de si mesmo (Foto: Reprodução)

No conto “The Rats in the Walls”, de 1923, o gato do protagonista se chama Nigger Man. O nome pejorativo foi trocado em 1950 pela revista Zest Magazine que o nomeou como Black Tom, visando minimizar controvérsias. Em “The Shadow Over Innsmouth”, de 1931, considerado um de seus melhores trabalhos, Lovecraft mostra um personagem que sente repulsão pelos moradores de Innsmouth, assim trazendo um traço biográfico do seu próprio sentimento diante da heterogeneidade de Nova York. O mesmo desprezo veio à tona em 1925, no conto “The Horror at Red Hook”, baseado em suas impressões negativas da população do Brooklyn Heights.

Na biografia “H.P. Lovecraft: A Life by S. T. Joshi”, o escritor indiano declara que Lovecraft simpatizava com hispânicos e judeus, entretanto não sentia o mesmo por irlandeses, alemães e afro-americanos. Por outro lado, há frases em que Lovecraft se posiciona como um antissemita. “Na Polônia e em Nova York, os judeus são de uma estirpe inferior e tão numerosos que seria essencial a mudança do seu tipo físico”, escreveu em uma carta com data de 13 de junho de 1936. De qualquer modo, como os Estados Unidos são uma nação construída por imigrantes é no mínimo paradoxal essa inclinação do autor.

Críticos viram no racismo de Lovecraft um tipo de ausência de amor próprio e até mesmo ódio de si mesmo pela sua condição física fragilizada. Há quem diga que ele se sentia intimidado pela fisicalidade de muitos imigrantes, e isso o tornava odioso e amargo. “O negro é muito inferior. Não pode haver nenhuma dúvida sobre isso, nem mesmo entre os biólogos contemporâneos mais sentimentalistas. Também é um fato que teremos um problema legítimo e muito grave se os negros passarem a ser vistos como iguais aos brancos”, registrou em uma carta escrita em janeiro de 1931.

Um dos autores mais respeitados da literatura de horror do século 20, H.P. Lovecraft influenciou outros importantes nomes da literatura mundial, como o escritor argentino Jorge Luis Borges, William S. Burroughs e Stephen King, além de cineastas famosos como John Carpenter e o mexicano Guillermo del Toro. Sua popularidade cresceu mais ainda com o advento da internet e a divulgação de suas obras em meio digital.

Saiba Mais

Quando a escritora estadunidense Nnedi Okorafor, autora do livro “Who Fears Death”, de 2010, venceu o prêmio World Fantasy Award (WFA) em 2011, ela escreveu um texto sobre o seu desconforto em receber um troféu com o busto de H.P. Lovecraft, logo após uma amiga mostrar-lhe um poema racista escrito por ele em 1912. O episódio também inspirou o escritor estadunidense Daniel Jose Older a criar uma petição pedindo aos organizadores do WFA para substituírem o busto de Lovecraft pelo da escritora Octavia Butler, importante nome da literatura de ficção científica dos Estados Unidos.

Referências

The Genetics of Horror: Sex and Racism in H. P. Lovecraft’s Fiction, Bruce Lord.

Lovecraft Letters Vol. 2, p. 27; quoted in Peter Cannon, “Introduction”, More Annotated Lovecraft, p. 5., 1968.

H.P. Lovecraft: Four Decades of Criticism by S. T. Joshi – Ohio University Press, 1980.

H.P. Lovecraft: A Life by S. T. Joshi Necronomicon Press, 1996.

From New Nation, David Riley, No. 4, p. 20-21, 1983.  

The Racial World – View of H.P. Lovecraft, No. 2, by A. Trumbo, 2002.

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Porianna, nascimento e morte de um jovem neonazista

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Não o reconhecia. Defendia crimes contra migrantes, imigrantes e falava em limpeza étnica

A última vez que o encontrei pessoalmente foi em 2001, num festival de bandas de heavy metal no Tribo’s Bar (Foto: Maringá Histórica)

A última vez que o encontrei pessoalmente foi em 2001, num festival de bandas de heavy metal no Tribo’s Bar (Foto: Maringá Histórica)

Conheci Piero pessoalmente quando tínhamos 17 anos. Ele era um adolescente comum. Estatura mediana, magro, cabelos e olhos castanhos e uma exímia vontade de existir e ser notado para além dos cravos e das espinhas que o exasperavam. No final dos anos 1990, nos tornamos amigos por meio da música. Eu já gostava muito de heavy metal e ele também. Então começamos a fazer trade em Maringá, onde ele visitava familiares. Eu saía de Paranavaí e ele de São Paulo. Nos encontrávamos na Musical Box, na Avenida Brasil, onde trocávamos CDs e cópias de fitas de shows em VHS.

