David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Ajde Jano, um hino balcânico não oficial

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A beleza de uma composição folclórica que atravessa os séculos

Kultur Shock ajudou a divulgar a música folclórica sérvia fora do Bálcãs (Foto: Reprodução)

Kultur Shock, um aliado da música folclórica sérvia fora dos Bálcãs (Foto: Reprodução)

Uma das mais belas, tristes e famosas composições folclóricas do Sul da Sérvia e do Kosovo, Hayde Yano ganhou uma versão com um singular “que” de autoralidade em 2001, na versão da banda estadunidense Kultur Shock, uma das mais respeitadas do gênero gypsy punk.

O grupo, conhecido por valorizar o cancioneiro nômade, explorar suas habilidades técnicas multi-instrumentistas e influências multiétnicas, nunca se faz de rogado quando o que está em jogo é a espontaneidade não de apenas entreter, mas reacender os valores semeados e preservados pela música folclórica. É exatamente o que encontramos na versão que o Kultur Shock gravou de Hayde Yano.

Concebida com preciosismo, a canção segue a premissa do kolo tradicional, uma das danças coletivas e circulares mais difíceis do mundo – que exige uma contumaz flexão de joelhos, recaindo o peso sobre os calcanhares. É muito popular entre os povos eslavos, com destaque para sérvios, bósnios, herzegovinos, croatas, macedônios e montenegrinos. A versão dos estadunidenses para Ajde Jano é baseada em instrumentos que popularizaram o kolo, com predominante característica de gravador radiofônico, como frula, tamburica, šargija, zurla, gajde, tapan e gaita.

O que a distingue das versões menos ousadas é a roupagem moderna e eletrônica que lembra ocasionalmente o trabalho de aspiração mediterrânea do projeto israelense-estadunidense Balkan Beat Box, referência em gypsy punk e cultura roma. Outro ponto interessante de Hayde Yano é que durante a execução do kolo os punhos cerrados atrás das costas representavam no passado um desafio ao governo turco – como um protesto, o que rende ao ouvinte uma extra carga simbólica sobre a importância contextual da música com status de hino não oficial.

Kolo, uma dança popular entre os povos eslavos (Foto: Reprodução)

Kolo, uma dança popular entre os povos eslavos (Foto: Reprodução)

Hayde Yano recebeu dezenas de versões desde que foi gravada pela primeira vez em 1928 pelo desconhecido V. Georgevich. A história da canção remonta aos séculos anteriores, principalmente ao tempo e as consequências do duradouro domínio do Império Otomano. Ao longo dos anos, a letra foi modificada algumas vezes. No entanto, a ideia original fala sobre a necessidade de se preservar os velhos e bons hábitos.

Isso é representado pela recusa do homem em vender o cavalo e a casa, os únicos bens de um casal sérvio que passa por um grave momento de crise econômica e privação imposta pelos turcos. Além disso, a residência é o único local onde podiam dançar o kolo, honrando as próprias origens e a relação com a terra.

Antonín Dvořák, compositor erudito que estudou o folclore dos Bálcãs (Foto: Reprodução)

Antonín Dvořák, compositor erudito que estudou o folclore balcânico (Foto: Reprodução)

Mais tarde, a letra foi alterada e o personagem masculino sugere a Jana, sua mulher, que o melhor é vender a propriedade, já que teriam mais tempo para dançar o kolo, sem precisar se preocupar com o animal ou a residência. Assim, a letra ganhou um novo e distinto caráter conceitual e imaterial. O mais importante para o casal estava com eles o tempo todo – a sabedoria de se dançar o kolo, não apenas uma dança, mas um legado de identidade e valores que ninguém poderia destruir.

Antes de Hayde Yano ser gravada, o kolo entrou para a história como uma das mais importantes danças balcânicas; o que foi endossado em 1886 pela peça orquestral No. 7 (15) em C Maior (Kolo), pertencente a série Danças Eslavas, do compositor tcheco Antonín Dvořák, um gênio do romantismo que sincretizava tradição sinfônica e influências populares e folclóricas.

Enfim, Ajde Jano, kolo da igramo!   

A letra traduzida:

Hayde Yano

Vamos, Jana, vamos dançar o kolo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos dançar o kolo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos dançar o kolo!

 

Vamos, Jana, vamos vender o cavalo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender o cavalo!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender o cavalo!

 

Vamos vender apenas para dançar!

Vamos vender, Jana querida, apenas para dançar!

Vamos, Jana, vamos vender a casa!

 

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender a casa!

Vamos, Jana, vamos, querida, vamos vender a casa!

Vamos vender tudo apenas para dançar!

