David Arioch – Jornalismo Cultural

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Mastite e a exploração de vacas

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Você percebe mais uma vez como estamos imersos em uma cultura especista, que encara os animais não humanos como nada mais do que produtos, quando cientistas ligados à saúde animal apontam como principal prejuízo da mastite, uma grave inflamação das glândulas mamárias, a queda na produção de leite da vaca.

Será que a saúde da vaca deveria ficar em segundo plano? Não em uma perspectiva mais justa. Li um artigo sobre produção de leite e contagem de células somáticas em vacas leiteiras intitulado “Milk Production and Somatic Cell Counts: A Cow-Level Analysis”, de J.K. Hand, A. Godkin e D.F. Kelton, publicado no Journal of Dairy Science.

Nesse trabalho, os pesquisadores citam como piores consequências da mastite a baixa na produção, o que consequentemente leva ao “descarte” (esta foi a palavra usada) das vacas. Sim, as vacas que não atingem sua meta na produção de leite são mortas.

Também são citados os “grandes” e indesejados gastos com tratamento de infecções severas. Curiosamente, muitas das infecções que atingem as vacas estão associadas ao ritmo de exploração industrial. Ou seja, o ser humano gera o problema e ainda age como se o prejuízo fosse provocado pela vaca.

 



Written by David Arioch

December 27th, 2017 at 4:38 pm

“Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito”

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Minha mãe me ligou e contou que encontrou um amigo de longa data que cria gado leiteiro.

— Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito. Está compensando mais como carne do que como fonte de leite.
— Mas quem vai fazer isso? Você?
— Não, não tenho essa coragem. O peão que vai matar.
— Mas você não é o responsável por ela?
— Não adianta. Não consigo matar nenhum animal. Não consigo nem olhar.
— Você tem entrado no blog do David?
— Sim, mas os textos dele sobre veganismo eu não leio. Só leio os outros.
— Por que não?
— Prefiro não ler. Não quero ficar com isso na cabeça.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 11:52 pm

Por que não precisamos e não devemos consumir leite

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Walter Willett: “Seres humanos não têm nenhuma necessidade de consumir leite de origem animal”

Leite de outros animais não é um alimento essencial para os seres humanos

Leite é um alimento produzido por mamíferos para alimentar seus bebês. Realmente seres humanos dependem do leite, mas somente até o momento em que seu sistema digestivo se adapte a uma alimentação sólida. Nesse período, não é necessário mais do que o leite materno. Depois que passam a se alimentar de sólidos, os animais não têm necessidade de consumir leite. Porém, como esse consumo há muito tempo se tornou um hábito, e muitas vezes mais associado ao paladar do que à saúde, muitas pessoas não veem motivo para parar.

Quando você não consome leite, não é raro alguém em estranhar e perguntar quais são suas fontes de cálcio, vitamina D, riboflavina e outros nutrientes. Isso é uma reação cultural, porque vivemos imersos em uma realidade onde o consumo de laticínios é tão apregoado como essencial que é difícil para tanta gente assimilar o fato de que não precisamos de leite para obter esses nutrientes.

A verdade é que há muitas opções saudáveis para se obter, por exemplo, o cálcio. Podemos citar couve, acelga, chicória, espinafre, mostarda, folha de brócolis, rúcula, agrião, alface, salsa, aveia, feijão-branco, brócolis, laranja, gergelim, linhaça, lentilha, agrião, batata-doce, amêndoas, beterraba e mamão, entre outras frutas, verduras, oleaginosas, sementes e grãos. Além disso, banana e laranja são melhores fontes de potássio do que o leite, caso alguém o apresente como importante fonte desse micronutriente. Como fontes de fósforo, também há alimentos mais saudáveis –  como aveia, feijão, sementes de abóbora, e amendoim. Ou seja, tudo isso endossa o fato de que o leite não é essencial.

