David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Suicídio’ tag

A morte e a ajuda de Chester Bennington

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Chester Bennington, encontrado morto hoje

Em muitos vídeos da banda Linkin Park no YouTube tem dezenas, talvez centenas ou milhares, de comentários de pessoas que sofriam ou sofrem de depressão e encontraram alento nas músicas do vocalista e compositor Chester Bennington, encontrado morto hoje, após cometer suicídio por enforcamento.

Inclusive pessoas que disseram ter desistido da ideia de cometer suicídio enquanto ouviam Linkin Park. Música é uma coisa extremamente poderosa. Há pessoas que confortam tanta gente em proporção inimaginável, o que não significa que sejam inatingíveis ou que não sejam frágeis.

Written by David Arioch

July 21st, 2017 at 2:09 am

Goethe seria “crucificado” no mundo de hoje

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Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (Arte: Reprodução)

No mundo de hoje, creio que Goethe seria “crucificado” por publicar um romance como “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Diriam, com mais paroxismo do que no século 18, que ele romantizou o suicídio às raias da apologia e, assim como no passado, também seria responsabilizado pela morte de jovens, principalmente – mas creio que numa proporção bem maior. Quem sabe, fosse até perseguido.

Na minha opinião, o que Goethe romantizou acima de tudo foi a impossibilidade do amor (tendo como referência inclusive uma experiência pessoal) e transformou isso em uma obra que penso que talvez até tenha salvado a sua vida, já que ele morreu na obra, mas sobreviveu fora dela. Goethe a escreveu em poucos dias – num prazo tão curto que deixa claro como o escritor estava imerso nesse universo romanesco e conflituoso.

Há autores que escrevem sobre o suicídio até mesmo como uma forma de manifestação da incomunicabilidade, tentativa de compreensão de algo que parece maior do que si mesmo, escapismo, libertação e redenção – mas não desejam cometê-lo. Pode parecer sombrio para muita gente, porém, isso também é uma forma de autoconhecimento. Tenho uma crônica em que falo sobre o suicídio, e eu não estava nem triste quando a escrevi.

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Written by David Arioch

April 16th, 2017 at 3:30 pm

O destino de Dora

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Um dia, não suportou a pressão e caiu desmaiada no piso gelado da sala de trabalho

Dora

Se recusando a receber qualquer tipo de visita há meses, Dora decidiu aliviar a própria dor cometendo suicídio com chumbinho (Arte: Leisa Collins)

Eu e Dora nos conhecemos no início de 2008, após o falecimento de seus pais em um acidente na BR-376. Ela tinha 23 anos e trabalhava em uma dessas centrais de teleatendimento há três anos. Após a tragédia, em vez de se preocuparem com a moça, todos os familiares se afastaram. Na mesma época, fui demitido de supetão do jornal porque a editoria em que eu trabalhava foi extinta logo após o editor se demitir.

Mas já fazia um bom tempo que eu e Dora nos encontrávamos para conversar, divagar e relatar planos. Inspirado na obra “Dublinenses”, de James Joyce, o meu era usar o dinheiro da demissão para viajar pela Irlanda. Para ser mais preciso, assistir shows da banda de post-rock God Is An Astronaut e anotar em um caderno tudo que eu via de interessante sobre o comportamento humano no Velho Mundo e sua relação com o tempo e o ambiente. Não queria trabalhar, somente vagar até o dinheiro acabar.

“Quero me distanciar para ter a chance de renascer. O ser humano precisa mudar de tempo em tempo senão pode enlouquecer ou se tornar algo até pior – um sujeito resignado”, comentei com Dora que sorriu enquanto batia levemente as pontas das unhas purpúreas sobre a mesa maciça e rústica do bar. Ela se calou por alguns instantes, observou o céu estrelado, apontou a imensa lua com uma de suas delicadas mãos, abaixou os olhos amendoados, os levantou novamente e disse: “Cara, eu tenho leucemia…”

Fiquei sem reação. E acho que nada que saísse de minha boca naquele momento a confortaria. Então simplesmente recobrei minha expressão serena, fixei meus olhos nos olhos dela e dei cinco toquinhos em sua mão esquerda que repousava sobre a mesa. Ela entendeu e sorriu, sem também dizer palavra. Percebi que Dora não queria conversar sobre a doença, somente compartilhar com alguém uma revelação que não teve coragem de contar a mais ninguém.

