David Arioch – Jornalismo Cultural

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Uma manhã insólita no banco

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Senti uma dor de cabeça que parecia premer tudo que havia dentro da minha caixa craniana

Uma manhã insólita no banco

Chegando lá, retirei minha senha da máquina e caminhei até uma das poltronas vagas (Foto: Reprodução)

Fui ao banco antes do almoço. Chegando lá, retirei minha senha da máquina e caminhei até uma das poltronas vagas. Olhei para o painel eletrônico e me surpreendi porque não demoraria muito para eu ser atendido.

Como nunca fui do tipo que mexe no celular enquanto aguarda atendimento, fiquei observando tudo ao meu redor com discrição. As pessoas pareciam tão tranquilas. Não ouvi nenhuma reclamação. Até as poucas crianças que acompanhavam os pais se mostravam educadas e compreensivas, caladinhas, assistindo a vida transcorrer sem muita pressa.

“Uau! Inacreditável! Se há dez anos alguém falasse que eu passaria por uma situação assim no banco, provavelmente eu não acreditaria”, deduzi. Tudo ia bem. Pessoas silenciosas ao meu lado, inertes em seus próprios pensamentos, mostravam que idas ao banco nem sempre são ruins.

De repente, chegou um sujeito falante, na faixa dos 40 anos, dando tapas nas costas de um senhor beirando os 60. O mais jovem falava alto, gesticulava e extasiado coçava a barriga saliente, desproporcional ao restante do corpo magro, que se avolumava conforme ele a estufava orgulhosamente sob os botões de uma camisa bege.

Ouvi o de 40 anos comentando sobre o preço da cerveja. Porém, não demorou, e o homem mais velho se despediu. Àquela altura, eu já não estava mais atento à sua presença. E para minha surpresa, o desconhecido se aproximou e sentou ao meu lado. Além da camisa de linho, ele usava calça social preta e um par de sapatos pretos. À primeira vista, um sujeito bem vestido – na ótica social tradicional.

Quando eu estava cabisbaixo, lendo “As babas do diabo”, de Cortázar, um amigo, Renato Frata veio até mim e me parabenizou pelo conteúdo do meu blog. Agradeci e nos despedimos. Então voltei a ler “cobria seu rosto de rugas, alguma coisa mudava de lugar e de forma porque a boca tremia e o trejeito ia de um lado a outro dos lábios como uma coisa independente e viva, alheia à sua vontade…”

Não consegui continuar a leitura. Senti uma dor de cabeça que parecia premer tudo que havia dentro da minha caixa craniana – era lancinante. “Que dor estranha, que desconforto”, refleti. Logo que levantei a cabeça, ouvi queixas incompreensíveis de duas senhoras sentadas atrás de mim. E o homem ao meu lado fedia tanto que me esforcei para não levantar e sair dali.

Ele sorria sozinho com tanto paroxismo que fiquei sem entender. “Será que esse cara está rindo de mim? Acho que não! Que tipo de pessoa faria algo assim?”, inferi. Ao meu lado, o sujeito ignorava tudo. Virei o rosto à minha esquerda e levei a mão ao nariz disfarçadamente. Quando voltei à posição normal, a pestilência ficou mais vigorosa, me dando náusea.

Era a mais medonha das combinações de odores – um misto de chulé, axilas hidrofóbicas (um eufemismo neológico para suvaqueira) e mau hálito que superava o pior dos chorumes. E vinha num crescendo tão grande que dava a impressão de se desenvolver em estágios de tempo. Angustiado, observei o painel. Ainda não era a minha vez. Para piorar, o homem inclinou o corpo e deslizou o dedo pelo calcanhar nu do pé esquerdo. De lá, ele tirou uma bolinha esverdeada de sebo e começou a esfregá-la com os dedos médio e polegar.

A liberdade veio em boa hora. Olhei para o painel e vi minha senha piscando. Assim que me levantei, uma senhora em um vestido longo, acompanhada de uma idosa, provavelmente sua mãe, me puxou pelo braço. “Nossa, filho! Um moço tão bonito que nem você poderia se cuidar um pouquinho mais, né?”, se queixou. Preocupado em perder a vez, não falei nada, só me dirigi ao caixa.

