David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Um garoto com raiva

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Arte: The Slum Boy 2, de Bijendra Pratap

Conheci um garoto na Vila Alta que vivia com raiva, com uma notável expressão carrancuda. Ele disse que não tinha controle sobre o que sentia.

— Você está com raiva?
— Sim.
— Com que frequência?
— Todo dia, toda hora.
— Há quanto tempo?
— Não sei dizer não, senhor.
— O que te deixa alegre?
— Não sei dizer – respondeu com um sorriso tímido.
— Cadê seus pais?
— Tenho não. Moro com minha vó.
— Você tem raiva de alguém em específico?
— Tenho raiva da vida.
— Por que a vida te deixa com raiva?
— Porque eu não existo.
— O que é existir pra você?
— As pessoas me enxergarem de verdade.
— Quem te enxerga de verdade?
— Acho que quase ninguém.
— Como você sabe disso?
— Porque ninguém me elogia, nunca.
— Então ser elogiado é uma forma de existir?
— Sim…
— Por quê?
— Sei lá. Porque significa que alguém acha que faço alguma coisa certa, que tenho alguma coisa boa, qualidade.
— E quantas vezes já te elogiaram?
— Poucas.
— E como você se sentiu?
— Feliz…
— Se você recebesse um elogio sincero por dia acha que não sentiria mais raiva?
— Acho que sim, né?
— Que tal começar a anotar os elogios que recebe das pessoas para não esquecê-los?
— É…pode ser.
— Talvez você não se recorde dos elogios que já recebeu porque recebe mais críticas, mas isso não significa que tenha recebido poucos elogios ao longo da sua vida. A verdade é que quando somos criticados com muita frequência, temos uma tendência a esquecer as coisas boas que já nos disseram. Nossa mente nos força de algum modo a relegá-las à insignificância quando nos mantemos em estado de negatividade. Coisas boas acontecem, mesmo que não tanto quanto gostaríamos. Elas existem, e surgem, em algum lugar, até quando fechamos os nossos olhos. Os elogios podem saltar da nossa própria mente, como um presente para nós mesmos.
— Acho que sim…
— Sempre que alguém te falar algo de bom, memorize e anote.
— Você vê alguma qualidade em si mesmo?
— Às vezes…
— Me dê um exemplo…
— Nunca prejudiquei ninguém…
— Isso é muito bom.
— E por que você nunca prejudicou ninguém?
— Porque é errado. Não gosto de fazer mal para ninguém, nem gente nem bicho.
— Isso é um exemplo de que você tem um bom caráter.
— Será?
— Sim.
— Não tenha dúvida disso, porque nesse caso a dúvida serve apenas para dificultar a sua própria aceitação. Quero dizer, se você não reconhece uma qualidade que atribuem a você, isso pode ser um problema, porque significa que você se recusa a se ver como os outros o veem. Se fosse mentira, tudo bem, mas não é o caso. Se falam de uma qualidade genuína, que tem a ver com a forma como você vive e age, não tem porque não concordar.
— É…acho que sim.
— Em muitos casos, as pessoas dizem coisas ruins não porque elas são más. É uma forma de defesa. Por exemplo, estou incomodado com algo, logo me sinto vulnerável, e acabo por direcionar isso para alguém. Então se eu não tiver controle, acabo por ofender e magoar as pessoas. Você já fez isso?
— Sim…
— Foi bom?
— Não…
— Pois então…
— Você ainda está com raiva?
— Não.
— Por quê?
— Porque você disse que tenho bom caráter, e eu tenho mesmo.

É importante enxergar a intenção para além das palavras. Muitas vezes o que parece ácido ou agressivo pode ser a couraça da sensibilidade.

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Written by David Arioch

June 25th, 2017 at 10:44 pm

Sobre morrer de tristeza

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Por causa de tristeza, minha bisavó perdeu o interesse pela vida e parou de se alimentar (Foto: Arquivo Familiar)

Quando eu era criança, sempre ouvia minha mãe dizendo que minha bisavó morreu de tristeza, porque um de seus filhos foi assassinado e o outro cometeu suicídio. Um com pouco mais de 30 anos e o outro com 26 anos. Aquilo me surpreendia, porque eu não entendia como alguém poderia morrer de tristeza.

Na adolescência então entendi que a tristeza realmente não mata, mas o que ela acarreta sim. Por causa de tristeza, e provavelmente depressão (algo ainda desconhecido há quase 50 anos), minha bisavó perdeu o interesse pela vida e parou de se alimentar. Então descobriu um câncer e faleceu algum tempo depois.





Written by David Arioch

June 17th, 2017 at 7:25 pm

Posted in Reflexões

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Idosos e a depressão

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O "Velho Homem em Tristeza", pintado por Van Gogh em 1890

O “Velho Homem em Tristeza”, pintado por Van Gogh em 1890

Nas últimas semanas tenho conversado com idosos com mais de 85 anos e que sofrem de depressão. Me contaram que agora começaram a se sentir mais próximos da morte. Alguns porque restam poucos de suas gerações.

“Com 80 anos, ainda me sentia um pouquinho jovem”, disse um deles sorrindo. E percebi que todos eles têm uma mesma opinião reproduzida com palavras distintas.

“O mais difícil hoje é ter uma mente jovem em um corpo fustigado. A mente quer o que o corpo já não permite. Ele cobra por nossas ações. É como uma derrota difícil de aceitar”, comentou um senhor de 86 anos.