Piero era mais tímido do que eu. Falava pouco e não saía sozinho, pelo menos a maior parte do tempo. Me parecia sempre inseguro com seu olhar enviesado e vacilante que fortuitamente mirava o chão ou a parede mais distante. “Depois de mais de dois anos trocando ideias, é legal te conhecer, velho!”, eu disse apertando sua mão tão escanzelada que me dava a impressão de que eu estava segurando pés de galinha. Ele deu um sorriso fragilizado e acenou com a cabeça, em concordância, retomando uma postura que se esforçava para velar uma precoce hiperlordose.

Meu primeiro contato com Piero foi pela internet, em um canal de fãs de heavy metal da velha rede social Brasnet, acessada pelo programa mIRC, muito usado pela geração anos 1980. Tínhamos um grupo de dezenas de pessoas e passávamos pelo menos duas horas por dia tentando expandir nosso canal, fazendo brincadeiras e trocando informações sobre música. Era divertido. Eu era um dos operadores do canal, assim como Piero. Na internet ele se soltava mais. Se sentia mais livre e seguro para manifestar suas opiniões, anseios e inclinações. Nessas horas suas mãos não suavam ou tremulavam porque não havia contato físico. Pessoalmente, Piero só perdia a inibição em shows, quando o álcool e a música em volume extremamente alto o livrava das amarras da excessiva ponderação.

Ficava sorridente, falava com estranhos, perdia o medo de se aproximar de garotas e até trocava números de telefone. Sóbrio, continuava vivendo em um mundo que distante da realidade eletrônica parecia-lhe visceralmente acinzentado e taciturno. Mais tarde, descobri que Piero sofria de ansiedade e depressão. Nem mesmo seu pai sabia disso. A verdade é que se sentia feio, deslocado, magro demais e desprezado pelo mundo. Seu único orgulho eram os cabelos longos que movimentava com a destreza de um chicote amendoado nos shows que assistia motivado pela mais bucólica das empolgações. Sorria como criança vendo um pônei pela primeira vez.

A última vez que o encontrei pessoalmente foi em 2001, num festival de bandas de heavy metal no Tribo’s Bar, em Maringá. Ele tinha bebido bastante e estranhei quando percebi que sumiu em meio à multidão. Eram três horas da manhã e Piero estava lá fora, sentado sobre o meio-fio enquanto a aragem repentina fazia seus cabelos velarem seu rosto como uma máscara. Ele ajeitou os fios e vi seus olhos vermelhos e úmidos – vestígios de choro.

“Meu pai me expulsou de casa e agora estou sem rumo. E pra piorar, ele ainda fez eu perder meu emprego. Foi bêbado lá na loja de discos onde eu trabalhava e bateu no meu chefe, falando que ele estava usando a música pra me ensinar a venerar o diabo. Foi punk, mano! Minha sorte é que arrumei um quarto na casa da minha tia em Santo André”, desabafou.

A mãe de Piero faleceu em decorrência de câncer de mama quando ele tinha 13 anos. A convivência com o pai era muito conturbada. Ele não passava um dia sem ouvir críticas e ofensas à sua aparência e estilo de vida. Sempre que o pai bebia demais era obrigado a suportar as consequências. Muitas vezes teve de pular a janela e dormir em banco de praça para não ser espancado no próprio quarto. A hiperlordose de Piero também era resultado de chutes e socos desferidos pelo pai.

Quando se mudou para Santo André, Piero abandonou o nosso canal na Brasnet. O procurei por semanas até encontrá-lo em um canal secreto chamado Porianna. Consegui ingressar no grupo com um novo pseudônimo, me passando por outra pessoa. A liberação levou alguns dias. No grupo, Piero usava o nome de Globocnik, em homenagem ao austríaco Odilo Globocnik, general da SchutzStaffel (SS), a tropa de proteção do partido nazista.

Piero usava o pseudônimo de Odilo Globocnik, general da SchutzStaffel (SS) (Foto: Reprodução)

Piero usava o pseudônimo Globocnik, em homenagem ao general da SchutzStaffel (SS) (Foto: Reprodução)

Porianna era um grupo neonazista criado em 1999 e que contava com dezenas de participantes, talvez muito mais, principalmente das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Alguns defendiam o racialismo pacífico enquanto outros pregavam o ódio contra raças não-brancas, defendendo inclusive ações pontuais de violência que eram cuidadosamente articuladas. Muitas eram tão bem mascaradas que a polícia acreditava que eram casos isolados.

