David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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A senhorinha da fila

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Arte: Anne Buffington

A maioria das pessoas se irrita com filas. Acho que sou estranho, pois não reclamo, quero dizer, não quando tenho algum tempo livre. Hoje mesmo, fiquei cerca de 40 minutos na fila do caixa rápido. Irônico, não? Três pessoas sorriram pra mim na fila, o que significa que notaram muito bem minha presença. Quem sabe, até mais do que eu gostaria no meu anseio de parecer invisível, um voyeur. Brincadeira. Ou talvez não.
Na fila do caixa rápido, que atravessava o setor de hortifruti e de frios, notei um carrinho à minha frente, mas ninguém o estava guiando.

— A senhora sabe de quem é esse carrinho? — perguntei a uma moça acompanhada da filha que sorria timidamente.
— Não! Não sei. Quero dizer, de uma senhora aí, mas eu que não vou empurrar.

Empurrei o carrinho mais à frente, para acompanhar a fila, e uma senhora se aproximou:

— Obrigada! Fui pegar uma coisinha ali – justificou com um sorriso largo.
— Tudo bem – respondi.

Atrás de mim, três homens conversavam. Um deles parecia o Casagrande, tanto no aspecto físico quanto no tom de voz grave e ansioso, que não permitia folga nem para recuperar o fôlego. Falavam de lanches, violência, desenvolvimento urbano, pedágio, estradas, entre outras coisas.

— Londrina está cheia de mafiosos. Você não é mafioso, né? Sou doido de perguntar isso, porque se for, tu não vai deixar eu chegar nem na porta do meu carro depois dessa.

Os outros dois riram.

A senhorinha abandonou o carrinho outra vez. A moça e sua filha olharam pra mim, talvez aguardando alguma reação enérgica de minha parte.

Continuei no mesmo lugar, assistindo um rapaz alto e extremamente magro analisando uma bandeja de morangos. Ele nem piscava; deslizou os dedos pelo invólucro, e mudou a bandeja de posição inúmeras vezes. Talvez procurando algum resquício de podridão entre as frutas.

Um garotinho acompanhando o pai na fila pediu chocolate, e o pai respondeu que não, que ele já havia comido ontem, e o trato é um chocolate por semana.
À minha frente, a mesma moça de antes oferecia um desses bolinhos recheados e industrializados para a filha. E a menina se mostrava desinteressada.

— Vou pegar um doce bem gostoso pra você.
— Não ligo, mãe.
— Ah, você vai adorar.

E assim nasce uma criança condicionada a gostar de doces.

Um pouco mais à frente, um homem muito parecido com o Eduardo Cunha atraía olhares curiosos. Mas ninguém dizia nada.

— Eu que não queria estar na pele desse senhor.

Alguém comentou que Paranavaí é um buraco. Outro rebateu:

— Se é um buraco, então você pulou dentro, porque você também mora nele.

Levei cotoveladas de pessoas que andavam como se estivessem pogando em uma roda punk. Nem percebiam que me atingiam. “Sem problema!” Deve ser pressa ou o costume da pressa. Ela toma conta das pessoas até quando não estão fazendo nada. Vez ou outra, eu saía da fila para que alguém atravessasse até o outro lado. Uma senhora agradeceu, os outros não. “Tudo bem!” Cerca de 20 minutos depois, o rapaz continuava observando os morangos. O vi movendo os lábios.

— Acho que esse cara fala com os morangos. O que será que o morango disse pra ele? — me perguntei.

A senhorinha continuava abandonando o carrinho e enchendo uma cestinha sobre ele. Kiwi, batata, abacate, manga, limão, cenoura, berinjela, caqui. Foi tudo que vi ela indo e voltando para colocar no carrinho desde que entrei na fila. Alguns a reprovavam. Eu não me importava. Nem o cara logo atrás, distraído conversando com seus amigos.
A moça e a filha seguiam incomodadas com a mulher. A menina olhava para mim de tempo em tempo, como se ainda aguardasse uma reação minha ou dissesse com os olhos:

— Po, você não vai fazer nada mesmo? Nem falar nada?

