David Arioch – Jornalismo Cultural

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Será que o bacalhau sofre antes de morrer? Com certeza!

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Por ser um peixe, é subestimado enquanto ser senciente

Outro animal que costuma compor a ceia de Natal é o bacalhau, que por ser um peixe é subestimado enquanto ser senciente. Afinal, será que ele sofre antes de morrer? Com certeza. Assim como outros peixes, o bacalhau agoniza fora da água e morre asfixiado. E claro, ele não se entrega de bom gosto. O peixe luta pela vida o máximo que pode, assim como qualquer um de nós faríamos na iminência da morte.

A espécie mais tradicional de bacalhau, o bacalhau-do-atlântico ou gadus morhua, tem uma expectativa de vida de 25 anos. Porém, devido à intervenção humana, dificilmente ele passa dos primeiros anos de vida. Depois de capturado, se estiver dentro do peso almejado, o bacalhau é degolado e tem sua barriga aberta. Após a retirada das vísceras e guelras, o animal é decapitado.

Então o abrem ao meio, retiram parte da espinha dorsal, o lavam e o cobrem com sal antes de expô-lo ao sol. Depois de passar por uma desidratação de mais de 50%, o peixe é comercializado e consumido. Embora cientistas não possam dar uma resposta definitiva sobre os níveis de consciência dos peixes, tudo indica que, além da senciência semelhante a dos mamíferos, o bacalhau tem uma singular sofisticação comportamental e cognitiva.

Mas, claro, são fatores pouco divulgados e costumeiramente ignorados. O bacalhau costuma ser visto apenas como uma “iguaria” a ser servida frita, assada, cozida ou grelhada, e sempre em pedaços, sem qualquer enfática associação com um animal. A maior prova disso é que a maioria das pessoas que consome o bacalhau não sabe citar quais espécies marinhas que lhe deram origem.

A maioria também desconhece o fato de que o gadus morhua, o melanogrammus, o micromesistius e o pollachius, espécies identificadas como “bacalhau” estão na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Ou seja, consumir bacalhau é também uma forma de aproximar essas espécies da extinção.

Isso não é fato recente. Segundo a revista científica The Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences, as populações de bacalhau começaram a entrar em colapso na década de 1990. Outro ponto crítico é que há muito tempo o bacalhau é capturado e condicionado a viver em cativeiro por até dois anos, ou seja, distante do seu habitat, simplesmente engordando até o momento do abate.

No artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sidney, na Austrália, escreveu que peixes como o bacalhau têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros.

“O nível de complexidade mental deles está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou. Será que não deveríamos incluí-lo no nosso círculo moral? Ou seja, não faltam motivos para reconhecer que o bacalhau é um peixe que também tem direito à vida e não merece ser reduzido a alimento.





A trajetória do cordeiro até ser reduzido a alimento no Natal

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O cordeiro poderia chegar facilmente aos 20 anos caso não fosse reduzido a produto.

O cordeiro é outro animal que costuma ir para a mesa no Natal. Há desde receitas como o “Pernil de Cordeiro com Batatas Assadas” até a “Paleta de Cordeiro Gourmet” e o “Carré de Cordeiro em Crosta de Erva”, estes dois últimos considerados “pratos nobres”. Claro, além de outros. Mas será que a maioria das pessoas conhece todo o processo até esse animal ser servido como se jamais tivesse vivido?

No Brasil, o desmame mais usual é o semiprecoce, findado quando o cordeiro está com 45 a 90 dias de idade, e peso mínimo de 23 quilos. Afastado de sua mãe, o animal é confinado por dois meses. O objetivo é fazer com que ganhe até 300 gramas de peso por dia. A dieta é mantida até o filhote de carneiro completar pelo menos 100 dias, chegando a até 42 quilos. Porém a engorda pode chegar a cinco meses, dependendo da raça.