É importante considerar que para o cálcio chegar aos ossos, é necessário manter uma boa ingestão de vitamina C, vitamina K, vitamina D3, potássio e magnésio. Em síntese, uma boa combinação de vegetais supre facilmente essa necessidade, segundo a médica e pesquisadora Rosane Oliveira, professora do Departamento de Saúde Pública da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia. Fato que também merece atenção é que o excesso de cálcio consumido a partir do leite pode contribuir para a baixa absorção de ferro. Isso se aplica também à caseína e à proteína do soro do leite. Outro problema é que o excesso de sódio, proteína animal, álcool e cafeína favorecem o roubo de cálcio dos ossos.

Rosane Oliveira observou que quando consumimos 415 miligramas de cálcio por dia, nossos intestinos se tornam mais eficientes na absorção do cálcio. Assim, nossos rins são preservados por mais tempo. Caso o excesso de cálcio não seja eliminado do nosso organismo, ele é depositado no coração, rins, músculos e pele, nos tornando vulneráveis às doenças; e isso pode ser desencadeado pelo consumo de leite.

“Uma dieta rica em proteína animal tem uma alta taxa de excreção de cálcio, o que significa que você é forçado a consumir mais cálcio para compensar essa excreção. Ao seguir uma dieta baseada em vegetais, que também é baixa em sódio e cafeína, as taxas de excreção de cálcio diminuem. Sendo assim, a ingestão de cálcio baseada em plantas pode ser muito menor”, escreveu Rosane, que é doutora em nutrição, no artigo “Getting clarity about calcium”, publicado em maio de 2015 no site Forks Over Knives.

É importante entender também que, assim como o ferro, o magnésio e o cobre, o cálcio é um mineral que pode ser encontrado no solo, onde é absorvido pelas raízes das plantas. Isso significa que os animais, por exemplo o gado, obtêm cálcio consumindo essas plantas ricas em cálcio. Mesmo que tenhamos sido condicionados a crer que o cálcio provém naturalmente do leite e de seus derivados, isso não é verdade, já que os animais são fontes intermediárias. Ou seja, as fontes originais de cálcio são as plantas.

De acordo com o médico e pesquisador estadunidense Neal Barnard, fundador do Comitê Para a Medicina Responsável (PCRM), não há motivo para que os seres humanos consumam leite de vaca. “Há muitas razões para evitá-lo. […] Um elevado risco de incidência de câncer de próstata e mortalidade tem sido associado ao consumo de leite e pode desencadear câncer de ovário. Cálcio é um nutriente necessário, mas podemos facilmente obter o suficiente a partir de alimentos vegetais. Em vez de prejudicar nossa saúde com o leite de vaca, esses alimentos vegetais fortalecem o nosso sistema imunológico e nos ajudam a evitar graves doenças”, escreveu no artigo “Cow’s milk is unnecessary and even harmful”, publicado em janeiro de 2013.

Os Estados Unidos são um dos maiores consumidores de laticínios do mundo, e ainda assim um dos países com maiores índices de fraturas de ossos. Ou seja, o consumo de leite não garante que ninguém sofra de problemas ósseos. Por outro lado, fraturas ósseas são menos comuns em países que não têm uma cultura de alto consumo de laticínios. Nos Estados Unidos, de acordo com a International Osteoporosis Foundation (IOF), osteoporose e diminuição da massa óssea atingem 44 milhões homens e mulheres com idade igual ou superior a 50 anos. No Brasil, onde o consumo per capita é de 156 litros por ano, 10 milhões de pessoas, aproximadamente uma pessoa a cada 17, tem osteoporose.

O estudo “Milk intake and risk of mortality and fractures in women and men: cohort studies”, publicado pelo British Medical Journal em outubro de 2014, mostrou que pessoas que consumiram grandes quantidades de cálcio através do leite não tiveram redução em fraturas ósseas nem evitaram osteoporose. Na verdade, aqueles que consumiram altas quantidades de cálcio (mais de 1,1 mil miligramas por dia) apresentaram os maiores índices de fraturas de quadril e osteoporose em comparação a quem consumiu bem menos cálcio.

As pesquisas foram realizadas com mais de 61 mil mulheres e mais de 45 mil homens suecos ao longo de mais de 20 anos. A conclusão foi a de que não há nenhum benefício em consumir mais do que 700 miligramas de cálcio por dia para a saúde óssea. Também é importante ponderar que as populações do Norte da Europa são consideradas as que melhor se adaptaram ao consumo de laticínios no decorrer da história da humanidade.