Written by David Arioch

May 24th, 2016 at 10:49 pm

Meu pai e eu, a despedida que não aconteceu

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Quando segurava sua mão, eu a sentia fria e frágil. Queria apertá-la, mas temia lhe ferir os dedos

Douglas, meu pai e eu dois anos antes de descobrirmos a doença (Foto: Acervo Familiar)

Douglas, meu pai e eu dois anos antes de descobrirmos a doença (Foto: Acervo Familiar)

No dia 21 de setembro de 1997, domingo, uma semana antes do meu aniversário, eu dormia em um colchão no quarto do meu irmão Douglas quando ouvi minha mãe chamando. Olhei para a porta e a vi nos observando naquela manhã que nem a primavera antecipada garantiu o sol aquecendo nossa janela. As luzes estavam apagadas, assim como o sol que costumava invadir nossa casa com um esplendor enternecido e jubiloso.

Cães e gatos, que se engalfinhavam por brincadeira todas as manhãs, também endossavam um silêncio que ecoava um vazio inenarrável. “David, Douglas, preciso muito dizer uma coisa… É muito sério… Seu pai não resistiu e morreu…”, revelou minha mãe com olhos afogueados e um tom de voz aluído que denunciavam ter ensaiado aquele momento por várias horas. Nos calamos por segundos que pareciam minutos. Então ela se afastou, se esforçando para reprimir a emoção.

Levei as mãos ao rosto e esfreguei os olhos que formigavam mais do que lã em eczema. “Poderia ser apenas uma alucinação, vai saber.” Prossegui com a fleuma, me negando a aceitar a gravidade da situação. Afinal, na minha concepção juvenil de finitude ninguém morria até que eu o visse morto. “Não, ele não pode ter morrido. É meu pai e pais não podem viver menos de 100 anos. Como ele tem 56, ainda restam 44. Não sei onde ele tá, mas tenho certeza que vai se levantar.”

Apesar da descrença no passamento, me sentei, aproximei os joelhos do peito e divaguei pelo passado recente. Lembrei das vezes em que fiquei de castigo sentado no chão ao lado da cabeceira enquanto meu pai lia um dos quatro ou cinco livros escolhidos a cada semana; um castigo que não era tão castigo porque me permitia ler junto. Recordei também das noites em que eu tinha de tocar polca no quarto. Com o passar das horas, parecia um martírio e eu só pensava em dormir. Criança que era, não tinha a mínima ideia de que um dia sentiria falta de suas cobranças, castigos, reprimendas, discursos bravios e das vezes em que simulou me bater e judiou da cama.

Algum tempo depois, me levantei, fui até o quintal e observei o céu. Apesar de tudo, ele continuava igual, na sua apatia que prenunciava a aurora primaveril. Até a pequena plantação de hortelã seguia galharda, exalando profuso frescor. Aquilo era uma ofensa pra mim que perdi meu pai na madrugada. “Vou lá fora!”, pensei. Abri o portão, coloquei os pés na calçada e notei que o mundo não mudou porque meu pai partiu. Crianças atravessavam a rua rindo e correndo. Cães de diversos tamanhos latiam e mostravam os dentes entre as grades dos portões, tudo para tentar intimidar os passantes.

Logo ouvi o sino da igreja simulado por um disco de vinil e dezenas de pessoas caminhando até ela, assim como se repetia todo domingo. A padaria a 50 metros de casa estava aberta, recebendo os fregueses. “Por que ninguém se importa?”, me perguntei enraivecido. Quando vi sombras e vozes em frente ao portão de casa, me afastei e retornei a passos rápidos para o quarto do meu irmão.

Deitei no colchão e fiquei por lá, aventando minhas voláteis conclusões: “Claro! Se tá tudo igual é porque meu pai não morreu. Deve ser algum tipo de engano.” Então mirei o teto com a visão ligeiramente difusa e pensei que talvez fosse uma boa ideia ir até o hospital vê-lo. Em poucos minutos, veio um novo choque de realidade. Minha mãe retornou e perguntou se preferíamos ir ao velório ou ficar em casa.

Ilusão desfeita, eu e meu irmão nos entreolhamos e hesitamos por alguns instantes. No entanto, numa situação como essa, a resposta era previsível. “Prefiro ficar…”, respondemos juntos. Ela entendeu e respeitou nossa decisão, pois desde sempre não tínhamos o hábito de ir a velórios nem a enterros. No caso do meu pai em especial, a ideia de jamais vê-lo morto não era simplesmente uma forma de preservar a imagem que tínhamos dele, mas também a esperança de que um dia ele poderia retornar.

Por um momento, fui até o quarto do meu irmão Juninho, contíguo ao da minha mãe, e o observei no berço. Balançava as perninhas rechonchudas com o vigor de uma pedalada. Seus olhos grandes, redondos e castanhos cintilavam como avelãs envernizadas. A agitação hasteava a camisetinha com estampa do “Tico e Teco”, expondo a barriguinha farta. Nascido há um ano, sorria com doçura, mostrando a vivaz gengiva nua e os poucos dentinhos enquanto apontava a mão para um móbile de animaizinhos que giravam sobre sua cabeça.

A vida me parecia um jogo de chegadas e partidas. “Mas por que a partida tinha de ser do meu pai?”, reclamava. E assim minha mãe assumia total responsabilidade sobre três crianças que sabiam nada ou quase nada da vida, do mundo e dos seres humanos. Apesar de tudo, eu e Douglas não choramos, não gritamos, não brigamos com ninguém. Seguimos nossas vidas em silêncio. Nem mesmo na escola tocamos no assunto. Entre nós a reticência também era imperativa. Por que deveríamos dizer algo a alguém? Era um mundo distorcido, tanto quanto uma pintura do Otto Dix.