Após um período de jejum de 16 a 24 horas, o abate é feito com um porrete ou uma pistola pneumática. O cordeiro é imobilizado e recebe uma pancada extremamente violenta na cabeça, ou então é acionado um dispositivo que atinge o seu cérebro como uma agulha grossa, o deixando atordoado. Assim que cai, é pendurado sobre grilhões pelas patas traseiras e degolado. O sangue desse filhote de poucos meses, que se debate durante o abate, é usado na culinária.

Depois de sangrado, esfolado, eviscerado, decapitado, além de ter suas patas e glândulas mamárias removidas, extrai-se os rins. Do rabo, são mantidas algumas poucas vértebras. Suas partes não comestíveis são descartadas no lixo, como se não houvessem razão para existir. Então o cordeiro é refrigerado até esfriar, quando se inicia o processo de corte.

Morto ainda muito jovem, ele poderia chegar facilmente aos 20 anos caso não fosse reduzido a produto. Depois de esquartejado, seus pedaços são vendidos no atacado e no varejo – os mais procuradas são o lombo, pernil, costela, picanha, peito, ombro e braço. Essas são as partes que as pessoas mais gostam de consumir e que são provenientes de uma criança de outra espécie.

“Mate-o e tire os cascos e miudezas do cordeiro. Misture a farinha, sal, água, ovo, gengibre e pimenta em pó”, sugere uma receita de cordeiro inteiro assado, indicada para o Natal, um tempo de paz.





Written by David Arioch

November 22nd, 2017 at 9:46 pm

Milhões de perus são mortos a cada Natal no Brasil

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O abate é feito introduzindo uma faca de dois gumes pela garganta do animal, assim cortando as artérias e as veias do pescoço

No Brasil, são mortos cerca de oito milhões de perus a cada Natal. Desse total, aproximadamente 90% é comercializado pela BRF. São milhões de vidas ceifadas para saciar o “paladar natalino”. Geralmente a ave, que viveria naturalmente até os 15 anos, é morta com pouco mais de dois meses, e peso que varia de três a seis quilos, considerado o ideal para o Natal.

As fêmeas são as preferidas porque não crescem tanto quanto os machos, assim tendo maior aceitação comercial nessa época do ano. Quando atingem o peso almejado pela indústria, os perus são deixados em jejum, para favorecer o esvaziamento gástrico. Depois são transportados até o matadouro em gaiolas apertadas sobre caminhões.

Ou seja, tudo em prol da carne, e nada em benefício do animal, mesmo que ele esteja próximo de seu fim. Chamam isso de “bem-estar animal”, desde que a ave tenha vivido por curto período em algum espaço que a permitisse mover, mesmo que desconfortavelmente, as asas e os pés. O estresse do confinamento intensivo normalmente é desconsiderado.

No matadouro, o abate é feito introduzindo uma faca de dois gumes pela garganta do animal, assim cortando as artérias e as veias do pescoço enquanto ele se debate de cabeça para baixo, com os pés presos por grilhões. Mais tarde, o peru é depenado em água bem quente, limpo, embalado e comercializado como qualquer produto jamais dotado de vida. Em pouco tempo, ele é comprado e servido no dia em que é celebrado no Ocidente o nascimento do menino Jesus.

Ao redor da mesa, as pessoas não verão nada de errado em se alimentar dessas criaturas. Dificilmente alguém vai dedicar tempo refletindo sobre a vida de quem repousa como alimento sobre a mesa. Afinal, o que tem errado em colocar o paladar acima da empatia?

Celebrar a vida com a morte, financiar a crueldade contra outros animais, há muito tempo se tornou parte da humanidade. Talvez possa parecer estranho, mas é exatamente isso que endossamos o ano todo. Claro, mais ainda em época de “espírito natalino”, um período sempre marcado pelo aumento exponencial de mortes de animais não humanos.





Written by David Arioch

November 21st, 2017 at 11:34 pm

Marsilio Ficino, um filósofo renascentista contra o consumo de animais

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“Ele certamente recomendou o não consumo de carne. Sua defesa do vegetarianismo mais frequente envolvia os pitagóricos” (Acervo: Walker Art Gallery)

Nascido em Florença em 19 de outubro de 1433, o filósofo e humanista Marsilio Ficino, importante nome do renascimento italiano e mestre de Giovanni Pico della Mirandola, foi um dos principais divulgadores das ideias de Platão, Plotino e Pitágoras no século 15. Por influência desse trabalho baseado nas obras dos filósofos da Grécia Antiga, ele começou a refletir sobre o consumo de animais e se tornou vegetariano.