Porém, o que reforça a defesa de que o leite não é um alimento realmente tão benéfico mesmo para a saúde dessas populações, que aparentemente têm menos dificuldade em digeri-lo, é o fato de que, no decorrer da pesquisa, mais de 17 mil mulheres suecas e mais de 5 mil homens que consumiam leite diariamente tiveram graves problemas de fraturas ósseas. Além disso, das pessoas que participaram da pesquisa, mais de 15 mil mulheres e mais de 10 mil homens já falecidos tiveram suas mortes associadas ao consumo de laticínios.

“Seres humanos não têm nenhuma necessidade de consumir leite de origem animal, uma evolutiva e recente adição à dieta”, escreveu Walter Willett e David Ludwig, do Boston Children’s Hospital, no artigo “Three Daily Servings of Reduced-Fat Milk – An Evidence-Based Recommendation?”, publicado no jornal JAMA Pediatrics em setembro de 2013, que refuta a necessidade de seres humanos consumirem leite e ainda aponta as consequências do excesso de laticínios.

Willett, que é médico e tem doutorado em saúde pública, é professor de nutrição e epidemiologia da Harvard T.H. Chan School of Public Health, professor de medicina da Harvard Medical School e chairman do Departamento de Nutrição da Universidade Harvard. Por suas contribuições à área da nutrição, o jornal The Boston Globe afirmou que, considerando a importância do seu trabalho, ele é um dos nutricionistas mais influentes do mundo na atualidade.

Walter Willett também publicou um estudo em que relacionou o consumo de carne, principalmente a processada, ao risco de morte precoce, levando em conta a facilidade com que a gordura trans é capaz de obstruir artérias. Também respeitado e prestigiado, David Ludwig, o co-autor da pesquisa sobre laticínios, trabalha em um dos maiores e mais bem-sucedidos projetos de tratamento de crianças obesas dos Estados Unidos, realizado no Boston Children’s Hospital.

No periódico JAMA Pediatrics, Walter Willett e seus colegas da Universidade Harvard revelaram os resultados de uma pesquisa com 96 mil homens e mulheres ao longo de décadas. Intitulado “Milk consumption during teenage years and risk of hip fractures in older adults”, o estudo divulgado em janeiro de 2014 mostrou que o alto consumo de leite na adolescência não ajuda a prevenir fraturas quando as pessoas ficam mais velhas. “O alto consumo de lácteos também tem sido associado a um risco aumentado de câncer no final da vida, incluindo câncer de mama e câncer colorretal”, alertou.

Após as evidências dos estudos sobre o consumo de leite, Willett e Ludwig criticaram o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e a Academia Americana de Pediatria por incentivarem o consumo de três xícaras de leite por dia. Eles reprovaram inclusive o consumo de leite desnatado. David Ludwig destacou que o fato do leite conter baixo teor de gordura não faz dele um alimento a ser recomendado como parte da dieta alimentar padrão.

“Seguimos a recomendação de beber leite por tanto tempo que poucos de nós param para considerar o quanto é pouco natural o consumo de leite”, enfatizou Joe Keon, doutor em nutrição e autor do livro “Whitewash”, no artigo “Do You Need Milk?”, de Catherine Guthrie, publicado na revista de saúde Experience Life em abril de 2014.

Michael Greger: “Leite é um alimento saudável para bezerros”

Para o médico Michael Greger, especialista em nutrição e fundador do site NutritionFacts.org, leite é um alimento saudável para bezerros, para filhotes de vaca. “Por que o leite é associado com o aumento de risco de câncer de próstata? Leite é um coquetel de hormônios do crescimento que faz com que um pequeno animal bovino ganhe algumas centenas de quilos em poucos meses. Então ele é desenvolvido como um alimento para o crescimento rápido, o que é ótimo se você é um bezerro, mas se você é um humano adulto esse excesso de hormônios do crescimento não é uma coisa boa”, declarou em entrevista registrada no documentário “Food Choices”, lançado em 2016 por Michal Siewierski.

