David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Sempre encontro pessoas reclamando da vida e do mundo

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Arte: Pawel Kuczynski

Sempre encontro pessoas reclamando da vida e do mundo, e às vezes algumas se incomodam quando pergunto respeitosamente se elas estão fazendo algo para contribuir com alguma mudança, se elas não concordam com o status quo. Normalmente há uma corrente transferência de culpa a terceiros, como se isso garantisse uma isenção de manifestação prática. Ou pior do que isso, há a defesa consciente ou inconsciente do fatalismo. E isso me leva à conclusão de que a crítica muitas vezes existe somente pela crítica, arredada de seu sentido utilitário, porque a vontade é menor do que o conformismo.

Acredito que o ideal de muitas pessoas não é um mundo melhor para todos, mas um mundo melhor para elas e talvez para aqueles que elas julguem merecedores desse mundo ideal. Vivemos em um mundo onde desde muito cedo as pessoas são condicionadas a buscarem um futuro digno para elas. Mas muitas ignoram que um futuro digno para elas pode depender essencialmente da busca por um futuro melhor para os outros também.

A verticalização em detrimento da horizontalização é comumente ignorada por um viés se não individualista, talvez espuriamente coletivista. Isso é apenas uma simplista inferência sobre a desconsideração em relação à importância de um clamor mais do que pontual da alomorfia ou mudança estrutural em uma sociedade.

Acho que se reunir com amigos em algum lugar para fazer críticas às coisas pode ser interessante, mas se não passa disso, se não há ações nem mesmo partindo da nossa recusa em aceitar algo que consideramos, de fato, inadmissível, e sobre o qual temos poder de reação, esbarramos no clássico tartufismo, na demagogia.

Quando saio às ruas, sempre vejo homens reunidos em algum lugar fazendo críticas – em bares, cafés, sob alguma marquise. Passam horas, dias, meses, anos naqueles lugares. Creio que reclamam apenas para passar o tempo, para ser ouvido (mesmo que minutos depois ninguém se recorde do que ouviu), porque as críticas nunca mudam, e se não mudam é porque, esperando uma mudança que não parta deles, seguem imersos na inação.

Written by David Arioch

August 5th, 2018 at 1:55 pm

Imagine um mundo onde as pessoas não dessem a mínima para coisas

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Arte: Habitat For Humanity

Imagine um mundo onde as pessoas não dessem a mínima para coisas, ou pelo menos não as exaltassem em demasia ou atribuíssem valor acima da vida, porque coisas são basicamente o que são – em muitos casos, produtos aos quais atribuímos mais valor pelo que nos custam, pela exceção, pelo distanciamento que existe entre elas e os outros, do que pelo que são em um sentido funcional ou mesmo hedonista.

A ausência de distinção baseada no poder econômico ou no “acúmulo de coisas que não são acessíveis para uma maioria” possivelmente exigiria um esforço intelectual para se destacar, levando em conta que platitudes como “o que eu tenho que você não tem” não chamaria mais a atenção, e simplesmente porque o ter, materialmente, talvez fosse relegado à insignificância, ou pelo menos à adiáfora.

E neste contexto o ser precisaria estar em constante evolução, ao contrário do ter, que não exige evolução moral de ninguém, caso a pessoa não queira. Prova disso são pessoas que nascem em um ambiente de grande poder econômico, e de repente, optam por não fazer nada no decorrer da vida a não ser gastar dinheiro para ocupar o tempo, desconsiderando todo o resto.

Há também pessoas com muito dinheiro que tendem a considerar seus chamados esforços, envolvam eles atividades ilícitas ou não, desrespeito ou não à vida e a dignidade humana e não humana, como sendo únicos, singulares, e por isso devem ser recompensados de forma dissemelhante, mesmo que isso signifique uma diferença do tipo: “O que você jamais ganhará a vida toda eu ganho em uma semana”. “Eu fiz o que você não seria capaz de fazer. Por isso estou onde deveria estar, onde não é o seu lugar.”

“Porque o meu esforço é muito maior que o seu, sou muito mais inteligente que você, então mereço, de fato, ganhar muito mais que você; e a você resta me servir, mesmo que para isso tenhamos que criar um simulacro de evolução para evitar que você ache que sua vida não está melhorando.” Em síntese, uma sutil estagnação oscilante. “Afinal, porque isso é o que cabe à sua limitada competência que está sempre longe de se igualar à minha”, diriam.