Filho de Diotifeci d’Agnolo, médico da Casa dos Médici, Ficino teve o privilégio de se dedicar integralmente aos estudos. De acordo com informações do livro “The European Renaissance – 1400-1600”, de Robin Kirkpatrick, publicado em 2002, Marsilio Ficino recebeu todo o apoio de Cosimo de Médici, o fundador da dinastia Médici, para traduzir e discutir os textos platônicos. Com o apadrinhamento da família mais importante de Florença à época, Ficino teve grande incentivo para discutir inclusive questões controversas, como as implicações do consumo de carne.

Mais tarde, assumiu também a posição de tutor do estadista Lorenzo de Médici, conhecido como Lorenzo Il Magnifico. Segundo o livro “Murder in Renaissance Italy”, de Trevor K.P. Lowe, lançado em junho de 2017, Marsilio Ficino traduziu a obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, de Porfírio, servindo de referência para estudos sobre vegetarianismo. Ficino também conhecia muito bem as questões discutidas anteriormente por Pitágoras, autor de uma frase que sobreviveria ao tempo e se tornaria emblemática:

“Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz. Enquanto os homens continuarem massacrando animais, eles também permanecerão matando uns aos outros. Na verdade, quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor.”

Ficino liderou a Academia Platônica de Florença, que também influenciou muitos artistas e pensadores da época, como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Sandro Botticelli. Inclusive há estudiosos que defendem que da Vinci também era vegetariano, e por influência de Ficino. “Leonard passou pelos mesmos círculos intelectuais de Ficino, e também explorou a nova filosofia do vegetarianismo baseada na crença dos pitagóricos”, escreveu D.A. Brown no livro “Leonardo da Vinci: Origins of a Genius”, publicado em 1998. De acordo com Brown, Ficino e da Vinci se conheceram por intermédio do humanista, historiador e cardeal Bernardo Bembo.

“A maioria dos estudiosos do trabalho de Marsilio Ficino concordam que ele era vegetariano. Ele certamente recomendou o não consumo de carne. Sua defesa do vegetarianismo mais frequente envolvia os pitagóricos. As discussões com Ficino poderiam ser a forma como Leonardo da Vinci chegou ao vegetarianismo”, registrou Lowe na página 292 de “Murder in Renaissance Italy”. Platão, que o italiano tinha como principal referência filosófica, idealizava em “A República” uma cidade onde as pessoas não se alimentassem da matança de animais.

“Theologia Platonica”, uma das obras mais importantes de Marsilio Ficino foi publicada em 1482. O seu período de maior produção filosófica começou em 1474 e terminou em 1494. Ele também escreveu “De Amore”, lançado em 1484; e “De Vita Libri Tres”, publicado em 1489. O filósofo e humanista florentino faleceu em 1º de outubro de 1499.

Saiba Mais  

Marsilio Ficino foi ordenado sacerdote em 1473. Livre de amarras intelectuais, ele se interessava pela vida de Zoroastro e Orfeu.

Referências

Kirkpatrick, Robin. The European Renaissance – 1400-1600. Página 88. Routledge; First Edition (2001).

Lowe, Trevor K.P. Murder in Renaissance Italy. Página 292. Cambridge University Press (2017).

Brown, David Alan. Leonardo da Vinci: Origins of a Genius. Páginas 118-120. Yale University Press (1998).





Um outro olhar sobre o “Leitão à Pururuca”

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Trata-se de um pequeno animal que não raramente é morto aos 21 dias

Encontrei uma foto que me chamou a atenção, acompanhada de uma receita. Estava com a seguinte legenda: “Leitão à Pururuca – o delicioso sabor mineiro na sua ceia.” É um dos pratos indicados para o Natal. Trata-se de um pequeno animal que não raramente é morto aos 21 dias. Claro, pode ir além. Afinal, ele vive até o momento em que chega ao auge do que podemos chamar de palatável.

