David Arioch – Jornalismo Cultural

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“Não, filho. Não pegue coisas do chão”

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Na feira, enquanto eu selecionava salsinha…

Na feira, enquanto eu selecionava salsinha, sem que eu o tocasse, um maço caiu da banca. Quando agachei, o peguei e coloquei na cesta, uma senhora chamou-me a atenção:

— Não, filho. Não pegue coisas do chão. Isso nunca é bom.

— Mas por que, senhora? Estou pegando do chão aquilo que veio do chão, que nasceu do chão.

— Hum…olhe, filho, nunca tinha pensado por esse lado – comentou sorrindo.

— Além disso, se ela pulou da banca, é porque quer ir embora comigo, não acha?

— É…acho que você tem razão… mas cuide bem dela. Não faça mal a ela, senão ela vai se arrepender de ter pulado da banca.

— Sim, acho que não posso decepcioná-la…

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Written by David Arioch

June 2nd, 2017 at 5:11 pm

A morte da senhora vizinha

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O anúncio foi feito por dois cães mestiços (Pintura: Jonelle Summerfield)

Uma senhora que morava na minha rua morreu. O anúncio foi feito por dois cães mestiços que tentavam invadir a casa. Eles uivaram e deixaram marcas de garras na porta da cozinha. Em poucos minutos, esculpiram um emaranhado de riscos, sincretismo de tristeza e desespero. Sentiram sua ausência antes de testemunhá-la morta, caída na cozinha, vítima de AVC.

Juntos, cavaram um buraco no quintal, na ingênua tentativa de chegar até ela. Não se deixaram abater. Só abandonaram o buraco quando ouviram alguém abrindo o portão. Era o filho. “Mãe…mãe…cheguei!” Lorenzo e Matino se aproximaram do rapaz. Com os focinhos cheios de terra, latiram simultaneamente.

Desafinados pela estafa e pela desarticulação da surpresa, lamentaram como crianças órfãs, que ainda não aprenderam a falar. Lágrimas escorreram, assim como o uivo fragilizado e prolongado que, oscilante, se perdia como os fios de água que desciam incertos pelas bocas de lobo. O filho abriu a porta e os cães se adiantaram até a cozinha. Lamberam as mãos da mulher que já não existia.

O rapaz tapou a boca e gritou, reprimindo o som e engolindo o bafo quente como rajada de fogo. Enxugou as lágrimas na camiseta e chamou o Corpo de Bombeiros. “Não há mais o que ser feito.” Circulando o corpo, Lorenzo e Matino uivaram mais uma vez. Roufenho, o filho berrou: “Perdão, mãe! Perdão!” Sem fazer barulho, os cães se aproximaram e lamberam as mãos do rapaz.

Com a chegada dos funcionários da funerária, embalaram o corpo em um saco de PVC e partiram. O filho foi atrás, em seu carro, acompanhado por Lorenzo e Matino. Com a cabeça atravessando a janela, seguiram uivando para o nada, ou para o tudo, já que a vida celebra a morte tanto quanto a morte celebra a vida.

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Written by David Arioch

October 14th, 2016 at 11:49 pm