Mais tarde, a levei até sua casa e fui embora pensando em como sua situação era delicada. Eu que já tinha perdido meu pai para o câncer em 1997, nunca mais consegui encarar a doença como algo menos do que implacável. Ela usurpa do ser humano muito mais do que a própria vida – aniquila sua dignidade. É a reafirmação de nossas fraquezas, do fim, da efemeridade.

Nos encontramos por mais dois meses, até que um dia, conversando pelo celular, ela sugeriu que não nos víssemos mais. Acabei respeitando sua decisão, compreendendo a delicadeza da situação. Ela já não ligava mais a câmera durante as conversas na internet. Também ocultava a foto do perfil. A questionei uma vez sobre isso e me arrependi. Eu já não a via mais nem por acaso. Talvez ela tivesse tomado a decisão de sair de casa somente a trabalho.

Ainda assim, sei que teria me sentido o mais mesquinho dos homens se partisse para minha jornada errante joicyana. Desisti da viagem para a Irlanda e comecei a escrever sobre Dora. Ainda conversávamos com bastante frequência e pedi que me relatasse sua rotina. No trabalho, ela não contou a ninguém sobre o diagnóstico da doença e continuou vivendo como se não tivesse nenhum problema de saúde. Provavelmente eu era a única pessoa que sabia da leucemia. Olhar para mim talvez fosse o atestado da soma de suas fragilidades.

Nunca a questionei se ela se arrependeu de ter me contado sobre a doença, mas comecei a perceber que se sentia mais vulnerável diante de mim. No celular, sua voz doce se amofinava cada vez mais, combalida pela constante contradança de emoções. Às vezes, aflita e aturdida, me ligava de madrugada. Eu mal ouvia sua respiração ofegante e ela desligava arrependida. Sua sensibilidade se acentuava a cada dia – à flor da pele.

No trabalho, não havia trégua e ela não queria de jeito nenhum assumir publicamente a leucemia. Os clientes que ligavam para a central de atendimento se queixando dos serviços oferecidos, pouco se importavam com a vida ou o estado emocional de quem estava do outro lado da linha. “Você é retardada, minha filha? Sua jumenta! Quero o meu dinheiro de volta! Não vou pagar por um serviço que não usei!”, gritou um homem, afirmando que era juiz e prometeu fazer o possível para vê-la demitida, caso seu problema não fosse resolvido.

As ofensas diárias dos queixosos se intensificavam cada vez mais. Num período de três horas, Dora era agredida verbalmente por até 20 clientes. Insatisfeitos, descontavam na moça a cólera em decorrência de problemas pessoais, profissionais e falhas que estavam muito além de sua função. “Escute aqui, querida! Sou médica, está me ouvindo? Estudei muito pra chegar onde estou e não vai ser uma qualquerzinha do teleatendimento, um trabalhinho sujo desse, pra gente burra e desqualificada, que vai tirar vantagem de mim!”, esbravejou uma mulher que disse ser parente de um deputado.

Um dia, Dora não suportou a pressão e caiu desmaiada no piso gelado da sala de trabalho. Estava pálida, com os lábios arroxeados e suava frio. Tirou a tarde de folga e foi para casa. Entrou no quarto, sentou na cama e observou o próprio reflexo no espelho oblongo. Não conseguia sentir-se bonita como antes e começou a chorar, assistindo as lágrimas percorrendo as covinhas transformadas em fendas após a perda acentuada de peso. Lá se foram dez quilos, seus cabelos perdiam volume rapidamente, e quase ninguém sabia o que estava acontecendo com Dora – embora corressem boatos, muito maldosos.