Temperado com óleo, cebola, alho, salsa, limão, pimenta dedo-de-moça, sal e azeite, o leitão, morto precocemente, é assado e servido com a pele torrada, parcialmente derretida em alguns pontos. Com uma boa e bela combinação de ingredientes, muitas pessoas não verão um animal, mas apenas um grande pedaço de carne.

Não importa se o que está diante delas ainda têm olhos, focinho, pernas, boca ou até mesmo unhas. Podemos chamar isso de dissimulação estética. Claro, cheiro e apresentação têm um grande poder de sugestão sobre o paladar. Para romantizar um pouco, podemos colocá-lo sobre uma caminha cuidadosamente enfeitada, que pode ser uma porção de farofa, alguns belos tomatinhos e um raminho de alecrim. Pronto! Agora é só dizer às crianças que aquela criatura morta e caprichosamente adornada não era um animal de verdade.

Observem as fotos do chamado “Leitão à Pururuca” e perceberão que sempre, ou quase sempre, o leitão está com os pés retorcidos. Não é difícil reconhecer que não se trata de uma criatura que morreu tranquilamente. Imagino que muitos se alimentarão de um animal assim no Natal. Infelizmente, não há como contestar. Entre uma garfada e outra, gestos e ações de empatia, celebrarão à vida com morte. Do leitão, não tenho dúvida que não sobrará nada. Na realidade, pode até sobrar. Talvez os ossos sejam lançados ao lixo, ou entregue aos cães que, diferentes de nós, comerão sem saber do que se trata.





Written by David Arioch

November 20th, 2017 at 5:18 pm

Você não acha que o veganismo é um arbitrário exercício de poder?

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O que existe de exercício de poder na consideração de que seres sencientes têm direito à vida, não merecem ser reduzidos a produtos?

— Você não acha que o veganismo é um arbitrário exercício de poder?

— O veganismo não é impositivo, é consciencioso. Como o veganismo pode ser um arbitrário exercício de poder se nos empurra à margem da sociedade? O que existe de arbitrário exercício de poder na consideração de que seres sencientes têm direito à vida, não merecem ser reduzidos a produtos? Uma prática comprovadamente desnecessária, provada pela existência de vegetarianos e veganos saudáveis. Ainda no século 19 e até a metade do século 20, o consumo de animais era uma forma de distinção social, de status. Ou seja, somos tão cruéis que matamos outras espécies para provar à nossa que não somos semelhantes. E que se posso matar uma criatura que você não poderia matar, por não ter recurso para tal, sou melhor do que você. Isso não soa extremamente absurdo? Irracional?

Na Inglaterra, Lord Byron e Percy Bysshe Shelley condenavam os excessos, a glutonaria e a crueldade da burguesia, que matava uma quantidade absurda de animais para servir em banquetes particulares, e ainda faziam chacota dessas criaturas. Somos seres muito estranhos, de fato, se ponderarmos que muitos lutam para ter o direito de também financiar a morte de criaturas que até então faziam parte apenas dos hábitos alimentares de uma pequena parcela da população. Vivemos em um mundo onde há pessoas que quando pensam em uma vida melhor, logo a associam com a ideia de se alimentar de animais considerados exóticos. Isso sim é um vislumbre de exercício de poder.

Hoje, sim, muitos têm acesso à carne, pelo menos se compararmos com outros períodos. Isso deveria realmente ser comemorado? Já que isso é consequência de um grande aumento da violência contra outras espécies. E a que custo a carne foi barateada, se tornou mais acessível ao longo do tempo? Isso aconteceu porque em vez de matarmos centenas ou milhares de animais, passamos a matar milhões e bilhões. Esse é o real preço por um tipo tétrico de acessibilidade.

Se eu fosse um animal não humano, mas gozando de consciência humana, obviamente que eu diria que o pior exercício de poder perpetrado contra os meus é aquele exercido pela humanidade. E claro, mesmo sendo um animal humano já reconheço isso como uma manifestação de perpetuação da barbárie travestida de civilidade.





Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

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Molly B., vaca que fugiu de um matadouro nos Estados Unidos em janeiro de 2006 (AP Photo/Great Falls Tribune, Robin Loznak)

— Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

— Acredito que o sofrimento de um animal não humano pode ser maior, sim, realmente maior, e por uma justificativa até simples – a incapacidade de racionalizar e verbalizar o que sente. Imagine a si mesmo em uma selva e diante de um animal muito maior e mais forte do que você. De repente, vocês estão diante um do outro, e não há nada que você possa fazer para impedir que ele o ataque e o mate. Afinal, ele não partilha do mesmo código comunicativo que você. Partindo da mesma situação de um animal prestes a ser abatido, ou seja, de total vulnerabilidade, eu diria que qualquer reação sua será em vão. Isto porque falo de situações equiparáveis.

Por exemplo, um animal na pista da morte em um matadouro está no mesmo estado de vulnerabilidade de uma pessoa desarmada e despreparada caminhando pela selva. Mas nisso subsiste uma distinção substancial. E qual seria? Se um animal me matasse em território selvagem, ele o faria instintivamente, seja por fome, medo, identificação de perigo ou qualquer outro fator que desencadeie essa reação. Já os animais cativos que matamos não nos apresentam qualquer perigo. São simplesmente criados para gerar lucro e saciar paladares, logo são mortos friamente.

Creio que não apenas legitimamos esse tipo de morte como a incentivamos e a incluímos, mesmo que arbitrariamente, na nossa moralidade antropocêntrica. Se ainda assim, a minha resposta não for o suficiente, sugiro que aqueles que discordam do meu posicionamento visitem matadouros e observem a reação dos animais antes de serem abatidos. Não é incomum eles recuarem, tentarem postergar o inevitável. Um animal que testemunha a morte de outro não se oferece para ser o próximo. Muito pelo contrário.

E a ausência de um código de comunicação em comum, sem dúvida torna tudo mais doloroso. Imagino que saberíamos, de fato, como é esse tipo de sentimento se uma espécie muito superior à nossa, e que tivesse um código de comunicação completamente diferente do nosso, fizesse algo parecido conosco. Claro, diferentemente dos selvagens, não despedaçamos nossas vítimas no instante em que as matamos. Porém, não fazemos isso depois? Os açougues e as seções de frios dos mercados provam que sim.

 





“Em nenhum lugar de um zoológico o visitante encontra o olhar de um animal”

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Foto: We Animals/ Jo-Anne McArthur

“Em nenhum lugar de um zoológico o visitante encontra o olhar de um animal. No máximo, a mirada do animal pisca e passa adiante. Eles olham de soslaio. Olham cegamente adiante. Passeiam o olhar mecanicamente…Esse olhar entre animal e humano, que pode ter desempenhado um papel crucial no desenvolvimento da sociedade humana, e com o qual, em todo caso, todos os homens sempre conviveram até menos de um século atrás, foi extinto.”

Página 26 de “About Looking”, de John Berger, publicado em 1980.

 

Matar um animal, uma criatura que não quer morrer, é uma incontestável arbitrariedade

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Fotos: We Animals/Jo-Anne McArthur

Matar um animal, uma criatura que não quer morrer, é uma incontestável arbitrariedade; uma facciosidade que parte de quem, por uma questão cultural, não vê nada de errado em subjugá-lo. Não conheço nenhuma história verídica de animal que sentiu prazer em tornar-se alimento. Ainda que isso acontecesse em um contexto fictício fundamentado na realidade, sabemos que até os animais considerados menos inteligentes não são tão tolos assim. Mesmo em um cenário ultrarromântico isso seria insidioso e baixo.

Ninguém nasce ansiando pela morte, nem aqueles que são mortos aos milhões. Logo não há como desconsiderar que se alimentar de animais significa nutrir-se da privação, mortificação e finitude de seres vulneráveis. Os níveis são diversos. Pode haver barbárie ou não. Mas não seria o anseio pela exploração e morte de outro um ato de barbárie em si? Muitos dizem em sua defesa que há métodos menos cruéis de se matar animais. Que podemos usurpar vidas que não nos pertencem sem a necessidade de violência excessiva.