Quando saí do banco, notei algumas pessoas com olhares carrancudos e reprovadores. Caminhei apressado, sem entender nada até o momento em que entrei no carro e encostei o nariz na minha camiseta. Ela continuava cheirosa do lado esquerdo, mas do lado direito tinha uma mancha esverdeada como a bolinha de sebo que o desconhecido tirou do próprio calcanhar.

Quem é a paciente?

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O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade

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Depois de ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames (Foto: Reprodução)

Fui até uma clínica fazer um exame. Chegando lá, entreguei a guia da Cassi para a recepcionista e ela questionou: “Quem é a paciente?” Respondi que eu era o paciente. Sem graça, a moça se desculpou. Por um momento, tive vontade de rir ao lembrar dela dizendo “a paciente”, mas me esforcei porque não queria deixá-la constrangida. Assim que confirmou meus dados e me entregou um crachá rosa escrito MAMOGRAFIA, entendi porque ela perguntou “Quem era a paciente”.

Com a identificação do exame em mãos, caminhei até uma tranquila sala de espera. O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade. Quando me viram, três mulheres não tiraram mais os olhos do meu crachá escrito MAMOGRAFIA. E fiquei pensando, inerte num sorriso velado e sem dizer palavra: “Sim! Sou homem e vou fazer mamografia. É isso aí. Tirem suas conclusões. Também posso me divertir interpretando seus pensamentos.”

O meu crachá rosa cintilava mais ainda com a cálida incidência do sol que mirava com mais veemência justamente onde eu sentava. Sem problema! Não demorou e as três foram chamadas até uma sala de exames. Sozinho, troquei de lugar porque havia luz solar por todos os lados, aquecendo minhas costas, braços e rosto. Tudo melhorou quando consegui me ocultar sob uma parede branca.

Fiquei lá parado com meu crachá enquanto a TV exibia histórias de corrupção e trapaça. Assisti um cara falando que o furto de energia elétrica no Brasil corresponde à energia consumida no Paraná. Ok! Naquele instante, tudo parecia girar em torno de energia, inclusive do sol que continuava se esgueirando pela janela.

Logo a sala começou a encher. E ninguém evitou de olhar o meu crachá. “Tudo bem! Tudo bem! É isso mesmo. Vou fazer MAMOGRAFIA”, refleti outra vez. Nesse ínterim, um amigo, Rafael Otaviano, me viu e veio me parabenizar pelos meus textos, o que me agradou muito porque ajudou a me distrair diante de tantos olhares inquiridores.

Fiquei pelo menos 40 minutos aguardando a minha vez, o que era incomum, já que vi pessoas que chegaram depois de mim sendo atendidas antes. Me levantei, fui até a recepção e perguntei se demoraria muito para que eu fosse atendido. Ao meu redor, mais pessoas observavam meu crachá rosa. Em outra sala de espera, vi alguém apontando para mim e comentando: “Aquele rapaz vai fazer mamografia. Que estranho!”

Quando pronunciaram meu nome: “Daví!”, não Deivid, como sou chamado desde bebê, caminhei até a responsável técnica e ela se desculpou. Me informou que o exame da forma como foi pedido pelo mastologista exigia adaptações na máquina, justificando a demora. “Alguém com câncer de mama na família?” Respondi que não. Eu estava lá para fazer mamografia bilateral com a intenção de avaliar o desaparecimento de uma leve ginecomastia.

Após ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames com o peitoral marcado e caminhei até a saída. Antes de ganhar às ruas, ouvi uma mulher cochichando perto da porta: “Não sabia que homem também tinha câncer de mama.” Sem me preocupar em explicar o motivo da minha ida até a clínica, repliquei: “Pois é, senhora, diga ao seu marido e aos seus filhos para terem muito cuidado. O maior perigo surge quando de repente começa a sair leite dos mamilos.” Assustada, ela se encolheu num canto com olhos esgazeados.