“Ela era tão linda! Que corpo que ela tinha, hein? Lembra das covinhas? Um charme! Será que sofre de anorexia nervosa? Um desperdício! Não tem mais coxas, bunda…nada!”, comentou seu chefe com um colega de trabalho, sem notar a presença de Dora que ouviu tudo quando estava indo ao banheiro. Sentada sobre o vaso, Dora levou as mãos ao rosto. Se esforçou para chorar, só que não restavam lágrimas. Estava esgotada e sentia-se constantemente desidratada, mesmo se empenhando em beber bastante água.

Inclinou o corpo para frente e pediu, com voz diminuta e vacilante, que Deus a levasse o mais rápido possível se o seu destino fosse a morte. Para ela, nada superava a dor causada pela ignorância e insensibilidade humana. Sair de casa se tornou um exercício tortuoso de enfrentamento das piores adversidades.

Até mesmo na rua, desconhecidos a olhavam como se não estivessem diante de um ser humano, mas sim de algo diferente, inominado. “Mãe, por que aquela moça é tão magra?”, perguntou uma garotinha de dez anos. “Sei lá, filha! Pela cara dela, deve tá com Aids”, respondeu a mulher instantaneamente, crente de que a distância era o suficiente para impedir que ela ouvisse a resposta.

Dora pediu demissão do trabalho como operadora de teleatendimento antes de começar o tratamento de quimioterapia. Se fechou dentro de casa, sobrevivendo de economias e se comunicando com o mundo e as pessoas somente através da internet e do celular. Também abandonou o tratamento. Não saía mais nem para ir ao mercado.

Não conseguia distinguir dia e noite, principalmente quando passava muitas horas deitada na cama, dormindo ou olhando para o teto branco que ganhava formas incertas de acordo com o sentimento predominante. “Não vou mentir, Dora. A verdade é que você tem de seis meses a um ano de vida”, revelou o médico oncologista com subitânea naturalidade.

Se recusando a receber qualquer tipo de visita há meses, Dora decidiu aliviar a própria dor cometendo suicídio com chumbinho. Comprou o produto pela internet para não precisar sair de casa. Pagou frete por sedex e aguardou a chegada. Ouviu alguém batendo palmas, abriu a porta e pela primeira vez em mais de 50 dias sentiu o sol tocando seu rosto níveo. Era morno e lhe afagava as finas maçãs. O céu estava tão claro que ela observou com atenção uma revoada ruidosa e amorável de bem-te-vis.

Caminhou até o portão, pegou o pacote da mão do carteiro e antes de entrar em casa observou um cãozinho preto e silencioso, com poucos dias de vida e o umbiguinho pardo virado para cima. Foi abandonado ao lado do vaso bege de íris, o preferido de sua mãe. Dora se surpreendeu com a resistência do espécime que crescia vistoso e fúlgido apesar do abandono.

Assim que abriu o pacote, quebrou o lacre do chumbinho e foi até a cozinha buscar um copo de água, o telefone tocou. “É a senhora Dora? É aqui do laboratório. Estamos ligando para avisar que precisamos que venha aqui com urgência. Descobrimos erros graves nos seus exames. A senhora nunca teve leucemia, apenas anemia.”

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Written by David Arioch

January 31st, 2016 at 4:39 pm

O homem que não conseguia se matar

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Joseph Aigner, o homem que não conseguia se matar (Arte: Reprodução)

Aigner era um pintor de retratos muito conhecido na Áustria do século 19 (Imagem: Reprodução)

Joseph Aigner era um pintor de retratos muito conhecido na Áustria do século 19. Realmente infeliz, tentou suicídio várias vezes. Sua primeira tentativa foi por enforcamento aos 18 anos. Naquele dia, ele foi interrompido por um misterioso monge capuchinho.

Aos 22, novamente estava se preparando para se enforcar quando o monge intercedeu outra vez. Oito anos mais tarde, o pintor recebeu a notícia de que seria condenado à forca por causa de suas atividades políticas. Então o capuchinho reapareceu e impediu a execução.

