David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Sete pãezinhos e um fujão

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Peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade (Foto: Reprodução)

Na padaria do mercado, peço sete pães e aguardo a atendente selecioná-los na sua rotineira cordialidade. De repente, escuto um som fofo e morredouro na sua sutilidade – do tipo “ploft” suave. O pãozinho agoniza no chão. Gerado há pouco tempo, já não tem mais razão de ser, caído sem chance de se restabelecer. Posso ver nos olhos da atendente que ela discorda. Me observa de soslaio, esperando apenas uma distração e, quem sabe, numa plena desatenção, uma oportunidade de enfiar no saco o “pãozinho sujo”, privado da própria vocação.

Não tiro os olhos dela. Ela reage virando as costas para mim, e manipula o saco de pão com uma astúcia que parece sem fim. Não desiste! E meus olhos continuam mirando-a. Escuta meus passos. Sei disso porque vejo suas orelhas vibrando e seus olhos titubeando. Estamos mais próximos do que antes. E minha sombra desarmoniza suas intenções. Ela disfarça por mais um ou outro segundo, sorri em minha direção, e encosta o pãozinho na parte externa do saco marrom.

Há um ou dois minutos, ele era igual aos outros. Ninguém pode negar, mas foi maculado, e aos seus irmãos já não pode se juntar. Que assim seja feita a justiça do alimento! Juro que por um segundo vi um traço que parecia um sorriso. Um pão sorrindo? Impossível! Ou não? A moça da padaria me entrega o saco de pão quente. Ruborizada, me dá um último sorriso, sem velar o ar de derrota.

Quando abro o saco, e, descuidado, inalo a fumaça que me esbraseia o salão, vejo sete irmãozinhos parifomes repousando. Do outro lado, o pãozinho fujão se esconde de baixo de um segundo balcão, e desaparece em um buraco do tamanho de minha mão.

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Written by David Arioch

April 9th, 2017 at 12:49 am

Um corpo que padece

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Parei de andar tem alguns meses, logo que meu corpo assumiu o controle da minha vida

(Arte: Mindcage, de Rodrigo Aviles)

“Continuo sem me mover e só consigo pensar na última vez em que fiquei em pé” (Arte: Mindcage, de Rodrigo Aviles)

Acordei um dia e percebi que meu corpo já não era meu. Tentei me movimentar na cama e não adiantou. Eu pertencia a ele, mas ele não me pertencia. Então continuei deitado observando o teto em meio à escuridão plangente. Havia traços disformes e oscilantes. Não! Mais do que isso! Uma imundície densa e clara que me lembrou aquelas medonhas bactérias que vi nas aulas de biologia na adolescência.

Eu nunca tinha reparado como o forro podia ser tão sujo. Acho que concentra a medula da nossa podridão. Ou será que era minha imaginação? Talvez eu fosse a própria bactéria, agraciada com uma visão panorâmica de mim mesmo. Vai saber! A verdade é que minha respiração continuava fétida e ruidosa. Como era horrível! Meu nariz simulava um aterro sanitário, espalhando chorume a cada expirada. E o que escorria dele eu nem sentia ou via. Afinal, desse espetáculo repulsivo que usava meu corpo como palco, fui relegado a mero espectador.

Como me esforcei para silenciar minha mente. Claro que não consegui! Fechei os olhos por alguns minutos e a temperatura do ambiente caiu para cinco ou seis graus Celsius. Tremi mais de ódio do que de frio. Eu estava coberto com um edredom branco, velho e encardido, com algumas manchas amareladas – rodelas de mijo que o maldito do gato do vizinho deixou de presente quando invadiu meu guarda-roupas. Que lazarento!

Tudo bem! Logo esqueci do bichano e quis me levantar para dar uma lição na mãe natureza. Como eu queria arrastá-la pelos cabelos. Quem sabe a cada chumaço arrancado ela subisse um grau de temperatura. Com 15 chumaços, eu a deixaria parcialmente careca e teria 20 ou 21 graus. E que vitória! Ainda poderia usar aqueles cabelos para fazer um espanador ou uma pequena cortina para um teatrinho de bonecos.

Rinite, bronquite e sinusite, sinusite, bronquite e rinite, difícil descobrir quem queria me ferrar mais. Bah! Quero enganar a quem? Fumei mesmo! E fumei muito! Chegando a quatro maços por dia! Eu era uma chaminé mais eficaz do que qualquer Maria Fumaça já vista. Sou o maior colecionador de doenças pulmonares que este mundo desconhece. Eu deveria estar no Guinness Book! Segurando o meu maior troféu, o único pulmão que me restou, tão preto que parece sobejo de carvão pós-churrasco.

E daí? Meus dentes eram tão louros, e meu hálito tão fedegoso que eu poderia fazer cosplay do Beetlejuice. Eu adorava jogar fumaça na cara dos outros, principalmente de quem desprezava fumantes. Eu chegava pertinho, como quem não queria nada, concentrava bem a fumaça e a soltava bem na hora que alguém abria a boca para falar alguma coisa. Daí era só falsear expressão de constrangimento – um par de olhos arregalados, uma respirada profunda e uma inclinada de cabeça, pedir desculpas e me afastar. Me diverti muito quando não existia ambiente para não fumantes. Ah! Deixa pra lá…Não quero mais falar disso!

Olhe! Nunca tinha reparado como o forro ganha desenhos tracejados na madrugada. São como lombrigas abjetas que dominam os bastidores da casa. Acho que também sou uma porque já não sinto mais minhas vértebras. Me resumo a uma matéria modorrenta e estiolada. Quem sabe tudo que vejo e desprezo seja em alguma proporção uma representação de mim mesmo.

Fiquei imaginando quantos bichos tétricos e horrendos não habitam este lugar noite após noite. Aposto que se eu derrubasse tudo encontraria centenas de animais sem nome, jamais catalogados. Seres que só existem por poucas horas da madrugada, quando confundimos realidade, sonho e pesadelo. Pode ser que se alimentem de esperanças, devaneios e reflexões prolongadas.

Certo! Continuo sem me mover e só consigo pensar na última vez em que fiquei em pé. Me parecia tão irrelevante, inútil. “Cuidado com a coluna, postura ereta, um passo após o outro”, quanta tolice! Eu só queria sentar e deitar, deitar e sentar. Talvez eu tivesse nascido para ser um tatu-bola. Só que rolar também exige tanto esforço que sinto calafrios só de imaginar. E a pressão abdominal na hora de girar? Triste e dolorosa! Ser uma lesma é igualmente desprezível porque sou impaciente e quero tudo na hora. Bom, não me sinto representado por nenhum animal, racional ou não.

Como gosto de comida! Me alimentei tão mal a minha vida toda e isso me proporcionava o mais insólito dos prazeres. Onde havia alguém se alimentando corretamente, eu me aproximava e sentava ao lado. Queria que a pessoa ficasse incomodada com a minha presença. Eu era um despertador de reações sorumbáticas. Eu queria chocá-la, vê-la siderada pelos meus maus hábitos.

