David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos de um animal que luta pela vida”

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“O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva” (Foto: Mary Britton Clouse)

“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos de um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão de horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do modo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.”

Página 126 de “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee, publicado em 2003.

 

Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

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Molly B., vaca que fugiu de um matadouro nos Estados Unidos em janeiro de 2006 (AP Photo/Great Falls Tribune, Robin Loznak)

— Por que você acredita que o sofrimento de um animal não humano não é menor do que o humano na iminência da morte?

— Acredito que o sofrimento de um animal não humano pode ser maior, sim, realmente maior, e por uma justificativa até simples – a incapacidade de racionalizar e verbalizar o que sente. Imagine a si mesmo em uma selva e diante de um animal muito maior e mais forte do que você. De repente, vocês estão diante um do outro, e não há nada que você possa fazer para impedir que ele o ataque e o mate. Afinal, ele não partilha do mesmo código comunicativo que você. Partindo da mesma situação de um animal prestes a ser abatido, ou seja, de total vulnerabilidade, eu diria que qualquer reação sua será em vão. Isto porque falo de situações equiparáveis.

Por exemplo, um animal na pista da morte em um matadouro está no mesmo estado de vulnerabilidade de uma pessoa desarmada e despreparada caminhando pela selva. Mas nisso subsiste uma distinção substancial. E qual seria? Se um animal me matasse em território selvagem, ele o faria instintivamente, seja por fome, medo, identificação de perigo ou qualquer outro fator que desencadeie essa reação. Já os animais cativos que matamos não nos apresentam qualquer perigo. São simplesmente criados para gerar lucro e saciar paladares, logo são mortos friamente.

Creio que não apenas legitimamos esse tipo de morte como a incentivamos e a incluímos, mesmo que arbitrariamente, na nossa moralidade antropocêntrica. Se ainda assim, a minha resposta não for o suficiente, sugiro que aqueles que discordam do meu posicionamento visitem matadouros e observem a reação dos animais antes de serem abatidos. Não é incomum eles recuarem, tentarem postergar o inevitável. Um animal que testemunha a morte de outro não se oferece para ser o próximo. Muito pelo contrário.

E a ausência de um código de comunicação em comum, sem dúvida torna tudo mais doloroso. Imagino que saberíamos, de fato, como é esse tipo de sentimento se uma espécie muito superior à nossa, e que tivesse um código de comunicação completamente diferente do nosso, fizesse algo parecido conosco. Claro, diferentemente dos selvagens, não despedaçamos nossas vítimas no instante em que as matamos. Porém, não fazemos isso depois? Os açougues e as seções de frios dos mercados provam que sim.

 





O preço do pernil

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Ilustração: Vanni Cuoghi

Tem três pés e muita dificuldade para andar. Não desiste. Entre passos e pequenos saltos, se aproxima de um homem comendo tranquilamente um sanduíche. À sombra da sibipiruna, o rapaz de bermuda leva um susto quando sente um focinho gelado tocando-lhe a panturrilha descoberta.

Solta um gemido doloroso e aponta o focinho para o próprio ferimento. Falta-lhe uma perna. O estranho continua sem entender o que aquilo significa. Entre mastigadas e desinteresse, se irrita quando o porquinho toca-lhe a mão com a cabeça.

— Pelo amor de Deus, né? Você quase derrubou meu lanche. Vá pra lá, tá me irritando.

Mais uma vez. Persistência. Entre duas fatias de pão, o último pedaço de pernil cai sobre um punhado de folhas. O rapaz se levanta. Sisudo, furibundo, esfaimado. Suor quente. A ameaça do chute não intimida. O pequeno o observa sem se mover. Ameaça. Sim, ameaça humana.

— Te mato, caramba! Mato mesmo!

O porquinho empurra o pequeno pedaço de carne. Faz um desenho com o focinho.

— O que você tá fazendo?

Continua arrastando o focinho pelo solo.

— Hã?

Um pernil, disforme, mas um pernil riscado na terra. No núcleo, um pedaço da carne suja.

O porquinho deita no chão. Ganha uma perna incapaz de mover. Pouca carne. Carne sem vida. Riscos. É o que resta.

