David Arioch – Jornalismo Cultural

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Tom Regan: “Chegará o dia em que bilhões [de pessoas] não comerão mais a carne de animais mortos nem vestirão suas peles”

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“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou”

Regan: “Qualquer chance de realização dos defensores dos direitos animais depende do crescimento do movimento”

Falecido em 17 de fevereiro de 2017, aos 78 anos, Tom Regan foi um importante filósofo moral da teoria dos direitos animais e professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos. Conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Alguns anos depois, publicou um raro artigo em seu site “The Animals Voice”.

Intitulado “Vegan Choice”, no texto, Regan aborda a sua compreensão do veganismo e da importância das pessoas se absterem de consumir produtos de origem animal, e entenderem, de fato, que a luta pelos direitos animais também diz muito sobre quem somos e o que fazemos enquanto seres humanos. Talvez uma das mensagens mais importantes do artigo seja a de que “é pouco provável que consigamos o que queremos alcançar sem entender a natureza dos desafios que enfrentamos.” Ainda assim, “Vegan Choice” é um texto diverso – com passagens picarescas, realista, ponderado e ao mesmo tempo alentador – em que Regan deixa claro que a descrença não deve vencer quem luta por justiça pelos animais, e que é importante seguir em frente até o “último suspiro”:

No convite que me foi feito nesta ocasião, pediram que me ocupasse de abordar a escolha vegana. Agora, pelo menos na minha experiência, diferentes veganos entendem o veganismo de maneira distinta.

Alguns estão inclinados a pensar nisso como uma escolha alimentar: veganos são pessoas que não comem a carne de outros animais, nem os chamados produtos de origem animal, incluindo leite, queijo e ovos. Assim, os veganos não só seguem um estilo de vida que difere das pessoas que clamam por carne animal do McDonald’s e da KFC; eles também diferem dos vegetarianos que, assim como os veganos, se abstêm da “carne”, mas que, ao contrário dos veganos, consomem ovos ou produtos lácteos. Essa é uma maneira de entender o veganismo: é o nome de uma escolha alimentar.

A Vegan Society entende o veganismo de maneira diferente. Aqui está como eles definem o termo:

“A palavra ‘veganismo’ denota uma filosofia e um estilo de vida que procura excluir – na medida do possível e do praticável – todas as formas de exploração e crueldade contra os animais visando alimentos, roupas ou qualquer outra finalidade; e, por extensão, promove o desenvolvimento e o uso de alternativas livres de animais para o benefício de humanos, animais e meio ambiente. Em termos dietéticos, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados parcialmente ou totalmente de animais.”

Observe como essa definição abrange “todas as formas de exploração e crueldade contra animais”, não só para “alimentação”, mas também para “roupas ou qualquer outro propósito”. A definição do veganismo da Vegan Society inclui, em termos dietéticos, “dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais”. A definição inclui muito mais do que a escolha de uma pessoa do que comer. Ou não.

Então, nós nos reunimos aqui para pensar sobre a “escolha vegana”, e a primeira pergunta que temos a fazer é como entender essa escolha: estritamente (como uma escolha estrita a dieta apenas) ou abrangente (como uma escolha que inclui outros aspectos sobre como vivemos – que roupa usamos, por exemplo). Sempre estive inclinado a pensar sobre a ideia de forma estrita:

Veganismo é o nome de uma prática dietética. No entanto, devo admitir que é difícil para mim dizer que a Vegan Society, que pretende falar por veganos de todos os lugares, não entende a ideia para a qual foi nomeada. É por isso que sugiro, e espero que você concorde, que entendamos “escolha vegana” de maneira ampla [como defendido pela Vegan Society], o que significa que a escolha que estamos considerando é se devemos ou não adotar um modo de vida que procure remover nosso apoio, na medida do possível e praticável, de todas as formas de exploração e crueldade contra animais para qualquer propósito.

Entendida dessa maneira, “a escolha vegana” é indistinguível de outra ideia com a qual muitos (na verdade, provavelmente todos vocês) estão familiarizados: a ideia dos direitos animais ou, para ser mais preciso, a ideia de como seria o mundo se os direitos animais fossem reconhecidos e respeitados. Pois se eles fossem reconhecidos e respeitados, não por poucos, mas por todos, as pessoas não comeriam carne animal ou produtos de origem animal, assim como não usariam roupas feitas de peles ou lã. Por causa de como essas duas ideias (escolha vegana e direitos animais) se amalgamam, vou usá-las de forma intercambiável.

Agora, os veganos não são conhecidos por seu senso de humor. Isso é fato. Mesmo assim, ouvi algumas boas piadas veganas ao longo do caminho. Como:

Por que a galinha atravessou a estrada?

Porque ela estava sendo perseguida pelo Coronel Sanders [em referência ao fundador da KFC].

Ou algo como:

Por que o vegano atravessou a estrada?

Porque ele estava protegendo a galinha.

E tem:

Quantos veganos são necessários para trocar uma lâmpada?

Dois, um para trocá-la e outro para checar se há insumos de origem animal.

Mas também lembre-se:

Quantos vivisseccionistas são necessários para trocar uma lâmpada?

Nenhum, eles não querem que você veja o que eles estão fazendo.

Como o comediante estadunidense Bill Cosby observa: “Você já notou os clientes [veganos] em lojas de alimentos saudáveis? Eles são pálidos, magrelos e parecem meio mortos. Em uma steakhouse, você vê pessoas robustas e coradas – que estão morrendo, claro, mas, ei! eles parecem formidáveis!

Aqueles que me conhecem sabem disso: Se Tom Regan tem uma mensagem central e recorrente é essa: qualquer chance de realização dos defensores dos direitos animais depende do crescimento do movimento – e crescendo não um pouco, mas muito. O que quero dizer com muito? Não quero dizer centenas, milhares ou dezenas de milhares de novas pessoas abraçando os direitos animais. Nem quero dizer centenas de milhões. Não, o que quero dizer com muito é o que o astrônomo Carl Sagan era conhecido por dizer: Quero dizer bilhões e bilhões. Só se chegar o dia em que bilhões e bilhões de pessoas acreditarem e praticarem os ideais que definem o veganismo, amplamente concebido – só então teremos uma esperança realista de alcançar o que queremos alcançar.

Agora, pessoas diferentes podem ter reações diferentes à enormidade do desafio que encaramos. Uma vez que esse desafio é traçado em termos de números reais (e muito elevados), alguns defensores dos animais dirão (a grosso modo): “Meu Deus, a situação é desesperadora!” Alguns irão além e dirão: “A situação é tão desalentadora que estou jogando a tolha – desistindo – abandonando a causa.”

Entendo essas reações. Quem entre nós não olhou para o que está acontecendo com os animais (mais de 50 bilhões são abatidos no mundo todo anualmente, e isso sem contar a vida marinha) – quem entre nós não abriu os olhos para as dimensões incalculáveis do trágico destino que os animais devem suportar, e não se sentiu totalmente exaurido, completamente exausto, totalmente mitigado pelos desafios que enfrentamos? Sentir desespero diante das esmagadoras adversidades é uma resposta humana perfeitamente natural. Também não é muito útil. Nós não nos incluímos aos nossos números subtraindo-nos do total. Deixe me repetir isso porque é importante: Não nos incluímos aos nossos números subtraindo-nos do total.

Não, a esperança para os animais exige que permaneçamos no curso, enquanto pudermos – até o nosso último suspiro, na verdade. Isso é o mínimo que podemos fazer. E é uma promessa muito pequena quando comparada com o que os animais têm que suportar até o último suspiro.

Uma razão pela qual os desafios que enfrentamos parecem tão grandes é porque tentamos imaginar aqueles bilhões de pessoas se juntando às nossas fileiras, mas por outro lado permanecendo do mesmo jeito. Chegará o dia em que bilhões [de pessoas] não comerão mais a carne de animais mortos nem vestirão suas peles; não irão aos circos nem visitarão os parques marinhos; não comprarão cosméticos que foram testados em animais, e não doarão dinheiro para instituições de caridade que apoiam pesquisas com animais; eles não…bem, você pode adicionar à lista do que eles eliminam de suas vidas. Mas além dessas mudanças, muitos de nós parecem assumir que esses bilhões de pessoas são os mesmos que compõem a maioria da população atual. A única diferença é que eles têm que vir para o nosso lado quando se trata do veganismo ou dos direitos animais.