Com 68 anos, Aigner finalmente conseguiu se matar com um tiro de pistola. Curiosamente, o seu funeral foi conduzido pelo mesmo monge de quem jamais soube o nome.

Fonte: Ripley’s Giant Book of Believe It or Not

Written by David Arioch

January 10th, 2016 at 11:24 am

O amor e a romã

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Jamais entendi como o amor, tão colorido simbolicamente, poderia ter compleição tão funesta

Eu nos tempos de amizade com Seu Onofre (Foto: Arquivo Familiar)

Eu nos tempos de amizade com Seu Onofre (Foto: Arquivo Familiar)

Ao longo da vida, sempre ouvi alguém dizendo que o amor, confundido com paixão, é arrebatador, como se feito de fagulhas de insipiência. Quando chega até você o cega e o torna avesso ao juízo e à razão das coisas serenas. O consome de forma inesperada, deixando os lábios ressequidos como chão tracejado pela estiagem severa. Quantas histórias conheci de suicídio por amor; pessoas saltando de prédios, lançando carros contra árvores, se enforcando, consumindo estricnina e atirando contra a própria cabeça. Jamais entendi como o amor, tão colorido simbolicamente, poderia ter compleição tão funesta.

O amor não deve ser como o luto, um manifesto de pesar. Nem merece ser relacionado à morte se abarca na sua essência os destemores da luz. O coração que ama em abnegação só obscurece quando deixa de bater, este sim fato irremediável do nosso epílogo. Mas enquanto vive é corado e robusto como uma manga colhida em março. Está além do bem e do mal. O amor é belo na literalidade, na pureza de sua semântica. Nem por isso unilateral ou menos distorcido e depreciado por imperícia, fabulações e desconstruções de sentido.

Não que não haja dor no amor, afinal ela é inerente à vida e nos envia iterados sinais de que o sofrimento também dignifica a existência; ensina que somos pechosos, frágeis e efêmeros como todos os seres que habitam a Terra. Porém, um sentimento torna-se nocivo somente se assim o permitirmos. Pelo menos é o que me mostra a vida desde que comecei a reconhecer o seu enredamento e profundidade.

Com não mais que sete anos, eu morava com meus pais e irmão em uma velha casa na Rua Pernambuco. À época, uma parte da população de Paranavaí ainda tinha o costume de realizar velórios na sala da própria residência. Um dia, do outro lado da rua, a pouco mais de 50 metros de casa, caminhando e passando os dedos da mão direita pelo muro pintado com cal, parei em frente a um portão onde vi e ouvi pessoas num choro tacanho, conversando e coçando os olhos.

Estavam ao redor de um caixão preto tão lustroso que parecia um sapato desmesurado recém-engraxado. A sala era pequena e as pessoas, dependendo da estatura, quase roçavam o umbigo e o peito na cabeça da falecida para chegarem ao banheiro. Por causa da distância, eu não conseguia ver seu rosto coberto por um tecido níveo que mais lembrava um véu de noiva. Sabia que era mulher porque ouvi alguém dizer que a finada era a Dona Estela. “Ué, tão enterrando ela com pano de festa?”, me perguntei num rompante de espontaneidade e singeleza.

Na manhã seguinte, quando saí pra comprar pão, encontrei Seu Onofre, marido de Dona Estela, caminhando a passos lentos, rindo sozinho, e sem apontar os olhos para nada que o cercava nas imediações de uma padaria na Avenida Distrito Federal. Parecia num transe solene e talvez disparatado na concepção de alguns. Me aproximei, o cumprimentei, e num ato tipicamente irrefletido de criança, questionei: “Seu Onofre, por que o senhor tá rindo se sua mulher morreu ontem?”

Então ele continuou em silêncio por três ou quatro segundos enquanto me observava e ajeitava o penúltimo botão superior de uma camisa florida, dessas que os aposentados usam quando saem de férias para um paraíso tropical. Sua tez e seus olhos reluziam tanto que eu podia ver o meu pequeno reflexo distorcido nas suas pupilas amendoadas e aveludadas.

