David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Tolstói’ tag

Surgiram 15 sociedades vegetarianas na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia entre os anos de 1900 e 1944

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Tolstói tomando o seu café da manhã vegetariano em 1901

Entre os anos de 1900 e 1944, surgiram 15 sociedades vegetarianas em cidades da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. A de maior destaque era sediada em Kiev. Com o desenvolvimento dessas sociedades, surgiram escolas vegetarianas e jardins de infância vegetarianos. Só até 1914, a Rússia contava com 73 restaurantes vegetarianos. Todo esse desenvolvimento é atribuído em parte ao escritor russo Liev Tolstói, que publicou em 1892 o ensaio “Первая ступень” ou “O Primeiro Passo”, uma das primeiras e mais importantes abordagens do vegetarianismo ético em território russo. À época, Tolstói se tornaria um dos grandes apoiadores da revista “Вегетарианство” ou “Vegetarianismo”.

Referência

vegetarianskij.ru





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November 10th, 2017 at 12:20 am

Tolstói falando sobre vegetarianismo para os netos em 1909

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Tolstói falando sobre vegetarianismo para os netos em 1909 (Foto: Vladimir Chertkov)

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November 8th, 2017 at 2:30 pm

Vegetariano, Gorky se alimentava como um camponês

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Foto: Sophia Andreyevna Tolstaya

Maxim Gorky ao lado de Tolstói em Yasnaya Polyana em 1900. Vegetariano, Gorky se alimentou como um camponês a maior parte de sua vida. Gostava de vegetais em salmoura ou vinagre, além de sopas e aveia com frutas.

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November 8th, 2017 at 2:24 pm

Nikolai Leskov e o vegetarianismo

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Nikolai Leskov se tornou vegetariano sob influência de Tolstói. Mais tarde, publicou duas histórias com personagens vegetarianos – “Фигура (персонаж)” ou “A Figura” e “Polunoshchniki” ou “As Parteiras”.
“A Figura”, publicada pela primeira vez na revista Труд (Trud) em 1889, se tornou a primeira história da literatura russa protagonizada por um vegetariano.

O personagem principal é um homem que vive em Kurenyovka, no subúrbio de Kiev, e leva uma vida simples, cultivando o seu jardim e os seus vegetais comercializados em Podol, no Bazar de Zhitnem.Ele vive com a jovem Nastya Khoshlushka e sua filha de três anos. Nenhum deles se alimenta de nada que “tenha uma consciência de vida”. Em carta a Tolstói, Leskov relevou que a história do personagem vegetariano foi inspirada em uma figura histórica ucraniana.





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November 8th, 2017 at 2:21 pm

Vegetariano, Tolstói não fazia concessões

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Vegetariano, o escritor russo Liev Tolstói não fazia concessões, independente dos hábitos alimentares de seus visitantes. Normalmente às 18h era oferecido um jantar:

Serviam uma sopa com bolinhos de massa e raízes, suflê de cenoura, arroz com ervilhas, sopa de couve-flor e salada de batata com beterraba, além de um purê de maçã com ameixas secas.

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November 8th, 2017 at 2:17 pm

A história do vegetarianismo na Rússia

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Ao final de 1914, a Rússia contava com 73 restaurantes vegetarianos em 37 cidades

Antigo prédio da Sociedade Vegetariana Russa (Vegetarianskij.ru)

De acordo com informações do Vegetarianskij.ru, a história oficial do vegetarianismo na Rússia começou com o surgimento da primeira sociedade vegetariana, ironicamente chamada de “Ни рыба, ни мясо”, ou seja, “Nem Carne, Nem Peixe”, em meados de 1860, em São Petersburgo.

O presidente vitalício da sociedade era o cirurgião Alexander Petrovich Zelenkov, que faleceu em 1914. Ele se tornou vegetariano em decorrência de problemas de saúde, quando outros métodos de tratamento se mostraram ineficazes. Ele também era um defensor da homeopatia e fazia campanhas contra o consumo de álcool.

Em 1902, a esposa de Zelenkov, Olga Konstantinovna, escreveu o livro “Нечто овегетарианстве”, ou “Algo Sobre Vegetarianismo”, que foi publicado em quatro volumes, cada um trazendo um extenso estudo sobre o vegetarianismo com base em registros históricos, estudos científicos e declarações de pessoas famosas de diferentes épocas.

A obra também conta com a análise do tratado “Питание человекав его настоящем и будущем”, que significa “A Dieta do Indivíduo em Seu Presente e Futuro”, escrita pelo botânico Andrey Beketov em agosto de 1878. Seu modesto ensaio em defesa da dieta e do estilo de vida vegetariano teve um efeito significativo na sociedade de seu tempo e eventualmente foi traduzido para muitas línguas.