“Isto! Este sou eu! E sou contra tudo aquilo em que você acredita. Estou aqui como a prova cabal de que o mundo não pertence a vocês. A ditadura da saúde não vai prevalecer. Ainda somos maioria e não seremos derrotados. Eu não permitirei! Nunca! Nunca! Veja! Olhe o tamanho dele, quanta gordura! Pedi que a atendente colocasse mais 200 gramas de bacon e 200 gramas de queijo cheddar. Quanto mais industrializado, melhor! Exigi o triplo de gordura trans! Observe! Observe o óleo escorrendo pelas rebarbas do meu lanche. Tem tanto óleo que poderemos fritar batata dentro da minha boca depois que eu comê-lo. Você aceita?”, sugeri, exibindo meus dentes saburrentos e caramelizados pelos churros que comi antes como aperitivo. Chocada, a moça ao meu lado na praça de alimentação se levantou e foi embora sem dizer palavra.

Atividades físicas? Eu as desprezei desde o primeiro dia que as vi! Em qualquer lugar por onde eu passasse, se alguém me convidasse para me exercitar, eu não pensava duas vezes antes de mandar às favas. Que desaforo! Para os diabos com essa baboseira! Viverei e morrerei como quiser! Para que ficar em pé, caminhar ou correr? Odeio tudo isso com todas as minhas forças! Não acredito nem mesmo que fomos feitos para andar! De quem foi essa ideia? Tomara que o morfético tenha morrido brutalmente!

Pensando em bípedes e quadrúpedes, como eu adorava carne! Comia mais de 15 quilos por semana, até que contraí aterosclerose. Beleza! O que está feito está feito. Só que não há como negar que foi uma das melhores fases da minha vida. Quando eu andava pelo centro da cidade, as pessoas achavam que estavam próximas de um açougue ou matadouro. Não! Não havia nada do tipo por perto. Era a fragrância natural exalada pelo meu corpo. “Que cheiro de carne crua, de onde vem isso?”, “Nossa! Que fedor de vaca morta!”, “Acho que tem um açougue novo por perto”, ouvia copiosamente.

As bebedeiras constantes também marcaram a minha vida. Claro! Eu dizia que era um socialzinho. Haha! Bobo de quem acreditasse. O que eu bebia três vezes por semana era o que muitos não consumiam em um mês. Eu precisava ser bom no que fazia. Por isso descobri um método eficaz para ampliar a minha tolerância ao álcool. Claro que não vou dizer qual é! Sim! Fui bem longe, tão longe que meu fígado não teve condições de me acompanhar. Hoje vivemos em lugares separados.

Agora me veio à mente as lembranças da minha transformação. Parei de andar tem alguns meses, logo que meu corpo assumiu o controle da minha vida. Se manifestava sobre onde queria ir e quando. Tão caprichoso, genioso! Caso não gostasse da ideia, ele travava como um brinquedo com pilha gasta. Será que é vingativo? Pois é! Como pode ser tão odioso? Na semana passada, permitiu pela última vez que eu movimentasse a perna direita e o braço esquerdo.

Continuo observando o forro, atento a duas lagartixas que se alimentam de um besouro. Apoiado sobre a janela aberta, o gato endiabrado do vizinho, com as orelhas mirando a lua cheia, lambe as próprias patas e as observa. Me recordo do Escaravelho do Diabo, tão valioso e tão inútil, assim como é a vida para tanta gente. Me sinto cansado, alheio ao meu corpo. Meus olhos se fecham e reconheço que não sou mais humano, somente presa de quem fui predador. “Que o teu corpo não seja a primeira cova do teu esqueleto”, escreveu Jean Giraudoux no livro Notes Et Maximes, Le Sport, de 1928.

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Um assalto no cemitério

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Quando me despedi, Noé veio atrás de mim, deu dois toques em meu ombro e fez um convite

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Eu estava no Cemitério Municipal de Alto Paraná conversando com um desconhecido chamado Noé (Foto: Reprodução)

Em um dia normal, ainda distante do Dia de Finados, eu estava no Cemitério Municipal de Alto Paraná conversando com um desconhecido chamado Noé. A curta distância da entrada, falávamos sobre vida e morte enquanto poucas pessoas entravam e saíam do lugar.

O clima seguia ameno e o sol não tinha despontado naquela manhã, me fazendo observar tudo à minha frente como se eu estivesse diante de uma pintura gótica, onde a pouca luminosidade enaltecia as sombras e evidenciava de maneira insólita túmulos, cruzes, pessoas e animais que compunham aquele cenário tipicamente cristão.

Por um momento, esfreguei meus olhos e percebi que o fato de tudo transparecer maior não era ilusão, mas sim uma manifestação temporária da natureza, capaz de apequenar ou engrandecer os seres humanos das mais diferentes formas, simplesmente manipulando o clima, o tempo e o senso espacial.

Notei que tinha chovido há alguns dias e as árvores que envolviam o cemitério exalavam olência de casca e raízes, numa perfumaria mesclada que confundiria até os melhores boticários. Uma delas, vez ou outra balouçava os galhos e gotejava sobre a minha cabeça, como se quisesse me alertar sobre algo.

Eu apenas esfregava as mãos sobre o cabelo pontualmente úmido e continuava a ouvir Noé relatando suas aventuras quando viajava a pé por estradas de terra, dormindo sobre túmulos de cemitérios abandonados. Uma vez, amanheceu com as falanges da mão de um cadáver apoiada em seu peito. Nunca soube como aqueles ossos foram parar sobre seu corpo.

Num instante de silêncio, ouvi o canto de um surucuá com peito cor de bronze. Sobre uma cruz altaneira, ele parecia ensimesmado, me observando enquanto o nevoeiro velava seus pés. “Já ouviu falar em pragueira verduga?”, perguntou Noé, desviando minha atenção do pássaro. Respondi que não e ele explicou que é um verme que corrói placas de bronze sempre que a umidade do ar está muito alta.

Quando me despedi e caminhei em direção ao estacionamento, onde não havia mais ninguém, Noé veio atrás de mim, deu dois toques em meu ombro e fez um convite: “Cara, bora entrar lá dentro pra catar umas placas de bronze. Deve ter algumas muito boas ainda. Vamo aí?” Espaventado, não acreditei no que ouvi. Ele insistiu na oferta e recusei prontamente.

Sua catadura mudou na hora. O semblante sereno e ponderado foi substituído por um olhar fulminante e um riso vil. Noé inclinou a cabeça em direção aos próprios pés e declarou com sorriso sardônico: “Tá certo! Mas tenho um presente pra você. Chamo de filosofia da pólvora. Ela queima instantaneamente, permitindo um novo tipo de compreensão da vida.”

Inerte, assisti Noé exibir um revólver de calibre 38 enrolado em um pedaço de flanela alaranjada dentro da mochila. Sem titubear, ordenou que eu entregasse os R$ 2 mil guardados dentro da minha carteira. “Não tenho esse dinheiro na carteira. De onde tirou essa ideia?”, perguntei. Ele disse que teve uma visão de que alguém com o meu perfil chegaria ao cemitério pela manhã carregando R$ 2 mil. Abri minha carteira e mostrei que eu tinha R$ 200.

Inclusive coloquei o dinheiro sobre uma mureta e lancei minha carteira a seus pés para que ele a checasse. Irritado, Noé mirou o revólver em minha direção. Não corri nem ameacei atacá-lo. Simplesmente mantive os olhos em sua direção enquanto minhas pernas pareciam se dissolver, querendo se entranhar no solo úmido e moscado. “Quem sabe eu me torne algo que brote da terra ou desapareça como num rastilho da própria pólvora que me invade”, pensei antes de me perder num vácuo onde existência e inexistência transpareciam igualmente insones.