Com o tempo a consternação se intensificou, despertada num rompante insólito. A ausência tinha consequências progressivas – fustigava e dava lições de vida e morte. Crescia aos poucos, abrindo espaços entre o coração e o cérebro, como se formasse raízes no cerne da existência. O vácuo deixado pelo meu pai amplificava a impressão de um mundo oco em que não é dado aos bons seres a oportunidade de corrigirem suas falhas e renascerem. Com 13 anos, concluí e amarguei no coração diminuto, como uma noz prestes a ser esmagada, a ideia de que o mundo nunca foi justo porque não cabe a ele fazer qualquer tipo de justiça. Apenas segue de acordo com o curso das nossas ações, independente do nosso estado de consciência ou passionalidade.

Tardiamente, me via na esteira da dualidade, interpelando: “Que seja! Por que a vida não poderia imitar um jogo de videogame? Continuar de onde paramos. A morte deveria ser sinônimo da vida, um reinício e não um fim.” Era impossível esquecer que durante um ano e oito meses vi meu pai definhando aos poucos. Ele se esforçou para tentar levar uma vida normal. Quando recebeu a notícia de que estava com câncer de pulmão, deu um sorriso e, com um olhar sereno, comentou: “Vai dar tudo certo. É só um probleminha passageiro.”

Em Maringá, acompanhei meus pais até o Hospital Paraná em muitas sessões de quimioterapia e radioterapia. No começo, tudo ia bem. Meu pai continuava se alimentando normalmente e fazia brincadeiras enquanto aguardava atendimento. Em meses, perdeu os cabelos, mais de 20 quilos e sua pele que era rosácea se tornou translúcida e esquálida. As maçãs do rosto se afundaram a ponto de abrir fendas nas laterais que raleiam o maxilar.

Ele continuava acreditando na própria recuperação, assim como nós. Após um ano recebemos a melhor notícia de nossas vidas. Meu pai estava curado! Saímos até para festejar. Era incrível! Então a doença voltou… Depois de buscar métodos alternativos que não funcionaram, ele começou um novo tratamento no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. O resultado foi ainda mais agressivo e o seu peso caiu pela metade.

Era difícil reconhecê-lo, e eu já não o via tanto porque precisava ir para a escola. Em casa, meu pai repousava em um quarto adaptado à sua situação. Quando segurava sua mão, eu a sentia fria e frágil. Queria apertá-la calorosamente, mas temia lhe ferir os dedos. Seus olhos estavam mais baixos do que nunca. Quebrantado, fazia poucos movimentos com a boca e seus lábios tinham de ser umedecidos constantemente para não ficarem ressequidos e sangrarem.

Seu corpo escanzelado ocupava pouco espaço em um colchão d’água que evitava escoriações na pele delgada. Era azul como o mar e o céu que contemplou tantas vezes com uma expressão enlevada. Um dia, quando eu estava ao lado da cama sentado em uma cadeira, me pediu, com a voz embargada e paulatina, para ler um trecho de “O Andarilho das Estrelas”, do Jack London.

“…Sorri para mim mesmo um imenso sorriso cósmico e mergulhei na imensidão da pequena morte que fazia de mim o herdeiro de todas as eras e o cavaleiro de reluzente armadura a cavalgar o tempo.” Meu pai me olhou, fechou os olhos e dormiu sem desfazer o terno sorriso. Foi a última vez que conversamos.

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Água dos Esquecidos

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“Imaginava um ambiente digno do realismo mágico, onde as pessoas pareciam dispersas no tempo”

"Lugar onde frondosas árvores carregadas de lichia se inclinam sobre as grandes e velhas moradas"

“Lugar onde frondosas árvores carregadas de lichia se inclinam sobre as grandes e velhas moradas”

Há muito tempo, existiu uma colônia rural entre Alto Paraná e Paranavaí que ficou conhecida como Água dos Esquecidos. Ainda na infância me perguntei a origem desse nome que mais tarde se perdeu na minha memória, assim como estradas, rotas e trilhas de um passado que conheci através de relatos das gerações anteriores.

Quando criança até sonhava com a Água dos Esquecidos; a idealizava. Já adulto, imaginava um ambiente digno do realismo mágico, onde as pessoas pareciam dispersas no tempo e no espaço, alheias ao mundo civilizado e ao progresso, reféns da ingenuidade e do desconhecimento benevolente. Após muitos anos a curiosidade voltou à tona com a chegada de duas tias-avós e a narração de histórias sobre a vida campesina nos anos 1950. Fiquei tão instigado que quis procurar o tão falado lugar onde frondosas árvores carregadas de lichia se inclinam sobre as grandes e velhas moradas de madeira, ornamentando fachadas e janelas com tons e matizes de amarelo, laranja e vermelho, além de um bálsamo castiço e mélico.

Então saí de casa em um domingo depois do almoço. No incerto caminho para a Água dos Esquecidos havia muita lama, poças d’água com mais de meio metro de altura e árvores tombadas pela intempérie da semana anterior. “Sei não, sinhô, mas pra gente isso é sortilégio. Óia a marca no tronco d’árve, é serviço pra num deixa ninguém passa”, disse um lavrador das imediações, justificando a queda de uma árvore aparentemente saudável com algumas grandes inscrições no tronco. O rapaz de fala frugal, que talvez por costume, ansiedade ou timidez tenha o hábito de suprimir sílabas, trajava uma velha camiseta de flanela, uma calça de estopa e um par de sandálias feitas de vegetais. O agradeci, me despedi e fiz o contorno pelo carreador de uma propriedade onde o caseiro, um senhor idoso, acenou e consentiu que eu continuasse o trajeto até a próxima saída.