Quero sugerir que esse modo de pensar é simplista demais. Não estamos tentando apenas mudar alguns velhos hábitos sobre o que as pessoas comem ou vestem. Bilhões de pessoas abraçarão os direitos animais apenas se bilhões de pessoas mudarem de forma mais profunda, mais fundamental, e de forma mais revolucionária. O que quero dizer não é nada menos do que isso: Eles devem abraçá-lo e, em suas vidas, devem expressar uma nova compreensão do que significa ser humano. Como seria esse novo entendimento? Aqui (por meio de um esboço grosseiro) está a minha resposta:

Salve não apenas as baleias e o planeta, mas nós mesmos.

Como seria esse novo entendimento? Isso é o que tenho tentado explicar; é isso que a Geração Ti representa. Os desafios que enfrentamos, então, não podem ser reduzidos a convencer bilhões de pessoas a escolherem o veganismo; isso inclui a transformação de quem são as pessoas de hoje em quem elas podem ser amanhã.  Não algumas delas. Muitas. Bilhões e bilhões.

A situação é desalentadora? Devemos abandonar a causa? Acho que não. Pelo menos não até que tenhamos feito sérios esforços para trazer o tipo de mudança revolucionária que tenho descrito. É pouco provável que consigamos o que queremos alcançar sem entender a natureza dos desafios que enfrentamos. Nunca vamos entender a natureza dos desafios que enfrentamos se pensarmos exclusivamente em ter bilhões e bilhões de pessoas abraçando o veganismo. Porque isso é apenas uma parte, não a totalidade da mudança que buscamos. Quanto às perspectivas do nosso sucesso? Encerro citando brevemente as palavras da imortal Margaret Mead: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou.”

Referência

Regan, Tom. Vegan Choice. The Animals Voice.

 





Tom Regan: “Os direitos animais nos levam a fazer um inventário moral de nossa maneira de viver no mundo”

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“Coloco-me entre aqueles que acreditam apaixonadamente nos direitos animais. Mas minha crença apaixonada não flui da emoção cega”

Em “Animal Rights”, Human Wrongs”, Regan usa como referência a filosofia que rege os direitos humanos como ponto de partida para a discussão dos direitos animais (Foto: Reprodução)

Em 2003, um ano antes do filósofo moral Tom Regan, referência na discussão dos direitos animais, lançar o livro “Empty Cages: Facing the Challenge of Animal Rights”, ele publicou um livro intitulado “Animal Rights, Human Wrongs – An Introduction to Moral Philosophy”. Esta obra de introdução à filosofia moral foi apontada por Regan como a que abriu o caminho para o seu trabalho lançado no ano seguinte. Por isso, é justo dizer que “Empty Cages”, lançado no Brasil como “Jaulas Vazias” em 2006, é uma continuidade das discussões de “Animal Rights, Human Wongs”, mas com duas distinções substanciais. Enquanto o livro de 2003 fala quase que restritamente à razão, o segundo, que tem um escopo mais abrangente, clama também ao coração. Sendo assim, para quem já leu uma das obras, ler a outra permite uma compreensão complementar da perspectiva moral de Regan em relação aos animais que objetificamos, matamos e consumimos para atender supostas necessidades.

Em “Animal Rights”, Human Wrongs”, Regan usa como referência a filosofia que rege os direitos humanos como ponto de partida para a discussão dos direitos animais. O filósofo aborda questões bastante controversas envolvendo o contratualismo de Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau; e o utilitarismo gestado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Pode-se dizer que “Animal Rights, Human Wrongs” é um livro com orientações, e características de guia, que perpassam pela realidade, história, equívocos morais e o ideal posicionamento moral em relação aos seres não humanos. Tom Regan oferece respostas e reflexões para questões complexas e até hoje altamente discutíveis em relação à intransigência humana no tratamento destinado a seres não humanos.

A obra, que de certa forma celebrou os mais de 30 anos do envolvimento de Regan com os direitos animais, também pode ser interpretada como um manual sobre como discutir sobre os direitos animais sem deixar-se vencer pelos arroubos da passionalidade – algo que pode impedir que defensores dos direitos animais consigam transmitir uma mensagem eficaz contrária à exploração animal na perspectiva do filósofo.

Logo no prefácio do livro, o autor diz que algumas pessoas, incluindo ele, são apaixonadas pela convicção de que muitos animais não humanos têm direitos; já outras não são menos apaixonadas pela convicção de que eles não os têm:

“A atmosfera emocionalmente carregada em torno dos partisans de ambos os lados é reminiscente de outras questões morais controversas – aborto e ação afirmativa, por exemplo. Para aquelas pessoas (a grande maioria, por acaso) que não têm fortes convicções em relação aos direitos animais, de uma forma ou de outra, é difícil saber o que pensar.”

Registrado isso, Regan busca orientar aqueles que têm muitas dúvidas sobre como lidar principalmente com opositores aos direitos animais, que frequentemente descrevem os defensores desses direitos como irracionais, emocionais, anticientíficos e misantrópicos. Segundo Regan, essas caracterizações ou estereótipos podem ser verdadeiras para alguns, mas elas não são verdadeiras para a grande maioria dos defensores dos direitos animais.

“A estratégia [do livro] é simples. Fazemos perguntas difíceis, exploramos as possibilidades relevantes e procuramos as melhores respostas. Então vemos onde essas respostas nos levam.[…]  Quando seguimos essa estratégia, acredito que a lógica nos leva a uma conclusão simples: muitos animais não humanos têm direitos. Alguns dos desafios que enfrentamos surgem na teoria moral.”

Primeiro o livro apresenta um referencial de ideias fundamentadas em diferentes filosofias morais; e nas nossas relações com essas ideias. Então utiliza esses parâmetros como um arcabouço para as questões que são desenvolvidas e elencadas no decorrer do livro, mas principalmente nos últimos capítulos. Até porque Regan entende que não há como gerir boas respostas se não considerarmos a base e as motivações que dão origens às perguntas, mesmo que nos pareçam picarescas ou provocativas.

“Animal Rights, Human Wrongs” está dividido nos capítulos “Da indiferença à Defesa”, “Exploração Animal”, “A Natureza e a Importância dos Direitos”, “Visões Indiretas do Dever”, “Visões Diretas do Dever”, “Direitos Humanos”, “Direitos Animais”, “Objeções e Respostas” e “Filosofia Moral e Mudança”. Partindo de um princípio introdutório à filosofia moral, Tom Regan cita que naturalmente teóricos morais fazem com frequência dois tipos de perguntas: “O que torna certos atos certos?” e “O que faz com que os atos errados sejam errados?” Afinal, teorias diferentes oferecem respostas diferentes.

“Apesar dessas diferenças, toda teoria tem algo a dizer sobre quem tem posição moral (que conta moralmente). Por exemplo, algumas teorias morais dizem que todos e apenas os seres humanos têm uma posição moral. Se for verdade, a notícia não é boa para animais não humanos. Se for verdade, os animais não humanos não contam para nada moralmente”, cita Regan partindo de uma comum perspectiva antropocêntrica que ele teve de confrontar ao longo de sua carreira em oposição a filósofos que não reconheciam e não reconhecem os direitos dos animais.

Por outro lado, há teorias morais, incluindo a defendida por ele, que dizem que todos os seres sencientes (capazes de sentir prazer e dor) têm uma posição moral. Claro, sendo verdade, esses animais contam moralmente. “Não pode ser verdade que somente os seres humanos tenham uma posição moral”, enfatiza Regan que introduz o leitor ao entendimento do que são os direitos morais, e por que até hoje os seres humanos têm direitos morais embora não os outros animais.

Ele faz isso de forma a permitir que o leitor tire suas próprias conclusões. Ademais, levanta questões envolvendo certo e errado enquanto posição moral, e defende que quanto mais nos deparamos com dúvidas, críticas e argumentos contrários aos nossos mais fortalecemos a nossa filosofia moral em relação aos direitos animais e também a outras questões:

“Nossa exploração dos direitos dos animais, em particular, serve como uma introdução à filosofia moral em geral. A filosofia moral não é apenas teoria; é repleta de significado prático. Isso significa que, além de fazer perguntas teóricas, também precisamos fazer perguntas práticas, incluindo essa em particular: Que diferença faz se os animais têm ou não direitos morais? Como vemos, não há questão mais importante, julgada do ponto de vista dos animais. Se os animais não têm direitos, então nenhuma das maneiras pelas quais os seres humanos os exploram (como fonte de alimento ou roupas, por exemplo) é errada em princípio, e nenhuma necessidade errada deve ser criada se continuarmos a explorá-lo dessa maneira em um futuro indefinido. Por outro lado, se os animais têm direitos, então todas as formas de exploração deles são erradas, em princípio, e cada uma delas deve ser interrompida imediatamente.”

