David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Dezembro é o mês mais violento para os animais

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No Natal, as pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida

Dezembro é o mês mais violento para os animais. O mês em que é celebrado o Natal, o espírito natalino, um tempo de paz, é marcado por muita violência. Mas como assim? É em dezembro que a demanda por carne chega a ser até dez vezes maior do que em qualquer outro mês. Há muitas encomendas, de animais inteiros, com olhos, com boca, decapitados, eviscerados, fatiados, etc. Vai do gosto e da (in)sensibilidade do freguês.

Pelo menos no Ocidente, é costume as pessoas encherem os carrinhos de carne nessa época do ano. Compram quilos e mais quilos de aves, bovinos, suínos, ovinos, caprinos e “peixes nobres”, preparados das mais diferentes maneiras. Em muitas casas, é possível juntar pedaços de animais e fazer um presépio. “É preciso oferecer uma mesa farta”, dizem apontando para uma grande variedade de carnes, que nada mais são do que partes fatiadas ou inteiras, e normalmente assadas, de espécies mortas (você pode preferir abatidas) para a celebração do nascimento de Jesus.

Segundo a tradição cristã, quando Jesus nasceu, os animais estavam bem próximos à manjedoura, e o calor de seus corpos o aqueceram. Atualmente, no Natal, são as pessoas que aquecem os corpos desses animais, mas nas brasas da churrasqueira, no forno, na grelha. Com a chegada do Natal, mais do que nunca, bebês, pais e mães de outras espécies são servidos sobre uma mesa.

Antes há muitos abraços. As pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida, e sendo rejeitados como seres sencientes e conscientes. Às vezes, com sorte, pode ser que dividam o mesmo espaço sobre a mesa. Claro, não na mesma forma ou travessa, mas talvez nas imediações, pedaços sem vida combinando a poucos centímetros. Seria uma baita coincidência, não? Talvez um gesto inconsciente de bonomia? Difícil dizer.

No Natal, o espírito de solidariedade e fraternidade emerge como nunca. Sorrisos, lembranças e olhares que miram grandes pedaços de carne, mas que se recusam a racionalizar que cada fragmento já foi parte de uma vida; da vida de uma criatura que até o seu último momento não desejou morrer precocemente, assim como qualquer outro animal, humano ou não.





Written by David Arioch

November 24th, 2017 at 11:49 pm

Produção de bacon é uma das principais causas da matança anual de mais de um bilhão de suínos

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O bacon é a gordura subcutânea extraída originalmente das nádegas do porco após o abate. Com o tempo, passou a ser extraído também das laterais. Depois tornou-se mais usual a extração de bacon da barriga desse animal que preserva inúmeras características de seus ancestrais, principalmente a inteligência e a consciência daqueles que viviam livremente em florestas.

Como a demanda mundial de bacon é muito alta, principalmente nos Estados Unidos, onde 70% do seu consumo ocorre no café da manhã, pode-se dizer que a produção de bacon é uma das principais causas da matança anual de mais de 1,1 bilhão de suínos. No mundo todo, cerca de 23 milhões de porcos são mortos por semana, segundo a organização Animal Ethics, do Reino Unido. China, União Europeia e Estados Unidos respondem por mais da metade da morte de suínos. Em seguida, vem o Brasil.

Dos mamíferos reduzidos a alimentos e produtos, os porcos estão no topo. Mata-se no mundo todo pelo menos três vezes mais suínos do que bois e vacas, de acordo com a AE. Sem dúvida, o consumo de bacon contribui substancialmente para a morte desses seres sociáveis que nascem com aptidão para interagir e viver em grupo, e podem ser mais inteligentes do que os cães.





Por que só reconhecemos a exploração animal quando envolve violência explícita?

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Foto: Jo-Anne McArthur

Basta um ser humano ser forçado a realizar um trabalho para que olhemos para sua situação com preocupação. Se uma pessoa é obrigada a algo, sem que ela assim o deseje, logo qualificamos isso como exploração ou escravidão. Não precisamos ver marcas de violência em seu corpo.

Então por que quando falamos de outros animais não nos preocupamos em analisar a situação da mesma forma? Não seria justo? Por que só reconhecemos a exploração animal quando envolve violência explícita, tortura ou outros terríveis exemplos de crueldade?

É cômodo demais analisarmos a realidade dessa forma. Afinal, normalmente toda exploração é vista com um olhar rasteiro, de quem não vê nada de errado caso um animal não traga em seu corpo as piores consequências da violência.

Um animal não precisa ser violentado para demonstrar que está sendo condicionado a algo que não é de sua vontade. Ele traz a expressão do seu descontentamento. Mesmo que não trouxesse, isso não significaria nada, já que o condicionamento bem aplicado traveste até a maldade de bondade.