Mais adiante, percorri 15 quilômetros de estrada estreita e irregular, quando fui surpreendido por duas garotinhas de oito ou nove anos que passaram correndo na minha frente. Usavam uniforme escolar típico de um passado longínquo, com listras em preto e branco e avental com peitoril bege. Aproveitei para descer do carro e pedir informações. Me olharam, sorriram com brevidade e atravessaram uma cerca de arame farpado. Corri alguns metros, mas logo desapareceram entre os laranjais. Continuei dirigindo até chegar a uma fazenda que vi em uma foto familiar de 13 de junho de 1957. Como saía muita fumaça da chaminé, concluí que havia pessoas morando no local. Me aproximei, bati palmas e fui recepcionado por um homem branco de estatura baixa, olhos azuis, cabelos ralos, poucos dentes, pele enrugada e rosto bastante manchado pela irrestrita exposição ao sol. “Vamo cheganu, Jão! Tô passanu o café!”, falou o anfitrião antes de dizer o próprio nome ou me interpelar.

Andei por um trilho enlameado e atravessei uma porteira. Assisti galinhas correndo em círculo em torno de um pastor alemão que raleava a grama com o focinho. A poucos metros dali, uma porquinha circulava livremente carregando no dorso um sabiá-laranjeira bastante confortável lhe amaciando o couro com os pés. Deixando as distrações de lado, entrei na casa e, enquanto eu o esperava retornar do quarto, observei pela janela alguns cômodos. Estava tudo exatamente como vi nas inúmeras fotos de 1957 a 1963, parte de um acervo familiar. Os móveis coloniais, a decoração, nada mudou; nem a posição do sofá. Até o peso da porta da sala que dava acesso ao restante da casa era o mesmo – um lírio almofadado e descorado. Aquilo me intrigou sobremaneira e não resisti em perguntar como conseguiu a proeza de conservar um cenário tão histórico. Ele não entendeu e riu, levando as mãos finas e enrugadas ao rosto. “Que cê tá falanu aí, Jão? A gente conversou inda ontionti”, comentou num tom de voz afável e fragilizado. Aceitei a xícara de café amargo e notei um pequeno moedor de café colonial e azul, com a pintura já opaca e parcialmente descascada.

O café aromatizava a sala com tanto esplendor que tive a impressão de estar próximo de uma torrefadora. Nas primeiras bebericadas senti um sutil gosto de ferrugem e tentei disfarçar. O anfitrião percebeu e argumentou: “Num tá muito bão, né? É que esse inda é dos último pé de café e olha que só sobreviveu pela amargura de existi. Num sobrô mai nada.” Aproveitando a quietude, voltei minha atenção ao fogão à lenha, onde as chamas do braseiro fulguravam inadvertidamente. Em suas formas sinuosas, o fogo resplandecia numa força sempiterna – ora sutil, ora insipiente. Talvez se considerasse autossuficiente, não reconhecendo que sua existência dependia da lenha. Então me recordei da história de amor vivida por Joazino. Ecoava na minha mente com a intensidade do cheiro da panelinha com um pouco de arroz carijó que contrastava com o bule de café e o doce de abóbora e gengibre recém-embalado em folhas de bananeira – todos bem dispostos sobre o fogão à lenha. Só me dispersei por um momento, quando comentou como era difícil acreditar que eu ainda estava vivo depois do que fiz.

Me deu um tapa vaporoso nas costas e virou o rosto para enxugar com a manga da camisa cinza e surrada as lágrimas que escorriam pelas maçãs delgadas do rosto. “Tô feliz q cê tá qui! Inda onti cê tava caído sem vida com os zóio virado do avesso. Agora me fala por que tomô quele veneno?”, indagou Joazino Tibicuá. Constrangido, sem saber como reagir, dei um sorriso pejoso e pedi para mudar de assunto. A conversa seguiu por várias direções, se estendeu por horas, e pouco falei diante de um anfitrião ansioso por exteriorizar tantas emoções, sentimentos e ideias. Evocando a relatos ouvidos na adolescência, lembrei que Joazino teve só uma namorada, de nome Margarida. O relacionamento dos dois era baseado em olhares e frases curtas, sempre assistido por algum parente. O primeiro toque de mão levou semanas. Meses depois veio o primeiro abraço. Durou alguns segundos, o suficiente para o jovem Tibicuá jamais esquecer o aroma adocicado de Cashmere Bouquet que Margarida trazia no corpo.

A relação não foi longe por pressão da mãe de Joazino que não aceitava dividir o filho com outra mulher. A possibilidade dele deixá-la a irritava a ponto dela simular enfermidades e se automutilar. Depois do abraço, nunca mais teve notícias da primeira namorada. Ainda assim prometeu a si mesmo que não desistiria da companheira. Aguardaria o falecimento da mãe para não contrariá-la. Embora tenha dado à luz a Joazino em idade avançada, a mulher viveu até os 113 anos, tempo o suficiente para esvair a mocidade do último dos Tibicuá; agora um homem de corpo miúdo, fustigado pela vida, pelo tempo e por uma credulidade encontrada somente em crianças. A tão sonhada liberdade amorosa foi transformada numa eterna lembrança. Joazino se apegou a ela com tanto paroxismo que se condicionou a encarar o passado como realidade presente, ignorando anos, décadas e as transformações do mundo.