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Written by David Arioch

June 29th, 2016 at 1:48 pm

Um final de tarde agonizante no Castelo de Grayskull

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Uma camada de ferrugem que a cobria esfarelou sobre o meu rosto como chuva suja de óxido nítrico

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Smith Machine, modelo usado no Castelo de Grayskull (Foto: Reprodução)

Em uma época da minha vida, me empolguei tanto com a musculação que comecei a treinar em duas academias. Ingênuo, eu acreditava que teria melhores resultados dessa forma. Então, sempre no final de semana, eu atravessava a cidade para me exercitar em um desses ginásios precários, onde falta tudo, menos a vontade de levantar pesos.

O cenário era desagradável para pessoas acostumadas com academias mais bem equipadas ou visualmente atrativas, o que não importava muito para mim, já que eu estava ali para complementar a rotina. A manutenção era inexistente, a julgar pelo aspecto enferrujado de anilhas, aparelhos descascados e travas de segurança tão moles que pareciam capazes de saltar sobre meus olhos ao toque de um dedo.

Era difícil não pensar nos riscos de ver pernas esmagadas ou decepadas tão logo a “guilhotina”, apelido que dei ao leg press, descesse na sua contumaz ferocidade, quando o mais descuidado dos usuários ousasse extrapolar nas repetições da última série. Talvez o aparelho até sonhasse com esse momento para compensar anos de negligência enquanto rangia mais do que o piso que a porta pungia.

Ao meu redor, nunca havia muita gente, e eu agradecia, calado e contente. Gostava de treinar sozinho, no silêncio da minha mente ou ouvindo uma playlist pungente. E minha fisionomia austera, que pouco aspirava à socialização, ajudava bastante nesse sentido. Nada contra ninguém. Na realidade, sou um sujeito bem educado. Eu apenas tinha um motivo específico e bem definido para estar ali.

Um dia, quando a outra academia fechou no meio da semana, recorri mais uma vez ao “Castelo de Grayskull”, apelido do ginásio sucateado. Era um final de tarde, e assim que me aproximei da entrada, alguns caras que acabaram de treinar saíram às ruas sem camiseta. Um deles fazia pose e estufava o peito enquanto o outro guardava dentro do bolso uma fitinha usada para medir o próprio braço.

“Olha como tô ficando fibrado! É nóis, mano!”, berrou o terceiro, ajeitando o par de óculos escuros, inclinando o corpo à direita e observando o próprio reflexo no retrovisor de um carro. O quarto amigo sacolejava uma coqueteleira e exibia um par de luvas que reluzia mais do que colete refletivo.

Por descuido, tive que retornar ao carro para buscar minha toalha. Nisso, passaram pelo menos quatro minutos, e o rapaz continuava sacudindo a garrafinha. Pensei até que pudesse ser um novo exercício para tratamento de artrite ou um tipo de powerball em forma de squeeze. Tudo bem! Entrei na academia, cumprimentei alguém na recepção e caminhei até um aparelho.

Era dia de agachamento invertido. Coloquei os fones no ouvido e as anilhas na barra. Num primeiro olhar percebi que aquele aparelho era menor do que o da academia onde eu treinava com mais frequência. “Ok! É só pegar leve e compensar a intensidade com mais séries e repetições”, concluí.

Deitei no chão, posicionei os pés contra a barra e fiz a primeira série. Antes do final, ela envergou e começou a estalar. Julguei que fosse normal e preferi me arriscar. Na segunda série, a barra travou na subida da última repetição. E, parar piorar, no mesmo instante um senhor com um crônico problema de flatulência, que reavivou lembranças da minha visita ao aterro sanitário, encostou na máquina, com as costas à minha esquerda, e seguiu papeando com uma moça.

“Mas você nem precisa fazer musculação. Tá maravilhosa!”, comentou o homem escorando o braço sobre as anilhas do aparelho, simulando um tipo de apoio. Ele forçava a barra para baixo enquanto eu tentava empurrá-la para cima. A música na academia estava tão alta que nem o sujeito nem a garota ouviam minhas reclamações. Me tornei invisível.

Quando comecei a roxear, com o aparelho repleto de anilhas dos dois lados, e a barra subindo apenas do lado esquerdo, tentei forçar a elevação mudando a posição dos calcanhares. Em vez subir, a barra apenas estremeceu e uma camada de ferrugem que a cobria esfarelou sobre o meu rosto como chuva suja de óxido nítrico.

