David Arioch – Jornalismo Cultural

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Natalja Nordman e Anna Barykova e suas contribuições ao vegetarianismo russo

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As escritoras Natalja Borísovna Nordman-Severova e Anna Pavlovna Barykova foram duas importantes vozes do vegetarianismo russo no final do século 19 e início do século 20. Elas realizaram um trabalho visando a inclusão do vegetarianismo no sistema educacional russo. Natalja, que também era sufragista, foi a responsável por apresentar o vegetarianismo ao famoso pintor realista russo Ilya Repin, que logo se tornou vegetariano.

Em 1911, ela publicou o livro “Povarennaia kniga dlia golodaiushchikh” ou “Livro de Receitas para Famintos”. A escritora fazia o possível para mostrar os benefícios e a importância do vegetarianismo, tanto que em sua casa servia apenas comida vegetariana. Até mesmo quem não era vegetariano ficava extasiado com os pratos servidos. Por sua casa, passaram artistas e intelectuais como Maxim Gorky, Vladimir Mayakovsky, Vasily Polenov, Isaak Brodsky, Filipp Malyavin, Vladimir Bekhterev, Nicolai Fechin e Aleksandr Kuprin.

Já a contribuição de Anna Barykova diz respeito principalmente às questões éticas do tratamento e adoções de animais na Rússia do final do século 19. Além de divulgar os benefícios da alimentação vegetariana e discutir as implicações éticas do consumo de animais em instituições de ensino, Barykova traduziu para o russo e publicou o poema “Queen Mab: A Philosophical Poem; With Notes”, do escritor vegetariano inglês Percy Bysshe Shelley, lançado em 1813.

Ela Também traduziu cinco obras do poeta e dramaturgo inglês John Gay que levanta questionamentos sobre a crueldade e a imoralidade humana em relação aos animais: “Pythagoras and the Countryman”, “The Beggar’s Opera,” “The Wild Boar and the Ram,” “The Court of Death” e “The Philosopher and the Pheasants.”

Referências

Notaker, Henry. A History of Cookbooks: From Kitchen to Page Over Seven Centuries.  Páginas 231-232. California Studies in Food and Culture (Book 64). University of California Press (2017).

Shulga, Alexey. The History of Russian Veganism: In A Nutshell. Vegan Publishers (2015).





Charlotte Despard, a ativista que não achava certo lutar pelos direitos das mulheres e ignorar os direitos dos animais

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Charlotte Despard discursando para uma multidão em Londres (Foto: Reprodução)

Nascida em 14 de junho de 1844, a britânica Charlotte Despard foi uma ativista política, sufragista, pacifista e defensora dos direitos dos animais. Ela acreditava que não era certo defender os direitos das mulheres e dos trabalhadores e ao mesmo tempo ignorar o fato de que animais eram explorados e mortos em grandes quantidades para atender vícios alimentares humanos. Além disso, fazia ferrenha oposição à vivissecção. O que a levou para o vegetarianismo foi o trabalho do poeta romântico britânico Percy Shelley, defensor do vegetarianismo ético e autor dos ensaios “A Vindication of Natural Diet” e “On The Vegetable System of Diet”. Mais tarde, o posicionamento de Charlotte a favor da não violência não apenas contra seres humanos, mas também contra animais, ganhou força após um encontro com Mohandas Gandhi em 1909.

A ativista britânica tinha tudo para levar uma vida tranquila sem se preocupar com os interesses dos menos desafortunados, fossem eles animais humanos ou não; isto porque ela era de uma família de classe alta, e em 1870 casou-se com um homem igualmente abastado – Maximilian Carden Despard, um empresário anglo-irlandês que tinha negócios no Oriente. Porém, viver imersa nessa realidade, ignorando o que acontecia com quem não tinham tais privilégios, não era o seu ideal de vida.