Acompanhando o grupo pelo canal da Brasnet, notei o embrutecimento e a transformação de Piero. Não o reconhecia. Defendia crimes contra migrantes e imigrantes. Falava em limpeza étnica e na aquisição coletiva de uma fazenda onde fundariam a sociedade Porianna, um novo país dentro do Brasil, onde pessoas armadas impediriam a entrada de pessoas não-brancas.

“Estamos em todas as camadas da sociedade. Temos os boneheads na parte mais baixa da pirâmide, agindo junto ao proletariado, e juízes, advogados, médicos, engenheiros e jornalistas, todos bem preparados para influenciar a opinião pública. Não há como isso dar errado. Pode ser que não tão logo, mas um dia chegaremos lá”, declarou um homem, fundador do grupo que usava o pseudônimo de Plínio Salgado, em homenagem ao criador do movimento integralista ultranacionalista.

À época, registrei o discurso de uma mulher de 29 anos que se dizia juíza e era conhecida no Porianna como Vera Wohlauf por causa da sua simpatia pela esposa do oficial da SS Julius Wohlauf. O casal ficou famoso após passar a lua de mel assistindo e participando do massacre de judeus no gueto polonês de Miedzyrzec-Podlaski em 1942.

“A democracia não funciona, só que devemos fingir que sim. O que precisamos é encontrar, forjar ou criar um ponto de ruptura que faça a população, até mesmo inferiores como pretos, amarelos, pardos e outros mestiços, acreditarem que o melhor caminho é uma política austera e ao mesmo tempo flexivelmente reacionária. As pessoas precisam achar que existe liberdade demais e que isso está associado à libertinagem. Façamos de conta que a nossa política há de ser maleável e quando ascendermos ao poder colocaremos em prática o nosso segundo plano que é a instauração de um governo verdadeiramente estoico, de extrema direita, mas muito superior ao molde hitlerista e franquista. Pinochet também descambou para o fracasso. O segredo é fingir que todos estão incluídos em nossas propostas. Nossa propaganda deve ser voltar para isso, uma ilusão factível”, dissertou Vera.

Aproximadamente um mês depois de ingressar no canal, conversei com Piero. Ele parecia mais seguro de si. No entanto, eu não tinha a mínima ideia de como isso poderia ser bom, levando em conta que ele se tornou uma pessoa completamente diferente. Estava morando sozinho e me contou que era bem pago para produzir, distribuir e despachar o material de divulgação do Porianna.

“A nossa sociedade foi construída sob os preceitos da cultura branca, totalmente ocidentalizada, então por que devemos absorver uma cultura que não corrobora esses valores? O resto é irrelevante, meu amigo, não tem o mesmo peso, a mesma significância. E quem não aceita isso merece ser expulso do Brasil, nem que seja à base de chutes e socos. Ter a pele clara também não diz nada. O que vale é a sua origem, sua identidade racial. Se você tem sangue não-branco, você não é branco, mesmo que sua pele seja a mais clara do mundo. Cor de pele não prova que você seja caucasiano. Os traços também dizem mais do que a cor da pele”, defendeu Piero numa noite de conversa privada.

Ele já não ouvia mais heavy metal, somente bandas nacionais e internacionais de hatecore e rock against communism (RAC), grupos que pregavam racialismo, racismo, xenofobia, separatismo, violência e intransigência política e social. “Pela primeira vez eu tenho família, cara! Sou amado de verdade. Sou Porianna até a morte!”, comentou em outra ocasião. Um dia, não resisti e falei a ele quem eu era de verdade.

O questionei sobre o seu sumiço e o novo rumo de sua vida. Deixei claro que era difícil crer que alguém pudesse mudar tanto e se tornar algo completamente avesso a tudo em que ele acreditava. “Você desprezava violência e preconceito, cara. Tudo aquilo que seu pai era te dava repulsa. O que houve nesse entrementes?”, disparei. Piero demorou a responder e fiquei em silêncio aventando o que me esperava. Talvez me denunciasse e neonazistas viessem atrás de mim. Quem sabe a poucos quilômetros de distância houvesse algum simpatizante do Porianna disposto a atear fogo em minha casa quando soubesse que eu não era um deles.