Para entender a importância dos direitos animais, Regan sugere que as pessoas julguem isso do ponto de vista dos animais, porque neste caso a preocupação é elevada à condição primária: “Também não devemos minimizar a importância dessa questão para nós. Se os direitos dos animais são violados quando eles são criados para a produção de alimentos, presos por causa de suas peles ou usados como instrumentos em pesquisas, então temos o dever de mudar a maneira como vivemos, os alimentos que comemos (ou não comemos) e as roupas que vestimos (ou não vestimos).”

De acordo com Tom Regan, nada reflete melhor a maneira como absorvemos e entendemos a moral do que a prática de nossas vidas diárias. No chamamento à discussão moral em relação ao direito à vida não humana, ele discorre sobre questões como aborto e suicídio assistido por médicos como ações de grande significado prático:

“Em contraste, a questão dos direitos animais nos obriga a perguntar o que devemos fazer quando nos sentamos para a nossa próxima refeição ou quando vamos comprar um casaco novo. Os direitos animais são um tipo de investigação que nos leva a fazer um inventário moral de nossas escolhas mais comuns, nossa maneira de viver no mundo. Como eu disse no início, coloco-me entre aqueles que acreditam apaixonadamente nos direitos animais. Mas minha crença apaixonada não flui da emoção cega ou da falta de respeito pela razão, quanto mais pela misantropia. Acredito nos direitos dos animais porque acredito que a teoria moral na qual seus direitos são afirmados é racionalmente uma teoria mais satisfatória do que aquelas teorias em que seus direitos são negados.” Em “Animal Rights, Human Wrongs”, talvez a pergunta mais importante seja: “Como podemos viver uma vida que respeite os direitos dos outros animais?”

Referência

Regan, Tom. Animal Rights, Human Wrongs. Rowman & Littlefield Publishers. 144 páginas (2003).





Tom Regan x Peter Singer: abolicionismo e utilitarismo, uma discussão sobre os direitos animais

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Tom Regan e Peter Singer, abolicionismo e utilitarismo (Fotos: Reprodução)

A rivalidade de Tom Regan e Peter Singer no campo da filosofia moral que rege os direitos animais surgiu publicamente no início dos anos 1980. Mas foi em 1983 que os dois filósofos passaram a representar dois espectros consideravelmente distintos da discussão sobre os direitos animais. De um lado, Regan, autor de obras como “The Case for Animal Rights” e “Empty Cages”, com uma perspectiva mais próxima do que se entende hoje por abolicionismo animal, e “Peter Singer”, autor do clássico “Animal Liberation”, com um posicionamento utilitarista e pragmático que permite concessões no uso de animais em casos específicos.

Dois anos depois que Tom Regan lançou o seu primeiro clássico – “The Case for Animal Rights”, de 1983, Peter Singer publicou uma crítica ao trabalho de Regan no New York Reviews of Books. E desde então, os dois passaram formalmente a se posicionar cada vez mais publicamente sobre suas diferenças no entendimento dos direitos animais. Porém, apesar das disparidades, os dois nunca se viram ou se consideraram como inimigos. Muito pelo contrário, relegavam suas desconformidades apenas ao campo das ideias e da filosofia.

Exemplo emblemático e histórico dessa rivalidade é uma crítica de autoria de Tom Regan publicada no New York Review of Books em 25 de abril de 1985 em resposta ao artigo “Tem Years of Animal Liberation”, de 17 de janeiro de 1985, que comemorou os dez anos de lançamento do livro “Animal Liberation”, de Peter Singer. Na crítica, Regan relata que nos últimos dez anos ele e Peter Singer traçaram caminhos diferentes, aplicando teorias éticas diferentes a uma variedade de questões morais e sociais, incluindo o tratamento dado aos animais não humanos.

Regan registrou que Singer já se esforçava para apoiar seu argumento com base no que ele chama de “movimento de libertação animal” em cálculos utilitaristas: “No livro ‘The Case for Animal Rights’, que recebeu uma resenha de Singer nestas páginas, tentei estabelecer as bases teóricas para o que, em contraste com Singer, chamo de ‘o movimento pelos direitos animais’.”

Em uma discussão sobre a obra “The Case for Animal Rights”, Tom Regan e Peter Singer tiveram um impasse em 1985 sobre uma história hipotética envolvendo o caso de um bote salva-vidas em que alguns seres humanos dividem o espaço com um cão. Porém, para a sobrevivência da maioria, um deles deveria deixar o bote. O dilema baseado em um exemplo, que naturalmente não faz parte de uma realidade comum, acirrou ânimos, mas serviu para ilustrar convergências e divergências entre as perspectivas filosóficas de Regan e Singer na década de 1980:

Nas palavras de Tom Regan

Há mais do que uma diferença verbal aqui. É pelo apelo aos direitos animais que a visão de direitos, como chamo a posição desenvolvida em meu livro, emite sua condenação categórica da escravidão, por exemplo. Essa instituição está categoricamente errada, sejam quais forem as consequências, porque sistematicamente viola o direito dos seres humanos de serem tratados com respeito. A posição de Singer, no entanto – (supondo que os interesses iguais foram considerados igualmente) – é o de que a escravidão esteja errada por causa das consequências, uma posição que, por fazer com que o erro da instituição esteja sujeito consequências, claramente implica que a escravidão não seria errada se as consequências fossem otimistas [sic]. É difícil exagerar a diferença moral radical entre o utilitarismo de Singer e a visão de direitos.

Essa mesma diferença pode ser ilustrada quando consideramos o tratamento dos animais. A visão de direitos oferece uma condenação categórica do uso nocivo dos animais na ciência, por exemplo, exigindo sua total abolição. E faz isso independente dos apelos às consequências, repousando seu caso aqui, como no caso de sua condenação da escravidão, na violação sistemática dessa instituição do direito dos animais de serem tratados com respeito. Como um utilitarista, Singer não pode oferecer uma crítica que seja independente dos apelos às consequências; de fato, ele é obrigado a admitir – e ele tem admitido – que alguns usos nocivos dos animais em benefício da ciência podem ser moralmente permissíveis. A posição de Singer não é antivivissecionista. A visão dos direitos é. Mais uma vez, a diferença entre as duas posições não poderia ser mais clara.

“The Case for Animal Rights”, como a discussão anterior sobre as instituições da escravidão de bens móveis e o uso prejudicial de animais na ciência, pode sugerir uma preocupação com a oferta de uma base para avaliar práticas e políticas sociais em andamento.  Isso é algo que um leitor da crítica de Singer pode perder, já que Singer concentra seu fogo crítico, não neste aspecto do livro, mas na minha breve discussão sobre um caso de salva-vidas: quatro humanos normais e adultos e um cachorro morrerão a menos que um dos humanos sacrifique sua vida; ou um dos humanos ou o cachorro seja jogado ao mar. Seria errado jogar o cachorro no mar nessas terríveis circunstâncias? Eu não acredito que seria, e eu argumento que a visão de direitos apoia este julgamento. Singer, por sua vez, “confessa ter alguma dificuldade em compreender” minha resposta, e pergunta se minha disposição em sacrificar o cão neste caso pode não ser inconsistente com minha oposição categórica ao uso nocivo de animais na ciência.

Não há inconsistência aqui, entretanto, já que os dois casos diferem de maneira moralmente crucial. No caso do uso nocivo de animais na ciência, animais são coercitivamente colocados em risco, riscos que eles não correm de outra forma, para que outros possam se beneficiar. Dia após dia, eles são forçados a correr riscos por nós (e pelos outros), e assim são institucionalmente tratados como se existissem como meros recursos, cujo lugar no esquema moral das coisas é servir aos interesses de outros indivíduos. Essa transferência coercitiva de riscos, de outros para esses animais, quando os próprios animais não correm o risco de sofrer os danos que lhes são impostos é, como explicarei detalhadamente no caso, uma violação indefensável de seu direito de ser tratado com respeito.