Noé acionou o gatilho, mas não havia balas; nem ele sabia disso. Correu até a margem da estrada, entrou em um Santana Quantum preto, estilo carro de funerária, e desapareceu. Meus R$ 200 continuavam imóveis sobre a mureta onde a brisa movia tudo menos as notas. Peguei minha carteira, o dinheiro, fui até o aterro sanitário perto do cemitério e entreguei o dinheiro às crianças que procuravam algo aproveitável entre os detritos. Na mesma semana, li no jornal que Noé retornou ao Hospital Psiquiátrico Nosso Lar, de Loanda.

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A tempestade de fuligem

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Ela era artista e obra, uma autora travessa que aprendeu a se guiar pelo vento

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Escura e minúscula parecia livre para fazer o que quisesse no seu mundo corrente (Foto: Reprodução)

Foi num dia de clima ameno que cheguei em casa no final da tarde e encontrei a garagem e as roupas no varal cobertas de fuligem da queimada de cana-de-açúcar. A forma como se moviam pelo espaço me dava a impressão de que eu estava diante dos vestígios de uma tempestade caliginosa, flexuosa e suja.

A fuligem serpentava pelo ar de forma zombeteira. Quando eu tentava tocá-la, ela desviava com agilidade e se fixava em alguma coisa que ingênuo eu me esforçava para proteger. Havia sujeira por todos os lados. Sem constrição, a fuligem grafitava tudo que pelo caminho encontrava.

Ela era artista e obra, uma autora travessa que aprendeu a se guiar pelo vento. Podia ser tocada em sua minúcia, mas nunca possuída, porque depois que nascia a mais ninguém ela pertencia. Escura e minúscula parecia livre para fazer o que quisesse no seu mundo corrente.

Meu carro branco e asseado ficou encarvoado quando a conheceu. Sem condições de se mover, testemunhou o vento especioso transportando tanta fuligem que até o sol desapareceu atrás das sombras massificadas de imundície. O brilho da lataria sumiu, embaciado pela soberania malemolente da falsa plumbagina.

Esfreguei o dedo no capô e notei uma mixórdia de cinzas e grafite de baixa qualidade que se desvaneceu sob o meu indicador direito. Para minha surpresa ainda preservava o aroma de cana-de-açúcar crestada. Repousando no seco, ela se arrastava como alguém que engatinhava. E agarrada ao úmido ou molhado, a fuligem se dissolvia, criando desenhos nem sempre incompreensíveis ou vazios em sentido.

No centro de uma camiseta branca que brandia sobre o varal, vi o adunco formato de uma mão diminuta e estriada. Tinha até unhas carcomidas, e algumas eram mais encardidas que as outras. Cheguei a crer que a fuligem possuía sua própria memória, uma lembrança perene do momento em que se desprendeu da cana-de-açúcar para sumir na imensidão do céu e da aragem outonal.

Talvez fosse a mais depreciativa das Fênix, já que ela renascia das cinzas e quase como cinzas, sem o direito de transformar-se em algo belo, bom e frutuoso que as pessoas pudessem gostar de assistir ou aspirar. Rebento do palhiço de cana, nasceu feinha e sem motivação existencial.

Gestada no borralho, a fuligem percorria dezenas de quilômetros até chegar ao seu destino – residências da área urbana, inclusive de pessoas que nem sabiam que ela existia. Aquela era sua sina, a curta vida de quem despontou casmurrada pela queimada. Não a culpo pela indisciplina. Deve ser horrível acordar sentindo algo quente te obrigando a partir.

Mergulhei dentro da minha mente e assisti seu primeiro voo, tímido e lânguido. Soprada para longe, obedeceu sem questionar a ordem natural das coisas. Apesar de tudo, sentiu o frescor remanescente do verde que se extinguia a dezenas de metros de distância do solo. A fuligem se esforçou para chorar, vendo-se tão turva e uniforme quanto insignificante. Se contorceu no ar, mas de nada adiantou. Relegada a uma existência estéril, era mais seca que a mais contumaz das estiagens.

Encolerizada por não ter direito a nada, e ciente de que não duraria mais do que horas e, com muita sorte, alguns dias, se insurgiu contra o seu fado. Fez um acordo com o vento, prometendo reverenciá-lo como um deus se ele a ajudasse a ir o mais longe possível em sua zaragata. Ele concordou.

Depois de se transformar em tempestade, a aragem a arrastou. Com sua força nímia e sobranceira, condensou toda a fuligem do canavial, criando uma pequena e turva réplica da lua. Num percurso de dezenas de quilômetros, a esfera se desfez e seus fragmentos seguiram pelas mais diferentes direções – atravessando pastos, lavouras, vilas, distritos e cidades da região de Paranavaí.

Naquele dia, a fuligem invadiu a Rua John Kennedy, cruzou o céu da minha casa e deixou centenas de vestígios indesejáveis, acompanhados de um som cicioso que imitava o tinir dos facões. O aroma de cana-de-açúcar ainda persistia. E por um descuido, enquanto eu decidia o que fazer, a fuligem entrou no meu nariz e eu a inalei. Mais tarde senti uma queimação no peito. Tive a impressão de que algo insólito estava vivo dentro de mim e se movendo.

Fui ao médico no dia seguinte e na mesma semana fiz alguns exames. Ele me mostrou que havia uma mancha estranha que se distendia sobre um dos meus pulmões. Não nego que senti um misto de preocupação, raiva e tristeza. “Tenho quase certeza de que são vestígios de monóxido de nitrogênio, dióxido de nitrogênio, dióxido de carbono e amônia. Precisamos cuidar disso, porque senão rapidamente pode virar asma, câncer de pulmão ou até peniano”, alertou o pneumologista.

“Senti a morte despedaçar-se de encontro à minha cabeça, como se um bólide houvesse caído do espaço e fosse escolher justamente o meu crânio para campo de pouso”, escreveu Campos de Carvalho em “A Lua vem da Ásia”. Na segunda e na terceira bateria de exames, realizadas no mês seguinte, não havia mais nada em meus pulmões. Então me recordei que 15 dias antes um prolongado espirro me proporcionou uma ímpar sensação de alívio. E o que saiu do meu nariz não era claro como a água, mas turvo como o vácuo da inexistência.

Chegando em casa, deitei na cama e percebi através da janela que do outro lado repousava uma nova mancha de fuligem na parede – parecia uma sarça ardente. Caí no sono, pensando apenas em outra passagem de Campos de Carvalho. “À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.”

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Uma grata surpresa de domingo

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Um dos trabalhos da pintora francesa Corine Perier

Um dos trabalhos da pintora francesa Corine Perier

No dia 2 de abril publiquei no meu blog uma crônica surrealista intitulada “O Chamado dos Animais”. Ela é baseada em uma sequência de sonhos que tive numa mesma noite, a última vez em que consumi carne. Nessa crônica eu cito a pintora francesa Corine Perier, naturalmente porque o trabalho dela, também surrealista, me inspirou em vários aspectos. Então ontem pela manhã quando entrei no Facebook tive uma grande surpresa. A própria Corine Perier me adicionando e depois vindo conversar comigo. Tem hora que eu nem acredito como meu trabalho pode ir tão longe.