Conforme informações do artigo “Hormones in Dairy Foods and Their Impact on Public Health – A Narrative Review Article”, publicado pelo Iranian Journal of Public Health e pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos em junho de 2015, os hormônios esteroides são compostos muito potentes em alimentos lácteos, e exercem profundos efeitos biológicos em animais e humanos. “A maioria dos conhecimentos anteriores sobre os esteroides está de acordo com suas concentrações fisiológicas, e às vezes supra-fisiológicas de esteroides, mas recentemente descobriu-se que esses compostos, mesmo em doses muito baixas, podem ter efeitos biológicos significativos. Deve ser dada atenção especial aos efeitos, que podem ocorrer durante determinados momentos sensíveis, como períodos perinatais e puberais”, ressalta a pesquisa.

No artigo “As doenças relacionadas ao consumo de leite de vaca”, publicado pela Food Med em 5 de agosto de 2015, a autora Pamela Blumer explica que, no final dos anos 1980, e visando o aumento da produção de leite, a multinacional Monsanto desenvolveu o hormônio somatropina bovina recombinante: “Nos adultos, isso pode promover o crescimento anormal das células e levar a alguns tipos de câncer, como de mama e gastrointestinal.” Para reforçar essa afirmação, ela cita o estudo sueco “Milk intake and risk of mortality and fractures in women and men: cohort studies”, mencionado anteriormente.

Outro ponto agravante, segundo Pamela Blumer, é que o uso de somatropina bovina recombinante causa sofrimento aos animais, já que tem como efeitos colaterais febre, falta de apetite, desenvolvimento anormal de membros, mastite (inflamação das glândulas mamárias), distúrbios reprodutivos, entre outras doenças que podem levar o animal à morte.

Leite de vaca traz pus em sua composição

Uma informação pouco divulgada também é que o leite de vaca, principalmente o industrializado, traz células somáticas, conhecidas como pus, em sua composição. Isso é uma consequência de inflamações e doenças que atingem o gado leiteiro, como a mastite. No Brasil, a oferta de leite com pus é regulamentada pelo governo por meio da Instrução Normativa nº51, de 2002, que permite que cada mililitro de leite contenha até 600 mil células somáticas (pus). Ou seja, os consumidores estão sempre sujeitos a consumirem secreções decorrentes de infecções bacterianas extracelulares. Enfim, algo proveniente do mal-estar ou de alguma doença que atinge esses animais.

Descrevo laticínios como carne líquida. Basicamente, como a carne vermelha, tem alto teor de gordura, colesterol e nada de fibras. Na verdade, pode ser pior do que a carne vermelha. A caseína que usam para dar liga no queijo é cheia de química. E são químicos tão viciantes que se assemelham à heroína [nesse aspecto], pois não temos quatro estômagos como os bezerros [para metabolizá-la corretamente]. E infelizmente o leite está em tudo”, lamentou a escritora de literatura wellness Karyn Calabrese em registro no documentário “Food Choices”, de 2016.

De acordo com a doutora em nutrição Pamela A. Popper, fundadora do Fórum Wellness, uma das coisas mais difíceis para as pessoas abandonarem são os laticínios, e exatamente porque estabelecem uma nociva relação de dependência com esses alimentos. “Tomar controle da sua saúde é olhar para as informações e fazer escolhas conscientes”, comentou.

O médico especialista em nutrição e autor do livro “The Starch Solution”, John McDougall e o bioquímico e doutor em nutrição T. Colin Campbell, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos e publicou o best-seller “The China Study” em 2005, defendem há muito tempo que existe um mito sobre a necessidade do consumo de leite, e esse tipo de consciência é o que motiva a indústria de laticínios. Afinal, se as pessoas não acreditarem que o consumo de leite é benéfico, elas deixarão de comprá-lo.

Saiba Mais

No estudo “Comparison of Nutritional Quality of the Vegan, Vegetarian, Semi-Vegetarian, Pesco-Vegetarian and Omnivorous Diet”, publicado em 2014 na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, foi avaliada a densidade mineral óssea de veganos e onívoros. Os resultados surpreenderam porque mostraram que mesmo veganos com uma ingestão bastante reduzida de cálcio e proteína apresentaram um bom nível de densidade óssea.

