David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Velhice’ tag

O simbolismo não chega à velhice

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Mallarmé, Verlaine, Baudelaire, Rimbaud, Cruz e Souza e Augusto dos Anjos

O simbolismo nasce, morre e renasce sem chegar à velhice. Sempre me pareceu um movimento jovem, de jovens anciãos. Dos poetas, Mallarmé foi o que demorou mais para se cansar da vida, falecido aos 56 anos. Verlaine, que teve uma história conturbada com Rimbaud, morreu aos 51 anos quando acreditava que a vida não tinha mais nada a lhe oferecer.

Baudelaire e suas Flores do Mal sucumbiram aos 46 anos em decorrência de sífilis. Rimbaud, o jovem poeta maldito, depois de Uma Temporada no Inferno partiu aos 37 anos quando há muito deixou de produzir poesia para vivê-la em sua forma mais figadal. No Brasil, penso nos Broquéis de Cruz e Souza, vencido pela tuberculose aos 36 anos. E no não menos maldito Augusto dos Anjos, que passou uma vida entre a doença e a convalescença, até não resistir a uma pneumonia aos 30 anos. O simbolismo foi feito para a posteridade enquanto seus representantes para o paroxismo da efemeridade.





Written by David Arioch

October 11th, 2017 at 11:56 am

A estranha cultura de se referir à velhice como algo terrível

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Arte: Karl Horeis

Acredito que envelhecer não é ruim quando a pessoa se preocupa com a própria saúde. Temos uma estranha cultura de se referir à velhice como se fosse algo medonho, terrível. Inclusive há sempre uma associação com pessoas usando bengalas, cadeiras de rodas, muletas. Ou que não são capazes de cuidarem de si mesmas. Os comerciais estão aí para provar isso, e nos inundar com essa ideia equivocada.

Sempre ouço, inclusive na rua, pessoas falando: “Quero ver se você vai cuidar de mim quando eu envelhecer.” Isto porque estamos há muito imersos em uma cultura em que velhice é sinônimo de decrepitude. Mas a decrepitude só surge se deixarmos que ela floresça.

Se o ser humano realmente se amar e valorizar a vida como deve ser, ele pode evitar todos esses clichês e estereótipos que envolvem a terceira idade. Acho que já passamos do tempo de acreditar que a velhice é um inevitável período de dependência excessiva, da incapacidade de exercer até mesmo as tarefas mais simples do cotidiano.

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Written by David Arioch

July 23rd, 2017 at 11:44 pm

Idosos e a depressão

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O "Velho Homem em Tristeza", pintado por Van Gogh em 1890

O “Velho Homem em Tristeza”, pintado por Van Gogh em 1890

Nas últimas semanas tenho conversado com idosos com mais de 85 anos e que sofrem de depressão. Me contaram que agora começaram a se sentir mais próximos da morte. Alguns porque restam poucos de suas gerações.

“Com 80 anos, ainda me sentia um pouquinho jovem”, disse um deles sorrindo. E percebi que todos eles têm uma mesma opinião reproduzida com palavras distintas.

“O mais difícil hoje é ter uma mente jovem em um corpo fustigado. A mente quer o que o corpo já não permite. Ele cobra por nossas ações. É como uma derrota difícil de aceitar”, comentou um senhor de 86 anos.

Written by David Arioch

May 24th, 2016 at 10:49 pm

O fim que não precisa parecer tão fim

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Pintura de Salvador Dali que retrata a velhice

Crepuscular Old Man, pintura de Salvador Dalí que retrata a velhice

Todos os dias observo um senhor alto, com mais de 70 anos, próximo à minha casa caminhando com um olhar melancólico e a cabeça desconfortavelmente afundada entre ombros largos e frágeis. Seu corpo é tão teimoso quanto uma criança travessa. Sei disso porque sempre o percebo titubeante ao se deparar com um meio-fio.

A ele parece um exercício doloroso o ato de se locomover. Sinto que se exaspera um pouco quando atravessa a rua em horário de grande movimento de veículos. Sei que ele não teria destreza para fugir caso um automóvel ameaçasse sua integridade física. E sempre me questiono:

“Ele um dia foi jovem, como terá sido sua juventude?” Não tenho como afirmar, mas suponho que não era um grande adepto de atividades físicas. Se o foi, desistiu muito cedo. Talvez não se preocupasse com a alimentação – o que não posso afirmar.

“Será que tinha vícios?” Também não sei, restando-me inferências, embora aquele senhor seja de uma época em que o consumo de álcool e tabaco simbolizava galhardia. Ademais, suponho que em algum momento da vida gozou de prazeres simples como subir em árvores e correr pelas ruas enquanto o vento lhe acariciava a face.

Penso que o fim da vida não precise parecer tão fim se não o desejarmos, se nos empenharmos para que a mente não se torne alheia ao corpo.