Um pequeno fragmento de “O Chamado dos Animais”

“A beleza da madrugada outonal que ofertava um aroma variegado de folhas e flores foi ofuscada pelo miasma trazido por uma vaquinha voadora com focinho de porco e pés de galinha. Apesar de tudo, era um animal lindo na sua singularidade desarmônica. Me recordei das pinturas de Corine Perier e Chris Buzelli. A diferença era que elas não tinham cheiro de morte.”

Leia a crônica na íntegra em //davidarioch.com/2016/04/02/o-chamado-dos-animais/

Acesse também http://www.corineperier.com/

Written by David Arioch

April 25th, 2016 at 5:50 pm

O chamado dos animais

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Se transformaram em uma porquinha eufórica que grunhia e girava em torno do próprio rabo

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Era um porquinho landrace que percorria meu rosto com a língua (Arte: Cari Humphry)

Ainda tenho fresca na minha memória a lembrança da última vez em que comi carne. Me ofereceram um lanche, o que eu passava até meses sem comer, e aceitei. Afinal, era uma sexta-feira à noite. “Tudo bem, é só hoje”, pensei. Mordi sem pressa e sem o prazer de outrora o alimento que trazia uma variedade de carnes – filé de frango, hambúrguer e pedacinhos de bacon. Era enorme e mal cabia nas minhas mãos, embora elas não sejam pequenas.

Depois de comer, observei o papel branco que envolvia o lanche. O enrolei e o joguei na lixeira. Há muito tempo me acostumei a não comer demais porque não vejo sentido em ir além das minhas necessidades. Sentado, perdi o interesse em continuar lendo um livro que até então invadia meus pensamentos e divagações. Me senti inchado, não pela quantidade de alimento que ingeri, mas por algum motivador que acredito ser biologicamente inexplicável. De súbito, minha boca ficou azeda como se tivesse recebido uma dose de fel. Fui até o meu quarto, me olhei no espelho e não me reconheci. Meus olhos estavam translúcidos e dentro deles vi algo se movendo repentinamente, como que motivado por um descomedido desconforto.

Levei as mãos ao meu abdômen e notei que minha barriga chapada tinha se tornado irreconhecível, disforme e malemolente. Involuntariamente, se distendia numa ocultação criteriosa. Era incompreensível porque não comi tanto. Quando voltei a atenção ao meu rosto no espelho, havia alguns riscos carminados nas escleróticas. Fechei os olhos por um momento e quando os abri tinham se desvanecido. O mesmo aconteceu com as marcas que surgiram na minha barriga, lembrando toques de uma pata. “Que coisa mais estranha! O que está acontecendo comigo?”, me questionei assustado.

Desliguei o computador, apaguei a luz e deitei na cama. Eu estava cansado e o sono prosseguia distante do meu desejo. Fiquei observando o teto e notei que ele se movia aos poucos. Não poderia ser tontura porque minha noção espacial persistia precisa. Ao meu lado, eu enxergava tudo com exímia clareza. Assim que o teto se abriu, como se fosse deslocado de lugar, sem causar qualquer tipo de barulho, desordem ou sujeira, a chuva fresca se lançou diligente sobre mim. Me movimentei sobre a cama com a ligeireza de quem está sofrendo de espasmo hípnico. Em pé e hipnotizado pelo céu enluarado que iluminava meu quarto com uma luz cerúlea, continuei calado, inerte.

A beleza da madrugada outonal que ofertava um aroma variegado de folhas e flores foi ofuscada pelo miasma trazido por uma vaquinha voadora com focinho de porco e pés de galinha. Apesar de tudo, era um animal lindo na sua singularidade desarmônica. Me recordei das pinturas de Corine Perier e Chris Buzelli. A diferença era que elas não tinham cheiro de morte. Quando a vaquinha pousou ao meu lado, a pestilência se intensificou. “Nem bebo! Que bizarrice é essa? Será que estou pirando?”, refleti. Ela ficou me observando sem emitir som. Seus olhos se agigantavam e em seguida diminuíam. Parecia um coração pulsando. E o fedor só aumentando. De repente, deu um mugido misturado com cacarejo e grunhido. Então se inclinou para que eu massageasse sua cabeça.

Um deles pulou no meu travesseiro e começou a piar, como se quisesse alguma coisa (Arte: Dan Kosmayer)

Um deles pulou no meu travesseiro e começou a piar como se quisesse alguma coisa (Arte: Dan Kosmayer)

Antes que eu a tocasse, a vaquinha partiu da mesma forma que chegou – voando e lançando de suas mamas alguns jatos de leite encorpado misturado com sangue. Uma porção impactou sobre minha cabeça. Passei a mão e notei meus cabelos engordurados, com fedentina de coalhada e ferrugem. Respirei profundamente com olhos fechados, tentando restabelecer a serenidade, e quando os abri tudo tinha sumido, com exceção do cheiro de morte que na realidade era emanado do meu corpo, não da vaquinha.

Voltei para a cama sofrendo de indisposição estomacal – dava a impressão de que o lanche estava revirando meu estômago. Dormi menos de uma hora porque ouvi um barulho insólito que se repetia a cada cinco ou dez segundos. Incomodado, inclinei a cabeça por baixo da cama e percebi um bichinho úmido e morno acariciando a minha tez. Era um porquinho landrace que percorria meu rosto com a língua. No escuro, seus olhos cintilavam como se tivessem luz própria. Ele sorria e aquilo era intrigante.

Prestando muita atenção em mim, recuou sorrateiramente, como que arrependido. Tropeçou sobre as próprias patas e chorou. Suas lágrimas escorriam pelo focinho. Acuado num canto ao lado da porta, o medo destacava ainda mais a sua pele rosácea. Fiquei mais confuso e sobressaltado quando o porquinho me fez uma pergunta com voz titubeante: “Por que você comeu minha mãe?”

O questionamento não se repetiu e imaginei que eu estivesse delirando. Não respondi. Preservei o silêncio até a chegada repentina da ânsia de vômito. Pálido, vi minhas mãos tornadas diáfanas. Algo subia dentro de mim enquanto meu corpo esquentava e esfriava. Quando abri a boca, os pedacinhos de bacon se lançaram ao chão inteiriços. Se juntaram como se fossem magnetizados.

Em poucos segundos se transformaram em uma porquinha eufórica que grunhia e girava em torno do próprio rabo. Extasiado, o filhote se jogou sobre ela e, sôfrego, a lambeu. Os dois ficaram ali, juntos, tão próximos que tive a impressão de que dividiam a mesma respiração. Quando desviei os olhos rapidamente, eles desapareceram. Deitei na cama outra vez. Dormi por duas ou três horas até perceber um animal tocando as minhas costas. Era leve e tinha cheiro de quirera de milho e farelo de soja. Havia três pintinhos andando em cima de mim.

Um deles pulou no meu travesseiro e começou a piar como se quisesse alguma coisa. Ciscava tentando transmitir uma mensagem. Levantei e o observei subir pelo meu braço como se fosse uma ponte. Sobre o meu ombro, ele piava com ternura, se comunicando com os outros dois que repetiam o trajeto. Num rompante, a ânsia de vômito veio com tudo. De minha boca saíram alguns pedaços pequenos e inteiros de filé de frango que antes de caírem no chão ganharam a forma de um frango que voou por curta distância batendo as asas e fazendo uma balbúrdia gangosa.