O caso do bote salva-vidas é diferente. O risco de morte do cão é assumido como sendo o mesmo de cada um dos sobreviventes humanos. E ainda é assumido que ninguém corre esse risco por causa de violações precedentes de direito; por exemplo, ninguém foi forçado ou enganado a bordo. Os sobreviventes estão todos no bote salva-vidas porque, digamos, uma embarcação maior afundou ou o rio inundou.

Não há indício de inconsistência, portanto, em fazer julgamentos morais diferentes nos dois casos. É errado – categoricamente errado – coercitivamente colocar um animal em risco de dano, quando o animal não correria esse risco, para que outros pudessem se beneficiar; e é errado fazer isso em um contexto científico ou em qualquer outro contexto, porque tal tratamento viola o direito do animal de ser tratado com respeito, reduzindo o animal ao status de um mero recurso, um mero meio, uma coisa. No entanto, não é errado jogar o cão do bote salva-vidas ao mar se o cão corre o mesmo risco de morrer que os outros sobreviventes, se ninguém violar o direito do cão ao colocá-lo a bordo, e se todos a bordo do bote perecerão se continuarem em sua condição atual.

Dado que essas condições são satisfeitas, a escolha de quem deve ser salvo deve ser decidida pelo que chamo de princípio de dano. O espaço me impede de explicar esse princípio aqui (veja o livro “Case For the Animal Rights”, capítulos 3 e 8). É suficiente dizer que ninguém tem o direito de fazer com que o seu menor dano seja maior do que o maior dano do outro. Assim, se a morte seria um dano menor para o cão do que seria para qualquer um dos sobreviventes – (e esta é uma suposição que Singer não contesta) – então o direito do cão de não ser ferido não seria violado se ele fosse lançado ao mar. Nessas circunstâncias perigosas, suponho que nenhum direito de ser tratado com respeito tenha sido parte de sua criação, o direito individual do cão de não ser prejudicado deve ser ponderado de forma equitativa contra o mesmo direito individual de cada um dos sobreviventes humanos.

Ponderar esses direitos dessa maneira não é violar o direito de qualquer pessoa de ser tratada com respeito; exatamente o oposto é verdadeiro, e é por isso que os números não fazem diferença nesse caso. Dado que o que devemos fazer é pesar o dano enfrentado por qualquer indivíduo contra os danos enfrentados pelo outro indivíduo, em relação a um indivíduo, não em relação a uma base coletiva, então não faz diferença quantos indivíduos sofrerão menos, ou qual indivíduo sofrerá mais. Não seria errado lançar um milhão de cães ao mar para salvar os quatro sobreviventes humanos, supondo que o caso do bote salva-vidas fosse o mesmo. Mas também não seria errado lançar um milhão de humanos ao mar para salvar um sobrevivente canino, se o dano que a morte causaria aos humanos fosse, em cada caso, menor do que o dano que a morte causaria ao cão.

Tendo tentado aqui dissipar os fundamentos da confessa “dificuldade” de Singer em entender o meu tratamento do caso do bote salva-vidas, quero enfatizar novamente o meu ponto anterior, que “The Case” tenta oferecer uma base teórica para avaliar a ética das práticas sociais em cursos e instituições, e, no curso disso, atende à tarefa de lançar as bases do movimento dos direitos dos animais. Fazer muito da minha breve discussão sobre uma ocorrência isolada, bizarra e pouco comum – o caso do bote salva-vidas – é perder a maior parte do que “The Case” apresenta, seja [a obra] bem-sucedida ou não.

Nas palavras de Peter Singer

Regan procura enfatizar as diferenças entre a sua visão e a minha. Ele diz que sua posição requer a abolição total do uso nocivo de animais na ciência, enquanto a minha não. É verdade que, numa visão utilitarista, poderia haver circunstâncias em que um experimento com um animal pudesse reduzir tanto o sofrimento, que seria permissível realizá-lo mesmo que envolvesse algum dano ao animal. (Isso poderia ser verdade, aliás, mesmo se o animal fosse um ser humano). Mas se concentrarmos na prática social da experimentação, uma posição utilitarista exige que procuremos acabar com esses trágicos conflitos de interesses, desenvolvendo métodos de pesquisa que não envolvem o uso nocivo de criaturas sencientes. A abolição de todos os usos nocivos dos animais na ciência é, portanto, tanto o objetivo do meu ponto de vista quanto o de Regan.

Mas, Regan protestaria, pois o utilitarismo é apenas um objetivo final; na visão de direitos é um requisito imediato. De fato – pensando ainda na prática social da experimentação como um todo, e não em casos individuais, bons argumentos utilitaristas poderiam ser oferecidos para a imediata abolição da experimentação animal. Seria imensa a quantidade de animais poupados do sofrimento; os benefícios perdidos na melhor das hipóteses seriam incertos; haveria um incentivo que proporcionasse o rápido desenvolvimento de meios alternativos de condução de pesquisas, as mais poderosas imagináveis.

Se, por outro lado, desviarmos nossa atenção da prática social existente de experimentação para casos hipotéticos, então a visão de Regan também não pode consistentemente implicar a abolição total de todos os usos nocivos de animais na ciência. Em minha análise, sugeri que, dado o que ele diz sobre o caso do bote salva-vidas, ele não pode negar consistentemente que seria permissível sacrificar um número ilimitado de cães para salvar uma vida humana. Ele agora responde que o caso do bote salva-vidas é diferente da experimentação animal, porque os animais no bote salva-vidas não foram coagiados à situação em que correm risco de sofrer danos. Essa diferença, no entanto, não distingue a situação do barco salva-vidas de todas as circunstâncias possíveis em que os animais são usados em experiências.

Suponha, por exemplo, que um vírus novo e fatal afete os cães e os seres humanos. Cientistas acreditam que a única maneira de salvar as vidas de qualquer um dos afetados é realizar experimentos com alguns deles. Os sujeitos dos experimentos morrerão, mas o conhecimento adquirido significará que outros afetados pela doença viverão. Nesta situação, os cães e os seres humanos estão em perigo igual, e o perigo não é resultado de coerção. Se Regan acha que um cão deve ser expulso do bote salva-vidas para que os seres humanos possam ser salvos, ele não pode consistentemente negar que devemos usar um cão doente para salvar humanos doentes.

Isso não é tudo. Desde que Regan diz que nesses casos os números não contam, e um milhão de cães deve ser jogado ao mar para salvar um único ser humano, ele teria que dizer que seria melhor realizar o experimento em um milhão de cães do que realizar em um único humano. Aqui podemos ver as extraordinárias consequências da recusa em tomar conhecimento dos números: nas circunstâncias descritas, a suposta visão “totalmente abolicionista” de Regan permite muito mais – na verdade, literalmente e infinitamente mais – experimentação animal do que a visão utilitária que acrescenta que até o dano sofrido pelos cães em algum ponto é muito maior do que o dano que seria sofrido por um único ser humano.

Independentemente dessa consequência infeliz da visão de Regan, parece errado sustentar que o que podemos fazer a um cão em um bote salva-vidas depende de como o cão passou a estar no bote salva-vidas em primeiro lugar. O ponto é bem feito em um artigo não publicado por Dale Jemieson, um filósofo da Universidade do Colorado. Como Jamieson argumenta, dificilmente parece apropriado perguntar, antes de decidirmos colocá-los em nosso bote salva-vidas, se os animais ou pessoas que afogam estão na água porque foram empurrados (o que presumivelmente seria uma violação de seus direitos), ou porque caíram (o que não seria). Portanto, Regan não conseguiu conciliar o que ele diz sobre o caso do barco salva-vidas com seu apoio declarado à abolição total da experimentação animal. Concordo inteiramente, entretanto, que tais casos hipotéticos bizarros não têm nenhum significado prático. O valor prático do livro de Regan está em seus ataques às nossas práticas sociais de usar animais como ferramentas de pesquisa e como meros pedaços de carne viva e palatável. Sobre essas questões práticas, Regan e eu estamos em total concordância. Vista da perspectiva de uma sociedade que continua a aceitar essas práticas, as diferenças filosóficas entre nós pouco importam.