“Olhe, David, você ainda é muito criança, não sei se vai entender, mas vou lhe revelar um segredo. Não me sinto feliz, só que me comprometi em reencontrar um novo sentido na minha vida. Antes de Estela falecer, ela sabia o quanto eu era dependente dela. Ela foi minha primeira e única companheira por mais de 40 anos, desde a adolescência. Então sabe o que ela fez quando ficou doente e lhe contaram que não viveria por muito tempo? Não se lamentou. Tirou um caderninho de dentro do criado-mudo, pegou uma caneta e planejou minha vida, meu dia a dia pelos próximos cinco anos. Ela sempre soube que sou relaxado. Disse que era pra eu seguir direitinho, assim não me sentiria perdido. Se antes eu conseguisse recomeçar uma nova vida, eu poderia abandonar o caderninho. Senão, bastaria reiniciar as tarefas. O primeiro dia é hoje. Dê uma olhada!”

Peguei o caderninho com as duas mãos e lá estavam as primeira sugestões. “Querido Onofre, meu grande amor, se levante amanhã, tome um bom banho, vista a camisa florida que está no primeiro cabide, a bermuda bege da segunda gaveta e as sandálias castanhas que estão na primeira fileira da sapateira. Vá até a padaria caminhando vagarosamente e sorria. Lembre-se da primeira vez que nos vimos, de quando nos casamos, de quando Laurinha nasceu. Não deixe de sorrir, mesmo que as pessoas o julguem. Ignore toda a negatividade. Mais cedo ou mais tarde esse exercício há de contagiar o seu coração, transformando a dor em uma nova forma de amor.”

Devolvi o caderninho e caminhamos até a padaria. Lá, me pagou um doce e uma sodinha. Preservou o sorriso a maior parte do tempo, inclusive quando me relatou as dificuldades que passaram nos anos 1950 em Paranavaí. “Nossa casinha era praticamente um ranchinho. A gente não tinha geladeira, então só podia comprar alimento que não estragasse rápido. Éramos jovens, muito jovens, só que felizes num lugarzinho no meio do mato”, disse, já com os olhos marejados.

Na volta, notei que durante o trajeto Seu Onofre acariciava com esmero a aliança na mão esquerda. Havia um silêncio morno e abafado como o de um escafandro que se misturava aos sons de motos, carros e caminhões atravessando a Avenida Distrito Federal. De repente, a rescendência desconfortável daquela fugaz amostra de poluição foi ofuscada pela olência uniforme e sutil de um buquê de lírio azul transportado a pé por uma jovem funcionária de uma floricultura. “Era a preferida da Estela. Ela chamava de Xodó Azul”, comentou Seu Onofre num riso lacônico.

Em frente ao portão de sua casa nos despedimos. Quando eu estava me afastando, gritou meu nome e pediu que eu o aguardasse. Logo voltou trazendo nas mãos de palmas rosadas uma porção de romãs colhidas no quintal. “Que nunca falte amor na sua casa, assim como nunca faltou na minha”, falou com um lhano sorriso. Continuei visitando Seu Onofre até 1993, quando morávamos no Jardim Progresso. Com o tempo, minha rotina mudou e a dele também, até que perdemos contato.

Um dia, em 2002, recebi uma carta assinada pela sua filha Laurinha que vivia em Curitiba há mais de 15 anos. Achei até que a correspondência foi enviada por engano, pois já não me recordava dela. Quando abri o envelope, encontrei sementes de romã, trazidas da Palestina, e uma pequena carta. “Meu querido e bom amigo David, o que morre hoje, renasce amanhã, desde que o coração assim o aceite. Saiba que nem mesmo o Mar Morto conseguiu ofuscar o perfume das romãs que irradiavam até Jericó”, escreveu Seu Onofre.