Lola precisa correr

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No filme Lola Rennt, protagonista tem três oportunidades de salvar o namorado em 20 minutos

Lola precisa recuperar cem mil francos para evitar que Manni seja assassinado (Foto: Reprodução)

Lola precisa recuperar cem mil francos para evitar que Manni seja assassinado (Foto: Reprodução)

Lançado em 1998, Lola Rennt, que chegou ao Brasil como Corra, Lola, Corra, é um filme do cineasta alemão Tom Tykwer com uma estrutura tão importante e reveladora quanto a história. Na obra, Lola (Franka Potente) vivencia três tentativas de salvar a vida do namorado em vinte minutos. Manni (Moritz Bleibtreu) entra em um metrô e quando sai esquece uma bolsa com cem mil francos. A quantia pertence a um grupo criminoso do qual o rapaz tenta fazer parte. Desesperado pela perda do dinheiro que lhe custará a vida, Manni liga para a namorada Lola relatando o acontecido e informando que ele tem apenas vinte minutos para recuperar a grana. Sensibilizada com a situação, Lola inicia uma batalha contra o relógio.

Em Lola Rennt, a protagonista vive o mesmo dilema três vezes, com a história se repetindo consecutivamente. A grande diferença é que em cada uma as casualidades, encontros e desencontros, interferem nos atos da personagem e também nas ações de outras pessoas, alterando sempre a sequência e o desfecho do episódio. Por exemplo, um atraso de poucos segundos pode evitar que alguém seja atropelado.

Lola Rennt parece um jogo eletrônico em que o cineasta brinca com as cores (Foto: Reprodução)

Lola Rennt parece um jogo eletrônico em que o cineasta brinca com sons e cores (Foto: Reprodução)

Sem dúvida, o maior atrativo do filme é a criatividade do diretor Tom Tykwer que mistura vídeo, música, desenho animado e fotografia como elementos intrínsecos de um mesmo universo. Por meio de sons eletrônicos, o cineasta transmite a tenacidade da eletrizante correria de Lola pelas ruas de Berlim, na Alemanha. No contexto, o gênero techno pode ser interpretado como uma conexão dialética, um desdobramento musical das tantas repetições e intervalos ao longo da história, dando mais dinâmica à lógica espaço-temporal da obra. Já o desenho animado, que dá um caráter virtual e surreal a algumas cenas, remete aos jogos de videogame.

O filme parece um jogo eletrônico em que Tykwer brinca com sons e cores. A cada episódio, Lola encontra uma maneira curiosa de recuperar a grana. No primeiro, ela pratica um roubo e deposita tudo dentro de bolsas vermelhas, uma simbologia do amor, embora a atitude seja desesperada e irrefletida. Na segunda tentativa, a protagonista pega o dinheiro do banco do próprio pai, então tudo é armazenado em uma bolsa verde que representa positividade pelo fato da figura paterna ser uma pessoa de caráter duvidoso. Ao mesmo tempo, a cor remete à imaturidade e intemperança da jovem.

Na última história, Lola consegue a grana sem lesar ninguém ao participar de uma jogatina em um cassino. Ao final, o dinheiro é colocado em uma bolsa amarela que curiosamente se traduz na reflexão e ponderação da personagem. Reunindo as cores de cada história, temos a composição de um semáforo, em uma implícita e brilhante alusão aos momentos em que Lola pôde parar, prestar atenção e seguir em frente.

A trilha sonora da obra foi concebida por Tom Tykwer, Johnny Klimek e Reinhold Heil, mas conta com excertos de The Unanswered Question, de 1906, do compositor estadunidense Charles Ives, que traduz musicalmente o conceito do silêncio dos druidas. Em síntese, Lola Rennt é um filme veloz que rompe as amarras com o cinema convencional e faz referências ao clássico Przypadek, de 1987, do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski.

A história do Preto Velho

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Em Cafundó, João de Camargo representa o Brasil miscigenado e heterogêneo

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Lázaro Ramos interpreta o preto velho João de Camargo (Foto: Reprodução)

Lançado em 2005, Cafundó, dos cineastas Paulo Betti e Clovis Bueno, é um filme recheado de simbologias que narra a trajetória de João de Camargo (Lázaro Ramos), o mais emblemático preto velho brasileiro. Na obra que teve como cenário várias cidades do Paraná, como Ponta Grossa, Paranaguá e Antonina, João de Camargo representa um símbolo de fé e a figuração de um Brasil marcado pela miscigenação, heterogeneidade e fusão de valores.

Exemplo de toda essa mistura é a ideia do protagonista em criar a Igreja de Bom Jesus do Bonfim que une elementos de umbanda e cristianismo; um revolucionário artifício que pode não ter sido determinante na aceitação dos símbolos religiosos africanos, mas contribuiu para mostrar uma nova realidade que se distanciava daquele contexto europeizado.