Em 1913, Olga publicou o primeiro livro de receitas vegetarianas da história da Rússia. O nome da obra, que traz 1500 receitas divididas em 365 categorias, é “Я никого не ем”, ou seja, “Não Como Ninguém”. O livro foi editado inúmeras vezes e vendeu milhares de cópias, segundo o Vegetarianskij.

À essa altura, o vegetarianismo na Rússia já passou a ser visto sob outra perspectiva, que ia muito além da saúde humana, e tudo isso graças à publicação do ensaio “O Primeiro Passo”, de Liev Tolstói, lançado em 1892. Segundo o Vegetarianskij, a sociedade vegetariana russa então encontrou um profundo argumento ético em favor da dieta vegetariana.

O ensaio teve como ponto de partida as experiências de Tolstói desde que ele abandonou o consumo de carne em 1884, quando começou a promover o ideal vegetariano. Tolstói fez uma grande diferença porque se preocupou mais com as implicações morais e éticas do consumo de carne do que com os benefícios da dieta para a saúde.

Campanha contra o consumo de carne

Valendo-se de seu prestígio, Tolstói, sem dúvida, foi um dos grandes responsáveis pelo crescimento do vegetarianismo na Rússia – que teve adesão exponencial por parcela significativa da população após o lançamento de “O Primeiro Passo”. Figuras influentes da Rússia daquele tempo, como Nikolai Peskov, Ilya Repin, Alexander Voeykov, Nikolai Ge, Sergey Esenin e tantos outros se juntaram ao movimento. Entre os que mais simpatizaram com o vegetarianismo estavam cientistas, médicos, professores, escritores e poetas.

Em 1904, B.A. Dolyachenko e um grupo de professores fundaram a primeira revista vegetariana da Rússia. Intitulada “Вегетарианский вестник”, que significa “O Mensageiro Vegetariano”. Em 1909, foi a vez de Isosif Perper fundar e publicar o “Вегетарианскоеобозрение”, ou “O Jornal Vegetariano”, em Kiev. A publicação circulou até 1915.

Em 1909, a Sociedade Vegetariana de Moscou abriu suas portas. Em abril de 1913, foi realizada a Primeira Conferência Nacional Russa de Vegetarianos em Moscou, reunindo mais de 200 participantes. Uma das questões discutidas durante o evento foi a criação de sociedades vegetarianas por toda a Rússia.

Rapidamente surgiram sociedades vegetarianas em Varsóvia, Kiev, Chișinău, Vilno, Minsk, Saratov, Poltava, Odessa, Rostov-on-Don, Carcóvia, Zhitomir, Dnepropetrovsk, Krasnodar, Tumen e muitas outras. Ao final de 1914, o número de membros já chegava a duas mil pessoas, o que favoreceu o surgimento de 73 restaurantes vegetarianos em 37 cidades da Rússia. As refeições vegetarianas nos cafés eram baratas e bem diversificadas: salsichas feitas com ervilhas, hambúrgueres de repolho, panquecas vegetarianas (blini) e muito mais. E tudo era aceito com entusiasmo – como uma ideia original.

Os grandes planos dos vegetarianos russos, que previam transformar a Rússia em referência em vegetarianismo, foram interrompidos com o advento da guerra. Naqueles anos difíceis, e com o clima bastante tenso, os defensores de uma nutrição sem morte logo se tornaram alvos de desprezo e ridicularização.

Isto porque a alimentação vegetariana começou a ser vista como imoral em um cenário em que pessoas morriam aos milhares e a escassez de alimentos era comum. No entanto, os ativistas sociais vegetarianos não desistiram. Eles se voluntariaram para trabalhar em hospitais do exército, fornecendo refeições gratuitas para os militares em seus restaurantes, e também criaram enfermarias especiais para atender os animais usados pelo exército.

Porém, o desenvolvimento do vegetarianismo na Rússia, que tinha tudo para se destacar internacionalmente, servindo de referência para países do mundo todo, encontrou sua mais forte resistência após a Revolução Russa e a implantação do regime soviético, conforme informações do Vegetarianskij. Nesse período, a divulgação do vegetarianismo foi proibida na Rússia. Inclusive ativistas foram presos e o termo vegetariano acabou banido dos dicionários. As sociedades vegetarianas também foram fechadas em todos os territórios da URSS. A última a fechar suas portas foi a Sociedade Vegetariana de Moscou, que resistiu até 1929.

