David Arioch – Jornalismo Cultural

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“A ideia de que somos caçadores-coletores é verdadeira, somos caçadores-coletores, mas a maior parte do tempo sempre fomos coletores”

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McDougall: “Todas as grandes e bem-sucedidas populações da história da humanidade recebiam sua grande massa calórica do amido”

Todas as grandes e bem-sucedidas populações da história da humanidade recebiam sua grande massa calórica do amido: arroz, milho, batata e outros amidos; pães e assim por diante. Particularmente, quando se vive próximo à Linha do equador, ao se locomover para o norte e para o sul em latitude, você acaba comendo mais alimentos de origem animal. E se for bem ao norte, por exemplo na região dos esquimós inuits, você verá que eles se alimentam como carnívoros, porque é isso que está disponível para eles.

Mas esta é uma pequena população de pessoas que vivem nos extremos do meio ambiente. São a exceção, não a regra. A ideia de que somos caçadores-coletores é verdadeira, somos caçadores-coletores, mas a maior parte do tempo sempre fomos coletores. Um dos problemas tem a ver com sexismo. Tem a ver com o fato de que os coletores eram mulheres, avós e crianças. Os caçadores eram os homens, e eles ficavam com a glória. As pessoas que realmente proviam o grande volume de calorias necessárias à sobrevivência, ao longo de toda a história humana de que temos conhecimento, foram e são mulheres, crianças e avós.”

John McDougall, médico especialista em nutrição e autor do livro “The Starch Solution”, no documentário “Food Choices”, de Michal Siewierski.





Written by David Arioch

July 25, 2017 at 6:06 pm

Sugestões de leitura sobre vegetarianismo, veganismo e direitos animais

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“Jaulas Vazias” é um dos clássicos e mais importantes livros sobre direitos animais publicados pelo filósofo Tom Regan

Preparei uma pequena lista com sugestões de leitura para quem quer ler ou estudar um pouco sobre vegetarianismo, veganismo e direitos animais:

Comer Animais, de Jonathan Safran Foer
O Exilado Político Vegetariano, de Alexandre Kostolias
Libertação Animal, de Peter Singer
O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan
O Estudo da China, de T. Colin Campbell
Skinny Bitch, de Roruy Freedman e Kim Barnouin
Food for Life, de Neal Barnard
Jaulas Vazias, de Tom Regan
The Case for Animal Rights, de Tom Regan
A Política Sexual da Carne, de Carol J. Adams
Ética & Animais, de Carlos M. Naconecy
O Último Teste, de Ricardo Laurino
O Poder e a Promessa da Educação Humanitária, de Zoe Weil
Por Que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, de Melanie Joy
Garfos em Vez de Facas, de Gene Stone
Introdução aos Direitos Animais, de Gary Francione
Galactolatria: Mau Deleite – Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino, de Sônia T. Felipe
Manifesto pelos Direitos dos Animais, de Rafaella Chuahy
Vozes do Silêncio, de João Epifânio Regis Lima
Educação & Direitos Animais, de Leon Denis
Educação Vegana: perspectivas no ensino de direitos animais, de Leon Denis
Ética e Experimentação Animal – Fundamentos Abolicionistas, de Sônia T. Felipe
Por uma Questão de Princípios: Alcance e Limites da Ética de Peter Singer em Defesa dos Animais, de Sônia T. Felipe
All That Dwell Therein, de Tom Regan
R-209 – Habla el Frente de Liberación Animal
A Vida dos Animais, de J.M. Coetzee
Elizabeth Costello, de J.M. Coetzee
The Vegan Studies Project: Food, Animals, and Gender in the Age of Terror, de Laura Wright
Diet For a New America, de John Robbins
O Primeiro Passo, de Liev Tolstói
An Essay on Abstinence from Animal Food: as a Moral Duty, de Joseph Ritson
A Vindication of Natural Diet, de Percy Shelley
How and Why Become Vegan, de Melissa Lane
Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética, de Robson Fernando de Souza.
Pense no Garfo, de Bee Wilson
New American Vegan, de Vicent J. Guihan
Animal Rights: The Abolitionist Approach, de Gary Francione e Anna E. Charlton
Eat Like You Care: An Examination of the Morality of Eating Animals, de Gary Francione.