Mas isso não aconteceu, embora a probabilidade não pudesse ser desconsiderada. Isto porque na chamada mais baixa hierarquia, o grupo contava com pessoas sem perspectivas de futuro. Eram capazes de matar ou morrer por um propósito, mesmo que ruim. Confundiam a ficção com a realidade, crentes de que talvez fossem heróis, que a morte não era o fim e que talvez renascessem como um tipo mais contemporâneo de highlander.

“Você é um merda, David! Sempre com esse papo de tolerância e não percebe que a própria vida é uma guerra. Estamos aqui para mostrar que uns merecem mandar e outros nasceram para obedecer. Nem todo mundo deve ter direito à vida, e muito menos o direito de tomar decisões que exigem reflexão. O mundo deve ser comandado pelos fortes, pelos puros de sangue, que conhecem a sua própria história. Não quero um mundo que prega a mistura de raças, a extinção dos povos caucasianos. Brancos não devem ser influenciados por outras raças”, registrou sem velar a irritação.

Depois daquele dia, desapareci do canal e soube que eles migraram para a rede internacional Undernet, onde criaram um vínculo com neonazistas portugueses. Em 2004, Jonas, um amigo em comum com Piero, dos tempos de shows em Maringá, me informou que ele foi assassinado dentro de casa, em Santo André. Além de mim, havia outro jovem infiltrado no grupo e ele estava lá para preparar uma retaliação pela surra que um grupo de simpatizantes do Porianna deu em seu irmão, um sharp (skinhead contra o preconceito racial), perto da Praça da Sé, em São Paulo, o deixando paraplégico.

Piero, que desconhecia o episódio, ouviu alguém batendo palmas em frente à sua casa numa manhã ensolarada de verão. Assim que se aproximou do portão segurando um copo de café, um homem disparou um tiro certeiro contra seu peito. O copo se espatifou no chão e Piero caiu agonizando, ainda com vida. Porém não resistiu às coturnadas que recebeu na cabeça, causando afundamento craniano e morte cerebral. Sobre a estante na sala de Piero havia uma foto em que aparecia eu, ele e Jonas em frente ao Tribo’s Bar em 2001. Naquela madrugada, Piero imobilizou um ladrão, impedindo que um sharp que também estava no Tribo’s fosse assassinado a facadas por um ladrão no Terminal Rodoviário Urbano de Maringá.

Uma lição de ódio

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Documentário mostra como o racismo sobrevive na África do Sul (Foto: Reprodução)

“Afrikaner Blood” está entre os melhores documentários da atualidade. Produzido pelas neerlandesas Elles van Gelder e Ilvy Njiokiktjien, a obra mostra como o racismo sobrevive na África do Sul. Jovens brancos bôeres são obrigatoriamente enviados a um acampamento onde participam de um curso ministrado pelo grupo de extrema direita Kommandokorps que visa ampliar o preconceito racial, gerando uma animosidade que promova mudanças drásticas no futuro do país.

Antes de começar o curso, um dos participantes, Riian, de 18 anos, diz: “A África do Sul é uma nação arco-íris porque há grupos étnicos diferentes neste país.” Ao final do treinamento, faz um comentário diferente: “Tenho sangue africâner nas minhas veias. Não quero ser sul-africano. Não quero ser associado à nação arco-íris”, em crítica ao multiculturalismo do país.

O linchamento de dois jovens negros em 1930

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Foto do crime foi transformada em cartão postal

Linchamento reuniu 10 mil homens brancos (Foto: Lawrence Beitler)

Em 7 de agosto de 1930, um adolescente branco de Marion, Indiana, nos Estados Unidos, acusou Shipp Thomas e Abram Smith, dois jovens negros, de terem estuprado a sua namorada. A falsa acusação foi o suficiente para gerar uma comoção que reuniu 10 mil homens brancos armados com marretas em frente a delegacia do condado.

Depois de tirarem os rapazes da prisão, os espancaram e os enforcaram com a conivência da polícia. Por sorte, um terceiro rapaz negro, James Cameron, escapou de ser assassinado porque o tio da moça insistiu na afirmação de que ele era inocente.

À época, as fotos de linchamentos de negros eram transformadas em cartões postais com a intenção de mostrar o “orgulho da supremacia branca”. A imagem do fotógrafo Lawrence Beitler vendeu milhares de cópias, tanto que ele passou dez dias sem dormir para reproduzi-las. Mais tarde, as fotos de violência contra negros tiveram efeito reverso. As cenas de tortura e mutilação irritaram muito mais do que agradaram; despertaram medo até na população branca.