De acordo com o Comitê para Medicina Responsável dos Estados Unidos (PCRM), 75% da população mundial sofre de alguma disfunção no processo de digestão de laticínios. Ou seja, alactasia (não possui enzimas lactase), diminuição enzimática secundária ou diminuição gradativa de lactase. O que significa que esse é o percentual de pessoas do mundo todo que têm dificuldade de digerir corretamente e naturalmente, logo sem o uso de enzimas artificiais, o leite e outros produtos baseados em laticínios.

Referências

Getting Clarity About Calcium

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3967195/

http://thekindlife.com/blog/2013/01/why-milk-is-harmful-by-dr-neal-barnard/

http://www.bmj.com/content/349/bmj.g6015

http://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/1704826

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24247817

https://experiencelife.com/article/do-you-need-milk/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4524299/

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-09352008000100003

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3967195/

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-204X2006000100021

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-35982007000200010

http://www.scielo.br/pdf/cab/v17n4/1809-6891-cab-17-04-0534.pdf

https://www.statista.com/statistics/263955/consumption-of-milk-worldwide-since-2001/

http://www.pcrm.org/health/diets/vegdiets/what-is-lactose-intolerance

Food Choices, Michal Siewierski (2016).

As doenças relacionadas ao consumo do leite de vaca

 

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Written by David Arioch

August 21st, 2017 at 4:38 pm

Nose flap, um artigo usado pela indústria leiteira para forçar o desmame do bezerro

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São raros os bezerros que conseguem encontrar um meio de mamar usando nose flaps

Nose flaps nada mais são do que abas instaladas nas narinas dos bezerros para impedir que eles consigam mamar. Ou seja, para forçar o desmame do bezerro. O material produzido pela QuietWean, do Canadá, é leve e de plástico, o que segundo o fabricante garante que o animal não se machuque na tentativa de mamar. Eles relataram que os nose flaps têm eficácia de até 95%.

Ou seja, os filhotes realmente são impedidos de se alimentarem quando usam esse artigo. São raros os bezerros que conseguem encontrar um meio de mamar usando nose flaps. O artigo, que já se tornou um dos preferidos entre produtores de leite do mundo todo, inclusive do Brasil, é usado como um recurso que força o desmame do animal precocemente.

Segundo o porta-voz da QuietWean, a aba que impossibilita o animal de se alimentar é usada como um facilitador da separação entre vaca e bezerro. Ou seja, ela é comercializada para fazer não apenas com que o bezerro não mame, mas também com que a vaca seja condicionada a aceitar o inevitável processo de separação.

Em síntese, pode-se dizer que a vaca é enganada e o bezerro privado de mamar; e com algo preso ao nariz que é capaz de causar irritação nas narinas do animal, além de estresse. Afinal, quem não se sentiria incomodado ao ser colocado em uma situação em que é praticamente impossível se alimentar ou ter um contato íntimo com a própria mãe? Ainda mais quando falamos de um animal no início da vida.

O porta-voz da QuietWean também informou que os nose flaps impedem que o bezerro “grite muito” ou reaja de forma muito negativa quando separado da vaca. Mas essa não seria uma reação natural de um animal separado da mãe? Será que temos o direito de interferir nas ações naturais desses seres vivos?

Basicamente, o nose flap é mais uma criação voltada à naturalização de uma prática considerada aceitável no contexto da exploração animal. E nesse caso, com a finalidade de destinar o leite da vaca aos seres humanos, ou seja, animais de outra espécie e que não dependem de leite para sobreviver. Se o bezerro passa por esse tipo de privação não há como negar que isso acontece porque existe um mercado consumidor de laticínios.

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Abdicar do consumo de laticínios é um ato de justiça em prol dos animais

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A realidade prova que o romantismo na exploração de vacas leiteiras é apenas um mito

Considero um equívoco quando alguém me diz que o problema do sofrimento dos animais nos grandes laticínios poderia ser resolvido se as pessoas comprassem leite de pequenos produtores. Tudo bem, então você compra leite do pequeno produtor e eu também. Daí quando as pessoas perguntarem, explicamos que o ideal é nunca comprar de grandes produtores.

