David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Realidade’ tag

Ser humano deseja ser observado

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Ilustração: Steve Cutts

Hoje, possivelmente mais do que nunca, o ser humano deseja ser observado, porque ele crê que existir depende do acúmulo de observação.  Quanto mais sou observado, mais existo, crê-se. A ideia de não ser observado, seja verdade ou apenas uma concepção, pode ser para ele o fortalecimento da crença do não estar aqui ou de não ser relevante.

Alguns podem chegar a imaginar-se, numa alegoria acidental, como aqueles personagens de jogos de plataforma em que a perda de força o torna transparente e imperceptível até o completo esmaecimento.

Mas é apenas uma consequência de iterados sinais sintomáticos de um fenômeno em que se dilui uma realidade perante outra, que pode não ser de fato uma representação da realidade, mas daquilo que acreditamos e concebemos como realidade, independente do percentual de verdade.

 

Cachorro também cansa de não existir

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Revirava o lixo quando levou o primeiro golpe no dorso. Teria vomitado se tivesse comido bem, mas só conseguia expelir uma pequena porção de plástico mole com raspas de goiabada e água da chuva que bebeu minutos antes de quedar na calçada de tijolinhos.

Quase ninguém via, sabia, menos ainda contava as dezenas de cicatrizes pelo corpo seviciado. Cinco anos nas ruas não são cinco dias, e continuar em pé deveria ter feito dele um ícone de resistência à violência. Tinha perdido um olho há mais de ano quando tentava atravessar a língua por um portão para comer um pedaço de pão francês caído no chão.

Não teve tempo de ver a ponta da vara de pesca atravessando o olho como agulha. Correu gritando o que ninguém ouvia. Já não funcionava e apodrecia, até que um dia, o olho caiu. Dizem que ficou observando o olho morto com o que restava – passava a pata com estranheza. Suave no desconhecimento. Não entendia o que entendia.

Mais de 20 companheiros mortos em menos de um ano. Atropelamento, envenenamento, espancamento. Talvez mais. Turma morria e renascia. Alguém teve a ideia de chamar de “Bando dos Sem” – sem casa, sem comida, sem atenção, sem nome, sem vida. Às vezes, quando encontravam outros famintos, se desse briga, dependendo do dia, alguém morria, não por maldade – por fome.

Logo estava sozinho de novo – a cinomose levou os dois últimos companheiros. Ninguém sabe como sobreviveu. Dizem que já teve casa, foi vacinado e abandonado com alguns meses de idade porque a criança “que o ganhou enjoou”. Terreno baldio murado, mato alto – pareceu um bom lugar para o papai descartar um jovenzinho. “Alguém o adotaria”. Conclusão da abstenção de culpa. Ninguém quis.

Ainda revirava o lixo quando se levantou e recebeu o segundo, terceiro, quarto e quinto chute. Pela primeira vez, não correu nem reagiu. Deitou no chão e a violência seguiu. “Cachorro também cansa de não existir”, picharam de branco no chão, onde sem nome, e por pouco, jazia um cão.

Em frente ao pet shop (Mãezinha)

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Em frente ao pet shop uma cadelinha faminta assistia dois filhotinhos chorando dentro de uma gaiola. Seus olhos iam de um lado para o outro. Às vezes, ameaçava se aproximar, mas via um par de sapatos à curta distância e logo se afastava. Medo de chute. Insistia.

Observava os dois cãezinhos, até que um deles começou a morder a gaiola. Se aproximou, ignorando quem entrava e quem saía e lambeu as grades, tentando alcançá-los. Quando um deles se achegou para receber carinho foi expulsa a vassouradas.

No dia seguinte, retornou. Assistia no cantinho, do lado de fora do pet shop, os dois filhotinhos chorando. Entrou na loja mais uma vez, encostou a língua na gaiola e um deles fechou os olhos enquanto recebia lambidas interrompidas por vassouradas.