— Você quer dizer que comi sua perna?

O porquinho se levanta, o observa e vai embora. Dor, passos curtos e incertos, pulinhos, pulinhos alternados.

A carne já não é carne. O rapaz cava um pequeno buraco com as mãos, enterra o pedaço de pernil e cobre com terra. Escreve no chão: “Que a minha busca pelo perdão triunfe sobre o prazer da gustação.”

 





Passei a minha vida toda em cidades do interior

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Arquivo: Shelton Palace Hotel

Passei a minha vida toda em cidades do interior. Por uma questão de preferência, nunca morei em metrópoles, justamente porque tempo é algo importante para mim, além da perpetuação de certos hábitos que considero inerentes ao ser humano. Não cresci comprando coisas demais, frequentando redes de fast food. A verdade é que não cresci dentro de uma cultura muito consumista. Na minha infância, porcarias eram consumidas apenas ocasionalmente. E tal hábito foi mantido e aperfeiçoado.

Não tenho o costume de comer fora, sempre tive uma relação quase litúrgica com a comida, tanto que gosto de cozinhar. Prefiro comprar coisas diretamente de quem produz. Claro, não me considero melhor do que ninguém por causa disso. Produtos industrializados nunca foram uma grande preocupação pra mim, porque essa não é a cultura em que estou inserido, e provavelmente essa minha história de vida me permite não cair em tantas armadilhas que ajudam a perpetuar ou reforçar as mais diferentes formas de exploração.

Me recordo que quando Gilles Lipovetsky criou o termo caos organizador ele disse que o ser humano se dividiria entre o progresso e o regresso na hipermodernidade. E é isso que testemunhamos todos os dias. Quando penso nisso, às vezes rememoro os escritos ficcionais de Knut Hamsun sobre anticivilização, uma anticivilidade telúrica que o levou ao Nobel.

 

 





Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:36 pm

Posted in Críticas,Reflexões

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Diante do semáforo

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Pintura: Dianne Dengel

De manhã, diante do semáforo, ao meu lado havia um fusquinha bege bem conservado. Ao volante, um senhorzinho já bem idoso. Enquanto o sinal não esverdeava, ele levantou a pequena mão da esposa e a beijou delicadamente. Ela sorriu e ajeitou a gola da blusa dele. Quando o sinal ficou verde, o fusquinha seguiu o seu caminho, sem pressa, ignorando as ultrapassagens. Naquele momento, pensei: “Realmente, nós que fazemos a velocidade da vida; nos entorpecemos ou nos sublimamos com ela.”





Written by David Arioch

October 4th, 2017 at 2:23 am

A vida e a identidade

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Quando considero a breve duração de minha vida absorvida na eternidade que vem antes e depois…o pequeno espaço que ocupo e que vejo ser engolido pela infinita imensidão dos espaços de que nada sei e que nada sabem sobre mim, fico amedrontado e surpreso por me ver aqui e não ali, agora e não depois.

Blaise Pascal em Pensées, Section III, Of the Necessity of the Wager, 205.

 

O vazio de identidade é de tal gravidade para a e estrutura humana que, estar desorientado no seu espaço moral acerca de questões do que é bom ou ruim, pode fazer o ser humano desembocar numa perda de controle da própria posição no espaço físico.

Excerto de “Sources of the Self”, de Charles Taylor.

 

Written by David Arioch

September 16th, 2017 at 10:10 pm

Muitos dizem que a vida é pra curtir…

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Fonte da arte: Grupo Escolar

Alimentação também é uma forma de condicionamento social. É uma pena que muita gente ignore a influência ou o peso que isso tem em sua vida e na vida daqueles que afeta ou sobre quem exerce influência.

Muitos dizem que a vida é para curtir, que não importam os excessos na alimentação, ou até mesmo os vícios (como se isso fosse sinônimo de curtir). Mas é uma opinião que sempre muda quando uma pessoa contrai uma doença grave. Acredite, essa opinião de hoje pode mudar amanhã, e talvez seja tarde demais.