Referência

Regan, Tom; Singer, Peter. The Dog in the Lifeboat: An Exchange. The New York Review of Books (25 de abril de 1985).





Quando Tom Regan pediu ao Papa Francisco para falar sobre a crueldade contra os animais

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Tom Regan pediu ao Papa Francisco para intervir em favor dos animais em 2014 (Fotos: Reprodução)

Falecido no dia 17 de fevereiro de 2017, Tom Regan, um dos mais proeminentes filósofos na luta pelos direitos animais, publicou uma carta aberta em novembro de 2014 pedindo ao Papa Francisco para falar sobre a crueldade contra os animais:

Santo Padre, todos os cristãos imploram a você: fale sobre a crueldade contra as criaturas de Deus, anualmente é negado a bilhões os desígnios de Deus, e eles não são tratados nem com a misericórdia de Cristo nem com a compaixão de Deus.

Ao entrar em mais um ano de seu papado, todos os cristãos oram com fervor e esperançosamente por sua boa saúde e coragem em nome da justiça, misericórdia e paz – tanto na igreja quanto no mundo. Como alguém que compartilha seu compromisso de justiça com todas as criaturas de Deus, fiquei encantado com a sua escolha de nome: Francisco.

De todas as virtudes que o seu homônimo possuía, nenhuma é mais sinônimo de seu nome do que o seu amor pelos animais. Ele os chamava de “irmãos” e “irmãs”, e era famoso por pregar aos pássaros – e até mesmo aos peixes! Em uma ocasião, ele assumiu a responsabilidade de persuadir um lobo a parar de atacar os agricultores locais se eles concordassem em alimentá-lo. Transformar um carnívoro em um vegano? Nada representa melhor o poder de São Francisco.

Como São Francisco acha que seus irmãos e irmãs de pelos, penas e barbatanas devem ser tratados? Ele deve ter acreditado que o que acontece com eles é importante para eles, independente de qualquer interesse humano. Por que ele pensaria nesses termos? Porque o que acontece com eles faz a diferença na qualidade e duração de suas vidas. Ou eles vivem uma vida longa e frutífera, o que São Francisco preferiria, ou eles sofreriam e morreriam prematuramente.

Naturalmente, Papa Francisco, você, como todos nós, certamente acredita que maus-tratos a qualquer uma das criaturas de Deus são contra a vontade de Deus. Se os animais têm direitos ou não, claramente merecem ser tratados com misericórdia, bondade, gratidão e simpatia, respeito e admiração. Quem em sã consciência pode ser contra o cuidado humano no tratamento das criaturas?

Bem, evidentemente isso depende. Considere alguns exemplos do que acontece com animais em laboratórios de pesquisa. Gatos, cães, primatas não humanos, e outros animais são afogados, sufocados e morrem de fome. Eles são queimados, submetidos à radiação e usados como “cobaias” em pesquisas militares. Seus olhos são removidos cirurgicamente e sua audição é destruída. Eles têm seus membros decepados e órgãos esmagados. Meios invasivos são usados para causar-lhes ataques cardíacos, úlceras e convulsões.

Eles são privados do sono, submetidos a choques elétricos e expostos a extremos de calor e frio. Cada um desses procedimentos e resultados está em conformidade com todas as leis federais em todos os lugares. Cada um está em conformidade com o que os inspetores federais consideram como “cuidado e tratamento humano.” Essa mesma ideologia se aplica a como os animais criados em fazenda são tratados. É um procedimento padrão fazer com que os bezerros “vitelos” passem a vida confinados individualmente em baias estreitas, tão estreitas que são incapazes de se virar.

As galinhas poedeiras vivem um ano ou mais em gaiolas do tamanho de um gaveteiro, são sete ou mais por gaiola, e depois disso são rotineiramente mantidas famintas por duas semanas para incentivar outro ciclo de produção de ovos. Porcas são alojadas por quatro ou cinco anos em barras cercadas individuais (“gaiolas de gestação”), pouco mais largas que seus corpos, onde são forçadas a dar à luz ninhada após ninhada. Até recentemente, devido ao susto da [doença da] “vaca louca”, o gado bovino e leiteiro, muito fraco para resistir, foi arrastado e enviado para o abate. Gansos e patos são alimentados à força com o equivalente a 30 libras [mais de 13 quilos] de comida por dia para aumentar o seu fígado para melhor atender a demanda por foie gras.

Todas essas condições e procedimentos demonstram a falta de compromisso da indústria com a misericórdia e gentileza, compaixão e simpatia. E o que a criação “humanitária” de peles ou armadilhas permite? Aqui estão alguns exemplos.  Em fábricas de peles, martas, chinchilas, guaxinins, linces, raposas e outros animais são confinados em gaiolas de tela metálica enquanto suas vidas durarem. As horas de vigília são gastas andando de um lado para o outro, ou balançando a cabeça, ou pulando para os lados de suas gaiolas, ou se mutilando, ou canibalizando seus companheiros de gaiola.

A morte é causada pela quebra de seus pescoços, ou por asfixia (usando dióxido de carbono ou monóxido de carbono), ou empurrando hastes elétricas em seus ânus para “fritá-los” de dentro para fora. Os animais presos em armadilhas instaladas na natureza levam uma média de 15 horas para morrer. As vítimas frequentemente mastigam os seus próprios membros na tentativa inócua de recuperar a sua liberdade. Apesar da óbvia crueldade, tudo isso é perfeitamente legal.

Santo Padre, todos os cristãos imploram a você: fale sobre a crueldade contra as criaturas de Deus, anualmente é negado a bilhões os desígnios de Deus, e eles não são tratados nem com a misericórdia de Cristo nem com a compaixão de Deus. Entre seus outros problemas e preocupações, por favor, honre São Francisco de Assis e o chamado do Catecismo levantando sua voz em nome dos outros animais de Deus.

Tom Regan foi professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos. Conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 1983, publicou “The Case for Animal Rights”, que teve grande repercussão no contexto mundial dos direitos animais. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil.

Tradução: David Arioch





 

Richard D. Ryder: “Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade”

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Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana”

“Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China” (Foto: Kim Stallwood)

Richard D. Ryder é um psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico que em 1970 cunhou o termo “especismo”, uma forma de discriminação que se baseia na ideia de que pelo fato do ser humano considerar outros seres inferiores, ele ignora seus interesses em não sofrer, inclusive negando-lhes o direito à vida. Ao longo de mais de 40 anos, Ryder escreveu importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.

Em 2010, Richard D. Ryder publicou na Critical Society, Issue 2, uma versão comentada e atualizada do seu folheto “Speciesism”, distribuído em Oxford em 1970 como uma reação contrária às experiências com animais. Logo o termo especismo passou a ser estendido a todas as formas de exploração contra animais não humanos, incluindo, claro, criaturas reduzidas a produtos e alimentos.

Na publicação da Critical Society, Ryder afirma que as revoluções de 1960 contra o racismo, sexismo e classismo ignoraram completamente os animais. Todos pareciam estar preocupados em reduzir somente o preconceito contra seres humanos. “Eles não tinham ouvido falar de Darwin? Eu odiava o racismo, sexismo e classismo também, mas por que parar nisso?”, declarou e acrescentou que como cientista ele já sabia que outras espécies de animais também sentem medo, dor e aflição, assim como nós.

A princípio, o panfleto “Speciesism”, que Ryder distribuiu em Oxford, não teve nenhum efeito. Então ele mudou a sua tática. Reimprimiu o texto com uma ilustração de um chimpanzé usado em experiências e infectado com sífilis. “Pedi a um amigo, David Wood, que incluísse seu nome para que o folheto tivesse um endereço universitário e o enviei às universidades. Desta vez tive algumas respostas. Um dos destinatários era um jovem filósofo australiano chamado Peter Singer. Em poucos meses, ele entrou em contato comigo. Muita coisa aconteceu desde então”, revelou.

No panfleto, o psicólogo afirma que desde Darwin os cientistas têm concordado que não há uma diferença essencialmente “mágica” entre seres humanos e outros animais, falando biologicamente. “Por que então moralmente fazemos uma distinção quase total? Se todos os organismos estão em um contínuo físico, então eles também devem estar no mesmo contínuo moral”, defendeu.