Em 1961, A Grande Enciclopédia Soviética, uma publicação massivamente popular na época, registrou que: “As ideias do vegetarianismo foram fundadas em hipóteses erradas e não tem seguidores na União Soviética.” Somente em 1990, depois da perestroika [reestruturação política do país], o vegetarianismo voltou à luz pública e suas ideias ressurgiram, ganhando novamente força na Rússia.

Fonte

История вегетарианства в России

 

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April 29th, 2017 at 10:19 pm

Para Tolstói, o ser humano não deve fingir ignorância sobre o sofrimento dos animais reduzidos a alimento

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“Para nada serve, a não ser para desenvolver os sentimentos bestiais, a luxúria, a gula, a embriaguez”

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Tolstói via a carne como uma excitadora das piores paixões (Foto: Reprodução)

Em 1892, o escritor russo Liev Tolstói escreveu que quando uma pessoa decide buscar o mais sincero caminho moral, o primeiro passo é a abstinência do consumo de carne, já que o consumo dela é um ato imoral, porque envolve o assassinato de um animal. Tolstói via a carne como uma excitadora das piores paixões, porque é algo que facilmente provoca a gula e a voracidade.

Para o escritor russo, a carne afasta o ser humano de uma série de virtudes. Por isso, ele defendia que quando uma pessoa busca evoluir ou se tornar um ser humano melhor uma importante decisão é abandonar o alimento de origem animal. O que não significa que apenas quem não come nada de origem de animal seja bom.

“Quero somente demonstrar que, para conseguir levar uma vida moral, é indispensável adquirir progressivamente as qualidades necessárias, e que de todas as virtudes, a que primeiro há que conquistar é a sobriedade, a vontade de dominar as paixões. Tendendo à abstinência […], a primeira virtude será a sobriedade na alimentação, o jejum relativo”, registrou o russo no ensaio “O Primeiro Passo”, em referência à alimentação de origem animal.

Segundo Liev Tolstói, o ser humano não deve fingir ignorância sobre o sofrimento dos animais reduzidos a alimento, e deve buscar entender as implicações de suas ações, mesmo que indiretas, no que diz respeito à exploração dos animais não humanos. Sobre o consumo de alimentos de origem animal, ele criticou: “Se pelo menos fosse necessário, ou sequer útil, mas não! Para nada serve, a não ser para desenvolver os sentimentos bestiais, a luxúria, a gula, a embriaguez.”

O escritor declarou que uma quantidade incontável de galinhas e frangos são sacrificados diariamente nas cozinhas, com suas cabeças cortadas e jorrando sangue enquanto estremecem e batem as asas de maneira terrível; e simplesmente para satisfazer um prazer efêmero e nefasto. Ainda assim, muitas pessoas tentam justificar a morte desses animais citando a garantia da própria saúde como parâmetro.

Há quem afirme que não seria capaz de suportar uma alimentação exclusivamente vegetal, e que por ter um débil organismo a carne é essencial. Por outro lado, se diz sensibilizado com a realidade dos animais, alegando inclusive a impossibilidade de testemunhar qualquer privação ou sofrimento animal. Para Tolstói, se uma pessoa está com a saúde debilitada e julga ser impossível viver sem carne, o maior erro subsiste no fato de que na verdade essa pessoa tem problemas de saúde exatamente por nutrir-se de alimentos contrários à natureza humana, ou seja, de origem animal.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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January 28th, 2017 at 3:43 pm

Tolstói: “Não ouçam os médicos antigos que preconizam o uso da carne, porque o fazem unicamente por teimosia”

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Tolstói: “O movimento moralizador que constitui a base de todo progresso se cumpre sempre lentamente”

Quando Liev Tolstói foi questionado sobre o motivo pelo qual ele acreditava que a privação da carne é a primeira etapa para a vida moral, o escritor russo disse que a resposta poderia ser encontrada no livro “The Ethics of Diet”, de autoria do inglês Howard Williams, lançado em 1883.

Segundo Tolstói, a obra representa não apenas a voz de um homem, mas da humanidade, na pessoa de seus melhores representantes desde que chegamos ao que ele chama de idade da razão. Em seu ensaio “O Primeiro Passo”, publicado em 1892, o escritor russo justificou que embora a imoralidade da alimentação de origem animal seja conhecida, a verdade é que ela continua sendo ignorada porque a maioria prefere não confrontar a sua própria consciência moral.

“O movimento moralizador que constitui a base de todo progresso se cumpre sempre lentamente. […] Tal é o movimento vegetariano; este movimento está expresso tão bem por todos os escritos que se incluem no livro citado [The Ethics of Diet], como pela existência da própria humanidade, a qual tende mais e mais, sem que sequer o perceba, a passar da alimentação animal ao regime vegetal, e este movimento se manifesta com uma força particular e consciente no vegetarianismo, que adquire cada vez maior extensão”, escreveu Liev Tolstói.