Após a morte do marido em 1890, ela se engajou cada vez mais em causas sociais e políticas. Seus olhos se abriram completamente para a realidade da pobreza e do sofrimento dos seres humanos e dos animais. Em 1892, ela foi eleita para compor o Kingston Poor Law Board, em Londres, supervisionando as condições de vida dos trabalhadores assalariados. Na região Sul de Londres, ela ficou chocada com a realidade das mulheres. Foi isso que a fez enxergar com maior rigor a importância do sufrágio feminino, inclusive se tornando uma das ativistas mais importantes do movimento – sendo presa duas vezes no distrito londrino de Holloway.

Charlotte se tornou sufragista em 1900, um ano depois que se converteu à teosofia. Em 1907, fundou a Women’s Freedom League, uma organização que lutava pelos direitos das mulheres e dos animais, com ações ilegais não violentas. O seu engajamento era tão grande que ela passou os primeiros cinco meses após a fundação da liga percorrendo a Inglaterra em uma caravana, encontrando membros, buscando filiações e dando palestras aos apoiadores. À frente dessa liga, a ativista britânica montou oficinas para a produção de roupas para a população carente e abriu restaurantes vegetarianos em Londres e em algumas províncias. As roupas confeccionadas pela WFL eram projetadas por Charlotte.

Ela também criou bancos de leite materno, clínicas de maternidade e um albergue sem qualquer custo onde as crianças poderiam se hospedar por até três meses enquanto suas mães se recuperavam de um parto ou alguma doença. A Women’s Freedom League, liderada por Charlotte, promovia a alimentação vegetariana e administrava um hospital com 50 leitos que ela construiu com dinheiro do seu próprio bolso. Além disso, fundou o Despard Arms em Hampstead Road, em Londres, um local onde eram servidas refeições e bebidas não alcoólicas.

A WLF possuía um jornal que visava atrair apoio para a causa sufragista. Intitulado “The Vote”, também ajudava a divulgar o vegetarianismo. Um exemplo é uma foto de uma edição de 1910 em que a senhora Agnes Leonard, secretária honorária da filial de Sheffield, aparece preparando um jantar vegetariano – sendo apontada como uma “perita em culinária vegetariana”. Esse registro é um exemplo de como Charlotte Despard promovia o vegetarianismo na Liga dos Direitos das Mulheres. Em janeiro de 1911, ela financiou a palestra “A Ética da Reforma Alimentar”, de Dan Hamilton, um vegetariano bastante respeitado à época.

“Perto do final de 1912, a filial de Edimburgo informou que uma demonstração extremamente interessante de culinária vegetariana foi dada por Miss MacDonald (de Glasgow), assistida por membros da Sociedade Vegetariana de Edimburgo”, registrou Leah Leneman, na página 272 da obra “The awakened instinct: vegetarianism and the women’s suffrage movement in Britain”, publicada pela Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, em 1997. A senhora MacDonald era membro da organização fundada por Charlotte Despard.

Como pacifista, a ativista britânica criou o grupo Women’s Peace Crusade, ou A Cruzada das Mulheres pela Paz, e fez campanha contra a Primeira Guerra Mundial e a Guerra dos Bôeres. O que mais a incomodava era o recrutamento de jovens para a guerra, porque sabia que muitos deles eram vulneráveis e miseráveis sem qualquer entendimento do que os aguardava. Charlotte entendia que a guerra trazia ainda mais desgraças para os mais pobres, porque aqueles que morriam na guerra sempre deixavam algum familiar desolado, desamparado ou à mercê da própria sorte – ou azar. Nesse período, ela fez franca oposição ao seu irmão John French, que era chefe do Estado-Maior do Exército Britânico e comandante da Força Expedicionária Britânica.

Charlotte Despard também era muito ativa no Partido Trabalhista inglês e foi selecionada como candidata por Battersea North em 1918, recebendo um terço dos votos. Uma das marcas inconfundíveis da ativista britânica era uma mantilha de renda preta que ela usava o tempo todo. Sempre se vestia com simplicidade, usando somente roupas pretas e sandálias. Ao longo de décadas, organizou e participou de muitas manifestações e protestos – falando inclusive para multidões de homens, não apenas de mulheres. Ela era abertamente uma anti-vivisseccionista – lutava pelo banimento das experiências com animais em laboratórios, considerando esse tipo de prática um ato de crueldade contra seres vulneráveis. Em 1931, ela se tornou vice-presidente da Sociedade Vegetariana de Londres, um ano depois que foi convidada a ingressar no Conselho Executivo do Congresso Mundial da Fé.