Quando pedi licença para pegar água em um filtro de barro escuro, percorri todo o interior da residência, inclusive o banheiro, e percebi que não havia espelho nem energia elétrica. Mais tarde, Joazino pareceu aliviado e satisfeito com a prosa. Nos despedimos sem que eu lhe revelasse que me confundiu com o seu melhor amigo João, meu tio-avô falecido em 1962. Também omiti que a moça com quem um dia pretendia se casar faleceu há mais de 25 anos, vitimada por pneumonia. Comovido pela situação daquele homem de quase 80 anos, não vi senso de justiça em tirar-lhe o brilho e a jovialidade dos olhos, o privando dos prazeres, mesmo que umbráticos, de sonhar acordado. O amor tornado platônico talvez tenha evitado que seus olhos assumissem um aspecto cristalino opaco, típico dos que já não aspiram nada da vida e aguardam apenas o último suspiro.

Curiosidade

O último pé de café ao qual Joazino Tibicuá se refere foi cortado no final dos anos 1970.

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Reminiscências de um suicida

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As imagens persistem como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca

"Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais" (Pintura: Rudolf Brink)

“Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais” (Pintura: Rudolf Brink)

As reminiscências ecoam na minha mente como bruscos flashes do que vivi. Lembro dos momentos de corriqueira harmonia, mas que me foram plenos como o infinito. Os cães correndo pela casa ao encontro de um abraço humano amortecido por pelos grossos e brancos. O aroma vindo da cozinha e deslizando como ondas radiantes ao encontro de minhas narinas que o absorviam com um suave suspiro a olhos fechados.

Sinto como se fosse hoje os dissabores das discussões durante as viagens, mas que sempre terminavam num resplandecente ar de calmaria e reflexão. Época em que os sorrisos eram mais preciosos que a matéria-prima de qualquer ourivesaria. Ao momento que a representação dos sons, imagens e fragrâncias vão me confortando, sinto a pontada que me sorve a existência. Minhas têmporas dilatam a cada imagem do passado, como se a dor rogasse pelas simples, mas representativas alegrias.

Percebo meus lábios secos que um dia já foram úmidos e corados como morangos frescos e silvestres. O abstêmio azedo em minha boca sorvendo um entorpecente filete de sangue. Sangue formador de pequenos traços que fomentam uma abstração do vermelho; obra de fazer inveja a Tristan Tzara. Decidido por uma ignóbil saída, abracei as mãos da finitude, esta que me fora apresentada como um doce caminho percorrido por quem tropeçou no abismo das inverdades.

A pólvora fora uma das grandes invenções da humanidade, e talvez sem a qual eu não tivesse decidido por evitar o futuro da lúdica realidade. A bala que se aloja em minha cabeça gera aflição enquanto forma uma pequena cascata à sua volta. O sangue derrama-se como uma pequenina bica de mina ao mesmo tempo em que se confunde com as inquilinas lágrimas de meus olhos. Como a relação do pequeno riacho com a sua nascente (essa que preconiza o fim das ilusões em chão). O salgado orvalho transparente em ablução com o doce vermelho (segundo os falsos princípios da vida).

Apresento-me imóvel e relativamente lúcido a derrocada do meu mundo paralelo, ao tempo que pressinto a lugubridade do meu final se aproximando da emancipação da carne. As imagens persistem em meu espólio mental como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca. Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais.

O universo paradoxal me deixa a melindrar entre o falso puritanismo e a misantropia, como se a minha existência fosse desvanecendo numa macabra, mas pueril e complacente liturgia. Tornei-me um todo poderoso, senhor da própria morte, que antes do meu último suspiro deixei levar com o sangue toda uma enganosa virtuosidade ideológica. Mas, previamente ao mortiço, antes do meu consciente estardalhaço, consenti uma reflexão que me acalmou as células, o fato de que o mundo em que vivi era tanto de Odin como de Fenrir.

A crônica acima, a minha primeira publicada em um jornal, foi escrita em 2004.

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A alegria e a tristeza de ser analfabeto

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“Me considero um ignorante de sorte porque carrego dentro de mim centenas de histórias”

João Silvano: “Agora não quero aprender pra não sentir remorso pelo que perdi” (Foto: David Arioch)

Pedro Silvano: “Agora não quero aprender a ler pra não sentir remorso pelo que perdi” (Foto: David Arioch)

Baixinho, franzino, e de cabelos brancos e fartos, o aposentado Pedro Silvano nunca aprendeu a ler e escrever. Hoje, com 86 anos, afirma que já não tem mais interesse no significado das letras e das palavras. “Queria saber ler quando era mais novo. Agora não quero aprender pra não sentir remorso pelo que perdi”, conta num tom de voz remansoso.

Entre um gole e outro de café amargo, o aposentado relata que chegou a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, em 1954, fugindo da estiagem que assolava Iguatu, no Ceará. “Abandonei minha terra, onde já não crescia nada, e vaguei como um retirante no final da década de 1940”, narra. A situação era a mesma que a vivida pelo vaqueiro Fabiano do romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, lançado na década anterior. Inclusive Silvano também sabia lidar com gado.