Muitas das mazelas que existem no mundo estão intrinsecamente relacionadas ao fato de que muitos daqueles que têm poder encaram sua força e distinção econômica como uma forma de certidão de superioridade, e o mundo diz que eles estão certos, por mais que leis que não valem na prática tentem informar o contrário. Porque leis são fundamentadas na plasticidade. Existem mais para parecer do que para ser.

Infelizmente, até mesmo entre os mais miseráveis há aqueles que não gostariam de um mundo justo, de igualdade; logo jamais lutariam por isso se desejam ocupar a posição daqueles que “estão no topo”, sejam eles criminosos ou não. Claro, porque a sua inexistência é uma consequência natural do que você não possui, segundo a perspectiva comum. Então perpetua-se a crença de que existirei à medida do que terei.




Written by David Arioch

April 22nd, 2018 at 8:53 pm

“A Sociedade Industrial e Seu Futuro”, de Ted Kaczynski

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Estou lendo pela primeira vez o livro Industrial Society and Its Future (A Sociedade Industrial e Seu Futuro), escrito pelo matemático e terrorista Ted Kaczynski, que ganhou fama internacional na década de 1990 como o “Unabomber”. Não simpatizo com as ações dele, já que suas bombas custaram a vida de pessoas, mas admito que o livro é intrigante e faz alguns apontamentos bem contundentes, que dialogam com a realidade atual, embora tenha sido lançado em 1995.

Direitos animais não são sobre privilégios para não humanos

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Sócrates e o consumo de carne como símbolo da injustiça e das desigualdades

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A redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa

Sócrates: “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos” (Arte: Reprodução)

Um dos fundadores da filosofia ocidental, o filósofo ateniense Sócrates ficou conhecido principalmente pela sua contribuição no campo da ética e da epistemologia. Suas crenças e ideias tornaram-se mundialmente famosas por meio de seus diálogos e discursos registrados por seus discípulos Platão e Xenofonte. Embora não seja possível afirmar se Sócrates foi vegetariano ou protovegetariano, na obra “A República”, escrita por Platão no século 4 a.C., está clara a sua preocupação sobre as consequências do consumo de carne e da exploração animal, além das implicações desse hábito na saúde humana.

Na página 77 de “A República”, Sócrates comenta com Glauco que levando em conta a forma como as pessoas viviam nas cidades, logo seria considerada imprescindível a criação de gado de todos os tipos. “Mas, levando este tipo de vida, teremos necessidade de muito mais médicos do que antes”, diz Sócrates a Glauco, que concorda com a associação do consumo de carne com o surgimento de problemas de saúde.

Sócrates também critica o hábito dos pastores da época de treinarem os cães para auxiliá-los no trabalho com os rebanhos de carneiros, reconhecendo que esse costume poderia endurecer a natureza dos animais, excitando a intemperança dos cães e tornando-os seres brutos. “A fome ou qualquer hábito vicioso os levaria a fazer mal aos carneiros e a tornarem-se iguais aos lobos [que apenas agiam instintivamente] dos quais os deveriam proteger”, declarou o filósofo ateniense na página 147 de “A República”. A observação de Sócrates revela uma preocupação com o fato da humanidade subverter a natureza animal para benefício próprio.

Na segunda parte de “A República” Platão apresenta Sócrates como um sujeito preocupado com as implicações morais do abate de animais, embora ele demonstre que, primariamente, o que o incomodava era a possibilidade de que o consumo de animais pudesse corromper cada vez mais a humanidade, a distanciando de sua natureza justa e complacente. “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos, e em cujos olhos poderíamos olhar e ver-nos refletidos, apenas algumas horas antes de nossa refeição?”, questiona, ao que Glauco responde prontamente: “Esse hábito exigiria isso de nós.”

