David Arioch – Jornalismo Cultural

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A violência na indústria de peles de animais

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Se a sua pele é importante para você porque a de um animal não seria para ele?

Não há como negar que a indústria de peles de animais é violenta, isto porque muitos animais que são reduzidos a artigos de vestuário levam uma vida de privação, sofrimento e morte. Algumas espécies são mortas no ato da captura. Outras são mantidas em cativeiro, e até mesmo sem comida e água até o momento em que são mortas. Dificilmente algum animal tem sua pele extraída de forma não violenta. Além disso, se a sua pele é importante para você, por que a de um animal não seria para ele?

No Brasil, há leis que proíbem atos de crueldade contra os animais, porém na prática como elas funcionariam se não há fiscais para realizar esse trabalho? Também é preciso entender que a maior parte dos animais são mortos nesse processo, independente se o tipo de morte é classificada como cruel ou não. Se você acha que lã ou seda são matérias-primas que não envolvem sofrimento, sugiro que se aprofunde nessa questão. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, ovelhas, carneiros e cordeiros geralmente têm suas caudas cortadas e as orelhas perfuradas sem anestesia.

De acordo com o Projeto Esperança Animal (PEA), os machos explorados pela indústria de peles são castrados com duas a oito semanas de vida. Também são obrigados a usar anéis que impedem que o sangue chegue aos testículos, o que é naturalmente muito doloroso. E como os trabalhadores da indústria de extração de pele são mal remunerados e ganham por volume, muitas vezes eles fazem esse trabalho com tanta pressa que acabam por ferir gravemente os animais. Há inclusive casos de desfiguração facial em decorrência da violência nesse processo. O que podemos fazer para evitar isso? Não comprar produtos baseados em peles de animais, porque assim desestimulamos esse mercado.

 

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A prática de reduzir um animal a alimento abriu um precedente para a violência hedionda

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Foto de um festival em que porcos são mortos diante da plateia no Vietnã

O suíno é apenas uma das espécies animais subjugadas pela ignorância e pela crueldade humana. Se os animais não fossem vistos como comida ou objetos, evitaríamos cenas de violência extrema que ocorrem neste momento em todo o mundo, onde porcos são mortos como se não fossem nada. A prática de reduzir um animal a alimento abriu um precedente para a violência hedionda contra seres não humanos.





Written by David Arioch

August 10, 2017 at 9:12 pm

O rodeio foi importado, logo não é patrimônio brasileiro

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Foto que mostra em detalhes como o animal sofre durante o rodeio

Para quem realmente considera o rodeio um patrimônio cultural nacional, uma resposta do Luiz Henrique Mazza à Agencia de Notícias de Direitos Animais (Anda). Ele é um premiado ex-peão que cresceu participando de rodeios e hoje defende os direitos animais.

“Eu que fui criado no meio rural, sou violeiro, estudei a fundo as raízes da cultura caipira brasileira, acho essa lei [do rodeio ser considerado um patrimônio cultural imaterial do Brasil] UMA PIADA. De todas as modalidades praticadas oficialmente no rodeio brasileiro, somente a montaria em CUTIANO é nacional, o resto é tudo importado, TUDO. Os trajes, os termos, os equipamentos, tudo importado dos EUA. Existem fragmentos culturais sim, claro, como comidas típicas, a viola propriamente dita, literatura, etc. Mas o rodeio, não. Esses fragmentos imateriais não dependem do rodeio e sequer são promovidos por ele.”

Além do fato do rodeio ser uma evidente prática de violência e crueldade contra animais, qualquer um é capaz de perceber que o rodeio não é patrimônio brasileiro. Afinal, desde quando o verdadeiro sertanejo brasileiro, aquele sujeito criado na roça, se veste como “cowboy americano”? Olhe para a história do verdadeiro sertanejo brasileiro e verá que ele não tem nada a ver com o peão de rodeio.

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Written by David Arioch

August 10, 2017 at 9:00 pm

Sobre psicopatas que violentavam e matavam animais

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Jeffrey Dahmer, que na infância já torturava e matava animais

Psicopatas que violentavam e matavam animais, nunca foram punidos e decidiram torturar e matar seres humanos: David Berkowitz (The Son of Sam), Brenda Ann Spencer, Jeffrey Dahmer, Albert Desalvo, Ted Bundy, Edmund Kemper, Andrew Cunanan, Lee Boyd Malvo, Dennis Rader (BTK), Ivan Milat, Carroll Edward Cole e Os Maníacos de Dnepropetrovsk.