Foi assim por quase duas semanas, até que um dia retornou pela manhã e os filhotinhos não estavam lá. Nem a fome que a levou pela primeira vez ao pet shop parecia incomodá-la mais. Se encolheu num canto e, mesmo quando uma chuva forte atravessou os limites da marquise da loja, continuou no mesmo lugar.

Toda molhada e quase arrastada pela enxurrada, só mirava a gaiola vazia. Não chegou a ganhar um nome, mas podemos chamá-la de Mãezinha. Continuou retornando ao pet shop, e cada vez mais magra. Aproximação e expulsão – sequência de todo dia.

Mais cãezinhos chegavam, choravam e partiam; e ela, que queria cuidar de todos eles, manteve a rotina por pelo menos mais três meses – com sol ou chuva. Um dia, o dono de um bar, vizinho do pet shop, estranhou sua ausência.

Fechou mais cedo e saiu para procurá-la. Não foi muito longe até encontrar Mãezinha dormindo agarrada a um cachorrinho encardido – os dois sem vida – ela e um bichinho de pelúcia que levou do pet shop.

 

Vagando de uma esquina à outra

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Pintura: Gabriel Glaiman

Desconcertados, com olhos perdidos, vagando de uma esquina à outra, revirando os sacos de lixo que logo mais os catadores recolheriam. Àquela hora da tarde, sempre uma oportunidade. Tudo ficava ao chão; era a chance de encontrar alguma coisa comestível que pudesse aplacar a fome.

Quando alguém se aproximava, os sacos de lixo viravam esconderijos, pelo menos para os pequeninos. Os maiores só tinham tempo de correr (os mais agitados) ou se encolher em vão (os mais assustados).

Um deles trazia no dorso o carimbo doloroso de uma sola. Se pudessem, acho que gostariam de ter dois olhos que pudessem mirar coisas diferentes – a comida e quem se aproxima. É difícil escolher entre comer ou correr, porque das duas ações dependem a sobrevivência.

Os mais fracos vão resfolegando na correria – imunidade baixa que se intensifica. As costelas à mostra revelam mais do que fome – medo, terror, desamor. A miséria estimula solidariedade entre alguns e violência entre outros. Personalidades distintas, assim como o peso do trauma.

Passam-se os olhos de lá pra cá, e de cá pra lá. Dizem que falta tempo ou dinheiro. “Não é problema meu nem seu” – mantra da omissão. Os corpos vão se acumulando e apodrecendo em qualquer lugar. O mau cheiro revela mais sobre nós do que sobre eles.

Hoje havia dois misturados aos entulhos em uma caçamba – dizem que foram atropelados de madrugada enquanto rasgavam sacos de lixo numa esquina.

E se humanos fossem abatidos como animais criados para consumo?

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Cena do filme “Holocaust – A Realistic Look Into slaughterhouses”, lançado pela Stretch Films em 2016

A Peta lançou ontem em seu canal no YouTube um curta-metragem intitulado “If Humans Were Slaughtered for Meat Like Animals”, que de um lado mostra os horrores do abate de suínos (com cenas reais).  Já do outro lado, apresenta uma inversão de papéis com cenas do filme “Holocaust – A Realistic Look Into slaughterhouses”, lançado pela Stretch Films em 2016 – em que um ser humano é colocado na mesma situação de um porco criado para consumo. Ou seja, recebendo os mesmos tipos de agressão. O objetivo é mostrar que talvez seja necessário nos imaginarmos na situação desses animais, para entendermos como a carne que chega ao prato do consumidor envolve privação, sofrimento e violência que antecede e culmina na morte de um ser senciente que não deseja morrer.





 

Ocidentais e orientais e o consumo de animais

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Umberto Eco, “O Eterno Fascismo” e a política

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O Ur-Fascismo, que também é um tipo de culto da tradição, de que falou Umberto Eco em uma conferência na Universidade de Columbia em 1995, ainda me parece bastante atual, até porque não falava apenas do então tempo presente, mas também do futuro, e das armadilhas às quais estamos sempre sujeitos a nos enredar. Eu acredito que nenhuma dessas armadilhas é tão perigosa quanto a passionalidade fundamentada em um desejo imperativo que busca referências até mesmo no desconhecimento. Há muito disso na interpretação do cenário e das nuanças políticas, mas não somente.