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Written by David Arioch

July 23, 2017 at 9:16 pm

Charlotte Gerson, uma vegetariana de 95 anos

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Charlotte Gerson fundou o Gerson Institute em San Diego, na Califórnia

Charlotte Gerson, de 95 anos, fundadora do Gerson Institute, nos Estados Unidos, que trata de pessoas com câncer, problemas cardíacos e diabetes. Ela não tem nenhum problema de saúde e é defensora da alimentação orgânica e vegetariana.

Written by David Arioch

July 23, 2017 at 9:05 pm

A dieta vegana é benéfica ao longo de todo o ciclo da vida

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Matt Ruscigno: “Podemos consumir tudo que precisamos em uma dieta vegana” (Foto: Arquivo Pessoal)

“Podemos consumir tudo que precisamos em uma dieta vegana. Ela é benéfica ao longo de todo o ciclo da vida. Ou seja, desde a gravidez, passando pela lactação, infância, adolescência e toda a fase adulta. Uma dieta vegana bem planejada é totalmente adequada. Acho que o veganismo é muito saudável. Se olharmos para as organizações de saúde nos Estados Unidos, veremos que elas estão promovendo dietas vegetarianas. Elas dizem que devemos comer mais frutas, mais vegetais, mais grãos integrais, mais feijões, mais oleaginosas, mais sementes. Elas não estão dizendo que devemos ser ideologicamente veganos. Mas a diferença entre isso e o veganismo [enquanto filosofia de vida] é de apenas mais alguns passos.”

Matt Ruscigno, nutricionista e ex-presidente da Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos, em “Live and Let Live”.





Written by David Arioch

July 22, 2017 at 12:50 am

Associação Dietética Americana reconhece os benefícios da dieta vegana

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Foto: David Arioch

A posição da Associação Dietética Americana é de que as dietas vegetarianas, incluindo a dieta vegetariana estrita ou a dieta vegana, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e oferecem benefícios para a saúde na prevenção e tratamento de certas doenças.

Esse posicionamento da ADA foi publicado na US National Library of Medicine e pode ser conferido neste link:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19562864





“Você pode levar uma marretada na cabeça ou uma injeção letal, qual você vai querer?”

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Nenhum animal dá o seu aval para morrer

Não raramente, vejo pessoas falando que documentários que defendem o veganismo usam imagens antigas ou capciosas para induzir o espectador a tornar-se vegano. Certo, agora é só me dizer em qual parte o animal ressuscita. Ou em qual parte ele deu o seu aval para morrer. Um animal não morrer não invalida o fato de que ele está sendo explorado para benefício humano. Assim como um animal não ser morto de forma visivelmente cruel não invalida o fato de que ele foi morto. Imagine se alguém te desse duas opções: “Você pode levar uma marretada na cabeça ou uma injeção letal, qual você vai querer?” Obviamente que a minha resposta seria: “Nenhuma!”

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July 19, 2017 at 1:39 am

O veganismo não existia antes da Vegan Society

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A Vegan Society foi a primeira organização a realmente defender os direitos animais

Muitas pessoas falam que o veganismo já existia no Oriente antes dele ter surgido na Inglaterra em 1944. Creio que seja um equívoco, simplesmente porque não havia nenhum movimento bem articulado como aquele que surgiu por proposição da Vegan Society, voltado para a questão dos direitos animais. O que existiu antes foram ações pontuais ou limitadamente específicas, e muitas delas inclusive realizadas de forma independente ou por pequenos grupos. Ou seja, sem objetivos claramente definidos e sem formatação de ativismo nos moldes atuais; ou mesmo um plano contínuo e abrangente de ações.