Será que se há muito tempo os direitos animais tivessem sido verdadeiramente considerados e respeitados esses assassinos teriam matado tantas pessoas? Muitas vezes, quando somos negligentes em relação ao sofrimento animal, estamos também abrindo precedentes para que pessoas como nós também sejam violentadas e mortas.





Written by David Arioch

June 28, 2017 at 8:52 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque, assim como o outro, também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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Written by David Arioch

June 18, 2017 at 8:40 pm

Sobre “justiça com as próprias mãos”

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Tatuagem feita como forma de “punição” (Foto: Reprodução)

Sobre o garoto de 17 anos que, após uma tentativa de furto de uma bicicleta, teve a testa tatuada com as palavras “Eu sou ladrão e vacilão”. Sim, sou contra o que fizeram com ele. Acredito que o mundo está se tornando um semeadouro de impaciência, e todos os dias as pessoas perdem um pouco mais de sensibilidade e plasticidade. A cada ano que passa a vida vale um pouco menos. Muitos se consideram aptos a decidir quem merece viver e quem merece morrer.

Mas o problema maior subsiste no fato de que com o crescimento dessa linha de pensamento é inevitável pensar na possibilidade de que o mundo pode se tornar um lugar muito pior. Vejo isso como um retorno ao primitivismo. Já não é mais velado o desejo do retorno da Lei de Talião, do Código de Hamurabi.

A violência insufla as pessoas de um tipo peculiar de medo que faz com que elas matem ou desejem a morte de outrem não porque acham que é a única forma de sobreviver, mas sim porque são alimentadas diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis.

Há muitas pessoas que não apenas consideram a violência como algo intrínseco à realidade, como acham justo tomar parte nela. É aquela consciência de que se as leis não funcionam corretamente, posso criar as minhas próprias. Ou seja, serei o senhor de meus atos e ninguém terá o direito de me deter, já que rejeito e condeno os mecanismos de justiça da atualidade.

Outro agravante é o fato de que se todos alimentarem um senso de justiça individualista, não há de tardar para as pessoas menosprezarem um pouco mais a vida. Sendo assim, um indivíduo pode achar justo matar alguém porque invadiu sua casa.

Outro pode considerar plausível assassinar uma pessoa porque lhe deve dinheiro ou porque arranhou a pintura do seu carro em um acidente. O justo seria um criminoso aos olhos do injusto e vice-versa. Sendo assim, se seguíssemos nessa direção, não seria tão obtuso acreditar no futuro como o prólogo do fim da humanidade.

Até hoje me recordo do caso de um pai que, por engano, matou o próprio filho a tiros em Joanesburgo, na África do Sul. Em uma madrugada, o garoto foi confundido com um ladrão quando estava atravessando o quintal para entrar dentro de casa.

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Written by David Arioch

June 11, 2017 at 11:13 pm

C. David Coats e a ilusão dos animais felizes por “darem” carne, leite e ovos à humanidade

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Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm” é um livro bastante atual sobre a realidade da exploração animal

A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro

Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm”, do defensor dos direitos animais C. David Coats traz uma capa bonitinha, bem colorida. Quem o julga a partir da imagem principal se engana ao pensar que se trata de mais uma obra que romantiza a exploração animal. Muito pelo contrário. A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro que propõe um debate bem atual; que dialoga com a realidade no que diz respeito à dura vida dos animais criados, principalmente nos moldes industriais, para serem reduzidos à comida e outros produtos.

No prefácio da obra, já são levantadas pertinentes reflexões que destacam como o ser humano consegue ser contraditório e destrutivo:

O ser humano não é um animal maravilhoso? Ele mata animais selvagens – pássaros, todos os tipos de felinos, coiotes, castores, marmotas, camundongos, raposas e dingos – aos milhões com a intenção de proteger os animais de criação e seus alimentos.”
Então ele mata os animais de criação aos bilhões e os come. Este hábito, por sua vez, mata milhões de seres humanos; porque comer todos esses animais leva a condições degenerativas de saúde que são fatais, como doenças cardíacas, doenças renais e câncer. Na sequência, o ser humano tortura e mata milhões de animais para encontrar a cura para essas doenças.