Acompanhado do irmão também analfabeto, chegou a São Paulo contando com a sorte e a gentileza de pessoas que encontrou pelo caminho. Viajou levando apenas duas peças de roupa, um saco de farinha com rapadura e um puído par de sandálias feito à mão. “Vivia numa selva de analfabetos. Difícil era encontrar quem sabia ler e escrever”, garante em referência aos anos 1940 e 1950.

Na capital paulista, viu pela primeira vez um arranha-céu – Edifício Altino Arantes, conhecido como Banespão, que o fez sentir-se “menor do que uma muriçoca”. “Tinha medo que aquilo caísse em cima de mim. Até comentei com meu irmão: ‘Quim, chega pra lá que não acho que a gente tá seguro aqui não. Melhor tirar os calço logo’”, lembra rindo.

"Abandonei minha terra, onde já não crescia nada, e vaguei como um retirante" (Foto: David Arioch)

“Abandonei minha terra, onde já não crescia nada, e vaguei como um retirante” (Foto: David Arioch)

Quando observava placas, cartazes e jornais, tentava interpretar o conteúdo através das imagens. Cada observação cuidadosa tinha um significado peculiar para Pedro, na tentativa de compensar o vácuo da informação escrita. “Tenho certeza que uma imagem não é vista da mesma forma por uma pessoa analfabeta e outra que não é. Quem sabe ler às vezes nem presta atenção na imagem. Como analfabeto que sou, sobrevivi porque fui obrigado a ver informação sem ver palavra”, confidencia.

Apesar das dificuldades, o analfabetismo o livrou da morte em São Paulo. Com apenas 20 anos, Silvano conheceu ocasionalmente um homem que lhe prometeu um bom trabalho como meeiro em uma fazenda de café em Londrina, no Norte do Paraná. Ingênuo, ficou muito feliz. Então o sujeito pediu que o cearense fosse até as imediações da Estação da Luz ao final do entardecer de 21 de novembro de 1949 para receber as últimas informações sobre o novo serviço.

“Como eu não sabia ler, acabei me atrapalhando e fui parar a mais de três de quilômetros do local onde ficamos de nos encontrar. Só achei o lugar certo à noite. Quando cheguei lá, vi a polícia e um rapaz morto. O homem que disse ter um serviço pra mim assassinou aquele menino a facadas e levou todo o seu dinheiro”, revela.

Assim como Pedro Silvano, o jovem também foi ludibriado pela promessa de um bom trabalho em Londrina. Um dos investigadores explicou que o criminoso agia em grupo e possivelmente era responsável pela morte de nove migrantes nordestinos. O cearense se recordou que o assassino lhe perguntou pela manhã se ele tinha algumas economias para recomeçar a vida em outro lugar. “Respondi que sim. Ele só sorriu e falou que assim ficaria mais fácil me ajudar porque o patrão dele só queria gente de visão, não gente morta de fome e desesperada”, rememora.

"Sobrevivi porque fui obrigado a ver informação sem ver palavra" (Foto: David Arioch)

“Sobrevivi porque fui obrigado a ver informação sem ver palavra” (Foto: David Arioch)

Dias depois, Pedro ouviu falar novamente de Londrina quando estava em um bonde. Intrigado, conversou com o irmão sobre a cidade e juntos decidiram se arriscar no Norte do Paraná. Se despediu de São Paulo levando lembranças de uma criança pulando a cerca, uma mulher amamentando um bebê, dois homens bem vestidos apertando as mãos e o riso da cantora Carmen Miranda. Eram imagens publicitárias do achocolatado Toddy, leite condensado Moça, medicamento Melhoral e creme dental Eucalol.

“Uma musiquinha de rádio que ‘grudou na minha cabeça’ naquele tempo era a da Brilhantina Glostora. Cantava assim: ‘A elegância masculina, ô ô ô ô, Aurora, brilha mais com brilhantina, ô ô ô ô, Glostora’. Ainda tinha aquele chiadinho de fundo que fazia sonhar acordado”, cita com um sorriso largo. Depois de alguns anos em Londrina, Silvano ficou sabendo que havia melhores oportunidades no Noroeste do Paraná. Por isso se mudou mais uma vez.

Em Paranavaí, descobriu na prática que alguns fazendeiros tinham preferência por colonos analfabetos, justificando que poderiam dar menos problemas do que os “letrados”. Preocupado com a situação, Pedro Silvano, que sabia realizar as quatro operações básicas de matemática, decidiu se reunir escondido com outros colonos para ensiná-los o que sabia. “Muita gente era enganada, então mesmo sem saber ler e escrever eu fazia o possível pra contribuir”, afirma, referindo-se a uma época em que mais de 50% da população brasileira com idade acima de 15 anos era analfabeta, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O cearense, assim como muitos outros migrantes com quem trabalhou, ajudou vários patrões a enriquecerem antes e depois da monocultura cafeeira. “Não ganhei o suficiente para ficar numa situação confortável. Patrão nenhum permitiria isso. Eles queriam o colono como dependente deles. Talvez eu também não tenha enxergado as boas oportunidades. Só comprei minha primeira casa há menos de dez anos. Mas agora não quero perder tempo me queixando. Vou apenas continuar vivendo, aproveitando a vida como posso”, pondera enquanto limpa o quintal com as mãos calejadas, de pele tão fina que parecem diáfanas. Antes de se despedir, Pedro Silvano exibe com orgulho uma pequena horta onde cultiva alface, rúcula, cenoura, tomate, abobrinha, manjericão, ervilha, cebola e espinafre. “Agora você viu minha riqueza”, declara com um olhar pudico e singelo.