Tivemos figuras históricas que provavelmente hoje seriam consideradas protoveganas ou veganas, e deram sua valiosa contribuição ao longo dos séculos. No entanto, viviam a vida à sua maneira, sem grande articulação coletiva, e provavelmente por causa das limitações da época e da falta de informações, sem uma compreensão mais valorosa do direito à vida não humana. Antes, o mais próximo que tivemos do veganismo foi o vegetarianismo ético encabeçado por escritores como o britânico Percy Shelley e outros pensadores, que viam falhas na consciência vegetariana da época. Esses personagens foram influenciados pelos pensadores da Grécia Antiga, como Plutarco, Pitágoras, Empedócles, Teofrasto, Plotino e Porfírio, entre outros.

Ou seja, eles usaram como referência as ideias dos gregos, que traziam uma forte influência de uma forma inominada de vegetarianismo místico, a absorveram e a transformaram em um modelo de vegetarianismo mais pragmático, ou seja, ético. Sendo assim, ouso dizer que mais tarde o veganismo surgiu para cobrir as lacunas do vegetarianismo ético na década de 1940, como uma reação ao comodismo das sociedades vegetarianas que em sua maioria eram bem-estaristas, indo inclusive contra o que defendiam os vegetarianos do Período Romântico.

Outro fato a se considerar é que o vegetarianismo ético surgiu no Ocidente. O vegetarianismo oriental é o vegetarianismo místico e religioso, e por isso há disparidades substanciais quando falamos em direitos animais. A princípio, o vegetarianismo místico teve influência sobre o vegetarianismo ético. Porém, se voltava mais para a individualidade, não para a coletividade, além de colocar o ser humano como protagonista e principal beneficiado. Sendo assim, é um equívoco dizer que o veganismo existiu em outras partes do mundo antes do Ocidente, já que a defesa maior do veganismo são os direitos animais, e sem qualquer vinculação com misticismo ou religiosidade. Logo, não houve de fato veganismo antes da Vegan Society.

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Written by David Arioch

July 16, 2017 at 1:34 am

“Cara, não consigo gostar de comida vegana”

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“Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso”

— Cara, não consigo gostar de comida vegana.
— Sério mesmo?
— É sim…é muito estranha. Acho que não é pra mim…
— Por quê?
— Muita privação. Não consigo viver sem ter uma alimentação bem diversificada.
— Então vamos tirar esse arroz, feijão, tomate seco, palmito, couve, brócolis, ervilhas e cabotiá do seu prato. E também esse suco de laranja puro. E deixemos você só com a carne. Que tal?
— Por quê?
— Porque isso é alimentação vegana, e você acabou de falar que não gosta disso.
— Não, cara. Isso é comida normal, de quem come carne.
— E o que você acha que veganos comem?
— Não sei. Coisas estranhas, incomuns.
— Não, meu camarada. Veganos comem tudo aquilo que não envolve ingredientes de origem animal. Na nossa alimentação as possibilidades de variedade são imensas. Basta pensar da seguinte maneira – se uma pessoa não se alimenta de animais, o que resta? Uma infinidade de sabores. Agora me diga o que você consome no café da manhã.
— Aveia, banana, whey protein, cacau em pó…
— Substitua o whey protein por proteína vegetal e temos uma refeição para veganos.
— É?
— Sim, sem dúvida alguma.
— O que você come depois?
— Lá pelas nove e meia, normalmente como pão integral com queijo ou com ovo, e tomo um copo de leite.
— Entendi. Mantenha o pão integral, mas substitua o queijo por pasta de amendoim, ou, se tiver condições, por tofu ou outro tipo de queijo vegetal, que podem ser inclusive preparados em casa. Ou o ovo por hambúrguer de feijão, também de preparo muito fácil, além de barato. Também troque o leite por leite vegetal. Isso é alimentação vegana.
— Me parece mais simples do que imaginei.
— Pois é…