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Personagem rompe sua relação com o passado na busca pela redenção (Foto: Reprodução)

A iniciativa de construir uma igreja diferente só surge quando o protagonista decide, após uma vida errante de muito sofrimento, viver para a fé. João de Camargo rompe sua relação com o passado na busca pela redenção. A entrega às crenças religiosas também se relaciona ao fato do personagem assumir o dom para a mediunidade, não ignorando mais as vozes que o acompanhavam, e sim as usando para curar enfermidades.

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Muitas cenas do filme foram gravadas no Paraná (Foto: Reprodução)

O Preto Velho era um homem muito à frente de seu tempo, tanto que os primeiros indícios de seu perfil como líder aparecem em 1866, quando o personagem começa a aceitar a vida e o próprio talento para lidar com as multidões e o preconceito racial. Camargo não só estimulava a fé das pessoas em uma divindade, mas também as fazia acreditar no valor da vida e na importância de cada ser humano, independente de credo ou origem.

Embora tenham se passado quase 150 anos, até hoje as influências do Preto Velho na cultura brasileira se estendem por diversas esferas artísticas e religiosas. Mesmo que desde 1988 o Cafundó, remanescente do quilombo situado na região de Sorocaba, em São Paulo, tenha deixado de ser um folclórico espaço físico de casinhas de barro e pau trançado, o lugar ainda é grande como um ambiente imaterial que se multiplica no ideário de quem se preocupa em preservar uma cultura pouco valorizada.

Além da interpretação inesquecível de Lázaro Ramos, é preciso destacar os papéis de Leona Cavalli, Leandro Firmino, Alexandre Rodrigues, Ernani Moraes, Luís Melo, Renato Consorte, Francisco Cuoco e Abrahão Farc. Outro grande atrativo de Cafundó é a trilha sonora de André Abujamra que a cada cena se mostra um exímio manipulador de emoções, introduzindo o espectador por viagens transcendentais. A rabeca entra na história como um recurso estilístico que pauta o tempo e os rompantes do acaso.

Uma metamorfose social

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Lord of the Flies mostra como a necessidade de sobrevivência transforma as pessoas

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A liderança de Ralph encontra resistência no autoritarismo de Jack (Foto: Reprodução)

Lançado em 1990, Lord of the Flies, inspirado no livro homônimo de William Golding – vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, é um filme do cineasta inglês Harry Cook que chegou ao Brasil com o título O Senhor das Moscas e mostra como a necessidade de sobrevivência transforma os seres humanos. Na obra, um grupo de crianças resiste a uma queda de avião no oceano e encontra abrigo em uma ilha.

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No início, os garotos seguem um programa diário de direitos e deveres (Foto: Reprodução)

Logo nos primeiros dias, Ralph (Balthalzar Getty), o mais maduro dos garotos, demonstra aptidão para a liderança, deixando claro, apesar da pouca idade, que o melhor meio de sobreviver e manter o equilíbrio é seguindo um programa diário de direitos e deveres. Para Ralph, todos na ilha desempenham papel importante e insubstituível, o que remete à democracia.

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Situação sai de controle quando Jack se torna líder (Foto: Reprodução)

Contudo, Jack (Chris Furrh) antagoniza o idealismo de Ralph. Assim como muitos líderes se aproveitaram de um momento de fraqueza de suas nações para instituir um sistema ditatorial, Jack faz o mesmo na ilha. Com a proposta de oferecer caçadas e brincadeiras aos comparsas, o garoto consegue persuadir quase todos os seguidores de Ralph, com exceção de Simon (James Badge Dale) e Piggy (Danuel Pipoly).

O primeiro é uma criança com uma essência mística que se destaca dos demais pela sensibilidade aguçada. O segundo representa a ciência, o juízo e a razão. Mas ninguém personifica melhor a metamorfose social do homem do que Jack. O garoto aparentemente amistoso se torna agressivo após formar um grande grupo de dissidentes. Embriagado pelo poder, se recusa a refletir sobre as propostas dos companheiros. O novo líder mergulha os passivos discípulos em uma realidade truculenta, chegando a perder a capacidade de ver a si e aos outros como crianças e adolescentes.

Jack cede espaço ao ódio indiscriminado e se isenta de culpa por todos os atos de injustiça, crente de que sacrifícios são válidos por um “bem maior”. O cineasta Harry Cook explora a transformação do personagem através de fortes expressões faciais, maquiagem pesada e vestimentas que se definham. Tudo se soma na construção simbólica da decadência do homem como ser social, marcado pelo retorno ao estado primitivo.

Curiosidade

O primeiro filme baseado na novela de William Golding, de 1954, foi lançado em 1963 pelo cineasta britânico Peter Brook.