Não consegui evitar que ciscos entrassem em meus olhos. Também franzi a testa e fiz um esgar de desgosto quando senti o pó de ferrugem nos lábios. Sem enxergar nada e tentando terminar a última repetição, ouvi o homem dizendo para a moça: “Nossa! Cruzes! Que mau cheiro! Hoooorrrrríííííveeeel! Vamos sair daqui! Tem gente que não respeita ninguém!”

Sem ver nada e agonizando no chão, com as pernas trêmulas e os olhos fechados, fiquei tão irado que aproximei um pouco mais os dois pés e empurrei a barra numa intempestiva e derradeira lufada de força. Assim que ela se prendeu ao suporte, me libertei. A música acabou e o silêncio começou.

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O amigo generoso e o exame de HIV

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Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade

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Pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200 (Foto: Reprodução)

No ano passado, um amigo me ligou e pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200. “Olha, sei que você está sempre ajudando alguém na periferia de Paranavaí, então pegue esse dinheiro e faça alguma boa ação”, disse. Fiquei feliz com a contribuição porque na mesma semana conheci um casal passando um grande sufoco.

Recém-desempregado, o homem me confidenciou que não tinha a mínima ideia de como fariam para comprar comida naquele mês. Admito que me surpreendi com o gesto desse amigo, de quem não conhecia ainda tal qualidade altruísta. Ademais, não é sempre que as pessoas se dispõem a fazer doações sem que ninguém peça nada.

Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade. Um dia antes da doação, ele foi até um laboratório para buscar o resultado de um exame de HIV. Quando chegou a sua vez de ser atendido, uma moça pediu que ele aguardasse um instante.

Rapidamente ela entrou em uma sala e logo retornou com semblante enleado e suspeitoso. Nisso a tensão do meu amigo foi crescendo e crescendo. “Preciso voltar lá dentro de novo. Por favor, senhor, aguarde mais um minuto. A situação não é brincadeira”, declarou enquanto preocupada o observava.

Se passaram dois, três, quatro e cinco minutos, e nada da moça retornar. Nesse ínterim, meu amigo já estava arrancando os fios da barba com uma das mãos e sentindo o mais desagradável dos comichões. Em pouco tempo sua tez ficou lívida e ele não conseguiu evitar de transpirar. Com a mão úmida e escorregadia, tirou o celular do bolso. E por um reflexo inimaginável o aparelho não espatifou no chão. Tremendo e se atrapalhando entre as teclas que pareciam alfabeto rúnico, digitou uma mensagem para a irmã, pedindo que ela orasse fervorosamente por ele.

“Pelamor de Deus! Tô no momento mais difícil da minha vida, minha irmã! Reúna todo mundo aí e se ajoelhem! Chame até os vizinhos! Se ajoelhem com muita vontade! Orem por mim com todas as forças! Não quero morrer!”, teclou, tentando não desfalecer na frente dos estranhos.

Pela sua cabeça passou um turbilhão de pensamentos. Imaginou até o próprio velório num dia frio e chuvoso em que ninguém compareceria porque iriam preferir cobertor e chocolate quente no conforto de casa. “Infiéis! Infiéis!”, gritava de dentro do túmulo ao receber as últimas pás de terra arremessadas por um coveiro corcunda recém-saído de um filme do Ed Wood.

“E assim morrerei, no mais repentino e ligeiro dos esquecimentos”, deduziu no seu drama copioso. “Não! Pera aí, Deus! Por favor! Assim não! Juro que se eu escapar dessa vou dar todo o dinheiro que tenho na minha carteira pra ajudar algum necessitado. Juro em nome de tudo! Juro agora!”, esbravejou no cerne da própria consciência.

De repente, foi interrompido pela atendente e voltou a si. Quando a moça estendeu a mão para entregar-lhe o resultado, meu amigo viu no rosto dela a confusa fisionomia dantes se dissipando, se transformando em expressão de bonomia. Nem parecia a mesma pessoa. “Desculpe pela demora. Não é nada não. É que hoje ficamos com duas funcionárias a menos e o serviço acumulou. Tá tudo certo! O senhor já pode ir. Tenha um excelente dia”, comentou com voz doce e um sorriso esfuziante.