O escritor fez essa otimista observação depois de ver a evolução do movimento vegetariano, principalmente na Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, onde, no início do século 20, já crescia o número de pousadas e hotéis vegetarianos. Para Tolstói, o vegetarianismo é um sinal da aspiração séria e sincera da humanidade em direção à perfeição moral. Poetizando os desígnios do vegetarianismo, comparou a alegria em ver a evolução do movimento com o exemplo de um homem disposto a alcançar gradualmente o andar mais alto de um edifício.

Para o escritor russo, o melhor caminho é o mais simples, ou seja, é preciso começar subindo o primeiro degrau da escada. “Aqueles que duvidam disso, leiam os numerosos livros escritos por médicos e sábios. Eles provam que a carne não é necessária como alimento. Não ouçam os médicos antigos que preconizam o uso da carne, porque a preconizaram seus antecessores; e o fazem unicamente por teimosia […]”, criticou.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Liev Tolstói e a realidade dos matadouros

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Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”

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Tolstói: “Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras” (Foto: Reprodução)

Em um de seus vários relatos sobre suas experiências em matadouros, o escritor russo Liev Tolstói escreveu que uma vez, quando observava um rebanho, ele notou que o primeiro animal se destacava pela beleza, robustez e cor alva com manchas e extremidades pretas.

“Um jovem animal musculoso e enérgico. Quando tiraram a corda, ele abaixou a cabeça e se deteve com decisão. Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras. O boi lançou os que prendiam a corda, jogando-os contra o chão, e se deteve de novo olhando para os lados com seus olhos negros cheios de fogo”, relatou.

Sua cauda foi violentada mais uma vez, e ele avançou. Quando chegou onde queria, o açougueiro se aproximou, apontou e o golpeou. O mau golpe não fez o boi ceder. Ele agitou com força a cabeça, mugiu e, sangrento e furioso, se soltou e inclinou-se.

Segundo Tolstói, quem estava perto da porta fugiu. Acostumados com o perigo, os açougueiros pegaram a corda e mais uma vez puxaram a cauda do animal. Depois de enganar o boi, fizeram com que ficasse exatamente onde queriam. E de lá, ele não poderia escapar. Um dos açougueiros golpeou o belo animal que, cheio de vida, moveu a cabeça e as pernas enquanto o degolavam e o esfolavam.

Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”, e cortou a pele da cabeça do animal. Cinco minutos depois, a cabeça preta estava vermelha e aqueles olhos, que cinco minutos antes brilhavam com tanta força, estavam vítreos e apagados.

Depois, Tolstói foi ao matadouro de ovelhas, um grande prédio com pavimento asfaltado. Ele viu mesas com apoios, e sobre elas as ovelhas e os bezerros eram degolados. Naquele local com forte odor de sangue, o trabalho tinha terminado e havia somente dois açougueiros.

“Um deles soprava a perna de uma ovelha morta e esfregava com a mão o ventre inchado do animal. O outro, que era moço e levava o avental cheio de sangue, fumava um cigarro. Seguiu-me um homem que parecia um antigo soldado. Levava um cordeiro de um dia, preto, com uma mancha no pescoço e as patas amarradas, e o pôs sobre a mesa”, relatou o escritor russo.

O cordeiro continuava imóvel como a ovelha morta e inchada enquanto eles cumprimentavam-se e conversavam. De acordo com Tolstói, a única diferença era que o animal movia vivamente a pequena cauda e ocasionalmente as laterais, com celeridade.

“O soldado, sem fazer esforço, apoiou a cabeça do pequeno animal na mesa, e o açougueiro, sem parar de falar, segurou com a mão esquerda a cabeça do cordeiro e lhe cortou o pescoço. A vítima agitou-se, a cauda ficou rígida e parou de se mover. Enquanto o sangue descia, o açougueiro acendeu o cigarro”, testemunhou.

Tolstói se surpreendeu com a tranquilidade daqueles homens. Quando o sangue parou de escorrer, o cordeiro se agitou de novo e a conversa prosseguiu sem cessar nem por um segundo.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Written by David Arioch

January 14th, 2017 at 3:15 pm

Tolstói: “Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue”

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“Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois”

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Tolstói: ““A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os casco” (Foto: Reprodução)

Em um dia quente de julho, uma sexta-feira, o escritor Liev Tolstói visitou mais um matadouro em Tula, ao sul de Moscou. Sentiu um odor de sangue ainda mais intenso do que da última vez. O trabalho dos açougueiros prosseguia, e ele observava o pátio cheio de gado. Também havia animais nos galpões adjacentes ao prédio central.  Carretas e mais carretas carregadas de bois, vacas e bezerros chegavam ao matadouro.