A coisificação dos animais não humanos é apontada por Sócrates e Glauco como algo capaz de impedir a humanidade de alcançar a felicidade. “E, se seguirmos esse modo de vida, não teremos de visitar o médico com mais frequência?”, questiona o filósofo, que recebe a confirmação de Glauco: “Teríamos tal necessidade.” Sócrates prevê ainda que o hábito de comer animais e criá-los com a finalidade de vendê-los transformaria o ser humano em alguém não somente ambicioso, mas ganancioso a ponto de espoliar propriedades vizinhas para ampliar suas pastagens:

“Se nosso vizinho seguir um caminho semelhante, não teremos que ir à guerra contra o nosso próximo para garantir maiores pastagens? Porque as nossas não serão mais suficientes para o nosso sustento, e nosso vizinho terá a mesma necessidade e entrará em guerra conosco?” Glauco corrobora o receio do ateniense ao confirmar que sim, deixando subentendido que a humanidade se tornaria mais suscetível à decadência e às tentações de uma sociedade imersa em desigualdades. Para Sócrates, a redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa – e um distanciamento cada vez mais crescente da forma mais genuína de felicidade.

Essas reflexões de Sócrates envolvendo a exploração animal e o consumo de carne vão ao encontro do estudo da virtude. Ele dizia que é mais importante a busca do desenvolvimento humano do que a busca pela riqueza material – um dos principais motivos da exploração de animais enquanto produtos. Sócrates acreditava tanto nisso que nem mesmo quando foi sentenciado à morte por questões políticas, segundo as obras “Apologia” e “Críton”, de Platão; e pessoais, de acordo com Xenofonte, cogitou curvar-se ao júri ou fugir em vez de enfrentar a injusta condenação. Nascido em 470 a.C., Sócrates, que preferiu à morte ao exílio, faleceu em 399 a.C, depois de ser obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso.

Referências

Platão. A República. Nova Fronteira (2014).

Platão. A República – Parte II. Escala Educacional (2006).

The Republic of Plato. Translation by F. Sydenham and T. Taylor, revised by W.H.D. Rouse. With introduction by Ernest Barker. London – Methuen (1906).

Kofman, Sarah. Socrates: Fictions of a Philosopher (1998).

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A importância das opiniões contrárias

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Quem se julga sábio, dificilmente se abre para o conhecimento de forma isenta (Arte: Hype Orlando)

Pode parecer estranho, mas aprendi a gostar de opiniões contrárias às minhas na adolescência. E acredito que isso faz parte de um processo de constante amadurecimento, principalmente porque acho mais importante ter dúvidas do que certezas. Afinal, sou movido pelas dúvidas. Me provam que pouco sei sobre tantas coisas e isso é estimulante porque me permite evitar ser petulante, recair o mínimo possível em senso comum ou generalizações.

Quem se julga sábio, dificilmente se abre para o conhecimento de forma isenta de pré-conceitos ou preconceitos. Além disso, é através das diferenças que aprendo a ser mais paciente. Se calar para ouvir pode ser um desafio quando as palavras não nos agradam, mas é recompensador porque é a maior prova de que a essência humana não abandonou o ser.

Quem busca semelhanças o tempo todo corre o risco de se inclinar sobre si mesmo e não perceber que o outro na realidade é apenas o seu próprio reflexo imutável e pulverizado, como um ouroboros distorcido. A internet, por exemplo, é um ambiente muito bom para uma avaliação de autocontrole. Nesses mais de seis anos usando o Facebook me agrada o fato de eu jamais ter xingado alguém, mesmo diante de provocações e ofensas.

Há diferenças entre viver na época da ditadura e entendê-la enquanto poder político

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Analfabetismo no Brasil da década de 1960 chegava a 60 e até 70% em muitos estados

Góes Monteiro, general que inspirou a Ditadura Militar no Brasil (Foto: Divulgação)

Góes Monteiro, general que inspirou a Ditadura Militar no Brasil (Foto: Divulgação)

Me sinto deslocado quando encontro pessoas enaltecendo a ditadura como se tivesse sido um período majestoso e edênico. “Meu pai, minha mãe, meu avô, minha avó, meu tio, minha tia e tantos outros contam que só apanhava na época da ditadura quem era bandido”, dizem muitos.

Francamente? Todo mundo tem alguém na família que diz isso e não é algo que me surpreenda porque interpreto de uma forma completamente diferente. Eles não reclamavam e ainda não reclamam da ditadura porque na realidade não se importavam muito com os rumos da política brasileira. Também gozavam de pouco entendimento sobre as responsabilidades de se viver em sociedade.