Em 1921, Charlotte se mudou para a Irlanda, mas continuou viajando por Londres e por toda a Europa fazendo ativismo. Na década de 1930, com mais de 90 anos, ela ainda participava de manifestações antifascistas. Charlotte Despard, a ativista que defendia os direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos animais – na realidade, dos desafortunados em geral, independente de tipo e espécie, faleceu em 10 de novembro de 1939 aos 95 anos em sua casa perto de Belfast, na Irlanda do Norte – depois de mais de 50 anos de ativismo.

Referências

Leneman, Leah. The awakened instinct: vegetarianism and the women’s suffrage movement in Britain. Página 272. Universidade de Edimburgo, Reino Unido (1997).

Linklater, Andro. For Mrs Despard. An Unhusbanded Life. Londres (1980).

Charlotte Despard. Women Working for Peace. Peace Pleadge Union Project. The Men Who Said No.

Charlotte Despard. Battersea Arts Centre. Digital Archive.

Charlotte Despard. The Open University. Making Britain.





O meu livro “Vegaromba” também está à venda no Bol, da Holanda

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Written by David Arioch

January 31st, 2018 at 11:30 am

Divulgação do meu livro Vegaromba no site da ANDA

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Leia na íntegra: David Arioch lança livro de culinária vegana

“Vegaromba” entre os 20 lançamentos de destaque da categoria “Gastronomia e Culinária” da Amazon

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O meu livro “Vegaromba” está entre os 20 lançamentos de destaque da categoria “Gastronomia e Culinária” da Amazon. Além de ser comercializada na Amazon, a obra também está à venda nos sites da Simplíssimo, Apple, Google, Kobo, Wook, Livraria Cultura e Saraiva.

O livro, que oferece 150 opções de alimentos, reúne principalmente receitas simples e acessíveis que agradam aos mais diferentes paladares. Na compilação, os leitores vão aprender a preparar assados, barrinhas, bolachas, bolinhos, bolos, bombons, brownies, cookies, geleias, hambúrgueres, leites vegetais, maioneses, mousses, pães, panquecas, patês, pavês, pudins e shakes, além de outros alimentos.

Written by David Arioch

December 27th, 2017 at 2:54 pm

O vegetarianismo na literatura de Mary Shelley

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“Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite”

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Além da mitologia grega, Mary Shelley se inspirou também em Rousseau para escrever Frankenstein (Arte: Rothwell)

A escritora britânica Mary Wollstonecraft Shelley, famosa pela criação do monstro de Frankenstein, um dos mais emblemáticos da literatura mundial, teve uma vida pautada pelo vegetarianismo. Quando decidiu escrever aquela que se tornaria sua grande obra-prima, a maior inspiração da autora não foi basicamente o mito grego do titã Prometeu, um defensor da humanidade que roubou o fogo de Héstia e presenteou os mortais, mas também o conceito de nobre selvagem, cunhado pelo filósofo suíço e defensor do vegetarianismo Jean-Jacques Rousseau.

“Mas considerai primeiro que, querendo formar o homem da natureza, não se trata por isso de fazer dele um selvagem e de relegá-lo ao fundo dos bosques, mas, envolvido em um turbilhão social, basta que ele não se deixe arrastar nem pelas paixões, nem pelas opiniões dos homens; veja ele pelos seus olhos, sinta pelo seu coração; não o governe nenhuma autoridade, exceto a de sua própria razão”, declarou o suíço em O Bom Selvagem.

Em primeiro lugar, a busca pelo autoconhecimento; depois o interesse pela linguagem e pelas convenções sociais. Seguindo essa premissa idealizada por Rousseau, Mary Shelley moldou um anti-herói vegetariano que nada mais é do que o ser humano em seu estado mais impermisto e natural. A maior prova disso é que ainda isento dos vícios da civilização, o monstro vive na floresta, onde se alimenta estritamente de bagas e oleaginosas, não de carne, já que ele não vê sentido nem necessidade em matar animais para se alimentar.