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Written by David Arioch

July 13, 2017 at 9:27 pm

Plotino: “Os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor”

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Plotino se recusava a consumir medicamentos com ingredientes de origem animal

Vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas também vegetarianos éticos

Mestre de Porfírio, seu discípulo que escreveu “Da Abstinência do Alimento Animal”, considerada por inúmeros pesquisadores como a obra mais importante da Grécia Antiga sobre a abstenção do consumo de animais, Plotino foi um filósofo neoplatônico que melhor assimilou e aperfeiçoou não apenas os ensinamentos de Platão, mas também de Pitágoras e Plutarco, autor de “Do Consumo da Carne”, outra obra igualmente relevante na discussão sobre o tema.

Um asceta moderado, Plotino ficou famoso pela autoria das “Enéadas”, obra fundamental da filosofia ocidental que reúne 54 tratados em seis capítulos. Compilada e editada por Porfírio no ano de 270, as “Enéadas” são baseadas principalmente no conteúdo de palestras e debates de Plotino com seus alunos ao longo de 17 anos.

O filósofo neoplatônico estudou em Alexandria e na Pérsia antes de se mudar para Roma, onde fundou a sua própria escola. No livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, o pesquisador Rod Preece afirma que Plotino, que provavelmente era de origem romana e nasceu no Egito, foi protovegetariano a maior parte de sua vida. Defensor do ascetismo moderado, Plotino começou a se questionar sobre os hábitos alimentares da época que, segundo ele, tinham grande influência sobre o comportamento e a personalidade humana, incluindo sua relação com a vida e o mundo.

Nas “Enéadas”, ele declara que os animais têm sentimentos, portanto sentem prazer e dor. Na perspectiva de Plotino, a dor é a aisthesis, a percepção do corpo despojado. Ele usa o conceito de pathos como representação da empatia, do sentimento e da ligação afetiva quando diz que, conscientes, somos sensibilizados diante de uma situação em que a vítima morre ou sofre desnecessariamente; como é o caso dos animais não humanos há muito explorados. Quem também defende a ideia de que Plotino foi um importante nome na discussão do que se tornaria o vegetarianismo ético é o pesquisador Gordson Lindsay Campbell, editor de “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.

“Embora não haja provas conclusivas, o estrito ascetismo de Plotino provavelmente incluiu o vegetarianismo, mesmo que o seu biógrafo, Porfírio, não tenha conseguido escrever por Plotino em relação ao assunto”, registrou Preece. Apesar disso, o que reforça a ideia de que Plotino realmente se voltava para a questão do que futuramente seria os direitos animais era a sua recusa em consumir medicamentos com ingredientes de origem animal, conforme informações do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”.

Preece afirma que vários seguidores de Plotino não eram apenas vegetarianos, mas inclusive vegetarianos éticos. E o argumento fundamentado nas ideias do filósofo neoplatônico, e que teve continuidade com Porfírio, é de que o ser humano precisava mudar a sua relação com os animais e se libertar das calamidades do corpo. Assim, é justo dizer que os ensinamentos de Plotino influenciaram Porfírio a escrever “Da Abstinência do Alimento Animal”, obra também influenciada por Pitágoras, sobre quem o discípulo de Plotino escreveu uma biografia.

Em “Vegetarianism – A History”, Jon Gregerson diz que para Plotino a única forma da humanidade alcançar a realidade suprema seria tratando todos os animais com respeito e compaixão. Ou seja, reconhecendo primordialmente o direito à vida, sem os prejuízos da exploração humana. “Porfírio deu continuidade ao trabalho de Plotino, apresentando evidências observacionais e históricas em defesa do vegetarianismo e da racionalidade dos animais”, enfatizou Nathan Morgan, autor de “The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism”. Influenciado por Plotino, Porfírio qualificou o consumo de carne como um encorajador da violência. Ademais, apresentou ideias antes defendidas pelo seu mestre neoplatônico de que os animais têm capacidade de raciocínio. Assim sendo, não faltam razões para estender a justiça a eles.