No panfleto, Richard D. Ryder faz uma observação bem crítica em relação ao especismo ao frisar que sob condições especiais de laboratório talvez seja possível acasalar um gorila com um professor de biologia. “Será que a prole peluda será mantida em uma gaiola ou em um berço? […] É costume descrever o homem de Neandertal como uma espécie diferente de nós, uma especialmente equipada para sobreviver à Era do Gelo. No entanto, a maioria dos arqueólogos agora acredita que essa criatura não humana praticava o enterro ritual e possuía um cérebro maior que o nosso. Suponha que o elusivo e abominável Homem das Neves, quando apanhado, acabe por ser o último sobrevivente desta espécie de Neandertal, daríamos a ele um assento na ONU ou implantaremos elétrodos em seu cérebro super humano?” As questões levantadas lembram os conflitos e a “evolução” do símio Peter apresentada por Franz Kafka no conto “Ein Bericht für eine Akademie” ou “Um Relatório para a Academia”, publicado em 1917.

Exemplos hipotéticos como os citados anteriormente por Ryder podem chamar a atenção para a falta de lógica da nossa posição moral em relação à exploração animal. Independente do direito à vida, ele pondera que um critério moral claro é o sofrimento, o sofrimento ocasionado pelo confinamento, medo, tédio e dor física, entre outros exemplos.

Se assumirmos que o sofrimento é uma função do sistema nervoso, então é ilógico argumentar que outros animais não sofrem de maneira semelhante a nós. Na realidade, é precisamente porque alguns outros animais têm sistemas nervosos tão parecidos aos nossos que eles são extensivamente estudados. Em relação aos argumentos a favor de experiências com animais, Ryder aponta inúmeras inconsistências. Há cientistas que dizem que o avanço do conhecimento justifica todos os males. Será que realmente justifica?

Suponhamos que em um determinado experimento as chances de sofrimento de um animal são mínimas, e as probabilidades dessa experiência auxiliar a medicina aplicada é excelente, ainda assim isso não seria especismo? “E como tal é um argumento emocional egoísta, não fundamentado. Se acreditamos que é errado infligir dor a animais humanos inocentes, então a única lógica, falando filogeneticamente, é estender a nossa preocupação sobre direitos elementares aos animais não humanos”, escreveu Richard D. Ryder no panfleto publicado originalmente em 1970.

Além de lutar pela proibição de testes em animais, Ryder, que tem mestrado em psicologia experimental e doutorado em ciências políticas e sociais pela Universidade de Cambridge, se envolveu diretamente em campanhas contra a criação de animais para consumo, e campanhas de proteção aos elefantes, baleias e focas. Desde 1985, o psicólogo qualifica a sua posição moral como painism (painismo), que diz respeito ao reconhecimento de direitos para todas as criaturas que sentem dor, um assunto que é exaustivamente abordado no seu livro “Speciesism, Painism and Happiness”, de 2011.

Na perspectiva do psicólogo, o painismo é uma terceira via entre a posição utilitarista do filósofo australiano Peter Singer e a visão deontológica de direitos do filósofo estadunidense Tom Regan, já que combina a visão utilitarista de que o status moral vem da capacidade de sentir dor com a proibição sob a ótica de direitos de que é errado usar outros seres sencientes como meios para um fim, desconsiderando as implicações disso para vítima.

O painismo considera o utilitarismo falho porque nesse sistema ético a tortura ou estupro é “justificável quando os benefícios totais compensam as dores da vítima”, o que é um absurdo, segundo Ryder, se considerarmos que os limites da experiência são os limites do indivíduo. Ou seja, não é porque várias pessoas tiveram prazer em um ato que o sofrimento de uma vítima pode ser considerado secundário. Uma ação não deixa de ser errada ou imoral porque dezenas, centenas ou milhares foram beneficiados.

Embora o trabalho de Richard D. Ryder contra a objetificação animal tenha ganhado mais visibilidade nas últimas décadas, a sua luta começou há muito tempo. Em 1969, ele participou de um protesto contra a caça às lontras em Dorset, no sudoeste da Inglaterra. Foi nessa época que ele realmente se interessou pela questão dos direitos animais e enviou três cartas sobre o assunto para o jornal The Daily Telegraph. Em um dos textos, intitulado “Rights of Non Human Animals” ele usou como referência o seu próprio trabalho como pesquisador para condenar as pesquisas com animais.

A romancista Brigid Brophy, também defensora dos direitos animais, leu as cartas de Ryder e o apresentou a Rosalind Godlovitch, Stanley Godlovitch e John Harris, três estudantes de pós-graduação da Universidade de Oxford que estavam editando a obra “Animals, Men and morals: An Inquiry into the Maltreatment of Non-Humans”, uma coleção de ensaios sobre direitos animais lançada em 1971.

O grupo que mais tarde recebeu o nome de Oxford Group, e atraiu novos membros, sedimentou o caminho de Ryder como ativista pelos direitos animais. Eles não apenas produziam material, mas também realizavam encontros, reuniões, imprimiam e distribuíam folhetos em crítica à exploração animal. Logo a luta contra exploração de animais para consumo se tornou uma das prioridades, assim como à rejeição à experimentação animal.

Em 1973, Peter Singer escreveu uma resenha do livro “Animals, Men and morals” para o The New York Review of Books, enfatizando que o artigo “Experiment on Animals”, que integra a obra, e escrito por Richard D. Ryder, era um apelo à criação de um movimento de libertação animal. O trabalho influenciou Singer a escrever o livro “Animal Liberation”, de 1975. Na obra, Singer aborda o especismo no quinto capítulo; o que ajudou a popularizá-lo mundialmente, passando mais tarde a ser incluído inclusive nos mais importantes dicionários.

Em 1977, Richard D. Ryder assumiu a posição de chairman do conselho da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA) e ajudou a coordenar a primeira conferência acadêmica de direitos animais realizada em agosto de 1977 em Cambridge. O resultado foi a criação de uma “Declaração contra o Especismo”, assinada por 150 pessoas. Com a ajuda de Ryder, o conselho, que se dedicava principalmente à proteção de animais de companhia, passou a dar grande importância às questões envolvendo fazendas industriais, experiências laboratoriais caça e esportes com animais.

Em 9 de março de 2011, a “AR Zone – A Record of Rational Discourse” publicou uma entrevista histórica e bastante esclarecedora com Ryder. O psicólogo relatou que uma tática usada por ele para divulgar o termo “especismo” foi mencioná-lo sempre que era convidado a dar alguma entrevista. “Naquele tempo, a mídia gostou porque era algo novo, mas o meio acadêmico demorou para reagir em relação a isso”, comentou.

Segundo Richard D. Ryder, o especismo ainda não chegou ao fim, embora as pessoas estejam se tornando mais conscientes, porque existe um consolidado discurso que atrela a existência dos animais à utilidade em benefício humano. “Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana. Essas pessoas vão lutar com unhas e dentes para proteger o seu ‘direito’ de comer carne. Eles ficam muito irritados se forem desafiados. A carne é uma forma genuína de dependência? Ou é basicamente um impulso básico carnívoro que está geneticamente incorporado em alguns seres humanos, mas não em todos nós? Realmente não sei se essa pesquisa foi feita. Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade, e sem sentir falta. Mas também há outros que determinam as políticas que parecem ‘precisar’ de carne tanto quanto sexo. Eles desejam isso! Esse problema requer pesquisa”, informou em entrevista à AR Zone.

Para Ryder, se quisermos realmente fazer a diferença na vida dos animais, não devemos ter medo de expressar nossas opiniões sobre isso. “Entre em contato com deputados, professores e editores, assim aumentando a importância moral dessa questão. Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China”, escreveu na versão atualizada do panfleto “Speciesism”, publicado em 2010.

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Richard D. Ryder se candidatou duas vezes ao parlamento inglês. Também é conhecido por suas incansáveis campanhas para convencer os partidos políticos a tratarem a proteção animal como uma questão política.

Referências

Ryder, Richard D. Speciesism (1970). Privately printed leaflet. Oxford (2010).  

Ryder, Richard D. Speciesism, Painism and Happiness: A Morality for the 21st Century. Societas. Imprint Academics (2011).

The Encyclopedia of Animal Rights and Animal Welfare. The Oxford Group. Páginas 261-262 (2009).

Ryder, Richard D. The Struggle Against Speciesism (1979).