 Somente um boi que se apresentou como Pastiche falou comigo (Arte: OuShiMei)

Somente um boi que se apresentou como Pastiche falou comigo (Arte: OuShiMei)

Os pintinhos saltaram sobre ele e os quatro correram porta afora, na escuridão amena da madrugada. Não fui atrás. Com os braços apoiados sobre a cama, assisti tudo sentado, com olhos combalidos e semicerrados. Extenuado, caí na cama e adormeci. Em sono profundo, me vi comendo o lanche da noite passada. A cada mordida, eu sentia a dor da finitude, o aroma ininterrupto da morte. Toda a tristeza diante do passamento era absorvida pelo meu organismo e corpo, fazendo-me experimentar pontuais calafrios.

Medo, ansiedade, estresse, impotência e agonia. Os animais mortos concentravam tudo isso em suas carnes que recheavam meu lanche, fazendo vibrar dentro de mim a aglutinação de uma energia negativa intempestiva e solene emanada pela certeza do definhamento. A dor atravessava a minha essência e me fazia assistir os instantes finais de bovinos, suínos, caprinos e aves. Muitos choravam antes da execução porque reconheciam que suas vitalidades foram inibidas precocemente.

A morte perfazia um caminho tortuoso que subsistia dentro de mim. “Veja a minha dor, sinta a minha dor. Um mundo com animais demais e vidas de menos. Um dia, os humanos vão sofrer como nós. A carne há de sobrar, mas não haverá a quem dar de comer. E assim o mundo vai apodrecer rendido aos excessos desenfreados da produção”, ecoava na minha mente uma voz que embora bem articulada simulava um sincretismo de sons de animais de várias espécies.

“Nasci por esses dias. Veja só o meu tamanho, como cresci. E amanhã já vou morrer porque assim quis o meu criador”, comentou um frango resignado dentro de uma gaiola plástica, antes de ter os pés decepados por um facão. Os mais ingênuos, que não sabiam de seu destino, batiam as asas em vão. Se feriam gravemente, mas lutavam pela liberdade com inocência e inaptidão, já que desconheciam outra realidade que não a do confinamento.

Em uma fazenda enorme a perder de vista, os porcos comentavam entre si que haveria um grande abate no dia seguinte. Um deles conseguiu escapar e revelar a trama aos outros animais encarcerados a 50 e até 100 metros de distância. “Fomos criados pra morrer! Pra morrer! Só isso! Nada mais!”, berrava um jovem porco desajeitado. Durante a madrugada os animais se reuniram e cavaram uma vala mastodôntica. Em sequência saltaram no cabouco e pediram que dezenas de cavalos da coudelaria os cobrissem com terra.

“Pelo menos vamos morrer com dignidade”, argumentou um dos porcos mais bem cotados da propriedade. Optaram por se matar porque acreditavam que perdiam a alma quando serviam de alimento aos humanos. No dia seguinte, todos estavam mortos – filhotes, jovens adultos e animais velhos, abraçados independente de espécie. Em frente ao enorme sepulcro improvisado havia uma frase riscada sobre a terra – “O especismo é como uma vela resfolegando sob a chuva.”

Acordei mais uma vez quando ouvi um grito. Me vi entre grades sendo transportado sobre um caminhão. Procurei minhas mãos e não as encontrei. Olhei para baixo e percebi que eu não era mais um ser humano, a não ser pela minha própria consciência, condição psicológica e emocional. Fisicamente eu era um robusto boi preto ladeado por outros bois. A maioria mantinha-se em silêncio. Somente um boi que se apresentou como Pastiche falou comigo.

“Tá chegando a hora, amigo. Nossa jornada chegou ao fim. Pasto, confinamento e abate. É a nossa sina”, lamentou, projetando um mugido fúnebre e prolongado. De repente, todos ficaram em silêncio, com suas cabeças vultosas mirando as próprias patas. Ouvi um som estranho e uníssono. Era como um ritual que eu não entendia porque eu não era um boi de verdade.

Reconheci o peso da morte quando o motorista do caminhão perdeu o controle e caímos de uma ribanceira. Lá embaixo, onde o capim penetrava minhas narinas e invadia minha boca a contragosto, vi a carroceria quebrada e aberta. Ao meu redor, meus companheiros de viagem estavam mortos, inclusive Pastiche que trazia uma expressão de satisfação em meio à penúria. Havia um cheiro estupefaciente de sangue, estrume e ração à base de milho.

Com poucos ferimentos e escoriações, me levantei e corri pelo prado verdejante. Minhas orelhas altaneiras captaram o som oxítono de uma revoada de andorinhas. Continuei correndo sem parar, por uma terra infinita onde o ser humano jamais poderia me alcançar. Recém-despertado de mais um sonho, fiquei sobressaltado, com o coração disparado, sentindo em meus lábios sabor que parecia ser da minha própria carne. Enleado, vi que ainda repousava ao meu lado o papel branco do lanche, lembrança inolvidável de uma avalanche.

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No filtro de Kemmy Fukita

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Com arte em filtro de papel reaproveitado, jovem ilustradora chama atenção pela singularidade

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Kemmy Fukita reaproveita os filtros usados pela mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2015, a ilustradora Kemmy Fukita, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, criou uma página no Facebook para divulgar o seu projeto “No Filtro”, em que reaproveita filtros de papel usados para coar café. Unindo arte e sustentabilidade, Kemmy reproduz com singularidade imagens de pessoas famosas e anônimas em construções visuais que transmitem fortes sentimentos e sensações.

Seus traços influenciados pelo hiper-realismo, surrealismo e art nouveau são carregados de intensidade, influências que ela assume com orgulho, assim como a fotografia. “Muitos dos meus desenhos surgem da observação. Gosto muito de desenhar rostos femininos realistas e um pouco desfigurados do real, com cicatrizes. Isto porque sempre tentei representar uma mulher forte, apesar das dificuldades que ela tenha de passar”, explica.

Toda vez que Dona Rosa termina de usar um filtro de café, a filha Kemmy, de 20 anos, o lava com sutileza, para preservá-lo com aspecto envelhecido, e aguarda a secagem antes de começar a produção de mais um desenho. “O processo não é demorado, mas exige muita paciência porque se algo der errado é preciso recomeçar. Para desenhar um rosto realista, por exemplo, eu levo uma hora. Varia de acordo com o grau de dificuldade”, informa.

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“Vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela” (Foto: Kemmy Fukita)

Após criar obras em papelão, um dia Kemmy Fukita estava observando a mãe preparar café e teve a ideia de separar o filtro já usado. O lavou, secou e começou a pintar. Gostou tanto da primeira experiência que criou uma página com seus desenhos, frases e trechos de músicas reproduzidos em filtros. “Me baseei em artistas com quem já me identificava. A princípio, tudo era feito com lápis de cor e tinta guache. Depois vi que o giz pastel garantia melhor pigmentação e incluí também as tintas nanquim e aquarela”, revela.