O individualismo naquela época já era uma coisa aberrante e foi exatamente isso que fez com que a ditadura perdurasse por 21 anos no Brasil. Ademais, tinha uma face sombria e uma néscia. A sombria era encampada por aqueles que se beneficiavam do sistema político vigente, e a néscia era a dos menos instruídos ou incultos que tinham linha de raciocínio azêmola e solene, e por assim dizer até macabra de que “se o governo não me incomoda, tudo está perfeito, mesmo que pessoas morram à minha volta”.

A verdade que vejo pouca gente divulgando nos debates sobre o assunto é que nos tempos da ditadura militar havia uma grande massa de pessoas que não se importavam realmente com a democracia ou a liberdade de expressão. Muitos nem sabiam o significado dessas palavras, o que é aceitável, levando em conta que o analfabetismo no Brasil da década de 1960 chegava a 60 e até 70% em muitos estados, segundo o IBGE.

Por isso grande parcela da população brasileira da atualidade não teve e não tem familiar que foi perseguido nessa época, o que é muito normal, levando em conta que quando a ditadura chegou ao fim o Brasil contava com mais de 136 milhões de pessoas. E tudo isso pode ser usado para reforçar o discurso falseado de que só os “piores cidadãos” eram perseguidos pelos militares. A mim. isso significa algo bem simples. O que veio depois não foi graças ao esforço da maioria, o que na minha modesta opinião endossa mais ainda as histórias de luta de quem seguiu na contramão da obviedade.

Pondero que ter vivido na época da ditadura e tê-la compreendido na essência são coisas completamente diferentes. Conheço muitos idosos que a enaltecem, inclusive da minha família, mas esses não desempenhavam atividades intelectuais, culturais, artísticas ou econômicas que pudessem ser cerceadas. Sendo assim, considero no mínimo incoerente citar um familiar que pouco ou nada contribuiu para os rumos da democracia no Brasil, mesmo que não exercida na sua plena funcionalidade.

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, tivemos até obras musicais e poemas censurados no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), principalmente nas décadas de 1960 e 1970, porque o Dops suspeitou que havia conteúdo subversivo nos trabalhos enviados, o que não era verdade. E são pessoas que qualificam a ditadura militar como revolução que falam mal de ditadores. Ou seja, um entranhado e estrambólico paradoxo.

Além disso, acredito que embora o Golpe de 1964 tenha sido colocado em prática como uma promessa de transformar o Brasil em um país do futuro, o que ele fez foi instituir uma retrógrada forma de colonialismo baseada em relações de trabalho fundamentadas no barateamento e precarização da mão de obra, o que já acontecia na Europa e nos Estados Unidos na década de 1920.

Ou seja, inspirados na velha Doutrina Góes Monteiro, da Era Vargas, os generais fizeram com que o Brasil evoluísse sim em industrialização, não tenho dúvida disso, mas um progresso que a exemplo de outras versões beneficiou a menor parcela de brasileiros.

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O mundo seria um lugar melhor sem religiões?

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Não há como afirmar que o homem não encontraria outros meios de segregação que compensassem a ausência religiosa

Segregação cresce a cada ano e reforça sua posição multifacetada (Imagem: Irdeb)

Conversando sobre dialética com um amigo, ele me fez uma pergunta interessante. “Você acha que o mundo seria um lugar melhor sem religiões?” Respondi que acho que seria diferente, não sei se seria melhor. Então pediu que eu explanasse o que penso. Bom, o ser humano é segregacionista por natureza. A partir do momento que nasce, ele é instantaneamente inserido em um contexto social, logo se torna parte de um meio. Sendo assim, tudo que ele faz, de algum modo, tende a incluir e ao mesmo tempo excluir pessoas. Na realidade, todos nós somos segregacionistas.

Há um equívoco muito grande quando se fala em segregação e logo se pensa em preconceito racial ou mesmo racialismo. Vai muito além disso. Até mesmo quando defendemos boas causas somos segregacionistas, pois levamos em conta nossas preferências, conhecimento e experiências de vida para definir o que merece e o que não merece a nossa luta e o nosso tempo. Claro que isso não deve minimizar o esforço de ninguém, mas obviamente merece uma reflexão.