Notadamente, quando nossos anseios em externalizar nossas insatisfações, sejam elas singularmente pessoais ou não, passam pelo crivo da nossa latente presunção em nortear a verdade, mesmo que isso custe transmitir algumas impressões um tanto quanto obtusas visando algum tipo de persuasão consciente ou inconsciente. Claro, uma interpretação livre de uma reflexão alicerçada no que Umberto Eco chamava de “O Eterno Fascismo”. Há sempre tentáculos que não enxergamos ou não alcançamos porque estamos preocupados demais com aquilo que nos arranha a superfície.





Written by David Arioch

April 9th, 2018 at 1:50 am

“Cara, a Páscoa já foi”

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Passei casualmente nas Americanas e vi que havia uma grande quantidade de ovos de Páscoa da Choco Soy de vários sabores. Eles estavam vendendo por R$ 35. Não me importo com ovos de Páscoa, mas por um instante olhei para um funcionário e falei:

— Cara, a Páscoa já foi, vendam por R$ 5 cada ovo que levo todos que sobraram. Me comprometo a distribuir a maior parte para a criançada da Vila Alta.
— Não podemos, amigo. O gerente não está aqui agora, mas acho que pode reduzir o preço nos próximos dias.
— Tudo bem, talvez eu passe aqui depois.
— Mas por que seu interesse nesses ovos? Ah, nem precisa responder. Aposto que você é vegano.
— Por que acha isso?
— Acho que só veganos fazem isso.





Written by David Arioch

April 3rd, 2018 at 12:33 am

Me dá sua carteirinha de vegano!

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Arte: Reprodução

Saindo da academia, já cansado, pernas esmorecendo pela destruição marota do treino de segunda, atravessei a rua e tão logo desativei o alarme do carro, um cara sentado em uma mureta saltou e gritou:

— Porra, cara! Tô aqui na espreita faz hora. Você é vegano! Tá andando de carro por que?
— Porque preciso. Preciso estar em vários lugares diariamente e tenho pouco tempo livre. Por enquanto é o jeito.
— Precisa porra nenhuma! Isso não é vegano, caramba! Parece um refém do sistema com esse papinho pós-história.
— É mesmo?
— É, me dá essa merda dessa carteirinha aí!
— Que carteirinha?
— Sua carteirinha de vegano, ora!
— Não tenho carteirinha.
— Como não?
— Não tenho.
— Olhe, cara, dessa vez vou te liberar, mas só porque seus pneus são da Michelin.
— Obrigado, irmão. Não sei o que eu faria sem a minha carteirinha.
— Tá! Tá! Tá! Tá liberado! Vai vegano!
Fiz um V com os dedos médio e indicador da mão direita e ele retribuiu enquanto comia uma goiaba.

 

 





 

A contradição da realidade e o veganismo – Sobre críticas à alimentação de veganos

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A Consumers International publicou uma pesquisa informando que 80% da população brasileira ignora o impacto da alimentação em suas vidas. Mesmo assim, muitas pessoas, que por improvidência levam um estilo de vida censurável do ponto de vista nutricional, julgam como sendo impraticável ser vegano.

Ou seja, não tenho condições de ser vegetariano ou vegano, de consumir alimentos menos industrializados ou mais baratos do que alimentos de origem animal, mas tenho condições de consumir laticínios, carnes e alimentos baseados em calorias vazias.

A partir disso, desenvolvo uma reflexão sobre a contradição da realidade e o veganismo, e porque as críticas à alimentação dos veganos se resume normalmente a um ponto convergente e conflituoso – a primazia do paladar e a relação de conveniência com nossos hábitos históricos e culturais que perpassam gerações.