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Written by David Arioch

February 24th, 2016 at 10:40 pm

Congelando o tempo no âmago da vida

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Ninguém escapa do tempo, mas o ser humano tem a seu favor a jovialidade espiritual

Mitológica Fonte da Juventude, do pintor alemão Lucas Cranach

Mitológica Fonte da Juventude, do pintor alemão Lucas Cranach

Quando se fala de velhice, os mais jovens ficam despreocupados, pois ainda estão desfrutando dos prazeres propiciados pela jovialidade. Já quem tem idade avançada começa a se preocupar com os traços do tempo que afetam o perfil estético. A consequência é que muitas pessoas passam a encarar a vida com uma visão pessimista envolta por piedade, medo e constrangimento; uma nebulosidade que começa a transcender.

Enquanto alguns acreditam que a temporalidade é um grande inimigo para quem não quer envelhecer, outros preferem aceitá-la, defendendo que é a melhor forma de encarar a vida de forma saudável. Pessoas assim creem que ninguém deve preocupar-se, sequer com o tempo, porque isso pode impedi-lo de aproveitar a vida.

Um exemplo de quem optou por viver sem grandes preocupações é o escritor belorizontino João de Freitas, 50, que escreveu o livro “A fonte da juventude” que traça um paralelo entre tempo, idade e saúde. “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho. Procuro agir da forma que acho mais adequada para minhas energias não se esgotarem rápido”, diz.

A fonte da juventude tem origem mitológica e explica que Júpiter, o deus dos deuses, transformou a ninfa Juventa em uma fonte cuja água devolvia a mocidade. Mas Júpiter escondeu a fonte, e ninguém sabia onde a encontrar. Isso mostra que alguns mitos representam o sonho da humanidade de “driblar” um de seus maiores receios e ter controle sobre o que lhe foi imposto como fator da natureza.

Muitas pessoas já devem ter assistido algum filme ou lido algum livro que mostra uma mística fonte em que qualquer pessoa que beber daquela água vai ter a oportunidade de retardar o envelhecimento e assim manter-se jovem para sempre. Pois é, essa fonte ao certo a maioria não sabe se existe ou onde pode ser encontrada, mas especialistas afirmam que para envelhecer com saúde é preciso boa alimentação e prática regular de atividades físicas. Assim poderão trilhar o caminho da velhice “de mãos dadas com o tempo”.

João de Freitas “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho” (Foto: Arquivo Pessoal)

João de Freitas “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho” (Foto: Arquivo Pessoal)

Das mudanças físicas trazidas pela inexorabilidade do tempo ninguém escapa, mas o ser humano ainda possui a seu favor a tenaz vivacidade de manter a jovialidade espiritual. “Depois do trabalho chego em casa cansado, tomo banho e logo em seguida me sinto como se tivesse 50 anos, isso porque mantenho uma vida ativa, o trabalho faz com que eu me sinta assim”, explica o empreiteiro João Mariano, 80.

A temporalidade que pode fazer do homem jovem de hoje um ancião no futuro é o triunfo de quem consegue enxergar o lado positivo com o avanço da idade. “O indivíduo vai ganhando mais sabedoria. O conhecimento é o que podemos acumular de bom com o tempo. Se eu soubesse desde a infância tudo que sei hoje, poderia estar em posição muito mais vantajosa”, conta Freitas.

Em contraponto, o tempo traz a finitude, um dos grandes medos da humanidade, fazendo com que porventura cada um se agarre em explicações que para si pareçam as mais “plausíveis”. “Diante da certeza da morte, uns pensam em ressurreição, outros em reencarnação, e ainda há aqueles que acreditam na sobrevida à morte, cada ideia visa amenizar a grande certeza que temos, que um dia morreremos”, frisa o escritor.

O médico e escritor norte-americano Peter kelder fez um estudo sobre o assunto e lançou um livro em 1939 intitulado “A fonte da juventude”. Na obra, os princípios básicos para se envelhecer com saúde estão em rituais milenares tibetanos que mantêm o corpo em harmonia por meio de sete vórtices localizados no corpo humano, assim retardando o envelhecimento. Além disso, o autor explica que a boa alimentação por meio de alimentos naturais, e pouco variados, é de suma importância para se alcançar a longevidade.

Bons hábitos alimentares devem estar positivamente adequados ao organismo do indivíduo. É imprescindível para evitar problemas que surgem com o tempo. Apesar do empreiteiro de 80 anos nunca ter lido o livro de Peter kelder ou ter recebido recomendação médica, revela que come pouca carne vermelha, pois prefere carne branca como frango ou peixe, e evita ingerir refrigerantes, doces, enlatados e conservas.

Os cuidados com a saúde, envolvendo atividades físicas e alimentação, além da busca da paz espiritual, são algumas das formas encontradas pelo ser humano que tem o desejo de prolongar a vida em substituição da mitológica fonte da juventude que por enquanto ninguém sabe onde Júpiter escondeu, nem mesmo os cientistas. Mas para se chegar a terceira idade arraigado no âmago da vida basta cada um buscar a sua própria “fonte da juventude”, afastando-se dos preceitos determinados pela crescente cultura do comodismo que leva somente à displicência.

Written by David Arioch

June 30th, 2009 at 2:59 pm