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Um ataque suicida por um lugar no paraíso

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Crianças e adolescentes respondem por 80% dos ataques terroristas no Afeganistão

Ataque a santuário em Cabul matou nove familiares de Tarana Akbari (Foto: Reprodução)

Ataque a santuário em Cabul matou nove familiares de Tarana Akbari (Foto: Reprodução)

No início de 2013, o jornalista canadense Shane Smith, um dos fundadores da companhia de mídia Vice, esteve no Afeganistão para produzir o documentário “The Killer Kids of the Taliban”, lançado em abril do mesmo ano. Na ocasião, teve a oportunidade de entrevistar muitas crianças e adolescentes convocados pelo Taliban para participarem de ataques suicidas. São jovens que só não morreram porque a Polícia Secreta Afegã conseguiu impedir que as bombas fossem acionadas.

Ainda hoje muita gente se pergunta por que o maior movimento fundamentalista islâmico do Afeganistão usa crianças em seus ataques terroristas. A reposta é simples. Os mais jovens passam pelos postos de segurança com facilidade e podem circular por qualquer lugar sem serem notados. O porta-voz do Diretório Nacional de Segurança (DNS) da Polícia Secreta Afegã, Lutfullah Mashall, disse a Smith que desde a invasão dos Estados Unidos o país registra todos os anos mais de cem ataques suicidas. Do total, pelo menos 80% são cometidos por crianças e adolescentes. “Eles são os preferidos do Taliban porque muitos são pobres, analfabetos e não conhecem de verdade o Alcorão”, revelou.

“The Killer Kids of the Taliban” é um documentário sobre a realidade dos jovens terroristas afegãos (Fotos: Reprodução)

“The Killer Kids of the Taliban” é um documentário sobre a realidade dos jovens terroristas afegãos (Fotos: Reprodução)

De acordo com Mashall, um talib, estudante do livro sagrado, é capaz de lutar e morrer pelo que acredita, mas jamais usaria um colete-bomba. “The Killer Kids of the Taliban” mostra que as crianças não têm real conhecimento das consequências de seus atos. “O imã Marouf [uma autoridade religiosa] nos disse para ir até a província de Logar e cometer suicídio. Ele falou: ‘Coloque as bombas em seu corpo e aperte o botão. Eles morrerão e você continuará vivo’”, relatou um garoto não identificado.

Entre os convocados pelo Taliban, há muitos jovens que não sabem que os coletes são explosivos. Alguns pensam que estão apenas transportando documentos. Em 2013, para se ter uma ideia da gravidade da situação, uma criança de seis anos conduziu um ataque suicida na Província de Paktika, a 244 quilômetros de Cabul. Com base nesses exemplos, o jornalista da Vice deixa claro que o poder de persuasão, mesmo baseado em mentiras, é a principal ferramenta do Taliban na hora de recrutar crianças e adolescentes.

O discurso de que é preciso ficar em frente a um hotel até a hora certa se repetiu muitas vezes. Normalmente, as bombas são acionadas por controle remoto quando chega algum comboio estadunidense, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou Força Internacional de Assistência para Segurança (Fias). Um garoto afegão preso na sede do DNS, chamado Kanjar, recebeu treinamento quando estudava no Paquistão. Os próprios professores o ensinaram a cometer suicídio, afirmando que assim ele iria para o paraíso.

“Não tivemos tempo de ler o Alcorão o suficiente para entendê-lo. Só nos disseram que o suicídio era permitido e deveríamos nos preparar para o paraíso. Quando coloquei o colete, me perguntei por que eu iria explodir a mim mesmo?”, contou Kanjar que em um grande momento de tensão só pensou na possibilidade de ficar em pedaços. Depois de preso, o jovem percebeu que o suicídio não poderia lhe proporcionar nada de bom. Além disso, a prática é condenada pelo Alcorão. Embora esteja arrependido, Kanjar continua preso, acusado de crime hediondo.