— Não, não vou – eu não disse.

A fila crescia, crescia, sem parar. Já estava com o dobro do tamanho.

Perto da minha vez no caixa, a senhorinha chamou-me a atenção:

— Filho, esqueci mais uma coisinha, você pode cuidar aqui pra mim?
— Posso sim. Tudo bem.

Logo despareceu entre as bancas.

— Cara, como você tem paciência. Como você aguenta tudo isso? — questionou a moça.

Apenas dei um sorriso enviesado.

A senhorinha passou pelo caixa e ficou parada em uma das entradas do mercado. Assim que paguei e caminhei em direção à saída, ela chamou-me a atenção:

— Olhe, filho. Isso aqui é pra você. Muito obrigada mesmo – disse sorrindo e me entregando uma caixinha de figos orgânicos e selecionados.
— Que isso! Poderia ser eu no lugar da senhora. Não é necessário.
— Eu insisto, por favor.
— Tudo bem. Muito obrigado pela gentileza – respondi timidamente.

A observei caminhando em direção ao carro, onde havia um jovem casal em roupas bem surradas. A moça carregava um bebê.

— Deus abençoe a senhora.
— A senhora é uma boa pessoa.
— Imagina…
— Querem uma carona?
— Não. A gente vai pegar o ônibus aqui na frente. A gente conseguiu o dinheiro da passagem com um moço antes de falar com a senhora.
— Então tá bom. Fiquem em paz.
— A senhora também.

Ela entrou no carro carregando apenas uma sacola. As outras foram entregues ao homem que caminhou até a parada de ônibus com a companheira e o bebê.

 

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Written by David Arioch

August 6th, 2017 at 10:02 pm

“Você come muitos vegetais, então a sua comida é cheia de agrotóxicos”

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Animais como bovinos também são alimentados com agrotóxicos

— Você come muitos vegetais, então a sua comida é cheia de agrotóxicos, logo você tem mais chances de morrer do que eu.

— Será? Quantas pessoas você conhece que adoeceram pelo consumo excessivo de proteína animal? E agora me diga quantas ficaram doentes em consequência do consumo “excessivo” de vegetais? Pesticidas, herbicidas e fungicidas são um problema, não nego, e precisamos discutir a respeito. Mas você já considerou o fato de que a carne que você consome é proveniente de um animal que também se alimentou de agrotóxicos? A indústria precisa apenas garantir que esses animais sejam alimentados para que um objetivo seja alcançado, que é a produção de carne. Mas ela não tem obrigação nenhuma de não alimentá-los com alimentos que receberam aplicação de agrotóxicos, entre outros químicos, por exemplo. Até porque eles vão morrer de qualquer forma para depois irem para o seu prato. Pense nisso. Será que sou eu que estou consumindo mais agrotóxicos ou você? Há outro ponto a se considerar. A carne que você consome passa por um sistema fitossanitário que não garante uma higienização de 100%, o que significa que não se pode descartar sempre o risco de algum tipo de contaminação antes da carne chegar à sua mesa. Normalmente, o que a fiscalização vai avaliar é se isso pode ser nocivo ou não para o consumidor. E nesse contexto há variáveis e níveis considerados aceitáveis de contaminação.

 

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Written by David Arioch

July 28th, 2017 at 8:39 pm

Não preciso de proteínas de origem animal

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Há muitas opções de proteínas no mundo vegetal

Assim como muitos praticantes de musculação, já achei essencial o consumo de proteínas de origem animal (eu consumia mais ovos e laticínios – incluindo albumina, whey protein, caseína e outros tipos de proteína time-release). Afinal, nada melhor do que se empanturrar de proteína animal para ganhar massa muscular, não é mesmo? Já fazia exames periódicos, e tudo ia bem, claramente. Sendo assim, eu pensava:

“Estou no caminho certo! Saúde 100%.” Mas a diferença é que eu era muito jovem. E do tipo que consumia no mínimo 40 gramas de proteínas de origem animal por refeição, mas chegando a 60 gramas, dependendo. Parece muito? Tem gente que consome muito mais do que isso e pesando inclusive menos do que eu pesava. E quem disse que as consequências de se empanturrar de proteína animal surgiriam em curto prazo?