Basta pensarmos em pessoas que são capazes de escravizar outras e ainda assim fazer com que os escravizados se sintam agraciados. A realidade dos animais não humanos não é diferente quando eles são considerados explorados bem tratados.

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Práticas violentas contra os animais só existem porque sempre há plateia e consumidores

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Em uma sociedade civilizada, não deveria haver espaço para tais práticas

Não é tão raro encontrar pessoas falando mal de toureiros. Sem dúvida, concordo que não há nada de bom a se falar a respeito, até porque ninguém deveria se “profissionalizar” em fazer mal a um animal e chamar isso de arte.

Porém, a tauromaquia, assim como qualquer atividade considerada tradicional, e que cause mal a outros seres vivos sencientes, só existe porque há plateia e consumidores. Enfim, pessoas que não racionalizam a própria maldade, ou que não são capazes de externalizá-la, pagam para que os outros façam o que elas não conseguem. Assim, tornando-se voyeurs de anseios desasseados e perigosos.

Qualquer atividade que impinge dor a um animal, seja chamada de “espetáculo” ou “esporte”, não passa de truculência, de uma expressão equivocada da ignorância e da insensibilidade humana. Se alguém convida uma pessoa para participar de algo e essa pessoa recusa, como você chamaria o ato de obrigá-la a fazer parte de algo que não é de sua vontade?

Não tenho dúvida de que alguém testemunhando tal ato, se motivado por um princípio probo de justiça, há de intervir ou se manifestar de alguma forma, porque isso também é inerente à natureza humana. E por que quando se trata dos animais não humanos continuamos a legitimar e encarar a violência até mesmo com sorrisos? Porque pessoas gargalham ao ver um animal sendo ferido?

Você rir de um touro ferido na arena, de um boi caído durante a vaquejada, de um bezerro laçado e arremessado ao chão, de um animal golpeado na farra do boi, não é diferente de rir de um gato ou um cão espancado na rua e diante dos seus olhos. Violência é violência, não importando se concordamos ou não com isso. Afinal, a vítima traz consigo a expressão da própria realidade, da consequência de nossos atos, independente se você está imerso em ilusão, negação ou dissimulação.

Não deveríamos repensar nossas relações com os animais? Não seria isso no mínimo bizarro e incoerente de nossa parte? Afinal, animais não humanos também sentem dor, agonizam, sofrem à sua maneira. Somos tão ardilosos em alguns aspectos da vida em sociedade que usamos eufemismos capciosos tentando mimetizar o impacto de nossas ações, tentando maquiá-las com algo inexistente e deletério.

Estamos tão imersos em nossos mundos particulares, em satisfazer nossos anseios obsoletos e desnecessários, travestidos de necessidades, que muitas vezes neutralizamos qualquer possibilidade natural de ver algo como ilegítimo, cruel e impraticável.

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Sobre ser visto como um inimigo por ser contra a exploração animal

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Você, de repente, é visto como um inimigo, e simplesmente porque não concorda com a morte desnecessária dos animais

Sou um cara pacífico, quem me conhece sabe disso. Tenho uma aparência que muitas vezes é interpretada pelas pessoas de forma totalmente equivocada, claro, porque até hoje as pessoas insistem em relacionar músculos e força com violência. Porém, a minha vida toda jamais bati em alguém. Sou avesso à violência, sempre fui.

Então pra mim é uma coisa surreal quando o fato de alguém defender os direitos dos animais à vida desperta algum tipo de cólera em outras pessoas. Há quem fique violento quando alguém manifesta abertamente a sua reprovação em relação à morte de seres vivos sencientes. É como se isso fosse algo execrável.

Você, de repente, é visto como um inimigo, e simplesmente porque não concorda com a morte desnecessária dos animais, e luta para que mais pessoas tenham essa consciência. Vivemos em um mundo estranho, onde a violência é tão naturalizada e romantizada que até intenções que visam reduzir a violência contra criaturas que não podem se defender são vistas com deboche, ódio e desprezo.

Quando me deparo com pessoas achando graça ou fazendo troça de certos discursos no contexto do veganismo, por exemplo, aqueles que criticam o consumo de peixes, “frutos do mar”, laticínios e ovos, logo penso que esses sujeitos estão tão imersos nesse universo de legitimação da exploração e da violência que qualquer sugestão de caminho em direção a uma relação mais pacífica e harmoniosa entre animais humanos e não humanos é encarada como ridícula.

Há momentos e situações em que sinto tristeza e frustração como qualquer ser humano. Mas uma coisa que não faço é usar isso como pretexto para agredir as pessoas. Essas emoções e sentimentos eu levo para a academia. Afinal, halteres e barras não são seres vivos, e não vão se incomodar em me ajudar a direcionar essa negatividade para algo mais útil.

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Written by David Arioch

August 29th, 2017 at 1:39 am

A violência na indústria de peles de animais

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Se a sua pele é importante para você porque a de um animal não seria para ele?