Em pouco tempo, teremos uma infinidade de pessoas indo pelo mesmo caminho, e assim esses pequenos produtores serão obrigados a tornarem-se grandes produtores ou a saírem do negócio, já que eles deverão suprir a demanda ou ceder espaço para quem faça isso. A verdade é que enquanto as pessoas continuarem consumindo leite, inclusive muito mais do que os próprios bezerros, a intensa exploração da vaca vai continuar. Afinal, usa-se leite em quase tudo, até mesmo na composição de adoçantes.

Não há uma solução mais sustentável do que abdicar desse consumo, muito menos como evitar que todas as vacas do mundo passem por algum tipo de sofrimento ou privação enquanto as pessoas consomem quantidades exorbitantes e mesmo nocivas de laticínios. Não existe nem mesmo área para que todas as vacas da indústria leiteira sejam criadas de forma “humanizada”. Afinal, essa é a realidade do sistema industrial predominante, que atua conforme a demanda. E se a demanda é grande, o ritmo de produção é acelerado, o que significa que mais do que nunca o lucro se torna prioritário.

Além disso, os produtores de leite do Brasil descobriram há muito tempo que é possível lucrar até três ou quatro vezes mais criando o gado leiteiro sob regime de confinamento, seguindo o exemplo de países como os Estados Unidos. Logo não vejo por qual motivo eles iriam abdicar desse sistema se não for por força de uma grande desaceleração no consumo, já que o mercado age em conformidade com as reações dos consumidores.

Um fato a se considerar sobre a produção nacional de leite é que em 2015, de acordo com dados da Leite Brasil, somente as 15 maiores empresas do ramo de laticínios do Brasil foram responsáveis por quase 10 bilhões de litros de leite. Só a Nestlé respondeu por 1,8 bilhão de litros. Levando isso em conta, como alguém pode afirmar que não contribui com a exploração industrial das vacas simplesmente porque não bebe o leite comercializado por grandes produtores? Isso não diz nada.

Seria uma grande ilusão, a não ser que a pessoa seja vegetariana ou vegana, porque quem consome laticínios, ou não lê os rótulos dos produtos (que costumam conter derivados lácteos) e os compra, naturalmente contribui para a manutenção desse sistema. Mesmo que alguém afirme que as vacas sejam “bem tratadas”, que não sofrem violência, isso não muda o fato de que elas são submetidas à ordenha natural ou mecânica por anos, até que, com a queda da produção, são vendidas aos frigoríficos, abatidas e reduzidas a pedaços de carne expostos em um açougue. Não podemos ignorar também que muitos bezerros também têm a morte como destino por causa da alta demanda de laticínios. Ou seja, o leite que seria usado para alimentar o filhote da vaca é destinado aos seres humanos.

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Leite é um alimento saudável para bezerros, para filhotes de vaca

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Imagine a penúria de viver assim, sem poder se movimentar direito porque seu corpo foi transformado em um laboratório de produção de leite

Leite é um alimento saudável para bezerros, para filhotes de vaca. Leite é para bebês, literalmente. Somos a única espécie que [conscientemente] toma leite de outra espécie, e também a única espécie que [conscientemente] toma leite depois de virar adulto. Por que o leite é associado com o aumento de risco de câncer de próstata? Bem, o que é o leite? Leite é um coquetel de hormônios do crescimento que fazem com que um pequeno animal bovino, suscetível de ser caçado na savana africana, ganhe algumas centenas de quilos em poucos meses, porque ele não quer ser comido por um leão. Então ele é desenvolvido como um alimento para o crescimento rápido, o que é ótimo se você é um bezerro, mas se você é um humano adulto esse excesso de hormônios do crescimento não é uma coisa boa.

Uma das coisas mais difíceis para as pessoas largarem são os laticínios, e às vezes são muito resistentes. Uma coisa que sempre digo às pessoas é: Bem, por que não olhe as evidências e decida por você mesmo? Porque eu sempre disse que controlar a sua saúde não é fazer o que eu digo em vez de fazer o que os outros dizem. Tomar controle da sua saúde é olhar para as informações e fazer escolhas conscientes sobre o que você quer fazer.