No fundo, o que fazemos é isso, segregar pessoas, sob os mais diferentes aspectos. Temos uma tendência nada equitativa de uni-las e ao mesmo tempo separá-las. Vou citar um exemplo bem simples. Em algum momento da vida, quando alguém convida uma pessoa para fazer parte de um grupo, é possível que se perceba somente o lado positivo, a integração. Na contramão, você também pode estar trazendo a pessoa para um grupo com a intenção de privá-la de fazer parte de outro. Ou talvez algo assim aconteça até involuntariamente.

A verdade é que a partir de suas ações ao longo da vida, mesmo que indiretamente, você define quem vai conhecer, quem merece e quem não merece estar próximo de você. É comum as pessoas optarem por evitar alguém com quem nunca conversaram. No mundo que vivemos a segregação surge de muitas formas. Até mesmo no olhar. Todos os dias nos deparamos com pessoas sendo segregadas pelo gosto musical, visão política, religião, nível cultural, fisionomia, roupas, tipo de cabelo e postura, além de outras dezenas de exemplos que poderiam ser citados.

Como resultado de um meio, começamos a fazer isso logo na infância, quando excluímos uma criança por algum motivo banal. Parece que passamos a vida em busca de aceitação e de aliados, o que não deixa de ser uma forma de guerra social. É inerente ao ser humano encontrar meios de se sentir especial e diferente. Em um nível mais crônico, há ainda a ânsia por fazer parte de um grupo que o faça sentir-se “superior”. Existe um grande desejo de ser observado, de existir socialmente, mesmo em grupos considerados antissociais e até religiosos.

Temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária (Arte: Kal)

Temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária (Arte: Kal)

É exatamente o que acontece hoje em dia em mídias sociais. No Facebook, todos os dias vemos pessoas criando grupos, páginas, se empenhando em aumentar o seu círculo virtual de amizades e também em conquistar o maior número possível de “curtidas”. Por outro lado, vemos muita gente desprezando, insultando e banindo quem pensa diferente. Mas aí alguém pode perguntar. “Ok, mas qual é a relação disso com um mundo ser melhor ou não sem religiões?” Bom, na minha opinião, tem tudo a ver. Religiões unem e segregam pessoas há milhares de anos, mas elas não são as únicas a fazerem isso.

Claro, hoje temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária, publicado em 2012, o que é um indicativo de que a segregação cresce a cada ano e reforça sua posição multifacetada. Então o amigo em questão me perguntou se eu acredito que há alguma razão específica para um número tão alto. Muitas religiões e igrejas surgiram a partir de um viés curioso, a dissidência. Ou seja, novas formas de segregação que nasceram dentro das próprias instituições religiosas fizeram com que por incompatibilidade de ideias e condutas muitos optassem por criar suas próprias igrejas e religiões.

Vivemos uma época em que principalmente na internet muita gente critica todas ou algumas religiões, qualificando-as como os grandes males da humanidade. Há uma crença de que o mundo seria muito melhor sem igrejas e sem religiões. Supõe-se que as pessoas realmente viveriam em harmonia e se respeitariam, pois as diferenças diminuiriam ao ponto de renascer um mundo de paz. Em teoria, parece algo bonito, e que sem dúvida lembra a canção “Imagine”, de John Lennon.

No entanto, distante de uma visão romanceada e mais realista do mundo, acredito que isso seja não apenas utopia, mas também a simplificação e superficialização dos problemas do mundo. Na ausência das religiões, não há como afirmar que o homem não encontraria outros meios de segregação que compensassem essa ausência, até porque surgiria um embate com a questão existencialista humana que é a inerência à fé e à crença, mesmo quando não direcionada a Deus.

Em síntese, admito que as religiões também têm peso negativo sobre a vida em sociedade, mas não podem ser responsabilizadas por todos os males da humanidade, até porque desde o início da civilização vemos nossos ancestrais distorcendo bons preceitos coletivos para benefício individualista. Infelizmente, é algo que acontece em todas as esferas da vida em sociedade e não apenas na religião. Ao longo dos séculos, quantas teorias e ideologias que nasceram de boas intenções perderam o seu valor pela distorção conceitual ou popularização da sua pobreza prática?