Abdul, outro adolescente entrevistado por Shane Smith, justificou que quis colaborar com o Taliban porque soube que há muitos infiéis rasgando o Alcorão e o jogando na latrina. “Fiquei nervoso ao saber que o nome do profeta é profanado”, comentou. Abdul, que nunca leu o Alcorão, também recebeu treinamento para usar um colete-bomba, crente de que assim ganharia um lugar no paraíso. Na turma do adolescente havia centenas de garotos se preparando para cometer ataques suicidas.

Em 2013, pouco antes da chegada da equipe da Vice a Cabul, um santuário foi alvo de um ataque terrorista que matou 58 pessoas. Entre as vítimas estavam nove familiares de Tarana Akbari, uma garotinha que sobreviveu, mas ficou marcada por estilhaços da bomba. Naquele dia, o fotógrafo afegão Massoud Hossaini tinha ido ao local para registrar a procissão do flagelo com correntes. “Foi quando tudo aconteceu. Vi muitas pessoas correndo da fumaça e, de repente, ela desapareceu. Me vi cercado por cadáveres de crianças, mulheres, homens jovens e idosos”, explicou ao canadense. Hossaini testemunhou o momento em que Tarana começou a chorar e gritar.

Caída ao chão, a mãe de Tarana pediu ao fotógrafo para ajudá-la a pegar o seu filho, uma criança pequena. Um homem que estava mais próximo recolheu o menino do chão e viu que havia muito sangue saindo da cabeça. “Aí ele me disse: ‘Esse menino já foi’. O pôs no chão e simplesmente foi embora”, destacou Hossaini. Tarana enfatizou que os corpos caíram como se fossem ovelhas. No ataque terrorista, além do irmão, a jovem perdeu tias e primos.

“Todas as mulheres estavam lá, assim como muitas crianças. Era um santuário. Não havia um lugar melhor para eles atacarem, como um gabinete do governo? Eles atingiram só pessoas inocentes e indefesas!”, desabafou o pai de Tarana. Outro familiar questionou por que a Al-Qaeda está matando tanta gente no Afeganistão se isso vai contra tudo o que está no Alcorão. “Será que nunca leram o livro sagrado? Se tivessem lido, saberiam que não é permitido matar!”, disparou.

Mesmo com o intenso trabalho do Diretório Nacional de Segurança, que tenta evitar que jovens se tornem terroristas, a prática ainda é frequente e reincidente. Após o lançamento do documentário “The Killer Kids of the Taliban”, Shane Smith foi informado que dois garotos perdoados por serem jovens demais foram coagidos mais uma vez e flagrados se preparando para novos ataques.

Com um calmo tom de voz, um dos homens mais importantes do Taliban, Syed Mohammad Akbar Agha, um ex-jihadista e mujahidin que lutou contra os russos e comandou muitas tropas, deixou claro a Smith que enquanto os EUA estiverem no Afeganistão os ataques vão se intensificar cada vez mais. “Tudo vai Continuar. Não tenha dúvida”, garantiu. Quando o jornalista da Vice o interpelou sobre os ataques suicidas, defendendo que são condenáveis pelo Alcorão, Akbar Agha sorriu e respondeu apenas que o Taliban tem grandes muftis, estudiosos islâmicos, que reconhecem a legitimidade da prática.

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The Bang Bang Club, barbárie na África do Sul pós-Apartheid

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Livro e filme contam as experiências de quatro jovens em meio ao caos da Guerra Civil Africana

Filme se passa na África do Sul de 1990 a 1994 (Foto: Reprodução)

O filme The Bang Bang Club, do canadense Steven Silver e lançado em 2010, conta a trajetória de quatro jovens caucasianos: Greg Marinovich, João Silva, Ken Oosterbroek e Kevin Carter, fotógrafos criados nos bairros de classe média de Joanesburgo, na África do Sul, que trabalhavam para o jornal The Star. Entre os anos de 1990 e 1994, registraram muitos momentos profundos e simbólicos da guerra civil que custou a vida de milhares de membros do Congresso Nacional Africano (CNA), de Nelson Mandela, e do grupo separatista de origem zulu Inkatha, formado por moradores da área rural. A história se desenrola em paralelo a um dos momentos mais importantes da política sul-africana, quando um referendo nacional estabelece o fim do Apartheid e oferece a toda a população a oportunidade de votar.