No século 19, embora o romantismo enquanto arte tivesse estreita relação com o vegetarianismo, a verdade é que fora dos círculos literários quase ninguém reconhecia ou falava sobre a abordagem vegetariana no livro Frankenstein. Na realidade, muita gente reconhecia as qualidades de Mary Shelley como escritora, mas menosprezavam seu estilo de vida.

Ao contrário de muitos autores que se tornaram vegetarianos ao longo da vida, ela teve a oportunidade de crescer em uma família que sempre simpatizou com o vegetarianismo, inclusive quase todos os amigos de seu pai William Godwin também eram vegetarianos. Assim, desde cedo, Mary foi incentivada a entender que o consumo de carne dependia do sofrimento animal.

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Percy Shelley: “Não mais agora/Ele mata o cordeiro que o observa/E terrivelmente devora sua carne mutilada” (Arte: Alfred Clint)

Na juventude, depois de conhecer alguns dos maiores intelectuais que defendiam esse estilo de vida, a escritora começou a ler obras como An Essay on Abstinence from Animal Food: as a Moral Duty, do britânico Joseph Ritson e The Return to Nature, or, a Defense for the Vegetable Regimen, de John Frank Newton, precursores do veganismo, assim como William Lambe, de quem ela leu o livro Water and Vegetable Diet. Shelley também se inspirou em Plutarco, John Milton e nos textos em grego antigo e latim que abordavam o estilo de vida de Pitágoras, que era ovolactovegetariano.

Cercada por pessoas que não consumiam alimentos de origem animal, ela acabou se casando em 1816 com Percy Bysshe Shelley que, além de ter sido um dos mais importantes poetas românticos da Inglaterra, era um ativista vegetariano e também precursor do veganismo. O poeta lançou obras polêmicas como A Vindication of a Natural Diet e On the Vegetable System of Diet. No prefácio do primeiro, ele publicou um excerto do seu poema Rainha Mab:

Não mais agora

Ele mata o cordeiro que o observa

E terrivelmente devora sua carne mutilada;

Além do casal Shelley, outros românticos como Alexander Pope e Thomas Tryon ajudaram a promover o vegetarianismo na Europa. No entanto, nenhuma obra daquele período superou a popularidade de Frankenstein. Em uma das passagens do livro, a criatura se emociona ao dizer que sua comida não é a mesma dos homens:

“Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite. Bolotas e bagas são o suficiente para a minha alimentação. Minha companheira vai ser da mesma natureza que a minha, e vai se contentar com o mesmo que eu. Faremos a nossa cama de folhas secas; o sol vai brilhar sobre nós da mesma forma que brilha sobre os homens, e ele vai amadurecer a nossa comida. A imagem que apresento a vocês é humana e pacífica.” Ou seja, na essência, o monstro de Mary Shelley carregava em si a perfeição moral que faltava ao homem mediano, rendido aos excessos da ganância e da megalomania.

Embora haja controvérsias sobre até que ponto Mary Shelley foi vegetariana ao longo de sua vida, a verdade é que ela trouxe grandes contribuições para o vegetarianismo e, quem sabe, a maior seja a idealização de uma criatura desafortunada que desprezava o hábito humano de se alimentar de animais.

“Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações”, escreveu Mary Shelley em Frankenstein, externando sua antipatia pela jactância e pelos caprichos do ser humano.

Saiba Mais

Mary Shelley nasceu em Londres em 30 de agosto de 1797 e faleceu em 1º de fevereiro de 1851.

Referências

Shelley, Mary. Frankenstein. CreateSpace Independent Publishing Platform (2015).

Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet: Being One in a Series of Notes to Queen Mab (Disponível em ivu.org)

Bellows, Martha. Categorizing Humans, Animals and Machines in Mary Shelley ’s Frankenstein. Página 6. University of Rhode Island (2009).

Fortes, Luis Roberto. Rousseau: o bom selvagem. 2º ed. – São Paulo: Humanistas: Discurso Editorial (2007).

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