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Written by David Arioch

March 16th, 2015 at 10:45 am

Paranavaí e a sociedade de “colonização bruta”

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Uma cidade que de tão heterogênea surgiu com grandes falhas sociais

Paranavaí foi colonizada pelo próprio governo paranaense (Foto: Reprodução)

Sem planejamento, Paranavaí foi colonizada pelo próprio governo paranaense (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Não são poucos os pioneiros que afirmam que Paranavaí, no Noroeste do Paraná, é uma cidade formada a partir de uma sociedade de “colonização bruta”. Mas qual é o significado disso?Declarações como essa são justificadas por fatos envolvendo principalmente distinções culturais. Paranavaí foi colonizada pelo governo paranaense, ou seja, houve pouca participação ou abertura para a colonização de iniciativa privada ou planejada. Assim a organização precisava partir da própria comunidade.

Nos anos 1940, nos tempos da Fazenda Brasileira, Paranavaí contava com uma sociedade restrita, pouco sociável e formada pela política da conquista de novas terras. A colônia atraía todo tipo de gente porque os lotes eram baratos e, em algumas situações, até doados. “Havia a coletividade, mas sem articulação social. A maior parte das pessoas vinha pra cá com esse interesse em comum. Não socializavam quase. Assim surgiu uma sociedade com uma colonização bruta, sustentada apenas pelos mesmos objetivos econômicos”, afirma o pioneiro Ephraim Marques Machado.

Como havia povos das mais diferentes origens, por vários anos persistiu uma segregação entre os moradores. Muitos se relacionavam apenas com pessoas que vieram do mesmo estado, região ou país. “Em Paranavaí, naquele tempo, mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos. Sofri muito com isso”, lembra o pioneiro Sátiro Dias de Melo. O testemunho é endossado pelo pioneiro cearense João Mariano que viu muitos peões e colonos nordestinos serem escravizados por migrantes do Sul e Sudeste nos anos 1950 e 1960.

De acordo com Ephraim Machado, a heterogeneidade podia ser vista como um problema social, já que Paranavaí lembrava uma colônia dividida em pequenos povoados. “Os nortistas e os sulistas eram muito diferentes, então o distanciamento foi inevitável. Sem dúvida, algo que interferiu na evolução local. Paranavaí demorou para começar a se constituir como o que chamamos de sociedade nos moldes atuais”, avalia Machado.

População demorou para se articular socialmente (Foto: Toshikazu Takahashi)

População demorou para se articular socialmente (Foto: Toshikazu Takahashi)

A facilidade de acesso às terras fez Paranavaí receber muita gente diferente, não apenas migrantes que sonhavam com um pedaço de terra para construir uma moradia, plantar e assegurar o futuro da família. Aventureiros e oportunistas das mais diversas regiões do Brasil, até mesmo assassinos e ladrões, vinham para a região, crentes de que encontrariam um lugar isolado e de muitas riquezas. “O governo até fretava aviões para abandonar criminosos nas matas virgens das imediações de Paranavaí. O objetivo era não ter despesas e responsabilidades com essa gente”, diz João Mariano.

Pelo país afora, a colônia era conhecida como um local administrado pelo poder público, com pouca interferência da iniciativa privada. “Muitos gostaram daqui por isso”, declara Mariano. Já cidades colonizadas por companhias não atraíam tanta gente assim. O custo de vida não era barato e o investimento era maior em função do planejamento minucioso. E claro, também tinha mais exigências e mais burocracia. Outro diferencial é que em áreas loteadas pelo poder público havia menor participação de autoridades e maior facilidade na realização de negociações escusas.

Intimidada pelo baixo custo dos lotes da antiga Fazenda Brasileira, a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), conhecida por vender imóveis por preços mais altos, criou uma situação desconfortável entre as décadas de 1940 e 1950. “A companhia chegou até Nova Esperança e ali parou. Eles queriam nos isolar. Não deixavam ninguém fazer nada em Paranavaí, inclusive convenciam quem queria investir aqui de que seria um mau negócio”, lamenta Mariano.

Nos tempos de colonização, Paranavaí foi palco de muitas brigas de corretores de imóveis. “Não esqueço que em 1950, antes de me casar, eu morava no Hotel Real, na antiga Rua Espírito Santo, e ali mesmo o Cangerana assassinou um sujeito por causa de comissão de terras”, relata Machado. Os pioneiros também se recordam do episódio em que um homem matou na Avenida Paraná, no prédio do antigo Banespa, três pessoas que o enganaram em uma negociação.

