David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Yankee’ tag

Um retrato da solidão de Travis Bickle

without comments

Quando o homem não se sente parte de lugar algum

Travis Bickle sofre uma metamorfose no decorrer do filme (Foto: Reprodução)

Travis Bickle sofre uma metamorfose em Taxi Driver (Foto: Reprodução)

Lançado em 1976 pelo cineasta estadunidense Martin Scorsese, o filme Taxi Driver, de estética noir, é um retrato da solidão de um taxista inapto a conviver com problemas sociais que se tornaram triviais nos grandes centros urbanos.

A história gira em torno de Travis Bickle (Ro­bert de Niro), um taxista misantropo que em fun­ção da insônia troca o dia pela noite. O protagonista seria apenas mais uma pessoa traba­lhando na madrugada metropolitana, se não fosse pelo fato de começar a rejeitar o papel de sujeito passivo em um mundo que o ignora e o repele.

Personagem é uma consequência do mundo moderno (Foto: Reprodução)

Personagem é uma consequência do mundo moderno (Foto: Reprodução)

Nas primeiras noites de trabalho, Travis assis­te, sob o auxílio dos faróis do táxi, que iluminam e saturam a obscura e underground realidade pe­riférica yankee, o cotidiano de cafetões, prostitutas, traficantes e usuários de drogas; sujei­tos sociais que o personagem deprecia amarga­mente, chegando a desejá-los mortos. A ojeriza cresce, assumindo um formato pertur­bador, quando o protagonista conhece Iris (Jodie Foster), uma garota de 12 anos que se submete ao cafetão Sport (Harvey Keitel).

O contraponto no contexto é Betsy (Cybill Shepherd), funcionária de um candidato ao sena­do, a quem o taxista atende ocasionalmente, des­pertando em Travis um sôfrego e inédito interesse pela essência humana. A personagem feminina encontra a complacência da solidão na excêntrica e complexa personalidade do taxista. Os dois são ostracistas, mas enquanto Travis está em estado avançado de deterioração psicológica e incoerência social, Betsy arquiteta para si um mundo que, mesmo fosco, ainda é digno de ma­leabilidade.

Travis é uma consequência do mundo moder­no, alguém que empurrado para a individualidade sucumbiu antes mesmo de morrer. Mas no decor­rer da história sente-se ressuscitado ao descobrir, mesmo tardiamente, que existe diferença entre assistir a vida como um medíocre espectador e realmente vivê-la.

Bickle carrega na alma as falhas da incomunicabilidade (Foto: Reprodução)

Bickle carrega na alma as falhas da incomunicabilidade (Foto: Reprodução)

O personagem, bastante fragilizado carrega na alma as falhas da incomunicabilidade. Exemplo é a cena em que convida Betsy para ir ao cinema. Quando os dois chegam ao local, ela o abandona ao se deparar com um filme pornô. Alheio à socialização, Travis aparece em muitos momentos monologando em frente ao espelho, hábito cada vez mais moderno, individualista e antagônico à realidade de viver em um mundo cada vez mais populoso.

Do início ao fim do filme, sob um prisma estético, o cenário urbano transmite a contumá­cia do realismo e sofre uma profunda abstenção de cores. Também é chocante o aspecto físico do per­sonagem que pela gradativa implosão de emoções – reflexo de anseios, privações e frustrações, parece sofrer de uma particular metamorfose kafkiana.

A moralidade de Travis Bickle é um elemento intrigante e confuso. Ao mesmo tempo que o protagonista age de forma cesarista e discricionária, ele se sente atraído pelos personagens do submundo. Ainda assim, é imperativo o desejo onírico de limpar a área e restabelecer a ordem. Cabe ao espectador interpretar a intenção dessa motivação.

Inferno sobre rodas na “América” pós-Guerra da Secessão

without comments

Série é protagonizada por Anson Mount no papel de Cullen Bohannon (Foto: Divulgação)

Série Hell On Wheels instiga discussão sobre a História dos EUA

Estou acompanhando a série estadunidense Hell On Wheels, da Endemol USA, exibida pela AMC, que se passa nos Estados Unidos de 1865 com um enredo muito interessante. Tem como foco a construção da primeira ferrovia transcontinental do país pela Union Pacific Railroad. Em meio à revolução industrial, são levantadas inúmeras controvérsias sobre a xenofobia e a segregação racial na “América Pós-Confederada” ou Pós-Guerra da Secessão, como preferirem.

Na série, o telespectador se depara com uma nação até então marcada pela defesa dos latifúndios, escravidão e benesses aristocráticas. A obra mostra também pontos conflitantes, como yankees agindo como dixies e vice-versa, dando uma ideia de que as diferenças entre os “estadunidenses civilizados” do Norte e do Sul na época não eram tão aberrantes quanto registra a História Oficial daquele país. Funcionários de companhias, camponeses, ex-escravos, ex-soldados, prostitutas, mercenários e aventureiros sintetizam a pequena, mas heterogênea aldeia social de Hell On Wheels, uma pequena colônia situada em território nativo.

Trama explora a segregação racial imposta pelos brancos (Foto: Divulgação)

Pra mim, das cenas mais emblemáticas da série até o momento, destaco a disputa entre um índio cheyenne e um trem. A derrota do nativo que disputa a corrida com a máquina sobre um cavalo é simbólica e marca o surgimento de um novo tempo que trouxe a modernidade ao preço do genocídio indígena.Outra cena interessante é o momento em que o personagem Elam Ferguson, interpretado pelo rapper Common, um ex-escravo negro, é preparado para ser enforcado por um grupo liderado pelo irlandês O’Toole. Instantes antes do início da execução, o homem revela à vítima: “Nós irlandeses somos os crioulos do Reino da Grã-Bretanha”, o que deixa subentendido que a questão racial em âmbito social já amargava uma intransigência quase hierárquica.

Em um dos episódios da primeira temporada, há um momento elementar em que o presidente da Union Pacific, Thomas Durant, e um senador afirmam que as terras que os índios habitam pertencem ao Governo dos EUA. O chefe cheyenne retruca: “Eles compraram? Trocaram por algo? Não? Então não pertence a eles”. É uma série muito boa em que o maniqueísmo confronta seu antagonismo e desnuda a natureza humana, suas qualidades, dúvidas e falhas, independente de etnia, raça e credo. Hell On Wheels, como o próprio nome diz é o Inferno, mas também tem momentos de Céu e Purgatório.

Uma das cenas mais marcantes que me recordo é do sétimo episódio da primeira temporada. É um diálogo entre o protagonista, ex-soldado confederado Cullen Bohannon, interpretado por Anson Mount, e Ferguson. Bohannon explica que quando os nortistas invadiram sua propriedade, deixando-a em chamas, ele foi procurar o filho no celeiro. O encontrou sobre o palheiro todo encolhido, abraçando os joelhos contra o peito, e com o corpo todo queimado envolvido por Bethel, a escrava negra que criou Bohannon. Estava tentando proteger o garotinho das chamas. Infelizmente, era tarde demais, e os dois corpos pareciam fundidos, como se fossem um. Foi quando o ex-soldado concluiu que na finitude todos são iguais.