Kerry S. Walters e Lisa Portmess, autores de “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, apontam Plotino como o responsável pela consciência vegetariana de Porfírio, que também se inspirava em Pitágoras e Empedócles. A obra “Da Abstinência do Alimento Animal”, do filósofo neoplatônico foi uma reação argumentativa ao abandono do filósofo Firmus Castricius, que deixou a Escola de Plotino para renunciar à dieta vegetariana e se juntar aos cristãos.

Do livro 1 ao livro 4 de “Da Abstinência do Alimento Animal”, Porfírio defendendo o estilo de vida apregoado pela Escola de Plotino, assinala que o consumo de carne é intemperante, logo incompatível com a vida filosófica. Ele argumenta que o sacrifício de animais é ímpio, que os animais merecem um tratamento justo e que os sábios do passado condenavam o consumo de carne.

Embora o mestre de Plotino não tenha falado abertamente do vegetarianismo na obra “A República”, tudo leva a crer que Platão via com bons olhos a abstenção do consumo de carne. Prova disso é o fato de que muitos neoplatônicos se identificavam com uma vida livre do consumo de carne. “Publicamente, sua dieta era aceitável como parte do verdadeiro ascetismo. Portanto, não atraiu controvérsia”, pontuou Colin Spencer em “The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism”.

Outro fato revelador é que no século 3 Plotino conseguiu aprovação e apoio do Imperador Galiano para construir o que poderia ter sido a primeira cidade vegetariana ocidental, e que teria como referência a República de Platão. O seu nome seria Platonópolis. Mas o sonho de Plotino esbarrou no Senado, que vetou a sua proposta. Apesar disso, seu trabalho teve continuidade com Porfírio e outros filósofos que mais tarde influenciaram o vegetarianismo ético e a discussão em torno do que daria origem aos direitos animais.

Referências

Plotino. The Enneads: Abridged Edition. Penguin Classic (1991).

Porfírio. Gillian Clark. On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint Edition (2014).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism. UPNE. First Edition (1995).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought. Páginas 112-113. UBC Press (2017).

Gregerson, Jon. Vegetarianism, a History. Jain Publishing Company (1995).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).

Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life (Oxford Handbooks). Oxford University Press; First Edition (2014).

Walters, Kerry; Lisa Portmess. Ethical Vegetarianism: From Pythagoras to Peter Singer. State University of New York Press; Reprint Edition (1999).

The Hidden History of Greco-Roman Vegetarianism

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Mate Coma

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“Que demais esse lugar. Dizem que os lanches deles são os melhores da região”

Arte: Dana Ellyn

Inauguraram uma lanchonete fora da cidade. Mate Coma. Ioan e Colomano percorreram pouco mais de 15 quilômetros até chegarem ao local. Boa vegetação nativa nos entornos, arborismo, tirolesa, frescor; cães, gatos e coelhos brincando às margens de uma lagoa.

— Que demais esse lugar! – disse Ioan.

— Show mesmo! Não conhecia isso aqui – comentou Colomano.

— Dizem que os lanches deles são os melhores da região.

— Também fiquei sabendo disso. Veremos se é verdade.

Lá dentro, a iluminação não era das melhores. Intencional. Os fregueses comiam como se não houvesse amanhã. Normal. Ian e Colomano foram ignorados. Ninguém se importava com quem entrava ou saía. Sem piscar, um homem com um lanche desmesurado entre as mãos o devorava; vez ou outra, roçando a língua pela carne malpassada.

— Delícia! – monologou, ignorando as pessoas à sua volta.

— Tem sangue na roupa daquele homem, e não é pouco. Será que ele sabe disso?