Em outros lugares, milhões de seres humanos estão morrendo em decorrência da fome e da desnutrição; isto porque os alimentos que eles poderiam comer estão sendo usados na engorda de animais de criação. Enquanto isso, algumas pessoas estão tristemente morrendo de rir desse absurdo da humanidade, que mata tão facilmente e violentamente, e uma vez por ano envia cartões orando pela paz na Terra.

Em “Old MacDonald’s Factory Farm”, C. David Coats aponta que nos anos 1980 já era difícil encontrar animais brincando nas fazendas, simplesmente porque as técnicas de produção em massa e os programas de eficiência no agronegócio já se voltavam para os volumes excessivos de produção com custos cada vez menores. Ou seja, a banalização da vida acentuou-se e os animais passaram a amargar ainda mais privação e sofrimento com o surgimento das chamadas fazendas industriais.

Afastados da vida natural, os animais reduzidos a produtos não passam de matéria-prima. Em crítica a essa normalização da crueldade, Coats narra o que há de mais sombrio na natureza humana na sua relação com as outras espécies, quando motivado pela ambição e ganância. Ele cita como exemplo a realidade de animais confinados em espaços onde a movimentação é quase impossível. Também discorre sobre suas pesquisas na indústria da suinocultura, onde testemunhou animais vivendo acorrentados.

O escritor informa que a maioria dos animais explorados pela indústria não vivem mais do que 1/3 do que viveriam se não fossem explorados e mortos. Porcos em caixas, gado com o chifre arrancado sem anestesia, vacas leiteiras mortas e reduzidas à carne de hambúrguer quando já não atingem a meta na produção de leite; bezerros mantidos anêmicos no escuro até serem abatidos para que as pessoas possam comer bifes de vitela; aves com bicos cortados com lâmina quente e confinadas a vida toda; tudo isso endossa um cenário macabro que faz parte da realidade cotidiana da maioria dos animais de criação.

No livro, o cenário da produção de alimentos de origem animal é descrito com uma crueza fiel à realidade, se distanciando visceralmente da propaganda que faz os animais parecerem felizes em morrer para saciar supostas necessidades humanas. É um retrato de uma realidade que só pode ser compreendida dessa forma se o leitor analisá-la de forma sensível. Na perspectiva de “Old MacDonald’s Factory Farm”, é preciso se colocar no lugar do animal ou pelo menos reconhecer que não são apenas os seres humanos e os outros animais com quem convivemos no cotidiano que têm direito à vida.

Fazendas onde os animais se divertem “doando” leite, ovos e carne? Não no mundo real, deixa claro C. David Coats que também aborda temas como impacto ambiental, engenharia genética e consequências dos produtos de origem animal para a saúde humana. Ele discute ainda a expansão da agropecuária e a absurda quantidade de área destinada à produção de alimentos usados na nutrição animal. Outro ponto de destaque do livro é o debate sobre a aplicação excessiva de antibióticos nos animais de criação, o que já era visto nos anos 1980 como um perigo para a saúde humana.

Além disso, Coats não se limita a criticar a exploração animal. Como o livro é resultado de anos de pesquisa, ele também apresenta ações e ideias de projetos de transição da agropecuária para produções sustentáveis e que não gerem privação e sofrimento animal – como a de alimentos orgânicos, entre outras sugestões que poderiam ser colocadas em prática para substituir produtos de origem animal.

Mesmo lançado em 1989, o livro discorre sobre problemas que ainda compõem a nossa realidade. Em uma rápida pesquisa em outras fontes, encontramos provas de que ainda hoje os animais estão longe de ter uma vida justa. Tal conclusão, até mesmo excetuando a questão de tortura ou outros tipos de violência, parte do princípio de que são seres sem direito à vida, já que existem simplesmente para atender nossas pretensas necessidades e morrer, cumprindo um papel que é vantajoso ao ser humano, mas nocivo às espécies que têm sua expectativa de vida extremamente reduzida.

Tantos anos após o lançamento do livro de C. David Coats, vimos poucas mudanças positivas em relação a isso, até porque a demanda por produtos de origem animal, acompanhando o crescimento populacional, aumentou muito desde o final da década de 1980.