Se você não cuidar de você mesmo, dificilmente os outros poderão fazer melhor por você depois. Ninguém está imune a uma doença, mas não vejo motivo para aproximá-la. Também não digo para ninguém levar uma vida franciscana, porém acredito que a ponderação é uma via salutar.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 12:21 am

Um exemplo de simplicidade e sensibilidade

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Arte: John Lautermilch

Fui na Vila Alta conversar com uma senhora que teve o marido assassinado com um tiro na cabeça em um bar. Ele foi usado como escudo em um acerto de contas entre jovens envolvidos com o narcotráfico. Me surpreendeu a simplicidade dela, uma pessoa de fala mansa que não sente raiva nem ódio de ninguém, mesmo depois de uma tragédia. Me disse que gostaria apenas que as pessoas parassem de se matar em vez de destruir a própria vida e a dos outros.





Written by David Arioch

July 26th, 2017 at 9:38 pm

“Você pode levar uma marretada na cabeça ou uma injeção letal, qual você vai querer?”

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Nenhum animal dá o seu aval para morrer

Não raramente, vejo pessoas falando que documentários que defendem o veganismo usam imagens antigas ou capciosas para induzir o espectador a tornar-se vegano. Certo, agora é só me dizer em qual parte o animal ressuscita. Ou em qual parte ele deu o seu aval para morrer. Um animal não morrer não invalida o fato de que ele está sendo explorado para benefício humano. Assim como um animal não ser morto de forma visivelmente cruel não invalida o fato de que ele foi morto. Imagine se alguém te desse duas opções: “Você pode levar uma marretada na cabeça ou uma injeção letal, qual você vai querer?” Obviamente que a minha resposta seria: “Nenhuma!”

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Written by David Arioch

July 19th, 2017 at 1:39 am

Mazinho e o menino

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There’s No Place Like Home, de Edwin Henry Landseer

Na Vila Alta, encontrei uma criança dando um tapa na cabeça de um cachorro na rua. Não foi um tapa muito violento, mas pela reação do cãozinho pareceu tão comum que suspeitei que não era o primeiro. Encostei o carro, desci e caminhei até ele.

— Oi! Tudo bem?
— Oi! Tô bem.
— Legal! Isso é bom!
— Esse cachorro bonito mora com você?
— Mora sim…
— Faz tempo?
— Desde que nasci…
— Qual é o nome dele?
— Mazinho.
— Você gosta do Mazinho?
— Gosto sim, muito.
— Isso é muito bom!
— Você lembra de mim?
— Sim, você é o David, que visita o Tio Lu.
— Isso mesmo.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode…
— Você acha que dói apanhar?
— Dói…dói sim…
— Você já bateu em alguém de quem você gosta?
— Não…
— Entendo. Nem no Mazinho?
— Aaaah….bati…
— Você acha que ele sente dor?
— Não sei…acho que sim…
— Ele fica feliz perto de você?
— Fica…
— Então se ele fica feliz, ele também fica triste, e se fica triste tem emoções e sentimentos. E quem tem emoções e sentimentos também sente dor, concorda?
— É…verdade.
— Quando você bate no Mazinho, ele fica alegre?
— Não…
— O que ele faz?
— Ele foge de mim…
— Você gosta quando ele foge de você?
— Não…
— Por quê?
— Acho que porque ele fica com medo de mim.
— E por que ele fica com medo de você?
— Porque quando faço isso ele me acha mau…
— E você é mau?
— Não…
— Então que tal mostrar pra ele o tempo todo que você não precisa ser mau com ele?
— Acho que seria bom…
— Seria sim, e vai ser bom.
— Que tal experimentar?
— Vou fazer isso.
— Promete?
— Prometo.
— O que acha de pedir desculpas e dar um abraço no Mazinho?
— Tá bom…

O menino caminhou até o cãozinho que se escondia atrás de uma cerca em um terreno baldio vizinho. Hesitou com o focinho virado para uma mureta, mas aceitou o abraço do amigo. Antes que o menino o soltasse, Mazinho lambeu-lhe a orelha. “Desculpa, Mazinho…” – disse baixinho. O menino sorriu e a lágrima escorreu.

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