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Ni e Jabulana, os guardiões do Cemitério Municipal de Paranavaí

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Casal de cães de pequeno porte já evitou furtos e afastou usuários de drogas

Ni e Jabulana, duas vidas dedicadas ao Cemitério de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Ni e Jabulana, duas vidas dedicadas ao Cemitério de Paranavaí (Foto: David Arioch)

São 8h e dois cães pequenos e mestiços prestam atenção em tudo que ocorre nas imediações do portão do Cemitério Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Quando entro no local, continuam sentados, mas acompanham meus passos com os olhos.

Assim que começo a conversar com a autônoma Maria Lurdes da Silva, um cão de pelagem escura chamado Ni reconhece que não sou uma ameaça, coça a orelha, se levanta e decide patrulhar a calçada à direita do cemitério. Jabulana, uma cadelinha de pelo claro, abana o rabo enquanto segue o caminho inverso, descendo à esquerda.

Maria Lurdes conta que Ni se tornou o guardião do cemitério há mais de quatro anos, pouco antes de ganhar a companhia de Jabulana, encontrada ainda filhote depois de ser abandonada ao relento no cemitério. O nome faz referência à bola da Copa do Mundo de 2010. “Ela estava sozinha, assustada e gemendo”, diz a autônoma que a adotou.

A rotina dos cães começa bem cedo (Foto: David Arioch)

Cães patrulham o cemitério desde que eram filhotes (Foto: David Arioch)

Pouco tempo depois, Ni e Jabulana retornam e percorrem todo o cemitério. Sobem nos pontos mais altos para terem uma visão privilegiada da movimentação. Também circulam pelo cruzeiro e alas das gavetas. Só interrompem o percurso e sentam próximos a um túmulo quando encontram um grupo de pessoas.

Deixam a impressão de que estão checando se está tudo bem no local. Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães. A vantagem de serem pequenos e aparentemente dóceis é que muitas vezes passam despercebidos por quem entra no cemitério com má intenção.

Espertos, os animais já impediram ações de ladrões de lápides, principalmente furtos de placas de bronze. “Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima”, garante Maria Lurdes, acrescentando que Ni e Jabulana afastaram do cemitério muitos jovens que iam até o local para usarem narcóticos. Embora nunca tenham recebido treinamento, os cães identificam usuários de drogas de longe, mesmo quando não estão consumindo nada.

Donizete Azevedo: "Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também" (Foto: David Arioch

Donizete Azevedo: “Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também” (Foto: David Arioch)

A rotina de Li e Jabulana como guardiões do cemitério começa junto com o expediente dos funcionários. “Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também. Dependendo, chegamos 6h30, 7h. Daí levo eles em casa pra almoçar, retornamos e ficamos aqui até as 18h”, explica o mestre de obras Sebastião Donizete de Azevedo que constrói e reforma jazigos.

Ni também tem o hábito de proteger a caixa de ferramentas enquanto Azevedo trabalha. “Eles tomam conta de tudo no cemitério. Mexeu onde não deve, a confusão está armada”, garante Sebastião Donizete que é facilmente localizado pela dupla através do faro, independente da distância.

Os cães também montam guarda quando Maria Lurdes realiza algum serviço esporádico de lavagem de túmulos. “Eles ficam do lado observando. São nossos protetores. Ainda bem que nunca ninguém conseguiu machucar eles”, comenta a autônoma que mora em frente ao Cemitério Municipal de Paranavaí com o marido Donizete de Azevedo.

Maria Lurdes: "“Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima” (Foto: David Arioch)

Maria Lurdes: “Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima” (Foto: David Arioch)

É provável que a convivência e a proximidade com o local de trabalho do casal façam com que Ni e Jabulana vejam o cemitério como uma extensão da própria casa. “Praticamente foram criados aqui dentro, tanto que um dia tivemos de pular o muro para buscar o Ni. Era noite e ele não chegava. Encontramos o bichinho dormindo em cima de um jazigo. Se deixasse, esperaria a gente até no dia seguinte”, revela Maria Lurdes emocionada.

O episódio lembrou o dia em que o pai do cãozinho morreu e o enterraram no quintal. Desolado, Ni passou dias dormindo sobre o túmulo improvisado. “Pois é, mais vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro”, cita Azevedo sorrindo, se recordando do ditado popular e destacando que o animalzinho é o seu maior companheiro.

Em retribuição, Sebastião Donizete e Maria Lurdes levam os animais para passear quase todos os dias e só os alimentam com ração de alta qualidade. “Na realidade, nos preocupamos mais com a alimentação deles do que com a nossa”, garante o mestre de obras às gargalhadas.

Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães (Foto: David Arioch

Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães (Foto: David Arioch)

Ni e Jabulana convivem em harmonia com outros animais que moram no cemitério, inclusive os muitos gatos alimentados pelo administrador Amilcar Pereira dos Santos. Pela manhã, é fácil encontrar pratinhos com ração ao lado do escritório administrativo situado na entrada. O ambiente os atrai pela tranquilidade.

“Menina”, a gatinha que gostava de velórios

Há alguns anos, uma gatinha rajada chamada Menina se tornou muito popular nos velórios realizados na Capela Mortuária Municipal, ao lado do Cemitério Municipal de Paranavaí. Era raro o animal não comparecer a algum velório. Ficava quase sempre na mesma posição acompanhando a cerimônia.

“As pessoas se assustavam e diziam que ela parecia gente. Dava a impressão de que ela transmitia respeito. Mantinha a postura e não incomodava ninguém. Ficava só observando”, garante a autônoma Maria Lurdes da Silva, com quem Menina morava desde que era filhote.

Saiba Mais

Sebastião Donizete de Azevedo e Maria Lurdes da Silva foram surpreendidos muitas vezes ao saírem do banco e encontrarem Ni em posição de guarda os aguardando para irem embora. Episódio semelhante se repetiu também em lojas e mercados.

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