Em alguns carros puxados por cavalos, ele viu bezerros vivos empilhados com as patas para cima. Os veículos se aproximavam do matadouro e descarregavam. “Havia ainda outros carros com bois mortos, cujas patas se moviam conforme as sacudidas do veículo. Mostravam suas cabeças inertes, seus pulmões vermelhos e o fígado marrom. Todos saíam do matadouro. Junto à cerca, havia cavalos montados, que pertenciam aos fazendeiros. Estes, com suas longas blusas e de chicote à mão, iam e vinham pelo pátio, ou marcavam com alcatrão o gado que lhes pertencia”, escreveu Tolstói.

Depois de negociar o preço, os fazendeiros vigiavam o transporte do gado do pátio até o galpão, e de lá até o prédio. Todos pareciam preocupados por causa das negociações. Ninguém se importava se era uma boa ou má ação matar aqueles bois. Se importavam tanto com isso quanto com a composição química do sangue que escorria pelo chão”, lamentou o escritor russo.

Não havia nenhum açougueiro no pátio. Todos trabalhavam.  Ao final do dia, tinham matado pelo menos cem bois. Tolstói entrou no prédio central e ficou junto à porta. Ele não poderia entrar porque não havia espaço. Enquanto o gado se amontoava, o sangue gotejava do teto, espirrando nos açougueiros. “Se eu tivesse entrado, também mancharia minha roupa”, enfatizou.

O escritor russo testemunhou um dos homens derrubando um boi enquanto outro animal deslizava por uma das pistas. No mesmo local, um boi com as patas brancas já não agonizava. Morto, era esfolado por um açougueiro. Pela porta oposta, passava um boi vermelho e gordo. Ele resistia enquanto o arrastavam. Mal chegou à entrada, e um açougueiro o golpeou no pescoço com um machado.

Caiu pesadamente no chão, voltou-se de lado e moveu convulsivamente as patas e o rabo. Logo outro açougueiro se lançou sobre ele, pegou-lhe pelos chifres, e fez com que sua cabeça ficasse rente ao chão para que outro açougueiro o degolasse. Pela ferida aberta, o sangue vermelho escuro brotava como de uma fonte, e um menino sujo de sangue o recolhia com uma bacia de metal. Apesar de tudo, o boi se esforçava para não morrer. Não parava de se mover, sacudindo a cabeça e agitando involuntariamente as patas.

“A bacia enchia rapidamente, mas o boi estava vivo e continuava golpeando o ar com os cascos, o que obrigava os açougueiros a afastarem-se. Tão logo a bacia encheu, o rapaz a colocou na cabeça e a levou para a fábrica de albumina, enquanto outro menino trouxe outra bacia”, registrou Tolstói.

O boi esperneava desesperadamente. Quando cessou de correr o sangue, o açougueiro levantou a cabeça do boi e começou a esfolá-lo. O animal não tinha morrido. “Tinha a cabeça já esfolada e vermelha, com veias brancas. Sua pele pendia dos dois lados, e o boi não cessava de mover-se. Outro açougueiro pegou o boi por uma pata, a quebrou e a cortou: o ventre e as outras pernas continuavam estremecendo convulsivamente”, testemunhou o escritor russo.

Sem demora, alguns homens lhe cortaram os membros restantes e os lançaram em um monte, onde já havia muitos membros de animais. Depois arrastaram o boi, já sem vida, até a polia e o penduraram. Da mesma forma, morreram outros três bois. Todos passaram pelo mesmo processo; cortaram suas cabeças, cujas línguas pendiam entre os dentes. Às vezes, o açougueiro não acertava direito o golpe e o boi resistia e mugia enquanto jorrava sangue. Se esforçava para escapar de suas mãos. Sem chance, o arrastavam ao centro do prédio e o golpeavam até cair.

“De perto, vi repetir a mesma operação, e de que maneira se obrigava os animais a entrar. Cada vez que pegavam um boi do galpão e o arrastavam por meio de uma corda amarrada aos chifres, o animal, farejando sangue, resistia, mugia e retrocedia. Dois homens não conseguiram arrastá-lo à força. Então um dos açougueiros se aproximou, pegou o boi pelo rabo, o torceu e rompeu-lhe uma vértebra. O animal avançou temeroso. Quando terminaram de matar os bois de um pecuarista, deram início ao abate dos animais de outro”, confidenciou o escritor russo Liev Tolstói.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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