Desde o ano passado, a artista cria obras sob encomenda. As mais pedidas são pautadas em imagens de escritores e músicos, seguidas por desenhos de pessoas comuns. Trabalhos inspirados nas fotos mais icônicas do escritor estadunidense Charles Bukowski estão no topo dos pedidos mais atendidos por Kemmy. “Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’. Também faço muitas obras baseadas em bandas de rock e cantores e cantoras de outras épocas”, enfatiza.

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

“É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço” (Foto: Kemmy Fukita)

Cada encomenda, com moldura e dois filtros – um acompanhado de ilustração e outro de uma frase, custa apenas R$ 40. “Uso como embrulho o TNT ou um papel transparente amarrado com uma cordinha de sisal”, destaca, deixando claro o quanto é caprichosa no que se propõe a fazer. Ainda assim a artista reconhece que o seu trabalho não é devidamente valorizado, já que há pessoas que reclamam do preço cobrado por cada obra. “É preciso entender que coloco amor e dedicação no que faço”, argumenta a ilustradora.

Com o projeto “No Filtro”, Kemmy admite que se descobriu ainda mais como ser humano e artista. Inspirada no pai poeta, várias vezes premiado no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), ganhou coragem para escrever poemas e publicá-los com seus desenhos. “Desanimei muitas vezes e tive bloqueios criativos, uma descrença no que faço. Mas foram nesses momentos difíceis que encontrei pessoas me apoiando e falando para eu não desistir. Uma frase que sempre trago comigo é do Vinicius de Moraes: ‘A arte não ama os covardes’. É bem isso. Quem vive neste mundo precisa de coragem para se arriscar e amar o que faz”, defende.

Trabalho inspirado em imagem e frase de Charles Bukowski (Foto: Kemmy Fukita)

“Eu o admiro muito, tanto que um dos meus poemas prediletos é ‘O Pássaro Azul’” (Foto: Kemmy Fukita)

Além de artista, Kemmy Fukita é estudante de moda. Perto de se graduar, não pensa em atuar como estilista. Quer trabalhar com ilustração de moda, se desvinculando da criação de roupas. “Quero futuramente conciliar a ilustração de moda com o aspecto social, pouco valorizado”, confidencia. Sem nunca ter estudado desenho, Kemmy é autodidata, porém acredita que o curso de moda a ajudou a desenvolver habilidades específicas, como se aperfeiçoar no desenho de mãos e pés.

A primeira experiência desenhando foi aos 13 anos, quando decidiu reproduzir os personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. “Só que não eram tão realistas. Ao longo dos anos fui testando outros materiais além do papel comum. Tive a ideia de pintar desenhos minúsculos em hashi e deu certo. Também fiz isso em pratinhos de papelão, usando tinta guache e palitinhos de dente. Eu era revoltada com pincéis”, conta rindo.

A página “No Filtro”, criada por Kemmy em 2015, se aproxima dos nove mil seguidores. A ilustradora justifica que a crescente popularidade é resultado da divulgação de um de seus trabalhos em uma página de música do Facebook. “E também a uma encomenda feita pelo presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Amauri Martineli. Tudo isso foi de grande importância e eu não esperava, nem tinha noção de que tantas pessoas valorizariam a minha arte”, comemora.

Página do projeto No Filtro no Facebook

 https://www.facebook.com/nofiltro/

O menino Valdir

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Zombava ao ver uma barreira invisível me impedindo de ultrapassar a soleira da padaria

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Panificadora Pão de Açúcar, onde vovô presentava seu neto postiço (Foto: David Arioch)

Eu tinha cinco anos quando meu avô João chegou em casa falando do menino Valdir. Tranquilo e compenetrado, continuei no sofá assistindo desenho animado. Ele sentou ao meu lado e disse que Valdir era tão dedicado que gostava dele como se fosse seu próprio neto.

Naturalmente comecei a sorrir, mostrando os dentes com bisonhice e observando a expressão serena em seu rosto esfíngico e ainda pouco crispado. De repente, questionei: “Quem é menino Valdir?” – crente de que se tratava de nome e sobrenome. Ele coçou o queixo liso, recém-barbeado, hesitou e falou que era um menino muito esperto e da minha idade. Segundo vovô, Valdir gostava de ajudá-lo em qualquer circunstância.

Fiquei intrigado e imaginei quem seria esse garoto. “Eu conheço o menino Valdir?”, perguntei à minha mãe na cozinha enquanto ela amaciava a longa massa de pão girando um rolo à manivela. Respondeu que não, voltei para a sala e continuei encucado. “Menino Valdir, menino Valdir, menino Valdir, menino Valdir, menino Valdir…”, pensei antes de dormir, como uma dessas crianças que contam carneirinhos, observando o forro amadeirado e envernizado do quarto.

De madrugada, vovô invadiu meus sonhos passeando de mãos dadas com Valdir. Sorridentes, os dois caminhavam até a Panificadora Pão de Açúcar, onde ele presenteava seu neto postiço com os doces mais caros e mais bonitos da vitrine. “Como você é bonzinho, Valdir. Seus pais devem ter muito orgulho de você. Saiba que és a melhor criança do mundo”, comentava.

Valdir, que só balançava a cabeça em concordância, gargalhava e apontava o dedo para mim. Zombava ao ver uma barreira invisível me impedindo de ultrapassar a soleira da padaria. Fui obrigado a assisti-los do lado de fora, ouvindo o ronco do meu estômago. Sentia que havia um cabouco dentro de mim, uma fome tão avassaladora que deixava meu corpo minúsculo tiritante.

Escorado no batente, minha visão enturvecia conforme eu reconhecia a olência edulcorada de alguns doces que em meu mundo diminuto e inaudito eram os mais deliciosos do mundo. Performático, Valdir mastigava com ledice. Repartiu um pãozinho em dois pedaços, apontou o recheio cremoso e frutado em minha direção, lambeu os beiços e simulou que me daria um pedaço.

Levantou do banquinho, veio em minha direção e, faltando dois passos para chegar até a soleira, esticou o braço e recuou. Macarrônico, retornou fazendo o clássico moonwalk, de Michael Jackson, acompanhado de uma fosquinha. Sentou, fechou os olhos rapidamente, suspirou e abocanhou o pão que em poucos segundos desapareceu dentro de sua boca de rapa-tachos. “Por que, vovô? Por que, Valdir? Por que tão fazendo isso?”, retumbavam inúmeros fraseados ribombados que singravam intrincados dentro da minha mente.

Langoroso e atento a tudo que acontecia no interior da padaria, nem me dei conta de que eu estava completamente nu, com exceção dos pés envolvidos por um par de chinelinhos do Zé Colmeia. Só percebi o supra-realismo da situação quando ouvi gritos ensandecidos de uma multidão que me observava do outro lado da Avenida Distrito Federal. Tentei tapar minhas partes íntimas com as mãos, mas não adiantou. Pelado, corri ruborizado até o cruzamento com a Rua Getúlio Vargas, indo em direção ao Jardim São Cristóvão.

Ao meu redor, os motoristas reduziam a velocidade, colocavam suas cabeças titânicas como melancias janela à fora e gritavam com embocadura de hipopótamo: “Pelado, sem vô e faminto, isso que é um azar do quinto!” As vozes continuavam ecoando por todos os lados. Eu corria e não chegava a lugar algum, como se estivesse sobre uma esteira. De repente, o dia virou noite e o céu azul como um oceano prepóstero desvaneceu.