Ephraim Machado: "As pessoas partilhavam apenas os mesmos interesses econômicos" (Foto: Toshikazu Takahashi)

Ephraim Machado: “As pessoas partilhavam apenas os mesmos interesses econômicos” (Foto: Toshikazu Takahashi)

“Os maiores crimes dos tempos da colonização foram provocados por causa de comissão e não disputa de terras”, ressalta Ephraim Machado, embora admita que houve muitas situações em que o capitão Telmo Ribeiro, braço direito do ex-diretor da Penitenciária do Estado do Paraná, Achilles Pimpão, e amigo do interventor federal Manoel Ribas, teve de intervir em casos de grilagem de terras. Ribeiro foi proprietário de uma fazenda que se transformou no Jardim São Jorge.

No entanto, nada se sabe sobre as implicações legais das atuações de grileiros em Paranavaí, deixando subentendido que muita gente pode ter construído fortunas sem se submeter, em qualquer momento, aos rigores da lei. “Desconheço qualquer caso de alguém de Paranavaí que foi punido por causa disso. Ainda assim, sei que encrenca maior se deu na Gleba Sutucu, Areia Branca, dos Pismel e também na Gleba 23. Teve quem foi tirado da terra à força. Juridicamente, não tenho a mínima ideia de como tudo foi feito”, comenta Machado.

O fato de Paranavaí ser tão grande até o início dos anos 1950 facilitava a grilagem de terras. À época, a colônia tinha uma vasta área que ia até as fronteiras com os estados do Mato Grosso (área do atual Mato Grosso do Sul) e São Paulo. Quem iria fiscalizar tudo isso e com quais recursos, sendo que hoje, mesmo com tantos avanços, ainda existe grilagem no Brasil?”, questiona João Mariano.

Sátiro de Melo: "Mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos" (Foto: Toshikazu Takahashi)

Sátiro de Melo: “Mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos” (Foto: Toshikazu Takahashi)

Uma transformação social imposta pela pecuária

O pioneiro Ephraim Marques Machado explica que até os anos 1960 era comum um proprietário de terras contratar meeiros para se responsabilizarem pela produção agrícola. “O camarada ia até São Paulo e Minas e falava: ‘Olha, eu tenho 200 alqueires em Paranavaí e vou produzir 100 mil pés de café. Preciso de cinco famílias e dou a ‘meia’ para plantar. Então ele dividia tudo em partes iguais e cada um cuidava de um pedaço”, exemplifica. Com isso, o bom resultado financeiro foi garantido até o surgimento das geadas. A última que castigou a região foi a de 1975.

Nas décadas de 1960 e 1970, Machado viu centenas de meeiros de Paranavaí migrarem para as regiões de Toledo, Marechal Cândido Rondon, Umuarama e Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Outros se mudaram para o Norte. Muitas propriedades foram transformadas em pasto depois de 1964 e 1965, quando a colonização caiu bastante. “É aquela: ‘onde entra o boi sai o homem’. O café já não tinha mais tanto valor e o pasto acabou com o que sobrou”, pondera Ephraim. Quem partiu para novas frentes de trabalho trocou a lavoura de café por algodão, amendoim e arroz.

Fazendas que tinham 300 alqueires e garantiam o sustento de pelo menos 15 famílias passaram a ser ocupadas por apenas uma. Em outros casos, nem isso. “A migração modificou a sociedade local. A própria cultura da cidade passou por uma transformação”, enfatiza Ephraim Machado.  A partir da década de 1970, Paranavaí, que até então atraiu tanta mão de obra para as lavouras, chamou muita atenção de empreendedores e pecuaristas de outras cidades e estados. Eram pessoas de alto poder aquisitivo que aqui se fixaram para ocupar posição de grande status econômico e social.

Saiba Mais

Nos anos 1950, já viviam em Paranavaí, além de migrantes de todas as regiões do Brasil, portugueses, italianos, alemães, poloneses, russos, ucranianos, tchecos, iugoslavos, húngaros, espanhóis, neerlandeses, japoneses, franceses, suíços, sírios e libaneses, além de outros povos.

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