Era um crime tão comum naquele tempo que ganhou um novo termo: “Judge Lynch”. A foto da morte de Thomas e Smith, que mostra apenas um linchamento dentre os mais de cinco mil documentados até o final dos anos 1960, tornou-se icônica, tanto que surgiram poemas, livros e canções baseados na imagem. Um exemplo é o poema “Strange Fruit”, do poeta judeu Abel Meeropol, transformado em música por Billie Holiday. Outro clássico é “Desolation Row”, de Bob Dylan, que será eternamente lembrada pelo trecho “Eles estão vendendo cartões postais do enforcamento”.

São informações que se tornaram públicas somente em 1982, quando o sobrevivente James Cameron, o terceiro jovem que escapou do enforcamento, publicou o livro “A Time of Terror: A Survivor’s Story”.

Referência

Cameron, James. A Time of Terror: A Survivor’s Story, 1994. Black Classic Press.

Inferno sobre rodas na “América” pós-Guerra da Secessão

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Série é protagonizada por Anson Mount no papel de Cullen Bohannon (Foto: Divulgação)

Série Hell On Wheels instiga discussão sobre a História dos EUA

Estou acompanhando a série estadunidense Hell On Wheels, da Endemol USA, exibida pela AMC, que se passa nos Estados Unidos de 1865 com um enredo muito interessante. Tem como foco a construção da primeira ferrovia transcontinental do país pela Union Pacific Railroad. Em meio à revolução industrial, são levantadas inúmeras controvérsias sobre a xenofobia e a segregação racial na “América Pós-Confederada” ou Pós-Guerra da Secessão, como preferirem.

Na série, o telespectador se depara com uma nação até então marcada pela defesa dos latifúndios, escravidão e benesses aristocráticas. A obra mostra também pontos conflitantes, como yankees agindo como dixies e vice-versa, dando uma ideia de que as diferenças entre os “estadunidenses civilizados” do Norte e do Sul na época não eram tão aberrantes quanto registra a História Oficial daquele país. Funcionários de companhias, camponeses, ex-escravos, ex-soldados, prostitutas, mercenários e aventureiros sintetizam a pequena, mas heterogênea aldeia social de Hell On Wheels, uma pequena colônia situada em território nativo.

Trama explora a segregação racial imposta pelos brancos (Foto: Divulgação)

Pra mim, das cenas mais emblemáticas da série até o momento, destaco a disputa entre um índio cheyenne e um trem. A derrota do nativo que disputa a corrida com a máquina sobre um cavalo é simbólica e marca o surgimento de um novo tempo que trouxe a modernidade ao preço do genocídio indígena.Outra cena interessante é o momento em que o personagem Elam Ferguson, interpretado pelo rapper Common, um ex-escravo negro, é preparado para ser enforcado por um grupo liderado pelo irlandês O’Toole. Instantes antes do início da execução, o homem revela à vítima: “Nós irlandeses somos os crioulos do Reino da Grã-Bretanha”, o que deixa subentendido que a questão racial em âmbito social já amargava uma intransigência quase hierárquica.

Em um dos episódios da primeira temporada, há um momento elementar em que o presidente da Union Pacific, Thomas Durant, e um senador afirmam que as terras que os índios habitam pertencem ao Governo dos EUA. O chefe cheyenne retruca: “Eles compraram? Trocaram por algo? Não? Então não pertence a eles”. É uma série muito boa em que o maniqueísmo confronta seu antagonismo e desnuda a natureza humana, suas qualidades, dúvidas e falhas, independente de etnia, raça e credo. Hell On Wheels, como o próprio nome diz é o Inferno, mas também tem momentos de Céu e Purgatório.

Uma das cenas mais marcantes que me recordo é do sétimo episódio da primeira temporada. É um diálogo entre o protagonista, ex-soldado confederado Cullen Bohannon, interpretado por Anson Mount, e Ferguson. Bohannon explica que quando os nortistas invadiram sua propriedade, deixando-a em chamas, ele foi procurar o filho no celeiro. O encontrou sobre o palheiro todo encolhido, abraçando os joelhos contra o peito, e com o corpo todo queimado envolvido por Bethel, a escrava negra que criou Bohannon. Estava tentando proteger o garotinho das chamas. Infelizmente, era tarde demais, e os dois corpos pareciam fundidos, como se fossem um. Foi quando o ex-soldado concluiu que na finitude todos são iguais.