Singer, Peter. Animal Liberation (1975). New York Review Books. Página 269.

http://www.62stockton.com/richard/index.html

Professor Richard Ryder Interview





Tom Regan: “Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado”

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“Embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas acreditam”

“Acredito que ambas as ideias [de Peter Singer] não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais” (Acervo: The Animals Voice)

Embora o filósofo australiano Peter Singer tenha feito uma grande diferença no movimento moderno em defesa dos direitos animais, em parte, pela publicação do livro “Animal Liberation” em 1975, que se tornou um clássico para o movimento dos direitos animais, com o tempo o seu discurso passou a ser criticado por outros importantes nomes da luta pelos direitos animais. Antes de falecer em 17 de fevereiro de 2017, o filósofo estadunidense Tom Regan, um dos teóricos mais proeminentes na defesa pelo abolicionismo animal, e que fazia oposição ao utilitarismo de Singer, concedeu uma entrevista a Claudette Vaughan, do Vegan Voice, explicando quais os seus principais pontos de discordância em relação à filosofia de Peter Singer.

Tom Regan, autor do clássico “Empty Cages”, de 2004, relatou que com o tempo Peter Singer passou a defender unicamente duas ideias principais: “[De acordo com Singer], Primeiro, devemos considerar os interesses de todos e ter igual igualdade de interesses. Segundo, depois de ter feito isso, devemos fazer o que traz o melhor equilíbrio geral dos interesses dos afetados. A primeira ideia diz respeito ao procedimento: o que temos que fazer antes de decidir o que é o certo a se fazer?  A segunda ideia diz respeito ao julgamento moral: o que é o certo a se fazer? Acredito que ambas as ideias não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais.”

Regan discordava de Singer quanto ao procedimento de consideração de interesses porque, de acordo com ele, isso significa colocar em uma balança, e em nível de igualdade, não apenas os interesses dos explorados, mas também dos exploradores em continuar fazendo o que fazem. Para Regan, a perspectiva ética de Singer em relação ao procedimento, ou seja, o que temos de fazer antes de decidir o que é certo, é perigosa, porque, com base nisso, alguém pode dizer também que é importante considerar os interesses de estupradores, proprietários de escravizados e pedófilos antes de julgar que o que eles fizeram e fazem é absolutamente reprovável e inaceitável.

“Similarmente, acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado. Minha posição não poderia ser mais oposta a essa ideia. Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado, isto porque estão violando os direitos de alguém”, justificou Tom Regan a Claudette Vaughan.

Tom Regan afirmou em entrevista ao Vegan Voice que muitas pessoas acreditam que o seu trabalho e o de Singer são muito similares. “‘Singer não diz o mesmo?’, ‘Singer não acredita nos direitos animais?’ Para essas perguntas, a resposta honesta é: ‘Não, ele não diz a mesma coisa. Não, ele não acredita nos direitos animais.’ E se alguém pergunta: ‘No que ele acredita então?’ A resposta é: ‘Ele acredita nas duas ideias que descrevi.’”

“Acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado” (Foto: American Anti-Vivisection Society)

Regan citou que Peter Singer não acredita que a vivissecção seja sempre errada, apontando que o filósofo australiano crê que há situações em que a vivissecção é justificável. “Se os resultados estão em melhor equilíbrio do que se fossem obtidos de outra maneira, então sua visão é a de que não há nada de errado em usar animais em pesquisa. Este é um motivo pelo qual penso que as ideias de Singer são prejudiciais aos animais. Minha posição não poderia ser mais oposta à sua”, explicou o filósofo a Claudette Vaughan.

Tom Regan enfatizou que as pessoas não deveriam ficar chocadas ao saberem disso, levando em conta que Peter Singer diz que não é moralmente errado ter relações sexuais com animais. “Desde que o sexo ocorra em local privado, e assumindo que os participantes estão gostando, ele não vê nada de errado nisso. Isso é perfeitamente condizente com as duas principais ideias de Singer. Na verdade, isso é exigido pelas suas duas principais ideias. Novamente, a minha posição não poderia ser mais oposta a dele. Na minha visão, bestialidade é sempre moralmente errada pelas mesmas razões que sexo com crianças é moralmente errado: os direitos daqueles que não podem dar o consentimento são violados”, criticou.

O filósofo estadunidense argumentou que a última coisa que os animais precisam é que os exploradores de animais insinuem que os ativistas da militância pelos direitos animais estão reivindicando direitos para que possamos ter sexo mutuamente satisfatório com seres não humanos: “Quero dizer, meu Deus! Se isso acontecesse, os ativistas seriam vistos como desonestos, na melhor das hipóteses, e depravados, na pior das hipóteses. Em ambos os casos, o que os ativistas dizem em nome dos animais seria totalmente desconsiderado. Seria muito difícil calcular o dano maciço que seria causado aos animais. Então, embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, além de eu gostar muito dele como pessoa, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas da militância pelos direitos animais acreditam. Espero que isso se torne mais claro à medida que avançamos. E precisa ser assim.”

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Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, Tom Regan conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Outras de suas obras de referência são “All That Dwell Therein: Essays on Animal Rights and Environmental Ethics”, de 1982; e “The Case for Animal Rights”, de 1983.

Referência

Vaughan, Claudette. An American Philosopher: The Tom Regan Interview. Vegan Voice. Republicado pela Animal Liberation Front (ALF).





Luiz Felipe Pondé: “O que eu acho do veganismo?”

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“Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”

Pondé comete um equívoco ao dizer que veganismo é sobre pureza

Assisti um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo. Obviamente, o meu objetivo não é desconsiderar o seu trabalho enquanto filósofo nem a sua figura humana, mas sim apontar falhas substanciais no seu discurso “O que eu acho do veganismo?”

Enquanto fuma um charuto, Pondé começa dizendo que uma pessoa sem vícios não deve ser merecedora de confiança. Bom, discordo, até porque tento sempre evitar generalizações. Na minha opinião, vícios, quase sempre surgem com escolhas pessoais e em muitos casos como consequência de uma fragilidade que pode inclusive reafirmar uma volatilidade moral, já que o vício reflete uma ausência de autocontrole, e isso pode implicar em prejuízo não apenas para si mesmo como também para os outros. Sendo assim, essa fragilidade pode criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós. Mas, claro, ainda vivemos em uma realidade em que cada um é livre para optar ou não por ter vícios.

Pondé afirma que é contra qualquer tipo de pureza, a busca pela pureza. Bom, veganismo não é sobre pureza. Claro, buscamos o abolicionismo animal, mas não vivemos imersos em uma realidade ultrarromântica. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impactos na vida dos animais. Segundo o filósofo, “as pessoas têm o direito de comer o que quiser, contanto que não seja outros seres humanos.” Esse é um ponto crítico sob a perspectiva vegana. O chamado “direito” do ser humano de se alimentar de outras criaturas não foi” concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade, já que consiste em subjugar outros animais sencientes e conscientes, ignorando seus interesses, ou seja, o direito à vida.

“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”. Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’

A opinião de Luiz Felipe Pondé, ao defender o ato de matar animais e consumi-los como um direito é evidentemente especista e antropocêntrica. Em síntese, é uma defesa de status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado. O seu posicionamento não reconhece a defesa dos direitos animais e menos ainda a legitimidade da teoria abolicionista animal, que defende que os animais não existem para os nossos próprios fins, em qualquer circunstância.

Pondé diz que não cabe condenação a quem consome proteína animal. Acredito que depende. Não vejo necessidade em atacar pessoas, realmente, até porque isso é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, considero imprescindível criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais, até porque as pessoas não costumam refletir sobre o seu papel em relação as outras espécies, por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pela própria finitude.

Para Pondé, muitas pessoas aderem ao veganismo “por uma certa tensão puritana”. Discordo. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal. Pelo menos desconheço quem faça isso, e se há casos desse tipo é uma questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho dos seus principais pensadores e teóricos. A observação de Pondé me parece mais próxima do vegetarianismo místico do que do veganismo quando cita “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos. Na realidade, o veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “ Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que fazer isso?”

Pondé enfatiza que outro grande equívoco é “a ideia de que você pode se retirar da cadeia de violência da natureza”. Bom, não conheço veganos que afirmam categoricamente que estão completamente livres da cadeia de violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal. Como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina. Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso? Por que não mostrar para as outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal.