— Não tenho a mínima ideia. Seria uma boa avisá-lo?

— Pode ser.

Ioan se aproximou, cutucou o ombro do homenzarrão e ouviu um grunhido.

— Senhor, com licença, me perdoe a intromissão, mas só quero avisar que tem sangue na sua roupa.

— É?

— Sim…

Nenhuma palavra, risos, bafo quente. O homem virou as costas e continuou mastigando.

— Parece que as pessoas aqui só querem comer. Nada mais importa.

— Bom, isso aqui é uma lanchonete, não é mesmo? — ironizou Colomano.

— Pois é…

Diante de uma mesa, Ioan pegou o cardápio. Grande variedade de carnes. De cavalo a jacaré. Na última página, um aviso – “Conseguimos qualquer tipo de carne, independente de espécie.”

— Isso é interessante — concluiu Colomano.

Ao lado da descrição de cada lanche havia sugestões de abate, de como garantir que as partes mais nobres da carne não sejam maculadas durante e após a execução de cada animal.

— O que significa isso? E essas ilustrações de abate? Isso é realmente estranho — reclamou Ioan.

— Será? Acho que não. Me parece algo bem honesto, diferente do que vemos por aí.

— Sei lá, cara! Isso parece demais pra minha cabeça.

Em uma vitrola perto do balcão tocava “Everybody Hurts”, do REM, enquanto os fregueses comiam. “When you’re sure you’ve had enough of this life…Hang on.”

— Boa noite. Sejam bem-vindos ao Mata Come. O que vocês desejam?

— Falaram que é possível comer à vontade e de graça neste lugar. Não vou negar que foi isso que trouxe a gente aqui.

— Ah sim! Esplêndido! Já sabem como funciona?

— Não… – responderam ao mesmo tempo.

— Pois bem! O que vocês vão querer?

— É simples assim? – questionou Ioan.

— Esse é o primeiro passo – respondeu o garçom.

— Ah…ok.

— Quero um X-Vitela. Ele vem mesmo com 300 gramas de carne?

— Sim, na opção tradicional, mas nessa modalidade que vocês querem a quantidade de carne é ilimitada.

— Uau! Que maravilha! — comemorou Ioan.

— E você, Colomano?

— Quero algo mais usual. Um X-Filé Mignon vai bem.

— Podem me acompanhar?

— Tudo bem.

Atravessaram a cozinha e caminharam até um galpão bem iluminado com dezenas de divisórias. Grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, torneiras, pias, facas, marretas, sangue fresco e riscos no chão. Não. Nenhuma alucinação.

— Que gritos e gemidos são esses? – perguntou Ioan.

— É o grito da comida, meu senhor, simplesmente o grito da comida. Não se preocupe.

Pios, cacarejos, gorjeios, uivos, assobios, grunhidos, mugidos, latidos, miados, coachos, relinchos.

— Que barulheira! Isso aqui parece uma selva – comentou Colomano.

— Não exatamente. Apenas atendendo o gosto do freguês.

— Me acompanhem, por favor.

Atravessaram um corredor, barulho mais intenso, luzes amarelas, insetos agitados, nenhuma janela.

— Os senhores podem entrar aqui. Aguardem um momento.

O garçom fechou a cortina branca e os deixou sozinhos com um robusto boi acastanhado. Enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, o animal visivelmente dopado mugia com a cabeça escorada em um latão; um mugido sepulcral e fragilizado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou Ioan já exaltado.

— Vamos esperar – sugeriu calmamente Colomano.

O garçom retornou acompanhado de um peão empurrando um carrinho de mão. As rodas rangiam e as pernas do bezerro tremiam. Tiraram o animal de cima do carrinho e o colocaram no chão. Fraco demais para manter-se em pé.

— O que é isso? – questionou Ioan.

— O X-Vitela.

— Como?

— Isso mesmo!