Mesmo que esse não seja o motivo de eu ter me tornado vegetariano e depois vegano, optei por me manter bem distante das proteínas de origem animal também por entender que não preciso disso para alcançar qualquer objetivo que custe a vida dos animais, além de consequências desnecessárias que não quis conhecer em longo prazo. Claro que tem muita gente que pratica musculação e que não dá a mínima para a própria saúde, se limitando a uma motivação estética. Então para essas pessoas, a crença predominante é de que “mais é sempre mais”, se isso as levar a algum lugar.

Mas eu sou do tipo que nunca colocaria isso acima da saúde. Fora que o consumo acentuado de proteína não beneficia ninguém mais do que a indústria alimentícia e os fabricantes de suplementos alimentares. Afinal, como vender proteína sem fazer a população acreditar que ela sempre precisa de mais do que o necessário? Quem critica o culto ao consumo acentuado de proteína são pessoas que não ganham nada com isso. Afinal, eles estão te incentivando a economizar dinheiro, não a gastar, como faz a indústria da proteína animal.

Vivemos numa época em que proteína animal virou um símbolo romântico do ser humano capaz de romper barreiras genéticas e superar a si mesmo simplesmente consumindo muita proteína animal. Esse é o lema de muitos jovens que povoam as academias do mundo afora. Eu? Não acredito em nada disso, porque sei que não é verdade. Talvez faça sentido se você conciliar muita proteína animal com esteroides anabolizantes, mas daí é um risco de dois espectros que cabe a você decidir se vale a pena. Conheço meus limites naturais, e eles são tranquilamente satisfeitos com a riqueza do mundo vegetal.

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Written by David Arioch

July 28th, 2017 at 8:33 pm

Breve conversa entre um vegano e um não vegano

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Two Men Talking, de Mike Jones

Um vegano encontrou um não vegano.

— Você sabia que as plantas sentem dor, né?

— Não, elas não sentem. Elas respondem a estímulos sonoros, o que ainda está longe de significar dor.

— Elas sentem sim. Tenho certeza disso. E estão no mesmo nível evolutivo dos animais. Você não tem dó das plantas?

— Tenho dó sim, tanto que eu arranco-as gentilmente da terra para não vê-las sangrar.

— Engraçadão.

— Mas e se um dia for comprovado que todas as plantas sentem dor?

— Eu me adaptaria. Pararia de comê-las. Há sempre uma solução para coisas assim. Mas por que essa preocupação vindo de alguém que se alimenta de tudo que caminha sobre a terra? Quando você vai parar com essa demagogia e deixar de comer seres vivos que sangram como nós e apodrecem como nós? Não há sentido em defender a senciência das plantas enquanto ignora a dor daqueles que agonizam diante de seus olhos. Reflita.

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Written by David Arioch

May 17th, 2017 at 5:59 pm

Consumo de carne pode se tornar insustentável até 2050

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São necessários 15 mil litros de água para produzir um quilo de carne (Foto: Reprodução)

De acordo com um relatório apresentado na Conferência Anual sobre Água, em Estocolmo, na Suécia, a escassez de alimentos será o motivo pelo qual o mundo terá que renunciar à carne até 2050.

Os especialistas afirmam que os produtos de origem animal consomem de 5 a 10 vezes mais água do que os vegetais e, por volta da metade deste século, não haverá água suficiente para alimentar nove bilhões de pessoas que habitarão o planeta.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), são necessários 1,5 mil litros de água para gerar um quilo de grãos, e dez vezes essa quantidade para produzir um quilo de carne.

Referência

FAO, World Agriculture Towards 2030/2050: The 2012 Revision.