Em 2004, li o livro The Bang Bang Club que desperta questionamentos e reflexões existenciais sobre a banalização da vida, crueldade e barbárie com as quais o ser humano é capaz de conviver como se fosse algo tão natural quanto tomar um copo d’água. O filme homônimo também é pesado, agressivo e carregado de uma carga psicológica tão extenuante que reflete a própria condição da realidade sul-africana da época, transmitida com esmero estético por uma direção de fotografia que privilegia a perspectiva panorâmica dos fotógrafos em ação. A obra levanta questões que até hoje são discutidas em todo o mundo, quando se trata de fotografia de guerra ou testemunhal.

O verdadeiro Clube do Bangue Bangue (Foto: Reprodução)

Até que ponto um fotógrafo deve ou não interferir no cenário? Tanto no livro quanto no filme, Kevin Carter, um dos vencedores do Prêmio Pulitzer, um dos mais importantes do jornalismo mundial, é questionado muitas vezes. Perguntam-lhe por que não salvou a garotinha que estava sendo espreitada por um abutre na área rural do Sudão. Carter não sabia o que dizer, ficava confuso, e tantos questionamentos o afetaram de tal maneira que em 1994 cometeu suicídio dentro do próprio carro. Inalou através de uma mangueira a fumaça que saía do escapamento, chegando ao interior de automóvel com os vidros fechados. O homem que teve sua foto estampada na capa do New York Times morreu pobre e endividado.

Imagem que garantiu a Kevin Carter o Prêmio Pulitzer

Já Ken Oosterbroek foi morto a tiros pelo próprio exército sul-africano durante um conflito armado em que a turma do Clube do Bangue Bangue saiu para registrar uma incursão. Marinovich foi alvejado no mesmo episódio, mas sobreviveu. Greg também ganhou o Prêmio Pulitzer pela autoria de uma foto em que um suposto Inkatha é espancado, depois o banham em álcool e ateiam fogo com um palito de fósforo.

Enquanto o homem corre desesperadamente em chamas, e com o sol ao fundo, tornando a cena mais vívida, um membro do CNA vai até ele e desfere-lhe um golpe de facão. Greg Marinovich registrou o momento preciso, como diria o mestre Henri Cartier-Bresson. Porém, antes disso, o fotógrafo interpelou um dos agressores: “Como você sabe que ele é um Inkatha?” O homem respondeu: “Não sabemos, mas aqui fica uma lição aos outros.” Tal frase é mais que uma simbologia do caos vivido na África do Sul até 1994. Era mais importante surpreender o inimigo mostrando-lhe do que era capaz, mesmo que isso custasse a vida de um não-membro.

Foto premiada de Greg Marinovich

O filme é bom e fiel ao livro, mas a profundidade do original impresso é ainda mais reflexiva. Alguns momentos não foram para as telas, até porque a riqueza de detalhes de João Silva e Greg Marinovich demandaria uma série, não apenas um filme. Uma prática muito comum citada no livro é o necklace que não aparece na adaptação para cinema. O agressor selecionava a vitima, colocava em seu pescoço um pneu com as bordas embebidas em álcool e ateava fogo. Ainda me recordo também que a guerra entre os Inkatha e a CNA custou a vida até mesmo de bebês, mortos de forma extremamente violenta.

Em suma, fica claro que os maiores “vitoriosos” da guerra civil sul-africana foram os africâneres, principalmente os bôeres, que colocaram os nativos africanos para matarem uns aos outros, o que era bem quisto pelos segregacionistas, racistas brancos e dominantes que sempre representaram a minoria continental. The Bang Bang Club  e War Photographer – que conta com exímio realismo a história de um dos maiores fotógrafos de guerra do mundo, James Nachtwey (que inclusive tem uma curta participação no livro e no filme The Bang Bang Club), são duas recomendações para quem gosta do tema fotografia de guerra.

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