Sem dizer mais nada, o garçom mostrou um mural com duas opções de execução — MARRETADA OU DEGOLA.

— Aqui no Mate Coma o senhor pode comer à vontade e sem pagar nada se matar o animal usado no recheio do seu lanche. O senhor pediu um X-Vitela e o seu amigo um X-Filé Mignon. Temos aqui um boi e um bezerro. Tudo é feito por nossa conta, menos o abate do animal. Quem deseja começar?

— Isso é loucura! Não posso matar um animal. Nem mesmo posso vê-lo morrer – esbravejou Ioan.

— Mas imagino que o senhor coma carne, não?

— Claro que sim, mas não tomo parte na morte do animal.

— Será?

— Que desaforo! Não vou ficar aqui sendo tratado com desrespeito.

— Acalme-se, Ioan! – sugeriu Colomano.

— O garçom tem razão. Se comemos, matamos, a única diferença é que não golpeamos.

— Você também? Pelo amor de Deus, Colomano! O que está acontecendo com você?

— Ora, nada! Apenas uma fagulha oportuna de sensatez.

— Quer saber? Mate você os dois. Perdi o apetite.

— Que assim seja, meu amigo.

Ioan atravessou o barracão a passos céleres e caminhou em direção à lanchonete. Sentou-se.

Resistente, o boi mugia entre as marretadas de Colomano. Foram 12 para entregar-se ao fim. O sangue escorria pelo piso. Fresco, grosso e escuro — o mousse da morte. Língua de fora, cabeça pesada, olhos vazios.

— Me desculpe, meu amigo, mas agora é a sua vez – falou segurando a cabeça do bezerro caramelo que tremia e se encolhia no canto com olhos vendados.

Um golpe certeiro na garganta o fez deitar e se debater com as patas moles até perecer. Expressão final de terror e desespero. O sangue não parava de jorrar, se misturando ao do boi recém-falecido. Eram como pai e filho, lado a lado, combinando carcaças.

— Parabéns! O senhor não fugiu. Realmente assumiu a responsabilidade — disse o garçom.

— Certo…Que seja! Vai demorar muito para os lanches ficarem prontos?

— Não muito. O senhor pode seguir esse corredor e virar à direita. A última porta é um banheiro. Pode se limpar ou se lavar lá.

— Ok. Obrigado…

Na lanchonete, Ioan não conteve as lágrimas enquanto assistia “Blackfish”, de Gabriela Cowperthwaite.

— Que história mais triste. Meu coração está com você, Tilikum – monologou esfregando as pontas dos dedos nos olhos.

— Sabia que você não iria embora. E aquela conversa de que perdeu o apetite? – indagou Colomano.

— Fiquei mal na hora, mas já passou – justificou Ioan.

— Ah sim. Então tá.

— Os lanches logo serão servidos, inclusive o seu. Vai querer ou não?

— Assim sim.

— Bueno! Bueno!

Quando o garçom retornou com o X-Filé Mignon e o X-Vitela, Ioan e Colomano ficaram extasiados com o que viram. Cada lanche tinha 12 camadas.

— É sempre assim? Com 12 camadas?

— Não. É porque o senhor matou o boi com 12 marretadas.

— Isso foi criativo, devo admitir.

— Podemos comer sem tocar nesse assunto? — reclamou Ioan.

— Ok…ok..ok… — concordou Colomano.

Assim que deu a primeira mordida, Ioan cuspiu um pedaço de lanche no prato.

— Que nojo! Meu Deus do céu! O que tem errado neste lugar?

Colomano também sentiu um gosto estranho na boca e fez o mesmo.

— Garçom, amigo, venha aqui, por favor.

— Isso é extremamente nojento. Horrível! Estou com ânsia de vomito.

— O que houve, meus senhores?

— O que houve?

— Tem um fio de cabelo longo e castanho no meu lanche. Que repugnante!

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