No firmamento, eu via somente escuridão, um vazio abissal. “Cadê a lua e as estrelas?”, refleti, até que centenas de olhos de coió surgiram entre as fendas que se abriram na abóbada celeste. Eram pretos, castanhos, azuis, verdes, cinzas, fulvos, rosáceos, enfim, de todas as cores possíveis e impossíveis. Eles me vigiavam e me acompanhavam com a destreza indefectível de um mecanismo automatizado, e com precisão de lentes telescópicas.

Para todos os olhos havia apenas uma boca. Não! Uma bocarra tétrica que parecia prestes a engolir meu mundo e me deixar vagando pelo sempiterno da inexistência terrena. “O que você quer? Fala logo, baixote!”, projetou o vozeirão macambuzio com um hálito vigoroso e vicejante como das hortas caseiras de hortelã. A cada palavra, ela me lançava uma aragem que esvoaçava meus cabelos com ferocidade e arrancava as folhas dos galhos de uma sibipiruna que me protegia, evitando que eu fosse arrastado.

Tive dificuldade em manter os olhos abertos – esbraseavam por causa da violência lancinante da ventania que sibilava e chiava, me motivando a abraçar o tronco da árvore com minhas mãos miúdas que afundavam em seu dorso, enchendo as unhas de vestígios moscados de coscorão. Num impulso, gritei que só queria voltar para casa. “Por favor! Nunca mais vou seguir o vovô e o Valdir!”, prometi com olhos marejados.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto rubicundo, desciam pelo corpo e afrouxavam o elástico do par de chinelinhos tornado escorregadio como pele de sapo. Cabisbaixo, silenciei e quase desmaiei, com a visão ligeiramente embaçada. Só despertei com a chuva morna e torrencial tocando meus cabelos e ombros com a graciosidade de um cafuné e um abraço. Era colorida e tinha cheiro e sabor de sodinha.

Observei novamente o céu e vi centenas de olhos encharcados. O choro se transformou na chuva que aquecia meu corpo, afastando a friagem. Depois, todas as fendas findaram no céu e a água prosseguiu sua jornada solitária, se intensificando e formando uma pequena corrente caudalosa que me arrastou até a Rua Pernambuco. Quando abri o portãozinho de casa, um forame sem fundo surgiu logo abaixo dos meus pés. Não consegui me afastar – era tarde demais. Enquanto eu caía, tudo ao meu redor se desfazia. Subitamente tive um espasmo hipnico e acordei. Três anos depois, o mesmo pesadelo retornou, só que pela última vez.

Naquela madrugada, sentado na cama, me recordei de todos os episódios que meu avô viveu com Valdir, tantas experiências e histórias partilhadas. Então tomei uma decisão. Caminhei até a varanda, onde vovô repousava em uma cadeira – ouvindo rádio e vendo a frugal movimentação de passantes na rua, e pedi que me levasse para conhecer o menino Valdir. Ele me observou atentamente em silêncio, apagou o cigarro de palha, sorriu e revelou: “Valdir nunca existiu, a não ser dentro da minha e da sua mente, onde a criatividade floresce sem um pedaço de semente.”

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Julio Cortázar vai ao teatro

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“Nada somos, apenas estamos, nos diz Cortázar, mostrando que vivemos de atravessamentos”

Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio se apresenta em Paranavaí no dia 17 (Foto: Divulgação)

Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio se apresenta em Paranavaí no dia 17 (Foto: Divulgação)

No dia 17, sábado, às 20h30, o Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio, de Curitiba, vai apresentar no Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o espetáculo “Cronópios da Cosmopista” que propõe um jogo de espelhos entre o escritor argentino Julio Cortázar, um dos mais importantes nomes da literatura latino-americana, sua obra e o olhar dos artistas em cena. O evento que tem entrada gratuita é patrocinado pelo Sesi Cultural.

Cortázar é o verdadeiro protagonista da peça “Cronópios da Cosmopista”, criada a partir de texto inédito inspirado em fragmentos reinventados, canções, poemas e frases de um realismo fantástico que nasce da gestação de vários mundos dentro de um. “São mundos que se desdobram e se fundem. O fim e o começo, paralelos e sem cronologia, nos dão chão e também nos retiram dele”, comenta o ator e diretor Rafael Camargo que transita pela música e convida o público a mergulhar em questões existenciais.

Especialista em teatro experimental, principalmente em usar a ausência de ação física como estética teatral, Camargo leva ao palco não um espetáculo de personagens, mas de relações criadas a partir de situações e diferentes contextos. “Nada somos, apenas estamos, nos diz Cortázar, mostrando que vivemos de atravessamentos”, destaca o diretor que divide o palco com Christiane de Macedo e Diego Marchioro.

O primeiro espetáculo do Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio foi “Amoradores de Rua”, lançado em 2010, seguido por “End” e “Uma Entre Mil Histórias de Amor”, de 2011. No ano seguinte, estrearam “Buraco da Fechadura”, baseado na obra de Nelson Rodrigues. “Em ‘Cronópios da Cosmopista’, de 2013, observamos o desenvolvimento e as possibilidades do nosso encontro e torcemos para que ele seja sempre tão prazeroso para o público que nos assiste quanto é para nós que o realizamos”, declara Camargo.

Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges (Foto: Divulgação)

Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges (Foto: Divulgação)

Todos os espetáculos do grupo nascem de processos colaborativos que envolvem atores, diretor, dramaturgo e equipe técnica. A proposta é refletir sempre a expressão artística como meio de discussão de temas bem atuais, que questionam a complexidades das ações humanas e sua natureza. No ano passado, e com a parceria do Centro Cultural Teatro Guaíra, o grupo criou a Mostra Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio que levou ao público do Auditório Salvador Ferrante, o Guairinha, as peças “Cronópios da Cosmopista e “Buraco da Fechadura”.

Julio Cortázar, o mestre do conto curto e da prosa poética

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.

Agenda do espetáculo “Cronópios da Cosmopista”

Dia 15 – Maringá

Dia 16 – Umuarama

Dia 19 – Cianorte

Dia 27 – Campo Mourão

O poder de identificação de Louie

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Série de Louie C.K. surpreende ao mostrar um comediante como uma pessoa comum

Na série, Louie não é celebrado como um comediante de sucesso (Foto: Reprodução)

Na série, Louie C.K. não é celebrado como um comediante de sucesso (Foto: Reprodução)

Há três anos, eu estava procurando uma nova série de comédia e me surpreendi com o que encontrei. Quando li a sinopse pela primeira vez, admito que hesitei, até porque hoje em dia é difícil pensar logo de cara em originalidade ou criatividade quando falamos sobre sitcoms protagonizadas por comediantes de stand up. Ainda mais se você passou a adolescência assistindo séries como Seinfeld, The Cosby Show, The Bob Newhart Show, Home Improvement, Roseanne e só pra citar um exemplo até recente – Everybody Loves Raymond. São programas feitos por artistas que marcaram a história da TV norte-americana ao migrarem das casas de shows para as comédias de situação.

Fizeram a diferença, incrementaram e foram copiados até mesmo por comediantes brasileiros que só não admitem isso porque sabem que a maior parte da população brasileira desconhece esses programas. Mas voltando ao principal, a série que me chamou a atenção é Louie, sobre o estilo de vida e o cotidiano de um comediante de quem eu jamais tinha ouvido falar até 2011. Acho que passei cerca de três meses adiando até o dia de assistir ao primeiro episódio.