Segundo Osler Desouzart, membro da diretoria consultiva do World Agricultural Forum e diretor da OD Consulting, em 1980 o consumo de carnes per capita era de 30,6 quilos ao ano, e em 2013 chegou a 43,1 quilos. Em um mundo onde a demanda é muito grande, naturalmente abre-se bastante espaço para a omissão no que diz respeito à violência contra animais de criação, já que há uma naturalização e legitimação da violência em prol de um pretenso bem maior – a produção de carne, leite, ovos e outros produtos que custem a privação e a vida de seres não humanos.

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O vídeo do cãozinho em chamas e O Xogum dos Cachorros

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O Xogum dos Cachorros não permitia abusos contra animais

Postaram no Facebook um vídeo de um jovem prendendo um cãozinho dentro de um caixote e ateando fogo. Ele ficou assistindo e rindo enquanto o animalzinho queimava. Depois levantou o caixote e, não somente ele, mas outros que assistiram tudo, também ficaram rindo. Sou contra a violência, mas quando vejo algo assim me lembro da história de Tokugawa Tsunayoshi, o Xogum dos Cachorros, que durante a Era Genroku punia a violência contra animais na mesma proporção em que eram praticadas.





Written by David Arioch

May 8, 2017 at 12:14 am

O chamado “abate humanitário” não é um retrato tão comum da realidade brasileira

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A privação termina somente com a morte após uma curta vida de exploração

Imagem registrada pelo fotógrafo Piero Locatelli, da ONG Repórter Brasil

Em um país onde a quantidade de matadouros clandestinos pode chegar a 50% do total, é uma grande ilusão acreditar que a maior parte da produção de carne é resultado de práticas que se enquadram no chamado “abate humanitário”. Mesmo que se fale na crescente implementação dessa prática, é inegável que não são raros os casos de privação e sofrimento envolvendo animais criados com fins de abate.

A existência de muitos matadouros clandestinos e a omissão em relação à fiscalização são grandes facilitadores de terríveis abusos contra os animais. Além disso, o YouTube, a mídia alternativa e as redes sociais estão aí para apresentar provas de que o “abate humanitário” não é um retrato comum da realidade brasileira.

No Brasil, a Operação Carne Fraca, que em março denunciou que as gigantes JBS (Friboi, Seara e Big Frango) e BRF (Sadia e Perdigão) estavam mascarando carne vencida usando produtos químicos, levantou, mesmo que modestamente, uma discussão sobre o “abate humanitário”, prática ainda muito questionável pelo seu caráter subjetivo que não garante que o animal seja “bem tratado” antes de ser morto.

Há quem diga que essas “falhas” envolvendo o abate de animais ainda acontecem por causa da defasagem na Instrução Normativa Nº 03 de 2000, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que versa sobre o regulamento técnico de métodos de insensibilização para o “abate humanitário”. No artigo “Abate dito ‘humanitário’ e o que diz a legislação brasileira”, publicado pelo site Abolicionismo Animal, os autores Ana Karine Gurgel D’Ávila e Wesley Lyeverton Correia Ribeiro apontam que não há diferenciação nos limites máximos de tempo entre o atordoamento e a sangria para as várias espécies destinadas ao consumo humano.

Outra prova de displicência, e que corrobora que o “abate humanitário” não é uma realidade comum no Brasil, foi apresentada no ano passado pela ONG Repórter Brasil. Por meio de reportagens e vídeos, eles denunciaram que trabalhadores e animais são maltratados na indústria da carne com chutes, socos e pauladas.

Mostraram que as fazendas fornecedoras da JBS, que se define como a maior indústria de proteína do mundo, contradizem o marketing da empresa, não seguindo as recomendações do Ministério da Agricultura. Ou seja, se essa é a realidade que envolve os grandes produtores de carne, que operam de forma regularizada, o que acontece em matadouros clandestinos, conhecidos por métodos mais violentos de abate?

De acordo com José Rodolfo Ciocca, gerente de Campanhas HSA (Humane and Sustainable Agriculture) da World Animal Protection, no Brasil, frigoríficos que não atendem as normas de “abate humanitário” recebem um relatório de não-conformidade, e caso o problema persista, podem ser multados. Ou seja, animais podem morrer de forma violenta, e nem por isso alguém precisa pagar alguma multa caso não haja reincidência.