Não há como negar que a indústria de peles de animais é violenta, isto porque muitos animais que são reduzidos a artigos de vestuário levam uma vida de privação, sofrimento e morte. Algumas espécies são mortas no ato da captura. Outras são mantidas em cativeiro, e até mesmo sem comida e água até o momento em que são mortas. Dificilmente algum animal tem sua pele extraída de forma não violenta. Além disso, se a sua pele é importante para você, por que a de um animal não seria para ele?

No Brasil, há leis que proíbem atos de crueldade contra os animais, porém na prática como elas funcionariam se não há fiscais para realizar esse trabalho? Também é preciso entender que a maior parte dos animais são mortos nesse processo, independente se o tipo de morte é classificada como cruel ou não. Se você acha que lã ou seda são matérias-primas que não envolvem sofrimento, sugiro que se aprofunde nessa questão. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, ovelhas, carneiros e cordeiros geralmente têm suas caudas cortadas e as orelhas perfuradas sem anestesia.

De acordo com o Projeto Esperança Animal (PEA), os machos explorados pela indústria de peles são castrados com duas a oito semanas de vida. Também são obrigados a usar anéis que impedem que o sangue chegue aos testículos, o que é naturalmente muito doloroso. E como os trabalhadores da indústria de extração de pele são mal remunerados e ganham por volume, muitas vezes eles fazem esse trabalho com tanta pressa que acabam por ferir gravemente os animais. Há inclusive casos de desfiguração facial em decorrência da violência nesse processo. O que podemos fazer para evitar isso? Não comprar produtos baseados em peles de animais, porque assim desestimulamos esse mercado.

 

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A prática de reduzir um animal a alimento abriu um precedente para a violência hedionda

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Foto de um festival em que porcos são mortos diante da plateia no Vietnã

O suíno é apenas uma das espécies animais subjugadas pela ignorância e pela crueldade humana. Se os animais não fossem vistos como comida ou objetos, evitaríamos cenas de violência extrema que ocorrem neste momento em todo o mundo, onde porcos são mortos como se não fossem nada. A prática de reduzir um animal a alimento abriu um precedente para a violência hedionda contra seres não humanos.





Written by David Arioch

August 10th, 2017 at 9:12 pm

O rodeio foi importado, logo não é patrimônio brasileiro

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Foto que mostra em detalhes como o animal sofre durante o rodeio

Para quem realmente considera o rodeio um patrimônio cultural nacional, uma resposta do Luiz Henrique Mazza à Agencia de Notícias de Direitos Animais (Anda). Ele é um premiado ex-peão que cresceu participando de rodeios e hoje defende os direitos animais.

“Eu que fui criado no meio rural, sou violeiro, estudei a fundo as raízes da cultura caipira brasileira, acho essa lei [do rodeio ser considerado um patrimônio cultural imaterial do Brasil] UMA PIADA. De todas as modalidades praticadas oficialmente no rodeio brasileiro, somente a montaria em CUTIANO é nacional, o resto é tudo importado, TUDO. Os trajes, os termos, os equipamentos, tudo importado dos EUA. Existem fragmentos culturais sim, claro, como comidas típicas, a viola propriamente dita, literatura, etc. Mas o rodeio, não. Esses fragmentos imateriais não dependem do rodeio e sequer são promovidos por ele.”

Além do fato do rodeio ser uma evidente prática de violência e crueldade contra animais, qualquer um é capaz de perceber que o rodeio não é patrimônio brasileiro. Afinal, desde quando o verdadeiro sertanejo brasileiro, aquele sujeito criado na roça, se veste como “cowboy americano”? Olhe para a história do verdadeiro sertanejo brasileiro e verá que ele não tem nada a ver com o peão de rodeio.

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Written by David Arioch

August 10th, 2017 at 9:00 pm

Sobre psicopatas que violentavam e matavam animais

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Jeffrey Dahmer, que na infância já torturava e matava animais

Psicopatas que violentavam e matavam animais, não foram repreendidos e decidiram torturar e matar seres humanos: David Berkowitz (The Son of Sam), Brenda Ann Spencer, Jeffrey Dahmer, Albert Desalvo, Ted Bundy, Edmund Kemper, Andrew Cunanan, Lee Boyd Malvo, Dennis Rader (BTK), Ivan Milat, Carroll Edward Cole e Os Maníacos de Dnepropetrovsk.

Será que se há muito tempo os direitos animais tivessem sido verdadeiramente considerados e respeitados eles teriam matado tantas pessoas? Muitas vezes, quando somos negligentes em relação ao sofrimento animal, estamos também abrindo precedentes para que pessoas como nós também sejam violentadas e mortas.





Written by David Arioch

June 28th, 2017 at 8:52 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque, assim como o outro, também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 8:40 pm