Pedro Silvano se reunia com a família em torno de uma fogueira

O migrante cearense Pedro Silvano começou a trabalhar com seis anos e, apesar de nunca ter ingressado em uma escola, chama a atenção pelo vasto conhecimento baseado na cultura oral. Quando criança, se reunia com a família em torno de uma fogueira ou de uma mesa próxima a um fogão à lenha para ouvir causos, charadas e histórias que misturam realidade e fantasia. Sem saber ler e escrever, exercitou com rigor a força de vontade para reter na memória, com requinte de detalhes, tudo que aprendeu vendo e ouvindo.

De acordo com Silvano, o ouvido de um analfabeto pode não ser tão aguçado quanto o de um cego, mas facilmente ultrapassa o de uma pessoa alfabetizada que não valoriza o que possui. “Me considero um ignorante, um ignorante de sorte porque carrego dentro de mim centenas de histórias”, argumenta. Além de muitos fatos e causos pouco conhecidos que remetem ao realismo fantástico, o cearense afeiçoado ao cordel sabe de cor muitas histórias de escritores populares como Cego Aderaldo, Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré, João Martins de Athayde, João Melchiades Ferreira, Silvino Pirauá, José Camelo de Melo Resende, Zé da Luz, José Pacheco, Manoel Camilo dos Santos e Manuel d’Almeida Filho.

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Tirar os calço significa ir embora.

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Um dia reconhecendo a fragilidade da vida

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Esgotado, mantinha os olhos semimortos em direção ao líquido âmbar profundo dentro do copo

Entrada do cemitério onde as beatas praguejavam a moça (Foto: Celso Colhado)

Entrada do cemitério onde as beatas praguejavam a moça (Foto: Celso Colhado)

Acordei cedo numa manhã de outubro de 1993. Após o café da manhã, abri o jornal para ler o obituário. Garotinha de 11 anos, homem de 31 anos e senhora de 51 anos estavam na página, vítimas de meningite, acidente de carro e câncer de mama. Os três tinham nomes completos com a mesma quantidade de letras. A expressão no olhar de cada um nas fotos em preto e branco era bastante similar. A mim, transmitia um misto de melancolia e fragilidade. Além disso, fiquei sabendo depois que faleceram no mesmo horário, nem um minuto a mais ou a menos.

Enquanto lia, me distraí e levei um baita susto quando ouvi a voz da minha mãe. Fechei o jornal e, atendendo a um pedido dela, fui até a Casa Moreira, na Rua Manoel Ribas, comprar alguns produtos de limpeza. No caminho, só conseguia pensar no que a morte teria levado de cada falecido. “Ninguém nunca mais vai ver aquelas pessoas andando por Paranavaí. Acho que deve ter gente chorando, gente com raiva… O que será que estão pensando sobre a morte? Nossa! Aqui morre gente todo dia… Se existe paraíso, deve ser um lugar gigante pra caber esse povo todo”, refleti.

Na Moreira, assim que coloquei a mão em um frasco de alvejante, ouvi uma mulher de pouco mais de 30 anos chorando. Me aproximei e a vi segurando um maço de velas e retirando uma grande caixa de fósforos da gôndola. Entre soluços, comentou com sua mãe que a sua filha disse na semana anterior qual era o seu sonho. “Mãe, quero cuidar do Tininho. Acho que ele tá doente. Você viu como a barriga dele tá inchada? Se eu melhorar, quero ser médica de animais, assim nunca vou deixar nenhum bichinho sofrer”, narrou a mulher, reproduzindo com sofreguidão o discurso da filha. Seus olhos negros como a noite denunciavam através de um aureolado carmim que o choro se estendeu por tanto tempo que havia sinais de queimaduras na ourela dos olhos.

Quando eu estava me afastando, escutei a moça relatando num rompante emocional: “Perdi a Betina, mãe! A perdi pra sempre! Sabe o que ela me falou antes de morrer? ‘Vou dormir um pouquinho, mãe. Você me acorda daqui a pouco?’” Em seguida, as duas se abraçaram dentro do mercado. E assim continuaram, numa troca de confidências não verbalizadas. Em respeito àquele momento, e com receio de ser visto, me distanciei vagarosamente e passei pelo caixa. Então as duas sumiram do meu campo de visão.

No mesmo dia, antes do almoço, fui com meu pai ao Restaurante Magia, na Avenida Distrito Federal, buscar quatro marmitas. Quase todas as mesas e cadeiras estavam ocupadas por famílias, grupos de amigos e de colegas de trabalho. Notei pessoas em silêncio, sorrindo, contando anedotas, falando alto e repreendendo os filhos pequenos que circulavam por baixo das mesas. Com os braços curtos abraçando o topo da cabeça, fingiam que fugiam de bombardeios.

Em um canto, sentado em um banco, o único homem solitário no restaurante deslizava o dedo indicador da mão direita pelas bordas de um copo de whisky. O seu aspecto sorumbático e adventício contrastava com o cenário, assim como as olheiras formando arcos de ciprestes tão densos que davam a impressão de pesar sobre os seus olhos, o forçando a inclinar a cabeça em frente ao balcão. Esgotado, mantinha os olhos semimortos em direção ao líquido âmbar profundo dentro do copo. As bebericadas eram insuficientes para umedecer os lábios esquálidos e ressecados. Parecia não se importar em suavizar aquelas pequenas fendas que aos poucos se transfiguravam em cicatrizes.