Descrevo laticínios como carne líquida. Basicamente como carne vermelha: alto teor de gordura, colesterol e nada de fibras. Na verdade, pode ser pior do que a carne vermelha. A caseína que usam para dar liga no queijo é cheia de química. E são químicos tão viciantes que se assemelham à heroína [nesse aspecto], pois não temos quatro estômagos como os bezerros [para metabolizá-la corretamente]. E infelizmente o leite está em tudo. Eles colocam secreções de vaca, sei que há outros nomes para isso, como laticínio, manteiga, sorvete, queijo. Mas realmente isso não é nada além de leite de amamentação tirado de uma vaca.

O único motivo pelo qual as pessoas acham que precisamos de cálcio extra é porque há duas décadas cientistas elevaram a quantidade de cálcio que precisamos ingerir. Isso foi influenciado pela indústria de laticínios. O que eles realmente estão dizendo é: “Não estamos bebendo leite o suficiente.” Porque isso é o que a indústria de laticínios quer que falemos. Quando, na verdade, se você olhar para a relação entre quanto cálcio as pessoas consomem em diferentes sociedades, já que se relaciona, digamos, com a osteoporose, doença nos ossos, quanto maior a ingestão de cálcio, mais alto é o risco de osteoporose. Ninguém quer ouvir isso. Mas é isso que os dados reais mostram.

Michael Greger, médico especialista em nutrição e fundador da NutritionFacts.org

Pamela A. Popper, doutora em nutrição e fundadora do Fórum Wellness.

John McDougall, médico especialista em nutrição e autor do livro “The Starch Solution”.

Karyn Calabrese, chefe de cozinha e escritora de literatura wellness.

T. Colin Campbell, bioquímico e doutor em nutrição, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos. Em 2005, o seu trabalho foi transformado no livro “The China Study”.

Excertos de depoimentos do documentário “Food Choices”, de Michal Siewierski.

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Erica Floyd e a exploração de animais na indústria de laticínios

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Arte: Erica Floyd

A artista vegana Erica Floyd desenhou a imagem de um ser humano bebendo leite do úbere da vaca e afastando o bezerro, que tem lágrimas em seus olhos porque foi privado do direito de mamar. A proposta da pintora é mostrar o que acontece quando consumimos laticínios, ou seja, quando damos suporte à exploração das vacas. Ao fundo, bezerros mortos e envoltos por manchas de sangue.





A vaca e o bezerro

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Arte de Kimberly VanDenBerg

Na estrada, vi um bezerro brincando com uma vaca perto da mangueira. Desci do carro e observei os dois por alguns minutos. A forma como aquele animal observava com satisfação o seu filhote, em nada difere da ternura com que uma mãe humana observa o seu filho. E o bezerro, feliz em contato com a mãe, tentava dar pulinhos intervalados.





Sobre a realidade comum da indústria de laticínios

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Bezerro sendo empurrado para dentro de uma gaiola (Foto: Reprodução)

Imagine carregar um bebê no ventre por nove meses, sentindo que existe outra vida dentro de você, e assim que ele nascer, ser retirado do seu convívio. Esse tipo de privação é a realidade comum da indústria de laticínios. Imagine o nível de estresse da vaca e do bezerro nessa situação. No sistema industrial é comum os bezerros mamarem somente uma vez (ou nem isso) se não forem considerados “interessantes” como matéria-prima. Caso haja o interesse de comercializar carne de vitela, eles normalmente passam dois dias com a mãe para serem amamentados com o colostro, o que previne doenças e evita que a carne do bezerro seja desqualificada comercialmente. Depois são separados definitivamente e confinados em gaiolas, baias ou qualquer outro espaço reduzido – onde são alimentados com um leite artificial pobre em ferro e outros nutrientes que ajudam a tornar a carne “mais clara, tenra e macia”. A carne classificada como ideal é obtida após a morte de um bezerro com idade entre três e seis meses. Para produtores que não têm interesse nesse tipo de mercado, o que é muito comum no setor nacional de laticínios, a morte do bezerro pode ser decretada logo após o nascimento; já que ele é considerado descartável – ou simplesmente um efeito colateral de um processo. De fato, suas necessidades como ser senciente não são ponderadas, e a sua curta existência é apenas uma forma de assegurar a manutenção da produção leiteira. Afinal, uma vaca precisa gerar vidas para entrar no período de lactação – seja de curta, média ou longa duração. Sendo assim, isso nos leva a uma óbvia conclusão. Se uma vaca produz leite, mesmo que geneticamente modificada e condicionada a produzir volumes incomuns, ela não o faz para alimentar seres humanos, mas sim por um dom natural que é alimentar seus filhos, assim como faziam seus ancestrais antes da intervenção humana.