Outra observação feita pelo filósofo Pondé é a de que o veganismo “deixa a experiência humana do gosto um pouco cerceada”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são eles que dão inclusive sabor aos alimentos de origem animal. Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é a prova maior de que ninguém morre sem consumir animais.

Luiz Felipe Pondé também diz que veganos consideram quem come carne como assassino. Bom, não vejo dessa forma, e acredito que quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume. A própria literatura vegana e dos direitos animais discorre sobre isso exaustivamente. Para Pondé, veganos buscam uma espécie de pureza que não existe. “Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”.

Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo alguns excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos. Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que ela pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade.

Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais. Comparar veganos com terroristas é bastante surreal, levando em conta que não há registros de arbitrariedades desse tipo praticadas por veganos. Você não encontra veganos violentando quem não é, matando pessoas. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos.

“Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, é uma espécie de guru, apesar de que muitos veganos nem sabem disso”, afirmou Pondé. Não duvido que haja veganos que realmente nunca ouviram falar em Peter Singer e em seu livro “Animal Liberation”, porém isso não faz de alguém mais ou menos vegano, até porque obras de direitos animais quando chegam ao Brasil costumam custar caro, logo não são realmente acessíveis. Além disso, depois de Singer, e principalmente a partir dos anos 1980, outros filósofos e pensadores também escreveram sobre o assunto, inclusive seguindo por um caminho diferente e independente de Singer. Também é importante considerar que hoje em dia há muito material sendo produzido sobre o tema e disponibilizado na internet em forma de artigos, o que também tem contribuído bastante para uma melhor conscientização em torno do veganismo e dos direitos animais. Ou seja, não há mais uma dependência de meios tradicionais.

“O que eu critico no veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.” Sobre essa citação de Luiz Felipe Pondé eu devo dizer que a considero bem baralhada. Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto que o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação. Na realidade, o veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Acredito que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal.

Ou seja, em que a subjugação ou morte de um ser vivo é romantizada e celebrada. Exemplos disso são as embalagens de produtos, os comerciais da Sadia, etc. Ou até mesmo a histórica e recorrente dissociação entre produto e morte. Essa negação, no meu entendimento, também é uma “percepção sensorial estética infantil da realidade”, assim como situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo o caso recente em que uma moça ficou horrorizada porque encontrou um mamilo em um pedaço de bacon. Isso não seria “percepção sensorial estética infantil da realidade”? Eu digo que sim.

Em síntese, achei o vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo vacilante e equivocadamente pontual. Quero dizer, me parece que ele se baseou em alguns exemplos de comentários que viu por parte de alguns veganos na internet e usou isso para fundamentar a sua crítica, ignorando o que realmente é a filosofia de vida vegana, e provavelmente não tendo a preocupação de buscar sólidas referências. Ademais, não posso deixar de reconhecer que há um ponto positivo nessa crítica. E qual seria? Ele não teria feito um vídeo falando de veganismo se o tema não estivesse em evidência. Então é claro que as críticas vão crescendo de acordo com a visibilidade e adesão ao veganismo. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, uma das referências filosóficas de Pondé, no capítulo 2 do quinto livro de “Wealth of Nations”: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”

 

 





Tom Regan: “Aprendi como algumas pessoas na Índia consideram comer uma vaca algo terrivelmente repulsivo”

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Aprendi como algumas pessoas na Índia consideram comer uma vaca algo terrivelmente repulsivo. Eu descobri que sentia o mesmo em relação a gatos e cães: eu jamais poderia comê-los. Será que vacas são tão diferentes de gatos e cães que existem dois padrões morais, um que se aplica a vacas, e outro que se aplica a gatos e cães? E porcos, serão tão diferentes? Será que algum dos animais que eu comia era tão diferente? Estas eram as perguntas que nunca me deixavam. Antes que estivesse pronto para aceitá-las, eu já sabia minhas respostas.

Quanto mais eu pensava no assunto, mais convencido ficava de que precisava tornar urna decisão: ou eu tinha de mudar minhas crenças e sentimentos em relação a corno os animais de companhia deveriam ser tratados, ou eu tinha de mudar minhas crenças e sentimentos em relação ao tratamento dispensado aos animais criados nas fazendas para consumo.

Por fim, incapaz de achar um desvio honesto do dilema – e, dado o poder dos velhos hábitos e das tentações gustativas associadas a costeletas de carneiro, galinha frita e hambúrgueres grelhados na churrasqueira, tenho de confessar que tentei desesperadamente encontrar esse desvio – acabei escolhendo a segunda alternativa.

No meu caso, então, foi urna combinação da vida e do pensamento de Gandhi, de um lado, com a vida e a morte do meu amigo canino de outro – urna combinação clássica de razão e emoção que me motivou a iniciar minha jornada para urna consciência animal mais ampla.

Tom Regan em “Empty Cages”, lançado em 2004.





Tom Regan: “Comer animais, comer sua carne, como eu fazia, certamente encorajava seu abate”

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Fora seu pacifismo, Gandhi me fazia um desafio novo, que falava diretamente aos hábitos da minha vida. Embora escrevesse para todo e qualquer leitor, ele parecia estar falando pessoalmente comigo. Era como se ele quisesse saber como eu, Tom Regan, podia ser contra a violência desnecessária, como a da Guerra do Vietnã, quando os seres humanos são as vítimas, mas apoiar este mesmo tipo de violência (violência desnecessária) quando as vítimas são os animais.

“Por favor, me explique, professor Regan”, a voz de Gandhi pedia, da página, “o que aquelas partes de corpos mortos (isto é, ‘pedaços de carne’) estão fazendo no seu freezer? Por favor, explique, professor, como é que o senhor pode reunir ativistas antiguerra na sua casa e lhes servir uma vítima de outro tipo de guerra, a guerra não declarada que os humanos estão empreendendo contra os animais?” Não tenho certeza, mas tive a impressão de detectar um sorriso furtivo e sarcástico no rosto de Mahatma.

Claro que Gandhi estava certo sobre algumas coisas. Comer animais, comer sua carne, como eu fazia, certamente encorajava seu abate, um modo verdadeiramente horrível e violento de morrer, algo que mais tarde eu acabaria conhecendo de perto, quando, mesmo sentindo uma forte aversão ao que estava fazendo, vi porcos, galinhas e vacas encontrarem seu fim sangrento.

Páginas 48 e 49 de Empty Cages (Jaulas Vazias), de Tom Regan.

 





A surpresa de Tom Regan em sua primeira grande conferência sobre proteção animal

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Tom se recusou a se alimentar de animais

Depois de tornarem-se vegetarianos, o filósofo Tom Regan e a esposa Nancy decidiram participar de uma conferência sobre proteção animal na Universidade de Cambridge no verão de 1978. O tema naquele ano era o “laço que envolve humanos e outros animais”. Regan ficou extremamente empolgado com a possibilidade de conhecer os maiores pensadores da época tratando-se da questão animalista.

Porém, à noite, durante o primeiro jantar realizado pelos organizadores da conferência, Tom e Nancy ficaram chocados quando viram que o prato principal era “filé wellington”, que consiste em filé mignon coberto por massa folhada. O café da manhã oferecido ao casal incluía presunto, bacon, salsichas e arenque. Os almoços contavam inclusive com pâncreas de bezerro e fatias de língua ensanguentada. Na segunda noite, a comissão organizadora da conferência ofertou aos convidados um jantar com carne de veado selvagem. Nos outros dias, serviram perna de carneiro assada e vitela cordon bleu.

Constrangidos nessas situações, Tom e Nancy pediam que lhes preparassem algo livre de qualquer ingrediente de origem animal. O filósofo não considerava correto passar o dia discursando sobre os deveres humanos para com os animais e depois alimentar-se deles. Quando a comissão organizadora foi informada da recusa de Tom e Nancy em alimentar-se de animais, interpretaram aquilo como insolência, um tremendo desrespeito. Na realidade, os poucos vegetarianos da conferência passaram a ser vistos com maus olhos.

Apesar de tudo, a experiência serviu para mostrar ao casal de defensores dos direitos animais que diferentes pessoas entendem a proteção animal de diferentes modos. A importante lição influenciaria o caminho trilhado por Tom e Nancy, e reforçaria o posicionamento dos dois em relação ao que acreditavam e lutariam para defender, mesmo que isso custasse confrontar muita gente ligada à proteção animal.