Naquele local a única coisa que o incomodava era a dormência das pernas. Por isso, vez ou outra movia os pés do apoio do banco e os sacolejava. Numa dessas meneadas, um chaveiro de prata escorregou e ficou pendurado no bolso esquerdo da calça de linho cinza, por onde despontava a imagem de uma jovem mulher nos anos 1970. Ocasionalmente o sujeito deslizava os dedos pela foto enquanto conduzia os olhos mortiços até um rádio pequeno a poucos metros de distância que executava “Please, Forgive Me”, de Bryan Adams, em volume baixo.

Ao final da música, o senhor de meia-idade pagou a conta, acenou com a cabeça sem dizer palavra e atravessou o restaurante lotado. Não notou qualquer presença – ou preferiu ignorar. Nem olhou para os lados. Somente parou na entrada do estabelecimento, observou rapidamente o céu, abriu um relógio de bolso dourado para ver as horas e seguiu pela Avenida Distrito Federal com o rosto mirando o bico abaçanado dos sapatos.

No início da tarde, por volta das 13h, minha mãe me chamou para ir ao Cemitério Municipal de Alto Paraná ajudar a limpar os túmulos da minha bisavó e de dois tios-avôs falecidos na juventude. Me empolguei com a ideia de rever o lugar, já que no meu ideário de criança uma necrópole nunca significou simplesmente um ambiente de consternação, mas também um universo de possibilidades de aprender um pouco mais sobre a vida e as pessoas.

Depois de percorrer 19 quilômetros de asfalto e mais alguns de senda – sentindo imponderável friozinho na barriga ao passar por tantas lombadas de terra, fomos surpreendidos por um cãozinho mestiço, bigodudo, de pelagem rala e acobreada que correu em frente ao carro enquanto assistíamos as cortinas de poeira sabulosa ocultando o horizonte com a intensidade de um siroco. Por sorte, meu pai conseguiu frear a tempo.

Escanifrado e de barba sarapintada, um rapaz recostado na carroceria de um caminhão velho carregado de melancias orgânicas tirou o cigarro de palha do canto da boca. Veio em nossa direção segurando com a mão esquerda um facão respingando suco de melancia. Com a direita acompanhada de um olhar dúbio, acenou para o meu pai abaixar o vidro.

“Óia, não leve a mal não. Além de pestiada, a bichinha tá baruiano. Então ela fica tchuca tchuca. Ô alemoa, traz uma metade dessa melancia aí que vou taiá pro homem aqui”, gritou o rapaz para a sua companheira. Meu pai sorriu, agradeceu e disse que não era necessário. Ainda assim, o homem insistiu até levarmos um pedaço da fruta de miolo vermelho tão aveludado que parecia uma iniquidade comê-lo.

Perto da entrada, durante a limpeza do túmulo da minha bisavó, minha mãe perguntou se eu sabia o porquê do cemitério ficar tão longe da cidade. “Quando foi construído, pensaram que o progresso, a área urbana de Alto Paraná, viria até aqui. Uma pena! As erosões não permitiram construções nesta área”, explicou. No terceiro jazigo, do meu tio-avô João, falecido em 1962, havia flores de uma ex-namorada dos tempos da juventude.

A poucos metros de distância, o som de uma brisa, que fazia árvores das mais diversas espécies se inclinarem sobre os visitantes ,desapareceu em meio a soada de passos fragorosos e vozes dissonantes. O pandemônio chamava a atenção para uma jovem de beleza delicada, pele oliva, cabelos castanhos e não mais que 25 anos caída sobre uma lápide. Ela não se movia. Estava mole e frágil como a rosa vermelha e antes cálida que murchou com a soalheira, se dobrando ao seu lado dentro de um vaso de cerâmica rosácea. Em meio ao barulho ensurdecedor dos curiosos, seu rosto tinha feição serena e alheia. Quem sabe, como sua própria existência.

Fora do cemitério, talvez por educação, algumas beatas praguejavam a moça pelo suicídio à base de estricnina. “Quis morrer? Tá bom! Conseguiu. Mas acha que vai ingrupi Deus? Não vai não! Lugar de quem faz isso é no inferno. Aaah! Se fosse minha filha tinha levado uma camaçada de pau pra não ter esse tipo de pensamento de gente varrida!”, esbravejava uma senhora de pelo menos 60 anos, representante de uma entidade filantrópica. Lá fora, um pedreiro que sempre fazia bicos de reforma e limpeza de túmulos no mês de outubro contou a alguns abelhudos o possível motivo da morte da moça.

Em casa, à noite, recostei a cabeça no travesseiro e demorei a dormir, refletindo sobre tudo que vivenciei naquele dia 30 de outubro de 1993. Da janela do meu quarto, observei de soslaio as parreiras de uvas que se enrolavam nas treliças de arame rente ao muro branco. Mais adiante, um céu quebrantado e abissal me fez imaginá-lo furibundo, prestes a engolir o mundo. “Cadê as estrelas? Cadê a lua? Talvez esteja de luto pelas tantas estrelas que viu nascer e morrer. Será que se cansa como nós? Ah! Não dá pra saber! Deve tá reunindo forças pra ressurgir com a manhã!”, pensei.

Voltei meus olhos para as parreiras e notei que algumas tinham se soltado das treliças. Pareciam quebradiças, sem liames, moribundas. Então lembrei das três pessoas do obituário. Ao longo de uma manhã e uma tarde o acaso me conduziu a elas através da dor daqueles que padeciam diante do vácuo da ausência e da contumácia da solidão.

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