Me arrependi de não ter assistido antes. A abreviação do nome do comediante, Louis C.K., é uma brincadeira com o sobrenome húngaro Székely que em português significa guarda da fronteira. É uma palavra até curiosa se levar em conta que Louie, como é mais conhecido, é um estadunidense de origem mexicana com um sobrenome magyar. Além de protagonizar a série lançada em 2010, C.K. é o criador, roteirista e diretor desse programa que se tornou uma das melhores aquisições do canal FX dos últimos anos.

Quando comecei a assistir a primeira temporada da série em 2011, um ano após o lançamento, o primeiro elemento que me chamou a atenção foi a estrutura de obra audiovisual independente e intimista. É interessante ver uma abertura de série em que o protagonista passa despercebido pelas ruas de Nova York, a meca do stand up comedy, em direção a uma pequena casa de shows, um ambiente que moldou e transformou Louie em quem ele é hoje.

Programa estreou em junho de 2010 (Foto: Reprodução)

Programa estreou em junho de 2010 (Foto: Reprodução)

O programa foge da glamourização e realça fatos pouco conhecidos sobre o vasto universo do stand up comedy nos Estados Unidos. Usa a ironia para instigar risos e reflexões sobre uma parcela da realidade do universo do entretenimento norte-americano. Na série, Louie não é celebrado como um comediante de sucesso. Muito pelo contrário. Também é um sujeito reservado e bem solitário quando não está acompanhado das duas filhas.

Há situações em que nem mesmo é respeitado. Por um lado, é uma forma de entrar em concordância com uma proposta peculiar de humor negro e satirização. Por outro, evidencia com certa pessoalidade as dificuldades vividas por centenas de comediantes que apenas lutam para se manter na ativa, sobreviver e garantir o sustento familiar.

S.K. é alvo das suas próprias piadas e das casualidades do cotidiano. Exemplos são os momentos em que é sacaneado por adolescentes e até por prestadores de serviços do prédio onde mora. Quem assiste Louie, percebe que o humor e o riso estão acima de tudo; são prioritários. Se necessário, o autor é capaz de desconstruir a própria imagem para surpreender o público, até porque o ser humano, independente de qualquer coisa, é suscetível à metamorfose. No programa, Louie C.K. se coloca numa posição de homem comum que simplesmente tem como diferencial o fato de ter escolhido trabalhar com a comédia. Tanto que assim como em qualquer profissão vive situações em que é enganado e passado para trás pelas pessoas com quem se relaciona, inclusive colegas de trabalho.

Louie se passa no palco de uma pequena casa de shows de Nova York (Foto: Reprodução)

Parte de Louie se passa no palco de uma pequena casa de shows em Nova York (Foto: Reprodução)

Logo na primeira temporada, Louie brinca que trilhou esse caminho porque provavelmente não saberia fazer outra coisa da vida. A hipocrisia é um tema recorrente nas piadas do comediante e agrada porque não recai na obviedade. Quando decide ser mais crítico e ácido, se volta para as consequências do capitalismo, hipermodernidade, excessos de urbanização, fobias sociais, paroxismos, estereótipos, falhas do american way of life, xenofobia e preconceito contra imigrantes e minorias étnicas. Aborda com criatividade singular a indiferença, apatia, ausência de sensibilidade e de solidariedade.

Em menos de 23 minutos, e ao melhor estilo single-camera, Louie consegue fazer o espectador viajar por situações corriqueiras e insólitas que o fazem rir e refletir sobre as mais simples e imprevisíveis razões. Em uma das cenas de um episódio, o protagonista brinca com a inevitabilidade de envelhecer ao citar um aniversário em que confundiu a própria idade. Em outra, explora uma situação de intimidade com uma garota que tinha fetiche por homens velhos. Para o comediante, não há matéria-prima mais rica do que a própria condição existencial e as experiências do cotidiano.

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O protagonista é alvo das suas próprias piadas e casualidades do cotidiano (Foto: Reprodução)

Na série, o ato de fazer piada de si mesmo não tem uma conotação pejorativa, desrespeitosa ou apelativa. Na realidade, revela uma certa maturidade e até capacidade de aceitação. Quem o faz com sabedoria demonstra autoconhecimento e mais flexibilidade para encarar as dificuldades cotidianas, principalmente se tratando de relações sociais, sejam casuais ou não.

Até uma desconfortável dor nas costas entra para o script de uma cena em que a realidade flerta com o seu potencial inventivo. A situação faz rir porque explora uma perspectiva fantasiosa de um diálogo entre médico e paciente. Na ocasião, o comediante busca amenizar o seu problema. Em vez de apresentar uma solução plausível, o médico diz que o jeito é Louie começar a se locomover na horizontal, já que o homem não foi feito para andar em pé. Cenas como essa fazem parte de uma proposta de humor surreal, baseado na imprevisibilidade. A intenção é subverter as expectativas do público.

Outro exemplo pode ser visto nos minutos iniciais de Back, o primeiro episódio da quarta temporada, iniciada no dia 5 de maio, em que garis passam em frente ao prédio do comediante recolhendo o lixo. Louie não consegue dormir com o barulho. Para piorar, o nível de desconforto sofre uma gradação acelerada. Assim o autor e protagonista explora uma situação de identificação. Ou seja, qualquer espectador já deve ter vivido um momento em que queria dormir, mas o barulho nas imediações era tão incômodo que se tornava cada vez mais extenuante com o passar do tempo.

No show, o comediante é reservado e solitário quando não está com as filhas. (Foto: Reprodução)

No show, o comediante é reservado e solitário quando não está com as filhas (Foto: Reprodução)

Louie usa o humor surreal como intensificador. Logo os lixeiros começam a arremessar as latas de lixo e também a batê-las no chão. Quando o espectador pensa que aquele é o ápice da cena, ele é surpreendido de novo. Dessa vez, com a imagem dos garis chutando a janela do comediante, que não fica nos andares mais baixos do edifício, recolhendo objetos do seu quarto, batendo lata e pulando em sua cama. A ideia é materializar a sensação de perturbação através do surrealismo. Afinal, quem nunca pensou em algo como: “Putz, que barulheira! Parece até que estão aqui no quarto comigo!”

A graça está no fato de que Louie C.K. não se coloca numa posição de comediante de aceitação universal, o que deixa tudo mais engraçado. No episódio Model, da quarta temporada, ele é convidado por Jerry Seinfeld, que também aparece na terceira temporada, para fazer uma breve apresentação em um evento beneficente. Em vez de tentar agradar a um público formado por multimilionários, ele faz piada deles, arrancando risos apenas de uma mulher da plateia. Surge uma situação tão desconfortável quanto cômica.

Louie é tão leve quanto denso, reflexo da sua formação heterogênea como um comediante que além de voyeurista por natureza não esconde suas influências que incluem George Carlin, Richard Pryor, Bill Cosby, Steve Martin, Robert Downey e Jerry Seinfeld. Como a maior riqueza do programa são os diálogos, fica impossível não notar as referências a Woody Allen, o que também se estende à qualidade estética minimalista e trilha sonora, já que tanto o cineasta quanto o comediante partilham do mesmo amor pelo jazz, um recurso que reforça o simbolismo nova-iorquino.