Written by David Arioch

April 27th, 2017 at 12:43 am

A problemática do consumo de leite

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Enquanto o leite for supervalorizado, a indústria vai seguir firme na exploração de animais

O leite da vaca naturalmente é do bezerro (Foto: We Animals/Jo Anne McArthur

Um rapaz me disse que vive em uma chácara e tem uma vaca que ele ordenha diariamente. Afirmou que a trata bem e que ela não passa por nenhum tipo de sofrimento e privação. Certo. Mas que tipo de problemática o veganismo poderia apontar em torno disso?

O fato de você ordenhar a vaca e consumir o leite dela significa que o leite dela existe para consumo humano, o que não é verdade, já que o leite da vaca naturalmente é destinado ao bezerro. Só de consumir o leite da vaca criada, mesmo que no quintal de casa, já estamos nos posicionando de forma favorável à exploração animal em níveis industriais.

Mas como assim? Porque, mesmo que a vaca permitisse o consumo do seu leite, é importante levar em conta que nem todo mundo teria condições, espaço ou tempo para atender todas as necessidades de uma vaca. Sendo assim, é natural que a cadeia industrial acabe por suprir uma demanda gigantesca criada por força de hábitos culturais, e que se estende a milhões de consumidores só no Brasil.

Vou citar outro exemplo. Vamos supor que eu tenha uma vaca de quem extraio o leite para o consumo familiar. De repente, alguém que nunca consumiu leite decide me visitar e fica deslumbrado ao experimentar leite de vaca pela primeira vez. Então apresento as despesas com o animal, ele acha caro, fora das suas possibilidades, mas ainda assim quer encontrar um meio de obter um fornecimento diário de leite.

Vejo aí uma oportunidade e faço uma proposta de fornecimento de leite. Ele não gosta do valor e diz que encontrou um produto mais vantajoso no mercado ou na padaria perto de sua casa. Então o camarada começa a financiar as grandes indústrias leiteiras porque é mais prático para ele, mesmo que isso custe bezerros sendo apartados de suas mães e mortos.

Nesse caso, a solução seria comprar o leite do leiteiro? Não creio. Acredito que a única solução plausível para não tomar parte na privação ou sofrimento do gado leiteiro é não contribuindo com esse mercado. Mas por que não? O leiteiro não vai judiar da vaca.

Sim, o leiteiro pode “não machucá-la” e, de repente, até a deixe “pastando livremente”, mas o animal não continuaria sendo condicionado a servir os seres humanos? Ademais, qual é a participação real do amigo leiteiro numa demanda de 34 bilhões de litros de leite [de acordo com a Embrapa] produzidos no Brasil? É muito leite, e vivemos em um país que não possui área o suficiente para a produção de tanto leite que não seja em níveis industriais – que não imponha privação às vacas e morte aos bezerros.

Enfim, não existe pasto para esses animais serem criados soltos. Sendo assim, o alto consumo de laticínios deu origem ao regime de confinamento do gado leiteiro. O que naturalmente significa animais vivendo em situação avessa à sua natureza. Ou você conhece algum animal que goste de ficar preso ou de ser condicionado? E tudo isso é legitimado porque classificamos o leite de vaca como alimento de consumo humano.

Sendo assim, mesmo que indiretamente, quem consome leite de uma vaca criada na própria chácara ou no quintal de casa, também está endossando o mercado da produção industrial de leite. E simplesmente porque enquanto o leite de vaca for visto como algo disponível ao consumo humano, a indústria vai seguir firme na exploração de animais. Afinal, a única coisa que ela precisa é de pessoas afirmando que o leite de vaca é um “super alimento” para seres humanos.