Será que essa defesa se volta à minimização do sofrimento animal ou funciona como um afago na consciência humana? Será que nos importamos com os animais ou com a ideia de sermos vistos como menos empáticos, insensíveis ou incivilizados? Temos ojeriza pela possibilidade de sermos vistos como bárbaros porque vendemos um suposto padrão de exemplar civilidade.

A ideia de uma morte romanesca, em prol de seres humanos, logo de outra espécie, é sempre quixotesca sob a perspectiva antropocêntrica e especista. “Sou grato a esse animal que morreu para que eu possa me alimentar”, há quem diga antes de uma refeição. Mas será que a sua nutrição depende da exploração e morte de uma criatura senciente? Um prazer com duração de minutos é equiparável ao valor de uma vida?

A expressão de um animal instantes antes da morte revela explicitamente o quanto ele não anseia por tal gratidão, já que mesmo quando os criamos e os submetemos a um nível visceral de condicionamento, eles não se reconhecem verdadeiramente como seres que existem para nos servir. Afinal, servir ao ser humano não é uma característica natural de seres de outras espécies, mas somente uma consequência de séculos de condicionamento, agrilhoamento e subordinação forçada.





A crítica ao consumo de animais na escultura “O Comedor de Cadáveres”, de Paolo Troubetzkoy

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“Il Mangiatori di Cadaveri” é uma crítica ao consumo de animais

A escultura “Il Mangiatori di Cadaveri” ou “O Comedor de Cadáveres”, chamou bastante atenção na Exposição Internacional de Roma em 1913. Criada pelo artista italiano de origem russa Paolo Troubetzkoy, que era vegetariano, a obra é uma crítica ao consumo de animais. Quando começou a concebê-la, a proposta do escultor era mostrar a realidade e as consequências desse hábito, assim criando um cenário que revela a predominância do paladar, a indiferença, o destempero, a crueldade e a morte. Atualmente a escultura está resguardada no Museu Del Paessagio, na comuna italiana da Verbania, na região do Piemonte.

Troubetzkoy foi amigo do escritor russo Liev Tolstói, que o considerava um ser humano doce e inocente com grandes dons. A citação pode ser encontrada no livro “Tolstoy: A Life of My Father”, publicado em 1953 e em 1972, de Alexandra Tolstaya, filha de Tolstói. Quando o questionavam sobre o motivo dele não se alimentar de animais, Troubetzkoy respondia com parcimônia e voz tranquila: “Não posso me alimentar de cadáveres.” Em seu estúdio em São Petersburgo, ele produziu muitas obras captando a essência da importância da liberdade animal. O escritor George Bernard Shaw dizia que ele era um humanitarista extraordinário, incapaz de se alimentar de um animal.

O estilo de Troubetzkoy, marcado por intimismo e melancolia, deu origem a uma forma nervosa de impressionismo. Outras importantes personalidades de sua época e que viam uma qualidade rara em suas obras estavam o Barão de Rothschild, o conde Robert de Montesquiou, Gabriele D’Annunzio, Arturo Toscanini, Enrico Caruso e Giovanni Segantini.

O escultor lecionou na Academia Imperial de Belas Artes de Moscou e recebeu importantes prêmios – como o grande prêmio da Exposição de Paris em 1900. Além da Europa, suas obras também foram levadas para os Estados Unidos. “Como não posso matar, não posso autorizar os outros a matarem. Você entende? Se você compra [carne] de um açougueiro, você está autorizando a morte de animais – a morte de criaturas indefesas e inocentes, que nem eu nem você poderíamos matar”, declarou em entrevista registrada na página 22 da The Vegetarian Magazine em 1907.

Referências

Davis, Gail. Vegetarian Food for Thought. Página 69. New Sage Press (1999).

Tolstoy, Alexandra. “Tolstoy: A Life of My Father”. Octagon Books (1972).

The Vegetarian Magazine, Volume 11, página 22 (1907).