A situação não melhora quando o assunto são os matadouros municipais e estaduais, porque apenas matadouros privados precisam seguir um programa de autocontrole. Além disso, qualquer punição depende de um inspetor que, em 80% dos casos, nunca está presente, segundo Ciocca. E se houver interferência política quando um frigorífico for fechado, seja por operar irregularmente ou por torturar e ferir animais antes do abate, ele não recebe nenhum tipo de punição e ainda pode retomar as atividades, mesmo que o abate seja praticado a marretadas.

Em 2008, o artigo “A clandestinidade na produção de carne bovina no Brasil”, de autoria dos pesquisadores João Felippe Cury e Marinho Mathias, publicado pela Embrapa, informou que “várias estimativas de especialistas do setor apontam uma clandestinidade [de matadouros] que varia de 30% a 50%, sendo mais comum os dados próximos a 50%”.

Em 2013, a BeefPoint publicou um artigo mostrando que a situação ainda era a mesma. E no ano passado, esses números foram corroborados por outras denúncias. Em 12 de dezembro de 2016, a Folha Web publicou uma reportagem em que técnicos da Agência de Defesa Agropecuária do Estado de Roraima (Aderr) declararam que 100% das carnes de porco de Roraima são provenientes de matadouros clandestinos.

Em 23 de dezembro de 2016, o Canal Rural informou que somente em São Paulo há pelo menos quatro mil avícolas clandestinas, baseando-se em dados coletados pela Universidade de São Paulo (USP). E onde há clandestinidade, há falta de higiene e muita violência, já que para baratear os custos de produção os métodos de execução costumam ser os mais cruéis. Outro ponto a se considerar é que com “abate humanitário” ou não, a privação termina somente com a morte após uma curta vida de exploração.

Referências

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/carne-fraca-perguntas-e-respostas-sobre-a-operacao-da-pf-nos-frigorificos.ghtml

http://www.abolicionismoanimal.org.br/artigos/abateditohumanitrioeoquedizalegisla_obrasileira.pdf

http://colunas.revistaepoca.globo.com/planeta/2013/05/03/e-possivel-abater-um-animal-de-forma-humanizada/

https://seer.sede.embrapa.br/index.php/RPA/article/viewFile/424/375

http://www.canalrural.com.br/videos/jornal-da-pecuaria/aves-abatedouros-clandestinos-ameacam-saude-77047

http://www.folhabv.com.br/noticia/100–das-carnes-de-porco-vem-de-abatedouros-clandestinos–/23315

Alex Bastos: qual a verdadeira porcentagem de clandestinidade no comércio de carne bovina? (Leitor Comenta)

Vida de gado

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Sobre ofensas no trânsito

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Dias atrás, descendo pela Heitor de Alencar Furtado, um caminhão invadiu a pista em que eu trafegava (Foto: Helder Shiroshima)

Dias atrás, descendo pela Heitor de Alencar Furtado, um caminhão invadiu a pista em que eu trafegava. Quando estava a poucos centímetros de bater no meu carro, comecei a buzinar e o motorista recuou. Então segui meu caminho.

Um quilômetro depois, o mesmo caminhão encostou do meu lado. O motorista abaixou o vidro e começou a falar: “Ô seu palhaço, você é um palhaço, você mesmo, seu idiota! Por que ficou buzinando lá atrás? Babaca!”

Nem abaixei o vidro, só fiquei em silêncio e mantive meus olhos na avenida. Então refleti depois: “Qual é o sentido de xingar uma pessoa que você não conhece? De ir atrás dela e abordá-la apenas com a finalidade de intimidá-la ou ofendê-la?”

Há pessoas que sentem raiva e ódio com muita facilidade. Seria interessante se elas pudessem conhecer a vida das pessoas que xingam ou ameaçam no trânsito. Acredito que pelo menos uma parcela se arrependeria desse ato impensado.

Também me questiono se pessoas que fazem isso são capazes de ter a mesma atitude enquanto andam. Por exemplo, um cara esbarra em mim e começo a tentar intimidá-lo, xingá-lo. A probabilidade disso acontecer é sempre maior quando nos sentimos ilusoriamente seguros e intocáveis atrás de um volante.

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Written by David Arioch

April 12, 2017 at 12:09 am